Histria de Portugal
de Alexandre Herculano
Desde o comeo da monarquia
at ao fim do reinado de Afonso III
TOMO I
ADVERTNCIA DA QUARTA EDIO
(1876)
Vindo pela primeira vez a luz pblica, o presente volume suscitou vivas 
polmicas
sobre a critica das fontes histricas aproveitadas como legtimas ou rejeitadas 
como
impuras no processo da narrao. No meio, porm, dessas discusses 
ardentes e no
raro apaixonadas, nunca se ps em dvida a existncia dos variados 
monumentos
indicados como abonadores das doutrinas do livro. Por este lado, nem ento 
nem agora
o autor receava ou receia a mnima agresso fundada, porque tinha e tem a 
conscincia
da lisura e lealdade com que escreveu. Do que no tem a certeza  de ter 
sempre
interpretado bem os textos obscuros dos monumentos e sabido deduzir deles 
as
verdadeiras ilaes. Se a verdade o iludisse nesta parte, os estudos de histria 
romana de
Mommsen depois dos de Niebuhr bastariam para o desiludir.  por isso que 
desejaria
facilitar o exame dos textos pelo rigor da exaco nos algarismos das citaes.
A nossa histria, mais ainda do que a de outras naes da Europa, para surgir 
da
sombra das lendas a luz clara da realidade carece de indagaes profundas e 
de
apreciaes sinceras e desinteressadas. Ser trabalho mais til, embora mais 
difcil, do
que certas generalizaes e filosofias da histria, hoje de moda, em que se 
generaliza o
errneo ou o incerto e se tiram concluses absolutas de factos que se reputam 
conformes
entre si, e que, provavelmente, mais de uma vez os estudos srios viro 
mostrar serem
diversos, quando no contrrios. A poesia onde no cabe; a poesia na cincia 
 absurda.
A imaginativa tem mais prprios objectos da sua fecundidade.
Publicando esta quarta edio do primeiro volume da Histria de Portugal,
desejaria o autor proceder previamente a um exame minucioso de centenares 
de citaes
de livros impressos, de manuscritos e de documentos em que a narrativa se 
estriba, e
rectificar quaisquer equivocaes ou erros de cpia na indicao dos lugares 
onde
existem tais manuscritos e documentos ou onde, nos impressos, se lem as 
passagens
citadas; erros e equivocaes esses que, de futuro, podem tornar enfadonha a
comparao dos textos. Para o fazer, porm, ser-lhe-ia necessrio frequentar
assiduamente arquivos e bibliotecas durante alguns meses, ao que 
invencivelmente
obsta o teor do seu viver actual.  por isso que as correces da presente 
edio se
limitam a pequenas mudanas na forma e estilo da narrativa, e na substituio, 
adio
ou supresso de vrias passagens que pareceram obscuras, inexactas ou 
incompletas..2
PREFCIO DA TERCEIRA EDIO
(1863)
A publicao da Histria de Portugal tinha chegado ao quarto volume, e as
matrias para o quinto, que completava o quadro da primeira poca da 
monarquia,
estavam em parte coligidas. A obra fizera rudo e suscitara a animadverso 
daqueles que
querem acomodar a histria as crendices do vulgo, as preocupaes nacionais, 
aos
interesses que nelas se estribam, e no corrigir e alumiar o presente peias 
lies da
histria. As repetidas e variadas agresses contra o livro e ainda mais contra o 
autor
denunciavam, em geral, a existncia e Os intuitos de uma parcialidade irritada, 
cujos
membros procediam de acordo e cujos interesses a nova publicao viera
acidentalmente ferir. Provocado injustamente, repeli essas agresses, 
porventura com
demasiada dureza, e, descobrindo nelas um pensamento antiliberal, fui mais 
longe. Ao
livro sem inteno poltica fiz seguir um que a tinha. Vendo no partido que 
engrossara a
ocultas, e que, antigo, se recompusera com elementos novos, um perigo para a
sociedade, trouxe  luz uma das mais negras pginas da sua genealogia, 
pgina que, se
no e o seu eterno remorso, h-de ser a sua eterna condenao perante Deus 
e os
homens. Os trs volumes da Histria do Estabelecimento da Inquisio 
provaram, sem
replica possvel, uma verdade importante para a soluo da luta que agita a 
Europa;
provaram que o fanatismo ardente e ainda a simples exagerao do sentimento 
religioso
so mais raros do que se cuida e que o vulgar  a hipocrisia, de todos os frutos 
da
perverso humana o que mais severamente foi condenado pelo divino fundador 
do
cristianismo. Nalgumas linhas que precediam aqueles volumes eu apontava a 
existncia,
Quando h dezassete anos publiquei a primeira edio deste volume destinava 
o
encetado trabalho para estudo de um prncipe, ento na puercia, que em 
futuro remoto,
quanto a incerteza das coisas humanas permitia ajuiz-lo, devia reinar em 
Portugal.
Persuadido de que o conhecimento da vida anterior de uma nao  o principal 
auxilio
para se poder e saber usar, sem ofensa dos bons princpios, do influxo que um 
rei de
homens livres tem forosamente nos destinos do seu pas, temperando as 
generosas mas
nem sempre esclarecidas e prudentes aspiraes do progresso pela 
experincia e
sabedoria de um passado que tambm j foi progresso, pagava assim ao filho 
uma
divida que contrara com o pai. Fora a este que eu devera uma situao 
exempta de
pesados encargos, a qual me tornara possvel dedicar a major e melhor parte 
do tempo
ao duro e longo lavor que hoje exige a composio da histria. Entendi e ainda 
entendo
que, trabalhando desse modo para o bem do herdeiro da coroa e, virtualmente, 
para o
bem da terra em que nascera, dava um documento, ao mesmo tempo de 
gratido e de
patriotismo, mais eficaz do que todos os protestos estreis com que muitos 
costumam
saldar dividas de uma e de outra ordem. No vigor da idade, povoado o esprito 
dos
sonhos dourados da ambio literria, nico dos vos dolos do mundo a que 
fiz
sacrifcios, habituado ao trabalho perseverante que conquista o po, e 
dispensado,
enfim, de pensar em adquirir este, podia aplicar tempo e hbitos a pagar uma 
divida e,
conjuntamente, a satisfazer uma ambio que hoje me faz sorrir. Excedendo 
pouco a
idade de trinta anos quando delineei os primeiros traos de uma empresa 
ousada, dotado
de organizao robusta, medindo os horizontes da existncia no tanto pelo 
compasso
dos anos, como pela intensidade dos esforos de que me sentia capaz, se 
duvidei de que
chegasse a completar o edifcio cujos alicerces lanava, tinha firme f em que 
cia
subiria a uma altura na qual fosse comparativamente fcil a outrem pr-lhe o 
remate.
Tal foi a origem deste livro. A sua sorte, porm, devia ser diversa da que eu 
previra..3
a ndole, as miras, o modo de proceder da reaco e, sem exagerar, mas 
tambm sem os
disfarar, assinalava os riscos que a liberdade corria. Os hbeis, os homens 
prticos, os
estadistas eminentes riram-se. Eu no passava de um visionrio. Cinco anos 
depois a
reaco apresentava-se com a face descoberta no campo de batalha, e todos 
os amigos
sinceros da liberdade estavam visionrios comigo 1 .
Pobres homens prticos! Pobres estadistas!
Mas para descobrir o rosto e combater francamente era ainda cedo ento. O 
que
cumpria era quebrar a pena na mo do visionrio, do que pressentira os que se
ocultavam na sombra e que l os fora ferir. Afeitos as trevas, caminharam nas 
trevas.
Tinham adeptos, amigos, instrumentos nas regies do poder, talvez no seio 
dele: tinham
ai malevolncias pessoais que aspiravam a saciar-se. Assim, venceram. 
Depois, a uns
homens sucederam outros homens; aos meus adversrios os que se diziam 
meus amigos,
e sempre e em toda a parte e com todos encontrei a reaco influente que me 
reduzia ao
silncio e a inaco. Inibido de prosseguir, sem sacrifcio completo da 
dignidade e sem
risco certo da honra, na coleco dos materiais para a vasta edificao que 
empreendera,
tive afinal de ceder e de fechar a bem curta distncia os limites da imprudente 
empresa.
No o fiz sem luta: disputei palmo a palmo a minha vida intelectual. Nessa luta
achei simpatias e alianas por todo o pas, sobretudo entre a mocidade das 
provncias
mais inteligentes e enrgicas, as provncias do Norte. No seio do Parlamento e 
no
grmio dos homens de letras houve tambm quem percebesse que vender por 
afagos e
sorrisos de poderosos a causa da honestidade e da cincia, embora essa 
causa se
personificasse em indivduo mais ou menos obscuro, era o erro de Esa, e que 
o
procedimento de sucessivas administraes, diversas entre si, mas acordes em 
truncar
um livro e inutilizar um esprito, podia ser algum dia arresto fatal contra outros 
livros e
contra outros espritos. Se alguns desses homens, excepes honrosas do 
pas legal,
fraquejaram depois, sirva-lhes de desculpa a debilidade natural do comum dos 
nimos,
que no sofrem a tenso moral dilatada por meses e anos. Entretanto, em 
coraes de
mais rija tempera o decurso do tempo no afrouxara a indignao: e essa 
indignao
passou os mares. Dalm do Atlntico mais de uma voz amiga procurou 
consolar o
maldito da reaco e dos poderes pblicos que a serviam. Algumas dessas 
vozes saiam
do seio do sacerdcio: uma descia do trono. Um prncipe estranho, que preza 
mais e
conhece melhor os dias de grandeza e de glria deste pas do que a maior 
parte dos
filhos dele, apressou-se a oferecer ao perseguido um asilo junto de si. Se no 
aceitei a
oferta, a que a fraternidade literria e a nobre maneira por que era feita tiravam 
todos os
vislumbres de humilhao, foi porque ainda esperava que no pudessem 
privar-me dos
ltimos sete palmos de terra ptria a que todos temos direito. Quem sabe se 
me
enganava? H dez anos que a reaco quase que conta os triunfos pelas 
batalhas, e o
futuro assoma carregado e triste. Mas acima de tudo est Deus.
Aquelas demonstraes incessantes e sempre crescentes, dentro e fora do 
pas,
eram importunas: haviam de vir, mais tarde ou mais cedo, a despertar 
seriamente a
ateno dos desatentos sobre as transigncias, ento ocultas, que s podiam 
explicar um
facto de outro modo inexplicvel. Era essa uma considerao grave, porque 
tinha
consequncias polticas. Os homens do poder costumam am-lo e tem subtis 
instintos
para mant-lo. Se no respeitam, geralmente falando, a moral e a justia 
quando estas
to-somente se afirmam, acatam-nas quando ameaam estribadas em 
qualquer gnero
de forca e quando, portanto, significam um risco. Por isso e s por isso, do 
mesmo
modo que por meios indirectos me fora tirada, a possibilidade de continuar a 
Histria de
Portugal foi-me enfim indirectamente restituda.
1 Hoje (1875) a reaco perturba j seriamente a Europa e ameaa as 
sociedades da Amrica Meridional..4
Era tarde. Os desanimadores pressgios que dois anos antes me brotavam da
conscincia, recusando aos meus colegas na Academia conservar o cargo de 
seu vice-presidente,
na conjuntura em que essa corporao, por um mpeto irreflexivo de
dignidade ultrajada, pensava em desagravar-se de uma injria que 
imerecidamente
recebera, s porque se achava a sua frente um homem odioso a reaco e ao 
seu aliado,
o Governo 2 ; esses pressgios, digo, tinham-se realizado. Na luta, a ambio 
literria, a
confiana no futuro, a energia e o vigor da alma, o hbito dos penosos estudos 
e das
longas meditaes, a perseverana no trabalho e, ate, a robustez fsica tinham 
em grande
parte desaparecido. Quis prosseguir e no pude ou, para melhor dizer, desejei 
j no
sabia querer.
Depois, passado tempo, ainda tentei um ltimo esforo para reconstruir a 
minha
vida intelectual; para subjugar o imenso desalento que me invadira o esprito; 
para
renovar esse mundo de ideias que constitui a ressurreio do passado, o qual 
eu tentara
erguer, como Lzaro, do p sepulcral dos arquivos, e sobre o qual os poderes 
pblicos
tinham recalcado o sudrio. Se, porm, o tentei, confesso ingenuamente que 
no foi por
servir o meu pas. Outros sentimentos me impeliam a isso. No pas tinha eu 
encontrado
milhares de amigos que haviam desposado com ardor a minha causa, que 
haviam
combatido comigo contra os enredos da reaco e contra a brutal hostilidade 
dos seus
poderosos aliados; muitos deles nem me conheciam, nem eu os conhecia. 
Devia e devo
a cada um e a todos gratido profunda: deve-lhes ainda mais, talvez, a causa 
da
liberdade e da civilizao. Mas isso era um negcio individual, privado. O pas 
legal,
aquilo que e o compndio e a manifestao da sociedade, que representa e 
que exprime
a sua vontade colectiva, havia reprovado virtualmente o livro e condenado o 
autor ao
silncio. Ainda quando me persuadisse de que o servio que fazia era grande, 
seria
descomedido se insistisse em faz-lo depois de repelido. A liberdade tem 
consequncias
inevitveis: as geraes dos povos livres participam perante o futuro da respon-
sabilidade
dos poderes pblicos ou, antes, a responsabilidade  delas, porque tem
sempre forca e meios para Os revocar aos sentimentos do pudor e do dever 
quando eles
o esquecem. As virtudes ou os crimes dos que as governam; a sua glria ou a 
sua
desonra pertencem-lhes. O despotismo, esse, no o podem chamar a autoria. 
Para mm a
questo, vista por esse lado, estava resolvida. No era, no podia ser, o desejo 
de reagir
contra manifestaes oficiais e solenes o que me impelia a renovar esforos 
tanto tempo
interrompidos. Era uma destas afeies individuais, modestas e 
desinteressadas, que
nascem, como flor singela, nos pedregais da vida.
Enquanto, alheio, no ao estudo dos homens e do mundo, mas as suas 
ambies
vulgares, eu consumia Os melhores dias da vida em trabalhos a cuja 
sinceridade, ao
menos, o futuro h-de fazer justia, um acontecimento impensado tinha 
chamado ao
trono aquele para quem, na sua puercia, fora destinada a Histria de Portugal. 
Devera-lha
por mais de um ttulo; mas, anulados, sem culpa minha, os meios de pagar, a
obrigao desaparecia. Foi todavia por de, e s por de, que, depois, ainda uma 
vez tentei
o que a razo me representava como quase impossvel.
Na maioria das sociedades actuais falta geralmente aos homens pblicos o 
valor
no s para ousar o bem, mas, ate, para praticar francamente o mal. Deste 
facto
psicolgico, que assinala as pocas de profunda decadncia moral, deriva
principalmente a hipocrisia; a hipocrisia, que  a anemia da alma. A altivez 
insolente do
poder que se coloca acima do decente e do legtimo e que ri das invectivas da 
opinio
indignada, como de um clamor sem sentido, tem o que quer que seja 
grandioso, como o
raio de luz que serpeia ainda na fronte do anjo das trevas: a maldade 
impenitente que se
2 Veja-se a Carta Dirigida ao Ministrio do Reino pela Segunda Classe da 
Academia Real das Cincias
(1856) p. 14..5
desculpa, que busca aninhar-se no manto da inocncia, que a ocultas se 
reclina num
leito de alheias agonias, e que, firmado o p sobre o cho hmido das lgrimas 
que faz
verter, inclina a fronte com a resignao do martrio e inventa uma forca 
estranha para
se declarar constrangida,  vil, dez vezes vil:  o lodo que se faz msculo. A 
violncia
que se afirma a si contra o direito e o vendaval deste oceano de paixes 
tenebrosas que
se chama o corao humano: a violncia que busca santificar-se com as 
visagens da
moderao e brandura  o vicio enraizado na alma, que, precito de si prprio e 
de Deus,
forceja por obter, como nico refrigrio, que os homens ou, iludidos, o 
absolvam ou, ao
menos, cheios de asco, volvam a face para o no verem.
Entre ns os que interiormente se riem do direito e dos princpios eternos da 
moral
universal tem dado mais de um exemplo dessa pia resignao no martrio. Ora 
 a
prepotncia estrangeira, dilogo festivo de bastidores diplomticos convertido 
em
monlogo trgico no proscnio da publicidade; logo o terror do alvoroto popular 
da
polcia; depois a presso da coroa, histria murmurada ao ouvido para que 
nem sequer
suspeite a coroa a existncia do prprio atentado. Perfeita miniatura da Roma 
de
Augstulo ou da Constantinopla dos palelogos. Na procela em que naufragara 
o meu
pobre livro o nome do soberano fora murmurado em voz baixa, associado ao 
dos
satlites da reaco, caluniado, como tinha de o ser depois, com torpeza sem 
exemplo,
em negcio mais grave. Ouvi esse murmrio: conhecia bem os homens de que 
vinha,
dei-lhes o asco que pediam e volvi a face. O facto tinha uma significao e um 
valor
bem sabidos.
Malquistar o soberano com o cidado era nobre e grande; mas era incompleto:
completava-se malquistando o cidado com o soberano. Infelizmente a 
tentativa falhou.
O vago, o misterioso, o terrifico tem atractivos para as almas novas de 
profundo e
enrgico sentir; para as inteligncias juvenis e robustas que a ambio da ideia 
devora e
que, impacientes, forcejam por se precipitar nas vastides do mundo moral 
para lhe
devassar os segredos. A alma do rei era dessas. Buscou-me e desceu, corno 
diria o
mundo, a justificar-se, porque nunca inquiriu se para chegar do trono s 
regies do
dever ou da justia era preciso descer ou subir. Movia-o, alm disso, o instinto 
prprio
da sua idade e da sua ndole. Queria sondar o abismo de orgulho, de dios 
implacveis,
de impiedade, de paixes tempestuosas de que lhe falavam com susto. Parece 
que a
lenda exagerava: o precipcio, o abismo, era de dimenses menos amplas. 
Verdade 
que os precipcios e abismos fascinam e atraem: pode tambm ser que fosse 
isso. Que,
porem, se iludisse ou que acertasse, o rd achara que todas essas negruras do 
feroz
plebeu se reduziam a uma sinceridade talvez rude, e a sinceridade, ainda rude, 
tinha
para ele o atractivo do novo, do impensado. Achava onde retemperar o nimo 
lasso do
incessante espectculo da condescendncia interessada, do aplauso grosseiro 
que vale o
insulto, da devoo requerente, do regirar e mentir dos que buscam recamar-se 
de
avelrios e lentejoulas para se inebriarem, para esquecerem que se arrastam 
porque so
lesos. Entrava apenas na idade de homem e j estava saciado do serpear 
flexuoso das
linhas curvas: atraia-o por isso irresistivelmente a dureza da linha 
perpendicular, recta.
Aquela alma to rica de abnegao de si, quanto o era de afectuosa simpatia 
para com
todos os oprimidos, para com tudo o que padece, comprazia-se em fitar a vista 
em olhos
que se no abaixassem diante dos seus, em encontrar na ideia alheia a 
resistncia 
prpria ideia. No tinha cime de uma soberania superior a sua, a da razo, 
nem o
humilhava a dignidade humana, que equivale no sbdito a majestade no rei. O 
que
repugnava profundamente a esse esprito raro era o baixo, o abjecto. O rptil, 
infusrio
em grande, inquieta-nos, tenta a nossa f na imortalidade com o dogma 
horrvel da
gerao espontnea, da omnipotncia do fermentescvel: o homem que  
homem, esse 
que prova Deus..6
Foi na afeio de D. Pedro V, no desejo de lhe comprazer, que achei alentos 
para
galgar de novo a ngreme ladeira donde me tinham despenhado; foi animado 
por ele que
prossegui em ajuntar materiais, no para levar a cabo os ambiciosos desgnios
concebidos na idade das grandes audcias, mas para concluir o quadro sincero 
da poca
mais obscura da nossa deturpada histria; para deixar no mundo um livro em 
vez de um
fragmento. Expressa apenas como desejo, pouco a pouco a sua vontade tinha-
se tornado
rara mim irresistvel: nem me pejo de confessar que de comeava a exercer j 
sobre o
meu esprito aquela espcie de absolutismo moral que, provavelmente, aos 
trinta anos
havia de exercer, se vivesse, no geral dos nimos; singular espcie de 
absolutismo, que
encerrava a esperana da regenerao dos costumes pblicos e, 
conseguintemente, a
nica esperana da manuteno da nossa autonomia e da nossa Liberdade; 
autonomia e
Liberdade que foram para ele crena e culto, porque lhas tornavam santas a 
voz de uma
conscincia virgem e as revelaes de uma poderosa inteligncia.
Completo com o resto da histria das instituies primitivas da monarquia, 
como
 minha inteno torn-lo, este livro apenas significar uma saudade 
desfolhada ao p
de uma sepultura. Digo-o, porque no espero nem quero dos vivos nem 
agradecimento
nem recompensa, suposto que estes volumes os merecessem ou valessem. 
Recompensa
tive-a inteira no afecto da mais nobre e mais pura alma que encontrei na Terra. 
Oxal
que, nesta pia peregrinao de um esprito ate a beira de um tmulo, o romeiro 
no
deponha descorooado o bculo, ou no adormea do grande sono da morte 
antes do
voto cumprido..7
ADVERTNCIA DA PRIMEIRA EDIO
(1846)
Erros, hav-los- neste volume, bem como nos que se lhe seguirem. O que,
porem, posso afirmar com a mo na conscincia  que eles foram 
involuntrios. Tenho
f que no me cegou malevolncia para com os estranhos, nem parcialidade 
pela terra
natal. Para o homem sacrificar a longas e ridas investigaes, frequentes 
vezes sem
resultado, todas as faculdades do esprito, quase todas as horas da vida, com o 
intuito de
dar ao seu pas ma histria, se no boa, ao menos sincera,  necessrio, creio 
eu, algum
amor da ptria. Cifrei-o nisso to-somente. Convertendo em realidade o meu
pensamento, procurei esquecer-me de que sou portugus, e parece-me t-lo 
alcanado.
O patriotismo pode inspirar a poesia; pode aviventar o estilo; mas  o pssimo
conselheiro do historiador. Quantas vezes, levado de to mau guia, ele v os 
factos
atravs do prisma das preocupaes nacionais, e nem sequer suspeita que o 
mundo se
rir, no s dele, o que pouco importara, mas tambm da credulidade e 
ignorncia do
seu pas, o qual desonrou, crendo exalt-lo! Dos que por m-f assim 
procedem no falo
eu aqui. Esses lisonjeiros das multides so to abjectos como os lisonjeiros 
dos reis,
quando os reis eram os dispensadores das reputaes e das recompensas.
No ignoro o risco da situao em que me coloquei. H muitos para quem os
sculos legitimam e santificam todo o gnero de fbulas, corno legitimam e 
santificam
as dinastias nascidas de uma usurpao. Aos olhos destes as cs da mentira 
so tambm
respeitveis. A crtica, dizem eles, mata a poesia das eras antigas, como se a 
poesia de
qualquer poca estivesse nas patranhas mini posteriormente inventadas. So 
excelentes
talvez as suas intenes; no sei se o mesmo se poder dizer da sua 
inteligncia. Para
estes o meu livro ser um grande escndalo, e o melhor fora deixarem de o ler. 
No
faltam entre ns monografias histricas: l acharo fonte copiosa em que 
possam saciar-se;
porque em escrevo apenas para os singelos amigos da verdade, e ainda 
receoso,
apesar da pureza dos meus desejos, de no ser exacto, ou pela escasseza dos
documentos, ou por engano prprio na apreciao dos factos. Quanto a 
sucessos
maravilhosos, a tradies embusteiras ataviadas para bem parecerem ao 
vulgo, no as
busquem neste livro os que, movidos por um falso pundonor nacional, seriam 
capazes
de tomar por matria histrica as lendas de As Mil e Uma Noites, se l 
encontrassem
Cometendo uma empresa cuja importncia, grande ou pequena, deixarei que
outros avaliem, talvez seria o melhor abster-me de quaisquer reflexes 
preliminares.
So, por via de regra, os prlogos destinados a captar a benevolncia do 
pblico; mas,
numa obra histrica, nem o autor deve pedi-la, nem o leitor concede-la. 
Averiguar qual
foi a existncia das geraes que passaram, eis o mister da histria. O seu fim 
 a
verdade. Onde o autor errou involuntariamente  condenvel o livro; onde 
pretendeu
iludir os que o lem, a condenao deve cair sobre o livro e conjuntamente 
sobre o
autor. Nenhumas consideraes humanas podem alterar esta regra; e por isso, 
longe de
pedir indulgencia, pedirei aos homens competentes a severidade para com 
este escrito. 
o interesse da cincia que o exige. Nas doutrinas de opinio talvez sejam licitas 
as
concesses: nas matrias de factos seriam absurdas. A verdade histrica e 
uma. Os que
no sabem abstrair do amor-prprio, para s porem a mira no progresso da 
cincia,
mentem se dizem que a amam. Amam-se a si; mas amam-se como insensatos. 
Se os
contemporneos calarem os defeitos do vosso livro, os historiadores futuros 
tecer-vos-o
sobre a campa a lista dos erros que cometestes e ainda daqueles que, por 
temor de
ofender tradies recebidas, deixastes de condenar..8
alguma que lhes lisonjeasse o apetite.
 sem dvida, custoso ver desfazerem-se em fumo crenas arreigadas por 
sculos,
a cuja inspirao nossos avs deveram, em parte, o esforo e a confiana na 
Providncia
em meio dos grandes riscos da ptria; crenas inventadas, talvez, para 
espertar os
nimos abatidos em circunstncias dificultosas. Sei isto; mas tambm sei que a 
cincia
da histria caminha na Europa com passos ao mesmo tempo firmes e rpidos, 
e que, se
no tivermos o generoso nimo de dizermos a ns prprios a verdade, os 
estranhos no-la
viro dizer com mais cruel franqueza. Caluniadores involuntrios do seu pas 
so
aqueles que imaginam estar vinculada a reputao dos antepassados a 
sucessos ou vos,
ou engrandecidos com particularidades no provadas nem provveis. Acaso 
Portugal
no achar nas memrias verdicas da sua longa existncia recordaes 
formosas e
puras para nos repreender, com a energia e glria de outros tempos, da 
degenerao e
decadncia presentes? Quem assim o cr insulta a memria de geraes que 
valiam
mais que ns, e que recusariam, se pudessem faz-lo, faanhas que no 
praticaram,
virtudes que no tiveram; porque possuram outras que eram suas, e de que 
nunca os
progressos da histria ho-de esbulh-las. Temei que o resultado desse aferro 
a
tradies mentirosas seja perfeitamente contrrio aos vossos desejos, e que o 
escalpelo
da crtica, as vezes demasiado subtil, querendo apagar os vestgios da 
credulidade,
involuntariamente corte pelo so em sucessos, alias, grandes e indubitveis.
Conto com as refutaes  conto, ate, com as injrias. Estas no me 
incomodam;
porque me parece no serem argumentos histricos demasiado concludentes: 
essoutras
estimo-as, porque entre elas  possvel encontram observaes que sirvam 
para corrigir
o meu livro. Muitas destas refutaes, j o prevejo, ho-de estribar-se na 
opinio de
historiadores e antiqurios eruditos, ilustres, gravssimos, profundos, e com 
todas as
mais qualificaes que se costumam agregar ao nome de qualquer escritor 
moderno,
quando, na falta de monumentos ou diplomas legtimos, se querem sustentar 
opinies
absurdas ou infundadas. Aos que assim me impugnarem desde j declaro que 
nunca os
hei-de perturbam na bem-aventurana do sem triunfo. A discusso entre ns 
fora
impossvel; porque seguimos caminhos diversos. Eles tratam a histria como 
uma
questo de partido literrio; em apenas a considero como matria de cincia.
Nestas linhas que lano a frente do meu trabalho quereriam talvez alguns que
expusesse o piano dele, a urdidura da larga teia que encetei, a que hoje mal 
basta a vida
de um homem e a que provavelmente no bastara a minha. Era dizer em 
resumo o que o
leitor h-de ver e julgar no processo do livro. Pareceu-me ma inutilidade, e por 
isso a
omiti. O tempo, como  fcil de supor, no me sobeja, para o consumir em 
coisas
inteiramente escusadas.
O que, porm, no se escusa  confessar em aqui as obrigaes que devo. As
coleces impressas de monumentos histricos, que todos ou quase todos os 
pases
possuem, faltam neste nosso. Documentos avulsos, derramados por obras 
escritas em
pocas nas quais as luzes diplomticas quase que no existiam, mal podem, 
as vezes,
pelo errado da sua leitura e por se acharem confundidos com diplomas 
forjados, ser
aceitos como autoridades seguras. Outro caracter tem os que se encontram 
nas
Memrias da Academia Real das Cincias; ou nas obras publicadas pelos seus 
scios;
mas esses documentos, na maior parte, reduzem-se a simples extractos, como 
convm
aos fins que se propem os autores que citam. Assim, quem se ocupar da 
histria
portuguesa h-de sepultar-se nos arquivos pblicos, e descobrir entre milhares 
de
pergaminhos, frequentemente difceis de decifrar, aquele que faz ao sem 
intento: h-de
indagar nos monumentos estrangeiros onde  que se encontram passagens 
que ilustrem a
histria do sem pas: h-de avivar as inscries, conhecer os cartrios 
particulares das
catedrais, dos municpios e dos mosteiros; h-de ser palegrafo, antiqurio, 
viajante,.9
bibligrafo, tudo. Como bastaria um indivduo sem abundantes recursos 
pecunirios,
sem influencia, sem uma sade de ferro, a to grande empresa? Fora 
impossvel.  na
verdade vergonhoso que Portugal se no tenha associado ainda ao grande 
impulso
histrico dado pela Alemanha, por esse foco do saber grave e profundo, a toda 
a
Europa; mas a culpa no  dos nossos homens de letras, e sobretudo da 
juventude, entre
a qual no falta engenho nem boa vontade. A culpa  de quem pretende que o 
arquitecto
d a traa do edifcio e carreie para de a pedra e o cimento. A primeira 
coleco
diplomtica portuguesa, tentada e reduzida em parte a efeito, no conta mais 
de trs
anos de data. Faiamos do quadro elementar das relaes de Portugal com as 
outras
potncias, base de ma compilao importante incumbida pelo Governo a um 
dos nossos
mais clebres escritores, o Senhor Visconde de Santarm. Fora daqui no 
possumos
seno o ainda pequeno resultado dos esforos da Academia neste gnero, e 
das
diligencias heterogneas e desconexas de vrios indivduos cujo zelo no 
podia de modo
algum vender as dificuldades que apontamos.
Venci-as em acaso? Eram fracos os meus ombros para no cederem ao peso
debaixo do qual outros mais robustos vergaram. Pondo de parte os defeitos 
que
necessariamente se encontraro nesta primeira tentativa de uma histria critica 
de
Portugal, o que nela houver bom, se o houver, no se me deve agradecer a 
mim s. Sem
os socorros alheios, ser-me-ia provavelmente impossvel entrar e prosseguir no 
encetado
empenho. Cumpria-me diz-lo aqui; e era essa ma das circunstncias que 
tornavam
necessrias estas linhas preliminares. Muito devi ao conselheiro Macedo, 
secretrio
perptuo da Academia, facultando-me sem restrio o uso da sua livraria, to 
rica e
escolhida. em tudo, principalmente em trabalhos histricos modernos, e no 
menos ao
Senhor Jos Manuel Severo Aureliano Basto, digno oficial-maior do Arquivo 
Nacional
da Torre do Tombo e lente de Diplomtica, patenteando-me, com a sincera 
vontade de
quem ama a cincia, os inestimveis tesouros histricos confiados a sua 
guarda. As
cpias exactas de muitos documentos do arquivo da catedral de Braga, da mo 
do hbil
palegrafo o Senhor Arajo Esmeriz, alcancei-as pelos esforos do Ex.mo 
Governador
Civil daquele distrito, Joo Elias da Costa Faria e Silva, modelo dos homens 
serviais. e
favorecedor desinteressado das letras ptrias. Aceitem, finalmente, os meus 
bons
amigos Antnio Lus de Seabra, Vicente Ferrer Neto de Paiva e Joaquim 
Heliodoro da
Cunha Rivara agradecimentos sinceros peba prontido e bom nimo que 
mostraram,
ocupando-se em buscar e revolver documentos nos arquivos do Porto, de 
Coimbra e de
vora, a beneficio de ma tentativa, na qual, por isso, tem de certo modo ma 
parte.
Mas em seria sobretudo ingrato se no confessasse neste lugar, a face do 
pas, ma
grande verdade. Fora da situao tranquila em que me vejo colocado, nunca 
me teria
abalanado a ma empresa que em prprio reconheo merecer a imputao de 
atrevida.
Em geral, os cultores das letras no saem das classes poderosas e abastadas; 
e em
Portugal, ainda hoje, o escritor mais benquisto do pblico e mais laborioso no 
obter
uma fortuna independente s  custa das suas viglias. Daqui resulta que os 
bons
engenhos, os quais nestes ltimos tempos a nossa terra tem indubitavelmente 
produzido,
so forcados ou a viverem na atmosfera mirradora do mundo poltico ou a 
exercitarem
cargos pblicos, que lhes consomem o tempo e acanham por fim as faculdades 
do
entendimento. E assim que a literatura deste sculo tem perdido em 
profundeza o que
vai ganhando em brilho e em extenso. O servio do Estado, ou dos partidos, 
no
consente os longos e severos estudos. Cumpre que o talento seja como o 
relmpago, que
fulge e passa: chama por ele a Terra.  por isso;  pela minha situao 
especial que em,
ltimo, talvez, entre os filhos desta poca aos quais a Providencia alumiou com 
um raio
da inteligncia eterna, som o primeiro a votar-me a mm trabalho, para a 
execuo do
qual h muitos mais fortes, se no mais preparados do que em..10
Esta situao vantajosa e excepcional devo-a a S. M. El-Rei. Ele a criou para 
mim
espontnea e generosamente: espontnea e generosamente ma conservam, a 
despeito de
mais de uma procela violenta que tem ameaado afundar o meu dbil esquife, 
porque
sou navegante assaz rude e inbil em evitar com ante a fria das tempestades. 
Se este
livro no for inteiramente intil para a glria da ptria, a S. M. mais que a mm o
agradea a nao. Digo isto com verdade e singeleza.
Ele sabe, corno sabem todos os que me conhecem, que no costumo lisonjear 
os
prncipes, ou, o que no e menos raro, as paixes das turbas; e que nem a 
popularidade
entre estas nem ao favor daqueles em sacrificaria nunca as minhas doutrinas e
convices..11
INTRODUO
I
Consideraes preliminares.  Distino fundamental entre as escritos 
histricos
do Idade Media e as do poca do restaurao dos letras. Modo de considerar 
as
origens de Portugal naqueles e nestes.  Tendncias sincrnicas dos primeiros 
e
anocrnicas dos segundos.  Causas e consequncias do sistema histrico do
Renascimento quanto as origens.  Modificao deste sistema.  Convenincia 
de
separar do histria de Portugal tudo a que  rigorosamente alheio a ela.  
Nenhuma
identidade nacional entre a sociedade portuguesa e algumas dos antigas tribos 
que
habitaram no Pennsula antes do era crist.  Caracteres que podem 
estabelecer a
identidade no sucesso dos tempos: o territrio, a raa, a lngua: falta desses
caracteres comuns entre os portugueses e as lusitanos.  Elementos 
constitutivos de
Portugal relativamente ao territrio e  populao: elemento leons e elemento
sarraceno.  Necessidade de conhecer resumidamente a histria poltica dos 
estados
muulmanos do Espanha e a do reino de Leo como base para a histria 
poltica do
primeira poca do monarquia portuguesa..12
Com a restaurao das letras gregas e romanas nos fins do sculo XV, o 
mundo
antigo renasceu para uma vida em parte fictcia, em parte real. Ao passo que 
as
tradies da jurisprudncia romana triunfavam enfim plenamente nas 
instituies
polticas e civis das naes modernas, a repblica ideal das letras organizava-
se pelas
condies de uma literatura cujos monumentos mais preciosos subsistiam 
ainda, mas
cuja ndole e esprito eram, at certo ponto, letra morta; porque no podiam 
casar-se
nem com os costumes, nem com as crenas da Europa moderna. O 
entusiasmo pelos bri-lhantes
vestgios de uma civilizao que passara no tinha fora para a fazer admirar e
receber pelo comum dos homens; porque entre ela e o modo de existir destes 
havia
insuperveis antinomias. A idealidade crist, repelida do meio das classes 
ilustradas,
acolhia-se entre o vulgo; as frmulas literrias nascidas com a Idade Mdia e 
que at a
haviam acompanhado no seu desenvolvimento natural o progresso da nova 
sociedade
viam-se condenadas pelo desdm da aristocracia da inteligncia.  histria, 
como a tudo
o mais, chegou um perodo de transformao. As antigas crnicas 
portuguesas,
semelhantes s de todas as outras naes da Europa, seguiam um mtodo e 
estilo de
narrar totalmente diversos dos livros histricos dos romanos e gregos: eram 
mais
singelas e pinturescas; representavam-nos melhor a vida domstica: os 
caracteres dos
personagens eminentes no no-los faziam compreender com os traos rpidos 
e pro-
Quem abrir as nossas antigas crnicas, e depois os livros histricos escritos 
desde
o triunfo completo obtido da literatura da Idade Mdia pela literatura greco-
romana,
achar uma diferena fundamental no sistema daquelas e destes. At os fins 
do sculo
XV e ainda at depois do meado do seguinte, a histria nacional reduz-se a 
crnicas de
uma ou de outra poca do perodo decorrido desde a separao de Portugal da
monarquia leonesa at o tempo do cronista. Os cronicons mais remotos, 
escritos em
latim brbaro, so na verdade uma espcie de resumos da histria geral do 
pas; mas
comeam as suas narrativas, como as crnicas especiais, com os princpios do 
sculo
XII, e apenas aludem rapidamente aos sucessos posteriores  invaso dos 
godos, que 
para eles uma espcie de gnesis histrico. Na infncia da histria, os nossos 
cronistas
como que sentiam que antes daquela poca faltava uma cadeia palpvel e 
slida que
unisse o Portugal moderno ao mundo antigo. Dir-se-ia que o consideravam 
como um
orbe que, formado de fragmentos dos planetas de um sistema solar, fugira da 
periferia
comum, a cujo mbito no sabiam como o fizessem voltar. Este sistema era a 
Pennsula,
cujas mudanas e revolues, cujos habitadores, diversos em raas, em 
costumes, em
lnguas, se ligavam, todavia, complexamente na sucesso dos tempos por um 
facto
constante  os limites topogrficos do vasto tracto de terra entre os Pirenus e 
o mar. O
territrio em que  ocupao ibero-cltica viera sobrepor-se a colonizao 
greco-fencia
e depois o domnio sucessivo dos cartagineses, dos romanos, dos germanos e 
dos
rabes, era com pequenas diferenas o mesmo em que imperavam os reis de 
Castela
especialmente, depois que o Arago e a Catalunha se agregaram ao vasto 
corpo da
monarquia espanhola. Talvez nenhuma das novas provncias de que esta se 
compunha
poderia achar coisa alguma inteiramente comum entre si e uma ou outra das 
antigas
divises, quer de domnio, quer de raa, que tinham existido nas eras remotas. 
Todavia
o complexo delas  a Espanha  era ainda o mesmo atravs de tantas 
transformaes.
Portugal, porm, nascido recentemente, includo dantes no todo das vrias 
sociedades
peninsulares, fundado em fragmentos do solo das antigas divises territoriais 
da
Espanha cltica, pnica e romana, tronco, enfim, arrancado da rvore leonesa, 
no
achava um s parentesco legtimo e exclusivo nos tempos anteriores aos da 
conquista
goda, ou mais rigorosamente aos da restaurao crist. Podia dizer que 
tambm de
algum modo se prendia ao passado; mas tecer com verdade e exaco a sua 
rvore
genealgica especial, isto  que lhe era impossvel..13
fundos que bastavam aos historiadores romanos e de que as pginas de Tcito 
so o
mais perfeito modelo; mas em compensao legavam-nos ingenuamente os 
ditos e
feitos desses indivduos, e habilitavam assim a posteridade a concluir das 
cenas
altamente dramticas que registavam uma sntese talvez menos profunda, mas 
decerto
no menos verdadeira. Mais inbeis que os historiadores antigos em 
assinalarem a
relao dos acontecimentos com as suas causas e efeitos, e em atribuir a cada 
sucesso a
sua importncia poltica; reduzindo, como eles, a histria a uma arte sem 
objecto fora de
si, em vez de a considerarem como cincia social destinada a enriquecer o 
futuro com a
experincia do passado, sabiam, todavia, aproveitar melhor certos toques que 
tornam
mais fceis de imaginar, permita-se-nos a expresso, as linhas, contornos e 
cores das
pocas. Se, enfim, as narraes dos cronistas so por uma parte triviais e at 
baixas,
pelo h4bito que eles tinham de particularizar circunstncias mnimas, fazem-
nos por
outra parte perceber mais claramente a ndole real dos indivduos ou da 
gerao de que
tratam, ao passo que os historiadores antigos s nos apresentam os homens 
com os
gestos e meneios convencionais e estudados do Foro, do Senado, do templo, 
da
solenidade pblica. O cronista da Idade Mdia, para nos pr diante dos olhos 
os grandes
vultos que passaram na Terra, alevanta dos tmulos os seus cadveres e 
infunde-lhes de
novo a vida, ao passo que o escritor grego ou romano apeia dos pedestais as 
esttuas dos
homens pblicos, correctas, porm frias e mortas, e, como a esttua no 
banquete de D.
Joo Tenrio, f-las caminhar ante ns com um gesto solene, mas inflexvel e 
pesado.
No ardor com que o Renascimento restaurava ou, antes, transformava tudo, 
no se
averiguou se o mtodo histrico da Idade Mdia era ou no superior em 
alguma coisa ao
que haviam seguido os historiadores que j comeavam a chamar-se clssicos. 
A
histria tomou os ademanes graves e majestosos, mas demasiadamente 
duros, dos
modelos recebidos como nicos legtimos. A consequncia imediata foi qu, 
tornada
rida no meio das suas pompas, deixou de ser popular; porque nem falava uma
linguagem que o povo entendesse, nem pintava a vida como as multides a 
conheciam.
Daqui a perder a nacionalidade ia pouco: e ela perdeu-a. A princpio eram as 
formas que
atraam os espritos cultivados: foram-no logo os objectos e os factos que os
historiadores da Grcia e de Roma descreviam ou narravam:
Nas universidades e nas escolas, nos mosteiros e nas palestras literrias 
chegou a
ser vergonhoso o uso da prpria lngua: estudavam-se com afinco os 
monumentos de
todo o gnero relativos  vida civil antiga, e os eruditos a tal ponto se 
embebiam nessa
existncia de conveno que nos seus escritos quase que no se encontra 
uma sentena,
uma aluso, uma ideia que no seja tirada de livros gregos ou romanos. Os
acontecimentos gloriosos, os homens ilustres do seu pas interessavam-nos
incomparavelmente menos que os dessa ptria fantstica adoptada por eles. 
Afastavam
os olhos com tdio do espectculo da Idade Mdia, cuja energia rude 
contrastava com a
polcia da civilizao que o sudrio erguido do passado lhes descortinava. Se a 
um
erudito do tempo de D. Manuel, de D. Joo III ou de D. Sebastio se 
perguntasse qual
era a diferena de um cnsul a um pretor, di-lo-ia pontualmente: se lhe 
falassem de um
rico-homem ou de um infano, nem sequer saberia a significao destes 
vocbulos. O
espectculo da repblica debatendo-se moribunda aos ps dos csares afligia-
o talvez; o
absolutismo que se assentava sobre as runas da liberdade moderna nem de 
leve o
incomodava. O presente era para ele uma tradio: o passado uma existncia 
real.
Quando a admirao um pouco idlatra pelo mundo antigo chegou ao seu 
auge,
comeou a declinar e se tornou mais moderada, comeou tambm a sentir-se 
que as
memrias da ptria valiam alguma coisa. As tradies gloriosas da nao 
buscaram-se.
Este pensamento surge pouco a pouco e tenta dilatar-se, mas ainda 
grandemente
modificado pelas influncias da erudio clssica. Desde o meado do sculo 
XVI.14
principiava o perodo da nossa rpida e profunda decadncia, e os engenhos 
claros e
robustos viam a necessidade d.e recordar aos nimos degenerados e abatidos 
que havia
a uma herana honrada de avs, a qual era preciso salvar. At ento o 
escrever a
histria fora uma espcie de servio pblico: os reis nomeavam um homem que 
pusesse
em escritura os sucessos dos prprios reinados ou dos seus imediatos 
antecessores: o
cronista exercitava um cargo do Estado. Desde as crnicas, porm, de 
Cristvo
Rodrigues Acenheiro, que vivia no reinado de D. Joo III, at a publicao dos
primeiros dois volumes da Monarquia Lusitana, que  como a inscrio 
estampada na
campa das nossas grandezas, a histria no s cada vez perde mais, digamos 
assim, o
carcter de registo pblico para se converter em matria de livre erudio 
particular,
mas tambm refoge do triste espectculo que passava diante dos olhos do 
historiador,
para ir buscar
nas memrias nacionais de outro tempo matria mais grata de estudo e 
tradies
que reanimassem a perdida energia do povo. Aparecem ento, debaixo de 
diversos
ttulos, as primeiras tentativas de histria geral do pas. Tais so as crnicas de
Acenheiro e Nunes de Leo, os Elogios dos Reis, de Brito, a Vria Histria, de 
Pedro de
Maris. E resumindo o pensamento do seu tempo, Cames, nOs Lusiadas, 
dedicados ao
descobrimento da ndia, lana com o pincel divino os lineamentos principais 
das nobres
recordaes da Idade Mdia.
Mas no complexo das doutrinas daquele tempo acham-se incorporadas as 
duas
ideias, at certo ponto opostas, da erudio clssica e das tradies ptrias. A 
primeira
modifica-se pela segunda, e da nasce, em nosso entender, uma nova 
tendncia histrica.
 a de aproveit-las ambas e de fundi-las num corpo homogneo. Nos 
escritores gregos
e romanos encontravam-se importantes notcias sobre a Espanha antiga, sobre 
os povos
que a habitaram ou dominaram; sobre os seus costumes, guerras e mais 
sucessos. As
passagens relativas a essas matrias estudaram-se, compararam-se, 
esclareceram-se por
longas e atentas investigaes, e os anais das raas que tinham precedido o
estabelecimento das naes modernas da Pennsula puderam tecer-se 
aproximadamente.
Restava buscar um fio que prendesse as duas grandes pocas e as fizesse 
depender
logicamente uma da outra; isto  restava buscar um povo, uma tribo, uma 
famlia, fosse
o que fosse, que remontando aos tempos mais afastados pudesse considerar-
se como
origem e tronco da nao portuguesa, e esta, no como uma nova sociedade 
constituda
com diversos elementos, mas sim como uma transformao ou modificao 
daquela.
Desse modo a nacionalidade e a erudio ajudavam-se mutuamente e 
confundiam-se
numa ideia s em relao  histria. As diligncias para obter este resultado 
foram
coroadas aparentemente de bom sucesso, e  fora de aproveitar algumas 
verdades e
muitas fbulas, e ao mesmo tempo de atribuir a diversos factos um valor que 
eles no
tinham, a gente portuguesa achou-se em breve uma das mais antigas do 
universo,
descobrindo o seu bero nos cimos do Ararat, donde os filhos de No 
desceram a
repovoar a Terra.
Andr de Resende, o. maior e mais judicioso antiqurio portugus do sculo 
XVI,
no seu famoso tratado Das Antiguidades Lusitanas, escrito na lngua latina, deu 
grande
impulso a essa aplicao do estudo da literatura grega e romana a ilustrar a 
histria e,
principalmente, a geografia antiga do Ocidente da Pennsula. Os quatro livros 
De
Antiquitatibus Lusitaniae so o nosso mais antigo quadro das tribos que 
estanciavam
entre o Guadiana e o Douro na ocasio da conquista romana, bem como o so 
das
divises civis do territrio, da sua hidrografia interior e da situao das cidades 
e
povoaes que outrora aqui existiram. A obra de Resende, embora contenha 
emendas
importantes s opinies recebidas a semelhante respeito, nem por isso deixa 
de
representar no essencial essas opinies. A a Lusitnia antiga acha-se 
associada com.15
Portugal de tal maneira que as palavras lusitani e Lusitania ora significam as 
tribos e o
tracto de terra assim denominados pelos romanos na ocasio da conquista, ora 
a
provncia que estes estenderam at o rio Ana ou Guadiana e sua vria 
populao, ora,
finalmente, os portugueses e o nosso territrio, cujos limites so totalmente 
diversos.
Estas ideias, distintas entre si, confundem-se inteiramente no livro de Resende, 
cujos
estudos eram determinados pelos dois impulsos encontrados a que nos temos 
referido, o
da erudio clssica e o do sentimento de nacionalidade. So elas que 
introduzem uma
espcie de anarquia no plano do livro Das Antiguidades, alis excelente nas
particularidades da sua execuo.
Na poca, pois, de Resende, isto , pelo meado do sculo XVI, a ideia, 
contrria
aos factos, de que existia certa espcie de unidade nacional entre a nao 
portuguesa e
uma ou mais tribos dos celtas espanhis conhecidos pelo nome de lusitanos 
estava
fortemente radicada entre os escritores, que a haviam recebido sem exame, 
lisonjeados
com o lustre que criam vinha  sua ptria deste parentesco, to nobre pelo 
remoto como
pelas faanhas daqueles guerreiros selvagens que tomavam por avs. Para 
bem conhecer
que foi o gosto da erudio clssica que fez remontar a nossa histria a eras e 
a povos
que nela naturalmente no cabiam, e que, porventura, a suposta convenincia 
de
substituir um nome conhecido entre os escritores da idade urea ao nome 
latino-brbaro
dos portugalenses tem legado aos que tratam da histria portuguesa o mprobo 
e intil
trabalho de encher grossos volumes com os sucessos reais ou imaginrios de 
uma
sucesso de sculos anteriores  existncia da nao; para. bem conhecer, 
dizemos,
quanto a violenta associao de que falamos foi devida  influncia exagerada 
do
Renascimento  digno de notar-se, no s o silncio de todo o gnero de 
monumentos
histricos da nossa Idade Mdia acerca desses chamados tempos primitivos, 
mas
tambm que a denominao latina de lusitani s comea a ser-nos aplicada no 
ltimo
quartel do sculo XV 3 , isto , quando o ardor dos estudos clssicos e a 
inveno da
imprensa tinham feito comum no Ocidente da Europa a leitura dos historiadores 
e
gegrafos gregos e romanos. De feito, o mais antigo uso dessa denominao 
parece
poder colocar-se entre 1460 e 1490. Mestre Mateus de Pisano, um dos homens 
mais
instrudos daquele tempo e que fora chamado a Lisboa pela sua erudio latina 
para
escrever nessa lngua a histria da guerra de Ceuta, comps o seu livro pelos 
anos de
1460. A, tendo quase a cada pgina de mencionar os portugueses, 
constantemente usa
da palavra portugalenses, o que mostra quo longe se estava ainda nessa 
poca de se
julgarem equivalentes as de lusitano e de portugus, no se podendo atribuir 
este uso
constante a ignorncia; porque, falando do Douro e de Faro, diz ser aquele um 
rio
clebre e esta uma cidade, ambos da Lusitnia, o que, segundo as divises da 
Espanha
3 1 Lucas de Tuy, no Livro Quarto do Cronicon Mundi, ainda, na verdade, usa 
promiscuamente, e com
alguma confuso, das palavras Lusitania, Portugalis, quando fala das 
conquistas de Fernando Magno na
provncia hoje da Beira; mas do contexto do seu livro se conhece que ele 
pretendia exprimir ali pela
palavra Lusitania a parte da antiga provncia deste nome que se dilatava ao sul 
do Mondego e que ainda
ficou possuda pelos sarracenos depois das conquistas de Fernando Magno. 
Portugalis, na passagem a
que aludimos, significa restrita e claramente a moderna provncia da Beira. 
Escrevendo pelos anos de
1236 (Cronica na Espaa Sagrada, T. 4, p. 211), poca em que Portugal se 
achava j constitudo com
este nome ao sul da Galiza e no Ocidente da Lusitnia, e tratando de um 
perodo em que ainda a
denominao de Galiza se conservava por todo o territrio ao norte do Douro, o 
cronista via-se
necessariamente embaraado para exprimir as designaes geogrficas de 
modo que fosse entendido
pelos seus contemporneos, que nestas partes s conheciam o reino de 
Portugal. Devia aumentar-lhe o
embarao o ter pouco antes dito, e com razo, que os domnios de Fernando 
Magno chegavam at os
ltimos limites da Galiza, que do seu prprio livro se via serem no Douro. Em 
nosso entender, ele
procurou evitar todas essas dificuldades chamando exclusivamente Portugal  
Beira Alta e Lusitnia s
provncias ao sul do Mondego: o que, porm,  certo  que nem uma s vez ele 
denomina lusitanos os
habitantes de algum dos distritos ou provncias desta parte da Espanha..16
romana, as quais provavelmente Mateus de Pisano conhecia melhor que as 
modernas, 
de perfeita exaco. O primeiro escritor, conhecido por ns, que usou da 
palavra lusitani
para designar os portugueses foi o desgraado bispo de vora D. Garcia de 
Meneses,
vtima desse mesmo amor exagerado das coisas romanas que fez triunfar o 
poder
absoluto de D. Joo II da organizao poltica da Idade Mdia, e que, em 
literatura,
levava aquele prelado a dar aos seus compatrcios o nome colectivo de uma 
poro de
tribos clticas da antiga Espanha 4 . Nas composies, porm, de Henrique 
Caiado e de
Cataldo Sculo, escritas nos fins do sculo XV 5 , e nas subsequentes de Aires 
Barbosa,
Pedro Margalho 6 , Gis, Osrio, etc., as palavras lusitani e Lusitania tornam-
se
constantes para representar os portugueses e o seu territrio. Na lngua vulgar 
o uso
destes vocbulos s vem mais tarde; todavia, nos fins do sculo XVI estava de 
todo
generalizado. A ideia do parentesco entre portugueses e lusitanos passava por
incontestvel, e o livro de Resende , como dissemos, a completa expresso 
dessa ideia.
Todavia ainda isto no bastava: devia vir Fr. Bernardo de Brito para a exagerar 
at o
absurdo. Foi o que ele fez nos dois primeiros volumes do grande corpo 
histrico
chamado a Monarquia Lusitana. Aproveitando todas as notcias verdadeiras ou
fabulosas achadas em escritores genunos ou supostos, e ajuntando a isto 
alguns que os
melhores crticos supem da sua lavra, escudado com. eles passeou 
livremente, no s
pelas pocas do domnio cartagins e romano na Pennsula, mas ainda pelos 
tempos que
reputamos ante-histricos. To imbudo estava o bom do monge da ntima 
relao
destes diferentes tempos e diferentes raas que so expresses suas 
trivialssimas as de
Portugal e portugueses aplicadas aos habitantes do Ocidente da Espanha, 
no s no
tempo dos celtas e do domnio cartagins e romano, mas tambm nas eras 
fabulosas,
que Brito enfeitou com todas as patranhas que lera ou que inventara. Assim a
supersticiosa influncia da literatura clssica veio resumir-se afinal num livro, 
permita-se-
nos diz-lo, altamente ridculo.
Mas apesar deste resultado, a ideia que se encarnara na histria era to
uniformemente reproduzida, estava to inconcussa em todos os espritos 
cultivados,
casava-se tanto com as nossas pretenses fidalgas a uma remota antiguidade, 
achaque
trivial em todas as naes, que essa opinio triunfou at o presente. Quase nos 
nossos
dias trs homens eminentes, cujos servios s letras do seu pas so 
indisputveis,
sacrificaram a este preconceito de vo orgulho nacional. Pereira de Figueiredo 
trabalhou
largamente em ilustrar as supostas origens portuguesas e, tratando com o 
devido
desprezo os sonhos de Brito, nem por isso deixou de levar as suas indagaes 
at 1400
anos antes de Cristo. Antnio Caetano do Amaral, nas suas importantes 
memrias sobre
a histria das instituies portuguesas, no julgou poder esquivar-se a comear 
por
expor-nos as leis, usos e costumes dos lusitanos desde que as guerras dos 
cartagineses e
dos romanos os tornaram mais conhecidos. Meio Freire, posto que motejasse 
os
4 , de feito, na orao recitada perante Sisto IV em 1481 que encontramos 
pela primeira vez tal
designao. O editor deste famoso discurso, Gaspar Barreiros, nos adverte de 
que o cardeal Sadoleto
admirava a pureza do latim de Meneses e ainda mais que, sendo ele um 
homem do fim do mundo
(extremis orbis partibus) escrevesse to bem em latim na poca em que 
apenas na Itlia se acharia um ou
outro que alcanasse toda a pureza daquela lngua.  curioso ver o peso de 
razes e de erudio que
Barreiros desbarata para defender trs vocbulos no rigorosamente latinos 
que o orador introduzira no
seu discurso. Estes trs abominveis vocbulos que punham mancha no latim 
de Meneses eram zelus,
catholicon e substantia, os quais haviam desagradado aos eruditos. O prlogo 
de Barreiros  orao do
bispo de vora  a prova mais evidente do que levamos dito sobre a influncia 
que a idolatria das letras
romanas teve na falsa luz em que veio a colocar-se o sistema da nossa 
histria.
5 As obras de Cataldo Sculo saram impressas em Lisboa em 1500 ou 1501, 
livro rarssimo do qual s
conhecemos o exemplar da Biblioteca Pblica do Porto. As de Caiado vm 
includas no Corpus Poetarum
do padre Reis.
6 Em Leito, Notcia Cronolgica da Universidade, pp. 432 e ss..17
historiadores que tinham remontado a Tbal, o filho de No, para tecerem a 
genealogia
da nao portuguesa, l foi na sua histria da nossa jurisprudncia indagar o 
direito
pblico e privado da Lusitnia antes e depois da conquista romana para da 
comear o
seu alis excelente livro. Finalmente a opinio de que somos os sucessores e
representantes dos lusitanos no s se firmou e perpetuou entre os eruditos, 
mas tambm
se tornou por fim uma crena nacional e quase popular que dificultosamente se 
poder
desarreigar do comum dos espritos.
Rejeitando do nosso trabalho, como estranha a ele. a histria de todas as raas 
ou
sociedades de qualquer parte da Espanha anteriores  existncia da nao 
portuguesa
como indivduo poltico, cumpria que nos fizssemos cargo do sistema at aqui 
recebido
e que expusssemos preliminarmente as consideraes que nos obrigam a 
limitar-nos ao
que  rigorosamente histria de Portugal, que mais progressos houvera 
porventura feito
se no se tivessem malbaratado tantos estudos e tantos talentos histricos 
verdadeiros
em averiguaes, no diremos absolutamente ociosas, mas, pelo menos, 
inteis para
ilustrar as recordaes daqueles que devemos em realidade considerar como 
nossos
maiores.
A palavra nao representa uma ideia complexa. Agregaes de homens 
ligados
por certas condies, todas as sociedades humanas se distinguem entre si por 
caracteres
que determinam a existncia individual desses corpos morais. Muitos e 
diversos so
estes caracteres, que podem variar de uns para outros povos; mas h trs 
pelos quais
comummente se aprecia a unidade ou identidade nacional de diversas 
geraes
sucessivas. So eles: a raa, a lngua, o territrio. Onde falta a filiao das 
grandes
famlias humanas supe-se ficar servindo de lao entre os homens de pocas 
diversas a
semelhana de lngua e o haverem nascido debaixo do mesmo cu, cultivado 
os mesmos
campos, vertido o sangue na defesa da ptria comum. E na verdade, fora 
destas trs con-dies,
a nao moderna sente-se to perfeitamente estranha  nao antiga como  
que
nas mais longnquas regies vive afastada dela.
Todavia estes caracteres no tm um valor real seno  luz histrica. A 
distino
entre as sociedades humanas funda-se, como todos sabem, em circunstncias 
muitas
vezes diversas destas. , porm, historicamente que ns consideramos a 
nao
portuguesa, e  por isso que nos importa indagar se entre ela e um dos povos 
ou uma das
tribos que habitaram outrora na Espanha existe um ou mais desses pontos de 
contacto
que nos obriguem a ir entroncar a nossa histria em sucessos que nos 
parecem
inteiramente alheios a ela. Na especialidade que nos interessa, o povo desde o 
qual os
historiadores tm tecido a genealogia portuguesa esta achado   o dos 
lusitanos. Na
opinio desses escritores, atravs de todas as fases polticas e sociais da 
Espanha,
durante mais de trs mil anos, aquela raa de celtas soube sempre, como 
Anteu, erguer-se
viva e forte, reproduzir-se imortal na sua essncia, e ns, os portugueses do 
sculo
XIX, temos a honra de ser os seus legtimos herdeiros e representantes. Pede 
a boa
ordem que principiemos por examinar qual era esta gloriosa raa de 
antepassados
nossos e os territrios que habitava, para depois vermos se, no caso de no 
existir entre
ela e ns ao menos a comunidade de territrio, subsistem as relaes mais
caractersticas de famlia e de lngua.
Nos tempos primitivos 7 , a Espanha parece ter sido povoada por duas 
migraes
7 Quem quiser examinar as inumerveis conjecturas, hipteses e sistemas 
ideados acerca dos tempos
primitivos da Espanha, consulte os primeiros volumes da Historia Critica de 
Espaa, de Masdeu, e as
suas respostas s impugnaes de Traggia (T. 17); as Dissertaes do 
padre Pereira de Figueiredo
(Memrias da Academia de Lisboa, T. 9); Dunham e Depping, Histoire 
dEspagne et du Portugal, T. 1,
Introduction; Romey, Histoire dEspagne, T. 1, c. 1, e T. 2, Apndice; Rosseeuw 
Saint-Hilaire, Histoire.18
sucessivas da sia, a dos iberos, ou melhor euskaldunac, e da dos celtas, ou 
antes
clticos 8 . Tanto a luta como a associao das duas raas produziram no 
territrio
central da Pennsula as tribos mistas denominadas celtiberos. Os clticos 
ficaram
formando cinco grupos principais de tribos brbaras: os cntabros, asturos e 
vascnios
ao setentrio; os galaicos e os lusitanos ao ocidente. Ocupavam estes ltimos, 
segundo
Estrabo, o territrio cercado pelo oceano ao norte e poente e limitado ao sul 
pelo Tejo.
Ao oriente  difcil determinar as suas fronteiras, que se dilatavam muito alm 
das
nossas raias orientais. Sobre o que no resta dvida  que pelo meio-dia os 
limites da
Lusitnia apenas chegavam originariamente  margem direita do Tejo 9 . O 
gegrafo
grego hesita, porm, em atribuir aos lusitanos o territrio da moderna Galiza e 
de Entre
Douro e Minho; porque, posto numa parte os suponha estanciando at o 
promontrio
Nrio ou Cltico (Finisterra), faz noutras passagens ocupar as margens do 
Lima por uma
migrao de clticos 10 (turdetanos e trdulos), que habitavam ao longo do 
Guadiana
pelo Algarve e Andaluzia e em parte do Alentejo. Reina na sua descrio deste 
tracto da
Pennsula tal confuso, ora fazendo os galaicos lusitanos, ora distinguindo-os, 
ora
incorporando-os debaixo desta denominao uma parte daqueles que 
evidentemente se
conhece quo incertas eram as suas ideias sobre as antigas distines das 
tribos clticas
depois da conquista romana e da diviso poltica da Pennsula feita por 
Augusto, tempo
em que j escrevia Estrabo. O que  certo  que nessa nova diviso a 
Lusitnia mudou
inteiramente de limites. Estes fixaram-se ao norte no Douro, ao sul no 
Guadiana e
dilataram-se pelas terras sertanejas. Pelo oriente ficaram, porm. ainda 
incertos para ns
os verdadeiros limites da Lusitnia, sendo assaz provvel a suspeita de 
Celrio, de que,
segundo as convenincias da administrao, a linha oriental se alargasse ou 
encurtasse
debaixo do governo dos diferentes imperadores romanos 11 . O que, porm. se 
deduz
evidentemente de todos os gegrafos antigos, tanto daqueles que falaram da 
Lusitnia
antes da conquista romana, como dos que s tomaram por fundamento as 
divises
estabelecidas por esta,  que os territrios a que se deu tal nome se estendiam 
pelas
provncias espanholas muito alm das modernas fronteiras orientais de 
Portugal 12 , ao
passo que na primeira poca no passavam, pelo sul, alm do Tejo, e na 
segunda
findavam ao norte no Douro.
Assim, nos tempos da independncia cltica e do domnio romano o territrio 
da
Lusitnia, abrangendo de leste a oeste uma extenso mais que duplicada da 
largura
actual do nosso pas, dilatava-se a princpio, talvez, at  extremidade 
setentrional da
Galiza, enquanto ficava fora dela metade do Alentejo e do Algarve, e depois de
abranger estas provncias, menos a poro do nosso solo alm do Guadiana, o 
qual ficou
sempre pertencendo  Btica, perdia tudo o que jaz alm do Douro at o cabo 
de
Finisterra, isto , metade da sua superfcie, supondo com Estrabo que lhe 
pertenciam os
territrios alm deste ltimo rio.
dEspagne, T. 1, c. 2; e a obra de W. Humboidt, Prfung der Untersuchungen 
uber die Uhrbewohner
Hispaniens.
8 Humboldt estabelece como regra geral que os antigos denominavam celtae 
os das Glias e celtici os de
Espanha, apesar de que Estrabo (L. 3, p. 203, edio de Amesterdo de 
1707, notis varior, 2 vols. foi.)
tambm denomina estes keltikoi, posto que geralmente use da forma keltoi. 
Antes, porm, de
Humboldt, j Resende era de opinio (De Colonia Pacensi, na Hispania 
Ilustrada, T. 2, p. 1000) de que
esta ltima leitura se deve seguir constantemente, opinio adoptada por 
Casaubono.
9 A Tago versus septentrionem Lusitania, L. 3; Tago transmisso (lusitani) 
finitimos infestarunt, ibid.
Veja-se Resende, De Antiquitatibus, L. 1, f. 4.
10 Ferunt inter hos (clticos do Guadiana) et turdulos, cum fecissent 
expeditionem eo, Limaeo flumine
transito... mansisse illos ibi dispersos, Estrabo, L. 3.
11 Celrio, Notitia Orbis Antiqui, L. 2, c. 1.
12 Latus... ortivum carpetani, vertones, vaccaei et callaici. Estrabo, L. 3..19
 pois evidente que o Portugal moderno est muito longe de representar
geograficamente a Lusitnia antiga. Vejamos agora se os portugueses sero 
na realidade
os sucessores das tribos clticas derramadas pelo Ocidente da Pennsula.
Dizemos tribos porque essas que por abstraco histrica olhamos como um 
s
povo no eram menos de trinta, espalhadas desde os artabros, vizinhos do 
promontrio
Nrio, at o Tejo 13 . Destas tribos clticas alguns nomes nos conservaram os 
escritores
antigos 14 . A denominao geral acaso proveio do nome dos lusones (que 
Estrabo
coloca junto das fontes do Tejo, e que talvez eram de origem fencia) 
completado pela
terminao pnica tan vulgar na Pennsula, e que os romanos adoptaram nas
designaes corogrficas desta regio 15 .
Quem l desprevenidamente os escritores antigos e os modernos que 
aproveitaram
as suas afirmativas, frequentemente disparatadas e algumas vezes opostas, 
para sobre
elas edificarem os sistemas mais contraditrios acerca da diviso dos povos da 
Espanha,
s pode tirar uma concluso sincera:  que em tal matria pouqussimos factos 
tm o
grau necessrio de certeza para serem considerados como histricos. Entre 
estes h,
todavia, um que  indubitvel. Quando os cartagineses entraram na Pennsula 
no s as
duas raas mais antigas, os iberos e os celtas, se achavam confundidas nos 
territrios
centrais, mas tambm as tribos das orlas do mar e ainda os celtas e celtiberos 
do serto
se tinham misturado com fencios e gregos, principalmente com os primeiros, 
cuja
influncia na populao foi tamanha que ficou predominando at hoje no pas o 
nome
que eles lhe puseram 16 . De feito, os fencios se haviam apossado da melhor 
parte da
Espanha em tempos anteriores a Homero 17 , enquanto pequenas colnias 
gregas se esta-beleciam
em diversos pontos martimos, nomeadamente nas margens do Minho e do
Douro, subindo pelas suas fozes 18 . Estes diversos elementos de populao, 
que deviam
lutar e compenetrar-se em pocas que fogem s indagaes histricas, 
descobrem-se
confundidos e ligados em pocas posteriores.  assim que a prpria 
denominao de
Lusitnia indica o elemento fencio e os nomes de Tejo (Tagus) e de Guadiana 
(Ana)
so puramente daquela lngua 19 , ao passo que nos nomes das povoaes 
predomina a
forma cltica brig ou briga e nos costumes aparecem vestgios da influncia 
grega 20 .
Neste estado de associao de raas, a conquista pnica veio tomar mais 
completa
a mistura. Os cartagineses, originariamente fencios, tinham incorporado em si 
uma
grande parte dos lbios ou mouros, formando a casta mista conhecida pela 
denominao
de libyphenices 21 . A histria dos primeiros tempos do domnio desta repblica 
na
Pennsula  obscura: mas, quatro sculos antes da nossa era, esse domnio 
achava-se
assaz dilatado, e os filhos da Espanha iam j verter o sangue em pases 
estranhos para
13 Gentes sunt ad XXX, quae regionem inter Tagum et Artabros incolunt, id. 
ibid.
14 Plnio, Histria Natural, L. 4, c. 20 e 21.
15 Romey, ob. cit., T. 1, c. 1; Lusones ad fontes Tagi pertingentes, Estrabo, 
L. 3.
16 Spania de Span, cuja significao duplicada de oculta e coelho tem dado 
matria s dissertaes dos
eruditos, dos quais uns pretendem que da muita abundncia de coelhos viesse 
o nome  Espanha; outros, e
esta opinio  a geralmente seguida, de ser uma terra afastada e mal 
conhecida. Em todo o caso a origem
do nome  fencia.
17 Qui (Phoenices) ante Homeri aetatem optima... Hispanit tenuerunt, 
Estrabo, L. 3.
18 A Cilenis conventos Bracarum, Heleni, Gravii (outros lem Gronii), 
castellum Tyde, graecorum
soboles omnia, Plinio, Histria Natural, L. 4, c. 20.
19 O erudito Bochart foi o primeiro que indicou as muitas origens fencias que 
se encontram nas
designaes corogrficas da Pennsula. Destas so Tejo (Tagus), de dagi 
(piscoso), Lusitnia, de luz
(amndoas), talvez luzi (cheio de amendoeiras), O rio Ana, de ana (ovelha), 
Olissipo, de alisubbo (baa
amena), Chanaan, L. 1, c. 35, pp. 695 e ss.
20 Laconica ferunt uti vitae rationem, Estrabo, L. 3; Rito graeco centurias 
victimarum... instituunt,
id. ibid.; Matrimonia more graeco contrahunt, id. ibid.
21 Veja-se Chanaan, de Bochart, L. 1, c. 25..20
defenderem os interesses dos seus novos senhores ou aliados 22 . Foi, porm, 
no sculo
III antes de J. C. que a influncia cartaginesa se estabeleceu definitivamente 
aqum do
Estreito por meio da conquista. A poro do moderno Portugal ao sul do Tejo 
habitada
pelos turdetanos (celto-fencios) e pelos clticos das margens do Ana, tentando 
resistir
ao general de Cartago, Amlcar, foi por ele subjugada. Os habitantes que 
escaparam
constrangeu-os o cartagins a fazerem parte do exrcito vencedor, o pas ficou 
assolado,
e alguns restos dos seus naturais espalharam-se por outras partes. Dali o 
exrcito
vencedor marchou contra os vetes e tribos da Lusitnia, que tambm 
recusavam a
aliana ou antes o senhorio dos africanos. A resistncia destas foi mais viva e 
tenaz; mas
terminou do mesmo modo que na Turdetnia pela vitria de Amlcar 23 .
Morto Amilcar no meio destas guerras de conquista, Asdrbal, seu genro, e
Anbal, seu filho, prosseguiram-na sucessivamente com vigor e destreza. Antes 
da
expedio deste clebre general  Itlia atravs das Glias, os cartagineses 
tinham
sujeitado tudo aqum do Ebro; porque j no tempo de Asdrbal eles pactuavam 
com os
romanos que no ultrapassariam estes rios nas suas conquistas 24 , o que era 
abandonar 
influncia ou ao domnio de Roma apenas uma sexta parte da Pennsula. Foi 
aqui, onde
dentro de pouco as duas repblicas rivais principalmente disputaram, em trs 
longas e
sanguinolentas lutas, qual delas devia perecer. Tanto nestas lutas como nas 
guerras da
frica e Itlia, os exrcitos cartagineses eram em grande parte compostos de 
espanhis,
ao passo que as tropas africanas e as levas de celtas das Glias e de lgures 
estanciavam
uma e muitas vezes pelo territrio da Espanha 25 . O resultado disto  fcil de 
adivinhar.
Dois poderosos auxiliares, observa um historiador moderno 26 , ajudaram 
Cartago
nos seus desgnios de senhorear a Pennsula. Primeiro, os mestios nascidos 
do trato dos
colonos cartagineses com os indgenas, aliados naturais que ela espalhara 
pelo solo da
Espanha para dispor a conquista desta. Foram os segundos os mercenrios 
espanhis
que serviam nos seus exrcitos.  sabido que a infantaria celtibera, a cavalaria 
andaluza
e os fundibulrios baleares constituam o nervo das foras de Anbal. 
Regressando 
ptria, estes mercenrios travaram com Cartago um sem-nmero de relaes, 
de que
esta soube aproveitar-se a benefcio do seu comrcio e poltica.
Esse grande facto de assimilao da raa pnica; essa como renovao do
elemento fencio que os cartagineses representavam, porque dele provinham, 
no foi
particular a uma ou a outra provncia de Espanha, mas abrangeu o Centro, o 
Oriente, o
Meio-Dia e o Ocidente dela. Os lusitanos, pois, que se distinguiram no servio 
de
Anbal 27 , no podiam evitar a sorte comum, e nesta provncia a raa pnica 
alterou
necessariamente ainda mais a mistura celto-greco-fencia que anteriormente se 
havia
operado.
Era, enfim, chegado o tempo em que o longo brao de ferro da repblica 
romana
devia cingir a Espanha para s a arrojar de si exausta e transfigurada nas 
mos dos
brbaros do Norte. Durante a guerra de Anbal em Itlia uma armada 
transportou a
Amprias (Emporion) as foras romanas capitaneadas por Cneu Cipio. Os 
desastres e a
morte deste e de seu irmo Pblio trouxeram ao teatro da guerra o moo 
Cipio,
chamado depois o Africano. Em quatro anos (220 a 216 antes de J. C.) ele 
expulsou os
cartagineses e voltou a Roma rico de triunfos, deixando subjugada esta 
provncia. Daqui
22 Diodoro Sculo, Biblioteca Histrica, L. 5, c. 38 (T. 1, p. 360 da edio de 
Wesseling).
23 Diodoro Sculo, clogas, E. 25 (ibid., T. 2, p. 510); Polibio, L. 2, c. 1 (edio 
de Ernesto, 1764).
24 Polbio, Histria, L. 3, c. 27.
25 A composio dos exrcitos cartagineses pode ver-se em Polbio, L. 1, c. 67 
e ss.
26 Rosseeuw Saint-Hilaire, Histoire dEspane, T. 1, Introduction, c. 3.
27 Quorum (scil. lusitanorum) forti opera usos fuerat Annibal, non modo in 
Hispania, sed in ipsa etiam
Italia, Resende, De Antiquitatibus, L. 1, f. 33..21
data a poca da completa transformao da Pennsula.
A guerra da conquista romana durou por duzentos anos: a resistncia que os
espanhis opunham a este novo domnio persuade que as acusaes de 
opresso feitas
contra os cartagineses so exageradas. Quando a luta comeou, era a causa 
de Cartago,
mais do que a prpria, que eles defendiam. Isto vem confirmar o que acima 
dissemos; e
 notvel que, ainda meio sculo depois da poca em que Cipio se gabava de 
no ter
deixado um s cartagins na Espanha, os lusitanos capitaneados por um 
homem dessa
origem desbaratassem sucessivamente os exrcitos romanos de Manlio e 
Piso 28 . Os
dios mtuos que daqui nasceram protraram a guerra entre os novos senhores 
da
Pennsula e os indgenas, muito depois de destruda Cartago. O gnio militar 
do
selvagem montanhs Viriato tornou por alguns anos duvidosa a vitria de 
Roma nos
territrios do Ocidente, mas, apesar de repetidos levantamentos, o domnio dos 
senhores
do mundo civilizado firmou-se afinal tranquilamente por toda a Pennsula,  
excepo
dos desvios dos Pirenus, habitados pelos restos indomveis da raa primitiva 
dos
iberos, que nenhuma das invases celta, fencia, cartaginesa, pudera domar ou
corromper.
Ajudada pela superioridade da cincia militar, a superioridade da civilizao
romana devia ter aco imensa nessas sociedades imperfeitssimas dos 
indgenas, aos
quais faltava o vnculo da unidade nacional e que, misturados com as raas 
fencia,
grega e cartaginesa, tinham tomado costumes, vocbulos e ideias de cada um 
destes
povos, sem que esses elementos adventcios tivessem tempo suficiente para 
se
incorporarem perfeitamente no elemento cltico e formarem com ele um todo 
compacto
e homogneo capaz de resistir  influncia civilizadora de Roma. Esta no 
empregava
s as armas para assegurar a sujeio dos pases que subjugava; introduzia 
neles as suas
colnias, as suas leis, os seus costumes: trocava com eles at os deuses, 
recebendo os
estranhos nos prprios templos, mas exigindo reciprocidade religiosa; dava a 
provar a
esses homens rudes o luxo e os prazeres de que era mestra: recebia-lhes os 
produtos da
sua agricultura e indstria, e interessava-os assim por muitos modos na 
existncia e
prosperidade da grande repblica. As consequncias deste sistema em pases 
de raas
mais antigas e simples, como nas Glias, foram uma assimilao quase 
completa: o que
seria, pois, na Pennsula, onde ele devia actuar com tanta mais fora quanto  
certo que
a mescla das gentes, a variedade de origens nos usos, o encontrado e confuso 
das leis e
tradies religiosas tornavam mais fceis as consequncias naturais daquele 
sistema?
A revoluo de Sertrio, que por anos roubou grande poro de territrio 
espanhol
ao jugo de Roma, no destruiu a j adiantada conquista da civilizao romana. 
Um
historiador moderno avalia como errada a poltica desse homem extraordinrio, 
que ele
acusa de ter procurado plantar  fora nesta nova ptria que para si criara os 
costumes e
leis da repblica, em lugar de favorecer a civilizao indgena, cujos germes ia 
existiam
no solo da Espanha 29 . Ns vemos a diversa luz o procedimento de Sertrio; 
vemos
nisso uma prova da facilidade com que desde a poca dos Cipies at  dele a 
vida
romana tinha adulterado, se tal expresso cabe aqui, esse composto no 
radicado de
tradies clticas, fencias, gregas e cartaginesas que constitua o modo de ser 
dos
indgenas. Em vez de condenar o procedimento de um indivduo 
indubitavelmente
grande e que conhecia melhor que ns a Espanha do seu tempo, parece-nos 
mais natural
deduzir desse procedimento o estado moral dela. Supondo que o acomodar a 
Pennsula
s formas sociais romanas fosse violento para a populao desta provncia, o 
erro de
Sertrio, empenhado numa luta perigosa com os seus compatrcios, seria 
demasiado
28 Lvio, Histria, L. 28, c. 16 e 38, e L. 47, c. 28 e 35, Suplemento, citado 
por Figueiredo, Memrias
da Academia, T. 9, p. 177.
29 R. Saint-Hilaire, Histoire dEspagne, Introduction, c. 4..22
grosseiro para no lho havermos de atribuir de leve. O que  certo, porm, em 
qualquer
das hipteses,  que o ilustre foragido romano converteu ou acabou de 
converter numa
imagem da repblica o pas sobre que adquirira ilimitado poder.
A Lusitnia, a Celtiberia e parte da Btica foram as provncias que Sertrio
principalmente disputou a Roma 30 . Chamado de frica pelos lusitanos para 
os
capitanear, trouxe consigo trs mil soldados daquelas partes, e os proscritos, 
como ele,
por Sua abandonavam a Itlia para se refugiarem na Lusitnia. Os seus 
combates e
vitrias no vm ao nosso intento. O que nos importa so estas contnuas 
migraes que
se estabeleciam no pas e que iam forosamente cada vez apagando mais o 
tipo cltico,
ao passo que os indgenas se rareavam diariamente nas pelejas do seu novo 
chefe. No
era, porm, s isto. Sertrio armou, organizou e disciplinou  romana os 
prprios
soldados, posto que com menos simplicidade; e Perpena, que no meio das 
guerras civis
reunira na Sardenha vinte mil homens, passando  Espanha veio reforar com 
eles o seu
exrcito. Obedecido por mais de setenta mil soldados italianos, espanhis e 
africanos e
envolto na guerra com Pompeio e Metelo depois da morte de Sila, Sertrio no 
se
esqueceu de por todos os modos converter a poro da Espanha em que 
dominava numa
imagem do Lcio. Ebora foi feita capital da Lusitnia, Osca, da Celtibria. Um 
senado
composto de trezentos senadores, todos romanos, representava o Senado de 
Roma. Osca
ficou sendo o centro da reforma intelectual, como Ebora o era da civil e poltica. 
Na
capital dos celtiberos estabeleceu-se uma como universidade, onde as 
literaturas grega e
latina eram ensinadas por mestres dessas duas naes. S esta educao 
conferia aos
espanhis o carcter de cidados romanos e ficava sendo assim o caminho 
dos cargos
importantes. A afeio de Sertrio pelas coisas ptrias no alterou a que os 
lusitanos lhe
consagravam, o que, apesar do espanto que causa a alguns historiadores 
modernos,
prova s que ele no se havia enganado pressupondo que os habitantes da 
Pennsula
receberiam de bom grado as ltimas condies de uma civilizao mui superior 
 sua, a
qual j anteriormente conheciam e tinham em parte aceitado.
Morto Sertrio pela traio de Perpena, a Espanha submeteu-se a Metelo e
Pompeio. Da a poucos anos Csar, pretor ento na Lusitnia, exigiu dos 
habitantes do
Hermnio (serra da Estrela) que viessem viver nas planuras. Eram estes 
homens os que
conservavam menos apagados os vestgios do celtismo, e a poltica dos 
romanos
consistia,, como temos dito, em trajar com os seus costumes todos os povos 
sobre quem
imperavam. Os montanheses resistiram; mas o resultado daquela intil 
resistncia foi o
serem exterminados.
Seguiram-se as guerras civis de Csar e Pompeio. Nesta luta terrvel, primeiro
acto do grande drama em que a repblica se ia converter em monarquia, a 
Pennsula foi
o principal teatro dos combates terrestres. As tropas romanas, compostas de 
homens de
muitas partes da Europa, da frica e da sia e divididas entre os dois bandos, 
cruzaram
por multo tempo em todas as direces este solo que tanto sangue humano 
tem bebido.
As batalhas sucediam s batalhas; os assdios aos assdios; as povoaes 
destrudas
ficavam ermas dos seus habitantes; e tudo isto servia no s para acabar com 
as ltimas
e tnues barreiras que dantes estremavam as tribos indgenas, mas tambm 
para cada
vez tornar mais inextricvel a mistura de novas raas com a mescla j confusa 
dos
antigos povoadores.
Se, porm (no falando nos vascnios, sempre independentes e solitrios nas 
suas
montanhas), alguns caracteres de nacionalidade ibrica ou cltica, apesar dos 
factos
30 As coisas relativas  poca do predomnio de Sertrio na Pennsula acham-
se no L. 1 de Apiano, em
Plutarco, no L. 3 de Pioro, resumidas no L. 3 de Resende e miudamente 
narradas em Romey, que,
seguindo Masdeu, traa o quadro desses sucessos no T. 1, c. 5, da Histoire 
dEspagne. Vejam-se tambm
os fragmentos de Salstio relativos  guerra de Sertrio..23
polticos e sociais que temos rapidamente apontado, subsistiam ainda, o 
sistema
administrativo de Augusto Csar e dos seus sucessores, realizando de todo, 
posto que
por diverso motivo, o pensamento civilizador de Sertrio, acabou de 
desvanecer
forosamente esses caracteres. A Pennsula, que durante o tempo da repblica 
estivera
dividida em duas grandes provncias, a Citerior e a Ulterior, foi de novo dividida 
em
trs: a Btica, a Tarraconense e a Lusitnia. Depois, Constantino Magno 
retalhou-a em
cinco: Tarraconense, Cartaginense, Galcia, Lusitnia e Btica. Querem outros 
que esta
diviso remonte ao tempo de Adriano, talvez com pouco fundamento 31 . 
Subdividiam-se
as provncias em distritos ou conventos. No territrio do moderno Portugal 
caam dos
trs da Lusitnia dois, e um dos trs da Galcia: eram aqueles os de Beja e 
Santarm;
este, o de Braga. A residiam os magistrados administrativos, judiciais e 
militares. Das
outras povoaes as principais eram as colnias, cujo nome est indicando a 
origem
romana dos seus moradores, e os municpios, que, gozando de quase todas as 
vantagens
das colnias, tinham o privilgio de se regerem, no pelo direito comum, mas 
por leis e
instituies locais e de lhes ser aplicvel ao mesmo tempo uma grande parte 
do direito
pblico romano. Com o tempo esta distino importante desapareceu, e na 
poca de
Adriano s os eruditos sabiam qual era a diferena essencial dos dois gneros 
de
cidades, porque os privilgios dos municpios se achavam de facto abolidos 32 
. Havia,
alm destas, as rarssimas povoaes que parece terem sido habitadas 
exclusivamente
por indgenas, s quais, talvez s porque sem combate haviam aceitado o jugo 
romano,
se concedera o ttulo vo de confederadas. Eram as imediatas as imunes e as
estipendirias; aquelas exemptas dos impostos gerais; estas obrigadas a eles. 
As
contributas correspondiam at certo ponto s nossas aldeias, porque eram 
burgos
dependentes de outras povoaes mais importantes.
No pressuposto, porm, de que as povoaes a que se dava o nome de
confederadas fossem debaixo do domnio romano o ltimo refgio das antigas 
naciona-lidades,
no  possvel imaginar que elas bastassem para conserv-las no meio da
transformao geral da Pennsula. Plnio transmitiu-nos uma notcia 
circunstanciada da
distribuio relativa da populao na Btica e na Tarraconense 33 , e dela 
podemos
deduzir qual seria a da Lusitnia. De perto de quinhentas povoaes que as 
duas
provncias encerravam, vinte eram colnias e apenas seis confederadas. 
Assim, na
hiptese de que os habitantes destas ltimas pertencessem exclusivamente a 
raa mista
cltico-fencio-pnica, ainda no chegavam a corresponder a um tero da 
populao
exclusivamente estranha.
Note-se, todavia, que isto no passa de um pressuposto. Se, como acima
conjecturmos, o ttulo de confederadas indica, nas cidades que o receberam, 
uma
aceitao mais pronta e por consequncia mais antiga do domnio romano, 
elas no
seriam por certo aquelas cujos habitantes pudessem ter melhor jus a 
considerar como
estranhos os seus vencedores.
Mas fosse o que fosse,  certo que volvido apenas um sculo essas distines
haviam desaparecido. Vespasiano dava o direito latino a todas as povoaes 
de Espanha
que ainda o no tinham e dentro em breve Caracala atribua a dignidade de 
cidados
31 Masdeu, Historia Critica de Espaa, T. 8, p. 12. A este sincero e erudito 
escritor seguimos
principalmente sobre a poca do imprio; porque ningum averiguou com tanta 
exaco os sucessos e
instituies deste largo perodo da histria peninsular. Certos historiadores 
franceses recentes no tm
feito seno aproveitar os seus imensos trabalhos, tratando-o, s vezes, com 
uma sobranceria assaz ridcula
aos olhos dos homens judiciosos, que apreciam devidamente estas vaidades 
mesquinhas.
32 Obscura oblitterataque sunt municipiorum lura, quibus uti iam per 
ignorantiam non queunt, Aulo
Glio, Noites ticas, L. 16, c. 13.
33 Histria Natural, L. 3, c. 2 e 3..24
romanos a todos os homens livres 34 . No quarto sculo a cultura e ao mesmo 
tempo a
corrupo de Roma abrangiam plenamente todas as provncias do imprio. O 
direito
civil romano, que da capital se estendera pela Itlia, invadiu as provncias, sem
exceptuar a Grcia, que, como pas grandemente civilizado, salvara a prpria 
lngua,
enquanto a latina, corrompendo-se mais ou menos, obliterava as linguagens 
brbaras
dos outros povos conquistados 35 . Assim se formava uma s nao no 
Ocidente da
Europa, nao que, transpondo os limites dela, se estendia por vastas regies 
da frica e
da sia. A Espanha, que fora a que mais energicamente resistira  
assimilao, foi
tambm a que mais completamente a aceitou. Entre os escritores latinos 
ilustres contam-se
muitos filhos da Pennsula: as legies romanas compunham-se em parte de
espanhis; e vemos estes no Senado, nos cargos mais importantes do imprio 
e at no
trono dos csares. No deve, por isso, causar espanto que j na poca de 
Tibrio, em que
Estrabo escrevia, os habitantes do Centro e Oriente da Espanha, pacificados 
e
civilizados, como ele diz, tivessem recebido a forma de viver italiana 
juntamente com a
toga ou vestidura romana 36 .
Grandes historiadores tm desenhado o sombrio e imenso quadro da 
dissoluo do
imprio dos csares. Este resumia toda a civilizao antiga; resumia-a e 
continha-a em
si. Essa dissoluo havia acabado a tarefa que a Providncia lhe destinara na 
obra do
progresso humano. O cristianismo profundara j as razes na terra, vicejava 
aspergido
com o sangue dos mrtires, abrigava as sociedades com a sua vasta sombra e, 
tomando
os membros desse cadver gigante que se desconjuntava, ia preparando cada 
um deles
para o converter num corpo social cheio de mocidade e de vida. Novas 
migraes
desciam do Setentrio ao Meio-Dia da Europa para o renovar, como em 
tempos
remotssimos tinham descido das chapadas interiores da sia a povo-lo. As 
legies, a
poltica dos imperadores e a majestade do nome romano serviram por algum 
tempo de
dique  invaso. Fora, porm, Deus que soltara a torrente. Era uma luta 
sublime a da
civilizao contra a barbaria; mas esta rompeu as barreiras. As hostes e as 
tribos sel-vagens
do Norte arrojavam-se por cima do imprio: a vaga seguia-se  vaga. Daquele
grande cataclismo nasceram as naes modernas.
Situada no extremo da Europa e defendida pelas speras serranias dos 
Pirenus, a
Espanha no se esquivou, apesar disso,  sorte comum das outras provncias 
romanas.
Nos primeiros anos do sculo V, dividido j o imprio entre dois imperadores, o 
do
Oriente e o do Ocidente, e em um sem-nmero de bandos civis alevantados 
pelos
ambiciosos, Gerncio, general romano que governava na Espanha, tendo feito 
aclamar
imperador um certo Mximo, abriu passagem pelas montanhas aos vndalos, 
alanos e
suevos. Este sucesso mudou subitamente a sorte da Pennsula. Os vndalos e 
suevos
apossaram-se dos territrios da Galcia e do que hoje chamamos Castela-a-
Velha; os
alanos ocuparam a Lusitnia e a Cartaginense; os silingos, tribo vndala, 
fizeram
assento na parte da Btica actualmente denominada Andaluzia 37 . A irrupo 
dos
brbaros foi assinalada por todo o gnero de devastaes. Morreu gente 
inumervel no
primeiro mpeto, antes que os ferozes conquistadores escolhessem as 
provncias em que
haviam de estanciar.  guerra associaram-se a peste e a fome. Chegou o povo 
 misria
horrvel de devorar carne humana, e as mes a cevarem-se nos cadveres dos 
filhos. As
34 Sobre a organizao social da Lusitnia no tempo dos imperadores veja-se 
a Memria 2, de Amaral,
sobre a Histria da Legislao e Costumes (Memrias de Literatura da 
Academia, T. 2, p. 313);
Lembke, Geschichte von Spanien, Einleitung, k. 1.
35 Savigny, Geschichte des Roemischen Rechts in Mittelalter, I B., K. 1., 
pargrafo 3; Resende, De
Antiquitatibus, L. 3, f. 140; id. De Colonia Pacensi, na Hispnia Ilustrada, T. 
2, pp. 1000 e ss.
36 Pacatos jam populos, et mansuetis moribus, et com toga formam indutos 
italicam, Estrabo, L. 3.
37 Idcio, Cronica na Espaa Sagrada, T. 4, pp. 353 e 354; Zzimo, 6, 5; 
Orsio, 7, 5, citados por Pfister,
Geschichte der Teutschen, 1 E., S. 229..25
bestas-feras saam dos bosques e afeitas  carnia dos mortos avanavam a 
tragar os
vivos. Ento os brbaros dividiram entre si este pas convertido quase num 
ermo,
estabelecendo-se em separado do modo que acima dissemos, e os restos dos 
habitantes
das provncias invadidas por eles aceitaram o jugo dos vencedores 38 .
Mas o povo que devia substituir esta primeira aluvio e estabelecer na 
Espanha o
seu domnio de trs sculos no tardou a transpor os Pirenus. Os visigodos,
capitaneados por Ataulfo, invadiram a Pennsula. Por alguns anos durou a 
guerra destes
com os primeiros invasores; guerra de extermnio, qual devia ser entre gente 
feroz e de
que ainda forosamente foi vtima uma parte desses rareados restos da antiga 
populao.
Vlia, sucessor de Ataulfo, atacou os alanos da Lusitnia e os silingos da 
Btica, e
depois de uma luta de trs anos obrigou os que sobreviveram  destruio da 
sua raa a
buscarem na Galcia o amparo dos suevos. Valia fizera paz com o imperador 
romano
Honrio, e nestas guerras os visigodos eram considerados como auxiliares do 
imprio.
Incorporados os alunos e silingos com os suevos, estes, posto que 
independentes de
facto, reconheceram a supremacia de Roma, e os visigodos contentaram-se 
com o
domnio do Sul das Glias. A paz era, todavia, impossvel. Os vndalos 
comearam
logo uma como guerra civil com os suevos, que os desbarataram; e eles, 
obrigados a sair
da Galcia, precipitaram-se de novo sobre a Btica. Dali, passados tempos,
transportaram-se para a frica, restando apenas na Espanha os suevos, com 
quem se
haviam incorporado os diminutos restos dos alanos exterminados por Vlia. 
Logo,
porm, que os vndalos abandonaram a Europa, os suevos comearam a 
dilatar o seu
imprio pela Lusitnia e Btica, at que em contnuas guerras com os romanos 
e com os
visigodos, j substitudos a eles no domnio da Espanha, chegaram por fim a 
incorporar-se
na monarquia visigtica no tempo de Leovigildo. 39
A populao hispano-romana desaparecera em grande parte debaixo das 
espadas
implacveis dos brbaros; mas esses tnues restos dela no se haviam 
geralmente
confundido com os conquistadores. Os visigodos, posto que os mais civilizados 
entre os
povos germano-gticos, conservaram por algum tempo nas suas instituies a 
linha
divisria entre si e os romanos. Por fim, essa linha obliterou-se. Facilitados os
consrcios entre as duas raas, sujeitos todos os membros da sociedade s 
leis de um
cdigo nico e anuladas as distines do direito gtico e romano 40 , os 
habitantes da
Pennsula, debaixo do nome de godos, constituam, ao menos nas 
exterioridades, uma s
nao quando a conquista rabe veio confundir ainda mais, se era possvel, 
aquela
mistura inextricvel de homens de muitas e diversas origens.
Paremos aqui. No corpo do nosso trabalho teremos ocasio de examinar quais
foram os elementos imediatos da moderna povoao das Espanhas, 
especialmente da de
Portugal. No rpido bosquejo das revolues que por este solo passaram 
durante as eras
antigas, quisemos habilitar o leitor despreocupado para concluir o que ele j 
ter
concludo; isto , quanto seja dificultosa de conceber uma relao de 
nacionalidade
comum entre nos e os lusitanos, ou outra qualquer tribo ou raa das que 
primitivamente
habitaram na Pennsula. Estas primeiras migraes da sia, iberos, celtas, ou 
o que
38 Barbari caede depraedantur hostili. Pestilentia suas partes non segnius 
operatur... fames dira grassatur,
adeo ut humanae carnes ab humano geneve vi famis fuerint devoratae: matres 
quoque necatis vel coctis
per se natorum suorum sint pastae corporibus. Bestiae occisorum gladio, fame, 
pestilentia cadaveribus
assuetae, quosque homines fortiores interimunt... Hispani por civitates et 
castella residui a plagis,
barbarorum por provincias dominantium se subjiciunt servituti, Idcio, Crnica 
na Espaa Sagrada, T.
4, p. 354.
39 Idcio, Crnica, ab anno 419 usque ad annum 450; Romey, Histoire 
dEspagne, T. 2, c. 11 e 13;
Rosseeuw Saint-Hilaire, Histoire dEspagne, L. 1, c. 1; Memrias de Literatura 
da Academia, T. 6, pp.
127 e ss.
40 Codex Wisigothor, L. 3, tit. 1, 1. 1, L. 2, tit. 1, 1. 9..26
quiserem, demasiado vizinhas da infncia do gnero humano, no podiam ser
numerosas. Atravessando a Europa sem nenhuns meios artificiais de trnsito,
hostilizando-se mutuamente em guerras que mal entram no domnio das 
afirmativas
histricas, no deviam ter multiplicado a ponto de poder a sua individualidade 
resistir ao
contacto das colnias fencias que lhes trouxeram os primeiros benefcios da 
civilizao.
No longo domnio cartagins a influncia pnica foi por certo ainda mais 
profunda, e a
conquista romana acabou quase inteiramente com o celticismo. No queremos 
dizer
com isto que nenhuns vestgios se possam encontrar dos celtas. Existiro 
algumas runas
das suas grosseiras moradas; algumas palavras da sua linguagem; talvez 
algumas aras
broncas dos seus deuses quase desconhecidos. Mas esses vestgios que 
proporo tm
com os dos romanos, que ainda encontramos por toda a parte e em tudo; na 
lngua, nos
monumentos arquitectnicos, lapidares e numrios, nos costumes populares, 
nas
instituies sociais e leis civis, no restabelecidas pelo Renascimento, mas 
conservadas
atravs do domnio gtico e rabe? Que proporo tm sequer com os poucos 
vestgios
dos emprios gregos de que nos restam recordaes nas pginas da histria? 
E
remontando ainda mais longe, podem, ao menos, as reminiscncias clticas 
comparar-se
com as dos fencios e cartagineses, conservadas no antigo politesmo 
espanhol, nas
coleces numismticas, nas designaes corogrficas e no que a tal respeito 
nos
transmitiram os escritores gregos e latinos? Da importncia relativa desses 
diversos
vestgios, comparados com o que a histria nos relata sobre as vrias 
populaes que se
foram sobrepondo umas s outras nesta regio por meio dos estabelecimentos
comerciais, conquistas e sistemas polticos das grandes naes do mundo 
antigo, resulta
para ns a persuaso de que ao acabar o imprio dos romanos, a 
nacionalidade dos
anteriores habitantes da Espanha, no sendo j, antes da entrada destes, 
simples e
exclusiva, mas uma confusa mistura de diversos povos, acabou brevemente 
por delir-se
e incorporar-se na forte nacionalidade romana. Os monumentos visigticos que 
nos
restam do-nos indirectamente a prova disto: quando os visigodos queriam 
distinguir os
indivduos espanhis que no pertenciam  raa germnica, no achando entre 
esses
homens um carcter, um sinal que mostrasse neles diversidade de origem, 
designavam-nos
constante e uniformemente pelo nome de romanos: a romana e a gtica eram 
de
feito as duas nicas sociedades que ento existiam na Pennsula.
Apontmos acima entre os principais vestgios da civilizao romana os da 
lngua.
Apesar da rapidez com que devemos prosseguir nesta introduo, mais larga
necessariamente do que desejramos, importa esclarecer aqui um facto.  o 
do
predomnio absoluto da linguagem dos romanos na poca em que lhes 
sucederam os
visigodos. A opinio de que o cltico se tem conservado no essencial das 
lnguas da
Espanha, atravs de todos os sucessos polticos e sociais durante muito mais 
de vinte
sculos, comeou a correr entre ns h anos com algum aplauso. Esta voga 
proveio-lhe
de certo aparato de razes filosficas em que se estribou. Disse-se que a 
filiao das
lnguas se no devia deduzir da semelhana dos vocbulos, mas sim da ndole 
delas:
procuraram-se provas, e at certo ponto acharam-se, de diferenas e 
antinomias
gramaticais entre o latim e o portugus; e daqui se concluiu que esta ltima 
lngua
conservava na ntima essncia uma origem primitiva cltica. O monstruoso 
deste
raciocnio aparece logo que se reduz  sua simplicidade; mas, envolvido num 
grande
nmero de consideraes e revestido da autoridade de alguns factos que 
concordam com
uma ou com outra das suas premissas, fcil foi escapar a muitos que a 
concluso no se
continha nelas. Admitindo o princpio, alis falso, de que as filiaes das 
linguagens
humanas se devam exclusivamente buscar nas semelhanas de sintaxe, e 
concedido que
na realidade se do grandes diferenas de ndole entre o portugus e o latim, a
consequncia legtima disso fora unicamente que deste no proviera aquele. 
Para.27
provar, porm, a sua origem cltica era necessria mais alguma coisa: devia 
expor-se a
ndole da antiga linguagem dos celtas de Espanha e achar as analogias ntimas 
entre essa
linguagem e a nossa e o contraste de ambas com o latim. Eis o que se no fez 
e que 
impossvel fazer-se. A hiptese de que o portugus procede do cltico tem a 
runa na
base. Essa lngua primitiva passou sem deixar monumentos: o que hoje 
subsiste  um
certo nmero de dialectos que se crem clticos, mas cuja semelhana relativa 
com o
idioma de que procederam ningum ousaria determinar, tanto mais que entre 
eles se do
gravssimas diferenas.  o ersa, o galico, o armrico ou o welsh o 
representante mais
prximo do antigo cltico? Era esta uma lngua comum a todos os povos da 
mesma
raa, ao menos dos que estanciavam pela Pennsula? Sobre estas duas 
questes apenas
se podero fazer conjecturas mais ou menos arriscadas e que, todavia, fora 
preciso
resolver com clareza antes de converter a hiptese em tese. Isso, porm, 
repetimo-lo, 
impossvel, posto que uma passagem de Estrabo 41 , passagem de que alis 
os
defensores das origens clticas creram tirar vantagem, decidiria negativamente 
a
segunda questo, se porventura se admitisse que o gegrafo grego aludia 
nesse lugar a
variedades da lngua cltica. Em tal caso importaria determinar de modo 
positivo qual
dessas lnguas diversas, de que se cr que ele fala, transfundiu para a nossa a 
sua ndole.
Neste lugar s nos cabe fazer sentir que os resultados da conquista romana se
estenderam at a transformao dos idiomas da Espanha, fossem eles quais 
fossem. O
modo como, atravs do domnio visigtico, da invaso rabe e da reaco 
crist, se foi
alterando a linguagem hispano-romana no Ocidente da Pennsula at chegar a 
produzir
dialectos diferentes que se constituram em diferentes lnguas, no cabe neste 
lugar.
Aqui s importa saber se o idioma dos romanos tomou ascendente decisivo 
sobre as
linguagens mais ou menos brbaras e confusas que at ento se falavam e 
que no
podiam ser exclusivamente clticas, mas sim mescladas de ibrico, cltico, 
fencio,
grego e pnico, bem como o eram no sangue os habitantes da Espanha; 
mescla que
ainda hoje encontramos nos vestgios dessas lnguas, bem aparentes nos dois 
principais
idiomas modernos desta regio, o portugus e o castelhano.
Dissemos acima idioma dos romanos e no lngua latina. Dissemo-lo mui 
de
propsito. Quando se assevera que o latim se tornou a linguagem geral da 
Espanha,
afiguramo-nos que os espanhis repetiam vulgarmente os perodos eloquentes 
de Ccero
ou usavam do estilo fcil e harmonioso de Tito Lvio, ou que, enfim, guardavam 
as
regras severas da gramtica latina com o mesmo escrpulo com que 
costumavam
respeit-las os bons escritores do sculo de Augusto. Esta ideia errada basta 
por si a
levar alguns espritos a inclinarem-se para os sonhos do celticismo, 
persuadidos, e com
razo, da impossibilidade de admitir semelhante ideia. O facto , porm, outro. 
Em
Roma o vulgo falava, sem dvida, de modo diverso daquele que os escritores 
usavam.
Essa linguagem, que Suetnio chama quotidiana e Aulo Glio rstica 42 , 

denominada por outros autores pedestre, vulgar, simples 43 , Misturada 
de
vocbulos desconhecidos nos livros, imperfeita no mecanismo dos verbos e 
nas
41 Utuntur et reliqui hispani grammatica, non unius omnes generis: quippe nec 
eodem quidem sermone,
Estrabo, Geografia, L. 3 (p. 204 da edio de Amesterdo, 1707, notis varior).
42 Quotidiano sermone, quaedam... usurpasse eum (c. Octvio) litterae ipsius 
autographae ostentant...
baceolum... pulleiaceum... vacerrosum... vapide sese habere... betizar... 
lachanizare. Item simus pra
sumus et damos genitivo casu, Suetnio, Octvia, c. 87 (edio de Ernesto, 
1775). Daqui se v que o
povo no s usava de vocbulos estranhos  lngua literria, mas tambm 
alterava a declinao dos nomes
e a conjugao dos verbos. E advirta-se que Augusto no escrevia na 
linguagem popular, mas apenas
usava de algumas palavras dela: Quaedam. Quod nunc utem barbare quem 
loqui dicimus, id vitium
sermonis non barbatmn esse sed rusticum, Glio, Noites ticas, L. 13, c. 6.
43 Ducange, Glossaire, Praefat, c. 28; Augustinus, De Vita Beata, cit. por 
Cantu, Staria Universal, T. 8, p.
485..28
desinncias dos casos, seguia-se-lhe da a necessidade de empregar as 
preposies mais
frequentemente, para distinguir estes, e de uma ordem natural e sem inverso 
na
sucesso das palavras 44 ; precisava, enfim, de alterar ndole da lngua culta e 
de
aproximar-se, quanto a essa ndole, das formas mais simples que tomaram os 
idiomas
modernos do Meio-Dia da Europa.
Esta linguagem popular era, porventura, em parte um resto da antiga lngua do
Lcio conservada tenazmente pela plebe e alimentada pela acesso sucessiva 
dos povos
da Itlia  sociedade romana 45 ; em parte um resultado das conquistas. Nas 
longnquas e
duradouras guerras da repblica, as tropas romanas, vagueando por diversas 
partes,
residindo por dilatados perodos no meio de estranhos, recrutando legies 
inteiras entre
estes, eram, saindo de Roma e voltando a ela continuamente, um veculo de 
palavras e
frases brbaras que tendiam a conservar a linguagem popular estranha  
literria e,
talvez, a afastar cada vez mais uma da outra. E, na verdade, j Ccero se 
queixava de
que os estrangeiros, principalmente os celtas (braccatae nationes), aludindo a 
Roma,
houvessem alterado a pureza da dico 46 . Por outra parte, a notvel 
diferena da lngua
plebeia  lngua escrita descobre-se nos monumentos mais antigos e nas 
palavras e
locues daquela, que, voluntria ou involuntariamente, introduziram nas suas 
obras
ainda os mais clebres autores romanos 47 .
Se o trato com as naes brbaras teve poderosa influncia no idioma latino, 
qual
no devia ser a deste nos povos conquistados, quando um dos meios que a 
poltica
romana considerava como mais eficazes para consolidar o seu domnio era a 
introduo
da prpria linguagem? Trabalharam, diz Santo Agostinho, para que a altiva 
Roma
no s impusesse o seu jugo aos povos vencidos, mas at a sua lngua depois 
de asso-ciados
pela paz. 48 A organizao administrativa das provncias novamente 
adquiridas
era, de feito, a mais conveniente para obter semelhante fim. Vimos 
anteriormente qual
foi em geral na Espanha essa organizao; mas para bem compreender quanto 
ela era
apropriada para romanizar, digamos assim, as gentes domadas pelas armas ou 
pelas
alianas, fazendo-lhes esquecer at a linguagem nativa, no ser fora de 
propsito
acrescentar aqui algumas observaes ao que acima apontmos. A razo e o 
testemunho
dos historiadores conspiram em persuadir-nos de quanto foi radical aquela 
mudana.
O sistema de povoao dos romanos, como j ponderou um dos mais clebres
historiadores modernos 49 , era at certo ponto o inverso do nosso. Em todas 
as
provncias sujeitas a Roma reflectia-se a vida social desta. O municpio, que 
fora a
forma de sociedade com que a repblica nascera, vigorara e crescera, e que as
revolues interiores, a tirania dos csares e, at, a invaso dos brbaros no 
puderam
extinguir, reproduziu-se por todas as partes aonde chegou o domnio romano. 
A histria
dos primeiros tempos da Europa mostra-nos que apenas as tribos vindas da 
sia, a
44 Era por isso que Augusto, que aborrecia os discursos obscuros, nio 
poupava, falando ou escrevendo, as
preposies e conjunes, segundo diz Suetnio (c. 86): Neque 
praepositiones verbis addere, neque
conjunctiones saepius iterare dubitavit. Ernesto, com Grvio e Gronvio, leu 
urbibus por verbis, o que
nos parece no ter sentido. Suetnio aludia sem dvida aos discursos de 
Augusto e aos seus escritos para
o povo, nos quais ele provavelmente falava a linguagem vulgar, seguindo a sua 
judiciosa doutrina de se
fazer entender por todos, em vez de buscar frases e palavras esquisitas.
45 Cantu, ibid., pp. 427 e ss.
46 De Orat., c. 5, n. 94.
47 Quintiliano, Instituio Oratria, L. 1, c. 9. Quem quiser estudar mais 
largamente a matria consulte
Hallam, Europe in the Middle Ages, c. 9; Tiraboschi, Storia della Letteratura 
Italiana, T. 3, p. 1 (edio
de Florena, 1806); Ducange, Glossaire, Praefat.; Mmoires de lAcadmie der 
Inscriptions, T. 24, pp.
482 e ss.; Cantu, Storia Universal, T. 8, c. 19 (Turim, 1842).
48 De Civitate Dei, L. 19, c. 9, citado por Bonamy nas Mmoires de lAcadmie 
des Inscriptions, 1. 24, p.
587.
49 Guizot, Histoire gnral de la civilizatian en Europe, Leon 2..29
princpio vagabundas, faziam definitivamente assento em qualquer regio, 
edificavam
as suas rudes moradas do mesmo modo que, provavelmente, costumavam 
estabelecer os
seus acampamentos nocturnos no processo das migraes: apinhavam-nas 
dentro de um
ou dois valos, que, cingindo-as em comum, lhes servissem de defenso contra 
as feras e
contra outras tribos no menos cruis que estas. Tem-se dito que os celtas 
eram uma
raa vagabunda por natureza. Atribuir-lhes, porm, como carcter especial uma 
ndole
erradia parece-nos inexacto. Em regra geral, a existncia ou no existncia 
dessa
circunstncia nos hbitos de qualquer povo  determinada, no pelas suas 
propenses
ingnitas, mas pelo seu grau de civilizao ou pelas circunstncias peculiares 
da regio
em que habita, como acontece entre os rabes do deserto. Por outra parte, as 
narrativas
dos antigos historiadores no-los representam como vivendo em povoaes a 
que, na
falta de uma denominao mais exacta, eles aplicam a de cidade.  assim, 
pelo menos,
que as memrias mais remotas nos dizem terem vivido as tribos clticas da 
Espanha no
tempo dos fencios e cartagineses e quando o domnio destes comeava a dar 
campo ao
dos romanos. A terminao cltica brig, comum a multas cidades da Lusitnia e 
das
outras provncias onde os celtas haviam feito assento, nos mostra que o 
princpio e o
ncleo delas tinham sido esses grupos de choupanas circulares construdas de 
pedras
toscas que lhes serviam de morada, e de que as chamadas runas de Citnia 
ou Cinnia,
entre Guimares e Braga, so porventura um monumento 50 .
Reunidos j por este modo os celtas espanhis naquela espcie de vilas, 
rodeados
de colnias gregas e fencias, ligando-se a elas pelos laos do comrcio, da 
indstria e
logo necessariamente do sangue, habituados, enfim, ao jugo estranho dos 
cartagineses, o
sistema de organizao romana devia achar neste pas menos resistncia que 
noutros
onde os elementos sociais fossem mais simples, primitivos e por consequncia
radicados. Repare-se bem que falamos da conquista da civilizao, que na luta 
de dois
povos nem sempre  regulada pela conquista poltica e em que, at, muitas 
vezes o
vencido  o verdadeiro conquistador. Como j advertimos, as particularidades 
da guerra
tenaz que os espanhis sustentaram contra os romanos mostram que ela foi 
ainda mais
um resultado da influncia pnica do que do sentimento de nacionalidade da 
raa
cltica.
As populaes mistas que habitavam a Pennsula haviam, pois, desde largo 
tempo
abandonado a vida errante para conviverem juntas em povoados. Assim a 
poltica
romana no teve j de as constranger a darem esse passo, o mais difcil para 
os
selvagens, ao qual se pode chamar o baptismo da civilizao e que no orbe 
romano era a
primeira condio dela. As aldeolas, as granjas, as habitaes insuladas por 
meio dos
campos pressupem extremo aperfeioamento na vida civil. Este grande facto 
social
pertence exclusivamente s eras modernas. Os romanos desconheceram-no. 
Ouamos o
que a semelhante propsito diz o profundo e eloquente escritor a que acima 
aludimos:
Limitando-nos a falar do Ocidente, por toda a parte nos aparece o facto que 
apontei.
Nas Glias, na Espanha no encontrais seno cidades. Os territrios desviados 
delas
esto cobertos de selvas e de alagadios. Averiguai qual seja o carcter dos
monumentos, das vias romanas. Achareis estradas reais que vo de cidade a 
cidade;
porm, essa multido de caminhos encruzilhados que hoje sulcam todo o 
territrio eram
ento incgnitos. Nada havia que se parecesse com a indizvel quantidade de
monumentozinhos, de aldeias, de castelos, de igrejas, dispersos pelo pas 
desde a Idade
Mdia. Roma s nos herdou vastssimos monumentos afeioados pela ndole 
municipal
50 Pode ver-se a descrio destas runas, que tm todos os caracteres de 
construo cltica, em Argote,
Memrias para a Histria Eclesistica de Braga, p. 161. Posto que muito mais 
deterioradas, elas
conservam ainda os vestgios da sua origem. Argote, dominado pelas velhas e 
falsas ideias sobre a
barbaria dos sarracenos, inclina-se a crer que esses restos sejam de 
construo rabe..30
e destinados para uma populao numerosa, aglomerada num ponto nico. 
Examinai a
que luz vos aprouver o mundo romano, que sempre achareis essa 
preponderncia quase
exclusiva das cidades e a no existncia social dos campos. O mesmo 
escritor j tinha
notado que: Nesta poca no havia o campo; isto , o campo no se parecia 
com o que
 hoje. As terras cultivavam-se, na verdade, porque isso no podia deixar de 
ser; porm,
no estavam povoadas. Os proprietrios delas eram os habitantes das cidades, 
os quais
saam a inspeccionar as suas granjas, onde conservavam frequentemente 
certo nmero
de escravos. Mas aquilo a que chamamos hoje o campo; esta populao solta, 
ora em
habitaes solitrias, ora em aldeias, e que cobre por toda a parte o solo, era 
facto quase
desconhecido na antiga Itlia. 51
E este facto fundamental que distingue a civilizao antiga da moderna  que 
nos
d perfeitamente a razo por que os romanos convertiam com certa rapidez as 
outras
nacionalidades na sua e alcanavam, at, substituir a prpria linguagem  dos 
povos
subjugados. A assimilao devia ser tanto mais fcil quanto os vencidos 
fossem ou mais
brbaros ou de raas mais misturadas. Nas Glias realizava-se principalmente 
a primeira
hiptese: na Espanha, principalmente a segunda. Imaginemos a gente nativa, 
encerrada
nos muros das cidades ou reconstrudas ou edificadas de novo pelos romanos, 
sujeita
com o correr dos tempos  organizao administrativa, judicial e militar dos
conquistadores, frequentada pelos seus magistrados, funcionrios e exactores, 
aquar-telando
as suas tropas, tratando os pleitos nos seus tribunais, recebendo dos romanos 
os
cmodos da vida e os objectos de luxo, correndo aos teatros que se 
alevantavam por
toda a parte e aonde os atraam as graas e as pompas do drama latino, e 
recolhendo nos
prprios muros um grande nmero de indivduos, que, depois de militarem nos 
exrcitos
de Roma, vinham transformados em romanos, orgulhosos da ilustrao 
adquirida no
meio deles, converter com o desdm da superioridade  vida e  linguagem da 
Itlia os
outros membros mais grosseiros das suas famlias. Depois, quando estas e mil 
outras
causas de assimilao actuando por sculos produziram todo o seu efeito, as 
diferenas
que distinguiam os vencidos dos vencedores desapareceram inteiramente. 
Caracala,
atribuindo o carcter de cidados romanos a todos os homens livres do 
Imprio, no
fazia uma revoluo nas instituies, mas simplesmente declarava que um 
grande facto
social se achava consumado.
Todavia, como escaparam atravs de to completa transformao vocbulos e
usanas que ainda hoje atestam a existncia independente dos povos da 
Espanha antes
que a civilizao romana os devorasse? A explicao desse fenmeno  bvia. 
Pas
domado pelas armas, a Pennsula devia ter visto cair muitos dos seus filhos na 
servido.
Era por meio dos escravos que os romanos cultivavam as terras, e  sabido a 
que ponto
de tirania a escravido chegou entre eles 52 . Os servos agricultores foram os 
mais
oprimidos pela desumanidade e pelo capricho dos senhores do mundo. Longe 
da
conversao civil, tratados ainda pior que os animais, tendo comummente por 
morada
os crceres subterrneos das granjas, chamados ergstulos, sem proteco 
nas leis e
nos tribunais, porque a morte ou a vida dependia para eles unicamente da 
vontade do
senhor, estes homens, malditos do mundo e cuja sorte seria ainda horrvel 
comparada
com a dos negros numa roa da Amrica, alheios civilizao que se esquecera 
deles,
cheios de terror e de dio para com os habitantes das cidades, deviam 
conservar
tenazmente os costumes e a linguagem mista de cltico, fencio, grego e 
pnico em tudo
aquilo em que por seus donos isso lhes fosse consentido. Quando, porm, as 
leis dos
51 Guizot, ob. Cit.
52 As passagens dos escritores latinos relativas aos escravos e especialmente 
aos que eram destinados para
os trabalhos rurais acham-se compiladas por Beaufort, Rpublique romaine, L. 
6, c. 4. A se podem ver os
testemunhos contempoineos em que se estriba o que dizemos neste 
pargrafo..31
imperadores e a influncia do cristianismo foram tornando mais suave a sorte 
daqueles
desgraados; quando a decadncia do imprio e as invases germnicas 
confundiram
tudo, essa raa espria, atirada ao meio de uma sociedade moribunda cujos 
usos e
linguagem se corrompiam rapidamente, devia, confundindo-se com ela, trazer-
lhe
tambm a sua parte de corrupo. E a esta causa que ns atribumos 
principalmente os
vestgios de tradies clticas, fencias, gregas e pnicas que ainda subsistem, 
no s na
lngua, mas tambm nos costumes.
Temos procurado fazer sentir a completa revoluo operada na Pennsula pela
civilizao romana e por consequncia a necessidade de admitirmos que a 
lngua latina
chegou a obter inteiro domnio nestas partes, cumprindo todavia no esquecer 
que essa
lngua devia ser a quotidiana, rstica ou simples, alterada desde logo por frases 
e
vocbulos indgenas e cujas diferenas do latim literrio s podemos at certo 
ponto
suspeitar, sendo as mais provveis entre elas, como dissemos, a confuso ou 
falta dos
casos nos nomes e das variaes verbais, donde era foroso nascesse a 
ordem natural no
discurso e o uso frequente das preposies. Agora vejamos se o testemunho 
dos
escritores desse tempo confirma o que havemos unicamente deduzido dos 
factos sociais.
Estrabo, o mais minucioso e exacto dos gegrafos antigos que trataram da
Espanha e cuja autoridade tem sido invocada em prova da permanncia do 
idioma
cltico como lngua geral debaixo do domnio romano, diz-nos, falando dos 
turdetanos:
Acrescem  bondade do clima que desfrutam os turdetanos a brandura e a 
civilizao,
o que, segundo Polbio,  tambm comum aos clticos pela vizinhana e 
parentesco,
posto que em grau menor por habitarem de ordinrio em lugarejos. Os 
turdetanos,
porm, principalmente os das margens do Btis, tomaram de todo os costumes 
romanos
esquecendo at a prpria lngua, e muitos, tornados latinos, receberam no seu 
seio
colonos de Roma, faltando pouco para inteiramente serem romanos. As 
cidades
ultimamente edificadas, Beja entre os clticos, Mrida entre os trdulos, 
Saragoa entre
os celtiberos, e vrias outras colnias provam essas mudanas de aspecto da 
sociedade.
Aos espanhis que seguem este modo de viver chamam estolados ou togados, 
entrando
neste nmero os celtiberos, tidos noutro tempo pelos mais feros e 
desconversveis de
todos. 53 Desta passagem vemos quanto j nos primeiros anos do governo 
de Tiberio 54
a transformao romana tinha lanado profundas razes na Pennsula, 
estendendo-se
pelo Meio-Dia e Centro da Espanha. No somente os turdetanos haviam 
abandonado os
seus costumes, trajos e linguagem, mas tambm os clticos, posto que menos 
com-pletamente,
e do mesmo modo os celtiberos, apesar de serem mais tenazes na barbaria.
Os clticos do Ocidente ou lusitanos, afeitos, segundo o mesmo escritor, a 
passar o Tejo
e a infestar os povos limtrofes quando se no guerreavam uns aos outros, 
foram
coibidos pelos romanos, que puseram fim ao mal convertendo em lugares 
abertos
muitas das suas povoaes e reconstruindo outras com melhor desenho 55 . 
No prprio
Norte da Espanha nunca inteiramente subjugado, a civilizao romana se 
espalhou
largamente. Aqueles mesmos que dantes destruam os territrios das tribos 
sujeitas 
repblica pelejavam j nas fileiras das legies imperiais. Tibrio, acantonando 
naquelas
partes trs coortes, como Augusto deixara determinado, no s alcanou 
pacificar o
pas, mas tambm chegou a reduzir muitos dos seus habitantes  vida civil 56 . 
As tropas
romanas continuavam a guarnecer os distritos dos calaicos, dos asturos, dos 
cantabros,
at os Pirenus. A Espanha Central e Oriental, cuja populao era, todavia, 
tranquila e
53 Estrabo, L. 3, pp. 225 e 226.
54 Estrabo escrevia a sua grande obra geogrfica no dcimo quinto ano da 
era crista, quarto do imperador
Tibrio. Consulte-se Vossio, De Historicis Graecis, L. 11, c. 6.
55 Estrabo, L. 3, p. 231.
56 Id., ibid., pp. 233 e 235..32
havia tomado o modo de viver itlico, oferece-nos uma circunstncia que 
descobre qual
era o estado de transformao a que j tinha chegado a Lusitnia. Posto que 
dependente
do imperador, enquanto a Btica pertencia ao povo, essa provncia era regida 
por um
legado pretrio sem guarnio militar, ao passo que a Celtiheria, apesar de to 
romana
nos costumes, ainda continuava a ser governada por um legado consular 57 .
Desde esta poca todos os monumentos histricos conspiram em nos mostrar 
os
habitantes da Pennsula inteiramente identificados com os romanos. Entre os 
muitos
factos que fora fcil amontoar em prova disso, um dos mais notveis , em 
nosso
entender, o usarem de nomes puramente latinos todos os indivduos espanhis 
dos
tempos dos imperadores, de modo que os nomes brbaros desaparecem 
inteiramente,
circunstncia que se no repetiu durante o domnio dos visigodos, quando, 
alis, cremos
indubitvel o haverem estes abandonado a lngua gtica pelo romano rstico, 
sem que
por isso deixassem de figurar na histria os Teodoricos, os Euricos, os 
Hermenegildos.
E o mesmo se pode dizer do domnio rabe, durante o qual, segundo o 
testemunho
tantas vezes citado de lvaro de Crdova, os morabes esqueciam a sua 
lngua romana
para s falarem o rabe, conservando, todavia, os nomes prprios da origem 
grega,
latina e goda, como se v da histria e dos documentos desse perodo.
Aulo Glio, numa das muitas anedotas literrias de que abunda o seu livro das
Noites ticas, nos faz bem conhecer quanto, pouco mais de um sculo depois 
de
Estrabo, os hispano-romanos consideravam como sua a lngua latina. Num 
sarau em
Roma, onde se haviam cantado vrias poesias gregas, houve quem, 
transportado de
admirao pela doura dos cantos helnicos, comeasse a motejar a rudeza 
dos poetas
latinos. Dirigiam-se os motejos a um espanhol, professor de eloquncia e 
homem de
variada instruo, que se achava presente. Gracejavam com ele acusando-o 
de agreste,
brbaro, simples declamador, dotado de uma facndia rbida e bulhenta e 
mestre de
uma lngua sem doura nem amabilidade. Irou-se o retrico, diz Glio, e 
comeou a
combater pela sua lngua ptria 58 , como se ali se tratasse de defender a 
prpria
religio e os prprios lares. Em um livro filolgico, Glio, chamando ao latim 
lngua
ptria de um espanhol, no nos deixa a menor dvida de que no tempo de 
Adriano esta
linguagem no era para um filho da Espanha um idioma estudado nas escolas, 
mas o
prprio do seu pas.
 por esta causa que no nos resta em toda a Pennsula da poca do completo
domnio romano, isto , do tempo do imprio, um nico monumento, um nico
testemunho preciso e indubitvel (como o  o de Glio sobre o uso vulgar da 
lngua
romana) que nos prove a durao do idioma cltico entre os espanhis, ao 
passo que o
ibrico, euscara ou vascono, no s atravessou essa poca, mas tambm 
chegou at
ns, porque as tribos que o falavam nunca entraram no grmio da civilizao 
romana.
Este facto constrange os que se persuadem de que o cltico resistiu  lngua 
latina a
explicar-nos qual foi a civilizao que posteriormente o anulou, deixando 
apenas no
portugus, no castelhano, no catalo, uma ou outra partcula ou palavra cuja 
origem
parea verdadeiramente cltica.
Aos fillogos que procuram sustentar o celticismo como base das modernas
linguagens das Espanhas importava sobretudo destruir o facto do completo 
predomnio
do latim, quer vulgar, quer literrio, durante a poca em que esta regio esteve 
sujeita
57 Id., ibid., pp. 253 e 254. Os que conhecem o sistema administrativo dos 
romanos sabem que os legados
pretrios se enviavam para as provncias inteiramente pacficas, enquanto para 
as que no eram de todo
sujeitas ou estavam na fronteira de povos inimigos se mandavam os 
consulares. Sobre as diversas formas
de administrao na Espanha, por esta poca, vejam-se as fontes citadas pelo 
erudito Amara!, Memrias
de Literatura da Academia, T. 2, pp. 3 e ss.
58 Pro lingua patria, Aulo Glio, Noites ticas, L. 19, c. 9..33
aos romanos. Para isto buscaram-se as passagens de Estrabo e dos outros 
escritores que
pareceu servirem ao intento, ao passo que se esqueciam as que temos 
apontado.
Todavia, estas so positivas e todas as em contrrio sujeitas a diversas 
interpretaes ou
duvidosas quanto  sua genuinidade ou, finalmente, de uma poca em que 
nada se ope
a que ainda existisse em algumas povoaes a linguagem cltica, fencia, 
grega, pnica
ou, o que  mais provvel, uma lngua franca, digamos assim, composta de 
todas elas. A
esta ltima categoria pertencem duas aluses de Ccero 59 , aluses que alis 
se podem
referir  lngua espanhola das montanhas setentrionais, onde o euscara ou 
vascono
resistia ao predomnio do latim, como at hoje tem resistido s lnguas 
derivadas deste.
Uma coisa, porm, que no advertiram os defensores das origens clticas  
que a
palavra lngua no tinha para os autores antigos a significao mais precisa 
que hoje
lhe damos, nem importava necessariamente uma distino profunda de ndole 
e
vocbulos entre elas, podendo por isso equivaler muitas vezes a - dialecto 
60 . Assim
entendidas, as passagens de Estrabo, de Plnio e doutros escritores que tm 
sido
alegadas 61 s podero provar a existncia de variedades de pronncia e 
ainda de
expresses locais, sem que da se haja de concluir que o latim no era a base 
da lngua.
Os diversos elementos da populao, espalhados desigualmente por esta 
regio, deviam
produzir essa consequncia, consequncia que de certo modo chegou at ns, 
influindo
provavelmente, em parte, na variedade das lnguas e dos dialectos da moderna
Pennsula.
Temos examinado as relaes que se poderiam dar entre ns e aquela poro 
de
tribos clticas denominadas os lusitanos. Qual  o resultado de tudo o que fica 
dito? Que
 impossvel ir entroncar com elas a nossa histria ou delas descer 
logicamente a esta.
Tudo falta; a convenincia de limites territoriais, a identidade de raa, a filiao 
de
lngua, para estabelecermos uma transio natural entre esses povos brbaros 
e ns. Se o
haverem estanciado em uma parte do nosso territrio nos desse o bem pouco 
precioso
direito de os considerar como antepassados, esse direito pertenceria 
igualmente 
Galiza,  Estremadura espanhola e, at,  Andaluzia. Por outra parte,  
evidente que a
antiga raa cltica, no s da Lusitnia mas tambm de outra qualquer parte da
Pennsula, se corrompeu, desaparecendo por fim na sucesso de tantas 
invases e
conquistas como as que passaram por este solo, e sobretudo em virtude do 
domnio
romano que transformou radicalmente a sociedade. Esses tempos antigos 
podem ter
relao com a histria da monarquia espanhola; nunca, porm, com a nossa. 
Portugal,
nascido no sculo XII em um ngulo da Galiza, constitudo sem ateno s 
divises
polticas anteriores, dilatando-se pelo territrio do Gharb sarraceno e buscando 
at,
como veremos, aumentar a sua populao com as colnias trazidas de alm 
dos
Pirenus,  uma nao inteiramente moderna. Apesar, porm, da sua curta 
existncia,
ele no carece de apropriar-se a glria de Sertrio ou de revestir de uma 
importncia em
parte fictcia as aces de Viriato para se ensoberbecer. A histria 
verdadeiramente sua
 assaz honrada e ilustre sem essas vaidades estranhas, que esto longe de 
terem o valor
que se lhes atribui quando as consideramos de perto, e que s serviram para 
distrair
engenhos, alis grandes, pelo campo das conjecturas, quando no pelo de 
insulsas
fbulas, com dano de mais severas e proveitosas indagaes.
Provncia separada da monarquia de Leo pelos sucessos que em breve
estudaremos, e constituda como indivduo poltico pelo esforo e tenacidade 
dos nossos
primeiros prncipes e dos seus cavaleiros, o reino de Portugal formou-se pelos 
dois
59 De Divinatione, L. 2, c. 64; De Natura Deor., L. 1, c. 30; Memrias da 
Academia, T. 12, P. 1, p. 38.
60 Forcellini, Lexicon, T. 3, verbete Lingua; Damni, Lexicon Graecis, col. 
1219.
61 Ver Memrias da Academia, T. 12, p. 1, pp. 40 e ss.; opsculo acerca da 
Origem da Lngua
Portuguesa, P. 1 (Lisboa, 1844), passim..34
meios da revoluo e da conquista. A independncia cujos fundamentos 
obscuros
lanou por morte de Afonso VI o conde do distrito portucalense, Henrique de 
Borgonha,
independncia consolidada pela sua viva e estabelecida definitivamente por 
seu filho,
foi completada pelas conquistas deste e dos seus quatro primeiros sucessores, 
at alm
do meado do sculo XIII, nos territrios mouriscos do Gharb ou Ocidente. 
Deste modo,
a nova monarquia comps-se de dois fragmentos; um leons, outro sarraceno: 
daquele
trouxe a origem e com ela, digamos assim, a fisiologia e a fisionomia da 
sociedade; a
este imps, vencedora, os prprios caracteres, posto que, como devia 
acontecer, dele
recebesse modificaes orgnicas. Estes dois factos pertencem  histria da 
civilizao
do pas; constituem as fontes dessa civilizao. Para l reservamos o exp-los. 
Mas
junto queles dois factos h outros dois da ordem poltica; a luta de 
desmembrao e a
de assimilao. A monarquia de que Portugal fazia parte resistiu longamente  
ciso,
como era natural; a sociedade muulmana resistiu ainda mais energicamente 
incorporao, o que tambm era natural. Estas resistncias formam - a parte 
principal da
histria dos acontecimentos no primeiro perodo ou infncia da sociedade 
portuguesa.
Da resulta a necessidade de descrevermos, bem que rapidamente, os 
sucessos relativos
 grande monarquia crist nascida nas Astrias, de que a nossa foi filha, e aos 
estados
muulmanos da Espanha,  custa dos quais ela se dilatou, cresceu em poder e 
se
habilitou para adquirir uma nacionalidade distinta, assaz vigorosa para subsistir 
at hoje,
sem jamais se dissolver e agregar ao vasto corpo dos outros estados 
peninsulares
sujeitos a uma unidade factcia por Fernando e Isabel e constrangidos a uma 
adeso
mais ntima pela frrea manopla de Carlos V.
, pois, unicamente para lanar os alicerces da histria poltica de Portugal e 
para
facilitar ao leitor a inteligncia dela que a fazemos preceder de um bosquejo da 
histria
do domnio rabe na Espanha e da monarquia leonesa, no consultando nessa 
parte as
fontes primitivas, porque no escrevemos os anais da Pennsula, mas 
extraindo-o das
narrativas dos escritores modernos que parece haverem-nas melhor 
estudado..35
II
Conquista da Pennsula por Tarik e Musa.  Governadores rabes da Espanha. 

Tentativas alm dos Pirenus.  Guerras civis entre os muulmanos.  
Primeiras
conquistas dos cristos das Astrias.  Abdu r-Rahman Ibn Muawiyah, 
alcunhado Ad-Dakhel,
estabelece um amirado independente em Crdova.  Invaso e retirada dos
francos.  Dinastia dos Benu Umeyyas.  Hixam 1. AL-Hakem 1.  Abdu r-
Rabman II.
 Mohammed.  Al-Mundhir.  Abdallah. Abdu r-Rahman III  aclamado, toma 
o
ttulo de califa e dilata o seu imprio pela frica.  Califado de Al-Hakem II. 
Menoridade de Hixam II e governo do hjibe Mohammed, denominado Al-
Manssor, e
sucessivamente dos hjibes Abdul-Malek e Abdu r-Rahman, seus filhos.  O 
Benu
Umeyya Mohammed apossa-se do poder e faz-se declarar califa.  
Alevantamento das
tropas africanas.  Guerras civis.  Luta entre os Benu Umeyyas e os Idrisitas. 

Dissoluo do califado, e extino da dinastia de Abdu r-Rahman Ibn 
Muawiyah. 
Desmembrao da Espanha muulmana em amirados independentes.  
Entrada dos
almorvidas.  Origem e progressos desta seita..36
Entretanto Musa desembarcava em Espanha e, depois de tomar Sevilha, que
tentara resistir, encaminhou-se para a Lusitnia, provncia cuja denominao e 
limites
do tempo dos romanos ainda os visigodos conservavam. Niebla, Qssuna, 
Mrtola, Beja,
caram-lhe rapidamente nas mos. Mrida defendeu-se valorosamente, mas 
enfim
As dissenses do imprio visigtico trouxeram  Espanha os muulmanos. 
Estes
acabavam de conquistar aquela parte da frica do Norte a que chamamos 
Berberia, do
nome dos povos que desde tempos remotos a habitaram. Os berberes ou 
amazighs, que
antes de subjugados pelos rabes seguiam diversas religies, entre as quais o
cristianismo e o judasmo, vieram a receber afinal em grande parte a lei do 
Coro e a
aliarem-se pelos laos da crena com os vencedores. Musa Ibn Nosseyr, 
nomeado amir
da frica pelo califa de Damasco (702), soube atrair a maior parte deles ao 
islamismo e
pacific-los. Septum, a moderna Ceuta, com o territrio vizinho, era desde o 
tempo dos
romanos uma dependncia da Espanha, e os visigodos haviam-na conservado 
unida 
monarquia. O amir tentara apossar-se daquela cidade, mas fora repelido pelo 
conde
Juliano, que a governava em nome de Vitiza. Da a pouco este foi derribado do 
trono,
segundo parece, por uma conspirao, na qual entrava Roderico ou Rodrigo, 
que lhe
sucedeu (709). Vitiza deixava dois filhos que procuraram, ou pblica ou 
secretamente,
arrancar a coroa quele que consideravam como usurpador. Juliano associou-
se a esta
nova conjurao e solicitou os socorros de Musa, abrindo-lhe as portas de 
Ceuta e
incitando-o a enviar uma expedio  Pennsula. Depois de duas tentativas de
desembarque, das quais os muulmanos ou sarracenos, denominao que 
mais
vulgarmente lhes davam os cristos, levaram ricos despojos, o amir enviou um 
exrcito
de doze mil homens composto em grande parte de africanos e capitaneado por 
Tarik Ibn
Zeyad, seu lugar-tenente no governo de Moghreb (Mauritnia). Juliano 
acompanhava os
muulmanos, e a expedio, aportando nas razes do Calpe, esperou, 
fortificando-se ali,
os reforos que brevemente lhe chegaram. Desde ento o Calpe trocou o seu 
antigo
nome pelo de Monte de Tarik (Gebel Tarik, Gibraltar). Pouco tardou o general
muulmano a entranhar-se na Pennsula, e enquanto Roderico ajuntava foras 
para se
lhe opor ele assolava as provncias do Sul, desbaratando as partidas de godos 
que
intentavam obstar s suas correrias. Afinal os dois exrcitos encontraram-se 
nas
margens do Chrissus ou Guadalete. Deu-se uma batalha acerca de cujas 
circunstncias
se lem nos historiadores rabes e cristos as narraes mais encontradas. , 
porm,
indubitvel que esta jornada foi decisiva e que nela se fez em pedaos o 
imprio
visigtico. Os godos ficaram completamente destroados, e Roderico, segundo 
parece,
pereceu no conflito. Os despojos enviados por Tarik a Musa com a notcia da 
vitria
despertaram a inveja e a ambio do amir. Em vez de o louvar por aquele 
ilustre feito,
ordenou-lhe que sobrestivesse na conquista ate ele passar o Estreito com 
tropas de
refresco. Era j tarde. Tarik havia seguido avante quando lhe chegaram as 
ordens de
Musa. Consultados os capites do exrcito sobre o que se devia naquele caso 
praticar,
resolveram que se prosseguisse a vitria. Assim se fez. Mugheyth Al-Rumi, 
renegado
grego, que era o general da cavalaria, marchou para Crdova: uma diviso foi 
enviada
contra Mlaga e a outra contra Elvira. Com o resto das foras, Tarik dirigiu-se a 
Toledo,
ento capital da Espanha. Estes diferentes corpos espalharam o terror por toda 
a parte.
Os judeus, mui numerosos na Pennsula e oprimidos pelos godos, unindo-se 
aos
vencedores ajudavam-nos a apoderarem-se das povoaes que combatiam. 
Toledo, ao
aproximarem-se os sarracenos, abriu-lhes as portas, enquanto os principais da 
cidade, e
entre eles o bispo Sinderedo, fugiam para as montanhas do Norte, caminho 
que, depois
de submetida a cidade, tambm seguiu Tarik, prosseguindo nas suas 
conquistas..37
sucumbiu. Enviando a Sevilha, que se rebelara, seu filho Abdul-Aziz, o amir 
partiu de
Mrida para Toledo, sujeitando as povoaes que encontrava na passagem. 
Em
Talavera, Tarik veio ter com ele e entraram ambos concordes, segundo 
parecia, na
capital, deixando as tropas acampadas fora. Apenas, porm, chegou aos paos 
reais ou
alcaar, como os rabes lhes chamavam, Musa ajuntou os cabos do exrcito e 
perante
eles acusou Tarik de desobediente: teria, at, praticado algum acto de extrema 
violncia
contra o seu lugar-tenente, se Mugheyth no houvera tomado a defesa do 
acusado de
modo que conteve a clera do amir, o qual se contentou com despojar do 
mando e
prender o general que ousara tomar-lhe uma parte da glria que ele cobiava 
s para si.
Abdul-Aziz, tendo neste meio tempo submetido de novo Sevilha, dirigira-se 
para
o Sueste da Pennsula ainda no subjugado. Teodomiro, clebre capito godo 
e duque
ou governador de uma parte da Btica, havia-se retirado para ali depois da 
batalha de
G.uadalete com os restos do exrcito e formara um como simulacro da 
monarquia gtica
no territrio das modernas provncias de Mrcia e Valncia. Por muito tempo o 
esfor-ado
Teodomiro resistiu a Abdul-Aziz; mas, desbaratado nas plancies de Lorca, 
onde
fora constrangido a aceitar com foras inferiores uma batalha campal, acolheu-
se com
as relquias das suas tropas a Oriuela (Auriola). Sitiado pelos sarracenos, viu-
se
reduzido, depois de brava resistncia, a aceitar o jugo muulmano, posto que 
com
vantajosas condies, sendo reconhecido por prncipe dos godos, mas 
tributrio, nos
distritos que dantes regia. O pacto feito por essa ocasio foi-nos conservado 
pelos
historiadores rabes.
Nesse tempo chegara a Espanha uma ordem do califa para que Tarik fosse
libertado e restitudo  sua dignidade. Recebendo em virtude desta resoluo 
suprema o
mando das tropas, principalmente berberes ou mouriscas, com que vencera os 
godos
junto do Guadalete, Tarik marchou para o lado do oriente, enquanto Musa, com 
os seus
rabes, se dirigia para o norte, destruindo as povoaes que lhe resistiam. De 
Astorga o
amir, voltando para a direita e seguindo o curso do Douro, foi ajuntar-se com o 
seu
rival, que transpusera as serras de Molina e de Siguenza e sitiara Saragoa 
sobre o Ebro.
Com a chegada de Musa os habitantes perderam toda a esperana de 
poderem resistir e
deram-se a partido. Tomada Saragoa, todas as cidades principais de Espanha 
se
achavam em poder dos muulmanos, que em pouco tempo se assenhorearam 
das
modernas provncias de Arago e da Catalunha e dali, retrocedendo para o 
ocidente,
sujeitaram a Galiza.
A rivalidade entre os dois capites sarracenos tinha-se convertido, pelo
procedimento de Musa, em dio profundo. O carcter de Tarik era oposto 
naturalmente
ao do amir. Ambos valentes e empreendedores, procediam diversamente na 
conquista.
Musa mostrava-se cobioso, sanguinrio, opressor para com os cristos; Tarik,
generoso, clemente, justo. Na sua correspondncia com Al-Walid, califa de 
Damasco,
ambos se acusavam mutuamente e afirmavam que o sistema do seu mulo era 
contrrio
aos interesses do islamismo. A m vontade entre os dois subira a tal ponto que 
Al-Walid
julgou necessrio tir-los da Pennsula e cham-los  sua presena. Tarik 
obedeceu
imediatamente; porm, Musa diferiu a sua partida at que ordens mais 
apertadas o
constrangeram a deixar a Galiza, onde ento se achava, e passar  frica, 
nomeando
para exercer o amirado em Espanha seu filho Abdul-Aziz e estabelecendo-lhe 
por
capital Sevilha. Os historiadores rabes no se cansam de exagerar as 
riquezas que
levava e dizem que s de cativos o seguiam trinta mil, entre os quais 
quatrocentos godos
da classe nobre, como testemunhas da importncia da conquista.
O carcter de Abdul-Aziz era mais semelhante ao de Tarik que ao de seu pai. A
brandura que mostrava para com os cristos atribuem-na alguns ao amor que 
sentia por
Egilona, a viva do ltimo rei dos godos, a qual chegou a tomar por mulher 
deixando-.38
lhe a liberdade de seguir a sua religio. O novo amir acabou de avassalar o 
resto da
Pennsula e regulou os tributos que os vencidos deviam pagar. No obstante o 
amor de
Egilona, ele povoara o seu serralho das mais nobres virgens crists, o que de 
algum
modo destrua o efeito da sua indulgncia para com os godos. Por outro lado, a 
viva de
Rodrigo excitava-o a rebelar-se e a fazer-se independente de Suleiman, que 
sucedera a
Al-Walid, seu pai, no califado. Suleiman desaprovara a escolha de Abdul-Aziz 
para o
amirado de Espanha, e as notcias do que a se tramava fizeram-no resolver a 
acabar
com o filho de Musa. Segundo as usanas sanguinrias do Oriente, o califa 
enviou
agente secretos que espalhassem entre os soldados suspeitas odiosas contra 
a sua vtima
e que o assassinassem quando os nimos estivessem dispostos para 
receberem bem este
sucesso. Assim se fez. Ao entrar para a orao da manh numa mesquita que 
edificara
fora dos muros de Sevilha, Abdul-Aziz caiu traspassado de golpes, e depois de 
lhe
cortarem a cabea enviaram-na ao califa em sinal de que os seus preceitos se 
achavam
cumpridos. Ento Ayub Ibn Habib Al-Lakhmi, sobrinho de Abdul-Aziz, que tivera 
parte
na morte do tio, tomou posse do mando supremo por escolha do exrcito e do 
div ou
conselho de Estado, corpo que, no sistema do governo muulmano, dirigia os 
negcios
juntamente com os governadores de provncias.
Mas Mohammed Ibn Yezid, que nessa conjuntura regia a frica pelo califa e 
tinha
autoridade superior sobre a Pennsula, entendeu que no era conveniente 
deixar o poder
nas mos de um parente de Abdul-Aziz. Assim resolveu mandar substitu-lo por 
Al-Horr
Ibn Abdu r-Rahman Ath-Takefi. Entretanto Ayub, mudando a sede do governo 
de
Sevilha para Crdova, como cidade mais central, corria as diferentes provncias
regulando a administrao e distribuindo justia igual aos muulmanos que 
tinham
vindo estabelecer-se na Espanha e aos cristos que obedeciam  autoridade 
do califa, os
quais eram denominados mostrabes62 ou morabes, nome que os 
sarracenos
davam aos povos que, sem abandonarem a prpria religio, recebiam o jugo 
deles. Foi
ento que chegou Al-Horr e tomou posse do governo. O seu carcter duro e 
guerreiro
contrastava com o que mostrara Ayub. Em compensao, ele soube reprimir
severamente os abusos que se haviam introduzido na administrao. Fazendo 
arrecadar
exactamente os tributos que pagavam os cristos, era ao mesmo tempo 
implacvel com
os muulmanos que se haviam enriquecido por meios ilegais, obrigando-os por 
via de
tormentos a restituir aquilo que tinham usurpado. No contente com se fazer, 
temido e,
porventura, odioso, Al-Horr quis adquirir a glria militar. Preparou-se para 
passar os
Pirenus e invadir a Frana; mas sendo mal sucedido nas suas tentativas, 
aqueles que ele
punira pela sua pouca fidelidade na percepo dos tributos tiveram modo de 
alcanar
que o califa o destitusse. Sucedeu-lhe As-Samah Ibn Malik Al-Khaulani, que 
havia sido
um dos capites de Musa e Tarik, homem por muitos ttulos digno do elevado 
cargo que
se lhe confiava. Aos dotes de guerreiro acresciam nele os talentos 
administrativos. Uma
nova e mais igual repartio dos impostos, uma importante estatstica de 
Espanha para
ser apresenta ao califa e vrias outras obras de utilidade pblica foram os seus 
primeiros
cuidados. Ento resolveu continuar alm dos Pirenus a guerra que o seu 
antecessor
encetara. Atravessando os desfiladeiros das serras, o exrcito sarraceno, 
capitaneado por
ele, acometeu e tomou Narhona, Bziers e outras povoaes, levando o terror 
das suas
armas at alm do Rdano; e depois de fazer uma correria pela Provena, 
voltou pela
Borgonha e recolheu-se a Narbona com grande nmero de cativos e ricos 
despojos.
Dirigindo ento as armas contra a Aquitnia, foi sitiar Tolosa, que estava a 
ponto de
render-se quando o duque Eudon apareceu a socorr-la com tropas numerosas 
(721). Foi
62 Da palavra mostarab, que significa feitos, ou tornados rabes, e no de 
mixtiarabes, como alguns
escritores tm imaginado. A denominao morabes prevaleceu: mas  
notvel que ainda no foral de
Toledo, dado por Afonso VI no princpio do sculo XII, sejam chamados 
mostrabes..39
terrvel o recontro e disputada tenazmente a vitria. Com a morte de As-Samah 
ela se
decidiu a favor dos cristos. Abdu r-Rahman Ibn Abdillah Al-Ghafeki, um dos 
capites
rabes que mais se distingiram no combate, reuniu os fugitivos e, apesar de 
ser
perseguido por Eudon, salvou-se com eles em Narbona. Aclamado amir pelos 
soldados,
Abdu r-Rhaman achou alguma contradio em Anbasah Ibn Sohaym, que 
ficara
encarregado do governo por As-Samah e que teve de ceder, sendo aprovada a 
eleio
pelo amir de frica. Dentro em breve, porm, acusado de prodigalidade, pelos 
seus
inimigos, Abdu r-Rahman foi deposto, e nomeado em seu lugar Anbasah, que
provavelmente lhe preparara a queda. O novo amir de Espanha comeou 
imitando o seu
antecessor em ordenar as coisas do governo, imitando-o tambm depois nas 
suas
empresas guerreiras. A frente de tropas mais numerosas ainda que as de As-
Samah,
Anbasah entrou em Frana, apoderou-se de Carcassona e pouco depois de 
Nimes,
enquanto um corpo de cavalaria, penetrando na Borgonha, destrua Autun. 
Neste tempo
os habitantes da Septimnia acumulavam foras e marchavam contra os 
sarracenos.
Encontraram-se. O resultado do combate foi igual ao de Tolosa. Anbasah, 
desbaratado,
caiu mortalmente ferido. Odhrah Ibn Abdillah Al-Fehri foi ento eleito 
governador da
Espanha pelos chefes sarracenos, enquanto Beshr, o vli da frica, no 
nomeava
sucessor a Anbasah. No tardou, porm, a ser provido naquele importante 
cargo Yahya
Ibn Sahnah Al-Kelbi. Ajuntava Yahya ao esforo e percia militar um carcter 
severo e
justiceiro, favorecendo os cristos contra as violncias dos muulmanos, o que 
excitou o
descontentamento destes e deu causa  sua deposio, sendo nomeados 
sucessivamente
depois dele Hodheyfah Ibn Al-Ahwass e Othman Ibn Abi Nesah, cuja 
administrao
parece ter sido assaz inquieta pelas turbulncias dos chefes muulmanos que 
do
Moghreb tinham vindo fazer assento na Pennsula. Depois de curto governo, 
Othman foi
substitudo por Al-Haytham Ibn Obeyd, rabe duro, cruel e vingativo. Irritado 
pelas
turbulncias dos muulmanos, Al-Haytham fez pesar sobre eles um jugo de 
ferro, com o
pretexto verdadeiro ou falso de proteger os morabes contra os seus 
vexames.
Tramaram-se conspiraes; mas o amir descobriu-as e castigou com tormentos 
e com a
morte os conjurados. Enfim, tais queixas contra ele chegaram  presena de 
Hixam,
ento califa, que Mohammed Ibn Abdillah foi enviado  Espanha para sindicar 
do pro-cedimento
do amir e puni-lo rigorosamente se achasse que era culpado. Chegou
Mohammed a Crdova e, averiguado o negcio, lanou Al-Haytham num 
calabouo,
donde saiu a passear pelas ruas montado em um jumento com as mos atadas 
atrs das
costas e entregue aos vilipndios da gentalha. Depois, carregado de cadeias, 
foi enviado
ao vli de frica.
Dois meses administrou Mohammed a Pennsula, enquanto compunha os
desconcertos pblicos e fazia seleco de novo amir. Recaiu a escolha em 
Abdu r-Rah-man
Ibn Abdillah, o mesmo que salvara as relquias do exrcito rabe junto dos 
muros
de Tolosa. Tratou logo o amir de prover s desordens introduzidas na 
administrao.
Pediu contas severas do seu procedimento aos ministros e oficiais pblicos e 
destituiu
os que haviam prevaricado. Entregando aos cristo os templos que lhes 
pertenciam em
virtude dos pactos celebrados na ocasio da conquista, mandou-lhes ao 
mesmo tempo
arrasar os que, por peitas dadas aos magistrados, estes lhes haviam 
consentido edificar
novamente.. Pacificado e ordenado tudo, preparou-se para a guerra no pas de 
Afranc,
nome que os rabes davam aos territrios alm dos Pirenus. Othman, seu 
antecessor,
que depois de ser destitudo do amirado fora incumbido de capitanear as tropas 
da
fronteira das Glias, havia contrado aliana com o duque da Aquitnia, que, 
dizem, lhe
concedera por mulher sua prpria filha. Confiado na proteco do sogro, 
Othman,
berbere de raa e por isso adversrio poltico de Abdu r-Rahman, que era 
rabe,
trabalhava por estabelecer um governo independente no pendor setentrional 
das.40
montanhas e nos territrios conquistados no Afranc. Abdu r-Rahman, porm, 
preveniu-lhe
os desgnios mandando marchar inesperadamente contra ele foras que o
perseguiram at que, colhido nas serras, onde se refugiara, foi morto e a sua 
cabea
enviada ao califa. Sabendo deste sucesso, o duque Eudon tratou de se 
prevenir contra
uma invaso dos sarracenos. E de feito, com um exrcito maior que nenhum 
dos que
tinham j entrado nas Glias, Abdu r-Rahman atravessou os Pirenus. Toda a 
resistncia
foi intil: os sarracenos chegaram at o Garona, junto do qual o duque da 
Aquitnia foi
destroado numa sanguinolenta batalha. Bordus caiu nas mos dos rabes, 
que
saquearam e queimaram os seus templos. Depois, vadeando o Dordonha, 
assolaram e
roubaram. uma grande extenso de territrio, derribando igrejas e incendiando
povoaes. Dirigindo-se para o norte, Abdu r-Rahman ps cerco a Tours. 
Entretanto,
Carlos, filho de Pepino de Heristal e duque da Austrsia, cujo socorro Eudon 
implorara,
passava o Loire com os seus francos para defender Tours. A disciplina faltava 
entre os
sarracenos, e Abdu r-Rahman, receoso do desfecho da luta, fez um movimento
retrgrado. Seguido por Carlos, vieram ambos s mos perto de Poitiers. 
Durou a
batalha dois dias, no fim dos quais os sarracenos foram completamente 
destroados,
ficando morto no campo Abdu r-Rahman (723), e as relquias do exrcito 
muulmano
recuaram para os Pirenus. A notcia deste sucesso espalhou a consternao 
na Espanha.
Recebida em frica, o vli Obeydullah enviou logo  Pennsula novo amir, 
Abdul-Malek
Ibn Kattan Al-Fehri, nomeao que foi aprovada pelo califa. Todavia, ou pela
sua idade (tinha noventa anos) ou por falta de percia militar ou, finalmente, 
porque os
brios dos soldados tinham diminudo, Abdul-Malek foi mal sucedido em todas 
as
tentativas que fez para se melhorar na guerra de Afranc. Isto moveu o califa a 
dar-lhe
um sucessor. Okbah Ibnul-Hejaj, que em frica dirigira prosperamente a guerra 
contra
algumas tribos berberes levantadas, veio tomar o cargo de amir na Espanha. 
Era Okbah
pontual na justia, extremo na severidade. Tomadas as rdeas do governo, 
comeou por
destituir todos os oficiais pblicos que tinham cometido violncias contra os 
povos,
regulou sucessivamente a administrao e os tribunais, fundou mesquitas e 
escolas e
deu  Pennsula uma organizao regular e forte. Conservando no comando 
das
fronteiras do norte o seu antecessor, preparava-se ele prprio para transpor os 
Pirenus
quando foi de novo chamado  frica para conter os berberes. Passados 
quatro anos
Okbah voltou  Espanha. O bem que fizera estava em parte destrudo. Os vlis 
dos
diversos distritos entretinham-se em mtuas discrdias, enquanto o duque da 
Austrsia
ia acabando com o domnio sarraceno na Septimnia, ao passo que este se 
dilatava para
a Provena por tratados com os habitantes dela, galo-romanos de origem, que 
preferiam
o senhorio rabe ao dos brbaros francos. Okbah, pouco depois da sua volta, 
faleceu ou
foi morto em Crdova no meio das dissenses dos governadores de distritos e 
das lutas
entre as duas raas a que pertenciam os conquistadores, a dos rabes e a dos 
mouros. O
velho Abdul-Malek apoderou-se ento do poder, que no alcanou conservar 
por largo
tempo em consequncia dos sucessos que nessa conjuntura ocorriam em 
frica. Dois
generais rabes, Balj Ibn Beshr e Thalebah Ibn Salamah, desbaratados em 
frica pelos
naturais do Moghreb, que haviam tornado a alevantar-se depois da morte de 
Okbah,
tinham-se acolhido a Ceuta para passarem dali  Pennsula. Receoso de que a 
sua vinda
aumentasse as perturbaes, Abdul-Malek tentou impedi-la. Os rabes de 
Espanha,
porm, logo que o souberam facilitaram-lhes a passagem e resolveram derribar 
o amir.
Por outra parte, os berberes, grande nmero dos quais tinham vindo 
estabelecer-se na
Pennsula, animados pela vitria dos seus irmos de frica determinaram 
tomar-lhes o
exemplo e sacudir o jugo da raa rabe. Rebelaram-se, pois; mas por toda a 
parte foram
mal sucedidos. No ficaram por isso as coisas tranquilas. Balj Ibn Beshr, 
intimado para
sair do pas e achando-se assaz forte para resistir s ordens de Abdul-Malek, 
marchou.41
contra Crdova com as tropas que ajuntara, e cujo principal nervo eram os 
assrios que
consigo trouxera. Os habitantes da cidade, que provavelmente se entendiam 
com Balj,
levantaram-se ento, crucificaram o velho amir e abriram as portas ao seu 
adversrio.
Balj, como era de esperar, foi proclamado governador do Andaluz 63 . Dividiu-
se ento a
Espanha em trs bandos: Thalebah, que viera com ele de frica, disputava-lhe 
o poder
com o pretexto de que a eleio do amir da Pennsula pertencia ao califa ou ao 
seu
delegado, o vli do Moghreb. Os rabes do pas inclinavam-se pela maior parte 
a
Umeyya, filho de Abdul-Malek, e o vli de Narbona, Abdu r-Rahman Ibn Al-
Kmay,
declarou-se por ele, bem como os berberes, que aproveitavam assim a ocasio 
de negar
a obedincia a um rabe. Abdu r-Rahman marchou com um grosso exrcito 
contra Balj,
o qual, posto que enfraquecido pela defeco de Thalebah, no recusou o 
combate, que
se deu nas imediaes de Calatrava. A o novo amir acabou s mos do 
prprio Abdu r-Rahman.
As relquias dos vencidos uniram-se a Thalebah.
O vli de frica, Hondhalah Ibn Sefwan, tinha entretanto subjugado os 
berberes.
A fim de lhes diminuir as foras resolveu mandar quinze mil para Espanha e ao 
mesmo
tempo um homem capaz de pr termo  guerra civil que devorava esta 
provncia.
Abdul-Khattar Husam foi nomeado amir e partiu com eles. Tudo lhe cedeu a 
princpio;
mas pouco tardaram novas perturbaes. Thalebah passara ao Moghreb; mas 
Thuabah
Ibn Salamah, seu irmo, colocou-se  testa da rebelio iniciada por um certo 
As-Samil.
Decidiu-se a questo num combate. Abdul-Khattar, vencido, foi lanado numa
masmorra em Crdova, e Thuabah tomou o ttulo de amir. Todavia os filhos de 
Abdul-Malek
e Abdu r-Rahman, que tinham reconhecido a autoridade de Abdul-Khattar,
apenas souberam da sua priso tentaram e obtiveram faz-lo evadir, e em 
breve ele se
achou de novo senhor de Crdova. Thuabah e As-Samil marcharam ento 
contra o amir,
que saiu a receb-los; mas, agredido repentinamente no maior fervor do 
recontro pela
plebe de Crdova, que, rebelada, veio unir-se aos inimigos, perdeu a batalha e 
a vida.
Thuabah tomou ento o governo de Crdova, ficando As-Samil vli de 
Saragoa.
O poderio dos vencedores no era, todavia, grande. Os governadores das
provncias fizeram-se independentes. As diversas raas de muulmanos que 
tinham
vindo sucessivamente colonizar a Espanha estanciavam separadas, cada uma 
em seus
distritos, e a emulao entre elas era a causa principal destas guerras civis. 
Toda a
Pennsula estava dividida em vrias parcialidades, a dos rabes do Imen, a 
dos
modaritas, a dos egpcios, a dos assrios, a dos berberes. E entretanto a 
monarquia crist
fundada por Pelgio nas Astrias e regida ento por Afonso I, aproveitando 
estas
revoltas, ganhava novas foras. Os soldados godos desciam das montanhas e
comeavam a dilatar para o sul e oriente o imprio da cruz, sem que os 
sarracenos,
embebidos nas suas dissenses intestinas, curassem de levantar barreiras 
contra a
torrente que havia de devor-los um dia. Por fim, o remdio veio do excesso do 
mal. Os
principais entre os rabes assentaram em pr termo  anarquia nomeando um 
cabea a
que todos obedecessem e que tivesse bastante energia para lhes dar a paz. A 
escolha
unnime recaiu em Yusuf Ibn Ahdu r-Rahman Al-Fehri, homem ilustre que, 
respeitado
por todos os partidos, a nenhum se tinha ligado. Aceitando o cargo de amir. 
Yusuf
entregou-se exclusivamente ao cumprimento dos deveres que ele lhe impunha,
ordenando e restaurando o que as guerras civis haviam destrudo. Os efeitos 
do seu bom
governo no duraram, todavia, por largo tempo. Muitos dos chefes que tinham
intervindo nas anteriores discrdias comearam a conspirar e a amotinar-se. 
Posto que,
favorecido sempre da fortuna, sucessivamente desfizesse quatro ou cinco 
tentativas de
revoluo, o prestgio que lhe dava o modo como fora elevado ao poder ia 
pouco a
63 Nome com que vulgarmente  designada a Espanha pelos historiadores 
rabes..42
pouco enfraquecendo. A sua eleio, feita independentemente do prncipe dos 
crentes, o
califa de Damasco, era, no sentir comum, ilegtima, e autorizava de certo modo 
as
rebelies. Pensaram ento os mais influentes entre os muulmanos em 
remediar esta
circunstncia buscando para os reger um prncipe que ajuntasse aos dotes 
morais de
Yusuf uma autoridade santificada por mais pura origem. Neste tempo os 
abssidas
tinham expulsado do califado a famlia dos Benu Umeyyas, sucessores do 
Profeta. Um
neto do califa Hixam, esquivando-se  crueldade dos abssidas, vagueava 
pelos ermos
de frica sempre perseguido pelos seus inimigos. Mancebo de vinte anos, a 
desgraa e a
aspereza de uma vida errante ensinaram-lhe a suportar com esforo as 
tempestades da
vida. Depois de salvo, como por milagre, de grandes riscos, Abdu r-Rahman 
Ibn
Muawiyah (assim se chamava) veio buscar abrigo na tribo berbere dos 
zenetas, na qual
tinha relaes de parentesco por sua me. A soube, segundo parece, das 
perturbaes
da Espanha e pensou em aproveitar-se delas. As suas tentativas tiveram bom 
resultado.
Os unimos dos chefes rabes estavam, como dissemos, inclinados  
deposio de Yusuf,
justamente pelas consideraes que os deviam mover a aceitarem Abdu r-
Rahman por
seu prncipe. Preparadas as coisas, o moo proscrito passou o mar com mil 
cavaleiros
zenetas que quiseram segui-lo. Imediatamente aqueles que em segredo tinham
promovido a sua vinda se lhe uniram e dentro em pouco viu-se  frente de vinte 
mil
homens. Vusuf acabava ento de sopitar as rebelies. Resolvido a resistir, 
comeou a
guerra; mas, desbaratado em vrios combates, teve por fim de submeterse, at 
que,
rebelando-se de novo, pereceu miseravelmente. Seus dois filhos ainda 
sustentaram por
algum tempo a luta: mas vencidos e presos, Abdu r-Rahman achou-se, enfim, 
pacfico
senhor da Pennsula (760).
Contudo, a quietao durou pouco. Adbu r-Rahman queria partir para as 
fronteiras
orientais, aonde naturalmente o chamavam os sucessos ocorridos durante as 
precedentes
perturbaes. Entretidos nas suas deplorveis rixas, os muulmanos tinham 
abandonado
a defenso dos territrios que possuam alm dos Pirenus, e os francos no 
tardaram a
apoderar-se das terras conquistadas pelos rabes, sem exceptuar Narbona. 
Assim, as
montanhas tornaram a ser as fronteiras do islamismo. Era, talvez, o 
pensamento do amir
dilatar estas de novo; recresceram, porm, acontecimentos que no lho 
consentiram. Os
abssidas inquietavam-se vendo reinar em Espanha um tronco da raa dos 
Benu
Umeyyas. Al-Manssor, sucessor de Abdul-Abbas, havendo passando para 
Bagdade a
sede do imprio, ordenou ao governador da frica, Al-Ala Ibn Mughith, 
trabalhasse em
reduzir a Pennsula ao domnio do califado. Al-Ala passou de feito  Andaluzia,
declarando Abdu r-Rahman usurpador. Uniram-se-lhe todos os descontentes e 
assim
alcanou apoderar-se do Gharb ou provncias ocidentais, aumentando de dia 
em dia as
suas foras e atraindo gente com ouro e com a influncia do nome do califa; 
Abdu r-Rahman,
a quem deram o epteto de Ad-Dakhel (o conquistador ou invasor), marchou
contra ele. Numa batalha dada junto de Sevilha, o governador da frica foi 
desbaratado
e morto. As relquias do exrcito vencido formaram ento partidas que 
assolavam os
lugares abertos e que chegaram a assenhorear-se de Sevilha, a qual, todavia, 
no
puderam defender. Toledo resistiu por mais tempo, mas por fim caiu tambm.
Entretanto no foi possvel acabar inteiramente com a nuvem de bandoleiros 
que a
longa durao da guerra fizera aparecer e que se reforavam continuamente 
com
berberes que lhes eram enviados do Moghreb. Perto de dez anos durou este 
estado
violento, at que Abdu r-Rahman pde colher juntos os levantados e extermin-
los num
combate que se viram constrangidos a aceitar. Seguro, enfim, no domnio da 
Espanha, o
descendente dos Benu Umeyyas aplicou todas as atenes a construir uma 
armada capaz
de impedir os desembarques dos africanos e a reprimir algumas tentativas dos
descontentes, bem como dos cristos das Astrias, a quem tinham dado 
atrevimento.43
para dilatarem as suas armas as longas dissenses dos sarracenos.
Um perigo mais grave ameaava entretanto no s Abdu r-Rahman, mas 
tambm
o islamismo. Carlos, filho de Pepino, to clebre na histria pelo nome de 
Carlos
Magno, reinava j em Frana e numa grande parte da Alemanha. Alguns vlis 
da
Espanha oriental, descontentes do amir de Crdova, dirigiram-se ao prncipe 
dos
francos com o intuito de satisfazerem as suas vinganas polticas, oferecendo-
lhe
sujeitarem-se a ele se quisesse passar os Pirenus com um exrcito. 
Excitavam-no tam-bm
a cometer esta empresa, segundo dizem, os cristos das Astrias. Carlos fez
atravessar as montanhas por dois exrcitos, um dos quais ele prprio 
capitaneava (778).
Chegando a Pamplona, o vli dela, que era um dos conjurados, abriu-lhe as 
portas. Dali
o filho de Pepino marchou para Saragoa, da qual j se havia aproximado a 
outra
diviso dos francos. Suleiman Ibn Arabi, vli da cidade e um dos principais 
movedores
desta invaso, j no pde entregar-lha. A sua traio tinha irritado os povos, 
que
correram unanimemente s armas e a defender Saragoa; Burladas assim as 
esperanas
de Carlos, ele entendeu que no devia continuar a guerra num pas levantado 
em peso
contra os seus desgnios, e comeou a retirada seguido constantemente dos 
sarracenos.
Ao transpor as serras pela garganta de Roncesvales, os vascnios, 
montanheses
selvagens descendentes dos antigos iberos, acometeram a retaguarda do 
exrcito,
excitados pela vista dos despojos que os invasores levavam ou, como alguns 
querem,
induzidos pelo duque da Aquitnia, Lupo, inimigo irreconcilivel de Carlos. 
Soltando
rochedos do cimo dos barrocais sobre os cavaleiros francos, que naqueles 
passos
estreitos s podiam caminhar em fio, fizerani neles horrvel matana. O 
desgraado
desfecho desta expedio, se no restituiu aos sarracenos as suas conquistas 
nas Glias,
impediu por anos as tentativas dos prncipes francos para aqum dos Pirenus 
e
consolidou para sempre o poder de Abdu r-Rahman, que, alis, no teve 
necessidade de
intervir na luta.
Parecia, porm, que o destino do amir era no gozar jamais largos dias de
tranquilidade. Mohammed Abdul-Aswad, filho de Yusuf, que vivia preso no 
fundo de
uma torre em Crdova, pde evadir-se e acolher-se s montanhas de Jaen, 
onde logo
reuniu mais de seis mil descontentes: Abdu r-Rahman  frente da sua cavalaria 
marchou
contra eles. As tropas do amir dispersaram os levantados; mas custou muito 
traz-los a
uma batalha campal em que foram destrudos.
A unio e o sossego renasceram, enfim, na Espanha rabe depois destes 
sucessos.
Abdu r-Rahman, porm, sentia aproximar-se o seu fim. Os ltimos tempos da 
vida
aplicou-os aos cuidados da paz. Visitando a Lusitnia, cuja principal populao 
era de
egpcios e berberes, mandou edificar um grande nmero de templos nesta 
provncia. A
clebre mesquita de Crdova, que ainda hoje dura, tambm teve por fundador 
Abdu r-Rahman.
Antes de morrer convocou todos os vlis das seis provncias em que se dividia
o territrio muulmano e os governadores de vinte e duas cidades principais, e 
no seu
palcio de Crdova, perante os vizires, o hjibe (primeiro-ministro) e o div 
(conselho)
declarou haver de suceder-lhe seu filho terceiro, Hixam, com excluso dos dois 
mais
velhos, Suleiman e Abdullah, cujo gnio e carcter o amir no julgava to 
apropriados
ao difcil mister do governo. Da a pouco, Abdu r-Rahman faleceu em Mrida 
contando
apenas cinquenta e nove anos de idade (787).
Subindo ao trono, Hixam I achava os seus estados pacficos. O bom nome 
paterno
assegurava-lhe a afeio dos povos. A excepo das Astrias, desprezadas 
pelos
muulmanos como um pas inspito e miservel, toda a Pennsula reconhecia a 
sua
autoridade. Todavia o fogo ardia debaixo das cinzas. A raa berbere estava 
subjugada
pela rabe, mas o dio mtuo subsistia. Por outra parte, Suleiman e Abdullah 
no
podiam afazer-se  ideia de serem sbditos de seu irmo mais moo e no 
tardaram a.44
rebelar-se. Desbaratados por Hixam, Abdullah submeteu-se, mas Suleiman 
ainda
sustentou a guerra por algum tempo. Abandonado, enfim, pelos seus parciais, 
viu-se
constrangido a implorar a demncia do amir, que lhe perdoou com a condio. 
de sair
da Pennsula.
Depois de apaziguar algumas perturbaes de pouca monta, Hixam, para 
entreter
os espritos turbulentos e ao mesmo tempo reanimar a glria das armas 
muulmanas,
mandou proclamar a guerra contra os cristos. Dois exrcitos se formaram
imediatamente. Um, capitaneado por Yusuf Ibn Bokht, entrou pela parte da 
Galiza j
unida  monarquia das Astrias, destruindo e saqueando tudo: outro, debaixo 
do mando
do vizir Abdul-Malek, dirigiu-se aos Pirenus para invadir a Frana. Gerona, 
que por
traio dos seus habitantes cara anos antes em poder dos francos, foi de novo 
tomada e
os seus moradores passados  espada. Depois Abdul-Malek marchou contra 
Narbona.
Ludovico, rei da Aquitnia e filho de Carlos, o Grande, achava-se ento em 
Itlia com
as foras principais daquela provncia. Narbona foi tomada e posta a saco, e 
aos seus
habitantes coube a mesma sorte dos de Gerona. Destroados os cristo numa 
batalha
junto de Carcassona, os rabes voltaram  Espanha carregados de despojos. 
O quinto
destes, que pertencia ao amir, foi destinado a acabar a obra magnfica da 
mesquita de
Crdova.
Os estados das Astrias, os quais os sarracenos tinham em to pequena conta 
nos
primeiros tempos da sua existncia que apenas mui tarde se acha meno 
deles nos
historiadores rabes, parece terem comeado no reinado de fixam a merecer 
mais sria
ateno. Era que nessa poca reinava ali, como adiante veremos, Afonso II, 
prncipe
activo e belicoso. No ano imediato ao da guerra de Frana (793), um corpo de 
tropas
capitaneado por Abdul-Kerim marchava a destruir os castelos construdos 
pelos godos,
provavelmente na Bardlia (Castela Velha), enquanto Abdul-Malek atacava a 
Galiza
pelo ocidente. Entretanto a tribo berbere de Takerma rebelava-se no Sul da 
Pennsula;
mas Abdul-Kader, general de Hixam enviado contra ela, no s a reduziu, mas 
tambm
a exterminou, ficando deserto por sete anos o territrio onde essa tribo 
habitava.
As vitrias do amir, a sua piedade e o seu generoso nimo tinham-no tornado 
caro
aos sectrios do Islo e temido dos inimigos. Ele promovia o progresso das 
letras e a
civilizao tanto entre os muulmanos como entre os cristos morabes, e 
fazia da
agricultura o seu principal deleite. Anunciando-lhe um astrlogo que morreria 
cedo, fez
reconhecer por sucessor a seu filho Al-Hakem; e de feito faleceu da a pouco, 
ainda em
florente idade (795), chorado de todos como modelo de prncipes.
Al-Hakem subiu ao trono tendo apenas vinte e dois anos. Era valente, gentil e
instrudo, mas de gnio spero e colrico. Seus tios Suleiman e Abdullah, que 
no
tinham ousado empreender coisa alguma durante a vida de fixam, julgaram a 
ocasio
aparelhada para renovarem as antigas pretenses. No contentes de 
fomentarem o
esprito de rebelio nas provncias de Toledo, Mrcia e Valncia, enquanto 
Suleiman
buscava reunir no Moghreb tropas estipendirias, Abdullah partia para a corte 
do
imperador franco a implorar o seu auxlio, que sabemos ter obtido, posto se 
ignorem as
condies dele. Com Ludovico, o moo rei da Aquitnia, voltou o sarraceno 
para aqum
dos Pirenus. Tudo estava pronto. Fez-se a revoluo. Abdullah apoderou-se 
de Toledo
e de vrios lugares fortes, enquanto Suleiman desembarcava na costa com um 
corpo de
africanos e se aclamava soberano. Al-Hakem no perdeu nem o nimo, nem o 
tempo.
Marchou com as suas tropas de cavalaria sobre Toledo, onde j Suleiman e 
Abdullah se
haviam ajuntado. No caminho o amir recebeu a nova de que o rei da Aquitnia 
se tinha
apoderado de Narbona e de Gerona e, passando os montes, se encaminhava 
para o Ebro.
Soube tambm que os vlis de Lrida e de Huesca lhe haviam feito 
homenagem e que o
de Barcelona fora antes disso  corte de Carlos, o Grande, pedir ao monarca 
franco a.45
investidura do seu governo como dependncia do imprio. Al-Hakem mandou 
partir
imediatamente um corpo de cavalaria para se ajuntar ao vli de Saragoa. 
Pamplona
caa entretanto nas mos dos francos. Com a notcia de tantos revezes, o amir, 
deixando
em frente de Toledo Amru, caide de Talavera, dirigiu-se para as fronteiras com 
a flor
dos seus cavaleiros. A presena de Al-Hakem mudou o aspecto da guerra. 
Lrida e
Huesca foram restauradas, os cristos obrigados a retirarem-se, Barcelona e 
Gerona
submetidas. Depois, transpondo os Pirenus, o amir retomou Narbona, onde 
deu largas 
fereza do seu gnio mandando matar os defensores da cidade e trazendo 
cativas as
mulheres e crianas. Mas entretanto a revoluo progredia no Sul da 
Pennsula,
dilatando-se por Toledo, Mrcia e Valncia, posto que combatida com vria 
fortuna
pelos vlis de Crdova e de Mrida. A chegada de Al-Hakem melhorou o 
estado das
coisas. s suas tropas disciplinadas e guerreiras no puderam resistir as dos 
rebeldes,
gente colectcia e desordenada, embora mais numerosa. Destroados por toda 
a parte, os
levantados recolheram-se s serras de Mrcia e Valncia, e Amru apoderou-se 
afinal de
Toledo. Durou todavia a guerra ainda algum tempo, at que, vencido e morto 
Suleiman
e posto em fuga Abdullah numa batalha decisiva, este veio submeter-se ao 
sobrinho,
que generosamente lhe perdoou, bem como a todos os que haviam seguido a 
sua
parcialidade.
Comeara no meio destes sucessos o sculo IX e com ele sobrevieram novas
inquietaes. Afonso II, rei de Oviedo, que obtivera algumas vantagens dos 
caides
rabes postos nas fronteiras dos cristos das Astrias, buscava a proteco de 
Carlos,
enviando a Ludovico, rei da Aquitnia, parte dos despojos que ajuntara nas 
suas
correrias contra os muulmanos. Bahlul, general de Al-Hakem que governava 
as
fronteiras dos Pirenus, bandeou-se neste tempo com os francos, ignora-se por 
qual
motivo, facilitando-lhe assim a passagem das serras. No tardou, de feito, a 
pass-las
um exrcito franco-aquitano depois de reconquistar as povoaes e territrios 
das Glias
de que pouco antes Al-Hakem se apoderara. Penetrando na Pennsula, 
Ludovico ocupou
vrias povoaes no pendor austral das montanhas e, estabelecendo a um 
distrito
(marca) dependente da Aquitnia, tomou todas as providncia necessrias 
para o
defender e conservar, guarnecendo-o de tropas e dando-lhe por governador 
um marqus
franco (marquegrave) por nome Borel. Foi, porm, em 802 que os senhorios de
Ludovico aqum dos Pirenus adquiriram grande importncia pela conquista de
Barcelona, que depois de larga resistncia caiu em poder do rei da Aquitnia, o 
qual
dirigira pessoalmente essa conquista.
Al-Hakem, que se mostrara remisso em socorrer Barcelona, marchou para
Saragoa com um exrcito numeroso, resolvido, segundo parece, a acometer 
os
aquitanos. Yusuf, filho do caide de Talavera, Amru, que nas passadas revoltas 
domara a
rebelio de Toledo, era ento vli desta cidade e tinha irritado grandemente os 
nimos
dos habitantes pela aspereza do seu carcter. A plebe alvorotou-se, mas 
apaziguada
pelas pessoas prudentes, e o vli pretendeu exercer contra ela a sua 
crueldade. Ento os
prprios que o tinham salvado o prenderam e deram conta do seu 
procedimento ao amir,
expondo as razes por que assim tinham obrado. Al-Hakem mostrou-se 
indiferente ao
sucesso e, removendo Yusuf para outro governo, nomeou Amru para suceder 
ao filho.
Amru levava em mente vingar a ofensa feita a Yusuf e comeou a vexar o povo 
por
todos os modos. No contente com isso, levou mais longe o seu dio. Passava 
por
Toledo Abdu r-Rahman, filho do amir, com cinco mil homens de cavalaria 
destinados
para o exrcito da fronteira: convidou-o Amru para uma ceia esplndida a que 
foram
chamados os principais da cidade. Enganados com as aparncias da festa 
caram no
lao.  medida que iam chegando, no meio do tumulto do banquete eram 
conduzidos
aos subterrneos do alcaar, onde lhes decepavam a cabea. Quatrocentos 
pereceram.46
assim. Desde ento o nome de Al-Hakem, a cujas ordens se atribuiu ento este 
sucesso,
ficou execrado pelos toledanos. Da a pouco o vli de Mrida, Esbaa, cunhado 
de Al-Hakem,
por desgostos que tivera com ele rebelou-se. O amir marchou contra Mrida;
mas a boa harmonia restabeleceu-se por interveno de Al-Kinza, mulher de 
Esbaa e
irm do amir, o qual perdoou ao vli, deixando-o, at, continuar no governo de 
que
havia sido revestido. O governador do distrito de Beja, que tambm se rebelara 
e se
dirigira a Lisboa, foi destroado pelo amir. Entretanto Kasim, filho de Abdullah, 
seu tio,
avisava-o de que era necessrio voltar a Crdova imediatamente. O povo da 
capital,
sempre desejoso de novidades e mal contente do mais que duro governo de 
Al-Hakem,
tratou de se aproveitar da sua ausncia para uma revoluo. Pensaram os 
conjurados
achar em Kasim, representante dos prncipes mais velhos que haviam sido 
excludos da
sucesso, um cabea para a empresa. Patentearam-lhe o seu desgnio. Ouviu-
os: fingiu
aceitar as propostas e delatou tudo ao tio, revelando-lhe o nome de trezentos 
dos
principais conspiradores. Recolheu-se o amir a Crdova, e na madrugada do 
dia em que
devia rebentar o incndio trezentas cabeas estavam penduradas nas ameias 
do alcaar.
Ao mesmo tempo que se espalhou a notcia do crime apareceu o testemunho
sanguinolento da punio.
Afogadas em sangue as perturbaes intestinas, a ateno de Al-Hakem 
voltou-se
para a guerra tenaz e activa que lhe faziam os cristos, no s os das Astrias, 
que ainda
ento eram os menos de recear, mas tambm os francos-aquitanos, que eram 
os mais
poderosos. Em 809, um exrcito dividido em dois corpos partira para 
Barcelona. O rei
Ludovico capitaneava pessoalmente um deles, que se dirigia contra Tortosa; o 
outro,
capitaneado por Borel, marquegrave da Gothia, nome que se havia dado ao 
novo distrito
franco daqum dos Pirenus, e por Bera, conde de Barcelona, saiu a saquear 
as margens
do Ebro e depois foi ajuntar-se s tropas do rei da Aquitnia sob os muros de 
Tortosa. O
moo Abdu r-Rahman, filho e sucessor do amir, que j servira nesta guerra, 
marchou
juntamente com o vli de Valncia contra os sitiadores, os quais obrigou a 
levantarem o
cerco e a recolherem-se a Barcelona, donde Ludovico partiu para alm dos 
Pirenus.
Neste meio tempo, os cristos das Astrias, porventura combinados com os 
francos,
haviam descido das suas montanhas, passado o Douro e assolado o Norte da 
Lusitnia.
Al-Hakem saiu-lhes ao encontro, desbaratou as tropas asturianas que tinham 
avanado
at perto de Lisboa, mas no pde jamais submeter inteiramente os galegos de 
Braga,
que faziam saltos e cometimentos sem aceitarem uma aco decisiva.
Destas lutas obscuras veio em breve distrair as atenes do amir mais grave
acontecimento. Nova expedio de aquitanos safra de Barcelona contra 
Tortosa. O
resultado dela foi o mesmo antecedente; mas Al-Hakem, inquietado pelos 
cristos do
Ocidente e receoso de que as repetidas tentativas do imperador Carlos, cujo 
nome soava
por todo o mundo, chegassem a ser fatais para a Espanha muulmana, enviou
mensageiros  corte de Aquisgrano propondo trguas, que foram aceitas. 
Quase pelo
mesmo tempo (812), a guerra cessou com o rei das Astrias (Afonso II). Ento 
o amir,
fazendo reconhecer seu filho Abdu r-Rahman sucessor do amirado (vli al-
hadi),
entregou ao mancebo, cujos altos espritos, valor e actividade tinham sido bem 
provados
nos anteriores sucessos, o trabalho da administrao, encerrando-se ele no 
seu alcaar
para se entregar ao repouso no meio dos deleites. Desde ento este prncipe, 
que outrora
se mostrara to belicoso e atento s obrigaes do seu cargo, consumiu os 
dias em
devassides e banquetes, nos quais, contra a expressa proibio do Coro, 
corriam em
abundncia os vinhos generosos. Uma parte dos tributos despendiam-se 
nestas festas
dissolutas, e a indignao do povo contra Al-Hakem crescia diariamente. 
Cercado de
uma guarda de cinco mil homens composta de cristos morabes e de 
eslavos, o amir
s fazia conhecer a sua existncia por sentenas de morte, que iam cair de 
repente sobre.47
aqueles que se lhe tornavam suspeitos. Numa destas execues a gentalha de 
um dos
arrabaldes amotinou-se, atacou as guardas do amir e obrigou-as a retirarem-se 
para o
alcaar. Al-Hakem sentiu ento renascer os antigos brios. Apesar das reflexes 
de seu
filho Abdu r-Rahman e dos vizires, ps-se  frente da soldadesca e precipitou-
se
furiosamente contra a multido desordenada. O povo atemorizou-se e foi 
refugiar-se no
arrabalde, onde ainda tentou resistir. O sangue correu em torrentes. Trezentos 
dos
amotinados serviram para dar um espectculo de terror, sendo cravados em 
postes pela
margem do rio. O bairro levantado ficou durante trs dias entregue ao saco e, 
expulsos
os seus habitantes, foi arrasado. Daqueles infelizes, cujo nmero subia a 
muitos
milhares, uns, depois de vaguearem errantes por largo tempo, fizeram assento 
no distrito
de Toledo, outros passaram ao Moghreb e ajudaram a povoar Fez, cidade que 
ento se
fundava debaixo dos auspcios do amir Idris Ibn Idris.
A voz implacvel da conscincia vingou a humanidade da feroz clera de Al-
Hakem.
Desde aquele sucesso o amir caiu numa demncia furiosa, que s era 
interrom-pida
por melancolia profunda. Depois de quatro anos de tormentos morais e fsicos, 
este
prncipe, cujos ltimos tempos tinham sido to negros quanto os primeiros 
haviam sido
brilhantes, veio a falecer (822) de morte lenta e dolorosa quando contava vinte 
e seis
anos de governo. Ento, seu filho Abdu r-Rahman, que tomara, em 
consequncia das
suas faanhas militares, o apelido de Al-Modhaffer (o Vitorioso), subiu ao trono, 
do qual
fora reconhecido herdeiro em vida de seu pai. Indomvel na guerra, Abdu r-
Rahman era
brando e piedoso na paz e sempre pronto em proteger os desvalidos e 
humildes.
Ajuntava a esses dotes morais claro engenho e instruo variada, e para em 
tudo ser
completo o garbo da figura associava-se nele com a gentileza do semblante. 
Apenas
aclamado amir, o seu esforo foi de novo posto  prova. O velho Abdullah, tio 
de Al-Hakem,
vivia ainda em Tnger: sabendo da morte do sobrinho, a ambio de reinar 
veio
acender-lhe os espritos amortecidos e, ajuntando as tropas que pde, passou 
o mar.
Entrado na Pennsula declarou-se amir, correndo os lugares abertos que no 
podiam
resistir-lhe. Partiu imediatamente Abdu r-Rahman contra ele, destroou-o e
constrangeu-o a retirar-se pera as bandas de Valncia. Perseguido e apertado 
entre os
inimigos e o mar, Abdullah resistiu por algum tempo na capital da provncia at 
que,
persuadido da inutilidade da tentativa, se congraou com o amir por 
interveno dos
prprios filhos, que se haviam conservado fiis a Abdu r-Rahman. Para 
lisonjear a
ambio do velho, este prncipe concedeu-lhe o governo vitalcio de Mrcia, 
que ainda
desfrutou dois anos.
Livre dos cuidados da guerra domstica o amir pde acudir aos reveses 
ocorridos
durante este intervalo nas fronteiras crists, principalmente nas dos francos. Ou 
que as
trguas feitas com Al-Hakem houvessem expirado, ou que os eternos 
adversrios do
nome sarraceno as quebrassem,  certo que os condes da provncia da 
Aqitnia daqum
dos Pirenus tinham feito uma entrada no territrio muulmano, onde deixaram 
profun-dos
vestgios da sua passagem. Abdu r-Rahman marchou ento para Barcelona, 
que
sitiou por algum tempo. Se acreditarmos os autores rabes, chegou a 
apoderar-se dela;
mas o silncio das crnicas crists e os sucessos posteriores tornam mais que 
duvidoso
este sucesso. Dali dirigiu-se a Urgel, que parece chegou a cair-lhe nas mos, e 
os
inimigos, destroados em toda a parte, viram-se constrangidos a buscar refgio 
nas
montanhas. Satisfeito . com estes triunfos o amir voltou a Crdova. Nessa 
conjuntura,
mensageiros enviados pelos vascnios das serras, povo sempre insofrido de 
qualquer
jugo, vieram propor-lhe uma aliana contra os francos. No desdenhou aceit-
la o
poderoso amir, e ela lhe foi til em breve. Um exrcito aquitano que entrara at
Pamplona, atacado pelos generais da fronteira e pelos novos aliados do 
soberano de
Crdova, foi destrudo nos desfiladeiros, e um dos cabeas da expedio 
conduzido.48
cativo  capital com grande nmero de outros prisioneiros.
Enquanto estas coisas se passavam tinha Abdu r-Rahman enviado contra as
Astrias seu primo Obeydullah Ibnul-Balensi. As correrias de Afonso II haviam 
inquie-tado
seriamente os muulmanos. Segundo os historiadores rabes, a guerra feita 
por
Obeydullah teve os resultados mais prsperos, sendo obrigadas as tropas do 
rei de
Oviedo a recolherem-se aos desvios das montanhas e aos lugares fortificados. 
Apenas,
porm, o general sarraceno regressou  capital, os cristos saram dos seus 
esconderijos
e renovaram os anteriores cometimentos nos territrios do amir, obrigado a 
sustentar
guerra perptua contra esta gente indomvel e incapaz de repouso, cujas 
correrias e
devastaes eram como um anncio do raio que devia um dia fulminar o 
imprio
muulmano da Pennsula.
Um conde godo tinha-se neste meio tempo rebelado contra Ludovico, que 
ento
reinava entre os francos como sucessor de seu pai, Carlos, o Grande, falecido 
anos
antes. Aizon (assim se chamava, o godo), havendo-se apoderado de territrios 
limtrofes
dos sarracenos, implorara o favor de Abdu r-Rahman contra Ludovico. Tropas 
rabes
tinham marchado imediatamente em seu auxlio, e o prprio amir se preparava 
para ir
pessoalmente aproveitar aquela conjuntura vantajosa, quando um 
acontecimento
inesperado lhe veio embargar os passos. Era o prncipe mais que liberal: era 
prdigo.
No contente com multiplicar por toda a parte as obras e edifcios de 
necessidade e at
de luxo, tinha levado ao extremo da exagerao o esplendor da corte. Aos 
poetas, aos
artistas que o rodeavam, s concubinas do seu harm, a todos aqueles, enfim, 
que
contribuam para lhe tornar a vida deleitosa, distribua com mo larga as 
grossas somas
que entravam diariamente nos cofres do Estado por meio de incomportveis 
tributos. O
povo, cansado de exaces, comeava a dar indcios de descontentamento. 
Ludovico
no o ignorava, segundo parece; porque dele existe uma carta aos principais 
moradores
de Mrida excitando-os  rebelio com promessas de socorro. Pelas frmulas e 
estilo
daquele documento se v que os habitantes da capital da antiga Lusitnia eram
principalmente cristos morabes e que se achavam grandemente irritados 
pelo peso
dos impostos. Assim o imperador franco, trabalhando por suscitar ao seu 
inimigo as
mesmas dificuldades de guerra civil com que ele andava a braos, no se 
enganara nas
concebidas esperanas. A revoluo rebentou em Mrida. Estava  frente dela 
um certo
Mohammed, antigo colector de tributos privado do seu cargo pelo amir. As 
habitaes
dos vizires ou ministros da cidade foram saqueadas e destrudas, e o povo 
armou-se para
obstar ao castigo. Por ordem de Abdu r-Rahman, a guarnio de Toledo e as 
tropas que
estanciavam pelo Gharb vieram sitiar os amotinados. Receava o amir que a 
cidade, rica
e populosa, ficasse destruda sendo entrada  fora de armas, e assim, em 
lugar de a
combater, os sitiadores limitavam-se a conserv-la estreitamente assediada. 
Depois de
algum tempo o descontentamento lavrou entre os cercados e a cidade foi 
entregue por
traio, salvando-se, todavia, Mohammed e os outros caudilhos dos 
levantados.
Mas as causas que em Mrida haviam suscitado a clera popular existiam por
outras partes. O desfecho da primeira tentativa no quebrou os nimos irritados 
pela
opresso. Em breve Toledo seguiu o exemplo de Mrida. A antiga capital da 
monarquia
visigtica era em grande parte povoada de cristos morabes e de judeus 
opulentos, os
quais, posto que obedientes ao jugo muulmano, o sofriam constrangidos e 
folgavam
das sedies que eles prprios promoviam. Os conjurados acharam logo quem 
os
capitaneasse. Era um certo fixam Al-Atibi, mancebo dos mais abastados de 
Toledo.
Distriburam-se armas e dinheiro, comprou-se a guarda mourisca do alcaar e 
a
revoluo rebentou. O vli estava ausente no campo: sabido o sucesso, avisou 
Abdu r-Rahman,
que sem perda de tempo enviou seu filho Umeyyah contra Toledo. Entretanto
os sediciosos tinham-se prevenido e, deixando a cidade guarnecida pelos mais 
bisonhos.49
ou menos audazes, saram ao encontro das tropas mandadas para os sopear. 
A fortuna
declarou-se pelos toledanos, que deste primeiro sucesso tiraram brios para 
prosseguirem
no levantamento. Trs anos durou este, sem que Umeyyah obtivesse 
vantagens
decisivas contra eles, at que, fazendo-os cair em uma cilada junto do rio 
Alberche, os
destroou com grande mortandade. Os fugitivos acolheram-se a Toledo, onde, 
apesar
daquele revs, continuaram a defender-se.
O vli de Mrida viera com as suas tropas ajudar as de Umeyyah e obtivera 
dos
inimigos uma assinalada vitria. O fugitivo Mohammed tinha reunido algumas 
foras
no distrito de Lisboa, e sabendo da ausncia do vli de Mrida e que a cidade 
estava mal
defendida dirigiu-se para aquelas partes. Fazendo entrar a pouco a pouco 
alguns dos
seus sequazes, teve modo de se apoderar dela. Recebida a notcia deste 
sucesso, o
prprio Abdu r-Rahman marchou para Mrida  frente da sua cavalaria e das 
mais
tropas que pde ajuntar. A resistncia foi enrgica a princpio; mas em breve os 
amoti-nados
cederam e o amir entrou na cidade, donde pde ainda mais uma vez escapar a 
seu
salvo o revoltoso Mohammed.
Continuava, todavia, a resistncia de Toledo apesar do exemplo de Mrida.
Durante nove anos o hbil fixam soube sustentar-se naquela cidade 
independente do
amir, resistindo aos generais que este enviava contra ele e desbaratando-os s 
vezes.
Afinal, reduzido com os seus a defender-se unicamente no recinto da 
povoao, ferido
j caiu nas mos do vli Abdul-Ruf, que dirigia o cerco e reduzira Toledo  
ltima
estreiteza. O vli mandou-lhe decepar a cabea, apoderando-se da cidade. 
Com a morte
de fixam a revoluo acabou, e a autoridade de Abdu r-Rahman deixou de ser 
disputada.
Esta nova encheu de jbilo os nimos cansados de to diuturna guerra civil; 
mas o
esprito guerreiro do amir no lhe consentia largo repouso. As tropas do Gharb
receberam a ordem para marcharem  guerra santa contra o rei da Galiza 
(assim
denominavam os sarracenos os monarcas das Astrias), e as da Axarquia ou 
do Oriente
para acometerem os cristos do pas dos francos. Estas guerras, cujas 
consequncia
foram s estragos mtuos, serviram mais para os muulmanos se no 
desabituarem do
trato das armas do que para aumentar a glria do amir ou estender os limites 
dos seus
domnios, que j comeavam a encurtar-se.
Foi nessa conjuntura que nas costas da Pennsula apareceram pela primeira 
vez
novos e inesperados inimigos; inimigos tanto dos estados cristos das Astrias, 
como da
Espanha maometana. Eram estes os normandos. Aqueles brbaros da 
Jutlndia, saindo
do Bltico em frgeis barcas, espalhavam o terror, havia j tempos, pelas 
praias de
Inglaterra e de Frana. Atravessando o golfo de Biscaia vieram ento visitar 
com
estragos, roubos e mortes as regies martimas da Pennsula. A Galiza foi o 
primeiro
teatro das suas devastaes. Desembarcados na Corunha (853), Ramiro I, que 
ento
reinava em Oviedo, enviou contra eles foras que os desbarataram, 
queimando-lhes
algumas barcas. Mal sucedidos com os cristos, desceram ao longo da costa 
para o
Gharb. Cinquenta e quatro velas dos piratas escandinavos entraram no Tejo e,
desembarcando na foz do rio, assolaram os arredores de Lisboa. Daqui, 
prosseguindo na
sua terrvel viagem, foram fazendo saltos em terra e saqueando os lugares 
abertos,
ousando subir pelo Guadalquivir at Sevilha, que em parte destruram. 
Repelidos pelos
povos vizinhos, que se haviam ajuntado para lhes resistirem, saram outra vez 
ao largo
antes que pudessem ser colhidos por uma armada de quinze navios enviados 
por Abdu
r-Rahman para lhes tolher a passagem. Os piratas voltaram ento, 
retrocedendo pela
mesma rota que tinham seguido e assolando de novo as costas do Gharb, 
enquanto
Ahdu r-Rahman mandava ordens aos caides de Santarm e de Coimbra para 
guar-necerem
as praias e afugentarem estes incmodos hspedes, contra cujos rpidos
assaltos a resistncia quase sempre vinha tarde. Persuadido de que o nico 
meio para os.50
destruir era combat-los no mar, Abdu r-Rahman ordenou a construo de 
esquadras em
Cdis, Cartagena e Tarragona, incumbindo especialmente dos negcios navais 
seu filho
Yacub e fazendo todas as prevenes necessrias para se poder acudir 
prontamente a
qualquer ponto salteado pelos normandos.
Desde ento Abdu r-Rahman dedicou-se a adornar Crdova e outras cidades 
com
edificaes mais ou menos teis ou grandiosas. Tendo j passado a idade de 
sessenta
anos fez proclamar sucessor do amirado seu filho Mohammed, e da a pouco 
veio a
falecer (832) deixando a reputao de um carcter altivo, de um esprito 
cultivado e de
ser um dos mais valentes capites do seu tempo e o mais ilustre amir que at 
a regera a
Espanha muulmana.
Subindo ao trono na florente idade de trinta anos, Mohammed, cujos dotes e
carcter eram mui semelhantes aos de seu pai, pensou logo em dilatar a glria 
das armas
sarracenas ordenando aos vlis de Mrida e de Saragoa acometessem os 
cristos:
aquele, os da Galiza; este, os do pas dos francos. Baldou-lhe, porm, 
brevemente os
vastos desgnios o esprito sempre inquieto dos sbditos. Musa Ibn Zeyad, 
cristo
renegado e vli de Saragoa, havia sido, segundo alguns, demitido pelo amir, 
bem como
seu filho, o vli de Toledo. A vingana levou-os ento a buscarem a aliana dos 
cristos,
seguros da qual amotinaram os seus respectivos distritos, apoderando-se de 
muitas
cidades importantes e estabelecendo uma espcie de governo independente, 
que abran-gia
os territrios de Saragoa, Tudela, Huesca e Toledo e que se estendia assim 
por um
tero da Pennsula. Enquanto Lupo ou Lopia Ibn Musa, filho de Ibn Zeyad, se
fortificava em Toledo para resistir a Mohammed, seu pai ousava sustentar no 
Oriente a
guerra contra os francos. Era a razo disto que Musa se aliara com a Navarra, 
reino
fundado na antiga provncia aquitana daqum dos Pirenus e em que por isso 
os
sucessores de Carlos, o Grande, pretendiam exercer um domnio a que se 
opunham os
novos aliados de Musa. Este passou as montanhas assolando o Meio-Dia das 
Glias e
com fortuna tal que os francos se viram obrigados a oferecer-lhe paz. 
Entretanto o amir
em pessoa viera sitiar Toledo, e apesar de ter atrado os inimigos a uma cilada, 
em que
fez neles grande matana, no pde reduzir a cidade e voltou a Crdova 
deixando seu
filho Al-Mundhir, que ento comeava a exercitar o mister das armas, para 
continuar o
cerco.
Este durou largo tempo; mas os socorros conduzidos por Musa a Lupo 
obrigaram
os generais do amir a levant-lo. A guerra civil protraiu-se. Destroado, enfim, 
Musa
por Ordonho I numa batalha sanguinolenta dada junto a Clavijo (em 
consequncia de
haver o orgulhoso vli ousado entrar nos territrios do rei das Astrias e fundar 
na Rioja
o castelo da Albada), ficou to abatido que, tendo-se retirado para Saragoa 
com as
relquias do exrcito, Toledo chegou a capitular, e Lopia, que buscara valer-se 
do
prprio vencedor de seu pai para que o socorresse contra Mohammed, viu-se
constrangido a ir buscar um asilo nas terras do seu novo aliado.
Foi pouco depois de submetida Toledo que os normandos, repelidos segunda 
vez
das costas da Galiza, que haviam tentado infestar, renovaram os saltos e 
entradas pela
beira-mar da Espanha muulmana. Depois de fazerem imensos estragos, 
perseguidos
pela cavalaria do amir tornaram a embarcar e foram levar o terror do seu nome 
s praias
de frica, s ilhas Baleares e, at; aos mares da Grcia. Carregados de 
despojos, vol-taram
ousadamente a invernar nas costas da Pennsula, donde regressaram 
Escandinvia na Primavera seguinte. Entretanto o rei de Oviedo, cobrando 
brios com a
vitria de Clavijo, passava a fronteira para o sueste e reduzia pelas armas 
Corja,
Salamanca e outras povoaes. Inquieto com os progressos dos cristos, 
Mohanimed
enviou contra eles um numeroso exrcito capitaneado por Al-Mundhir, o qual,
encontrando-os nas margens do Douro os desbaratou, se acreditarmos os 
historiadores.51
rabes. Dali Al-Mundhir marchou para a fronteira oriental ou do pas dos 
francos,
donde, obtidas novas vantagens contra os cristos, voltou a Crdova. No 
havia, porm,
respirar de combates entre as duas raas inimigas. Ordonho fizera uma 
correria para o
sul at Lisboa: o amir, em vingana, invadiu a Galiza com as tropas da 
Andaluzia,
entrando at Santiago. Mas brevemente a guerra civil o distraiu de prosseguir 
nas
entradas contra os cristos. Haviam ocorrido, segundo parece, revolues e 
distrbios
nas provncias orientais, e parte das foras do amir tiveram de marchar a 
combater os
levantados. Estas lutas frequentes eram inevitveis na Espanha muulmana, 
onde  falta
de instituies polticas assaz robustas para manterem a unidade social se 
ajuntavam as
mtuas repugnncias nascidas da diversidade de raas, no s entre rabes e 
berberes,
mas tambm entre uns e outros e os morabes cristos, inimigos naturais 
daquelas duas
categorias de conquistadores, de quem os separava a diversidade de origem e 
de crena
e a sujeio de povos conquistados. A narrativa das guerras civis dos ltimos 
anos do
amirado de Mohammed  to confusa nos historiadores rabes que fora 
impossvel
substanci-la neste rpido esboo sem risco de cair em graves erros. O que 
parece mais
certo  que j nessa conjuntura comeavam a aparecer as primeiras tentativas 
de
rebelio do clebre renegado Omar Ibn Hafssun, que to conspcuo papel veio 
a
representar na Pennsula durante o governo de Al-Mundhir.
Logo, porm, que as perturbaes civis lho consentiram, Mohammed voltou as
armas contra o reino cristo das Astrias, cuja importncia e poder 
aumentavam de dia
para dia. Pela morte de Ordonho I haviam-se a suscitado contendas intestinas.
Aproveitaram-se os sarracenos do ensejo. Uma armada partiu para as costas 
da Galiza
enquanto os vlis da fronteira entretinharn a ateno dos cristos. Falhou, 
porm, a
empresa, porque a frota sarracena foi desfeita por uma furiosa tempestade ao 
chegar 
foz do Minho. Afonso III, que j reinava pacificamente nas Astrias, cobrou com 
este
sucesso nimo e brios para invadir o territrio muulmano, tomando Salamanca 
e
cercando Coria. Repelido pelos sarracenos, estes fizeram uma entrada na 
Galiza, mas
sendo salteados  volta num passo estreito, foram destroados com grande 
perda. Ento
Afonso III marchou de novo para o sul, onde se apossou das cidades mais 
importantes
da moderna provncia da Beira. As foras do amirado achavam-se divididas; 
porque o
vli de Saragoa se rebelara, e um seu irmo se fizera senhor de Tudela. O 
prncipe Al-Mundhir,
que marchara contra eles, no podera obter vantagens algumas decisivas e ao
mesmo tempo os turbulentos toledanos aclamavam por vli Abu Adbullah, filho 
de
Lopia, seu antigo chefe nas passadas turbulncias. O horizonte poltico 
mostrava-se
assaz carregado para o amir: todavia asserenou com mais prontido do que 
era de supor.
Musa, vli de Saragoa, foi assassinado pelos seus prprios parciais, e Abu 
Abdullah,
que esperara debalde ser socorrido pelo rei de Oviedo, no se julgando 
habilitado para
resistir s foras mandadas contra ele, fugiu, deixando os toledanos  merc 
de
Mohammed, que generosamente lhes perdoou.
O infeliz sucesso da guerra contra os cristos das Astrias e a fome e a peste 
que
devastavam por esse tempo a Pennsula moveram o amir a ajustar trguas 
com Afonso
III. Apenas, porm, elas acabaram, este fez uma invaso, penetrando at onde 
os
cristos nunca haviam chegado, isto , at  serra Morena. A desbaratou as 
tropas que
se lhe opuseram e, deixando subjugadas vrias povoaes do moderno 
Portugal, voltou
aos seus estados. Deveu ele estes triunfos s novas perturbaes civis da 
Espanha
muulmana. O rebelde Omar Ibn Hafssun trabalhava activamente em ajuntar 
gente,
tanto muulmana como crist, para com ela alevantar a mquina de ambio 
que a
conscincia do prprio gnio e esforo lhe inspirava. A notcia dos progressos 
que
faziam as armas asturianas obrigou o amir a dirigir-se para aquele lado da 
fronteira,
deixando incumbido o castigo de Ornar Ibn Hafssun a Al-Mundhir e ao clebre 
chefe da.52
ltima revoluo de Toledo, Abu Abdullah, que tentara e obtivera entrar na 
graa de
Mohammed. Este homem, to hbil soldado como turbulento, quase tinha 
acabado com
a rebelio; mas pretendendo que o amir o fizesse vli de Saragoa e no o 
alcanando,
levantou-se com esta cidade e uniu-se com o partido de Hafssun que at ali 
combatera.
Al-Mundhir marchou ento contra ele; mas no podendo render Saragoa 
contentou-se
com atacar a Alava e a Castela Velha, provncias que j pertenciam ao rei de 
Oviedo.
Achando dura resistncia nos condes que defendiam aquela fronteira, dirigiu-se 
contra
Leo; mas, sabendo que Afonso III o esperava em terreno vantajoso, o prncipe
retrocedeu para Crdova, deixando assoladas algumas povoaes na sua 
passagem.
Viva e longa tinha sido a guerra entre cristos e sarracenos. Uns e outros
desejavam a paz, sobretudo Mohammed, inquieto com o levantamento de Abu
Abdullah. Prop-la, portanto, ao rei asturiano, que a aceitou, celebrando-se 
urnas
trguas em Crdova entre Mohammed e os embaixadores de Afonso III (833).
Entretanto, se os muulmanos respiravam da luta com os cristos, nem por 
isso cessava
entre eles o estrondo das armas. Ornar Ibn Hafssun, ligado com Abu Abdullah, 
era um
adversrio capaz de se defender longamente contra o governo de Crdova. Os 
factos
provaram-no. Depois de trs anos de escaramuas e recontros, as foras de 
Mohammed
foram desbaratadas numa batalha em que o chefe dessas foras, Abdul-
Hamed, foi
aprisionado e os levantados ficaram seguros da impunidade, ao menos por 
algum tempo.
No meio desta luta chegou o ano de 876 em que Mohammed faleceu. Alm dos
dotes comuns a ele e a seu pai, o amir deixou a reputao de bom poeta, 
qualidade
grandemente estimada pelos rabes, e de excelente caligrafo, coisa que no 
apreciavam
menos. Foi, alm disso, tido na conta de um dos homens que ento havia mais
instrudos nas cincias exactas e de extremado orador. S as contnuas 
guerras e
perturbaes da Espanha durante o seu governo impediram que ele pudesse 
promover o
progresso da civilizao, como era de esperar dos seus indisputveis talentos.
Dois anos antes Al-Mundhir tinha sido declarado por seu pai sucessor do trono.
Os longos servios feitos por ele ao islamismo espanhol e ao amirado 
tornavam-no
digno de to alta recompensa. Desde mui verdes anos podia dizer-se que 
nunca despira
as armas. Sublimado  dignidade de amir, nem por isso lhe foi concedido 
repousar das
passadas fadigas. Ornar Ibn Hafssun havia neste meio tempo sabido remover 
algumas
competncias de autoridade que existiam entre ele e os outros chefes dos 
sediciosos.
Assim alcanava empregar unidas as foras que lhe obedeciam e que 
diariamente
engrossavam.  frente de dez mil cavaleiros, afora a gente de p, dirigiu-se a 
Toledo,
onde tinha amigos secretos. Os toledanos, sempre afeioados a novidades, 
receberam-no
com todas as demonstraes de jbilo. Al-Mundhir sentiu o perigo desta audaz 
tentativa
de Ornar, que j se intitulava amir, e ordenou imediatamente que as guarnies 
da
Andaluzia e de Mrida se ajuntassem, enviando ele adiante contra Toledo o 
hjibe
Hixam com a flor da cavalaria. O rebelde, receoso de uma luta desigual e longe 
das suas
habituais guaridas, recorreu aos enganos: props umas trguas para que o 
deixassem
reduzir-se  vida privada, obrigando-se a entregar Toledo e mostrando-se 
arrependido
da empresa que cometera. Hixam fez com que o amir aceitasse estas 
proposies, e de
feito Ornar saiu da cidade fingindo abandon-la de todo, mas deixando 
preparadas as
coisas para a execuo dos seus desgnios. Guarnecida Toledo de tropas do 
amir, o
hjibe regressou a Crdova. Apenas, porm, ele partira, Ibn Hafssun deu volta, 
e
ajudado pelos seus parciais, que tinham ficado ocultos na cidade, apoderou-se
novamente dela, bem como dos castelos vizinhos que abandonara. A notcia 
deste
sucesso custou a cabea a Hixam e a liberdade a dois filhos seus, que Al-
Mundhir,
pouco afeioado ao velho ministro de Mohammed, acusou de cumplicidade 
com os
rebeldes. Depois o amir em pessoa marchou contra Ornar; mas este havia 
distribudo as.53
suas tropas pelos castelos e povoaes fortificadas de que estava senhor. Com 
sucessos
diversos a guerra durou por mais de um ano, at que M-Mundhir foi morto na
conjuntura em que atacava o castelo de Bixter ou Yobaxter, um dos mais fortes 
que Ibn
Hafssun possua (888); e assim acabou o sexto amir de Espanha da raa dos 
Benu
Umeyyas num combate obscuro depois de dois anos de reinado.
Abdullah, irmo de Al-Mundhir, que se achava no exrcito, dirigiu-se logo a
Crdova, onde sem contradio o aclamaram amir. Um dos seus primeiros 
actos foi
soltar os filhos do hjibe Hixam injustamente punidos e elev-los a cargos 
importantes.
Deu este procedimento azo a novas dissenses, que rebentaram no seio da 
famlia do
amir. Mohammed, seu filho, inimigo pessoal dos do ministro morto, ligou-se 
com seu
irmo Al-Asbagh e com seu tio Al-Hasim contra o amir. Este, sabendo do que 
se
tramava, enviou Abdu r-Rahman Al-Modhaffer ou Al-Mutref, outro filho seu, 
para que
trabalhasse em reduzir os desobedientes. Foi intil a tentativa. Mohammed 
levantou-se
com a provncia de Jaen ao tempo que o amir marchava contra Ornar Ibn 
Hafssun,
destroava-o junto das margens do Tejo e, cortando a comunicao entre os 
corpos
volantes dos levantados e Toledo, vinha apertar o cerco desta cidade. Recebeu 
ento
aviso do mau resultado da misso de Abdu r-Rahman e ao mesmo tempo de 
que outras
duas sedies haviam rebentado em Lisboa e em Mrida. No perdeu Abdullah 
o nimo
no meio desta confuso. Uma armada partiu para o Tejo capitaneada pelo vizir 
Abu
Othman, e ele dirigiu-se a Mrida com um exrcito de quarenta mil homens, 
com que a
reduziu  obedincia. Depois, sabendo do levantamento de Jaen, marchou 
para l e,
destroando um corpo de tropas que tentou opor-se-lhe, apoderou-se de Jaen. 
Dali,
deixando Abdu r-Rahman Al-Modhaffer encarregado de dispersar o resto dos
partidrios de Mohanimed, veio apertar o cerco de Toledo. Foi longa a luta dos 
dois
irmos; mas por fim o que combatia por seu pai colheu s mos o mais velho 
numa
batalha, juntamente com seu tio Kasim. O prncipe cativo pouco sobreviveu na 
priso
em que o irmo o lanara e onde se diz que lhe deram veneno. Uma parte dos 
vencidos
refugiou-se nas montanhas, outra foi engrossar as fileiras de Ornar.
Este opunha entretanto ao amir tenaz resistncia, a guerra prolongava-se e, 
apesar
de todos os esforos de Abdullah, o partido do filho de Hafssun fortalecia-se e 
ganhava
importncia de dia para dia. Um dos generais de Ornar, chamado Ahmed, 
achou-se
assaz forte para ousar acometer o rei de Oviedo, que desde o tempo de 
Mohammed
tinha paz com o governo de Crdova. Afonso III desbaratou Ahmed numa
sanguinolenta batalha junto de Zamora e avanou contra Toledo, tentativa de 
que no
tirou melhor resultado do que tirara Abdullah. Estes acontecimentos, que 
apertavam
mais os laos de boa amizade entre Oviedo e Crdova e de que parecia dever 
resultar
para o amir um aumento de fora moral, geraram unicamente males. Os 
inimigos de
Abdullah lanaram mo do sentimento religioso para promover o 
descontentamento
popular contra ele. Taxavam-no de mau muulmano pela sua aliana com os 
cristos,
que dela se aproveitavam para derramar o sangue dos verdadeiros crentes. 
Surtiu efeito
o alvitre. Comearam a aparecer sintomas de sedio. Falava-se de recusar o 
pagamento
dos tributos, e Kasim, o tio rebelde de Abdullah a quem este perdoara, excitava 
j os
nimos dos sevilhanos  desobedincia. O amir mandou ento prend-lo e 
envenen-lo
no crcere, banindo de Sevilha os cabeas de motim. Omar no descansava 
entretanto, a
guerra era cada vez mais viva entre os seus partidrios e os de Abdullah. 
Desbaratado
pelo vli Abu Othman, recolheu-se a Toledo, onde as tropas do amir no 
ousaram atac-lo
durante trs anos. O prncipe Al-Modhaffer, que alcanara pr em sossego os 
distritos
do Sul, pediu ento o governo de Mrida que tinha Abu Othman, com o intento 
de dar
calor  guerra de Toledo. Cedeu-lho prontamente o velho vli; mas l lhe ficou 
dentro
da alma o espinho da m vontade contra o seu sucessor. Feito capito das 
guardas do.54
alcaar em Crdova, trabalhou constantemente para que, em detrimento de Al-
Modhaffer,
Abdullah designasse por sucessor o moo Abdu r-Rahman, filho de
Mohammed, o prncipe que morrera encarcerado. Criava-o o av consigo e 
tinha-lhe
particular afecto pelos dotes morais e pelo grande engenho que nele divisava. 
Saiu Abu
Othman com seu intento. Sentindo a morte prxima, Abdullah chamou Al-
Modhaffer
para que admitisse a eleio do sobrinho. Ou fosse generosidade de nimo ou 
remorsos
do envenenamento do irmo, o prncipe no s consentiu, mas prometeu 
amparar e
defender o novo amir como se fora seu filho. Pouco depois Abdullah faleceu 
(912) e
Abdu r-Rahman Ibn Mohammed foi aclamado, segundo as intenes do av, 
no
vigsimo segundo ano da sua idade. Era ele o terceiro do nome de Abdu r-
Rahman, e a
superstio rabe tirava da pressgios de que o mancebo igualaria em glria 
aqueles
dois ilustres antepassados seus. As esperanas que nele punham fizeram com 
que lhe
atribussem o ttulo de amir al-mumenim (prncipe dos crentes), ttulo que 
pertencia aos
califas de Bagdade e que os amires de Espanha, posto que havia muito 
independentes,
no tinham ousado tomar. Dentro em breve acrescentou o de im (pontfice) a 
essoutro
ttulo, o que equivalia a denominar-se califa, isto , chefe supremo, religioso e 
poltico,
do islamismo. Este facto indica bem que a decadncia da monarquia dos Benu 
Umeyyas
comeava a sentir-se, porque so frequentes na histria os exemplos de 
estados onde os
governos pretendem iludir-se a si prprios sobre a runa que os ameaa 
encobrindo-a
debaixo de vs e pomposas aparncias. De feito, ao passo que as guerras civis 
se
multiplicavam ameaando destruir a unidade do imprio muulmano da 
Espanha, a
monarquia crist das Astrias dilatava-se e adquiria foras, a ponto de lutar
vantajosamente com aqueles que um sculo antes a consideravam apenas 
como uma
associao desprezvel de miserveis bandoleiros.
Dispostas algumas coisas do governo civil, o primeiro negcio a que se 
dedicou o
califa, ou antes seu tio e generoso protector o guerreiro Al-Modhaffer, foi a 
prosseguir
vigorosamente no empenho de acabar a revolta de Ornar. Com quarenta mil 
homens
escolhidos dentre aqueles que voluntariamente se ofereciam por toda a parte 
para esta
aco, Al-Modhaffer e o sobrinho partiram para o distrito de Toledo. Os 
castelos guar-necidos
pelos inimigos caram todos sucessivamente em seu poder: s a antiga capital
dos godos continuou a resistir. Ornar entretanto aproximava-se com um 
exrcito que
excedia em nmero o do califa. Saiu Al-Modhaffer a receb-lo e travaram 
batalha. Foi
disputada valorosamente ficando o campo juncado de dez mil cadveres: mas 
por fim as
tropas de Abdu r-Rahman alcanaram vitria, e Ornar, fugitivo, teve de ir 
acolher-se a
Hins-Conca. Ento o moo califa voltou a Crdova, enquanto Al-Modliaffer 
continuava
a perseguir, incansvel, os partidrios dos Hafssuns.
No permitem os breves limites de um rpido resumo que sigamos as pouco
importantes particularidades desta guerra civil. Provam elas, em suma, que o 
partido de
Ornar, composto em grande parte da raa berbere, era um partido bastante 
numeroso e
tenaz para opor, como ops, longa resistncia  fortuna e  actividade de Abdu 
r-Rahman.
Depois de muitos revezes e de rendida Saragoa, Ornar ousou propor-lhe que
o deixassem reinar tranquilo e independente na fronteira oriental, que 
defenderia contra
os cristo, e ele lhe entregaria Toledo com todos os lugares e castelos que 
seguiam a sua
voz no Ocidente da Espanha. Rejeitou o califa tal proposta com indignao, 
declarando
aos enviados de Ibn Hafssun que o nico meio de obter a paz era uma pronta 
submisso.
Com esta resposta o rebelde tirou foras da desesperana e continuou a 
defender-se at
morrer, deixando dois filhos, Jafar e Suleiman, herdeiros do seu valor e 
constncia, os
quais continuaram a luta com Al-Modhaffer, que tomara a seu cargo esta 
guerra.
Entretanto no distrito de Jaen levantavam-se novas perturbaes, para as 
quais contri-bua
no s o esprito turbulento dos povos, mas tambm os vexames dos exactores 
dos.55
tributos e o desenfreamento da soldadesca, um dos piores males de qualquer 
pas onde o
poder  constrangido a afrouxar o rigor da disciplina para ter a seu favor a 
milcia.
Acrescia a estes males a peste que assolava ento a frica e a Espanha. 
Tantas
desventuras pareciam desmentir as esperanas que a eleio de Abdu r-
Rahman fizera
conceber; mas, enfim, a situao das coisas comeou a melhorar. Alcanou-se 
pr termo
s desordens de Jaen, e os toledanos, apertados por um dos mais longos 
assdios de que
faz meno a histria, vendo as cercanias da cidade destrudas e Jafar, que 
por tanto
tempo fora participante dos riscos e trabalhos comuns, abandon-los, abriram 
as portas
ao califa (927), o qual, tomando posse daquela cidade que soubera conservar-
se inde-pendente
dos seus dois imediatos antecessores e por tanto tempo dele prprio,
generosamente perdoou aos habitantes, esquecendo todo o passado.
Durante estas lutas civis, a guerra com os cristos, tanto de Oviedo como de
Navarra, tinha sido sustentada com vigor pelo moo califa, posto que nem 
sempre
fossem felizes as armas muulmanas. Noutra parte teremos ocasio de 
mencionar os
sucessos militares ocorridos no reinado de Ordonho II. Por morte de Ordonho, 
os
cristos, entretidos tambm por dissenses internas, no puderam combater os
sarracenos com demasiada violncia, bem que no abandonassem de todo as 
correrias
pelo pas inimigo quando as turbaes domsticas lho consentiam. O mesmo 
sucedia
com os muulmanos. Abdu r-Rahman, segundo parece, no sentia vivos 
desejos de
guerrear os cristos, cujo valor indomvel e feroz era de respeitar e cujo 
territrio
agreste e pobre no oferecia para saquear ou devastar riquezas ou cultura 
bastantes a
contrapesar os danos e roubos que eles faziam nas terras muulmanas, mais 
cultas e
opulentas. Tanto, porm, que Ramiro II se achou seguro no trono, tomando por 
modelos
os seus antecessores Afonso III e Ordonho II, cuidou principalmente em ajuntar 
um
exrcito capaz de levar o terror ao corao dos estados de Abdu r-Rahman, 
fazendo uma
entrada inesperada at Magerit (Madrid), que assolou, deixando-a deserta e 
voltando a
seu salvo a Leo. A felicidade desta empresa deveu-a aos negcios que por 
esse tempo
atraam toda a ateno do califa e de que  necessrio dar notcia para 
inteligncia de
uma grande parte dos subsequentes sucessos.
O leitor tem seguido connosco a srie de revolues de que a Espanha foi 
vtima
desde a conquista rabe. A fraqueza e falta de harmonia nas instituies 
polticas,
estribadas apenas nas doutrinas falsas ou incompletas do Coro, a diversidade 
de raas
unidas s pelo vnculo moral de uma crena comum e o despotismo ilimitado 
do
supremo poder eram as causas principais dessa febre violenta que trazia o 
corpo social
em agitao perptua, a qual, se a observarmos atentamente, chega a produzir 
no
esprito uma espcie de vertigem. No temos visto no decurso de dois sculos 
passar
diante dos olhos seno levantamentos, batalhas, desmembraes, que 
sucedem
rapidamente umas s outras. A civilizao no alcana opor barreiras  
desordem, que
se renova, transforma-se, multiplica-se, toma todos os aspectos, busca todos 
os
pretextos. O quadro que nos oferece a Espanha repete-se em frica, na sia, 
onde quer
que os sectrios do Profeta levaram a f muulmana e a organizao que em 
tal crena
se fundava. Era ela, pois, a causa do mal. Ao passo que no Ocidente o 
cristianismo ia
lanando as bases da paz e da ordem entre os povos semibrbaros e ferozes 
que
adoravam o Deus do Calvrio, as gentes maometanas do Oriente, 
incomparavelmente
mais civilizadas, caminhavam para a dissoluo e para a barbaria  sombra do
estandarte ensanguentado do islamismo. Contraste singular, na verdade; prova 
sublime,
posto que dolorosa, da origem pura e divina da crena crist e da vaidade e 
mentira
destoutra, que pelo fanatismo soubera fazer conquistadores, mas que se 
mostrou sempre
inbil para constituir sociedades regulares e duradouras.
O Moghreb ou frica Ocidental tinha sido teatro de acontecimentos anlogos 
aos.56
sucedidos na Pennsula. Escusamos particulariz-los, porque no vem ao 
nosso intento.
Basta saber que naquelas partes se fundara por esta poca um imprio 
poderoso sobre as
runas de outro que no o parecia menos e que, contudo, se havia desfeito ao 
sopro das
tempestades polticas. Era este o dos Beni Idris: aquele o dos Fatimitas. Os 
Benu
Umeyyas de Crdova estavam aliados desde antigos tempos com os Idrisitas: 
pedia-o a
identidade de sangue e de interesses. Abdu r-Rahman via com inquietao os 
progressos
de Obeydullah, o cabea dos Fatirnitas, que tomara os ttulos de im e de amir 
al-mumenin.
Desejava o califa espanhol um pretexto para o rompimento e este no tardou
a aparecer. Os partidrios dos Idrisitas, que ainda conservavam vrias }raas, 
invocaram
o auxlio de Abdu r-Rahman, que lho prometeu pedindo em refns as cidades 
de Ceuta e
Tnger, as quais de feito lhe foram entregues e que ele guarneceu, mandando 
ao mesmo
tempo uma armada para as costas de frica e tropas capazes de se oporem 
aos capites
de Obeydullah. Estes socorros, porm, foram inteis para restabelecer os Beni 
Idris;
porque o monarca de Crdova parece ter tido s em mira o prprio proveito ou 
antes a
prpria segurana nessa guerra que intentava contra os Fatimitas. Um general 
destes,
Musa, tinha o governo de Fez, centro do Moghreb al-Aksa (Moghreb do Meio), 
e dos
antigos domnios dos Idrisitas. O califa espanhol soube atra-lo a si, e por 
interveno
dele em breve foi reconhecido soberano de toda aquela parte da frica (932), 
deixando
assim burlados os que lhe haviam aberto as portas para to fcil conquista.
Trs partidos ficaram ento disputando o domnio do Moghreb: o de 
Obeydullah,
o de Abdu r-Rahman e o dos representantes da antiga dinastia de Idris. No 
seguiremos
as fases desta luta, que s indirectamente diz respeito  histria dos 
sarracenos na
Pennsula. Fez, tomada e retomada sucessivamente por cada uma das 
parcialidades,
reconhecia o senhorio de Abdu r-Rahman nos ltimos tempos do reinado deste 
prncipe,
que o transmitiu com o califado de Espanha a seu filho e sucessor Al-Hakem. 
Os
sucessos aqui ocorridos enquanto duraram as contendas de frica  o que por 
agora
importa indicar para o fim que nos propusemos, sendo suficiente o que fica dito 
para se
perceberem os factos produzidos pelas relaes mais estreitas que esta 
conquista de
Abdu r-Rahman estabeleceu entre a Africa e a Pennsula.
A destruio de Madrid pelo rei leons suscitara a indignao dos muulmanos,
que juntos em grande nmero fizeram uma entrada por Castela levando a 
devastao
por toda a parte. O conde Fernando Gonalves, que governava esta provncia, 
pediu
socorro a Ramiro, o qual veio logo unir-se com ele, e marchando ambos contra 
os
inimigos os desbarataram perto de Osma. A aplicao das principais foras do 
califado
para os negcios dalm-mar, que facilitara os triunfos de Ramiro, animou o 
amortecido
esprito de rebelio entre os prprios sarracenos. O vli de Santarm, que tinha 
razes
de queixa contra Abdu r-Rahman por causa do vizir Mohamrned Ibn Isak, seu 
irmo, a
quem o califa mandara justiar, levantou-se e, no se crendo assaz forte para 
sustentar-se
contra o soberano, buscou o amparo do rei de Leo, fazendo-lhe preito com 
muitos
dos principais nobres do Gharb. Aproveitando o pretexto de lhe levar socorros, 
Ramiro
fez uma entrada para os territrios do Sul, que devastou, retirando-se com 
avultados
despojos. O velho Al-Modhaffer, que ainda vivia, entrou ento pela Galiza com 
um
corpo de cavalaria, e o califa, o qual se preparava entretanto para dar um 
profundo golpe
no poder dos leonenses, que o inquietava, pouco tardou em cometer mais sria 
tentativa,
marchando com mais de cem mil homens contra o rei cristo. Ramiro no 
receou sair ao
encontro do inimigo perto de Simancas, onde se deu uma terrvel posto que 
no decisiva
batalha, em que os sarracenos parece no terem levado a melhoria. Os 
acontecimentos
assaz obscuros que sucederam aos desta jornada e a retirada de Abdu r-
Rahman para
Crdova provam, ao menos, que os seus desgnios e esperanas falharam. Em 
suma, as
cidades da fronteira, que o leons perdera no primeiro mpeto dos 
muulmanos, estavam.57
da a pouco em poder dele e restauradas.
Os combates entre as duas raas inimigas continuaram todavia, mas sem
consequncias assaz importantes para influrem na situao poltica dos 
leoneses ou dos
sarracenos. Cansados de danos mtuos, Abdu r-Rahman e Ramiro celebraram 
enfim
trguas por cinco anos (944). Logo, porm, que este prazo expirou, o rei de 
Leo fez
uma entrada at Talavera, perto da qual cidade destroou as tropas que 
intentaram opor-se-
lhe. Deste desaire se vingou o califa no ano seguinte invadindo a Galiza, sem 
que o
seu adversrio pudesse obstar-lhe, retido j pela ltima enfermidade no leito da 
morte.
Bem precisava Abdu r-Rahman nesta conjuntura de se ver desapressado de 
to duro
contendor; porque novas perturbaes civis despontavam, tendo origem no 
seio da sua
prpria famlia. Havia ele declarado e feito jurar sucessor da coroa seu filho 
mais velho,
Al-Hakem; o segundo, Abdullah, sofreu-o mal. Tinha ambio e incitavam-no os 
dotes
de esprito, em que era superior ao irmo, o afecto popular e a liberdade de 
que os
soberanos da casa de Umeyyah gozavam na escolha de um sucessor sem 
ateno 
primogenitura. Instigado por um certo Ibn Abdil-Barr, homem astuto e cobioso,
Abdullah comeou a formar um partido com que pudesse disputar a coroa ao 
mais velho
por morte do pai. Vieram estes enredos  notcia do califa. Com o parecer de 
Al-Modhaffer,
que continuava a viver e a influir nos negcios pblicos, Abdu r-Rahman
mandou prender seu filho e Ibn Abdil-Barr. Este matou-se a si prprio na 
priso, e
Abdullah foi degolado (949) por ordem do pai, apesar das splicas de Al-
Hakem e dos
impulsos da natureza que levariam o prncipe a perdoar-lhe, se a razo de 
Estado, a
justia e os receios de futuras perturbaes o no constrangessem a ser 
inexorvel.
Como se esta dolorosa tragdia no bastasse para enlutar o corao de Abdu 
r-Rahman,
a morte de Al-Modhaffer, sucedida pouco depois, veio aumentar a profunda 
tristeza que
lhe enraizara na alma a punio de Abdullah.
As trguas com os cristos tinham tocado o seu termo, e de novo nas 
mesquitas se
pregava o djihed ou guerra santa. Todavia esta limitou-se a frequentes 
correrias e
entradas em que apenas figura um recontro de certa importncia perto de 
Talavera,
povoao que Ramiro II acometera debalde, posto que desbaratasse nas suas 
imediaes
um corpo de tropas sarracenas. A morte do rei leons e os posteriores 
sucessos ocorri-dos
entre os cristos impediram estes por algum tempo de devastar os territrios do
califado. Pelo contrrio os muulmanos aproveitaram o ensejo para penetrar na 
Galiza,
cujas riquezas j comeavam a ser de mais valia e a poderem servir de 
desconto aos
danos at a recebidos. Ordonho III, porm, tendo segurado na cabea a coroa 
de Leo,
que lhe fora assaz disputada, vingou os males padecidos por seus sbditos, 
invadindo o
Gharb e chegando at a foz do Tejo, onde tomou Lisboa, abandonando-a 
depois de
saqueada para voltar  Galiza carregado de despojos, o que atraiu as 
represlias dos
sarracenos contra Castela, onde fizeram grandes estragos. Entretanto as 
armas
muulmanas tinham obtido considerveis vantagens na frica e acabavam de 
sujeitar ao
califa espanhol a maior parte da Mauritnia, cujas tribos ele continha na 
obedincia
governando-as com ceptro de ferro; mas a guerra com os Fatimitas nem por 
isso era
menos violenta por mar e por terra, e as armas dos muulmanos do Andaluz 
obtinham
gloriosas vitrias dos seus correligionrios de frica. O nome de Abdu r-
Rahman soava
pelo mundo, e as embaixadas dos imperadores da Grcia e da Alemanha que 
buscavam
a sua amizade tinham vindo dar testemunho de quo grande era a reputao 
do poder do
califa de Crdova. Nas suas dissenses civis os mesmos leoneses recorriam  
proteco
do prncipe muulmano. Sancho 1, expulso do trono por Ordonho, o Mau, 
implorou e
obteve dele socorros com que recuperou os prprios domnios, e Ordonho teve 
de se
acolher aos estados de Abdu r-Rahman, sempre pronto a exercer generosa 
hospitalidade
para com os oprimidos..58
Enquanto assim a glria e a prosperidade cercavam na Europa o velho califa,
grandes revezes temperavam em frica estes dons da fortuna. Jauhar, general 
do
prncipe fatimita Muizz, desbaratava os xeques das tribos sujeitas a Crdova e 
os
capites das tropas andaluzas, levando tudo a ferro e assenhoreando-se das 
cidades do
Moghreb, sem exceptuar Fez, a capital dos estados da Mauritnia dependentes 
da
Espanha. Abdu r-Rahman, porm, velava pela integridade do imprio. Uma 
armada com
gente de desembarque passou o mar, e dentro em breve tudo voltou  antiga 
sujeio.
Os Fatimitas resistiram por algum tempo em Fez; mas por fim, levada  escala 
aquela
cidade com grande estrago dos seus defensores, o nome de Abdu r-Rahman 
foi de novo
repetido na chtebra, ou orao, por todas as mesquitas do Moghreb, como de 
im ou
pontfice e de amir al-mumenin ou prncipe universal dos crentes.
Pouco depois destes sucessos a morte veio pr termo ao longo e glorioso 
governo
do califa, que faleceu (961) no Palcio de Azzahrat ou Zahra, a cinco milhas de
Crdova, residncia magnfica edificada por ele e que pela extenso se podia 
comparar
a vasta cidade. Contava o velho monarca muulmano setenta e dois anos de 
idade e
cinquenta de reinado. Durante este perodo de meio sculo, a firmeza e o 
entendimento
superior de Abdu r-Rahman tinham sabido conter as revoltas que enfraqueciam 
as
foras do califado e o ameaavam de completa dissoluo. Alm disso, ele 
dilatara os
limites dos seus estados pelo interior da Mauritnia e contivera o esprito 
conquistador
dos leoneses, obtendo depois ser chamado por eles prprios a dirimir as suas 
contendas
intestinas. A corte esplndida de Crdova era frequentada pelos homens mais 
clebres
nas cincias e nas letras que possua o islamismo, e a fama das grandezas e 
poder do
califa obrigava os mais poderosos prncipes da Europa a enviarem-lhe 
embaixadas e a
proporem-lhe alianas. Tendo despendido somas enormes na edificao de 
Azzahrat e
de muitos outros monumentos que levantara, Abdu r-Rahman ainda deixou 
avultados
tesouros, em parte resultado da prosperidade do pas e fruto da boa 
arrecadao e
aplicao dos tributos, em parte adquiridos pelas vitrias obtidas, no s contra 
os
leoneses, mas tambm contra os sarracenos da frica. Apesar, porm, de 
tantos favores
da fortuna, diz-se que o califa deixara notado numa espcie de dirio, em que 
ia
apontando os sucessos da sua vida, que nos cinquenta anos em que reinara 
amado dos
sbditos, temido dos inimigos, acatado por todos e saciado de deleites, apenas 
gozara
catorze dias de ventura estreme. Assombroso exemplo da vaidade e misria de 
todas as
grandezas humanas.
Morto Abdu r-Rahman, seu filho Al-Hakem foi aclamado im e amir al-
mumenin.
O novo califa tinha j ento quarenta e sete anos. A sua paixo dominante era 
a dos
livros, e uma biblioteca de quatrocentos mil volumes ajuntada por ele dava 
testemunho
do seu amor s letras, nas quais foi insigne. A paz com o rei de Leo durava 
ainda, e Al-Hakem,
cujo carcter era essencialmente pacfico, continuou a dar-se s letras, mas
unicamente como recreio dos cuidados do governo. Este estado de coisas 
durou, porm,
pouco. O conde de Castela inquietava com saltos e correrias os sbditos 
muulmanos
das provncias limtrofes. Al-Hakem viu-se por isso constrangido a puni-lo, 
publicando
contra ele a guerra santa. O desfecho desta foi o destroo do conde com perda 
de vrias
povoaes importantes. O mau resultado da sua imprudncia moveu-o a 
procurar por
medianeiro o rei de Leo, de quem era sbdito, para obter paz de Al-Hakem, 
que
naturalmente amigo da tranquilidade lha concedeu, entregando-se de novo s 
suas
ocupaes literrias e  reforma dos abusos introduzidos na administrao e 
sobretudo
nos costumes. Por uns poucos de anos de profunda paz, o reinado de Al-
Hakem aparece
na histria do domnio rabe como um osis no meio do deserto, e o esprito 
repousa
enfim daquele contnuo espectculo de devastao e de morte que nos 
oferecem quase
sem interrupo os anais dos sarracenos da Espanha. Os acontecimentos da 
frica.59
vieram, todavia, velar este quadro aprazvel e lanar de novo o imprio no 
turbilho da
guerra. Balkin Ibn Zeiri, general dos Fatimitas, invadira os territrios da 
Mauritnia que
reconheciam a supremacia do califa de Crdova. As causas e circunstncias 
deste
sucesso no vm ao nosso propsito. Balkin apoderou-se sucessivamente das 
praas
principais do Moghreb, desbaratando, no s as tribos berberes que se lhe no 
uniram,
mas tambm as tropas andaluzas distribudas pelas provncias da frica. O 
amir idrisita
Al-Hassan Ibn Kanun, que governava naquelas partes debaixo da autoridade 
de Al-Hakem,
traindo a confiana do prncipe, declarou-se pelos Fatimitas. Esta nova trazida 
a
Crdova produziu sensao profunda. O califa, que no obstante as suas 
propenses
pacficas mostrara j quo pronto estava para os casos de guerra, mandou
imediatamente sair de Ceuta uma frota com tropas de desembarque 
capitaneadas pelo
vizir Mohammed Ibn Al-Kasim, que sem detena se dirigiu contra Al-Hassan.
Encontraram-se; e depois de renhida batalha os espanhis foram vencidos, 
ficando
morto no campo o general Mohammed. Este sucesso adverso mostrou a Al-
Hakem a
necessidade de empenhar seriamente as foras do califado em reconquistar 
aquela parte
da herana que lhe legara seu pai. Ajuntando cpia de dinheiro, armas e 
soldados,
aprontou uma poderosa armada cujo mando supremo deu ao caudilho Ghalib, 
homem
de singular esforo e percia, a quem declarou que no queria tornar a v-lo 
seno
vencedor ou morto. Cumpriu Ghalib a vontade do califa. Comprando os xeques 
das
tribos berberes e desbaratando aqueles que no cediam de outro modo, o 
general
cordovs assenhoreou-se brevemente da maior parte do Moghreb. Al-Hassan,
desamparado dos seus, acolheu-se ao castelo de Hajarun-Nasr, que Ghalib 
logo sitiou.
Faltaram os mantimentos e a gua aos cercados. Trataram de dar-se a partido 
com as
mais vantajosas condies que pudessem. Aceitou-lhas Ghalib, desejoso de 
reduzir 
obedincia e de pacificar aquele amirado. Os Idrisitas tiveram a vida e os bens 
salvos
com a obrigao de virem residir em Crdova, e o Moghreb reconheceu de 
novo o
domnio dos Benu Umeyyas. Al-Hassan, depois de viver algum tempo na 
Pennsula,
obteve de Al-Hakem licena para voltar  frica Ocidental, donde fugiu para a 
corte do
califa fatimita, de quem parece ter-se conservado sempre, bem que em 
segredo, parcial.
Dois anos depois destes sucessos Al-Hakem faleceu (976) com sessenta e trs
anos de idade e quinze de reinado, os quais foram o pice da glria e poder da 
dinastia
dos Benu Umeyyas. Deixou ele a justa fama de haver sido um dos caracteres 
mais
nobres e dos sujeitos mais instrudos entre os muulmanos de todos os 
tempos. Com a
sua morte, a decadncia do imprio de Crdova comeou a progredir, apesar 
dos
esforos de muitos homens enrgicos que forcejaram por salv-lo. A 
Providncia
decretara a restaurao do cristianismo na Pennsula e os seus decretos 
deviam cumprir-se,
bem que, s vezes, a execuo deles parecesse retardar-se.
Logo que Al-Hakem expirou, seu filho nico, Hixam, foi declarado califa.
Contava apenas dez anos, idade pouco aparelhada para o regimento de to 
vasto
imprio. Sua me, Sobha, tinha sido extremosamente amada do califa defunto 
e ganhara
assim ilimitada influncia. Era seu principal valido e secretrio Moham. med Abi 
Amir
Al-Maaferi, homem que, pela afabilidade do trato, gentileza e dotes do esprito,
merecera a estimao e confiana de Sobha e do prprio Al-Hakem. Assim, na
menoridade do prncipe, Mohammed foi elevado ao grau de hjibe ou primeiro-
ministro
e considerado como tutor de Hixam. Unido com Sobha, ele vinha a ser o 
verdadeiro
califa, no no nome, mas no essencial, que era o supremo poder. Depois de 
procurar por
todos os modos tornar-se aceito aos poderosos, o hjibe obteve grande 
popularidade
declarando serem as suas intenes quebrar as trguas com os cristos e 
guerre-los at
os reduzir inteiramente  obedincia do seu pupilo. Para isto comeou por 
assentar
pazes com Balkin Ibn Zeiri, que de novo corria o Moghreb e tinha cercado 
Ceuta..60
Obrigou-se este a mandar-lhe anualmente certo nmero de cavaleiros 
berberes, com
recprocas obrigaes e mediante uma soma de dinheiro ajustada entre ambos. 
Dispostas
assim as coisas, Abi Amir partiu para as fronteiras orientais, onde ordenou aos 
vlis e
caides fizessem levas de tropa para correrem duas vezes por ano as terras dos 
cristos.
Voltando s fronteiras ocidentais, mandou avanar as tropas do Gharb e com 
elas fez a
sua primeira tentativa na Galiza, onde pelo inesperado daquele mpeto pde a 
salvo
devastar campos, queimar aldeias, roubar gado e fazer cativos, com que voltou 
a
Crdova contente da boa estreia desta algara (correria), que foi como o sinal 
da guerra
de extermnio que resolvera fazer aos inimigos do islamismo.
Desde esta poca at o fim do sculo X a luta com os cristos foi contnua, e o
implacvel hjibe reduziu-os  ltima estreiteza. No cansaremos o leitor com a 
nar-rao
de to repetidas entradas, correrias e batalhas, at porque teremos adiante de 
fazer
de tudo isso meno um pouco mais particularizada. Em quase todas estas 
empresas
Mohammed saiu vitorioso, e o sangue cristo correu em torrentes. Um sem-
nmero de
cativos, ricos despojos e o terror que incutia o seu nome foram a recompensa 
das suas
fadigas e tornaram-no o mais clebre capito daquele tempo. Ao passo, porm, 
que
assim se fazia recear dos estranhos, o hbil hjibe soube conservar o poder de 
que se
apossara e engrandecer-se a ponto que nos ltimos anos da sua vida a 
Espanha
muulmana quase se esquecera de que acima dele estava um fantasma sem 
autoridade e
sem fora, a quem deixara o ttulo vo de califa.  do progresso desse 
engrandecimento
que falaremos aqui.
Eis, em resumo, como um dos principais historiadores rabes, Al-Makkari, 
narra
os princpios e o aumento da influncia do famoso hjibe. Mohammed (diz ele), 
que Al-Hakem
elevara do cargo de cdi ao de vizir, aproveitou-se da sua situao para 
usurpar
o poder em dano do moo Hixam. Ajudado por Jafar Ibn Othman Al-Muchafi, 
um dos
hjibes do califa, por Ghalib, governador de Medina-Celi, e pelos eunucos do 
palcio,
comeou mandando matar Al-Mugheyrab, irmo de Al-Hakem. Meteu depois a 
zizania
entre os prceres do imprio, que recorreram s armas e mutuamente se 
destruram.
Proibiu aos vizires o trato com o prncipe, salvo em certos dias em que lhes 
concedia
virem saudar o califa, com a condio de logo e sem lhe falar se retirarem. 
Atraiu com
liberalidades a soldadesca e os eruditos dando-lhes cargos: com a fora 
conteve as sedi-es.
Dentro em breve, sem autorizao do califa ou, para melhor dizer, ignorando-o
este, enviou tropas contra alguns personagens, conjurados em dio dele e 
resolvidos a
oporem-se aos seus ambiciosos desgnios, expulsando-os dos cargos que 
ocupavam.
Soprou ento a m vontade entre o hjibe Al-Muchafi e os eunucos eslavos, 
que foram
deitados fora do palcio em nmero de oitocentos. Seguiu-se casar com a filha 
de
Ghalib, o clebre general do califa defunto. Seduziu com lisonjas e artifcios, 
mandou
matar ou submeteu pela violncia todas as pessoas de quem podia ter receio 
ou que
mereciam distino entre os chefes rabes. Desafrontado assim de todos os 
que podiam
opor-se  sua omnipotente autoridade, tratou de assegurar o exrcito 
introduzindo a
indivduos seus afeioados, quase todos berberes ou de outras gentes 
africanas. Dadas
estas providncias, tirou a Hixam toda a ingerncia nos negcios, e se o 
califado
continuou nominalmente a existir, isso redundava s em proveito e grandeza 
pessoal do
primeiro-ministro. Renovando a guerra contra os infiis, tirou aos rabes os 
postos mais
altos e favoreceu com eles os berberes que mandara vir de frica, procedendo 
em tudo
como se fora sua a soberania. Edificou para si um castelo a que ps nome Az-
Zahirah,
onde meteu os seus tesouros e de que fez uma espcie de arsenal. Tomou 
ento o ttulo
de hjibe al-manssor (o ministro vitorioso) e no seu estilo usou de expresses 
de mo-narca.
Leis, proclamaes, decretos, saa tudo em nome dele; por ele davam nas
mesquitas a colecta como pelo califa, e o seu nome gravado nas moedas 
igualmente o.61
foi no selo do Estado. Criou ministros, encheu o exrcito de berberes e de 
foragidos
cristos e rodeou-se de um tropel de escravos e guardas para firmar o seu 
poder e
esmagar qualquer mulo que tentasse disputar-lho. Em suma, no deixou a 
Hixam mais
do que a prerrogativa de ser mencionado nas oraes pblicas e nas moedas 
com os
ttulos vos que ele lhe dava de barato.
Tal  o retrato que Al-Makkari nos faz do clebre hjibe de Crdova. 
Carregado,
talvez,  ele; mas as obras de Mohammed condizem com os traos principais. 
O segredo
do seu poder era, de feito, a largueza para com a soldadesca, preferindo em 
tudo os
africanos e os cristos, que corriam a alistar-se debaixo das suas bandeiras 
para
guerrearem os prprios correligionrios pelo acolhimento e favor que achavam 
nele.
Assim chegou a passar mostra geral em Crdova, dizem os autores rabes, a 
duzentos
mil cavaleiros e seiscentos mil infantes, nmero evidentemente exagerado, 
mas que,
ainda dando-lhe o devido desconto, devia ser superior ao das antigas foras do 
imprio.
Para entreter esta multido de gente de guerra e enriquec-la de despojos, 
cumprindo ao
mesmo tempo a promessa que fizera de combater sem descanso os estados 
cristos,
repetia regularmente duas vezes por ano as entradas no territrio inimigo, que 
deixava
assolado. Aproveitando habilmente as rixas e dios que pululavam entre os 
adversrios
do islamismo, fazia reverter tudo em engrandecimento prprio. A disciplina 
severa que
introduziu nos exrcitos muulmanos no obstou  afeio dos soldados, os 
quais viam
nele um chefe que no s guardava a todos rigorosa justia, mas tambm 
arriscava nas
batalhas a vida corno o ltimo dos que lhe obedeciam. Foi assim que em 
cinquenta
campanhas pde ir gradualmente reduzindo a monarquia fundada por Pelgio 
quase ao
estado dos primeiros anos da sua existncia, ou antes levando-a a um ponto 
prximo da
sua derradeira runa.
As vitrias obtidas dos cristos por Mohammed, que em consequncia delas
tomara o apelido por que mais conhecido , o de Al-Manssor, no tinham sido
alcanadas por ele haver empregado exclusivamente as suas foras e 
cuidados na
guerra, que fazia quase a um tempo na Galiza, em Leo e em Castela. A 
provncia do
Moghreb chamava igualmente a ateno do hjibe e distraa em parte os 
recursos do
califado de Crdova. O califa fatimita ordenara ao seu general Balkin 
favorecesse as
tentativas que o antigo amir idrisita Al-Hassan fazia para reconquistar o 
senhorio
daquela parte da frica. Assim protegido, Al-Hassan chegou de feito a 
apoderar-se de
uma parte dos seus anteriores domnios e a sitiar em Ceuta o irmo do hjibe, 
Ornar.
Apenas, porm, Al-Manssor o soube, enviou seu filho Abdul-Malek, mancebo 
de
poucos anos, mas j de grande reputao, com um exrcito contra o idrisita, 
que, no se
atrevendo a resistir, submeteu-se. A submisso foi intil, porque o hjibe o 
mandou
assassinar. Abdul-Malek, nomeado ento governador do Moghreb, tomou pelo 
feliz
resultado daquela empresa, que dirigira em to verdes anos, o ttulo de Al-
Modhaffer.
A partida deste para Espanha, da a pouco tempo, trouxe novas perturbaes 
na
frica. Balkin tornou a apoderar-se de Fez e Al-Manssor a enviar tropas de 
refresco aos
generais andaluzes que naquelas partes sustentavam a supremacia do califado 
de
Crdova. Depois de vrios sucessos, Al-Manssor viu restabelecida essa 
espcie de
supremacia nominal, porque na realidade o poder estava nas mos dos chefes 
das tribos
berberes, que ora seguiam a voz dos Fatimitas, ora a dos Benu Umeyyas, 
conforme um
ou outro partido lhes oferecia mais facilidade para satisfazerem as suas 
ambies. Foi
nesta conjuntura e em consequncia de semelhante situao do pas que certo 
Zeyri Ibn
Atiyah, chefe dos zenetas, chegou a ocupar a dignidade de amir do Moghreb 
que por
tanto tempo pertencera  dinastia de Idris. Ibn Atiyah, que obtivera de Al-
Manssor o
amirado, tinha-se feito assaz poderoso, e o hjibe comeou a recear quebra na 
sua
fidelidade. A fim de evitar o perigo nomeou-o vli ou governador do distrito 
de.62
Crdova, para o obrigar a residir na corte e poder ele vigi-lo. Veio Zeyri e, 
apesar de
todos os afagos e pompas com que Al-Manssor o tratou, concebeu-lhe grande 
averso
vendo o despotismo com que governava a Espanha e conservava em tutela 
abjecta o
prprio califa. Entretanto, Yadu Ibn Yala, chefe das tribos dos Benu Yeferun,
aproveitando a sua ausncia, acometera e tomara Fez, e ocupara o lugar de 
arnir. Serviu
isto de razo ou de pretexto a Zeyri para voltar  frica. Chegado a Tnger, 
Zeyri
marchou contra o seu adversrio, que venceu, apoderando-se novamente de 
Fez. Dentro
de pouco ele tinha firmado o seu poder no Moghreb, e quando, finalmente, se 
julgou
aparelhado para a resistncia fez suprimir o nome do hjibe na chtebra ou 
orao
pblica e expulsou dos seus lugares os ministros andaluzes que regiam 
diversos distritos
do arnirado. Al-Manssor mandou partir imediatamente para frica um exrcito
capitaneado pelo eunuco Vadheh, que Zeyri destroou. Ento Abdul-Malek, o 
filho do
hjibe, passou o mar com tropas numerosas e, apesar da longa e desesperada 
resistncia
de Zeyri, veio a subjugar de novo o Moghreb, reduzindo Fez e voltando  
Pennsula
depois de deixar reconhecida por toda a parte a autoridade do califa, ou para 
melhor
dizer, a de Al-Manssor.
Este, na sua imensa ambio de glria, no contente dos triunfos por toda a 
parte
obtidos, quis tambm ilustrar-se com o esplendor que cercava os nomes de 
Abdu r-Rahman
e de Al-Hakem. Nos intervalos de repouso que lhe davam as guerras,
anualmente renovadas contra os estados cristos, o omnipotente hjibe 
procurou com
incansvel diligncia promover na corte de Crdova o progresso das letras e 
cincias.
Costumava trazer consigo no exrcito poetas que celebrassem as suas vitrias 
e,
voltando  capital, o seu palcio convertia-se numa espcie de academia, onde 
eram
recebi. dos e festejados todos os sujeitos notveis por engenho ou saber. 
Visitava as
escolas e colgios e, assentando-se entre os escolares, no consentia que os 
professores
interrompessem o ensino ou mostrassem o menor sinal de respeito para com 
ele. No
poupava dinheiro em recompensar os talentos extraordinrios, e assim a fama 
da
cincia, literatura e civilizao da Espanha, especialmente da capital, atraa 
para esta
cidade no s as pessoas estudiosas da frica, mas tambm as dos pases 
cristos da
Europa; e at os sbios mais ilustres do Oriente no duvidavam de vir exercer 
o
ministrio de professores na academia de Crdova.
O termo de tantas grandezas e prosperidades chegou finalmente para Al-
Manssor,
o mais terrvel aoute do cristianismo espanhol depois dos primeiros invasores 
rabes.
Comeara o sculo XI e, apesar de tantas campanhas em que entrara, dos 
imensos
estragos que fizera no territrio dos inimigos e de quanto encurtara os limites 
deste com
a conquista ou destruio de muitas povoaes importantes, o hjibe no 
estava ainda
saciado de sangue. Na Primavera de 1002 fez passar da frica para a 
Pennsula novas
levas de soldados, dispondo tudo para a invaso que da a pouco efectuou. O 
extraordi-nrio
dos preparativos para este acometimento produziu graves receios entre os 
cristos,
mas o excesso do temor salvou-os; porque, pondo de parte as suas discrdias 
passadas,
uniram-se enfim todos para defenderem a causa comum. Leoneses, 
castelhanos,
navarros, vascnios e at algumas tropas de alm dos Pirenus saram a 
receber Al-Manssor
perto das fontes do Douro. Foi sanguinolenta a batalha e duvidoso o resultado;
mas os sarracenos retiraram-se durante a noite, porque a sua perda fora 
imensa. A maior
foi a do hjibe, que, tendo ai adoecido, segundo uns, e segundo outros 
havendo ficado
ferido no recontro, o que  . mais provvel, foi conduzido a Medina Celi e l 
faleceu,
substituindo-o no mando das tropas seu filho Abdul-Malek. Tinha o famoso 
hjibe
sessenta e cinco anos de idade, havendo governado vinte e cinco o imprio de 
Crdova,
nos quais resgatou com a energia, com a boa administrao, com a glria 
militar e com
o amor das letras os meios pouco legtimos que empregara para se elevar e 
reter em si a.63
autoridade suprema.
Sobha, a me de Hixam, ainda vivia, e o califa conservava-se na espcie de
infncia perptua a que havia sido condenado. A sua existncia escoava-se 
brandamente
no meio dos perfumes dos jardins de Azzahrat, ao som dos cantos e danas 
das
formosas escravas, nas delcias dos banquetes, na ebriedade, enfim, de 
contnuos
deleites. A velha sultana, fiel  memria de Al-Manssor, fez declarar primeiro-
hjibe
seu filho Abdul-Malek, digno na verdade de suceder naquele importante cargo, 
ao
menos como capito valoroso e experimentado. Desejoso de vingar a morte de 
seu pai,
renovou as entradas nas terras dos cristos. As primeiras campanhas parece 
terem tido
s um resultado importante, a runa da cidade de Leo; mas depois de uma 
breve trgua
de dois anos (1005 a 1007), renovada a guerra, os estragos foram terrveis, 
ficando
destrudas muitas povoaes. Vingaram-se, porm, os cristos no ano seguinte 
(1008)
destroando um exrcito que entrara na Galiza capitaneado pelo prprio Abdul-
Malek,
que, retirando-se para Crdova, a faleceu nesse mesmo ano, no faltando 
suspeitas de
haver sido envenenado.
Abdu r-Rahman, filho segundo de Al-Manssor, foi escolhido para sucessor de 
seu
irmo. Esperava-se que ele imitasse tanto um como outro nas qualidades que 
os tinham
tornado dignos do supremo poder. Era, porm, Abdu r-Rahman de bem diversa 
tmpera.
Descuidado das pesadas obrigaes do seu cargo, passava os dias em 
exerccios
militares e as noites em festas dissolutas. Gozava assim da intimidade do 
califa, e apesar
da sua incapacidade era aceito ao vulgacho, que se contentava das 
parecenas que ele
tinha exteriormente com Al-Manssor, das suas boas maneiras e, sobretudo, da
liberalidade que mostrava. No tinha filhos o califa e, posto que fosse de idade 
de os ter,
a afeio particular que mostrava a Abdu r-Rahman animou este a pretender 
que Hixam
o declarasse por seu sucessor. F-lo assim o tmido califa. Sabido pelos Benu 
Umeyyas
mais prximos parentes de Hixam o que se tramava contra a sua linhagem, 
cuidatam em
impedi-lo. O moo Mohammed, primo do califa e que esperava suceder-lhe, 
colocou-se,
como era natural,  frente das resistncias. Os dios contra a famlia de Al-
Manssor, ou
dos Al-Amiris, ardiam debaixo das cinzas comprimidos pelo temor: isto bastou 
para os
excitar. Os nobres, principalmente, inclinaram-se a Mohammed, e em breve 
este se
achou  frente de um partido numeroso e sobretudo audaz. Com ele tentou e 
obteve
assenhorear-se de Crdova, donde Abdu r-Rahman sara para uma expedio 
contra os
cristos, e a apoderar-se de Hixam, a quem obrigou a abdicar nele a coroa.
Sabendo o que se passava na corte e confiado na aura popular que ali tinha, o
hjibe deu imediatamente volta. No lhe custou a entrar em Crdova; mas ao 
chegar 
praa do alcaar, no s as tropas de Mohammed, mas tambm os principais 
da cidade
com muito povo mido se lhe opuseram, comeando uma sangulnolenta briga.
Falharam as esperanas de Abdu r-Rahman, que assentavam em to 
movedio alicerce
como  o favor da plebe. Esta declarou-se-lhe geralmente adversa e, apesar do 
esforo
com que ele e os seus combatiam, sendo ferido, caiu nas mos de 
Mohammed, que
ordenou fosse pregado numa cruz; e assim acabou (1009) em suplcio 
ignominioso o
sucessor de Abdul-Malek e filho do clebre A-Manssor.
Entretanto a revoluo no devia ficar aqui. Tinha de seguir novas fases. Como 
o
povo aborrecia os africanos, que constituam o principal nervo de exrcito e 
sobretudo
da numerosa guarda do califa, ele mandou logo sair esta do alcaar e da 
cidade, e os
vlis das provncias suspeitos de lhe serem adversos foram mudados. 
Prevenidas assim
as coisas, diz-se que Mohammed resolvera acabar com o califa deposto. 
Conta-se
tambm que Vadhed, pessoa de sua confiana e camareiro de Hixam, o 
dissuadira do
assassnio com um alvitre porventura no menos atroz. Buscaram um indivduo 
que se
parecesse com o prncipe; arrebataram-no certa noite e, afogando-o, lanaram-
no no.64
leito real, enquanto Hixam era encerrado numa casa cuja guarda se deu a 
pessoa segura.
Representada esta farsa, Mohammed pensou ficar seguro no trono dos Benu 
Umeyyas.
Os factos subsequentes provaram-lhe que se enganava.
A famlia dos Al-Amiris tinha-se esteado principalmente na raa berbere: fora 
esta
a poltica de Al-Mans-sor. O novo califa era, portanto, naturalmente oposto aos
africanos. Assim, um dos seus primeiros cuidados foi fazer cumprir com todo o 
rigor a
ordem que dera para que fossem expulsos. Eram, porm, eles demasiado 
poderosos em
nmero, em influncia e em valor prprio para no cederem a esta injusta 
malevolncia.
Pegaram em armas e atacaram o alcaar, pedindo a cabea de Mohammed e 
acusando-o
de tirano e de assassino de Hixam. Saiu o califa contra eles com as tropas 
espanholas de
que se rodeara. O povo, lembrado das altivezas e porventura das violncias 
dos
estrangeiros, declarou-se-lhes contrrio e aproveitou o ensejo para a vingana
acometendo-os tambm. Durou o combate o resto daquele dia, toda a noite e a 
manh
seguinte. As ruas e praas da vasta e populosa Crdova ficaram retintas em 
sangue e
alastradas de cadveres, cabendo o maior dano s turbas desordenadas do 
povo. Todavia
os africanos foram, enfim, constrangidos a despejar a cidade. Hixam Ibn 
Suleiman Al-Raxid,
caudilho dos berberes, ficou prisioneiro, e da a pouco eles viram cair no meio
dos seus esquadres a cabea do valente e infeliz capito, arrojada dentre as 
ameias de
Crdova. No entusiasmo da indignao os banidos aclamaram imediatamente 
por chefe
Suleiman Ibn Al-Hakem, primo do morto, o qual, conhecendo que as suas 
foras no
eram bastantes contra Mohammed, se retirou para as fronteiras de Castela, 
onde a troco
de alguns lugares fortes, que provavelmente estavam em poder de caides seus 
naturais,
Suleiman pde obter a aliana e os socorros do conde Sancho Garcez. 
Aumentadas por
este modo as suas tropas com um corpo de cavaleiros cristos, gente 
escolhida, o
general africano voltou a ameaar a capital. Saiu o califa contra ele: 
encontraram-se os
dois exrcitos e depois de uma batalha assaz disputada ficou Suleiman 
vencedor, com a
morte de quase vinte mil cordoveses. Mohammed retirou-se ento para o 
distrito de
Toledo, cujo vli era seu filho Obeydullah, donde buscou os meios de melhorar-
se,
tomando o exemplo do seu adversrio e travando alianas com os condes de 
Barcelona e
de Urgel. Assim os prncipes cristos, intervindo nas guerras civis dos 
sarracenos, uns a
favor de uma parcialidade, outros de outra, ajudavam-se das circunstncias 
para se
engrandecerem, sem que lhes servisse de obstculo o encontrarem-se muitas 
vezes
frente a frente nos campos da batalha debaixo dos estandartes muulmanos.
Suleiman chegara neste meio tempo a Crdova. Vadhed, o salvador do 
esquecido
Hixam, que negociava os prprios interesses tomando o lugar de medianeiro 
entre os
partidos, fizera com que os habitantes no tentassem resistir. O general 
africano
confiou-lhe ento o governo da cidade e acampou fora dos muros, com o 
fundamento de
evitar algum arrudo entre os seus soldados e os cordoveses, irritados uns 
contra os
outros. Finalmente, passados alguns dias, entrou na cidade para se aclamar 
califa.
Tinham-se declarado por ele todos os povos das fronteiras e distrito de Toledo 
e bem
assim todas as terras, desde Tortosa no Oriente, at Lisboa no Ocidente. Os 
governos de
Algeciras e Ceuta, que eram as duas chaves do estreito entre a Espanha e a 
frica,
foram confiados a Al-Kasim e a Ali, moos guerreiros de grande reputao, 
ambos
irmos e da ilustre famlia dos Idrisitas. Mas a inveja e a emulao entre os 
seus
sequazes, principalmente entre os eslavos e os cristos, no davam repouso a 
Suleiman.
Vadhed, descobrindo-lhe a existncia do desgraado Hixam, aconselhava-lhe 
que a
patenteasse, restituindo-o ao trono. Era mau o conselho para quem to alto 
subira, e
Suleiman s cuidou em ocultar melhor o pobre idiota e em lhe pr mais seguros 
vigias.
Entretanto Mohammed, tendo ajuntado os seus parciais e sendo socorrido por 
tropas
crists capitaneadas pelos condes de Barcelona e de Urgel, marchava contra 
Crdova.65
com um exrcito de perto de quarenta mil homens. A dez milhas da capital, 
Suleiman
saiu-lhe ao encontro com foras muito inferiores, mas resolvido a travar 
batalha. Foi
esta sanguinolenta e disputada; afinal, porm, os africanos ficaram 
destroados, e depois
de passarem pelo clebre Palcio de Azzahrat, que deixaram saqueado, 
dirigiram-se
para Algeciras com a inteno de se transportarem para frica. Mohammed foi 
recebido
como libertador pelo povo de Crdova, cujo dio contra Suleiman era profundo.
Vadhed, que tivera artes para se conservar com o bando contrrio, ainda teve 
mais
valimento para com o vencedor, que logo o nomeou seu hjibe e que, 
deslumbrado pela
vitria, sem mais prevenes nem descanso foi no alcance dos fugitivos. 
Estavam estes
acampados nas vizinhanas de Algeciras; deu sobre eles to de sbito 
Mohammed que
no puderam evitar o combate. Fizeram da necessidade virtude, e desejosos 
de ao
menos morrerem vingados pelejaram com o extremo do esforo. Vinham os 
inimigos
cansados do caminho e desordenados da pressa: os africanos, que s 
pensavam em
morrer de morte honrada, em breve trocaram esta triste esperana pelos 
contentamentos
do triunfo. O exrcito de Mohammed voltou costas e Suleiman perseguiu-o at 
 capital.
As tropas crists cobriram, segundo parece, a retirada, porque chegaram 
quela cidade
depois de Mohammed, que tratava de fortificar-se ali. Os corredores e atalaias 
africanos
apareciam j nas alturas que avizinhavam Crdova; o descontentamento 
comeava a
lavrar entre os habitantes; a escasseza de vveres e as enfermidades que 
grassavam
contribuam para os indispor contra o califa. Os eslavos, os cristos e os 
rabes
espanhis detestavam-se mutuamente, o que aumentava as perturbaes. O 
hjibe
Vadhed, que de todas as mudanas tirara proveito, tentou ento nova 
revoluo. Fez
aparecer o antigo califa Hixam, que ainda vivia, e apresentou-o ao povo, o qual 
recebeu
o legtimo soberano com todas as demonstraes de jbilo. Vendo-se perdido,
Mohammed tentou esconder-se, mas descoberto logo foi levado  presena de 
seu primo
Hixam, que, irritado por longas desditas, lhe mandou decepar a cabea, 
enviando-a
depois a Suleiman, persuadido de que por este meio o reduziria  obedincia. 
Suleiman,
porm, que no estava inclinado a abandonar as esperanas de poderio que 
de novo lhe
sorriam, mandou embalsamar a cabea de Mohammed e lev-la a Obeydullah, 
vli de
Toledo e filho do morto, oferecendo-se para o ajudar a ving-lo. Aceitou ele a 
oferta e
comeou a ajuntar tropas para se unir aos africanos. Vadhed, que era quem na 
realidade
governava em Crdova, deixando incumbida a outrem a defenso da cidade, 
marchou
para o lado de Castela, cujo conde atraiu ao seu partido a troco de alguns 
castelos que
cedeu aos cristos. Ajudado por estes atacou e tomou Toledo, que o vli 
deixara
desguarnecida tendo ido ajuntar-se com os africanos. Obeydullah apenas 
soube esta
nova retrocedeq para aquelas partes; mas Vadhed, deixando a cidade a cargo 
de um
certo Ibn Dhin-Nun, saiu-lhe ao encontro, desbaratou-o, f-lo prisioneiro e 
enviou-o a
Crdova, onde foi logo degolado. O exrcito vitorioso dirigiu-se ento  capital,
enquanto Suleiman procurava e obtinha socorros dos vlis de Saragoa, 
Medina Celi,
Guadalajara e Calatrava, prometendo-lhes que ficariam perpetuados nas suas 
famlias os
cargos que exerciam. Com os seus africanos e com as tropas que os vlis lhe 
enviaram,
Suleiman continuou a inquietar Crdova. Escasseavam ali os mantimentos, a 
peste
devastava a Andaluzia, e o povo, que atribua estes males a castigo do cu 
pela aliana
do hjibe com os cristos, murmurava e concebia contra ele grande dio. 
Vadhed, que
viu turbados os horizontes polticos, comeou a travar secretas relaes com o 
general
africano ou, pelo menos, II4Iixam teve disso aviso. Desconfiado de tudo e de 
todos, o
califa mandou-o prender, e achando retidas na sua mo as cartas que havia 
tempo lhe
ordenara enviasse aos Beni Hamuds, vlis de Ceuta e Algeciras, para virem 
em seu
auxlio, viu nisto uma prova de traio e Imediatamente lhe mandou cortar a 
cabea,
nomeando hjibe o governador de Almeria, Khayran, eslavo de origem e 
caudilho.66
afamado por seu valor e prudncia. Pde Khayran conter at certo ponto o 
gnio suspei-toso
e cruel de Hixam; todavia no pde impedir o descontentamento, que era geral.
Tendo formado um partido dentro da cidade, Suleiman atacou-a e, favorecido 
pelos seus
fautores, penetrou dentro dos muros. Disputou-lhe tenazmente a vitria o 
valente hjibe;
mas caindo feudo, os inimigos romperam por toda a parte e apossaram-se do 
alcaar e
da pessoa do califa, que provavelmente foi assassinado a ocultas, porque 
nunca mais
apareceu. A cidade ficou entregue por trs dias ao saco, e muitas pessoas 
principais
foram cruelmente mortas, porque os berberes, furiosos, nem perdoavam aos 
seus
prprios parciais. Ento Suleiman se fez aclamar de novo califa.
Apesar de ferido, Khayran, aproveitando a confuso, evitou a morte. Saindo
disfarado de Crdova e ajuntando em Oriuela gente e dinheiro, alcanou 
apoderar-se
do seu antigo valiado de Almeria. Dali dirigindo-se a Ceuta e afirmando a Ali 
Ibn
Hamud que Hixam ainda vivia, posto que cativo de Suleiman, buscou induzi-lo 
a que,
passando o Estreito, viesse ajuntar-se com seu irmo Al-Kasim, governador de
Algeciras, e que ambos unidos restitussem  liberdade Hixam, o qual o tinha j
escolhido a ele, Ali Ibn Hamud, para sucessor. Movido por estas 
consideraes, o
idrisita escieveu ao irmo para que viesse prestes, enquanto ele preparava as 
suas foras
para desembarcar em Espanha. Juntos, enfim, os dois com Khayran e com os 
partidrios
deste, Ali tomou o mando supremo do exrcito proclamando a restituio de 
Hixam.
Temendo que o viessem sitiar em Crdova, Suleiman pretendeu atalhar-lhes os 
passos
perto da antiga Itlica: destroado, porm, em duas sucessivas batalhas, ficou
prisioneiro com um irmo, e Ali entrou em Crdova, onde, prendendo tambm o 
pai de
Suleiman, mandou vir os trs cativos  sua presena ordenando-lhes 
declarassem onde
estava Hixam e, como eles dissessem que o ignoravam, por sua prpria mo 
lhes
decepou as cabeas.
Esta vitria deu o trono dos Benu Umeyyas ao idrisita Ali (1016). A suprema
autoridade, passando assim de uns a outros indivduos por meio de revolues 
e de
sanguinolentas guerras civis, perdia gradualmente a fora, e os sintomas de
desmembrao da Espanha muulmana comeavam a ser bem visveis. J o 
vli de
Denia se havia feito independente apossando-se das ilhas Baleares, enquanto 
o
governador que deixara no seu valiado fazia a outro tanto  custa dele. A 
elevao de
Ali e o exemplo de Denia dilataram o mal. Os vlis de Sevilha, Toledo, Mrida e
Saragoa recusaram reconhecer o novo prncipe, e a discrdia deste com 
Khayran, que
dentro de pouco se tornou seu inimigo, no tardou a acender de novo a guerra 
civil.
Incitados pelo antigo vli de Almeria e coligados com o governador de 
Saragoa, Os
caides de Arjona, Baeza e Jaen levantaram um exrcito com o fim, diziam 
eles,, de
colocarem no trono um califa da raa dos Benu Umeyyas. Khayran marchou 
com esta
gente contra Crdova, mas foi desbaratado. Viu-se ento constrangido a 
realizar a
promessa que principalmente lhe servira para atrair a simpatia do povo, o qual 
se
recordava com afecto das tradies gloriosas de Abdu r-Rahman, o Grande. 
Um bisneto
deste e do mesmo nome, homem rico, virtuoso e estimado, foi eleito califa. Os
governadores dos distritos ocidentais reconheceram logo Abdu r-Rahman Ibn
Mohammed (assim se chamava), salvo o vli de Granada, que se conservou 
fiel a Ali.
Khayran, como era natural, ocupou o cargo de hjibe, e imediatamente, 
convocados
todos os chefes do seu partido, marchou contra aquele que elevara ao trono e 
a quem
chamava agora usurpador. Era Ali denodado e hbil capito, e Khayran saiu 
mal da
tentativa, ficando desbaratado e dispersas as suas tropas. Todavia no obstou 
este revs
a que os vlis de Saragoa, Valncia, Tortosa e Tarragona reconhecessem a 
suprema
autoridade de Abdu r-Rahman. O fugitivo hjibe havia-se acolhido a Almeria, e 
Ibn
Hamud, cujos brios no quebrara a adeso quase geral das provncias ao 
bando do seu.67
competidor, ps cerco a esta cidade e, tomando-a, matou Khayran. Depois 
voltou a
Crdova, onde, preparando-se para abrir a campanha contra Abdu r-Rahman, 
foi
assassinado no banho pelos eslavos que o serviam, com prados 
provavelmente pelos
fautores do prncipe Benu Umeyya, assaz numerosos na prpria capital.
Os capites africanos aclamaram sem detena o antigo vli de Algeciras, e 
agora
de Sevilha, Al-Kasim Ibn Hamud, que, seguido de quatro mil cavaleiros, 
apareceu
subitamente em Crdova. A vingana que tirou da morte do irmo foi 
implacvel, o que
s serviu de lhe alienar os nimos. Entretanto Yahya, filho de Ali, sabendo do 
assassnio
do pai,. partiu de Ceuta com as tropas que pde ajuntar, entre as quais se 
distinguia um
corpo de excelente cavalaria de negros de Sus, resolvido a disputar ao tio o 
califado.
Idris, seu irmo mais moo, marchou para Mlaga com parte do exrcito e, 
enquanto
Al-Kasim se dirigia contra ele, Yahya, fazendo um largo rodeio, entrava 
rapidamente
em Crdova. Esta guerra de famlia entre os Idrisitas s podia dar em resultado 
o triunfo
completo de Abdu r-Rahman. Viram-no eles e trataram de reconciliar-se. 
Yahya, que
marchara em socorro de Idris, voltou a Crdova com o consentimento de Al-
Kasim, que
se encarregou de combater o partido dos Benu Umeyyas, vencido o qual ele e 
o
sobrinho deviam repartir o poder entre si. O primeiro cuidado de Al-Kasim foi 
conduzir
o cadver de Ali a Ceuta, onde tencionava fazer-lhe as honras fnebres. 
Enquanto se
empregava neste acto de piedade fraterna, Yahya, voltando a Crdova, 
proclamava-se
califa e, esquecido das convenes celebradas com o tio, declarava que ele 
no tinha
direito algum ao trono. Recebida a nova deste procedimento traioeiro, Al-
Kasim
passou o mar e marchou contra o sobrinho, que, tendo as suas melhores 
tropas entretidas
na guerra com Abdu r-Rahman, no ousou esper-lo. Senhor da capital sem 
combate,
pouco tempo se conservou ali Al-Kasim, obrigado a fugir para salvar a vida de 
uma
revoluo popular. Pela prpria energia, os habitantes de Crdova viam-se, 
enfim, livres
do jugo africano e estavam a ponto de aclamar o califa Benu Umeyya quando 
chegou a
notcia de este haver sido morto num recontro que tivera com os generais 
idrisitas
(1023). Apesar do desalento que este sucesso produziu no povo, escolheram, 
todavia,
por soberano outro Abdu r-Rahman, irmo de Mohammed, aquele que tambm 
fora
califa. Era o prncipe que haviam escolhido um mancebo virtuoso e ilustrado, 
dotes que
o perderam. Apenas recebeu a suprema autoridade tratou de reprimir o 
desenfreamento
da soldadesca, principalmente da guarda eslava. O desgosto que a sua 
severidade
produziu entre homens cuja falta de disciplina no meio destas guerras civis fcil 
 de
adivinhar, favoreceu a ambio de Mohammed, primo do novo soberano. Uma
conjurao formada por ele rebentou inesperadamente na capital, e Abdu r-
Rahman caiu
morto no seu prprio alcaar debaixo das espadas dos assassinos. Tintas 
ainda as mos
no sangue do parente, Mohammed foi aclamado califa pelos soldados. Era 
claro que
para conservar o poder cumpria ao novo soberano seguir o sistema contrrio 
ao do seu
antecessor. Assim o fez ele. Deu largas  corrupo da soldadesca, encheu de 
favores os
seus chefes e distribuiu com mo profusa a estes e quela os prprios 
tesouros, que eram
grandes, e as rendas do Estado. Encerrado nos paos de Azzahrat, entregue a 
uma vida
luxuria, quando todos os recursos se lhe exauriram mandou lanar novos e 
pesados
tributos. O povo detestava-o: Crdova alimentava-se da febre dos tumultos: os 
guardas,
a quem escasseavam j as anteriores liberalidades do prncipe, murmuravam 
chamando-lhe
avaro; os vlis das provncias, cada um dos quais no meio da guerra civil s 
pensara
em se tornar independente, no lhe obedeciam. Enfim, a anarquia era 
completa, e o
imprio muulmano da Espanha, to poderoso e brilhante havia apenas 
cinquenta anos,
mostrava j por todos os lados os sinais de prxima dissoluo. Finalmente o 
grande
rugido do tigre popular restrugiu no meio das delcias de Azzahrat. Uma 
revolu
terrvel foi o termo dos motins repetidos que inquietavam a capital, e 
Mohammed viu-se.68
obrigado a fugir para salvar a vida, que, apesar disso, perdeu da a pouco, 
sendo
envenenado no castelo de Ucls, onde se refugiara.
A desordem e a ansiedade tinham chegado ao derradeiro auge. Gomo Roma 
nos
dias da sua decadncia nos oferece o hediondo espectculo de um punhado 
de
pretorianos dando e tirando o trono aos csares  merc de paixes ou 
caprichos
momentneos, assim vemos em Crdova os ltimos califas, erguidos hoje 
sobre os bro-quis
das guardas do alcaar, carem no dia seguinte a bel-prazer dessa 
desenfreada
soldadesca ou da plebe afeita s revolues e por isso no menos desenfreada 
do que
ela. Expulso Mohammed e asserenada algum tanto a anarquia, os parciais dos 
Idrisitas
cobraram nimo. Yahya, o filho de Ali Ibn Hamud, era o seu chefe natural. Este,
fugindo  clera de Al-Kasim, obtivera assenhorear-se de Mlaga e de 
Algeciras. Nestes
distritos e nos que em frica havia possudo seu pai, estabelecera um poder
independente, na verdade menos brilhante, porm mais seguro e, debaixo de 
certo as-pecto,
mais forte que o do califa de Espanha. No perdoou todavia a Al-Kasim a 
injria
recebida. Quando este, levantado contra ele o povo, teve tambm, pela sua 
vez, de
abandonar a capital, sabendo Yahya que seu tio se acolhera a Xerez, enviou 
um troo de
cavalaria que o prendeu. Trazido  presena de Yahya, este o mandou meter 
no fundo
de um crcere, onde dizem que fora logo morto, bem que outros pretendam 
haja vivido
ainda alguns anos. Assim o filho de Ali era o nico representante da antiga 
dinastia
africana dos Idrisitas, e o to disputado domino de Crdova de que j gozara, 
posto que
por bem curto prazo, oferecia-se-lhe agora sem que receasse contendor. Os 
seus parciais
insistiam com ele para que reivindicasse a herana de Hixam: repugnava o 
amir, mas
teve de ceder aos desejos dos ambiciosos. Os cordoveses, cansados de 
tumultos e fartos
de sangue derramado, receberam-no em triunfo. Os vlis, porm, das 
provncias
recusaram obedecer-lhe; os mais remotos com dilaes e pretextos, os mais 
vizinhos
com abertas declaraes de independncia. Era vli de Sevilha Mohammed 
Abdul-Kasim
Ibn Ismail Ibn Abbad: no castigo deste intentou o califa idrisita dar aos outros
um exemplo de severidade. Com certo nmero de tropas tiradas tanto dos seus 
antigos
estados como dos recentemente adquiridos, marchou contra Ibn Abbad. 
Caindo, porm,
numa cilada do astucioso vli, foi morto (1026) e o seu exrcito destroado.
Esta notcia levada a Crdova encheu os nimos de novas inquietaes. Era
preciso acudir com pronto remdio antes que os enredos dos ambiciosos 
trouxessem a
guerra civil. Vivia retirado, em Ham-Albonte, Hixam Ibn Mohammed, bisneto de 
Abdu
r-Rahman, o Grande: foi para ele que se voltaram os olhos por influncia do 
vizir da
capital, Jauhar Ibn Mohammed. To-pouco de cobiar era o trono pelos riscos 
de que
estava cercado que o prncipe eleito mostrou ainda maior repugnncia em 
aceitar a
oferta do que mostrara Yahya; mas, depois de relutar alguns dias, cedeu por 
fim. Longe,
todavia, de se dirigir  capital, do carcter de cujos habitantes se temia, partiu 
contra os
cristos, os quais, como  fcil de supor, tinham aproveitado as discrdias dos
sarracenos para se engrandecerem  custa deles. Pelejando com vria fortuna 
nas
fronteiras, chegaram-lhe avisos de Jauhar da necessidade que havia de que 
visitasse
Crdova para tratar de por algum meio reduzir  obedincia as provncias, 
cujos tributos
tinham deixado de alimentar os cofres do Estado. Assim o fez Hixam: veio e 
escreveu
aos vlis e caides, procurando dom-los com a brandura e ponderando-lhes 
que, assim
divididos, preparavam a runa do islamismo na Espanha. Foi tudo intil: faziam 
boas
promessas; mas as obras eram pelo contrrio. Recorreu ento aos meios 
violentos para
reduzir os rebeldes; mas a rebelio surgia por toda a parte, e aqueles mesmos 
a quem
confiava o governo de alguma cidade importante seguiam mais tarde ou mais 
cedo os
exemplos dos outros. Na impossibilidade de pr diques  torrente, o califa, para 
ao
menos obter a paz, comeou a fazer concesses aos levantados, o que 
suscitou contra.69
ele o descontentamento pblico, especialmente dos cordoveses. A sorte 
esquiva das
armas, a desgraa dos tempos, tudo lhe atribuam a ele, e os tumultos a que o 
povo
estava afeito repetiram-se mais violentos. Eram, porm, o desenfreamento 
popular, a
decadncia dos costumes, as instituies viciosas, a falta de unidade nacional 
entre raas
de origem diversa e muitas vezes inimigas as verdadeiras causas do mal, 
causas que j
actuavam na poca brilhante da grande prosperidade do califado. O povo, que 
no meio
das desventuras nascidas das revolues suspirava pela paz, no sofria esta 
por longo
tempo sem tumultuar de novo, e com razo dizia Hixam que os cordoveses 
nem sabiam
governar-se nem deixar que os governassem. Chegou, enfim, a irritao dos 
nimos a tal
ponto que, por conselho do vizir Jauhar, o califa saiu da capital uma noite em 
que o
povo amotinado pedia fosse deposto e banido (1031) e retirou-se para o 
castelo de Hisn
Abi Cherif, na serra Morena. Perseguido ali mesmo pelos sbditos, buscou 
asilo em
Lrida, cujo vli, Suleiman Ibn Hud, depois vli de Saragoa, era seu amigo 
particular.
Reduzido a uma existncia obscura, Hixam faleceu cinco anos depois deixando 
a
reputao de prncipe bondoso, valente, ilustrado e capaz de salvar o imprio, 
se essa
fosse uma empresa para que bastassem foras humanas. Com ele acabou o 
califado de
Crdova e a dinastia dos Benu Umeyyas, que tinha reinado sem interrupo, 
salvo nos
ltimos tempos, por perto de trs sculos e que legou  histria alguns dos 
caracteres
mais ilustres que avultam nos anais da Espanha muulmana.
Expulso Hixam, Jauhar foi eleito amir.  de crer que ele no fosse alheio 
revoluo que derribara o califa, ao qual to cuidadosamente persuadira que 
sasse da
cidade para evitar a tormenta. Era Jauhar homem astuto: conhecia os tempos e 
as
circunstncias. Aceitando o ttulo mais modesto de amir, no quis tomar para si 
todo o
poder, contentando-se com presidir a uma espcie de div ou conselho 
composto dos
xeques e principais personagens de Crdova, no qual se resolviam as matrias 
de
governo. Todavia, a qualidade de amir e a superioridade dos seus talentos 
davam-lhe a
influncia necessria para estear ainda com as reformas indispensveis o 
edifcio do
Estado, que vacilava a ponto de desabar. Como Hixam, ele escreveu logo 
depois aos
vlis das provncias para que viessem reconhecer a sua supremacia, ou antes 
a
supremacia do div que estabelecera; mas, como o seu antecessor, s 
recebeu escusas de
alguns, enquanto outros se mostravam de todo indiferentes s pretenses 
daquele que
tinham apenas na conta de seu igual. Sem fora para os submeter e ensinado 
pelo
exemplo de Hixam, Jauhar dissimulou, elogiando, at, os que haviam recusado
comparecer em Crdova com o pretexto dos graves negcios em que se 
achavam
envolvidos. O procedimento do amir foi uma espcie de declarao de que a 
unidade do
imprio muulmano na Pennsula tinha acabado e de que este se achava
irrevogavelmente dividido em tantas monarquias independentes quantos eram 
os vlis
que administravam as suas anteriores provncias. A rpida decadncia do 
islamismo e o
engrandecimento dos estados cristos deviam ser e foram as consequncias 
destes
sucessos. Lancemos agora os olhos para essas provncias que se 
desmembravam, e
vejamos quais eram no tempo de Jauhar os rgulos que, herdando as runas 
do califado,
tentavam alargar os limites dos respectivos domnios  custa dos seus 
vizinhos, os quais
lhes correspondiam com tentativas semelhantes contra os territrios deles.
Dissemos antes que os Idrisitas tinham estabelecido, no meio das guerras 
civis,
um governo independente em Mlaga, e que os dois irmos Benu Hamud, 
ligados entre
si, dominavam na frica o distrito de Ceuta e Tnger, e na Pennsula o de 
Mlaga e
Algeciras. Dissemos tambm como trs membros daquela famlia, Ali, Al-Kasim 
e
Yahya, obtiveram sucessivamente o califado de Crdova. Pela morte deste 
ltimo, Idris,
seu irmo, lhe sucedeu nos estados de Mlaga e Ceuta (1027), tomando o 
ttulo de amir
al-mumenin, no que parecia mostrar que no abandonava inteiramente a ideia 
de ter.70
direito ao senhorio universal da Espanha muulmana, de que haviam gozado, 
ao menos
nominalmente, seu pai, seu tio e seu irmo. Com os Hamuditas ou Aludes (que 
por
ambos os nomes  conhecida esta dinastia) estavam aliados, dando-lhes at 
certo ponto
obedincia, o vli de Granada, Habuz Ibnu Maksan, e os Benu Berizila, 
senhores de
Carmona e cija. Em Sevilha dominava Mohammed Abdul-Kasim Ibn Abbad, o 
que
destroara o califa Yahya em 1026, poca de que data verdadeiramente a 
independncia
do amirado de Sevilha e o seu engrandecimento pela vasta provncia da 
Andaluzia.
Desde 1021 a raa dos Al-Amiris reinava nas costas orientais da Espanha, 
estendendo-se
o seu domnio de Almeria, pelo interior, at s fronteiras de Barcelona. O amir 
de
Valncia, Abdu Al-Aziz Abul-Hassan, neto do clebre Al-Manssor, era uma 
espcie de
suserano dos vlis desta famlia e da dos Tadjibitas, senhores de Saragoa, 
que dentro
de pouco foram substitudos pelos Benu Huds. Assim os Al-Amiris possuam os 
diver-sos
distritos contidos nesse dilatado territrio, a que tambm andava unido o 
senhorio
das Baleares. A provncia do Gharb, ou antiga Lusitnia, estava em poder da 
famlia dos
Tadjibitas, que era aquela a que pertencia Abdullah Benu Alafftas, o qual se 
declarara
amir soberano e estabelecera a sua corte em Badajoz. Ficou, porm, fora do 
jugo dos
Benu Alafftas o moderno Algarve, que constitua um principado independente 
regido
pelo vizir Ahmed Ibn Said, a quem sucedeu seu genro Said Ibn Harun. 
Finalmente a
provncia de Toledo, debaixo da autoridade de Ismael ou Ismail Ibnu Dhin-Nun,
formava outro amirado independente e um dos cinco estados mais notveis 
(Mlaga,
Valncia, Sevilha, Badajoz e Toledo) nascidos da dissoluo do imprio dos 
Benu
Umeyyas.
Esta desmembrao da Espanha muulmana, efeito das revolues que por 
tantos
anos haviam durado, trouxe uma consequncia fcil de prever. Cada um dos 
amires,
pelo menos os que dispunham de foras mais avultadas, procurou aumentar os 
limites
dos prprios domnios e sujeitar ao seu imprio os menos poderosos. O que na 
realidade
no era seno o prosseguimento da guerra civil tomou um falso aspecto de 
guerra
poltica e, longe de renascer a paz, as ambies insaciveis dos rgulos 
sarracenos cada
vez tornavam as lutas mais complicadas e sanguinosas. Acrescia que a origem 
revo-lucionria
das novas dinastias no santificadas ainda pelo tempo, e cujos ttulos para
obterem o mando supremo haviam sido unicamente a fortuna e a audcia, 
animava
outros ambiciosos a sacudirem o jugo e a levantarem-se com os distritos ou 
cidades que
governavam. Os muulmanos espanhis esqueciam assim completamente que 
no meio
daquelas dissenses s os cristos, seus inimigos implacveis, podiam ganhar, 
e que o
termo de tantos sacrifcios e combates seria a prpria runa.
No seguiremos passo a passo os acontecimentos to variados quanto 
obscuros
nascidos desta situao anrquica. Numa resumida narrao fora isso 
impossvel e, alm
de impossvel, intil para o fim que nos propomos. Adiante teremos ocasio de
especificar alguns sucessos em que intervieram de modo decisivo os prncipes 
cristos
da Pennsula. Basta por agora dizer que, depois de uma srie no interrompida 
de
cometimentos, rebeldias, traies, assdios e conquistas de cidades e 
devastaes
repetidas quase por todos os ngulos do territrio muulmano, o amir de 
Sevilha Abbad
Al-Mutadhed Billah, que sucedera a seu pai Mohammed Abul-Kasim (1042), 
tinha-se
tornado poderoso a tal ponto que as suas foras no cediam s dos outros 
amires juntos.
Destes o principal era o de Toledo, Al-Mamon, rival do de Sevilha e em 
contnua
inimizade com ele, contra quem se ajudava das tropas crists de Leo e 
Castela. O
prncipe toledano, alm de outros estados que conquistara, reduzira os do amir 
de
Valncia, ao passo que o de Sevilha submetia os dos sucessores de Jauhar, 
isto , a
provncia de Crdova. Na guerra. entre os dois potentados vieram por fim a 
cifrar-se as
variadas discrdias dos menos importantes amirados, porque todos eles se 
viram.71
necessitados a declarar-se por um ou por outro dos dois principais 
contendores. A morte
de Abbad Al-Mutadhed Billah, a quem sucedeu (1069) seu filho Mohammed Al-
Mutamed
Ibn Abbad no domnio de Sevilha, no trouxe mudana alguma na desgraada
situao da Espanha muulmana, porque as guerras continuaram com o 
mesmo vigor. A
fortuna mostrou-se contrria no princpio ao novo amir sevilhano. Al-Mamon 
tomou-lhe
Crdova e at chegou a apoderar-se-lhe da capital, enquanto ele triunfava dos 
Idrisitas,
senhores de Mlaga, e o amir de Saragoa, seu aliado, ameaava Valncia. Al-
Mutamed
dirigiu-se imediatamente a Sevilha, onde os que pouco antes a haviam cercado 
e rendido
foram por ele sitiados. O amir de Toledo, que em pessoa viera quela 
conquista e se
achava a, faleceu durante o assdio (1076). Com a morte de Al-Mamon mudou 
a sorte
das armas. Seu filho ou neto, Hixam, ou Yahya Dhin-Nun, ainda mui moo, 
ficou
debaixo da tutela e proteco do rei leons Afonso VI, antigo aliado de seu pai 
ou av, a
quem ajudara nestas campanhas; mas o prncipe cristo mostrou-se assaz 
frouxo em
defender as conquistas de Al-Mamon. Ibn Abbad recuperou Sevilha e Crdova 
e
apoderou-se pouco depois dos distritos de Valncia e de Mrcia, expulsando
subsequentemente da Pennsula os Idrisitas, seus antigos adversrios. 
Entretanto Afonso
VI, aproveitando a dissoluo do imprio sarraceno, assenhoreou-se de Toledo 
(1085) e
de muitas outras povoaes importantes. Desde este momento a questo 
poltica
simplificou-se, e os muulmanos viram, enfim, a que abismo os haviam 
conduzido as
suas longas e sanguinosas rixas. O poderio de Afonso VI crescera a tal ponto 
que, ainda
unidos todos os prncipes muulmanos, seria dificultosa empresa o resistir-lhe. 
O pr-prio
Al-Mutamed, que se ligara com ele em dano da dinastia dos Dhin-Nun, viu, 
como
os outros, o perigo do islamismo. De comum acordo, os sarracenos espanhis
resolveram ento invocar o auxlio dos almorvidas, cujo poder em frica tinha
crescido rapidamente com repetidos triunfos. A influncia que essa resoluo 
teve nos
subsequentes sucessos da Pennsula torna necessrio expormos aqui a 
origem de uma
seita conjuntamente poltica e religiosa, cujos chefes vieram a reunir debaixo 
do seu
imprio a Mauritnia e a Espanha muulmana, retardando com a conquista 
desta a
decisiva vitria do cristianismo.
O nome dos almorvidas  uma corrupo espanhola da palavra rabe al-
morabethyn,
que significa os eremitas. Formou-se esta seita entre as tribos berberes
do deserto ao sul de Tarudante conhecidas pela denominao comum de 
Zanagah, tribos
rudes e ignorantes que se haviam convertido imperfeitamente ao islamismo e 
que da
nova religio pouco mais conheciam do que o simples smbolo da f 
maometana: S
Deus  Deus, e Mohammed  o enviado de Deus. Em 1037, Yahya Ibn 
Ibrahim, que
era o amir destas tribos, indo em peregrinao a Meca e voltando por Kairwan, 
trouxe
consigo um certo Abdullah Ibn Iasin, homem assaz instrudo na cincia do 
Coro, o
qual se propunha ilustrar e civilizar aquelas gentes brbaras de Zanagah. 
Quando,
porm, elas ouviram o novo apstolo condenar altamente os seus vcios e 
brutezas,
trataram-no com desprezo. Retirou-se ele ento para as vizinhanas do mar, 
onde
edificou um eremitrio. O amir Yahya, que o atrara quelas regies, seguiu-o, 
e com
ele o seguiram alguns outros. Em breve o nmero dos discpulos de Abdullah 
cresceu, e
a fama da sabedoria do faqui ou monge conciliou-lhe sucessivamente mais 
proslitos, os
quais tomaram o ttulo de morabitos. Quando ele viu que estes eram assaz 
fortes para
poderem empregar o meio de converso de que com tanta felicidade usara o 
seu Profeta,
isto , o ferro e o fogo, enviou-os a convencerem com a espada as tribos que 
tinham
recusado ouvir as suas pacficas admoestaes. Trs mil almorvidas 
marcharam, de
feito (1042), contra a tribo de Kedala, da qual se converteram todos aqueles 
que esca-param
da morte. O mesmo sucedeu  de Lantuna e de Mazusa. Com estes exemplos, 
as
outras tribos reconheceram a misso divina de Abdullah, o qual, reservando 
para si a.72
dignidade de im ou pontfice, com o que exercia uma espcie de suprema 
ditadura,
nomeou amir ou chefe temporal delas o lamtunita Abu Zakaria Yahya, havendo 
falecido
neste meio tempo aquele que principalmente contribura para a sua elevao, 
Yahya Ibn
Ibrahim.
Seguindo as inspiraes do im ou chefe espiritual, o novo amir continuou a
guerra, submetendo o Sara ou deserto e comeando a conquista do pas dos 
negros, na
qual foi morto. Sucedeu-lhe Abu-Bekr, seu irmo. Este dilatou os domnios dos
almorvidas pelo Norte da frica, apesar de ento perecer numa batalha o 
fundador da
sua seita. Tendo subjugado grande parte da Mauritnia ou Moghreb, partiu 
para o
deserto com o fim de apaziguar algumas perturbaes que se tinham levantado 
entre as
tribos berberes. Deixara entretanto governador dos distritos do Norte seu primo 
Abu
Yacub Yusuf, sujeito de excelentes dotes, mas ambicioso, que aproveitou a 
ausncia do
amir para consolidar perpetuamente em si a autoridade que lhe fora confiada. 
Quando
Abu-Bekr voltou, Yusuf recebeu-o com grandes demonstraes de amizade e 
regozijo;
mas fez-lhe perceber que no estava de nimo de lhe ceder o passo. Viu Abu-
Bekr que
as prprias foras no eram bastantes para o punir e resolveu-se a legitimar a 
usurpao,
reservando para si o domnio das tribos do deserto. L morreu dentro em breve 
numa
guerra com os negros, e Yusuf foi reconhecido amir de todas as provncias dos
almorvidas. Ento fundou Marrocos, de que fez a capital do seu imprio, e 
com
repetidas vitrias subjugou o resto da Mauritnia. Foi depois disto que os 
muulmanos
espanhis voltaram para ele os olhos. A glria das suas faanhas, as nobres 
qualidades
do seu carcter tinham-lhe dado um nome que escurecia o dos mais clebres 
capites
daquele tempo, e, no meio do terror que infundiam as rpidas conquistas de 
Afonso VI,
os sarracenos da Pennsula no viram nele seno o guerreiro que podia livr-
los do
terrvel nazareno. O tempo mostrou o que nesse momento de angstia eles 
no tinham
previsto. A salvao da sua liberdade e da sua crena ameaadas pelos 
cristos deviam
compr-la  custa da independncia nacional. Yusuf, pondo um cravo na roda 
da
fortuna, que to favorvel se mostrara ao rei de Leo, s teve, porventura, em 
mira
ajuntar mais uma rica provncia ao seu vasto imprio. Falando das guerras de 
Afonso
VI, teremos ocasio de apontar as circunstncias principais da larga luta que 
este
prncipe teve com os almorvidas, a cuja histria pertencem desde o fim do 
sculo XI os
sucessos da Espanha muulmana..73
III
Fundao de uma nova monarquia gtica nas Asturias. Afonso I comea a 
dilat-la.
 Vitrias de Fruela I.  Reinados de Aurlia, Silo e Mauregato.  Vermudo, o
Dikono, trabalha por civilizar a nao e cede a coroa a Afonso II, o Casto.  
Guerras
com os sarracenos e progressos da civilizao.  Ramiro I. Sua crueldade  
Ordonho I.
Conquista nos territrios muulmanos.  Fruela, o Intruso, assassinado.  
Afonso III,
filha de Ordonho, sobe ao trono. Longo e glorioso reinado deste prncipe. 
Rebelio de
seus filhos e abdicao de Afonso III  Garcia I e seus irmos. Separao de 
Navarra.
Ordonho II. Invases nos domnios muulmanos.  Fruela II. Afonso IV.  
Ramiro II.
Discrdias civis. Continuao da guerra contra os sarracenos. Trguas com o 
califa de
Crdova  Ordonho III.  Sancho I, o Gordo, expulso por Ordonho, o Mau, e 
restitudo
pelo califa Abdu r-Rahman.  Menoridade de Ramiro III e regncia de Elvira. 
Governo de Ramiro em Leo e de Vermudo ou Bermudo na Galiza. Guerras 
civis.
Invases de Al-Manssor.  Bermudo II e desventuras do seu reinado.  Afonso 
V.
Regncia na sua menoridade. Governo deste prncipe  Bermudo III. Guerras 
civis. A
Castela unida a Navarra. Luta entre este pas e Leo. Bermudo perde a maior 
parte dos
seus estados. Fundao da monarquia de Castela. Batalha de Carrin e morte 
de
Bermudo.  Fernando I de Castela une Leo  sua coroa. Brilhante reinado 
deste
monarca, denominado o Magno. Diviso do reino castelhano-leons entre os 
filhos de
Fernando I. Discrdias e guerras dos trs irmos.  Afonso de Leo, a princpio
vencido e expulso por Garcia, o mais velho, chega a obter e unir as trs coroas.
Empresas e triunfos de Afonso VI contra os sarracenos. Conquista de Toledo. 
Batalha
de Ucls. Morte de Afonso VI..74
Canicas ou Gangas foi desde o tempo de Pelgio a capital das Astrias: Fruela
fundou Oviedo, mais ao ocidente, para onde o reino se dilatava, e esta 
povoao veio
depois a ser a cabea da monarquia e a dar-lhe exclusivamente o nome. Os 
seus
sucessores parece terem residido com preferncia em Pravia, povoao ao 
noroeste de
Oviedo, onde Silo, sucessor de Aurlio, assentou a sua residncia.
Silo deveu a escolha que dele fizeram os godos a sua mulher Adosinda, filha 
de
Afonso I. As causas da influncia de Adosinda no no-las revelam as crnicas 
quase
contemporneas que assim o afirmam. Segundo elas, a paz com os 
muulmanos
subsistiu no tempo deste prncipe, por ocasio de cuja morte sua viva 
pretendeu fazer
coroar o moo Afonso, filho de Fruela 1. Mauregato, porm, filho bastardo de 
Afonso I,
eleito pelos descontentes, pde expuls-lo e obter para si o trono das Astrias, 
que
ocupou seis anos, no fim dos quais morreu em Pravia depois de um reinado 
tranquilo e
obscuro.
A reaco da raa visigoda contra a conquista rabe comeara na Espanha 
poucos
anos depois dessa conquista. Nas speras serranias das Astrias, um punhado 
de godos
que no haviam aceitado o jugo dos muulmanos alevantaram o estandarte de 
uma
guerra de religio e de independncia que devia durar por mais de sete sculos 
at a
final vitria do Evangelho contra o Coro. A batalha de Cangas de Onis, em 
que os
infiis ficaram desbaratados, foi o primeiro anel de uma cadeia contnua de 
combates,
que nos fins do sculo XV veio soldar-se na campa dos derradeiros defensores 
de
Granada, quando Fernando e Isabel, os Catlicos, conquistaram a capital do 
ltimo
reino mourisco da Pennsula. Pelgio foi o capito destes godos refugiados nas 
Astrias
e o fundador da primeira monarquia crist da Espanha, depois chamada de 
Oviedo e
Leo. Os estados de Pelgio ficaram durante o seu reinado e o de seu filho 
Fafila
circunscritos s serras asturianas; mas por morte deste ltimo, cujo governo foi 
to curto
quanto obscuro, sucedeu-lhe um homem extraordinrio, o qual dilatou com 
repetidas
vitrias os limites do pas que nunca aceitara o jugo dos infiis. Afonso I, genro 
de
Pelgio, subiu ao trono aps seu cunhado Fafila e brevemente penetrou com 
mo
armada pela Galiza at o Douro e por Leo e Castela-a-Velha. Anteriormente a 
guerra,
ora ofensiva, ora defensiva, tinha exclusivamente entretido os cristos: na 
poca, porm,
de Afonso I as povoaes assoladas e os templos reduzidos a runas 
comearam a surgir
de novo. Depois de largo e glorioso reinado, este prncipe faleceu, recaindo a 
escolha
dos godos em seu filho Fruela ou Froila, que o imitou no esforo e foi, segundo 
parece,
homem de carcter violento. Num recontro pouco importante Fruela desbaratou 
os
rabes junto a Ponthumium. Depois de apaziguar as rebelies que ou a 
ferocidade do
seu nimo ou algumas outras causas haviam suscitado na Galiza, domou ao 
norte a
Vascnia levantada contra ele. As suspeitas que concebera de seu irmo 
Vimarano
levaram-no a cometer um fratricdio que a justia de Deus no deixou impune. 
Fruela
foi assassinado pelos godos, os quais, usando do antigo direito visigtico, 
recusaram a
coroa a seu filho Afonso, que ou a memria paterna lhes tornava odioso, ou a
imbecilidade da infncia inabilitava para reger um pas cujo estado ordinrio era 
o de
guerra com os sarracenos. Um sobrinho de Afonso I, Aurlio, filho de seu irmo 
Fruela
e primo do rei assassinado, subiu ento ao trono, que ocupou. durante mais de 
seis anos.
Por todo este perodo os estados dos reis das Astrias gozaram da paz 
externa; mas
Aurlio teve de lutar com um levantamento dos servos, que reprimiu, ou 
melhorando a
sua situao, ou constrangendo-os a sujeitarem-se a ela..75
Um irmo do rei Aurlio foi ento chamado a reger os godos 64 : Vermudo ou
Bermudo havia seguido a vida eclesistica e sido elevado ao grau de dicono, 
o que,
apesar de o excluir da dignidade real, segundo as antigas instituies 
visigticas, no
serviu de impedimento  sua eleio. Naquelas eras, em que a existncia 
quase brbara
dos cristos das Astrias contrastava profundamente com a civilizao dos 
muulmanos
da Espanha e da frica, o nimo generoso e ilustrado de Vermudo surge como 
um farol
no meio das trevas espessas que o rodeiam. A piedade, a demncia, a 
magnanimidade
so os dotes que os mais antigos historiadores lhe atribuem. Pouco depois de 
obter a
autoridade suprema, renovou o exemplo de alguns dos reis visigodos 
anteriores 
conquista rabe, associando ao governo o filho de Fruela I, duas vezes 
repelido do
trono, para por esse meio lhe assegurar a sucesso. No contente com isto, 
apenas o
moo Afonso alcanou conciliar o afecto dos seus sbditos, Vermudo voltou
voluntariamente ao exerccio do ministrio sagrado, posto que, contra os 
cnones
recebidos em Espanha, houvesse esposado Nunila, de quem teve Ramiro, o 
qual depois
veio a ser sucessor de Afonso II.
No perodo que decorreu desde a morte de Afonso I at  abdicao de 
Vermudo,
isto , desde o segundo quartel do sculo viu at os fins dele, o reino das 
Astrias
subsistiu quase sempre pacfico ao lado da dominao sarracena. Mas no 
terceiro ano
depois que Afonso II reinava, achamos quebrada a paz entre as duas raas e 
os rabes
invadindo as Astrias. Foram correrias de Afonso nas terras dos muulmanos 
que
trouxeram este acontecimento, ou foi deliberao espontnea deles?  o que 
hoje no
ser fcil dizer. Certo , porm, que os invasores, salteados de improviso pelos 
cristos,
ficaram desbaratados. Deste feito data a celebridade de Afonso II, mais 
conhecido entre
os historiadores pela denominao de Casto, porque durante o seu reinado de 
meio
sculo sempre se conservou celibatrio.
Reinava neste tempo alm dos Pirenus Carlos, o Grande. Afonso II buscou 
aliar-se
com ele, enviando-lhe mensageiros com ricos presentes, provavelmente 
despojos
duma correria que se diz ter feito aqum do Douro at s margens do Tejo.
Estabelecendo a sua capital em Oviedo, que engrandeceu e adornou de igrejas 
e paos,
trabalhou por avivar as instituies do imprio visigtico que, no meio duma 
existncia
de perigos e combates, tinham cado em desuso, restaurando ao mesmo 
tempo o
esplendor da ordem eclesistica, reedificando templos e instituindo pastores. 
Durante,
porm, estas tentativas de organizao social uma revoluo o expulsou do 
trono, ao
qual os seus partidrios dentro em poucos meses o fizeram subir de novo. Ora 
vitorioso,
ora vencido pelos sarracenos, com quem teve mais de uma vez guerra, Afonso 
morreu
em 842. Dizem alguns que ele associara ao governo o filho do seu antecessor 
Vermudo,
chamado Ramiro ou Ranimiro, que de feito lhe sucedeu. , todavia, certo que a 
morte
do velho monarca trouxe, como era natural sendo o reino electivo, graves 
dissenses.
Nepociano, conde do palcio, fez-se aclamar em Oviedo, e Ramiro, que ento 
se achava
na Bardulia (Castela-a-Velha), correu a disputar-lhe a coroa. Os soldados de 
Nepociano
abandonaram-no no momento de virem s mos com Ramiro, e este pde 
colher vivo
perto de Pravia o seu mulo, a quem mandou arrancar os olhos e fechar num 
mosteiro
para o resto de seus dias.
Seguro no trono, Ramiro I obteve vrias vitrias dos muulmanos e repeliu os
piratas normandos que principiavam ento a saltear as costas da Galiza. As 
tentativas
para o expulsar do trono renovaram-se ainda por duas vezes, mas de ambas 
saiu
vencedor. A vingana que tomou dos cabeas destas rebelies prova que o 
carcter de
64 A denominao de godos dada aos descendentes dos visigodos que, depois 
da conquista da Espanha
pelos rabes, se acolheram s Astrias no  rigorosamente exacta, mas  
geralmente recebida pelos
historiadores da Pennsula, como a de sarracenos e mouros para designar os 
muulmanos..76
Ramiro era bem contrrio  brandura do de seu pai. Ao conde Aldoroito 
condenou-o 
mesma pena a que condenara Nepociano, e a Pinolo, que tambm se 
rebelara, mandou
matar juntamente com seus sete filhos. A crueldade de Ramiro estendia-se ao 
excesso
das penas que impunha aos criminosos ou supostos tais. Os ladres fazia-os 
cegar, e
queimar todos aqueles que eram acusados de magia. Ramiro I soube 
assegurar a herana
da coroa para seu filho: ao menos, vemos suceder-lhe este sem as lutas que 
as mais das
vezes trazia a eleio de novo prncipe. Ordonho I, mais valoroso e feliz ainda 
que seu
pai, no ajuntou a ferocidade ao esforo. Dedicou todos os seus cuidados  
reedificao
de vrias povoaes de Leo, da Galiza e dos chamados Campos Gticos, 
como foi
cidade de Leo, depois capital do reino do mesmo nome, e as de Tui, Astorga 
e Amaia.
Isto parece indicar que o territrio dos cristos comeava a estar menos 
exposto as
correrias dos sarracenos, ou porque as fronteiras se alargavam, ou porque se 
defendiam
melhor.
O godo renegado Musa, de que noutra parte falmos e que se tinha tornado
independente do amir de Crdova, ousara entrar no territrio dos cristos, onde
construiu a fortaleza de Albaida ou Albelda na moderna Rioja. O rei de Oviedo 
saiu
logo contra ele, desbaratou-o junto de Clavijo e tomou Albaida. Depois de 
repelir uma
nova tentativa dos normandos nas costas da Galiza, Ordonho fez vrias 
entradas pelas
terras dos inimigos com prspero sucesso, subjugou os vascnios, que, 
sempre
inquietos, se haviam mais uma vez rebelado, tomou aos infiis Coria e 
Salamanca e
reconquistou-lhes Orense, cidade da Galiza de que, segundo se v deste 
sucesso, eles se
haviam apossado. Continuando nestas guerras com vria fortuna, Ordonho 
veio a
falecer em 866, fazendo antes disso eleger seu filho Afonso, ainda na puercia, 
por
sucessor do reino. Entretanto Fruela, conde ou governador da Galiza, protegido 
pela
nobreza daquela provncia, tomava o ttulo de rei e marchava para a capital  
frente de
um exrcito. Os que tinham aceitado por monarca o filho de Ordonho 
abandonaram-no,
e Afonso fugiu de Oviedo para as bandas de Castela. O reinado, porm, de 
Fruela foi
muito curto: uma conjurao rebentou na corte, os magnates que lhe eram 
adversos
assassinaram-no no seu prprio palcio. O filho de Ordonho voltou ento a 
Oviedo e foi
proclamado rei.
Logo depois os vascnios rebelaram-se, e Afonso III teve de os combater por
muito tempo com vria fortuna, terminando a guerra, se crermos as tradies 
vasconas,
pela concesso de uma espcie de independncia a esta raa indomvel.
Seguiu-se, passados trs anos, uma guerra violenta com os sarracenos. Para 
sul e
sueste o Douro formava a linha mais ordinria das sempre vacilantes fronteiras 
entre
cristos e muulmanos. Afonso transps o rio com o seu exrcito, ocupou 
Salamanca e
cercou Coria, que no reinado antecedente estivera j em poder dos godos. 
Obrigado a
retirar-se, os sarracenos entraram pelas provncias crists; mas, colhidos em
desfiladeiros onde a cavalaria lhes era intil, foram completamente 
desbaratados.
Por doze anos a histria de Afonso III  uma srie quase no interrompida de
combates: ora os seus territrios so invadidos pelos sarracenos, ora ele 
invade as
provncias muulmanas. Vitoriosas as mais das vezes, as armas crists 
dilataram-se
ento principalmente para o lado da antiga Lusitnia: Lamego, Viseu, Coimbra 
caram
em poder do rei de Oviedo, e a devastao chegou at os distritos de Idanha e 
ainda at
Mrida. Depois, segundo parece, Afonso recolheu-se aos seus antigos estados 
das
Astrias e Galiza, porque o achamos marchando daquelas partes ao encontro 
dos sarra-cenos,
que haviam posto cerco a Zamora, tomada e fortificada anteriormente por ele. 
A
batalha de Polvoraria, junto ao rio Orbiego, em que os muulmanos foram 
destroados e
postos em fuga, trouxe uma trgua de trs anos, no fim da qual a guerra se 
ateou de
novo. Depois de penetrar at  serra Morena, em cuja proximidade desbaratou 
o.77
exrcito rabe que tentara resistir-lhe, o rei de Oviedo retirou-se outra vez para 
as
Astrias. Os infiis vingaram-se acometendo Castela-a-Velha, onde j se tinha 
firmado
o domnio asturiano por meio de muitos lugares fortificados ou castelos, que 
deram o
nome  provncia. Metidos entre os muros das suas fortalezas, os cristos 
resistiram por
toda a parte, e Al-Mundhir, general dos rabes, internou-se para as bandas de 
Leo:
mas, sabendo que Afonso III o esperava a com o seu exrcito, retrocedeu para 
o
sudoeste e veio acampar junto do Orbiego, donde voltou para Crdova. Dentro 
em
pouco, os sarracenos renovaram as hostilidades talando a Navarra e descendo 
para
Castela e Leo; mas, rechaados por toda a parte, tornaram a retirar-se para 
Crdova
com grande perda. Cansados de to dilatadas guerras e de tantas devastaes 
mtuas,
godos e sarracenos trataram seriamente da paz, que afinal foi jurada entre o 
amir de
Crdova e Afonso III e durou por todo o resto do reinado deste prncipe, isto , 
por todo
o largo perodo de vinte e sete anos. Os limites dos territrios cristos 
demarcaram-se
definitivamente ao sul e sueste pelo Douro, e o rei de Oviedo pde dedicar-se a
melhorar o estado interior dos seus domnios, os quais abrangiam j 
proximamente um
tero da Pennsula hispnica. Repovoando-os e restabelecendo a ordem em 
Leo e em
Castela-a-Velha, alevantou das suas runas e fortificou as mais importantes 
povoaes
das fronteiras, como Zamora, Simancas, Donas e Touro, aces que no 
contriburam
menos para lhe adquirir o ttulo de Grande do que as suas vitrias.
Enquanto Afonso III assim trabalhava em restaurar a vida interna do pas 
sujeito 
sua autoridade, uma nova guerra vinha perturbar a paz dos cristos. As 
dissenses que
por aquele tempo andavam levantadas entre os sarracenos e de que fizemos 
meno
tinham quebrado a unidade do governo muulmano. Crdova ainda era o 
centro e
cabea da Espanha mourisca; porm, em parte das provncias que entestavam 
com os
estados de Afonso haviam-se estabelecido pela rebelio alguns potentados
independentes. Tendo Ahmed Ibn Al-Kithi ou Alchaman, como o denominam as
crnicas crists, passado ao partido de Ornar Ibn Hafssun, o mais poderoso 
inimigo do
amir de Crdova, Ornar entregou-lhe o poder supremo nos territrios de Toledo 
e
Talavera. Aqui, por todos os distritos amotinados contra o amir e, at, por 
frica,
Ahmed ajuntou um exrcito de sessenta mil homens e salteou as terras do rei 
de Oviedo,
cujos sbditos tornara descuidados a paz feita com o prncipe dos sarracenos. 
Os
cristos que puderam salvar-se acolheram-se s fortificaes de Zamora, que 
Al-Kithi
sitiou imediatamente, enquanto o governo de Crdova se apressava a 
assegurar o rei da
Galiza que desaprovava semelhante invaso. Entretanto Afonso III, recebida a 
nova da
tentativa de Ahmed, marchara contra ele. Os dois exrcitos encontraram-se 
nos campos
de Zamora, e depois de uma batalha bem pelejada os rabes foram vencidos 
com
espantosa perda, ficando entre os mortos o prprio Ahmed e seu irmo Abdu r-
Rahman,
vli ou governador de Tortosa. O rei de Oviedo, seguindo a vitria, dirigiu-se a 
Toledo
com o intento de reconquistar a antiga capital do imprio visigtico; mas as 
dificuldades
do stio moveram-no a aceitar um resgaie avultado dos habitantes e a voltar s 
Astrias,
destruindo na sua passagem algumas povoaes dos sarracenos.
Parecia que enfim o rei cristo poderia gozar tranquilamente do fruto de tantas
vitrias; mas as inquietaes domsticas tomaram o lugar das lutas com 
estranhos. Seu
filho mais velho, Garcia, ajudado pelos irmos e at, segundo alguns, pela 
prpria me,
e instigado por seu sogro, o conde de Castela Nuno Fernandes, conspirou para 
derrib-lo
do trono. Sabedor das criminosas tentativas do filho, Afonso f-lo prender em
Zamora e mandou-o levar em ferros ao castelo de Gauzn. Isto foi como o sinal 
de uma
rebelio geral, em que o rei das Astrias viu entrar todos os outros membros da 
sua
famlia. Seguiu-se uma guerra civil, cujo resultado foi a abdicao, na 
aparncia
voluntria, mas realmente forada, de Afonso III, que apenas sobreviveu um 
ano, no.78
qual fez ainda uma entrada nas terras do rebelde Hafssun como simples 
general de seu
filho. Na volta desta campanha faleceu em Zamora no fim do ano de 910, 
ficando-lhe na
histria o mais distinto lugar entre todos os sucessores de Pelgio que o 
haviam
precedido.
Das cidades que o grande capito fizera renascer das suas cinzas, Leo, a 
antiga
Legio dos romanos e dos godos, parece ter sido uma das que receberam mais 
rpido
incremento. Garcia estabeleceu a a sua corte, ficando seu irmo Fruela 
governando as
Astrias e Ordonho a Galiza, seno como reinos separados, ao menos com 
certo grau de
indepencncia que naturalmente provinha de o haverem ajudado a obter a 
coroa paterna
mais cedo do que devia. Essa situao equvoca, a qual julgamos ter sido a 
dos dois
prncipes, deu, talvez, origem  mudana do ttulo de rei de Oviedo para o de 
rei de
Leo, que principia a aparecer-nos no reinado de Garcia e foi a primeira 
tentativa de
desmembrao da monarquia espanhola, de que depois acharemos mais 
positivos
exemplos. Antes, porm, disto, no tempo de Afonso III, a Navarra, provncia 
sempre
inquieta e mal sofrida do jugo asturiano, havia-o sacudido. Afonso dera o 
governo dela
a Sancho migo, conde de Bigorre, denominado pelos vascnios Arista, que em 
vascono
soa como o Roble ou o Forte, por morte do qual os navarros proclamaram rei 
seu filho
Garcia Sanches, sem que o de Oviedo pudesse embarg-lo. Desde ento o 
reino de
Navarra ficou independente, e por isso os sucessos desta parte da Pennsula 
deixam de
ter relao, ao menos imediata, com a origem da monarquia portuguesa.
O governo de Garcia de Leo foi mui curto. Nos primeiros tempos, dedicou-se 
a
guerrear os sarracenos do partido de Hafssun, devastando o distrito de Toledo: 
nos
ltimos, a reedificar algumas povoaes das fronteiras dos seus j dilatados 
domnios,
como Osma, Corunha do Conde e Gormaz. A morte, porm, interrompeu-lhe 
todos os
desgnios quando contava apenas trs anos de reinado. Ou porque no 
deixasse filhos,
ou porque seu irmo Ordonho soubesse atrair a si os nimos dos grandes, foi 
este
escolhido para suceder-lhe e aclamado em Leo segundo o costume e pela 
forma usada
no tempo dos reis visigodos.
Durante a vida de seu pai e de seu irmo, Ordonho tinha mostrado gnio 
belicoso
e esforado em vrias entradas que fizera nas terras dos sarracenos. Ou 
porque a
durao das trguas com Crdova estivesse acabada, ou porque Ordonho 
julgasse
conveniente quebr-las, depois de trs anos de tranquilo reinado, passando de 
novo as
fronteiras para o sul, correu a antiga Lusitnia aqum e alm do Tejo at o 
Guadiana,
espalhando por toda a parte runas e mortes. Os habitantes de Mrida, 
aterrados pela
ferocidade do rei cristo, ofereceram-lhe avultados presentes para o 
aplacarem.
Persuadido, talvez, de que lhe seria dificultoso levar  viva fora as fortificaes
daquela grande povoao, Ordonho, carregado de despojos e deixando 
espalhado o
terror do seu nome, voltou a Leo, donde tornou brevemente a invadir os 
territrios
muulmanos, reduzindo Salamanca a cinzas. Segundo alguns, a invaso de 
Ordonho foi
uma s; mas  certo que os estragos feitos por ele uma ou mais vezes 
suscitaram as
represlias dos sarracenos. As crnicas crists falam de um clebre desbarato 
destes
junto de Santo Estvo de Gormaz, bem como os historiadores rabes 
celebram a
grande vitria obtida do rei de Leo pelo amir de Crdova. A falta de datas 
cronolgicas
torna as az confusa, tanto nuns como noutros, a narrao destes sucessos. 
Parece,
porm, que a desvantagem ficou ao lado de Ordonho; ao menos, foi o territrio 
cristo
que ultimamente serviu de teatro a esta longa e sanguinolenta luta.
As armas dos muulmanos voltaram-se ento contra o rei de Navarra, cuja
independncia estava provavelmente reconhecida pelo de Leo e Astrias; 
porque
achamos Ordonho combatendo em Junquera ao lado do prncipe navarro. O 
campo
cristo foi roto com grande mortandade, e Ordonl-io fugiu para Leo com as 
relquias.79
do seu exrcito, abandonando o rei de Navarra, que buscou refgio nos slidos 
muros de
Pamplona. brios com a vitria, os sarracenos passaram os Pirenus e, 
talando os
arredores de Tolosa, voltaram a Espanha. As perdas que tinham padecido 
tanto  ida
como  volta, principalmente nos desfiladeiros das serranias, perdas que, se
acreditarmos os cronistas cristos, equivaleram a uma completa destruio, 
obrigaram o
amir de Crdova a recolher-se  sua capital.
Enquanto assim os sarracenos invadiam o Sul da Frana, dizem que Ordonho,
ajuntando s relquias do seu exrcito novos soldados, fazia uma entrada pelo 
interior da
Espanha maometana, penetrando at os distritos orientais da Andaluzia. O 
carcter
belicoso do rei de Leo e a ausncia do exrcito vencedor em Junquera tornam 
provvel
este acontecimento, de que todavia se no encontra memria nos historiadores 
rabes.
Os ltimos tempos do reinado de Ordonho II so s notveis por um acto de 
rigor
feroz prprio da rudeza da poca. A causa desse acto foi, segundo parece, a 
vingana.
Os condes ou governadores de vrios distritos de Castela mostravam-se 
rebeldes 
autoridade do rei leons. Conforme a opinio de alguns, a rebelio consistira 
em
haverem eles recusado acompanhar Ordonho na expedio a favor de 
Navarra: mais
provvel cremos que as tentativas de independncia, que por toda a parte 
tendiam a
desmembrar a j mui vasta monarquia das Astrias, fossem a realidade do 
facto. Seja o
que for, Ordonho convocou para Burgos com mostras pacficas quatro condes 
daquela
provncia, indo-os esperar ao caminho. A prendeu-os e, enviando-os para 
Leo, fez-lhes
decepar as cabeas. Dentro de pouco, Ordonho morreu em Zamora (923) e foi
sepultado na catedral de Leo.
Apesar de ficarem quatro filhos do rei falecido, seu irmo Fruela foi eleito para
lhe suceder. Fruela II reinou apenas um ano, no qual no consta tivesse guerra 
com os
sarracenos, e todas as memrias do seu reinado reduzem-se a algumas 
fundaes pias.
Por morte deste prncipe, Afonso, filho de Ordonho, obteve a coroa que fora de
seu pai, posto que Fruela deixasse tambm trs filhos. A incerteza destas 
sucesses
prova a tenacidade com que os descendentes dos visigodos guardavam as 
instituies
polticas da Espanha anteriores  conquista rabe. Afonso IV foi, segundo 
parece, de
nimo pacfico e inclinado mais que seu tio as .coisas de religio. Ainda no 
tinha seis
anos de reinado completos quando, havendo chamado  corte seu irmo 
Ramiro, que
governava o distrito denominado hoje o Bierzo, abdicou a coroa nele com 
acordo dos
nobres juntos em Zamora e recolheu-se ao Mosteiro de So Facundo ou 
Sahagn. Era
Ramiro, pelo contrrio do irmo, de nimo turbulento e guerreiro. Assim, 
apenas
elevado ao trono, comeou a preparar-se para renovar a guerra contra os 
sarracenos. Um
acontecimento inesperado veio, porm, interromper os seus desgnios. Afonso 
IV, ou
por inconstncia de gnio, ou incitado por alguns descontentes, saiu de 
Sahagn e,
dirigindo-se a Leo, fez-se proclamar de novo rei. Ramiro, que se achava ainda 
em
Zamora, marchou imediatamente para a capital e, combatendo-a de dia e noite, 
entrou-a
e, prendendo seu irmo, lanou-o carregado de ferros no fundo de um 
calabouo. Os
trs filhos de Fruela, primos dos prncipes contendores, tomaram ento o 
partido do
cativo e tentaram colher Ramiro numa cilada. Soube-o ele: f-los prender e 
conduzir 
mesma priso em que jazia Afonso IV, onde mandou arrancar os olhos tanto a 
este
como queles. Nesse miservel estado, Afonso ainda viveu dois anos, ficando-
lhe por
morte um nico filho chamado Ordonho, conhecido depois pelo epteto de Mau.
Apaziguadas estas alteraes intestinas, Ramiro II disps tudo para uma 
invaso
na Espanha rabe, o que executou entrando com o seu exrcito at Madrid 
(outros
dizem Talavera), que servia como de fortaleza fronteira para impedir as 
correrias dos
cristos contra Toledo. Combatida vigorosamente, a povoao foi entrada, 
posta a saco
e, mortos ou cativos os seus habitantes, desmantelada. Dali voltou Ramiro a 
Leo sem.80
que os sarracenos pudessem opor-se  sua passagem. Mas estes no 
tardaram a
desagravar-se do dano recebido, acometendo a provncia de Castela com 
poderoso
exrcito. O conde Ferno Gonalves, que a regia, invocou o socorro de 
Ramiro, que no
tardou em chegar. Se acreditarmos as relaes rabes, os muulmanos 
tiveram, todavia,
tempo para devastarem os territrios cristos at  Galiza, donde conduziram 
grande
nmero de cativos e avultado despojo. Na passagem, porm, do Douro, perto 
de Osma,
Ramiro veio encontr-los. Receosos de que os cativos lhes servissem de 
impedimento
na batalha, meteram todos  espada. Travado o combate, a fria e dio mtuo 
com que
pelejavam fizeram com que este fosse um dos bem feridos entre leoneses e 
sarracenos,
ficando o campo alastrado de mortos e o resultado indeciso; porque tanto os 
cronistas
cristos como os rabes atribuem aos seus a vitria. Contudo, no s a 
linguagem pouco
explcita dos ltimos, mas tambm a retirada do exrcito para Crdova 
persuadem que
Ramiro levou tal qual melhoria.
O que parece claro  que a batalha de Osma deixou mui quebradas as foras 
dos
dois adversrios, porque os vemos dar trguas s hostilidades durante trs 
anos, no fim
dos quais a luta se renovou com mais energia que dantes. Uma pequena fasca 
deu azo a
um grande incndio.
Umeyyah Ibn Isak Abu Yahya era neste tempo caide de Santarm, e seu irmo
Mohammed vizir ou conselheiro na corte de Crdova. Teve o califa razes de 
queixa
contra Mohammed e mandou-o matar. Irado com este procedimento, o caide 
de
Santarm ligou-se com Ramiro, prestando-lhe obedincia com um grande 
nmero de
cavaleiros sarracenos do Gharb e entregando-lhe os castelos dependentes 
dele. Com esta
aliana o rei de Leo pde devastar a antiga Lusitnia, correndo por Badajoz 
at Mrida
e voltando pelas imediaes de Lisboa, donde se encaminhou para a Galiza 
carregado
de despojos, posto o inquietassem os inimigos, que nesta conjuntura s se 
atreveram a
fazer uma rpida correria alm do Douro.
Apenas o califa de Crdova, Abdu r-Rahman, soube dos estragos feitos pelo rei
leons, resolveu empenhar todas as suas foras contra os cristos e aniquilar-
lhes o
poder, que cada vez se tornava mais formidvel para o islamismo. Por 
mandado do
califa, todos os vlis e caides marcharam com, as suas tropas para Salamanca, 
aonde o
prprio Abdu r-Rahman veio tomar o mando do exrcito, que subia a mais de 
cem mil
homens. Este corpo numeroso atravessou as fronteiras inimigas e, depois de 
assolar os
lugares abertos e arrasar vrios castelos, foi assentar campo em volta dos 
muros de
Zamora.
Ramiro II, da sua parte, havia ajuntado em Burgos todas as foras de Leo,
Astrias, Galiza e Castela. Garcia, rei de Navarra, descera a socorr-lo, e Abu 
Yahya
viera tambm em seu auxlio com um grosso de cavalaria muulmana. Assim o 
exrcito
cristo, em estado j de competir com o do califa, pde marchar ao encontro 
dele. Abdu
r-Rahman, deixando no cerco de Zamora vinte mil homens, saiu com oitenta 
mil a rece-ber
os inimigos nas margens do Pisuerga junto a Simancas. As avanadas dos 
dois
exrcitos, encontrando-se ali, travaram uma escaramua que no teve 
consequncias.
Durante dois dias sarracenos e cristos se conservaram sem comear o 
combate, como
tomados da terribilidade da empresa, terribilidade que um grande eclipse do 
Sol viera
aumentar. Ao terceiro dia, enfim, a cavalaria do Gharb rompeu a batalha, e 
Ramiro
avanou com os seus esquadres. A lide durou at  noite com igual fria e 
esforo de
ambas as partes e com vria fortuna. Ao anoitecer, o campo estava alastrado 
de ca-dveres
e de troos de armas. As trevas separaram os combatentes sem vantagem
decisiva de nenhuma das partes, bem que ambas, como  natural, atribussem 
a si a
vitria. Induzem a crer as expresses dos cronistas rabes que a perda dos 
muulmanos
havia sido a maior e que o rei de Leo ficaria vencedor, se tivera no dia 
seguinte.81
renovado a peleja. Ele retirou-se, porm, naquela noite por conselho de Abu 
Yahya,
que, porventura, j estava arrependido, como o persuade o seu posterior 
procedimento,
de ter ajudado os inimigos do Coro a derramar o sangue dos muulmanos, e 
que soube
fazer acreditar a Ramiro que, se renovasse o combate, o ltimo desfecho lhe 
seria
desfavorvel.
Os sarracenos no ousaram perseguir o exrcito leons e voltaram ao campo 
de
Zamora. Reina tal confuso entre os escritores rabes, sobretudo confrontados 
com os
cronistas cristos, que  impossvel relatar com certeza e individuao os 
sucessos que
seguiram a batalha de Simancas. O que parece mais provvel  que os 
sarracenos se
apossassem, enfim, de Zamora, mas com perda imensa, ou porque Ramiro 
viesse de
improviso acomet-los, ou porque a resistncia dos sitiados fosse tenacssima, 
de modo
que Abdu r-Rahman se retirou para Salamanca, conservando em Zamora uma
guarnio, que pouco depois deixou cair novamente aquela povoao 
importante nas
mos dos leoneses, os quais cativaram a o caide de Santarm, Abu Yahya, 
motor de
toda esta guerra, e que se tinha em to breve tempo tornado a unir aos seus
correligionrios.
Nesse mesmo ano (939) Ramiro II passou o Douro, menos para fazer novas
invases no interior da Espanha maometana do que para firmar o domnio 
cristo nos
territrios que tinham sido teatro das precedentes lutas. Salamanca, Ledesma,
Penharanda, Gormaz, Osma e outros muitos lugares das fronteiras, que jaziam 
desertos
e destrudos, foram repovoados e guarnecidos de soldados. Data desta poca 
o
verdadeiro engrandecimento dos condes de Castela, onde a maior parte 
daquelas
povoaes eram situadas; engrandecimento que tantas perturbaes veio a 
produzir na
Espanha crist e trouxe dentro em breve a rebelio dos condes Fernando 
Gonalves e
Diogo Nunes, os quais Ramiro submeteu, perdoando-lhes depois de algum 
tempo de
priso.
Acham-se nos historiadores rabes notcias de alguns recontros entre cristos 
e
muulmanos posteriores a esta poca. Deviam ser correrias de pouca 
substncia, como
de gente cansada de guerras e desejosa de repouso. Vemos, de feito, Ramiro 
enviar
embaixadores a Crdova em 944 para assentarem paz com o califa, e este 
mandar a
Leo o seu ministro ou vizir Ahmed Ibn Said para o mesmo fim. As trguas 
ento feitas
duraram firmes at 949, ltimo ano do reinado de Ramiro, que ainda ento fez 
uma
entrada at Elbora, hoje Talavera, a qual no pde tomar, mas em cujas 
imediaes
desbaratou um grosso de sarracenos, fazendo-lhes grande matana e avultado 
nmero de
cativos, ao que Abdu r-Rahman correspondeu com uma correria no territrio 
dos cris-to,
enquanto Ramiro II, oprimido de grave doena, falecia em Leo nos primeiros 
dias
do ano de 950, havendo abdicado a coroa em seu filho mais velho Ordonho II.
Apenas Ordonho subiu ao trono logo seu irmo Sancho comeou a disputar-
lho.
Era ele ento governador ou conde de Burgos e mancebo sabedor das coisas 
de guerra,
que aprendera na escola de seu esforado pai. O turbulento conde de Castela 
Fernando
Gonalves favorecia o seu bando. Este e ,Sancho dirigiram-se, cada um com 
seu
exrcito, para Leo; mas Ordonho estava prevenido, e os dois aliados tiveram 
de desistir
da empresa. Toda a vingana de Ordonho parece ter-se reduzido a repudiar 
sua mulher
Urraca, filha do conde de Castela, a qual depois passou a segundas npcias 
com
Ordonho, o Mau.
A tentativa de Sancho teve eco na Galiza, para onde o rei de Leo marchou 
logo
com grosso exrcito contra os levantados, que brevemente cederam. 
Pacificado tudo,
Ordonho aproveitou as foras que ajuntara para fazer uma entrada nas terras 
dos infiis.
Passou o Douro, desceu pelo territrio muulmano que hoje chamamos Beira e
Estremadura at  foz do Tejo, tomou e saqueou Lisboa e voltou a Leo rico 
de.82
despojos e cativos. Entretanto os sarracenos entravam por Castela e, segundo 
afirmam
os seus cronistas, faziam a grandes estragos. Nestas guerras obscuras 
passou o reinado
de Ordonho III, que faleceu depois de governar por cinco anos e alguns meses.
Sucedeu-lhe seu irmo Sancho, que j havia mostrado quanto ambicionava a 
coroa.
Pouco tempo reinou em paz Sancho I, denominado, pela sua extrema 
obesidade, o
Gordo. Apenas passado um ano, Ordonho, filho de Afonso IV, que vivia em 
Leo como
simples particular, tendo-se ligado com o sempre inquieto Fernando Gonalves, 
cuja
filha abandonada por Ordonho III tomara por mulher, rebelou-se contra o irmo 
e,
ajudado pelo sogro, expulsou-o do trono. Sancho, fugitivo, acolheu-se a 
Navarra e dali a
Crdova, buscando a proteco do inimigo de seu pai, do ilustre Abdu r-
Rahman. No
se fiou em vo da generosidade do famoso califa: o prncipe muulmano 
subministrou-lhe
os socorros necessrios para reconquistar os seus estados. A frente de um 
exrcito
sarraceno, Sancho I entrou de novo na sua capital, donde fugira Ordonho, o 
Mau,
esperando defender-se nas serras das Astrias. Sancho, porm, no lhe 
concedeu
repouso at o expulsar dos seus territrios. Ordonho, enfim, obrigado a 
refugiar-se entre
os sarracenos, a viveu o resto de seus dias na obscuridade e, porventura, na 
misria;
porque dele no tornam a fazer meno os historiadores.
Desde a poca da restituio de Sancho I ao trono, a qual parece dever 
colocar-se
em 961, at o segundo ano do califado de Al-Hakem, filho e sucessor de Abdu 
r-Rahman
III, falecido pouco depois daquele sucesso, a paz subsistiu entre os cristos e 
os
sarracenos. As correrias, porm, do conde Fernando Gonalves pela Espanha
muulmana acenderam de novo a guerra. Al-Hakem entrou em Castela, 
arrasou
Gormaz, apossou-se de vrias outras povoaes, ps cerco a Zamora, reduziu-
a por fim
e desmantelou-a, voltando depois a Crdova.
Provavelmente a guerra continuou pelos generais do califa; porque em 965
Sancho I lhe enviou embaixadores com mensagens dos condes fronteiros de 
Castela,
que pediam paz. Estas mensagens indicam terem sido as correrias de 
Fernando
Gonalves feitas sem aprovao do rei leons, que parece haver ficado mero 
espectador
da luta. Al-Hakem acedeu aos desejos de Sancho, e a paz durou at o fim do 
governo
deste prncipe.
Um levantamento de vrios condes da Galiza, ligados com o bispo de
Compostela, obrigaram Sancho I a entrar com mo armada naquela provncia. 
Gonalo
Sanches, um dos cabeas da rebelio, no se julgando assaz forte para 
resistir, fingiu
ceder; mas numa conferncia com o rei de Leo mandou envenen-lo. Assim 
acabou o
reinado de Sancho I nos fins de 967. Ramiro, seu filho, bem que contasse 
apenas cinco
anos de idade, foi escolhido por sucessor do pai sob a tutela de sua tia Elvira. 
Algumas
pequenas inquietaes civis e um desembarque dos piratas normandos na 
Galiza so os
acontecimentos mais notveis da regncia de Elvira, se no quisermos contar 
entre eles
a morte do clebre Fernando Gonalves (970), que, durante o seu longo 
governo em
Burgos, capital de Castela, quase nunca deps as armas, ou para acometer os 
sarracenos
ou para promover tumultos contra os reis de Leo.
Al-Hakem tinha falecido em Crdova e, do mesmo modo que sucedera em 
Leo,
seu filho Hixam, ainda menor, herdara o califado debaixo da tutela de sua me 
Sohba,
que entregou, como vimos, as rdeas do governo ao hjibe Al-Manssor. Aps 
uma
trgua que durara por anos, foi este que de novo acendeu entre as duas raas 
que
disputavam o domnio da Pennsula o facho de sanguinosa e duradoura guerra.
A primeira tentativa do hjibe contra os cristos foi uma larga algara ou correria
sbita na Galiza, de que saiu sem risco e sem combate pelo repentino e 
inesperado dela.
Nos anos seguintes Al-Manssor repetiu estas entradas, travando combates 
com as tropas
crists da Galiza e de Castela e desbaratando-as. As discrdias civis da 
Espanha goda.83
facilitavam as vitrias dos sarracenos. Ramiro III, chegando  puberdade, 
comeou a
dar mostras de gnio voluntrio, inquieto e soberbo, que no tardou a alienar-
lhe os
nimos da nobreza e do vulgo. Vendo ocasio oportuna, Vermudo ou Bermudo, 
neto de
Fruela II, ajudado por vrios condes da Galiza e ainda de Leo e Castela, fez-
se aclamar
em Compostela. Ramiro,  frente de um exrcito, marchou logo contra ele e,
encontrando-se junto de Monteroso, os dois mulos travaram uma 
sanguinolenta
batalha, que durou um dia inteiro sem vantagem conhecida, no fim da qual 
Ramiro
retrocedeu. para Leo e Bermudo para Compostela.
Neste tempo Al-Manssor corria as fronteiras da Galiza. Bermudo parece ter
buscado ento a sua aliana e hav-lo induzido a acometer os territrios do 
seu
adversrio. O hjibe penetrou, de feito, at s margens do Ezla, que vem entrar 
no
Douro perto de Zamora. Ramiro saiu a receb-lo, e um dia em que os 
sarracenos
repousavam descuidados no seu campo salteou-os com tal fria que Al-
Manssor esteve
quase desbaratado. Foi precisa toda a energia do seu carcter para salvar-se 
da ltima
runa; mas os leoneses, vitoriosos a princpio, voltaram por fim as costas. 
Perseguiu-os
o hjibe at Leo sem lhes dar repouso, e teria tomado aquela capital se uma 
sbita e
horrorosa tempestade de neve e granizo, segundo o testemunho dos escritores 
tanto ra-bes
como cristos, no viesse impedir o combate no momento em que j os 
sarracenos
punham as lanas nas portas da cidade. Receando o Inverno, em que a 
natureza pelejava
a favor dos leoneses, Al-Manssor voltou para Crdova, deixando espalhado 
entre os
inimigos o terror do seu nome.
Nem por isso os pases cristos ficaram tranquilos. Como se lhes no 
bastassem os
estragos feitos pelos muulmanos, a guerra civil entre Galiza e Leo continuou 
durante
dois anos e provavelmente s foi interrompida pela segunda entrada de Al-
Manssor, que
na Primavera de 984 veio de novo pr cerco a Leo. Os condes cristos, de 
que fala o
cronista Plagio de Oviedo e que serviam no exrcito do hjibe, eram 
provavelmente os
parciais de Bermudo, que para destrurem o poder de Ramiro no duvidavam 
de
sacrificar a ptria comum e associavam os dios intestinos  guerra de raa e 
de religio.
Sitiando a capital do reino leons, Al-Manssor resolvera tom-la a todo o custo,
ferindo assim os inimigos no corao. Ramiro, segundo alguns, era j falecido, 
mas
segundo outros, cuja opinio parece mais bem fundada, vivia ainda nos fins 
deste ano.
Reinasse, porm, Bermudo ou Ramiro,  certo que um deles fugiu para as 
Astrias,
levando consigo todas as preciosidades, no s de Leo, mas tambm de 
Astorga, que
naquele tempo era a segunda povoao do reino.
Enquanto o sucessor de Pelgio abandonava assim o centro da monarquia ao 
furor
dos infiis, o alcaide ou capito da cidade preparava-se para tenaz defesa. De 
feito, os
sarracenos receberam enormes perdas nos sucessivos combates que deram  
povoao;
mas, insistindo no seu propsito, Al-Manssor levou-a  escala vista. Saqueada, 
mortos
ou cativos os seus habitantes, o hjibe mandou arrasar-lhe os muros e o seu 
forte cas-telo.
A tomada de Astorga seguiu-se  de Leo, apesar da brava resistncia dos 
seus
defensores. Quisera Al-Manssor seguir a vitria embrenhando-se nas Astrias; 
mas,
rechaado dos castelos de Luna, Alva e Gordon, recolheu-se a Crdova 
satisfeito com
deixar reduzidas a runas as duas mais notveis povoaes do pas inimigo.
A to disputada coroa da Espanha crist meridional possua-a, enfim, sem
competidor, Bermudo II, mas convertida em coroa de espinhos. Os sarracenos 
corriam
vitoriosos por Leo, Castela e Galiza, devastando esta ltima at as ribas do 
mar e
parando s, pelo serto ao norte, na barreira insupervel que lhes antepunham 
as agras
serranias das Astrias. O reinado de Bermudo, a quem uma enfermidade 
incurvel
fizera denominar o Gotoso, foi-lhe dilatada agonia, vendo quase anualmente os 
infiis
assolarem-lhe o territrio e desmantelarem-lhe as mais belas cidades do seu 
senhorio,.84
cuja extenso e importncia as memrias das perdas dessa triste poca, 
melhor que
nenhumas outras, do a conhecer. O terrvel hjibe parecia ter jurado apagar o 
nome
cristo na Pennsula. Vencedor ao norte dos catales e navarros, reduzia os 
estados do
Sul e Meio-Dia quase  derradeira extremidade. Em diversos anos da sua 
longa regncia
em nome do califa Hixam ermou a Castela, tomando e derribando as 
povoaes mais
notveis, e o mesmo fez  Galiza, cujas fronteiras, provavelmente desde a 
invaso de
Ordonho III na antiga Lusitnia, se estendiam at o Mondego. Em 987, 
Coimbra (a
Medina-Colimria dos rabes) caiu em poder de Al-Manssor, que a destruiu,
repovoando-a de sarracenos passados sete anos, durante os quais esteve 
deserta. As
turbulncias civis vinham multiplicar entretanto os males da cristandade 
espanhola. A
um tempo Sancho Garcez, filho do conde de Castela Garcia Fernandes, 
tomava armas
contra seu pai, e Gonalo Menendes alevantava-se na Galiza contra a 
autoridade de
Bermudo. No meio destas revoltas o hjibe entrava por Castela e, depois de 
dois dias de
furiosa peleja, destroava completamente os exrcitos unidos do conde Garcia
Fernandes e do rei de Navarra, que viera em seu auxlio, caindo o conde 
moribundo em
poder dos sarracenos, que, apesar de todas as diligncias, no puderam 
salvar-lhe a vida.
Prosseguiu Al-Manssor a sua vitoriosa marcha para a provncia de Leo, aonde 
parece
no voltara desde a destruio da cidade do mesmo nome. Desbaratadas as 
tropas
leonesas, o exrcito sarraceno regressou a Crdova pela entrada do Inverno.
Passavam estes sucessos nos fins de 995. No comeo do ano seguinte, 
Bermudo
II, inquieto com as perturbaes domsticas e vendo os seus domnios 
assolados pelas
incessantes correrias do indomvel hjibe, resolveu enviar mensageiros ao 
califa
pedindo trguas. Al-Manssor, que era o verdadeiro senhor em Crdova, 
parecia no
estar longe de conceder algum respiro aos cristos, mas afinal nada se 
concluiu, e em
997 as hostilidades principiaram de novo com redobrada energia.
Foi no Vero deste ano que os sarracenos intentaram levar mais longe as 
armas
pelo lado ocidental dos estados de Bermudo. A gazua (ghaswat, expedio 
sacra), como
os rabes denominavam a guerra intentada contra os cristos, foi desta vez 
feita por mar
e por terra. Era em destruir Compostela, correndo a Galiza do sul ao norte, que 
o hjibe
pusera a mira. Alentava-o nesta nunca tentada empresa o acordo secreto que 
tinha com
vrios condes daquelas partes inimigos de Bermudo. Enquanto ele atravessava 
o
territrio das modernas provncias da Estremadura castelhana, Salamanca e 
Beira Alta,
onde os seus aliados cristos se lhe vieram unir, uma frota sada de Alccer 
(Al-Kassr
Abu Dans) ia aportar na foz do Douro e desembarcar junto ao Porto (Bortkal,
Portucale) mais tropas e petrechos de guerra. Reunidas a todas as foras do 
hjibe, ele
atravessou aquela parte da antiga Galiza chamada hoje provncia de Entre 
Douro e
Minho e, vencendo os obstculos que lhe opunham os homens e a natureza 
naquelas re-gies
montanhosas, chegou aos muros de Compostela. Estava desamparada a 
cidade de
seus habitantes: entraram sem resistncia os sarracenos; derribaram os muros, 
o castelo
e a igreja de Santiago, a que pela sua celebridade os escritores rabes 
chamavam a
Kaaba dos nazarenos, com o quem dissera o templo por excelncia, sendo 
assim
denominado entre os muulmanos o de Meca. Dali avanou para o lado da 
Corunha,
aonde, segundo o testemunho do historiador rabe Al-Makkari, nunca os 
sarracenos
tinham chegado. O cansao da cavalaria impediu o hjibe de prosseguir mais 
alm para
o norte, e por isso, retrocedendo pela provncia de Leo, que de novo assolou, 
recolheu-se
a Crdova, depois de fazer ricos do nativos, provavelmente parte dos despojos, 
aos
condes cristos que o tinham ajudado naquela campanha e cujos territrios 
haviam sido
cuidadosamente respeitados.
No meio de tantas desventuras chegou o fim do sculo X e do reinado de
Bermudo II, falecido em 999. O astro brilhante que alumiara os passos de 
Pelgio, dos.85
trs primeiros Afonsos e de Ramiro II quase que se imergira nas mais 
espessas trevas
durante esse longo reinado. Apenas nos desvios selvticos das Astrias 
evitaram os
cristos a ltima runa. O sculo XI comeava com uma triste perspectiva; 
porque 
pobreza, despovoao e desalento geral se ajuntava o ir caindo em desuso o 
direito
electivo dos godos, sucedendo na coroa um rei menino, qual era Afonso, filho 
de
Bermudo, ento de cinco anos de idade, quando para salvar a monarquia 
leonesa era
necessrio um prncipe ao mesmo tempo poltico e guerreiro, que pudesse 
conter as
discrdias civis, primeira fonte do mal, e pr de algum modo termo  invarivel 
fortuna
do terrvel hjibe de Crdova.
Com pssimos auspcios foi, pois, aclamado o moo Afonso V em Leo, que os
cristos tinham comeado a reedificar. Tomaram felizmente o leme dos 
negcios
pblicos Menendo Gonalves, conde da Galiza, e Sancho Garcez, conde de 
Castela e tio
do rei, ambos cavaleiros ilustres. A viva de Bermudo, Geloira ou Elvira, mulher 
de
altos espritos, obteve tambm grande influncia na administrao do pas,  
qual
presidia juntamente com os dois condes. Guerras em Africa tinham entretido 
por algum
tempo o implacvel Al-Manssor, e Os cristos puderam por breve intervalo 
despir as
armas. Mas ainda no ano 1000 ele fizera uma correria em Castela, na qual 
desbaratara
Sancho Garcez, e depois, passando quela parte da antiga Lusitnia que j se 
achava
unida  Galiza, tomara os castelos de Aguiar e Montemor. Foi todavia s em 
1002 que o
hjibe se empenhou em reduzir definitivamente Castela ao domnio 
muulmano,
consumindo o ano anterior nas disposies necessrias para essa conquista.
A nova dos imensos aprestos dos sarracenos derramou o susto entre os 
cristos.
Os tutores e conselheiros de Afonso V preparavam-se activamente para a luta. 
Sancho,
rei de Navarra, que por seu muito esforo e energia adquirira o apelido de 
Quadrimano,
veio com as foras de Navarra, com algumas do Meio-Dia da Frana e, at, 
com os
vascnios independentes ajuntar-se s tropas de Leo, Galiza e Castela. Nos 
campos de
Lorca viram-se pela primeira vez sinceramente unidos esses homens irmos 
em crena,
que, havia tantos anos, as paixes polticas tinham feito adversrios ou pelo 
menos
estranhos. Entretanto os sarracenos avanavam seguindo a corrente do Douro 
para o
nascente e assolando tudo na sua passagem. Junto a um lugar que os 
historiadores
rabes indicam pelo nome de Kalat Al-Nosor (pncaro dos abutres) deram de 
rosto com
o campo dos cristos, cujo nmero encheu de espanto os corredores 
muulmanos. Entre
estes e os inimigos travou-se logo uma pequena escaramua, que a noite veio
interromper, comeando a batalha ao alvorecer do dia seguinte. Foi terrvel o 
recontro,
pelejando uns e outros como quem no ignorava a importncia daquela 
jornada. Durou
o combate enquanto durou a luz do Sol, e ao anoitecer nem cristos nem 
sarracenos
haviam recuado um s passo. As trevas vieram pr termo  carnificina, sem 
que a
vitria se inclinasse claramente para nenhuma parte. Quando, porm, durante 
a noite,
Al-Manssor soube que a maior e melhor poro dos seus cabos de guerra e 
cavaleiros
perecera, fraqueando-lhe o nimo feroz, ordenou passar o Douro com as 
relquias do
exrcito. Os cristos, no menos destroados que os inimigos, nem sequer 
ousaram
segui-lo. O hjibe no pde sobreviver  desonra. A mgoa, a idade e algumas 
feridas
que recebera o fizeram expirar apenas transpostas as fronteiras de Casteia. 
Abdul-Malek
Al-Modhaffer, filho de Al-Manssor, foi nomeado hjibe em lugar de seu pai, 
como j
vimos. Em 1003 o novo hjibe abriu a campanha acometendo na Primavera a 
Catalunha
e no Outono a monarquia leonesa, onde tomou a cidade de Leo, que 
principiava a
erguer-se das suas runas e que foi de novo destruda. Durante o ano de 1005 
as mtuas
correrias cessaram com uma trgua que durou at 1007, poca em que Abdul-
Malek,
penetrando na Castela e dali passando  Galiza, ps tudo a ferro e fogo. A 
terra ficou
destruda, e foram arrasados os castelos de Osma e Gormaz. Seguindo as 
margens do.86
Douro, o hjibe voltou a Crdova, seno coberto de glria por batalhas 
vencidas, ao
menos rico de despojos.
Mas estas vantagens dos sarracenos breve deviam ter desconto. No ano 
seguinte
Al-Modhaffer avanou pela Galiza com poderoso exrcito, cujo principal nervo 
era um
corpo numeroso de cavalaria escolhida. Saram-lhe os cristos ao encontro; 
onde e
quando, coisa  que se ignora. Foi brava e disputada a peleja e, se 
acreditarmos os
historiadores rabes, os soldados do rei de Leo recuaram a princpio; porm
melhorando-se logo, posto que o hjibe sustivesse at  noite o peso da 
batalha, foi por
fim vencido, no sem grande perda dos seus adversrios. Voltou ento a 
Crdova, onde
faleceu nesse mesmo ano.
A morte de Abdul-Malek produziu as graves perturbaes que noutro lugar
relatmos. As guerras civis de cada uma das duas raas inimigas que 
disputavam o
domnio da Pennsula eram naturalmente ocasio de engrandecimento ou, pelo 
menos,
de repouso para a outra. Foi o que desta vez sucedeu. Nos combates que 
ento alagaram
de sangue as praas da orgulhosa Crdova, as tropas africanas que formavam 
a guarda
do califa Hixam, adversa a Mohammed Ibn Hixam, o qual soubera apossar-se 
do
califado, foram obrigadas, conforme dissemos, a sair da cidade perseguidas 
pelos mu-ulmanos
espanhis e a retirar-se para as fronteiras de Castela. Suleiman Ibn Al-Hakem
capitaneava-as ento por morte do seu antigo general Hixam Al-Raxid. Props 
ele ao
conde castelhano ceder-lhe certos castelos que tinha de sua mo nas 
fronteiras, se o
quisesse ajudar contra Mohammed. Aceitou o conde, e j noutra parte vimos 
quais
foram as consequncias dessa aliana.
No s as revoltas entre os sarracenos deixavam repousar das passadas 
angstias a
monarquia leonesa, mas tambm as diversas parcialidades que mutuamente 
se
dilaceravam restituam aos cristos as povoaes e castelos conquistados pelo 
clebre
Al-Manssor para obterem deles auxlio. Assim o conde Sancho Garcez, que 
houvera de
Suleiman alguns lugares como retribuio de servios prestados, alcanou da 
a pouco
recuperar Santo Estvo, Osma e Clunia, servindo os adversrios do africano.
Aproveitando habilmente as circunstncias, o incansvel conde de Castela 
chegou por
este modo a ver ainda durante  sua vida restaurada a integridade do territrio
castelhano. O apreo que os sarracenos faziam da aliana de Sancho, a 
influncia que
tinha em toda a monarquia como tio do moo Afonso V e a quase 
independncia de que
j os seus antecessores tinham gozado incitavam o conde a converter a 
Castela num
estado de todo independente. Favoreciam a tentativa assim os poucos anos do 
rei de
Leo, como a supremacia que Sancho Garcez tinha na realidade sobre os 
outros condes
daquela provncia, posto que s o distrito de Burgos, a principal cidade de 
Castela,
constitusse em rigor o condado de Sancho, em cuja famlia se tornara 
hereditrio um
cargo que, pelas antigas instituies visigticas era, quando muito, vitalcio.
Foi no perodo decorrido de 1012 a 1016 que rebentaram as discrdias entre
Afonso V, que ainda no contava vinte anos, e seu tio Sancho Garcez. Estas 
discrdias
parece haverem-se prolongado at 1021, poca da morte do conde de Castela. 
Se
acreditarmos vrios documentos desse tempo (de cuja autenticidade alguns 
duvidam), o
prprio Afonso V taxava ento o tio de infidelssimo e de seu adversrio. O que 
 certo
 que o moo rei de Leo acolheu com honras e mercs a poderosa famlia dos 
Velas ou
Vigilas, que haviam abandonado a Castela por inimizades com Sancho Garcez, 
e no
menos o  que este fazia ligas com os muulmanos ou os guerreava, sem 
curar dos
interesses ou da vontade do governo leons, o que prova proceder ele como se 
fosse um
soberano independente.
Todavia, se este acontecimento gerou uma guerra civil, ela no foi nem violenta
nem duradoura. O conde de Castela faleceu em 1021 deixando por sucessor 
seu filho.87
Garcia Sanches ainda na infncia, e no consta que Afonso V tentasse 
aproveitar este
ensejo para anular a importncia dos condes castelhanos, antes, segundo 
alguns
historiadores, foi ainda em vida deste rei que Bermudo, seu nico filho, se 
desposou
com Urraca, irm mais moa do novo conde, e se contratou o casamento deste 
com
Sancha, irm de Bermudo. Pretendem outros, talvez com melhor fundamento, 
que os
esponsais do conde de Castela s se contrassem no reinado de Bermudo, no 
qual
sucedeu indubitavelmente o assassnio de Garcia Sanches, assassnio que, 
como logo
veremos, deu azo a grandes alteraes polticas na Espanha crist.
Os antigos monumentos falam vagamente das guerras de Afonso V com os
sarracenos e das grandes vitrias deste prncipe: o que sabemos, porm, com 
certeza 
que em 1027 ele passara o Douro e, discorrendo pelo Norte do Gharb, viera 
pr cerco a
Viseu, que provavelmente ficara em poder dos muulmanos desde o tempo de 
Al-Manssor.
Foi durante o assdio que a morte o salteou no vigor da idade. Era no estio;
intensa a calma. Despidas as armas e trajando apenas uma tnica de linho, o 
rei
discorria em volta dos muros inimigos: um virote partiu das ameias e, ferindo-o
mortalmente, derribou-o do cavalo. Levado  sua tenda, Afonso V expirou 
brevemente,
contando pouco mais de trinta anos e quase outros tantos de reinado.
Subindo ao trono Bermudo III, filho do rei defunto, os nobres de Castela,
provavelmente os tutores de Garcia, enviaram-lhe mensageiros propondo o 
casamento
do moo conde com a infanta Sancha, e pedindo para ele a concesso do ttulo 
de rei.
No refusou Bermudo, segundo parece, a pretenso, porque dentro em pouco 
os nobres
de Burgos se dirigiram a Leo levando consigo o seu pupilo, a fim de 
conclurem aquele
casamento que devia pr termo s discrdias entre o rei e o seu j em demasia 
poderoso
sbdito. Tinha entretanto Bermudo partido para Oviedo. Chegados os 
castelhanos a
Leo, resolveram prosseguir at aquela cidade para se verem com o rei: mas 
atalhou-lhes
os passos inopinado sucesso. Os irmos Vigilas ou Velas, que guardavam 
profundo
rancor contra a famlia do conde Sancho Garcez, ajuntando um grosso corpo 
de solda-desca
nas Astrias e caminhando uma noite inteira, entraram em Leo ao alvorecer e,
encontrando o jovem Garcia, assassinaram-no juntamente com muitos 
castelhanos e
leoneses que haviam tentado ampar-lo. Saindo depois a seu salvo da cidade, 
dirigiram-se
para a fronteira de Castela e acolheram-se a Monzn, lugar forte situado num 
monte
sobranceiro ao rio Carrin.
O idoso Sancho, rei de Navarra, era casado com a irm mais velha de Garcia. 
Por
este motivo julgou que devia suceder ao conde e ving-lo. Entrou com um 
exercito por
Castela, veio sitiar Monzn, tomou-a, meteu a cutelo os seus defensores e 
mandou
queimar vivos os Velas, que a cativara. Depois, dirigindo-se a Burgos, fez-se 
aclamar
sucessor de Garcia Sanches, unindo a Castela  Navarra, e fazendo-se assim 
o mais
poderoso potentado da Espanha crist.
Nem a ambio de Sancho, excitada pelo aumento de domnios, nem o
ressentimento de Bermudo ou dos seus tutores pela diminuio deles 
consentiram
durasse muito a paz entre Leo e Navarra. A reedificao de Palncia fez 
rebentar o
incndio. Intentara o navarro alevant-la das runas como situada nos limites 
do con-dado
de Castela. Bermudo ops-se pretendendo que estava includa dentro do 
distrito
leons. Daqui as hostilidades. Sancho, velho enrgico e guerreiro, penetrou 
logo nos
domnios do seu adversrio e apossou-se de todo o territrio que se dilata 
entre os rios
Cea e Pisuerga. Andava ento na Galiza Bermudo, empenhado em atalhar 
tumultos
naquela sempre inquieta provncia, e o inimigo pde atravessar o Cea e correr 
os
campos de Leo. Mas os leoneses comearam a tomar as armas, e Bermudo, 
ajuntando
um exrcito de galegos, veio em seu auxlio. Esta guerra iminente evitou-se, 
todavia,
conforme alguns, por interveno dos bispos de um e de outro pas. Os dois 
reis.88
firmaram a paz com a condio de que Fernando, filho segundo do de Navarra, 
casaria
com Sancha, a prometida esposa do assassinado Garcia, cedendo-lhe 
Bermudo o
territrio conquistado pelo navarro entre o Cea e o Pisuerga. Estes sucessos, 
que
tornavam Sancho o mais poderoso entre os prncipes cristos da Espanha, 
passavam
pelos anos de 1032: a ambio, porm, no o deixava repousar. Ignora-se com 
que
pretexto, mas  certo que em 1034 entrou por Leo em som de guerra e 
subjugou todo
aquele pas at s fronteiras da Galiza e, porventura, ainda numa parte desta, 
conquistas
que conservou at  poca do seu falecimento nos princpios do ano seguinte, 
em que
contava setenta de idade e de reinado sessenta e cinco.
A morte de Sancho gerou a guerra civil. Dividira ele entre os filhos os seus 
vastos
estados, que abrangiam as modernas Navarras, francesa e espanhola, o 
condado de
Arago, muito mais limitado que a actual provncia deste nome, a Castela e 
Leo
propriamente dito; isto , abrangiam mais de dois teros do territrio da 
Espanha
libertada do jugo dos sarracenos. A Navarra ficou ao mais velho, Garcia, que 
ento se
achava em Itlia, o Arago a Ramiro e a Fernando o novo reino de Castela 
com a parte
de Leo entre Cea e Pisuerga, tendo Bermudo ocupado imediatamente a outra 
parte.
Ramiro, porm, cujo quinho fora o mais diminuto, talvez porque, como se cr, 
era
bastardo, aproveitando a ausncia de Garcia e aliando-se com os vlis de 
Saragoa,
Huesca e Tudela, entrou pelos estados do irmo com intento de os conquistar.
Entretanto, Garcia, que, recebida a nova da morte de seu pai, voltara a 
Espanha,
sabendo da tentativa do irmo, saiu-lhe ao encontro com as foras que  
pressa pde
ajuntar. A sorte das armas foi inteiramente adversa a Ramiro, que escapou a 
custo
perseguido por Garcia, ficando no campo muitos aragoneses e ainda mais 
sarracenos.
Vencido, Ramiro pediu e obteve a paz, contentando-se de salvar a pequena 
poro que
lhe coubera na rica herana paterna.
Bermudo, como dissemos, logo que Sancho de Navarra morrera, havia dentro 
em
poucos dias recuperado a provncia de Leo, segundo parece, por acto 
espontneo dos
condes e governadores de castelos, sem que lhe fosse necessrio reconquist-
la. Tinha
Bermudo chegado ento  idade viril. Pintam-no como mancebo de altos 
espritos,
esforado e amigo da justia. O largo perodo da sua menoridade devia ter 
gerado
muitos abusos. O primeiro ano de governo gastou-o em remediar os males 
passados;
mas no imediato (1037) resolveu restabelecer os anteriores limites do territrio 
leons,
invadindo o distrito entre Cea e Pisuerga, que fora constrangido a ceder. Com 
um
exrcito de galegos e leoneses, entrou por aquela parte: Fernando, rei de 
Castela e seu
cunhado, achando-se inferior em foras, invocou o socorro de Garcia, que 
desceu
imediatamente de Navarra a ajud-lo. Saram os dois irmos a receber o 
invasor e,
encontrando-o junto do rio Carrin, travou-se a batalha. Foi esta a das mais 
bem feridas
que se viram em Espanha; fizeram-se muitas gentilezas de armas, e Bermudo
distinguiu-se entre todos pelo seu valor. A Providncia tinha, porm, marcado o 
termo 
dinastia leonesa. Rompendo por entre as alas castelhanas e navarras, o audaz 
filho de
Afonso V foi topar em cheio com o rei de Castela, a cujas mos acabou, se 
acreditarmos
o letreiro que ainda se l sobre o tmulo de Bermudo na catedral de Leo, ou 
antes s de
Garcia de Navarra, como parece indicarem-no os antigos cronistas. Fernando, 
vitorioso,
marchou imediatamente contra a capital, cujos moradores tentaram resistir-lhe. 
Mas por
uma espcie de direito consuetudinrio de sucesso, que na prtica ia 
substituindo
pouco a pouco o direito electivo dos visigodos, morto Bermudo sem filhos a 
coroa
pertencia a Fernando de Castela por sua mulher Sancha, irm e herdeira de 
Bermudo.
Assim os habitantes de Leo, conhecendo talvez que o ltimo resultado da luta 
seria
reconhecerem como rei o prncipe castelhano, cederam  fortuna do vencedor, 
e Fer-nando
I foi aclamado rei de Leo e Castela..89
O novo monarca era, de feito, digno das duas coroas: o seu gnio e vasta
capacidade, tanto na paz como na guerra, granjearam-lhe na sucesso dos 
tempos o
ttulo de Magno ou Grande. Nos primeiros anos de reinado aplicou-se a reprimir 
as
rebelies que para os fidalgos de Espanha eram hbito inveterado, a 
estabelecer o
sossego e a dar vigor s leis do pas, confirmando as antigas e promulgando 
outras
novas. At 1050 a monarquia de Leo e Castela desfrutou debaixo do seu 
governo a paz
externa, no s com os prncipes. cristos da Espanha oriental, mas tambm 
com os
sarracenos, cujo imprio, devorado pelas discrdias, cara em completa 
anarquia.
A ambio de Garcia veio ento interromper este estado prspero e tranquilo.
Garcia, que estabelecera a corte em Naxera, achava-se a enfermo: obrigado 
do afecto
fraterno, Fernando I correu a v-lo. Apenas chegou, o irmo tramou prend-lo, 
mas,
avisado da traio, o rei castelhano pde ainda salvar-se. Da a pouco 
Fernando adoeceu
igualmente, e Garcia, talvez para arredar as suspeitas que, segundo se 
persuadia, apenas
seu irmo concebera, veio visit-lo. No perdeu Fernando o ensejo para a 
vingana. O
rei de Navarra foi preso e metido no castelo de Cea. Pouco lhe durou, porm, o
cativeiro; porque, peitando os que o guardavam, alcanou escapar e recolher-
se aos seus
estados.
Depois disto a guerra era inevitvel: Garcia comeou-a fazendo correrias 
furiosas
por Castela e pondo tudo a ferro e fogo. Seu irmo ajuntou logo numeroso 
exrcito; mas
antes de marchar contra ele enviou-lhe mensageiros propondo-lhe a paz e o
esquecimento do passado. Cerrou os ouvidos o rei de Navarra a todas as 
proposies e,
depois de maltratar os enviados, despediu-os com terrveis ameaas e 
encaminhou-se
imediatamente para Burgos.
A poucas lguas desta cidade saiu-lhe ao encontro o rei de Leo e Castela, 
que
ainda tentou evitar o combate. Todavia o navarro, fiado na bondade dos seus 
homens de
armas, no grande nmero de sarracenos que tomara a soldo e no prprio 
esforo e
destreza militar, pela qual era na verdade afamado, refusou toda a conciliao. 
Ao
romper do dia os dois exrcitos acometeram-se com igual furor; mas um troo 
de
cavaleiros escolhidos, que o rei leons pusera em cilada num bosque vizinho, 
arrojaram-se,
lana em riste, quando mais revolto andava o combate, contra a ala onde 
pelejava
Garcia e, rompendo por entre os que o rodeavam, feriram a um tempo no rei de 
Navarra
e deram com ele em terra, quase ou inteiramente morto. Sabida esta nova, os 
navarros
desampararam o campo perseguidos pelos seus contrrios, a quem Fernando 
ordenou
respeitassem a vida e a liberdade dos cristos e aprisionassem ou matassem 
sem piedade
os sarracenos aliados de Garcia. Depois, buscando o cadver do irmo, levou-
o consigo
para Naxera, onde entrou vitorioso, e deu-lhe honrada sepultura na catedral 
desta
cidade.
A moderao de Fernando I aps a vitria, moderao que ainda hoje fora
admirvel,  muito mais digna de louvor atendendo  rudeza e ambies 
desregradas
daqueles tempos. Estava a seus ps a coroa de Navarra: no a ps sobre a 
cabea;
porque vemos Sancho, filho mais velho de Garcia, suceder a seu pai no trono, 
que
ocupou por muitos anos.
Estes acontecimentos sucediam por fins de 1054. No ano seguinte Fernando I,
senhor da maior e melhor poro da Espanha crist, ao passo que o imprio de 
Crdova,
dilacerado, como vimos, por atrozes e longas guerras civis, se desmembrara 
em quase
tantos estados quantas eram as suas provncias ou distritos, resolveu 
aproveitar a
conjuntura para dilatar os prprios domnios  custa dos sectrios do Coro. 
Assim,
atravessando o Douro pelo lado de Zamora e encaminhando-se para o 
ocidente, entrou
pela nossa moderna provncia da Beira, cujos castelos tantas vezes tinham 
sido j
tomados e perdidos por cristos e sarracenos. O de Seia (Sena) foi o primeiro 
que ele.90
tomou, talando os seus arredores e reduzindo outros castelos menos 
importantes. Desde
ento a guerra continuou por todas as primaveras seguintes, sendo 
conquistados
sucessivamente (1057) Viseu, Lamego, Tarouca e outros lugares fortes. 
Transportando
depois o teatro da guerra para as fronteiras de Castela, prosseguiu durante 
anos a srie
de suas conquistas e triunfos at vir pr cerco a Alcal de Henares, situada no 
interior
da Espanha rabe, no longe de Toledo. Requerido pelos habitantes de Alcal 
para que
os salvasse, o amir toledano Al-Mamon preferiu sair com esse intento  custa 
de
splicas e avultadssimas ddivas a compr-lo por preo de sangue. Satisfeito 
com os
presentes e humilhao de Al-Mamon, Fernando I deixou respirar os 
sarracenos por
algum tempo e voltou a Zamora, entretendo-se no ano imediato em restaur-la
completamente das antigas runas.
Mas o seu gnio inquieto e guerreiro no lhe consentia despir por muito tempo 
as
armas. Fazendo nova entrada para o ocidente, veio pr cerco  cidade de 
Coimbra, a
mais importante povoao deste lado das fronteiras muulmanas. Era o lugar 
forte e
bem defendido, e o stio durou seis meses. Por fim os sarracenos renderam-se 
ou por
fome ou porque o estado dos muros, de contnuo combatidos, no consentia 
mais
dilatada defensa. Assim, finalmente, Coimbra caiu em poder dos cristos, para 
nunca
mais sair dele.
Passava este sucesso em 1064 65 . No ano seguinte Fernando I levou as suas 
armas
at a extremidade meridional da Espanha muulmana, onde nunca havia 
penetrado
nenhum dos seus predecessores, isto , at Valncia. Esta remota correria, de 
que falam
os cronistas cristos e que seria rdua de crer pelo extraordinrio da empresa, 
explica-se
pelo que referem as histrias rabes. Al-Mamon, amir de Toledo, desde que 
obtivera a
paz com o rei de Leo e Castela no cerco de Alcal, soubera conservar sempre 
a sua
poderosa aliana. Levado, no meio das lutas civis em que ardia a Espanha 
maometana, a
declarar guerra a seu genro o amir de Valncia, pediu socorros a Fernando, o 
Magno. A
invaso do territrio de Valncia por Al-Mamon cai, segundo o testemunho dos
escritores rabes, neste ano. So eles que nos certificam de que o socorro 
pedido se
verificara, e as conquistas de Al-Mamon, que chegou a expulsar o genro dos 
seus
domnios, vem a ser a mesma coisa que as vitrias do rei leons narradas 
pelos cronistas
cristos.
Antes de acabarem as guerras do amir de Toledo, Fernando I, achando-se 
bastante
enfermo, voltou a Leo, onde, agravando-se a doena, faleceu nos fins de 
Dezembro do
ano 1065. J anteriormente, seguindo as pisadas de Sancho, o Maior, o rei 
leons tinha
determinado num conclio ou cortes a forma por que todos os seus filhos 
deviam herdar
cada qual uma poro dos vastos estados que lhes legava. Estas divises, 
contrrias ao
disposto no Cdigo Visigtico, o qual, no mais, se conservava geralmente em 
vigor,
tinham origem, quanto a ns, no tanto no amor excessivo dos prncipes para 
com seus
filhos, como nas circunstncias que haviam acompanhado o crescimento da 
monarquia
fundada por Pelgio. A rpida narrao que temos feito basta para se conhecer 
que essa
monarquia, depois de se dilatar por certa extenso de territrio, tendia 
constantemente a
desmembrar-se em pequenos principados. Cada conde ou governador de 
distrito, tendo
necessariamente, em virtude do estado de guerra contnua, juntos em suas 
mos todos os
poderes militares, judiciais, administrativos, era quase um verdadeiro rei, e 
nada mais
65 A poca da conquista de Coimbra por Fernando, o Magno  um dos pontos 
de cronologia mais
controvertidos na histria da Espanha, A opinio de frei Henrique Flores, que 
pe essa conquista em
1058,  hoje a mais seguida; mas os fundamentos dos que pugnam pela data 
de 1064 parecem-nos os
melhores, e por isso a preferimos. Quem quiser averiguar esta particularidade 
consulte o tomo XIV da
Cronica na Espaa Sagrada, pp. 90 e ss.; Ribeiro Dissertaes Cronolgicas, 
T. I, pp. I e ss.; So
Boaventura, Histria Cronolgica e Crtica de Alcobaa, pp. 134 e ss..91
fcil do que esquecer-se de que l ao longe, para o lado das montanhas das 
Astrias,
havia um homem superior a ele. Sem existir o feudalismo, causas anlogas s 
que o
tinham gerado no Norte da Europa actuavam na Espanha, e a estas causas, 
mais fortes
nos distritos da fronteira rabe, onde a energia dos respectivos condes devia 
ser maior e
o seu poder mais ilimitado, faziam com que a as rebelies fossem mais 
frequentes e
algumas coroadas de bom sucesso, como sucedeu, primeiro com a Navarra ao 
oriente,
depois com Castela no centro e, por ltimo, com Portugal ao ocidente. 
Palpando, por
assim dizer, este esprito de desmembrao, que nascia da fora das coisas 
depois que os
estados cristos adquiriram pela conquista mais remotos limites, Fernando 
Magno
procurou que as tendncias de separao, em vez de aproveitarem a 
estranhos,
revertessem em proveito dos membros da sua famlia, e que assim se 
evitassem as lutas
civis, cedendo a essas tendncias em vez de tentar inutilmente, reprimi-las.
Fossem estes motivos racionais ou outros quaisquer os do procedimento de
Fernando I,  certo que no deixou sem quinho nenhum dos trs filhos e duas 
filhas
que tinha quando faleceu. Sancho, o primognito, herdou a Castela com o ttulo 
de rei;
Afonso, o reino de Leo e Astrias; Garcia, a Galiza, tambm constituda ento 
em
reino independente. Urraca ficou soberana em Zamora, e Geloira ou Elvira em 
Touro,
com muitos outros bens nos domnios dos irmos e, o que era mais importante, 
com o
senhorio de todos aqueles mosteiros cujo padroado pertencia  coroa. O ttulo 
de
rainhas, com que parece ficarem tambm, deu provavelmente origem ao 
costume de
atribuir essa denominao a todas as infantas ou filhas de reis, costume que 
veremos
seguido ainda entre ns nos princpios da monarquia.
Durante algum tempo os trs filhos de Fernando, posto que descontentes todos
mais ou menos da partilha, viveram em paz, provavelmente porque o respeito a 
sua me
D. Sancha, que os historiadores pintam como um modelo de virtude, de 
lhaneza e de
bom juzo, os refreava. Falecendo, porm, D. Sancha nos fins de 1067, logo no 
ano
seguinte o fogo que ardia debaixo das cinzas se ateou em chama violenta. 
Ignora-se o
pretexto que para isso houve; mas  certo que a luta comeou entre Afonso de 
Leo e
Sancho de Castela. Os dois irmos marcharam um contra o outro e vieram 
encontrar-se
junto do rio Pisuerga. Foi brava a batalha com grande e mtuo estrago; mas 
por fim
Afonso foi desbaratado. Como os fundamentos da guerra, ignoram-se 
igualmente as
circunstncias que embargaram os passos do vencedor; v-se, todavia, que o 
rei de Leo
voltou  sua capital sem ser perseguido e que as hostilidades se no 
renovaram durante
os trs anos seguintes.
No Vero, porm, de 1071 a paz quebrou-se de novo, e os dois irmos 
tornaram a
acometer-se. Tratando desta batalha, os antigos cronistas falam do exrcito de 
Afonso
como composto no s de leoneses, mas tambm de galegos, o que, 
juntamente com os
sucessos posteriores, nos persuade de que o rei da Galiza, Garcia, se inclinou 

parcialidade do de Leo enviando-lhe socorros. Encontraram-se os dois 
exrcitos nas
fronteiras de Leo e Castela, nas margens do Carrin. Mais ferida e tenaz foi 
esta
batalha que a primeira. No fim do dia os castelhanos desordenaram-se e 
fugiram. San-cho,
mau grado seu, seguiu-os arrastado por eles. Afonso ficou senhor dos arraiais 
do
rei de Castela e, contente com a vitria, proibiu aos seus que perseguissem os 
fugitivos.
Um guerreiro, porm, havia entre os soldados de Sancho, que, clebre j por
extraordinrio esforo, conservara desafogado nimo no meio daquela triste 
rota.
Chamava-se Roderico Didacide ou Rui Dias, mais conhecido depois pelo nome 
de Cid,
de quem tantas patranhas se contam. Persuadido de que um cometimento 
repentino
contra os descuidados vencedores poderia mudar a fortuna daquela fatal 
jornada,
convenceu o rei de Castela de que, voltando de noite e dando 
inesperadamente nos
inimigos ao romper da alva, fcil seria desbarat-los. Assim se fez, e o 
resultado provou.92
a bondade do estratagema. Colhidos de improviso e meio desarmados, os 
leoneses e
galegos cederam facilmente, e to completo foi o destroo que o prprio 
Afonso caiu
em poder de seu irmo, o qual o mandou conduzir cativo para Burgos e, 
avanando com
o exrcito vitorioso, se apossou de Leo sem encontrar resistncia. O rei 
prisioneiro foi
obrigado, para evitar pior sorte, a vestir a cgula monstica no clebre Mosteiro 
de So
Facundo ou Sahagn, donde passados tempos pde evadir-se para Toledo, 
pondo-se
debaixo da proteco do antigo aliado de seu pai, o amir Al-Mamon.
Enquanto estas coisas se passavam entre castelhanos e leoneses, os estados 
que
Fernando Magno herdara a seu terceiro filho no gozavam de mais 
tranquilidade. Garcia
reinava na Galiza e no territrio j denominado Portugal, que abrangia no s 
toda a
poro daquela provncia ao sul do Minho e ao norte do Douro, mas tambm o 
distrito
que, ao sul deste ltimo rio at o Mondego, tinha sido conquistado aos 
sarracenos. Era
Garcia de nimo feroz, querendo mais governar pelo terror que pelo afecto. 
Alguns
bares de Entre Douro e Minho, mal-sofridos do jugo e capitaneados pelo 
conde Nuno
Menendes, rebelaram-se; mas foram desbaratados entre Brachara (Braga) e o 
Cvado.
Um historiador do sculo XIII, Rodrigo Ximenes, pretende que com a vitria a 
tirania
do rei da Galiza se tornara mais dura; que Vrnula, valido daquele prncipe, 
fora
assassinado pelos nobres na presena do prprio Garcia, porque os delatava, 
e que por
esse acto as vinganas e opresses redobraram; que, irritados os nimos dos 
galegos e
portugalenses, no perdera Sancho a conjuntura favorvel para despojar da 
coroa o
irmo mais moo, o qual, quase sem resistncia, ele expulsara do reino, 
seguindo o rei
fugitivo apenas trezentos homens de armas; que este buscara abrigo entre os 
sarracenos
e favorecido por eles voltara ao distrito de Portugal, onde se assenhoreara de 
vrios
castelos, mas que num recontro com Sancho fora vencido, cativo e posto em 
ferros no
castelo de Luna. A relao, porm, destes sucessos repetida pelo comum dos
historiadores modernos, falta nas memrias mais seguras e envolve algumas
dificuldades. Seja como for,  certo que, se Garcia continuou a governar a 
Galiza e
Portugal depois da conquista de Leo por Sancho, foi reconhecendo uma 
espcie de
supremacia em seu irmo mais velho; nem  de crer que este se mostrasse 
indiferente ao
socorro que parece indubitvel ele dera a Afonso na guerra precedente.
Urraca tinha-se mostrado constantemente parcial do rei de Leo nas 
dissenses
anteriores, e fora ela quem favorecera a sua fuga para Toledo. Com este ou 
outro
pretexto, Sancho pretendeu priv-la do senhorio de Zamora, pondo cerco a 
esta cidade.
No obstante o imenso poder do rei de Castela, os zamorenses ousaram 
defender-se, e
com tal perseverana o fizeram que, apesar de repetidos assaltos, Sancho no 
pde
submet-los. Durava todavia o cerco, e o ambicioso prncipe mostrava estar 
resolvido a
levar a todo o custo a cidade quando um caso estranho ps termo  contenda. 
Velito
Adaulfiz ou Belido Arnulfes, cavaleiro esforado de Zamora, vendo certo dia 
que
Sancho passeava s e descuidado em frente dos muros, saindo das barreiras  
rdea
solta foi topar em cheio com o rei castelhano, derribou-o de uma lanada e 
acolheu-se
aos muros com tal rapidez que ningum o pde alcanar. Era mortal a ferida, e 
no dia
seguinte Sancho expirou. Com a sua morte o exrcito sitiador, corpo 
heterogneo
formado de companhias de castelhanos, leoneses e, at, de navarros e 
galegos,
dispersou-se em completa desordem. Apenas as tropas de Castela 
conservaram alguma
disciplina e, resistindo aos sitiados que saram a persegui-las, levaram com 
pompa
militar o cadver de Sancho ao Mosteiro de Onha, onde foi sepultado.
Corria o ano de 1072 quando sucederam estes acontecimentos. A morte
inesperada de Sancho mudou inteiramente o aspecto dos negcios pblicos. 
Urraca
apressou-se a avisar Afonso de que viesse ocupar o trono que ningum lhe 
disputava,
no havendo o rei de Castela deixado filhos. Depois de jurar paz e aliana com 
o seu.93
hspede, o generoso Al-Mamon, Afonso dirigiu-se a Zamora, onde foi logo 
reconhecido
pelos bares de Leo e tambm pelos de Galiza conforme alguns 
historiadores, o que
parece confirmar a ideia de que no reinado antecedente os estados de Garcia 
tinham
ficado numa espcie de sujeio a Sancho. Os castelhanos, se acreditarmos 
Lucas de
Tuy e Rodrigo Ximenes, exigiram previamente dele o juramento de que no 
tinha
entrado na trama da morte de seu irmo, mas no ousando ningum pedir este
juramento, Rui Dias de Bivar, o Cid, apresentou-se a exigi-lo em nome dos 
nobres de
Castela. Todas estas particularidades, porm, foram talvez inventadas para dar
fundamento histrico s novelas e poemas do Cid, que por largo tempo 
passaram e
passam ainda para muitos como narrativas verdadeiras.
A data do segundo reinado de Afonso, VI do nome na srie dos reis de Oviedo 
e
Leo,  a dos primeiros dias do ano de 1073. Obtendo sem custo, no s a 
prpria coroa
que perdera, mas tambm a de Castela, parecia dever contentar-se deste favor 
da sorte;
mas no sucedeu assim. Garcia reinava na Galiza, ou porque nunca dali 
sasse, ou
porque voltasse de Sevilha, para onde, afirmam alguns, tinha fugido do castelo 
de Luna.
Apenas seguro no trono, Afonso VI, dizem que por conselho de sua irm 
Urraca, atraiu-o
enganosamente  corte e meteu-o numa priso, donde no tornou a sair 
enquanto
viveu, posto que fosse a tratado com toda a ateno e brandura. Nenhuma das 
duas
provncias, Portugal e Galiza, recusou aceitar o novo senhor, e Afonso achou-
se, enfim,
na posse pacfica de toda a herana de Fernando Magno acrescentando a ela 
da a trs
anos a Rioja e a Biscaia, que lhe cedeu Sancho I de Arago para que ele lhe 
consentisse
a posse pacfica de Navarra, de cuja maior parte o mesmo Sancho se havia 
apoderado.
No tardou muito que ao poderoso rei de Leo, Castela e Galiza se oferecesse 
conjun-tura
de mostrar, no s a fora do seu brao, mas ao mesmo tempo o seu 
agradecimento
ao amir muulmano que to nobremente o acolhera no tempo da adversidade. 
A
Espanha rabe continuava a despedaar-se nas guerras intestinas que haviam 
nascido da
queda do imprio dos Benu Umeyyas. O amir de Sevilha, que tambm obtivera 
o
domnio da antiga capital dos califas, invadiu os estados de Al-Mamon. Sem 
esperar
que este lhe mandasse pedir socorro, o rei cristo marchou em auxlio de Al-
Mamon. Os
dois exrcitos, toledano e leons, entraram ento no territrio do amir inimigo,
assolando e queimando tudo. Afinal Al-Mamon; que se apossara de Sevilha, 
despediu o
seu aliado rico de despojos, e Afonso voltou a Leo. Da a pouco faleceu o 
velho amir,
recomendando seu filho e sucessor (outros dizem seu neto)  proteco de 
Afonso VI,
que por esta poca (1077) se assenhoreou de Coria, cidade provavelmente 
sujeita ao
amir de Badajoz. Das suas outras vitrias e conquistas feitas no perodo que 
decorre
desde a morte de Al-Mamon at a tomada de Toledo e das posteriores a esse 
importante
sucesso falam to confusa e resumidamente os historiadores cristos, ao 
passo que as
celebram com excessivo encarecimento, que pouco se alcana a este respeito, 
 vista do
que eles dizem.  confrontando-os com os escritores rabes que se pode obter 
mais
alguma luz sobre os primeiros doze ou quinze anos do dilatado governo de 
Afonso VI.
Mohammed Al-Mutamed Ibn Abbad (o Benabeth das crnicas crists) era o 
amir
de Sevilha contra quem o rei de Leo guerreara como aliado de Al-Mamon. 
Apenas
Afonso se retirara, Ibn Abbad viera pr cerco a Sevilha, onde o amir de Toledo 
falecera
estando cercado. Com a sua morte os toledanos viram-se obrigados a ceder, e 
no s a
capital da Andaluzia mas tambm Crdova, conquistada igualmente por Al-
Mamon,
voltaram de novo ao domnio do seu antigo senhor. S do rei leons se temia 
Ibn
Abbad; porque, como um dos tutores do amir toledano, podia marchar contra 
ele e
atalhar o curso das suas recentes vitrias. Tinha Ibn Abbad por vizir (ministro) 
um dos
homens mais clebres entre os rabes pela sua habilidade em enredos 
polticos.
Chamava-se Ibn Omar. Foi por interveno dele que o amir de Sevilha tentou 
afastar.94
Afonso VI da aliana do sucessor de Al-Mamon; mas o rei de Leo soube at 
certo
ponto corresponder  confiana que nele pusera o amir falecido, seno 
defendendo
activamente o pupilo, ao menos no se unindo por ento aos seus inimigos.
Toledo era naquele tempo, depois de Crdova, talvez a mais famosa cidade da
Espanha muulmana. Alm de ter sido a antiga capital do imprio visigtico, a 
sua
situao central, a fortaleza do seu assento e o aumento que tinha tido desde 
que nela
reinava independente a famlia dos Dhin-Nun tornavam-na de tal importncia 
que
Afonso VI desejava ardentemente possu-la para fazer dela, como depois se 
viu, a
capital do reino de Oviedo, Leo e Castela. Era a ocasio oportuna; mas a 
empresa
devia ser levada com tal arte que o resultado fosse bem seguro. E, de feito, 
todos os
passos de Afonso VI se encaminharam a alcanar este nico fim durante os 
cinco anos
que decorreram desde 1080 at  tomada de Toledo em 1085.
A histria dos sucessos daquela poca  obscura pelas narrativas vrias e
encontradas dos cronistas cristos e rabes. De uns parece deduzir-se que um 
tio ou
irmo do sucessor de Al-Mamon, chamado Yahya, obtivera o poder no meio 
das
revoltas que dilaceraram os estados dos Dhin-Nun. Outros parece indicarem 
que Yahya
fora o sucessor de Al-Mamon e que Afonso VI esquecera pela ambio os 
deveres que o
ligavam quela famlia. O que sabemos  que por fim Afonso VI estava aliado 
com Ibn
Abbad e que j em 1081 invadia o territrio de Toledo com um numeroso 
exrcito em
que se achavam, segundo parece, muitos cavaleiros franceses e, atravessando 
as serras
que dividem a Castela Velha da Nova, apossava-se de vrios lugares fortes. 
Nos anos
seguintes renovou a guerra, sempre com to prspera fortuna que Ibn Abbad, 
para mais
apertar os recentes laos que o uniam ao seu antigo adversrio, lhe deu por 
mulher sua
filha Zaida, cedendo-lhe juntamente o senhorio das terras que pela sua parte 
ele
conquistara ao amir de Toledo, como Cuenca, Huete, Ocanha e outras. Aquele
casamento, se tal nome se lhe pode dar, entre um rei cristo e uma princesa 
muulmana,
posto que inslito (tanto mais que Afonso era casado havia j anos com sua 
segunda
mulher, Constana de Borgonha, tendo perdido ou repudiado a primeira, Ins), 
no
parece ter produzido grande admirao no nimo dos escritores desses 
tempos, um dos
quais, Lucas de Tuy, se contenta de chamar a Zaida quase mulher do rei. As 
ideias de
ento explicam esta singularidade aparente. Pelo que toca a Ibn Abbad, o dar 
sua filha a
um homem casado nada tinha de extraordinrio, por ser a poligamia permitida 
entre os
sarracenos. Quanto a Afonso VI, andavam no seu tempo os costumes to 
soltos e eram
to frequentes os matrimnios sem interveno da Igreja que semelhante 
sucesso, hoje
estranho, seria apenas digno de reparo naquela poca.
Antes de assentar definitivamente o cerco de Toledo, o rei de Leo seguiu o
sistema de enfraquecer a capital assolando-lhe duas vezes cada ano, conforme 
o
testemunho dos rabes, os campos e povoaes das circunvizinhanas e 
tomando os
castelos donde os mouros o poderiam saltear durante o stio. Depois de trs 
anos de
correrias e estragos, Afonso veio por fim acampar-se em volta dos muros de 
Toledo.
Yahya nada tinha feito, segundo parece, para repelir as invases dos cristos. 
Era
o moo amir mais dado aos passatempos e deleites que aos cuidados do 
governo e s
fadigas da guerra. Vendo-se reduzido ao extremo aperto, enviou mensageiros 
ao amir de
Badajoz, Ornar Ibn Moharnmed, pedindo-lhe socorro. Mandou este, de feito, 
seu filho
Al-Fadl, vli de Mrida, com certo numero de tropas, mas debalde: Afonso no 
s o
impediu de entrar na cidade, mas tambm o desbaratou e constrangeu a fugir. 
Encerrava
Toledo nos seus muros um grande nmero de judeus e de morabes ou 
mostrabes.
Para estes o domnio dos leoneses, seus correligionrios, se no era de 
desejar, pelo
menos no era de temer: para aqueles, indiferentes a estas lutas de duas raas 
e de duas
crenas alheias  sua, o nico receio grave consistia na possibilidade de 
perderem os.95
grossos cabedais que possuam, se, tomada de assalto, a cidade fosse posta a 
saco.
Aproveitando os incitamentos da fome, que se comeava a sentir duramente, 
falavam j
de se darem a partido. Alguns muulmanos, que ainda conservavam as 
tradies do
esforo de seus antepassados, pretendiam que se defendesse Toledo at o 
ltimo transe;
mas o comum dos habitantes sarracenos quebrados os nimos pela escasseza 
de
vitualhas e pela desesperana de socorro, inclinaram-se  opinio dos judeus e 
dos
morabes. Constrangido pelos conselhos e clamores gerais, o amir dirigiu a 
Afonso VI
embaixadores que lhe trouxessem  memria a sua aliana com a famlia dos 
Dhin-Nun
e os benefcios recebidos de Al-Mamon, e que ao mesmo tempo lhe 
propusessem o
reconhecer ele, Yahya, a supremacia da coroa leonesa, pagando-lhe tributo 
anual. Tudo
rejeitou Afonso: o seu propsito inabalvel era apoderar-se da cidade: trguas 
aos
mouros, s assim as daria. Sabida esta resposta, o povo amotinou-se, e no 
houve outro
remdio seno ceder. As condies foram vantajosas para os habitantes: 
tolerncia
inteira para com o culto do Islo; nenhum aumento de tributos; liberdade plena 
para
todos que quisessem seguir Yahya e a conservao dos juizes e leis civis dos
muulmanos, para por elas se regerem estes. O amir saiu com os principais 
sarracenos
para Valncia, e Afonso, ordenadas todas as coisas necessrias para 
assegurar a sua
conquista, foi habitar o alcaar dos prncipes muulmanos, ou antes os paos 
transfor-mados
dos reis visigodos, que de Toledo tinham feito a capital do imprio, e donde
Roderico sara perto de quatro sculos antes para a batalha do Chrissus, na 
qual se
perdeu a Espanha. Ou fosse por esta circunstncia ou pela situao de Toledo, 
mais
acomodada que Leo para poder facilmente prosseguir a guerra contra o 
islamismo e
dilatar os domnios cristos, Afonso VI estabeleceu a a corte, deixando a de 
Leo,
como por esta Garcia I abandonara a de Oviedo. Foi na Primavera de 1085 que 
a antiga
capital da Espanha visigtica se libertou do jugo sarraceno. Aqueles castelos e
povoaes dependentes do amirado de Toledo que ainda no haviam sido 
tomados por
Afonso VI seguiram em breve a sorte desta cidade. A balana pendia enfim a 
favor da
reaco crist; porque, com as muitas conquistas deste prncipe, em mais de 
metade do
territrio espanhol a cruz triunfante dominava de novo. As fronteiras ou 
estremaduras
do reino leons-castelhano dilatavam-se agora por uma linha que corria de 
poente a
nascente desde a foz do .Mondego, pela Beira Baixa, direita a Corja, Talavera, 
Toledo,
Huete e Cuenca, at s serras de Albarracim. Ento as povoaes ao norte 
desta linha,
antes tomadas e perdidas frequentes vezes ou destrudas e abandonadas, 
puderam afinal
ser erguidas das suas runas e repovoadas, negcio que principalmente 
entretinha
Afonso VI nos breves intervalos de trgua que dava aos sarracenos.
O amir de Sevilha, que tanto trabalhara por obter a aliana do rei de Leo e
induzi-lo a destruir o poder dos Dhin-Nun, quando viu quo rpidas e 
importantes eram
as conquistas de Afonso, comeou a ter graves receios das consequncias 
fatais que a
sua poltica podia produzir para o islamismo. Enviou-lhe ento mensageiros, 
dizendo
que se devia contentar com a posse de Toledo e cessar de ulteriores 
conquistas,
lembrando-lhe as condies dos tratados que haviam celebrado. O rei de Leo 
entendeu
ou fingiu entender que o amir lhe recordava a obrigao de o ajudar contra os 
seus
inimigos e, sem descontinuar da guerra, enviou-lhe quinhentos cavaleiros, que,
demorando-se apenas trs dias junto de Sevilha, se dirigiram a Medina 
Sidnia, onde a
esse tempo se achava Ibn Abbad. Nunca to longe haviam penetrado soldados 
cristos.
A clera e o temor aumentaram no corao do amir com este inesperado e no 
pedido
socorro, que Afonso ousava enviar at os limites meridionais da Espanha 
rabe. Desde
esse momento Ibn Abbad no cogitou seno no modo de pr termo ao 
engrandecimento
do rei leons. Uma paz geral entre os diversos amires muulmanos, j talvez 
dantes
preparada, se fez ento. Numa assembleia celebrada em Sevilha, a que 
pessoalmente.96
assistiram alguns deles ou a que enviaram os seus vizires e cdis, se deliberou 
sobre a
maneira que se teria em obstar  runa iminente do Islo. A resoluo que 
tomaram,
combatida energicamente pelo vli de Mlaga, foi chamar  Espanha os 
almorvidas;
resoluo fatal para os cristos, porm ainda muito mais fatal para a liberdade 
dos
muulmanos espanhis.
Quem eram os almorvidas e o seu amir Yusuf j noutro lugar o dissemos. Ibn
Abbad tinha sido aliado de Yusuf quando o rei de Leo favorecia os Dhin-Nun 
de
Toledo, e as armadas do amir de Sevilha haviam ajudado por mar o prncipe 
africano a
subjugar Tnger. Por mais de uma vez Ibn Abbad o havia excitado a passar o 
Estreito,
na persuaso de que, ajudado pelo africano, poderia assenhorear-se de todos 
os estados
maometanos da Espanha, embora houvesse de reconhecer uma espcie de 
sujeio ao
chefe almorvida. H quem diga que o prprio Afonso VI aprovava estes 
desgnios do
amir sevilhano na poca da estreita amizade que por algum tempo os uniu. 
Agora,
porm, era contra o leons que todos os potentados muulmanos da Pennsula
invocavam o socorro do clebre Yusuf.
Este achava-se em Fez, que pouco antes conquistara, quando chegaram os
mensageiros do pas do Andaluz. Ouvida sua embaixada, respondeu aos 
amires que no
passaria  Espanha sem que lhe cedessem o castelo de Algeciras, por onde 
pudesse
entrar e sair da Pennsula com a certeza de no lhe ser embargado o passo, 
acres-centando
que, no caso de aceitarem a condio, atravessaria imediatamente o Estreito
para os ajudar contra o rei infiel. Era extremo o trance: Ibn Abbad, senhor do 
castelo
pedido, mandou-o entregar a Yusuf, e pouco tardou que um grosso exrcito 
capitaneado
pelo prprio Abu Yacub passasse de frica para Espanha e se dirigisse a 
Sevilha.
Afonso VI, depois de haver talado o territrio do amir de Badajoz, marchara 
para
o oriente e pusera stio a Saragoa. Foi ali que lhe chegou a notcia da vinda de 
Yusuf.
Imediatamente, convocando em seu auxlio Sancho, rei de Arago, fazendo 
levantar
novas tropas por Galiza, Astrias, Leo e Castela e chamando muitos 
cavaleiros do Sul
da Frana, como j havia chamado outros antes de conquistar Toledo, dirigiu-
se a esta
cidade, onde todos esses elementos dispersos se deviam ajuntar para 
constituir um
exrcito capaz de se opor  multido dos sarracenos, que ameaavam tirar 
crua vingana
das afrontas recebidas pelos muulmanos do Andaluz.
O desgnio de Yusuf, segundo parece, era marchar contra Leo e Galiza, 
levando
a guerra ao centro dos estados cristos: porque, em vez de se dirigir contra 
Toledo,
partira de Sevilha para Badajoz. Foi perto desta cidade que Afonso VI, 
marchando da
sua nova capital com todas as foras a congregadas, veio sair ao encontro do 
prncipe
almorvida.
Os dois exrcitos avistaram-se sobre o rio de Badajoz (Nahar-Hagir): o dos
muulmanos ocupava na margem esquerda os campos e outeiros 
denominados pelos
escritores rabes de Zalaca e pelos cronistas cristos de Sagalias ou Sacralias: 
o de
Afonso VI acampou na margem direita. A terribilidade da batalha, que era 
inevitvel,
fazia hesitar tanto uns como outros; porque alguns dias se passaram em 
embaixadas e
ameaas. Os dois exrcitos que se achavam frente a frente eram, talvez, os 
maiores que
desde a entrada dos sarracenos a Espanha tinha visto. Ainda dando algum 
desconto 
exagerao ordinria dos antigos escritores rabes e cristos, os quais, 
unnimes,
afirmam que s Deus poderia contar o nmero de muulmanos e que as tropas 
do rei de
Leo e Castela subiam a oitenta mil cavaleiros e duzentos mil pees,  todavia 
certo que
ali se encontravam todas as foras das duas raas que disputavam o solo da 
Espanha,
ajudadas uma pelos guerreiros franceses e a outra pelos almorvidas, 
conquistadores da
Mauritnia. H, porm, uma circunstncia narrada pelos rabes muito crvel, a 
qual no
devemos omitir; isto , a existncia de vrios corpos de cavalaria crist ao 
servio de.97
Yusuf e a de trinta mil muulmanos ao de Afonso VI, o que prova serem, mais 
que o
sentimento religioso, dios ou ambies humanas quem no consentia um 
momento de
paz e repouso na devastada Espanha.
Afonso resolveu-se, enfim, a acometer os sarracenos e passou o rio ao romper 
da
manh de 23 de Outubro de 1086. Os seus corredores toparam com um corpo 
de
almogaures de frica enviados contra eles e obrigaram-nos a recuar. 
Entretanto, parece
que no romper das batalhas algumas tropas crists tinham fugido, aterradas
provavelmente pelo grande nmero dos inimigos. Todavia o rei de Leo, 
dividindo o
exrcito em dois troos, deu o sinal de combate. Ele com a vanguarda remeteu 
contra os
almorvidas, enviando ao mesmo tempo o outro corpo, capitaneado por 
Sancho de
Arago e por um general a que os escritores rabes chamam Albar Hanax 
(porventura
lvaro Eanes), contra os muulmanos espanhis, cujo campo estava separado 
dos
arraiais africanos por um outeiro. Acaudilhava os sarracenos espanhis o amir 
Ibn
Abbad, homem cujo esforo era provado, mas brevemente se viu s com os 
seus
guerreiros sevilhanos, porque todos os outros amires fugiram desordenados 
pelo
impetuoso embate dos cristos. Por outro lado, a vanguarda dos africanos 
comeava a
recuar diante do valoroso rei leons. Yusuf conheceu ento a necessidade de 
dar um
golpe decisivo: enviou as tribos berberes e as cabildas almorvidas de Zeneta,
Mossameda e Ghomera em socorro da sua vanguarda e do amir de Sevilha, 
que,
abandonado dos outros amires, continuava a sustentar por aquele lado o peso 
da batalha.
Depois o hbil Yusuf, rodeando o campo da peleja, precipitou-se  frente dos 
lantunitas,
os mais clebres entre os guerreiros almorvidas. e a cuja raa ele pertencia, 
sobre os
mal guardados arraiais dos cristos. Era impossvel a resistncia. No momento 
em que o
desbarato dos muulmanos parecia certo, Afonso foi avisado da destruio do 
seu
acampamento, no s pelos fugitivos que chegavam, mas tambm pelo claro 
do
incndio. O desejo da vingana perdeu-o. Abandonando o combate, que tinha 
quase
vencido, marchou contra Yusuf, que o recebeu valorosamente. Os sarracenos, 
que
recuavam diante dele, cobraram nimo, percebendo que os cristos voltavam 
rosto, e
vieram acomet-los pelas costas quando mais aceso andava o recontro com os
lamtunitas. As tropas muulmanas que haviam fugido para Badajoz, vendo 
melhorar-se
a fortuna dos seus, tornaram  batalha. Revolvendo-se como um leo no meio 
dos
infiis, Afonso no cedeu enquanto lhe restaram alguns soldados em estado de 
pelejar,
mas por fim, ferido ele prprio, viu-se constrangido a fugir acompanhado 
apenas de
quinhentos homens de armas e perseguido pelos almorvidas que ainda lhe 
derribaram
uma boa parte destes. A noite que descia salvou os restantes e o prprio rei de 
Leo, que
sem essa circunstncia teria perecido.
Se acreditssemos os escritores rabes, a perda dos cristos teria sido 
imensa.
Segundo um deles, Yusuf, fazendo decepar as cabeas dos mortos (costume 
tri-vialssimo
entre os sarracenos), enviou cinquenta mil s diferentes capitais dos amirados
do Andaluz e quarenta mil para serem distribudas pelas cidades martimas da 
Berberia
como documento da vitria. De todo o exrcito dos nazarenos, dizem eles, 
apenas
escapou Afonso com cem homens. Semelhantes encarecimentos, juntos  
confisso dos
antigos cronicons sobre o grande estrago dos cristos, provam que esta foi 
uma das mais
terrveis batalhas que se pelejaram em Espanha. Se o hbil e esforado Yusuf 
Abu
Yacub tivesse ficado na Pennsula  frente dos sarracenos vitoriosos, a 
monarquia
leonesa no tardaria, talvez, em chegar ao ponto da ltima runa. Felizmente 
para o
cristianismo, na mesma noite da batalha um mensageiro chegou ao campo dos
almorvidas com a notcia de ser falecido, em Ceuta, Abi Bekr, filho mais velho 
de
Yusuf, que ele amava com extraordinrio afecto. Esta nova obrigou Yusuf a 
partir ime-diatamente
para Algeciras e a passar  frica, deixando por general das tropas.98
almorvidas o caide Seir Ibn Abi Bekr.
Enquanto este e o amir de Badajoz corriam as fronteiras da Galiza, talando os
lugares abertos e submetendo vrios castelos e povoaes fortes que Afonso
anteriormente conquistara, Ibn Abbad entrava pelo territrio de Toledo e
sucessivamente ia expulsando os cristos das cidades principais daquela 
provncia,
como Cuenca, Huete e Consuegra. Perto de Lorca, porm, alguns alcaides 
castelhanos
vieram ao seu encontro e destroaram-no. Desde este sucesso a fortuna 
comeou a sorrir
de novo a Afonso VI. A poucas milhas de Lorca, aonde o amir de Sevilha se 
fora
refugiar depois do seu desbarato, tinham-se os cristos apossado, talvez nessa 
mesma
conjuntura, de um castelo roqueiro e bem fortificado, a que os historiadores 
rabes do
o nome de Alid. Acredita-se que o caide desse castelo era o famoso Rui Dias, 
mais
conhecido pelo nome de Cid, de quem j fizemos meno. Situada num monte 
quase
inacessvel no meio dos estados de Ibn Abbad, aquela fortaleza era como um 
ninho de
guias donde o terrvel Rui Dias se arrojava sobre os campos de Mrcia e de 
Sevilha, e
punha tudo a ferro e fogo. Sabendo das suas faanhas, o rei de Leo 
apressou-se a
mandar-lhe socorros. No passava dia em que as correrias dos cavaleiros de 
Alid no
deixassem tristes vestgios nas terras vizinhas, e s vezes estas correrias 
alongavam-se
at o territrio de Valncia. O amir sevilhano, cansado de tantos estragos e no 
tendo
foras para os impedir, recorreu a Yusuf, que, havendo ordenado as coisas do 
Moghreb,
tornou a passar  Espanha no Vero de 1088. Provavelmente Abu Yacub, 
confiado nas
tropas que deixara e nas da Andaluzia, dirigiu-se com poucas foras a Lorca, 
onde
chamou para a ghaswat (guerra santa) os amires espanhis, os quais pela 
maior parte
no vieram. Assim, com o seu pequeno exrcito cercou Alid debalde: os 
cristos
resistiram durante quatro meses. Algumas dissenses graves comearam 
entretanto a
alevantar-se no campo dos sitadores, enquanto Afonso VI, sabendo da vinda 
de Yusuf e
do cerco de Alid, marchava a encontr-lo. Yusuf no ousou esperar o exrcito 
leons e,
irritado contra a maior parte dos amires que o tinham abandonado, embarcou 
para a
Mauritnia. O rei de Leo chegava no entanto s imediaes de Lorca e, 
fazendo sair do
castelo de Alid o resto dos seus defensores, desmantelou-o e regressou a 
Toledo.
Os sarracenos de Espanha comeavam j a recear que o seu poderoso aliado 
de
frica lhes viesse a ser mais fatal que o prprio Afonso, e que, no contente 
com o
vasto imprio do Moghreb, quisesse tambm assenhorear-se dos amirados 
aqum do
Estreito. Mostrou o tempo que estes receios no eram vos. Pela terceira vez 
Abu Yacub
voltou  Pennsula, mas com um grosso exrcito de almorvidas (1090). 
Dirigiu-se
rapidamente para Toledo, cujos arredores devastou, sem que Afonso, 
encerrado dentro
dos muros, se atrevesse a opor-se-lhe. Todavia nem um s dos amires de 
Espanha veio
ajuntar as suas tropas s de Abu Yacub, e o prprio Ibn Abbad, que na 
antecedente
campanha no seguira o exemplo comum, desta vez ficou tranquilo em 
Sevilha,
enquanto Yusuf guerreava os nazarenos. Folgou com este procedimento o 
dissimulado
almorvida, cujos intentos eram na realidade os que se lhe atribuam. Saindo
repentinamente dos territrios cristos, marchou para Granada, onde no 
tardou a depor
o amir Abdullah Ibn Balldn, que j, segundo parece, tratava secreta-mente de
confederar-se com o rei de Leo contra os africanos. Depois Yusuf regressou 
de novo a
Marrocos, deixando para o substituir o caide Seir, como executor dos seus 
ambiciosos
desgnios.
Ibn Abbad entretanto fortificava-se em Sevilha e, solicitando o esquecimento do
passado, buscava a aliana de Afonso, que, vendo nestas lutas dos 
muulmanos ocasio
de engrandecimento prprio, lha concedeu facilmente. Infatigvel sempre, Abu 
Yacub
chegando  frica enviou imediatamente para a Espanha grande nmero de 
soldados.
Seir pde em breve assenhorear-se de Jaen e de Crdova, e, passado apenas 
um ms, de.99
todas as cidades dependentes do amirado de Sevilha no restava a Ibn Abbad 
seno a
sua capital. Afonso fez ento marchar algumas foras contra os almorvidas, 
mas depois
de vrios recontros elas foram constrangidas a retirar-se, e da a pouco Sevilha 
caiu nas
mos de Seir. Sem nos fazermos cargo das resistncias parciais, e na maior 
parte
obscuras, que os rabes espanhis opuseram ao triunfo completo dos 
almorvidas,
resistncias que s tiveram alguma importncia quando certo nmero de 
amires e vlis
se uniram debaixo do mando de um cristo, o clebre Rui Dias, basta dizer que 
doze
anos consumidos em contnuas guerras entre o africano Seir e os muulmanos 
do
Andaluz deram a Yusuf o domnio da parte no crist da Pennsula,  excepo 
do
territrio de Saragoa, cujo amir desde o princpio firmara uma slida aliana 
com os
almorvidas. Quando em 1103 o amir al-mumenin, ou prncipe dos 
muulmanos, ttulo
que Yusuf tomara, voltou pela quarta vez  Espanha, achou-se pacfico senhor 
de todos
os pases maometanos desde os limites de Saragoa at  margem esquerda 
do Tejo, que
pelo lado do Gharb era a barreira que os dividia do imprio leons.
Fora, de feito, at  foz do Tejo que as conquistas de Afonso VI haviam 
chegado.
Enquanto os sarracenos combatiam entre si, ele, refazendo-se das passadas 
perdas,
marchara para o sul e apossara-se de Santarm, Lisboa e Sintra no Vero de 
1093.
Satisfeito com ter dilatado os seus domnios, apesar do terrvel revs de 
Zalaca, at o
extremo ocidente, o rei de Leo, que em vrios documentos atribui j a si o 
ttulo de
imperador, tomado constantemente depois por Afonso VII, recolheu-se a 
Toledo,
dedicando-se ao governo dos seus estados, sem fazer guerra aos sarracenos, 
salvo as pe-quenas
escaramuas e correrias das fronteiras, que eram de costume, ao menos todas 
as
primaveras.
Um dos golpes mais dolorosos para o corao humano cobriu de tristeza os
ltimos dias de Afonso VI e, porventura, abreviou-lhe a existncia. Das 
mulheres com
que foi casado e de duas concubinas, apenas Zaida, a filha de Ibn Abbad, que 
ele veio,
segundo parece, a desposar legitimamente depois de convertida ao 
cristianismo, lhe deu
um filho varo, o infante Sancho. Entrado apenas na juventude, era este 
mancebo, por
nos servirmos das expresses atribudas ao prprio rei de Leo, que ele 
considerava
como seu herdeiro e que amava como a luz dos seus olhos, alegria do seu 
corao e
consolo da sua velhice. Aquele filho to querido acabou desafortunadamente 
s mos
dos sarracenos na flor da mocidade esperanosa, no penltimo ano de reinado 
e da vida
do velho Afonso VI, que, morrendo, houve de deixar a gloriosa mas pesada 
coroa de
Leo e Castela  nica filha legtima que tivera de Constncia, sua segunda 
esposa. Abu
Yacub Yusuf Ibn Taxfin falecera em Marrocos no Outono de 1106, e seu filho 
Ali Ibn
Yusuf, j anteriormente declarado e jurado sucessor, tomara as rdeas do 
governo do
vasto imprio muulmano da frica e da Espanha. O novo amir al-mumenin, 
sopitada a
revolta de um seu sobrinho, vli de Fez, resolveu prosseguir na guerra santa 
contra os
cristos. Com este propsito, no Vero de 1108 fez passar o Estreito a novas 
tropas
almorvidas da tribo de Lamtuna e deu o mando delas a seu irmo Abu Taher 
Temin,
vli de Valncia e depois de Granada. Romperam as hostilidades pelo cerco de 
Ucls,
forte povoao da fronteira crist. Apesar de bem guarnecida, a cidade foi 
entrada 
escala vista e os seus defensores tiveram de acolher-se ao castelo. Afonso VI 
enviou
imediatamente um exrcito em auxlio dos cercados. Capitaneava-o o infante 
Sancho,
antes em nome que na realidade, porque apenas saa da infncia. O velho rei 
de Leo
confiava na vigilncia e afecto do conde Gomes de Cabra, aio do infante, 
sendo por isso
o conde o verdadeiro cabea da expedio. Quando Temin soube das foras 
que vinham
contra ele quis retirar-se, mas os caides de Lamtuna insistiram em esperar os 
cristos.
Chegados estes, travou-se a batalha. Foi terrvel o recontro, e o campo 
disputado com
igual esforo; mas por fim a vitria declarou-se a favor dos muulmanos. 
Sancho,.100
provavelmente j quando os seus comeavam a retroceder, sentiu fraquear o 
ginete em
que montava. Assustado, bradou ao conde Gomes: Oh pai!, oh pai!, o meu 
cavalo est
ferido! Correu o aio e chegou no momento em que Sancho caa. Estavam 
cercados de
sarracenos. O conde apeou-se e, metendo o infante entre si e o escudo, 
defendia-se e
defendia-o como um leo dos golpes que choviam por todos os lados, at que 
uma
cutilada lhe decepou um p. No podendo mais suster-se, deitou-se em cima 
de Sancho,
para morrer antes dele, e assim acabaram ambos. Os cristos fugiam 
entretanto
perseguidos pelos africanos: alcanados a breve distncia, sete condes a 
foram mortos,
e apenas as relquias do exrcito voltaram a Toledo. Temin redobrou ento os 
assaltos
contra o castelo de Ucls, que, apesar de brava resistncia, houve por fim de 
render-se.
Foram, todavia, segundo  de crer, grandes as perdas dos almorvidas, tanto 
na batalha
como no stio, porque no prosseguiram na conquista, tirando assim quase 
nenhum fruto
da vitria.
Enfraquecido por dilatada enfermidade, o rei de Leo, sabida a morte do filho,
caiu em profunda tristeza, a qual lhe agravou o mal. Em Junho de 1109, Afonso 
expirou
em Toledo, tendo governado depois da morte de seu irmo Sancho trinta e seis 
anos
como rei de Leo e Castela. A falta deste clebre prncipe trouxe  Espanha 
graves
perturbaes, das quais s faremos meno no que importar  histria de 
Portugal,
nascido, por assim dizer, desse acontecimento e favorecido na sua dbil 
infncia pelos
calamitosos sucessos ocorridos na Espanha crist em consequncia da morte 
de Afonso
VI..101
LIVRO I
1097-1128
Os distritos de Coimbra e Portugal pelo meado do sculo XI.  Os borgonheses
Raimundo e Henrique, genros de Afonso VI. Governo do conde Raimundo em 
toda a
Galiza at Coimbra.  Afonso VI estabelece o condado ou provncia 
portucalense ao
sul do Minha e d o governo dele a Henrique.  Aces deste at partir para a 
Sria e
sua volta  Espanha.  Desgnios ambiciosos dos dois condes. Morte de 
Raimundo e
pretenses de Henrique.  Falece Afonso VI. Consequncias do sucesso. 
Procedimento do conde de Portugal nas discrdias entre Afonso I de Arago, a 
rainha
D. Urraca e o infante Afonso Raimundes. Tentativas de engrandecimento. 
Traies
mtuas. Influncias da infanta D. Teresa, mulher de Henrique. Morte deste. Os 
seus
intentos e poltica. Lanou os alicerces da independncia de Portugal.  D. 
Teresa
dominando nesta provncia depois da morte do marido. Seus enredos e aliana 
com
Afonso de Arago. Denominada geralmente rainha pelos sbditos. Sintomas 
cada vez
mais visveis das tendncias de Portugal para se desmembrar da monarquia. 
D. Teresa
reconhece a autoridade suprema de sua irm D. Urraca. Ligada com os nobres 
de
Galiza faz-lhes depois guerra.  Cometimentos dos sarracenos pelo Meio-Dia. 
 D.
Urraca invade Portugal. Paz entre as duas irms.  Fernando Peres de Trava e 
o seu
valimento.  Afonso VII sucede a D. Urraca.  Primeiras aces do infante 
Afonso,
filho do conde Henrique e de D. Teresa.  Entra Afonso VII em Portugal e 
constrange a
infanta-rainha a reconhecer a supremacia de Leo.  dio dos portugueses 
contra o
conde Fernando Peres. Conjurao e alevantamento. O conde e D. Teresa 
expulsos. O
infante apossa-se do poder. D. Teresa morre desterrada. Apreciao do seu 
carcter
poltico e do seu governo.
Os limites dos estados de Fernando Magno haviam-se dilatado para o ocidente 
da
Pennsula, conquistadas sucessivamente Lamego, Viseu, Seia e Coimbra 66 . 
A provncia
da Galiza, cuja fronteira variava continuamente segundo os cristos estendiam 
os seus
domnios por esta parte mais para o sul ou tinham de retroceder diante das 
armas dos
sarracenos, muitas vezes vitoriosas, dilatou-se, enfim, permanentemente at o 
Mondego.
Coimbra, que, no s pela sua antiguidade e grandeza relativa, mas ainda mais 
por ser
militarmente como a chave do territrio encerrado entre este ltimo rio e o 
Douro, era
uma povoao importante, foi feita capital de um novo condado ou distrito, cujo
governo o guerreiro prncipe confiou quele que o incitara a prosseguir por este 
lado as
suas brilhantes conquistas.
Antes desta poca, bem como as outras provncias da antiga monarquia 
leonesa, a
Galiza era regida por diversos condes cujos territrios variavam em extenso. 
s vezes,
estes condes tinham debaixo da sua autoridade mais de um distrito; s vezes, 
eram
sujeitos a um conde superior ou vice-rei da provncia. Entre estes governos, 
desde o
meado do sculo IX, aparece o distrito ou condado portucalense. Assim como 
Coimbra
era a povoao mais notvel sobre o Mondego, Portucale, situado junto ao 
Douro, era
no sculo XI, pela sua situao vizinha da foz do rio, pela sua antiguidade, que 
no s
remontava  poca dos visigodos mas ainda ao tempo do domnio romano, e 
pela
fortaleza do stio, cabea e principal povoao de um territrio que abrangia ao 
norte
66 Veja-se a Introduo, Diviso III..102
uma parte do litoral da moderna provncia do Minho e ao sul as terras que at o 
Vouga
se tinham sucessivamente conquistado 67 .
Sesnando ou Sisenando, filho de David, rico morabe da que hoje 
denominamos
provncia da Beira, senhor de Tentgal e de outras terras no territrio de 
Coimbra, tinha
sido introduzido na corte de Sevilha no tempo de Ibn Abbad e, pelos seus 
talentos e
importantes servios feitos ao prncipe sarraceno, chegara a ocupar o cargo de 
vizir no
div, isto , de ministro ou membro do supremo conselho do amir, que o 
distinguia
particularmente entre os seus conselheiros. Sesnando tornou-se temido nas 
guerras com
os inimigos de Ibn Abbad; porque nas empresas que dirigia obtinha sempre 
prsperos
sucessos. O motivo por que abandonou o amir de Sevilha para entrar no 
servio de
Fernando Magno ignora-se; mas o seu procedimento posterior persuade que 
alguma
ofensa recebida dos sarracenos a isso o instigara. Admitido na corte do rei de 
Leo e
Castela, alcanou brevemente convenc-lo das vantagens que obteria 
invadindo o
Ocidente da antiga Lusitnia. O resultado da invaso justificou as previses de
Sesnando, e o rei de Leo retribuiu o bom servio que o morabe lhe fizera 
dando-lhe
o governo de um distrito constitudo com as novas conquistas e com a terra 
portucalense
ao sul do Douro, ao qual servia de limites, pelo oriente, a linha de Lamego, 
Viseu e
Seia, e de fronteira, pelo sueste, o pendor setentrional da serra da Estrela 68 . 
Deste
modo, a parte do moderno Portugal ao norte do Mondego e do Alva estava 
possuda
pelos cristos quando Fernando I faleceu (1065). O distrito de Coimbra, como 
dissemos,
abrangia do Douro ao Mondego, e o do Porto, desmembrada dele a terra de 
Santa Maria
(Feira), dilatava-se para o norte e nascente, abrangendo talvez o Alto Minho e 
para o
oriente ainda parte da provncia de Trs-os-Montes. Includo at a na Galiza, o
territrio denominado nos documentos e crnicas dos sculos XI e XII 
Portucale, Terra
portucalensis, comea ento a figurar como provncia distinta, posto que outras 
vezes
parea continuar a ser considerado como poro da Galiza e, at, tornar-se 
mais
circunscrito, o que tudo provinha da falta de limites permanentes nos diversos 
condados
ou. governos em que se dividia o reino de Leo e Castela, e da diversa 
importncia que
os respectivos condes tinham na jerarquia administrativa, sendo umas vezes 
depen-dentes
imediatamente do rei, outras, como j observmos, de um conde superior,
espcie de vice-rei preposto ao regimento de uma provncia inteira 69 .
Repartida entre os trs filhos de Fernando Magno a monarquia que ele tanto
dilatara, coube a Garcia a Galiza, abrangendo Portugal e as novas conquistas 
at o
Mondego. Sesnando continuava a dominar o territrio de Coimbra, enquanto o 
conde
Nuno Mendes parece governava o do Porto. Ele pelo menos foi o cabea de 
uma
rebelio dos povos daquele distrito, os portucalenses, contra Garcia, que, 
encontrando-se
com os levantados entre Braga e o rio Cvado, os destroou, como noutra 
parte se
disse, ficando morto o conde no campo da batalha 70 .
As discrdias dos trs irmos fizeram passar sucessivamente a coroa da 
Galiza da
cabea de Garcia para a de Sancho, rei de Castela, e, afinal, para a de Afonso 
de Leo,
que juntou outra vez todos os estados de seu pai. Entretido com guerras nas 
provncias
centrais da Pennsula at se apossar de Toledo, ele deixou tranquilos por 
alguns anos os
sarracenos que estanciavam ao sul de Coimbra, aplicando-se depois da 
conquista da
67 Nota I no fim do volume.
68 Nota II no fim do volume.
69 Ribeiro, Dissertaes Cronolgicas e Crticas, T. 4, p. I, pp. 20 a 31; 
Memrias sobre a Origem e
Limites de Portugal, nas Memrias da Academia, T. 12, art.os 2 e 3.
70 Dedit D. Garseano totam Galleciam una cum tota Portugale, Pelgio de 
Oviedo, Cronicon, p. 75
(edio de Sandoval). Sobre a rebelio dos portucalenses veja-se a Chronica 
Gothorum, era 1109, no
Apndice da III Parte da Monarquia Lusitana e o que j fica dito na Introduo, 
Diviso III..103
antiga capital da Espanha a restaurar as povoaes das fronteiras vizinhas do 
Douro.
Porventura entre Sesnando e os muulmanos limtrofes alguns recontros 
haveria,
segundo parece indic-lo o foral dado a Coimbra por Afonso VI, mas as 
correrias e
entradas dos cristos no Ocidente da Espanha s prosseguiram depois da 
morte do
conde morabe, sucedida nos fins de 1091 71 .
Os filhos de Fernando I tinham respeitado o homem a quem este prncipe 
confiara
o regimento e defesa do territrio chamado ento colimbriense. Sesnando 
serviu
lealmente at o seu ltimo dia a causa da monarquia crist, que ele abraara, e 
ainda,
segundo parece, acompanhou Afonso VI em 1086  infeliz batalha de Zalaca. 
Sua filha
Elvira casara com Martim Moniz, cavaleiro ilustre, a quem por morte do conde 
foi dado
o governo de Coimbra. Afonso, entretanto, reparadas as foras da monarquia, 
quase
destrudas na jornada de Zalaca, resolveu, inimigo sempre incansvel dos 
sarracenos,
acomet-los pelo Ocidente, passando com o seu exrcito na Primavera de 
1093 para o
sul do Mondego e indo pr stio a Santarm. Esta povoao importante, cuja
expugnao se julgava quase impossvel, no tardou a cair-lhe nas mos, e 
dentro de
poucos dias igual sorte coube a Lisboa e a Sintra dilatando-se as fronteiras at 
 foz do
Tejo com essas novas conquistas, cujo governo foi dado a Soeiro Mendes, 
irmo de
Gonalo Mendes da Maia, to clebre depois com o nome de Lidador 72 .
A Galiza, incluindo debaixo desta denominao a extensa provncia 
portugalense
a que naturalmente se devia considerar como incorporado o territrio 
novamente
adquirido no Gharb muulmano, constitua j um vasto estado remoto do centro 
da
monarquia leonesa. Os condes que dominavam os distritos em que esse largo 
tracto de
terra se dividia ficavam assaz afastados da aco imediata do rei e eram assaz 
poderosos
para facilmente se possurem das ideias de independneia e rebelio comuns 
naquele
tempo, tanto entre os sarracenos como entre os cristos. Afonso VI pde evitar 
esse
risco convertendo toda a Galiza, na mais extensa significao desta palavra, 
em um
grande senhorio, cujo governo entregou a um membro da sua famlia, ao qual 
dera o
governo de Coimbra e Santarm logo depois da conquista desta, removendo 
para o
distrito de Arouca Martim Moniz e sujeitando ao novo conde o governador de
Santarm, Soeiro Mendes 73 .
O prncipe a quem Afonso deu o regimento desta importante parte da 
monarquia
era um estrangeiro, mas estrangeiro, ilustre por sangue, que viera naturalizar-
se na
Espanha, arriscando a vida pelo cristianismo e pela monarquia leonesa na 
terrvel luta
que durava havia sculos sobre o solo ensanguentado da Pennsula. 
Raymond,
Reimondo ou Raimundo, filho de Guilherme, conde da Borgonha, tinha vindo a
Espanha tempos antes, porventura nos fins de 1079 ou princpios de 1080, em
companhia da rainha Constncia, segunda mulher de Afonso VI, ou no ano de 
1086, em
que, segundo o testemunho da Crnica Lusitana ou dos Godos, muitos 
franceses
passaram os Pirenus para a batalha de Zalaca, ou, finalmente, ainda depois, 
como
outros pretendem. O rei de Leo desposou a nica filha legtima que tinha, 
Urraca,
havida da rainha Constncia, com o conde borgonhs, posto que ela apenas 
sasse da
infncia, e encarregou-o do governo de toda a parte ocidental da monarquia e 
da
defenso daquelas fronteiras. A infanta, cuja idade nessa poca (1094) no 
podia
exceder a treze ou catorze anos, foi entregue a Raimundo, mas, segundo 
parece, debaixo
71 Acquisita urbe regia, restauratis oppidis et civitatibus extremorum Dorii, 
Rodrigo de Toledo, De
Rebus Hispaniae, L. 6, c. 29; Dissertaes Cronolgicas, T. 4, P. I, p. 31.
72 Livro Preto da S de Coimbra, f. 10, 11 e 21; Dissertaes Cronolgicas, T. 
4, p. I, p. 29; Rodrigo de
Toledo, L. 6, c. 32, ad unem; Chronica Gothorum, era 1131, na Monarquia 
Lusitana, L. 8., c. 7.
73 Chronica Gothorum, ibid; Dissertaes Cronolgicas, L. 4, P. I, p. 29..104
da tutela e guarda do presbtero Pedro, mestre ou aio da jovem princesa 74 .
Alm de Raimundo, outro nobre cavaleiro francs passara  Espanha naquela
poca. Era Henrique, seu primo, de ascendncia no menos ilustre que ele. 
Roberto,
chamado o Idoso, filho de Roberto II e irmo de Henrique II rei de Frana, 
recebera a
investidura do ducado de Borgonha e, casando com Helie ou Alice, filha do 
senhor de
Semur, tivera dela quatro filhos vares, Hugo, Henrique, Roberto e Simo. 
Hugo, o
mais velho, foi morto numa batalha sem deixar filhos. O segundo-gnito, 
Henrique, teve
de Sibila, sua mulher (filha de Reinaldo, senhor da Borgonha condado, e irm 
do conde
Guilherme I, pai de Raimundo) quatro filhos, Hugo, Eudo, Roberto e Henrique. 
Era este
ltimo que tambm se achava por esse tempo na Espanha e que 
provavelmente veio
com Raimundo, seu primo co-irmo 75 . Buscavam, porventura, fortuna na 
Pennsula,
onde no meio de contnuas guerras e conquistas se oferecia amplo teatro para 
a ambio
e para o desejo de adquirir glria. Do mesmo modo que as aces de seu 
primo, as de
Henrique, nos primeiros tempos em que residiu aqum dos Pirenus, jazem 
sepultadas
em profundas trevas, se  que no foi o principal motivo da sua vinda, como h 
quem o
pretenda acerca de Raimundo, procurar um consrcio ilustre por interveno 
da rainha
Constncia, sua tia. Em tal caso essa vinda seria pouco anterior  poca em 
que o
obteve.  certo, porm, que no princpio de 1095 Henrique estava casado com 
Tarasia
ou Tareja (Teresa), filha bastarda de Afonso VI, que, alm de Elvira ou Geloira, 
aquele
prncipe houvera de uma nobre dama chamada Ximena Nunes, ou Muniones 
76 . A
escasseza de memrias e documentos divulgados sobre a histria do nosso 
pas na
ltima dcada do sculo XI apenas consente uma luz frouxa e duvidosa, que 
mal deixa
descobrir o fio que prende os sucessos daquela poca. O que parece resultar 
da
comparao atenta dos diversos monumentos que nos restam  que Henrique 
comeou a
governar o territrio portugalense ainda, talvez, nos fins de 1094, ou princpios 
de 1095,
e com certeza, pelo menos o distrito de Braga, nos primeiros meses deste 
ltimo ano,
como conde dependente de seu primo. Por mais curto que suponhamos esse 
perodo de
sujeio; por mais raros que sejam os vestgios de tal sujeio, ela  
indubitvel.
Todavia, em breve a poro dos domnios de Raimundo, desde as margens do 
Minho at
o Tejo, foi desmembrada definitivamente da Galiza para constituir um vasto 
distrito 
parte regido pelo conde Henrique. Os sucessos militares ocorridos na 
Primavera de
1095 moveram, talvez, Afonso VI a estabelecer esta diviso, sem a qual era 
dificultoso
fazer a guerra na fronteira com energia, estando o centro do governo da 
provncia
ocidental a mais de cem lguas das raias muulmanas, muito alm do rio 
Minho 77 .
Vimos como Afonso VI dilatou as suas conquistas para o sul de Portugal no 
ano
de 1093, tomando em poucas semanas Santarm, Lisboa e Sintra, lugares 
ento os mais
importantes da que hoje chamamos provncia da Estremadura. No ano, porm, 
de 1095
as coisas haviam, at certo ponto, mudado. O clebre Seir (o rex Cir das 
crnicas
crists), general de Yusuf, tinha nos fins de 93 invadido os estados de Ornar 
Ibn
Alafttas, amir de Badajoz, cujos domnios compreendiam todo o Gharb ou 
Ocidente da
Espanha muulmana at  fronteira crist. Iaborah (vora), Chelb (Silves) e os 
outros
74 Flores, Reynas Catlicas, T. I, pp. 231 e as.; Dissertaes Cronolgicas, T. 
4, P. I, pp. 29 e 30;
Mondejar (Origen y Ascendencia dei prncipe D. Ramon) pretende que o conde 
s viesse a Espanha em
1089, e os seus fundamentos no so de desprezar. Na doao do Mosteiro de 
Vacaria  s de Coimbra
feita pelo conde Raimundo e sua mulher D. Urraca (Novembro de 1094), entre 
diversos personagens que
confirmam aparece o presbtero Pedro, magister supradicte filie regis (Livro 
Preto, f. 40).
75 Chronicon Floriacensis, em Duchesne, Hist. Francor. Scriptores, T. 4; D. 
Ribeiro de Macedo.
Nascimento e Genealogia do Conde D. Henrique, p. 89; Art de vrifier les 
dates, T. 3, P. 2, p. 14 (edio
de 1818).
76 Dissertaes Cronolgicas, T. 3, p. I, p. 30, n? 91, e p. 33, n98; e a nota III 
no fim do volume.
77 Nota IV no fim do volume..105
lugares principais haviam aberto as portas aos almorvidas. Um historiador 
rabe diz
que do mesmo modo Santarm e Lisboa lhes caram nas mos. Quanto a 
Santarm, o
foral dado a esta povoao por Afonso VI em 1095 no indica de modo algum 
que ela
houvesse sido perdida depois de 1093 e retomada de novo. Quanto, porm, a 
Lisboa,
no s a falta de um diploma anlogo, passado a favor dela, torna provvel a 
tradio
rabe, mas tambm os sucessos posteriores parece confirmarem-na. Em 
Fevereiro de
1094, Badajoz tinha-se rendido aos almortividas. Submetido o Gharb, Seir 
dirigira as
suas armas vitoriosas contra o Cid Rui Dias, que os rabes andaluzes tinham 
tomado por
capito e que cercara Valncia. Entretanto o conde Raimundo descera da 
Galiza e viera
a Coimbra acompanhado dos seus cabos de guerra e de uma lustrosa 
companha de
cavaleiros. Pouco depois de acabar no Gharb a dinastia dos Benu Alafttas, o 
conde
residia naquela cidade, convocando, segundo parece, os homens de armas e 
pees para a
presria, como ento se chamavam as entradas que tinham por objecto, no s 
invadir o
territrio inimigo, mas tambm estabelecer-se definitivamente a. De Coimbra a 
hoste
crist marchou, provavelmente na Primavera seguinte, para as imediaes de 
Lisboa,
perto da qual assentou os seus arraiais. Os sarracenos, unindo foras de todos 
os lados e,
porventura, ajudados por algumas tropas almorvidas, que lhes houvesse 
enviado Seir,
cercaram o conde e, rompendo-lhe o campo, o desbarataram, ficando uma 
grande parte
dos seus soldados mortos ou cativos. Resulta deste sucesso que os cristos 
tinham j
perdido o distrito de Lisboa, alis seria incompreensvel a vinda do conde com 
um
exrcito a esta espcie de pennsula fechada entre a ampla baia do Tejo e o 
oceano, da
qual no podia fazer entradas e correrias nas provncias muulmanas ao sul do 
rio 78 .
Este desbarato de Raimundo concorreu talvez em parte para que todo o 
territrio
desde a margem esquerda do Minho at Santarm se desmembrasse 
inteiramente da
Galiza. Se no supusermos devido exclusivamente o consrcio de Henrique  
influncia
da rainha Constncia, a concesso de uma filha prpria, bem que ilegtima, 
feita por
Afonso VI a um simples cavaleiro, posto que ilustre, parece provar que ele 
merecera tal
distino pelos seus mritos pessoais e por servios feitos na guerra, servios 
que
vagamente lhe atribui um seu contemporneo 79 . Fossem, porm, estes ou 
outros os
motivos que guiaram o rei de Leo e Castela,  certo que no ano de 1097 
Henrique
dominava todo o territrio do Minho ao Tejo, e os estados de Raimundo tinham 
recuado
por esta parte para as fronteiras meridionais da moderna Galiza.
Casando sua filha Teresa com Henrique, Afonso VI no se limitou a entregar a
este o governo da provncia portugalense, com a qual j frequentemente se 
confunde nos
monumentos dessa poca o distrito colimbriense e o de Santarm, debaixo do 
nome
comum de Portugal. As propriedades regalengas, isto , do patrimnio do rei e 
da coroa,
passaram a ser possudas como bens prprios e hereditrios pelos dois 
consortes. Assim,
o cavaleiro francs, que viera buscar na Espanha uma fortuna mais brilhante 
do que
poderia esperar na ptria, viu realizadas as suas esperanas, porventura alm 
daquilo
que imaginara 80 .
78 Nota V no fim do volume.
79 ...el qual enquanto elrey D. Alfonso vevia noblemente dom a los moros, 
guerreando contra elos; por
lo qual ei dicho rey le di con au fija en casamiento a Coimbra e a la provincia 
de Portugal, que son
fronterss de moros, en las quales con el exercicio batalloso muy noblemente 
engrandescia su caballeria,
Chronica 1 de Sahagn, c. 21, em Escalona, Historia del Monasterio de 
Sahagun, Apndice I, p. 306.
Sobre a importncia desta crnica, escrita em latim por um monge annimo 
que viveu na poca dos
sucessos que narra, e da qual s resta uma antiga verso por ter perecido o 
original no grande incndio
daquele famoso mosteiro, consulte-se o erudito Berganza, Antiguedades de 
Espaa, T. 2, p. 5.
80  a estes bens que nos parece se h-de entender alusiva a clebre 
passagem da crnica de Afonso VII
falando de Teresa, dedit maritatam Enrico camiti, et dotavit eam magnifice 
dans portugalensem terram
juce hereditaria. Evidentemente o conde falava desses bens hereditrios na 
doao a Soeiro Mendes.106
Os prncipes rabes da Andaluzia tinham-se ligado contra os almorvidas 
depois
que, pelas conquistas de Badajoz, estes se achavam senhores de toda a 
Espanha
muulmana,  excepo do amirado de Saragoa, cujo amir, Ahmed Abu Jafar, 
soubera
a tempo buscar a aliana de Yusuf. O clebre Cid capitaneava, como 
dissemos, os
andaluzes coligados. Valncia, cercada por eles, rendeu-se e por interveno 
de Rui
Dias veio, enfim, a reconhecer o senhorio de Afonso VI. Seir no estava 
entretanto
ocioso: equipando uma poderosa frota, sujeitara aos almorvidas as ilhas 
Baleares,
dependentes at ento dos amires de Valncia e de Denia. Avisado pelo vli 
de Almeria
da sorte de Valncia, o general lantunense dirigiu para ali a sua armada com 
muitas
tropas de desembarque e cercou-a por mar e terra.
O Cid era j falecido, e os cristos aliados dos rabes andaluzes, depois de um
dilatado cerco, em que a perda de ambas as partes parece ter sido avultada, 
abando-naram
finalmente Valncia aos almorvidas (1102). A tomada desta importante cidade
acabou com as resistncias dos muulmanos espanhis ao domnio de Yusuf, 
e este,
voltando a Espanha em 1103, s tratou de associar ao governo seu filho Ali 
sem intentar
nenhuma campanha importante contra os cristos, contentando-se com 
ordenar se
deixasse a cargo dos naturais a guarda das fronteiras e com tomar diversas 
providncias
para a defenso e bom regimento do territrio da Pennsula sujeito ao seu 
imprio 81 .
Durante os anos em que estes sucessos ocorreram, a guerra nas fronteiras de
Portugal ou cessou ou reduziu-se apenas a correrias e devastaes mtuas de 
to pouca
monta que nenhuns vestgios deixaram nos monumentos daquela poca. 
Henrique
dedicou-se, acaso, nos primeiros tempos a prover s mais urgentes 
necessidades de uma
provncia assolada por to contnuas guerras; mas a sua residncia nestas 
partes no
parece ter sido dilatada. Os grandes senhores, embora encarregados de 
importantes
governos, quando as ocupaes militares no tornavam a necessria a sua 
presena
frequentavam a corte do rei, e os prprios bispos abandonavam por ela as suas 
dioceses.
O conde de Portugal, tendo feito no Inverno de 1097 a 1098 uma viagem  
Galiza para
visitar o clebre templo de Santiago, achava-se em 1100 e ainda em 1101 na 
corte de
Afonso VI. Posto que a histria das empresas do rei de Leo contra os 
sarracenos e das
represlias destes contra ele nos dois ltimos anos do sculo XI seja assaz 
escura,
todavia consta que em 1097 ele entrou em Consuegra e que os sarracenos, 
fazendo uma
entrada para o lado de Toledo, a recuperaram na ocasio em que 
regressavam. Daqui se
v que o rei cristo aproveitava a ausncia de Seir, entretido com a conquista 
das
Baleares, para assolar o territrio inimigo, e que os muulmanos no cessavam 
de fazer
entradas pelas fronteiras dos cristos. Os chefes sarracenos Ali Ibnul-Haj e Ibn 
Sakun
tinham avanado com um corpo de tropas para Castela e, segundo todas as
probabilidades, o conde foi enviado a repeli-los. Atravessando, pois, as serras 
chamadas
Montes de Toledo, Henrique encontrou os inimigos nas imediaes de Ciudad 
Real,
perto da qual est assentada a povoao de Malagn. Travaram peleja. Foi 
esta, como se
colhe das palavras de um historiador rabe, disputada e sanguinolenta. 
Pelejaram-se
a, diz ele na sua linguagem enftica, as batalhas do extermnio. Mas Dor 
fim o
conde teve de abandonar o campo aos seus adversrios 82 .
(Dissertaes Cronolgicas, T. 3, p. I, p. 35). Sobre a tradio de haver sido o 
governo de Portugal dado
como dote de D. Teresa, veja-se a nota VI no fim do volume.
81 Conde, P. 3, c. 22 e 23; Anales Toledanos, na Espaa Sagrada, T. 21, p. 
386; Yahya e Al-Kodai, em
Casiri, T. 2, pp. 158 a 174.
82 Sobre a residncia do conde junto de Afonso VI, de 1100 a 1101, 
Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. I,
p. 39, n115; Coleccin de Privilegios de la Corona de Castilla, T. 5, p. 28; 
Escalona, Historia de
Sahagn, Apndice III, docs. 133 e 134; sobre os sucessos desta poca, 
Sandoval, Cinco Reys, f. 91 v;
Anales Toledanos, I, na Espaa Sagrada, T. 23, p. 385; In the same year 
Ali Ibnul-Haj sallied from
Cordova, taking with him Ibn Sakun and his division. They rnarched together to 
the land of Castile,.107
Um grande acontecimento, cujas consequncias foram imensas para o 
progresso
da civilizao, preocupava por este tempo os nimos em toda a Europa e em 
grande
parte da sia. A primeira cruzada, promovida pelo eremita Pedro e pelas 
eloquentes
palavras de Urbano II no Conclio de Clermont, tinha arrojado para a Sria cem 
mil
homens de armas seguidos de uma turba inumervel de indivduos de todas as
condies e de ambos os sexos. Depois de longa viagem em que a misria, os 
vcios, as
doenas e a guerra reduziram a bem pequeno nmero essa multido 
desordenada, Jeru-salm
cara nas mos dos cruzados, e os guerreiros que no se tinham armado para 
a
conquista dos lugares santos puderam ir ainda, aps os mais fervorosos, 
ajudar a
defender a monarquia crist fundada na Palestina e ganhar a a glria e a 
opulncia ou a
remisso de passados crimes, remisso que a Igreja concedia com mo larga 
aos que,
pondo sobre o ombro esquerdo a cruz vermelha, se votavam  trabalhosa e 
arriscada
peregrinao do ultramar. Seis anos depois da primeira invaso, em 1101, uma 
segunda
cruzada partiu para o Oriente, cujos sucessos desastrados no impediram que 
novos
peregrinos se fossem precipitar naquele vasto sorvedouro de quantos homens 
de f viva
tinha a Europa e tambm de quantas fezes de corrupo, cobia e ferocidade 
havia nela.
Para as almas crentes ou devoradas de remorsos, a Sria era a piscina da 
reabilitao
moral: para os ambiciosos e devassos, fonte inesgotvel de fortuna e de 
deleites. As
paixes boas e ms ligavam-se num pensamento nico  o demandar o 
Oriente; porque
tanto a vida como a morte ofereciam ao que partia uma perspectiva de 
felicidade.
Os espritos receberam na Espanha o impulso geral da Europa; mas as
circunstncias peculiares deste pas opunham-se a que esse impulso 
produzisse os
mesmos resultados. Envolvidos na luta com os sarracenos, contra os quais mal 
bastavam
todas as foras crists da Pennsula, os espanhis no puderam associar-se a 
nenhuma
das duas primeiras cruzadas, salvo um ou outro cavaleiro, de cujos nomes s 
vezes se
encontram vestgios nas memrias daquelas longnquas expedies. Todavia, 
depois da
segunda cruzada o entusiasmo pela peregrinao da Terra Santa adquiriu 
maior fora. O
exemplo dos bispos, alguns dos quais a empreenderam por aquele tempo, 
alm de
muitos outros membros do clero, contribura em grande parte para excitar esse 
aumento
de mal entendida piedade. Roma, que ento era, por assim nos exprimirmos, o 
foco da
inteligncia humana no meio de naes ainda semibrbaras e que vigiava pela 
segurana
da cristandade, mostrou-se ilustrada e prudente, como ela o sabia ser quando 
o prprio
interesse no a deslumbrava, proibindo essas viagens aos espanhis. O papa 
Pascoal II
por duas vezes ordenou expressamente que ningum destas partes as 
intentasse, e
queles que seguiam caminho por terra para Jerusalm ou iam embarcar na 
Itlia
constrangia-os a retrocederem, impondo nas suas bulas silncio aos que na 
ptria
ousassem caluni-los ou infam-los por no haverem cumprido o comeado 
propsito
83 .
O conde Henrique no se esquivou  influncia da grande ideia que agitava a
Europa. Como j dissemos, depois da morte do Cid e da perda de Valncia a 
guerra com
os sarracenos tornou-se menos violenta. Yusuf, voltando  Mauritnia depois 
da sua
ltima vinda  Pennsula, pouco sobreviveu (1106), e seu filho Abul-Hassan Ali,
where they were met by the accursed Errink at the head of considerable forces, 
when they fought with
him the battles of extermination, Gayangos, verso de Al-Makkari, Vol. 2, 
Apndice C, p. 43. Extractos
do Kitbul-Iktif; Arrancada sobre ei conde D. Enrice en Malagn en 16 dias 
de septiembre era
MCXXXVIII, Anales Toledanos, II, na Espaa Sagrada, T. 23, p. 403. Deve 
ler-se Novembro em vez
de Setembro, porque a hgira 494 s comeou em Novembro.
83 Acerca destas primeiras cruzadas consulte-se Gibbon, Decline and Fali ai 
the Roman Empire, c. 58, 59,
60; Hailam, Europe in Middle Ages,c. I, P. 1; Wilken, Geschichte der 
Kreuzzuge, T. I (Leipzig, 1807);
Michaud, Histoire des Croisades, T. 1 e 2; a bula de Pascoal II (1109), 
referindo-se a outra anterior, vem
na Historia Compostellana, L. I, c. 39..108
entretido em firmar o prprio domnio na frica, deixou a Espanha num estado, 
seno
de repouso, porque algumas memrias h de acontecimentos militares por 
estes tempos,
ao menos comparativamente pacfica. Por todo o perodo decorrido de 1102 
at 1106,
foi o maior fervor de peregrinaes  Palestina, e o exemplo do prprio primaz 
da Igreja
espanhola, o arcebispo de Toledo, Bernardo, dirigindo-se a Jerusalm na 
Primavera de
1104, prova quo vulgar se tornara ento esta romagem. Tinha-o precedido o 
conde de
Portugal; porque a sua partida para o Oriente nos primeiros meses de 1103  
hoje
irrefragvel. Nessa viagem provavelmente o acompanhou Maurcio, bispo de 
Coimbra,
depois to clebre pelas suas pretenses  tiara papal e que por esta poca 
consta ter
partido para a Sria. Presume, e parece-nos que com razo, um dos nossos 
mais
judiciosos historiadores que o conde aproveitaria para a sua passagem a 
armada
genovesa que em 1104 ajudou Balduno  conquista da Ptolemaida 84 .
As aces do conde no Oriente encobre-as escuridade completa, e todas as
conjecturas a este respeito seriam infundadas. Unicamente h certeza de que 
ele tinha
voltado a Portugal em 1105 e vivia na corte de Afonso VI em 1106. Nos anos 
seguintes,
at  morte deste prncipe, Henrique aparece residindo, ora junto dele, ora em 
Coimbra,
onde se ocupava em administrar o pas e em restaurar, segundo o rei lhe 
ordenava, as
povoaes ermas ou destrudas pelas invases sucessivas de cristos e 
muulmanos 85 .
At este tempo o gnio e o carcter do conde de Portugal ainda se no 
revelaram
aos olhos dos que estudam os sucessos daquela poca:  um vulto de 
guerreiro que se
confunde com os de tantos outros que ento sabiam elevar-se pela sua 
actividade e valor
no meio de uma existncia de contnuos combates. Os dotes que o distinguem 
so os
que nele deviam imprimir a educao prpria daquelas eras semibrbaras e o 
hbito da
guerra, isto , o esforo e a percia militar: e ainda estes mais os podemos 
deduzir da
alta situao a que o vemos remontado que dessas poucas aces de certa 
importncia
que dele nos conserva a histria. Nos ltimos seis anos, porm, da sua vida os
lineamentos do carcter do conde tendem a desenhar-se um pouco melhor, e o
pensamento de fugir  sujeio real, pensamento alis mui comum entre os 
senhores
mais poderosos da Pennsula,  prosseguido pelo conde de tal arte que 
descobre nele,
ainda melhor que as de bom soldado, as qualidades de poltico.
O conde Raimundo, casado com uma filha primognita e legtima de Afonso VI,
possuidor de mais importantes domnios que outro qualquer conde da 
monarquia
leonesa, muitos dos quais lhe eram sujeitos, considerava necessariamente a 
coroa como
herana que a morte do sogro lhe devia trazer e que, at, lhe fora prometida 86 
. Os
grandes pensavam por certo do mesmo modo; ao menos os actos praticados 
por eles
depois do falecimento de Raimundo provam que a crena recebida, e com 
razo, era
que, fosse quem fosse o marido de D. Urraca, esse teria de ser o verdadeiro rei 
de Leo
e Castela. Uma circunstncia, porm, viera turbar ultimamente as ambiciosas 
esperanas
84 Anales Toledanos, I, na Espaa Sagrada, T. 23, p. 386; Memrias da 
Academia, T. 4, P. 2, p.
147; Duchesne, Hist. Cardinal. Francor., cit. por Baluzio, Vita Mauritii Burdini 
(Miscelnea, T. 3, p.
476); Monarquia Lusitana, L. 8, c. 22; Art de vrifier les dates, T. 2, pp. 20 e 21 
(edio de 1818).
Dizemos que a partida do conde Henrique para o Oriente fora nos primeiros 
meses de 1103, porque s
assim pode concordar o documento do Livro Preto, f. 38, com o do Bezerro de 
Astorga, f. 79 (citado por
Sandoval, Cinco Reyes, f. 94, cal. 1), pelo qual se v residir ainda o conde na 
corte do sogro em Janeiro
desse ano. Na escritura 138 do Apndice III da Historia de Sahagn (Fevereiro 
de 1104) em que figura o
conde como confirmante com muitos bispos e magnates, sendo unia doao de 
particular, s pode
entender-se que o seu redactor quis indicar ali a existncia daqueles prelados e 
senhores e o seu governo
nos respectivos distritos e dioceses. Rejeitada esta conciliao,  necessrio 
sup-la falsa.
85 Dissertaes Cronolgicas, T. 3, p. I, p. 42, nota 126 e ss.; no foral de 
Tentgal de 1108 diz o conde
que o d jussu regis domni Alfonsi, qui jussit eam nobis hedificare et 
construere, Livro Preto, f. 213 v.
86 Cronica Compostellana, na Espaa Sagrada, T. 20, p. 611..109
do conde da Galiza. Afonso houvera de Zaida, filha de Ibn Abbad, rei de 
Sevilha, a qual
uns pretendem considerar como sua concubina, outros como sua mulher 
legtima, um
filho varo, o infante Sancho. Os sentimentos da natureza e as consideraes 
da poltica
persuadem o que, segundo o testemunho de Rodrigo de Toledo, o prprio rei 
confessara
depois da morte do infante, isto , que o tinha na conta de seu nico herdeiro 
87 . Afonso
comeara a manifestar estas intenes ainda na meninice de Sancho, fazendo-
o
confirmar os diplomas juntamente com D. Urraca e dando-lhe desde logo o 
principado
de Toledo 88 . Por esse motivo se tornam provveis as desinteligncias de 
Raimundo com
o sogro, de que aparece a tradio nas crnicas desses tempos 89 .
Da solido de um mosteiro situado na Borgonha um velho monge influa ento
nos negocios mais graves da Europa. Cluni era esse mosteiro; Hugo esse 
monge.
Durante sessenta anos, Hugo regera aquele clebre cenbio, cujos chefes 
chegaram na
sua soberba a considerarem-se como papas do monaquismo, intitulando-se 
abades dos
abades. Foi Hugo quem lanou os fundamentos deste poder e grandeza. Ele 
era o
homem em cujo seio Gregrio VII, pontfice a quem, fosse qual fosse a sua 
ndole, se
no pode negar o ttulo de grande, ia depositar as prprias mgoas e 
esperanas. Urbano
II foi seu monge e discpulo. Os reis e senhores solicitavam-lhe a amizade e 
buscavam-no
para juiz das suas contendas. De todos os prncipes que mostravam maior 
venerao
e afecto a Cluni e ao seu poderoso abade nenhum, talvez, igualou Afonso VI; e
porventura, o acolhimento que Raimundo e Henrique encontraram no rei 
espanhol viria
em parte de serem ambos parentes de Hugo, a quem Afonso dava o ttulo de 
pai e a cujo
mosteiro desde o tempo de Fernando Magno a monarquia leonesa pagava um 
tributo
voluntrio a ttulo de censo. Hugo, que, afora esses meios de influncia na 
Pennsula,
via vrios membros da sua congregao regendo boa parte das ss episcopais 
destas
provncias, e entre eles Bernardo, o primaz de Toledo, desejaria por certo que 
Raimundo
e Henrique, borgonheses como ele, seus parentes e afiliados ao Mosteiro de 
Cluni,
viessem a herdar os vastos estados de Afonso VI. A resoluo, pois, deste 
prncipe
acerca da sucesso devia desagradar altamente ao velho beneditino, e  
provvel que ele
empregasse a sua influncia no nimo do rei para o demover do formado 
propsito. Se
assim, porm, passou na realidade, o afecto que esse prncipe consagrava ao 
nico filho
varo que a Providncia lhe concedera foi mais forte que as insinuaes de 
Hugo.
Ento, segundo todas as probabilidades, se urdiu uma trama oculta debaixo da 
direco
do abade de Cluni para anular depois da morte do monarca a pretendida 
sucesso do
infante Sancho. Pelos fins de 1106 ou princpios de 1107 um tratado secreto se 
jurava
entre Raimundo e Henrique nas mos de Dalmcio Gevet, emissrio de Hugo, 
que
ditara as condies desse pacto. Eram estas que os dois condes lealmente 
respeitariam e
defenderiam a vida e a liberdade um do outro; que Henrique, depois da morte 
do sogro,
sustentaria fielmente o domnio de Raimundo como seu nico senhor sobre 
todos os
estados do mesmo rei contra quem quer que fosse, correndo pronto a ajud-lo 
a adquiri-los;
que, no caso de lhe carem primeiramente nas mos os tesouros de Toledo, 
ficaria
com um tero e ceder-lhe-ia dois: que Raimundo, pela sua parte, depois de 
falecer o rei,
daria a Henrique a cidade de Toledo com o seu distrito, sob condio que por 
esse
territrio que assim lhe concedia ficasse sujeito a ele, Raimundo, e o tivesse 
como
dependente dele, e que depois de o receber lhe entregasse todas as terras de 
Leo e de
Castela; que, se algum lhes quisesse resistir ou fazer-lhes injria, lhe 
fizessem ambos
87 Unicus haeres meus, Rodrigo de Toledo, L. 6, c. 33; Qui scil. Adefonsus 
quoniam virilem non
habuit sobolem, interfecto illo (Sancio) de quo diximus, etc., Chronicon 
Floriacensis, em Duchesne, T.
4, p. 96.
88 Sandoval, Cinco Reyes, fs. 94 e 96.
89 Flores, Reynas Catlicas, T. I, p. 237; Rodrigo de Toledo, L. 6, c. 34..110
guerra ou a comeasse logo qualquer deles, at que o territrio fosse entregue 
a um ou a
outro, e Raimundo desse a Henrique o que lhe prometera; que, se Raimundo 
obtivesse
primeiramente o tesouro de Toledo, guardaria para si duas partes, dando a 
outra a
Henrique. Tal era a substncia do tratado. Parece, porm, que o conde de 
Portugal
receava lhes fosse demasiado dificultoso assenhorearem-se da nova capital da
monarquia ou que esta tornasse a cair em poder dos sarracenos; porque se 
acrescentou
ao pacto um como artigo adicional, em que Raimundo afianava nas mos do 
enviado
de Cluni que, no caso de no poder dar Toledo a seu primo, lhe daria a Galiza, 
no
faltando ele em ajud-lo a apoderar-se de Leo e Castela, efectuando-se a 
nova condio
logo que Raimundo estivesse pacfico senhor de tudo, e entregando-lhe 
Henrique as
terras de Leo e Castela que estivessem em seu poder, tanto que fosse metido 
de posse
da Galiza 90 .
Ainda que a letra deste pacto sobre a sucesso da coroa indique bem 
claramente a
menor importncia que o conde de Portugal se atribua em relao ao da 
Galiza, 
evidente que, se tal tratado chegasse a execuo, a perspectiva do novo 
estado que
Henrique intentava fundar era mais lisonjeira no futuro que a dos que 
Raimundo
ambicionava para si. Enquanto Leo e Castela ficavam limitados ao oriente 
pelo Arago
ou pelos territrios muulmanos que esta monarquia devorava pouco a pouco, 
o conde
de Portugal dominaria ao sul quase toda a fronteira dos sarracenos e achar-se-
ia como
colocado na vanguarda da reaco crist. Era sem dvida esta uma situao 
mais
arriscada; mas a conquista do Meio-Dia da Espanha facilitava-se-lhe 
grandemente;
porque, senhor dos distritos contguos  margem direita do Tejo, desde quase 
a foz do
rio at quase a sua origem, e acrescentados os prprios recursos com esse 
novo senhorio
que devia receber de Raimundo e com uma poro dos tesouros de Afonso VI, 
poderia
dilatar as invases pelo Gharb e pela Andaluzia, que exclusivamente ficariam
entestando com os seus antigos e novos domnios.
Ou o segredo sobre o pacto dos dois condes no foi perfeitamente guardado, 
ou
por algum acto externo eles deram indcios dos seus desgnios pouco 
ajustados pelos de
Afonso VI. A acusao de se haver mostrado algum tanto rebelde ao sogro 
pesa sobre a
memria de Henrique, e Raimundo decaiu por esse tempo da graa do rei, 
ainda que na
ocasio da sua morte Afonso estava, segundo parece, congraado com ele. A 
morte,
com efeito, salteando o conde da Galiza no Outono de 1107, inutilizava a 
aliana dos
dois primos e destruiu as esperanas que Henrique concebera de obter o 
domnio de
Toledo 91 . No abandonou, todavia, o conde as suas ideias de 
engrandecimento e
independncia; os sucessos posteriores no-lo revelam; mas nos dois anos que
decorreram entre o falecimento de Raimundo e o de Afonso VI (1107 a 1109) 
ele
residiu quase sempre em Portugal na obedincia do sogro, empenhado, talvez, 
nas
correrias contra os sarracenos que era costume fazer todas as primaveras, a 
que estavam
obrigados os homens de armas ou cavaleiros vilos e que se conheciam pela
90 O clebre pacto sucessrio entre os condes da Galiza e Portugal no tem 
data. O cardeal Saraiva (S.
Lus, Memrias do Conde D. Henrique, nas Memrias da Academia, T. 12, p. 
49) mostrou com bons
fundamentos que no podia colocar-se seno entre 1096 e 1107. Nenhuns 
outros motivos provveis da
feitura de semelhante pacto aparecem na histria desse perodo seno as 
intenes visveis de Afonso VI
de legar a coroa ao filho de Zaida. Estas intenes tornam-se patentes em 
1106 (Sandoval, Cinco Reyes,
fs. 94 e 96) e por isso lhe supomos esta data. O documento foi publicado por 
Achery (Spicilegium, T. 3, p.
418) e entre ns por J. P. Ribeiro (Dissertaes Cronolgicas, T. 3, p. I, p. 45).
91 Comes Enricus... coepit aliquantuium rebellare, non tamen subtraxit 
hominium toto tempore vitae
suae... Hucusque etenim cum gente sua mandatum ad exercitum et ad curiam 
veniebat, sed benignitas imo
negligentia Aldephonsi tanquam consanguineo et affini improvide deferebat, 
Rodrigo de Toiedo, L. 7, c.
5; Comes Raimundus non fuerat in regia oculis gratiosus, id., L. 8, c. 34; 
compare-se a Historia Com-postellana,
L. I, c. 27..111
denominao de fossado 92 .
A enfermidade que conduziu Afonso VI  sepultura foi longa e agravada nos
ltimos meses pela desgraada sorte de seu filho 93 . Henrique havia 
concebido, como o
pacto feito com Raimundo e os sucessos posteriores o provam, a atrevida ideia 
de ficar
senhor por morte do monarca de uma parte dos seus estados. Falecido o 
conde da
Galiza, a ambio dele, longe de enfraquecer, punha, talvez, ainda mais longe 
a mira.
Poucos dias antes de expirar o monarca, Henrique foi persegui-lo no seu leito 
de morte.
Ignoram-se at onde chegavam as pretenses do conde; mas sabe-se que ele 
sara de
Toledo furioso contra o sogro moribundo 94 . Antes de morrer, Afonso declarou 
nica
herdeira da coroa sua filha Urraca, e tal foi por certo a causa da clera de 
Henrique e a
origem do audaz projecto que desde ento formou de se apossar, no de uma 
parte, mas
de toda a monarquia de Leo e Castela.
Apenas, porm, constou que o prncipe terror dos sarracenos no existia, estes
cobraram novos brios. Os de Sintra, que reconheciam o senhorio do conde, 
quebraram
imediatamente o jugo. Semelhante sucesso suscita a ideia de que os 
muulmanos do
distrito ao sul de Santarm, ltima povoao que provavelmente ficou por este 
lado em
poder do rei de Leo e Castela desde o desbarato de Raimundo em 1065, 
inquietados
pelas algaras ou entradas do conde, e por outro lado no tendo reconhecido o 
domnio
dos almorvidas, como adiante veremos, se lhe fariam tributrios para viverem 
em paz.
Isto no passa, todavia, de uma conjectura deduzida principalmente dos 
sucessos
posteriores; porque os monumentos relativos a estes dois anos do governo de 
Henrique
s nos provam que residiu uma ou outra vez em Portugal. Rebelada Sintra, 
Henrique
marchou contra esse castelo, que naquela poca parece tinha uma importncia 
pouco
inferior  de Lisboa, e de novo o reduziu  sua obedincia 95 .
A morte de Afonso VI (Junho de 1109), pelas circunstncias de que vinha
acompanhada, tornou-se um sucesso gravssimo para a Espanha crist e foi, 
com razo,
sentida como origem de largos males. O ceptro leons, que deveria cair em 
mos
capazes de assegurarem as conquistas feitas por aquele clebre prncipe, 
ficava
pertencendo  viva do conde Raimundo. Da vasta herana que legava a sua 
filha, o rei
falecido separara de certo modo a Galiza, declarando em sua vida que, no 
caso de D.
Urraca passar a segundas npcias, Afonso Raimundes, filho dela e seu neto, 
ficaria rei-nando
nesta provncia. Contava o infante pouco mais de trs anos quando Afonso VI
expirou, e por isso  Galiza, como ao resto da monarquia, faltava um sucessor 
capaz de
defender a integridade do territrio contra os cometimentos dos sarracenos e 
de conter a
ousadia dos senhores poderosos, cujas antigas ideias de ambio, ou pelo 
menos de
independncia, a fraqueza do trono forosamente havia de despertar.
Afonso I, rei de Arago, estava nesse tempo na flor da idade e pelo seu gnio
guerreiro adquirira o apelido de Lidador (Batallador). A nobreza castelhana, 
consi-derando
a necessidade de confiar a defenso da ptria comum a um prncipe cujo nome
e cuja espada pudessem enfrear os sarracenos, constrangeu a rainha a que o 
recebesse
92 Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. I, pp. 43 e 49, e em especial a carta de 
Afonso VI sobre a Vila
Volpeliares, que J. P. Ribeiro parece atribuir ao ano de 1109.
93 Veja-se a Introduo, Diviso III.
94 ...pocos dias antes que elrey ficise fin de vivia, no s porque saa o 
discordia se parti ayrado dei; e
porque aquesto era ansi no estava presente quando elrey queria morir, e 
disponia de ia succession del
reino este conde non era presente; por lo qual, por zelo del reino movido, 
trapasso loa montes Perineos
por babes ayuda de los franceses, con los quales guarnecido e escoltado, digo 
esforzado, por fuerza
tuviesse el reyno de Espaa, annimo de Sahagn, s. 21.
95 Mense Julio capta fuit Sintria a comite D. Henrico... Audientes enim 
sarracem mortem regis D.
Alfonsi coeperunt rebellare, Chronica Gothorum, era 1147. A 29 de Julho j 
o conde se achava em
Viseu, Livro Preto, f. 28..112
por marido, e assim o rei aragons obteve a coroa de Leo e Castela 96 . Uma 
classe,
porm, poderosssima, o clero, recebeu mal este consrcio, e boa parte dos 
prelados
espanhis declararam-se abertamente contra ele. Era a causa desse 
procedimento o
parentesco dos dois esposos em grau proibido, procedimento aprovado pelo 
papa, que
decretou o divrcio. Em consequncia disto, Afonso, que j se achava em 
Castela com
tropas de Arago e cujo carcter violento mal poderia sofrer que o clero 
pretendesse
despoj-lo de uma coroa que to facilmente alcanara, comeou a perseguir os 
prelados
que lhe eram adversos. O arcebispo de Toledo, que promulgara a bula do 
divrcio, ficou
por quase dois anos expulso da sua s. Igual sorte coube aos bispos de Leo e 
de
Burgos, e os de Palncia, Osma e Orense foram postos a ferros. Estes factos 
deviam
alienar-lhe os nimos dos leoneses e castelhanos, quando para isso no 
bastasse o ser ele
at certo ponto estrangeiro. Desconfiado, portanto, da lealdade dos ricos-
homens e al-caides
de Castela, o novo rei de Leo comeou a substitu-los nas tenncias dos 
lugares
importantes por aragoneses, o que forosamente contribua para aumentar o 
desgosto e
preparar a guerra civil 97 .
Entregue ao conde Pedro Froilaz de Trava, fidalgo poderoso da Galiza, o 
infante
Afonso Raimundes vivia nesta provncia esquecido no meio dos graves 
negcios que
agitavam a nao. Logo, porm, que a constou o casamento de sua me, o 
conde de
Trava tratou de realizar as ltimas disposies de Afonso VI acerca do neto e 
com esse
fundamento fez alevantar a Galiza, receosa do domnio aragons. Fora 
celebrado o
consrcio de D. Urraca durante o Outono de 1109, e no princpio do estio do 
ano
seguinte a revoluo tinha tomado tal incremento que o rei de Arago resolveu 
invadir
aquela provncia. O primeiro castelo que tomou foi o de Monteroso. Entrado 
este, um
cavaleiro ilustre chamado Pedro, que a se achava, lanou-se aos ps de
D. Urraca pedindo a vida. Conhecia-o ela e quis salv-lo; mas o feroz Afonso
matou-o com um venbulo naquele mesmo lugar. Este exemplo de crueldade 
encheu de
indignao os nobres leoneses e ainda mais a rainha, que, obrigada ao novo 
consrcio,
se via em poder de um dspota. Desde este momento ela tomou a resoluo 
de
divorciar-se, confiada na indignao dos nobres, na reprovao dos prelados 
ao
matrimnio que contrara e na resistncia da Galiza ao domnio aragons 98 . 
No
dissimulando o seu descontentamento, partiu para Leo, e Afonso I continuou a 
guerra
na Galiza; mas, sendo-lhe desfavorvel a sorte das armas, dentro de trs 
meses foi
obrigado a recuar para o distrito de Astorga. A revoluo tinha tambm 
rebentado a;
porque ao chegar a esta cidade saram-lhe ao encontro os bares daquela 
provncia com
foras tais que no ousou resistir-lhes. Intimado por eles para no entrar em 
castelo
algum dos estados de Leo, viu-se constrangido a ceder e, acompanhado por 
dois nobres
que ficaram por fiadores da sua segurana, recolheu-se s fronteiras dos 
prprios
estados 99 .
No meio destas revoltas e guerras conservava-se acaso tranquilo o conde de
Portugal, satisfeito com ter reduzido  obedincia os sarracenos de Sintra? 
No, por
certo. Ambicioso, irado pela sucesso de D. Urraca ao trono leons, 
determinara vingar-
96 Rodrigo de Toledo diz ter sido o casamento do rei de Arago com D. Urraca 
celebrado ainda em vida
de Afonso VI. Apesar do peso que tem o testemunho deste historiador, a 
opinio que seguimos funda-se
na da Historia Comportellana, L. I, c. 64, pargrafo I, com quem concordam 
Lucas de Tuy, a Chronique
de Fleury e o annimo de Sahagn, c. 15.
97 Historia Compostellana, L. I, c. 64, pargrafos 2 e 3, c. 79, pargrafo 5; 
Aguirre, Colectnea Max.
Concil. Hisp., T. 5, p. 26.
98 Annimo de Sahagn, c. 17; Historia Compostellana, L. I, c. 64. Fala-se 
neste ltimo lugar de muitos
nobres e cavaleiros mortos em Monteroso. A narrao que vamos fazendo 
parece-nos a nica possvel
para conciliar a Historia Compostellana com o annimo de Sahagn.
99 Annimo de Sahagn, c. 17 e 20..113
se. Mais do que isso. As suas pretenses em vida de Afonso VI ainda se 
limitavam a
herdar uma poro da monarquia: agora intentava dominar tudo. Abandonando 
os
estados que governava s invases dos sarracenos, atravessou a Espanha e, 
passando os
Pirenus, foi alistar gente de guerra em Frana, visto que a do condado de 
Portugal no
bastava a levantar a mquina de tamanha ambio. Dedicava-se a esse 
negcio quando
(ignora-se porqu) foi preso naquele pais; talvez por algum receio que 
houvesse de que
a sua volta  Frana tivesse fins diversos dos que aparentava. No menos se 
ignora
como pde fugir da priso, mas  certo que obteve escapar e, passando de 
novo as
montanhas, internar-se no Arago 100 .
Estes sucessos deviam passar-se nos oito meses que decorreram dos fins de
Agosto de 1110 aos fins de Abril de 1111, em que nenhuma memria 
conhecida do
conde Henrique existe em Portugal, antes parece regia o condado D. Teresa 
na ausncia
do marido 101 . Chegando aos estados de Afonso I, Henrique achou a o rei 
aragons.
Temendo que este prncipe, que se julgava com direito  coroa leonesa, 
sabendo os seus
intentos lhe atalhasse os passos, procurou e alcanou aliar-se com ele. Foi a 
condio da
liga marcharem as suas foras contra D. Urraca, procurando unidos conquistar 
as terras
de Leo e Castela e reparti-las depois igualmente entre ambos. Depois deste 
pacto
vemos, todavia, Henrique voltar para Portugal, onde se demorou durante uma 
parte do
Vero de 1111 102 .
Para se conhecer a causa provvel desta vinda e da volta subsequente do 
conde a
unir-se ao rei de Arago,  necessrio que atemos o fio dos sucessos 
acontecidos
durante a sua breve residncia em Frana e nas provncias orientais da 
Espanha. O
conde Gomes Gonalves era um dos mais ilustres senhores daquele tempo. Se
acreditarmos o cronista Rodrigo de Toledo, ainda em vida de Afonso VI ele 
pretendera,
favorecido por uma parte da nobreza, a mo de D. Urraca. O velho monarca 
rejeitara
com indignao a proposta, e os parciais do conde viram-se obrigados a 
abandon-lo
neste intento. Suscitada pelos prelados a questo do divrcio, ele sentiu 
renascer as suas
amortecidas esperanas. Ou fosse que entre Gomes Gonalves e D. Urraca 
existisse
afeio secreta ou que ele soubesse ento acend-la no corao da rainha, 
que os
escritores contemporneos nos pintam como pouco severa em costumes, o 
que parece
certo  que entre Afonso I e a sua mulher rebentaram graves dissenses. 
Depois de a
espancar brutalmente, o rei de Arago conduziu-a a Castelar, onde a 
conservou como
presa, e resolveu-se a aceitar o divrcio. Temendo as consequncias desta 
separao,
tanto mais que Afonso tinha nas mos de capites seus as principais fortalezas 
de
Castela, os nobres que seguiam a corte buscaram e obtiveram congraar os 
dois esposos
e afastar por algum tempo a procela 103 . Mas o ressentimento contra o marido 
havia
despertado o amor pelo filho no corao de D. Urraca retida em Castelar, e ela 
tinha
enviado mensageiros incumbidos de recordar aos nobres de Galiza o que 
Afonso VI
lhes fizera jurar acerca de seu neto, convidando-os a proclamarem-no rei nos 
estados
que o av lhe legara no caso de sua me passar a segundas npcias. 
Recebida esta
mensagem, os fidalgos galegos encaminharam-se a Leo para cumprir os 
desejos da
100 Annimo de Sahagn, c. 21.
101 Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. I, pp. 55 e 56. O documento n 160 
(ibid.), que J. P. Ribeiro d por
duvidoso por ser passado s em nome de D. Teresa, explica-se assim 
naturalmente e vem corroborar a
narrativa do annimo de Sahagn.
102 Annimo de Sahagn, c. 21. Pela narrao desta crnica parece ter 
comeado a guerra apenas feita a
liga de Afonso I e do conde; todavia os documentos de Portugal provam a 
residncia do ltimo neste pas
em Maio e Junho. A batalha de Campo de Espina, entre os dois aliados e o 
conde Comes, foi dada em
Outubro desse ano.
103 Rodrigo de Toledo, De Rebus Hispaniae, L. 6, c. 34, e L. 7, c. I e 2; Historia 
Compostellana, L. I, c.
64, pargrafo 2..114
rainha, quando souberam que ela se congraara com o marido 104 . A situao 
dos par-ciais
de Afonso Raimundes tornava-se assaz melindrosa com este inopinado 
sucesso.
Unidos de novo D. Urraca e Afonso I, eles temiam tornarem-se nico alvo da 
vingana
do impetuoso aragons, muito mais que este no devia ter esquecido o desar 
de sua
primeira tentativa contra a Galiza.
Na falta absoluta que se d de notas cronolgicas nas crnicas 
contemporneas, o
historiador moderno que deseja acertar com a verdade v-se muitas vezes 
perplexo para
assinalar a ordem e ligao dos acontecimentos. Quando a Espanha tiver uma 
histria
escrita com sinceridade e conscincia, o perodo do governo de D. Urraca ser 
um
daqueles em que o discernimento do historiador ter sido posto  mais dura 
prova 105 .
Ligados, porm, os acontecimentos que nos cumpre mencionar aos do resto da
Espanha crist, cabe-nos fazer uma parte desse trabalho, sem que nos seja 
possvel
examinar os arquivos da nao vizinha, e somos constrangidos a deduzir a 
nossa
narrativa dos monumentos impressos. Procedendo por conjecturas, podemos 
no
acertar; mas ao menos no que escrevermos procuraremos harmonizar os 
documentos
portugueses com as narraes das crnicas que desse tempo nos restam.
Como j advertimos, a ida do conde Henrique a Frana e a sua volta a Arago 
no
se podem colocar noutro perodo que no seja o decorrido de Agosto de 1110 
a Maio de
1111. Foi por este tempo que as dissenses de Afonso I e de sua mulher 
chegaram ao
ltimo auge e vieram a declarada inimizade. O pacto do prncipe aragons com 
o conde
de Portugal devia ser feito por essa ocasio; mas enquanto os dois pensavam 
em dividir
entre si o imprio de Afonso VI, D. Urraca buscava aliar-se com os fidalgos da 
Galiza,
aprovando os desgnios deles acerca da elevao ao trono do infante Afonso
Raimundes. Reconciliada, porm, a rainha com o marido por interveno dos 
bares
castelhanos, a situao dos personagens mais importantes deste grande 
drama mudava
inteiramente. Os interesses do rei de Arago tornavam a vincular-se aos de D. 
Urraca e,
pelo contrrio, os do conde ligavam-se naturalmente  causa do infante seu 
sobrinho e
dos bares da Galiza. Estes, sabedores da inopinada reconciliao e 
conhecendo, talvez,
que ela era contrria aos intentos de Henrique, dirigiram-se a este para que os
aconselhasse sobre o modo de sarem do passo dificultoso em que se 
achavam, vtimas
do carcter mudvel de D. Urraca. No devia ser menor o despeito do conde 
que o dos
bares da Galiza. Aproveitou, pois, o ensejo que se lhe oferecia e excitou 
fortemente o
conde Pedro Froilaz a que prosseguisse na revoluo a favor do infante, 
porventura com
promessas de socorro. De feito, continuando no encetado empenho, Pedro 
Froilaz, ao
voltar para Galiza com os outros fidalgos, prendeu junto de Castro Xerix (perto 
de
Burgos) alguns daqueles que, esquecidos das obrigaes contradas pela 
promessa feita
a Afonso VI, no s se haviam bandeado com o prncipe aragons, mas at de 
acordo
com ele maquinavam a morte do conde de Trava e do seu real pupilo 106 . O
procedimento, porm, de Pedro Froilaz fez rebentar uma guerra civil na Galiza. 
Os
fidalgos partidrios de Afonso de Arago trabalharam por vingar-se. 
Alcanando
104 Historia Compostellana, L. I, c. 48.
105 Um escritor moderno (Romey), mui gabado pelos que no consideram as 
coisas seno pela superfcie,
esquivou perfeitamente as dificuldades que oferece o tempestuoso reinado de 
D. Urraca. Limitou-se a
escrever a histria dos estados muulmanos nesse perodo e esqueceu-se 
completamente da Espanha
crist.
106 Consulem Enrieum... diligenti cura consuluerunt: cujus... consilio fortiter 
excitatus consul Petrus
quosdam ex illis qui jusjurandum filio comitis mentiebantur... cepit, Historia 
Compostellana, L. I, c. 48;
Existimans regno secure potiri si puer quoquo modo traderetur neci: quo 
circa... comitem Petrum... dira
machinatione perditum ire molibatur, id., c. 64, pargrafo 2.
A volta de Pedro Froilaz pelo lado de Burgos prova indisputavelmente que ele 
foi a Arago consultar
Henrique e que, na Historia Compostellana (ibid.), onde Flores leu accersentes, 
se deve ler accedentes..115
aprisionar a condessa de Trava em Santa Maria de Castrelo, aonde se 
acolhera com o in-fante,
souberam tambm prender artificiosamente o depois to clebre bispo de
Compostela, que, havendo at a seguido uma poltica vacilante, se declarara 
afinal
protector de Afonso Raimundes; mas o activo prelado achou meio de obter a 
liberdade e
de pacificar temporariamente a Galiza, atraindo de novo  parcialidade do 
infante os
principais fidalgos que se lhe tornavam a mostrar adversos.
Henrique havia-se retirado neste meio tempo para Portugal, visto que a paz 
entre
os dois consortes anulava, ao menos temporariamente, as esperanas que 
havia fundado
na concrdia que, voltando de Frana, fizera com o rei de Arago. Se ele tinha 
calculado
com a guerra civil na Galiza para divertir a ateno da rainha e de seu marido, 
enquanto
ganhava foras, no s para constituir um estado capaz de sustentar a prpria 
inde-pendncia,
mas tambm para realizar as miras ambiciosas de mais vasto domnio, os
seus clculos foram bem depressa baralhados por novas e violentas 
desinteligncias que
em breve rebentaram entre Afonso e Urraca. O nimo altivo, ou antes o 
procedimento
leviano da rainha, trouxe por fim uma ruptura decisiva. Proferiu-se o divrcio, e 
D.
Urraca, chamando a si o seu velho aio Pedro Ansures, o conde Gomes 
Gonalves, o
conde Pedro de Lara e muitos outros senhores castelhanos e leoneses, 
comeou com o
rei de Arago uma luta que, com poucas interrupes e vria fortuna, durou 
muitos
anos. As relaes que tentara j estreitar com os parciais de seu filho na Galiza
renovaram-se ento com mais prspero resultado, e ao passo que Leo e 
Castela se
declaravam geralmente favorveis  rainha, Afonso, o Lidador, via as suas 
foras quase
reduzidas s de Arago e s dos fidalgos e cavaleiros aragoneses que 
puderam
conservar-lhe fiis alguns lugares fortes, cujos alcaides eram 107 .
 evidente que o estado poltico da Espanha mudava completamente em 
relao
ao conde de Portugal. A concrdia de D. Urraca e dos defensores de Afonso 
Raimundes
ligava outra vez o vasto corpo do imprio de Afonso VI que ameaara 
despedaar-se.
Por outra parte, convertida a guerra civil em guerra estrangeira, visto que pelo 
facto do
divrcio o prncipe aragons tinha de a sustentar, no como legtimo senhor de 
Leo,
Castela e Galiza contra sbditos rebeldes, mas como rei de Arago contra um 
pas
alheio, pouco era de esperar, atenta a desigualdade dos recursos, lhe 
coubesse a vitria,
apesar da sua actividade e esforo. Nesta conjuntura  mais de crer que ele 
tentasse
realizar o pacto celebrado com o conde de Portugal e que este esquecesse 
facilmente o
passado para de novo correr aps as suas ambiciosas esperanas. Daqui 
nasceu, em
nosso entender, a pronta unio de Afonso e de Henrique para guerrearem D. 
Urraca.
Mas, antes que falemos dos resultados dessa liga, cumpre-nos narrar sucessos 
que
interessam especialmente, no s o conde de Portugal, mas ainda mais de 
perto o pas
que ele regia.
Abul-Hassan Ali sucedera, como j dissemos, a seu pai Yusuf no vasto imprio 
da
Mauritnia e da Espanha muulmana em 1106. Depois de aquietada a rebelio 
de
Yahya, vli de Fez, ele passara o Estreito (1107) mais para ordenar as coisas 
do governo
nas provncias da Europa que para prosseguir na guerra santa. No ano 
seguinte, porm,
tornou a passar da Africa resolvido a acometer Afonso VI. Seu irmo Temin 
ganhou a
clebre batalha de Ucls e muitos lugares fortes lhe caram nas mos; mas 
esses triunfos
custaram rios de sangue aos sarracenos. Ali, pouco depois, voltou  frica, e 
as suas
conquistas no se dilataram para o interior dos territrios de Leo e Castela. 
Todavia, o
amir almorvida, seguindo o exemplo de Yusuf seu pai, incansvel em 
combater os
inimigos da sua crena, passou de novo o mar, dizem que com cem mil 
cavaleiros, no
107 Et munitiones et castra... reginae naturali dominae reddiderunt, Rodrigo 
de Toledo, L. 9, c. 1;
Adhuc munitiora loca in Castelae terminis detinebat, id., ibid., c. 2; veja-se 
Historia Compostellana, L.
I, c. 64 e ss..116
Vero de 1109, e comeando a guerra no Outono desse mesmo ano 
prosseguiu-a por
todo o seguinte at o princpio de 1111, em que voltou  frica, por Junho ou 
Julho. Foi
esta uma das campanhas mais fatais para os cristos. Ao passo que Ali invadia 
os
territrio centrais e, tomando sucessivamente Talavera, Madrid, Guadalajara e 
mais
vinte e sete castelos, vinha sitiar Toledo, o amir de Saragoa marchava contra 
o rei de
Arago, que havia posto cerco a Tudela, e o clebre Seir Ibn Abi Bekr 
marchava para o
ocidente. As narrativas dos historiadores rabes revelam-nos neste ponto 
sucessos
anteriores, cujas circunstncias alis no especificam. Seir, dizem eles, 
apoderou-se de
Badajoz, vora, Santarm, Lisboa, Sintra, e de todas as povoaes ocupadas 
pelos
cristos ou que no tinham tomado a voz dos almorvidas. E certo, porm, 
como vimos,
que j em 1093 o amirado de Badajoz havia sido submtido pelo prprio Seir 
ao
imprio almorvida, e a esse amirado pertenciam todas as povoaes aqui 
mencionadas,
de parte das quais Afonso VI se assenhoreara naquela conjuntura. Resulta dali 
que uma
revoluo se fizera entretanto no Gharb, onde os rabes, como por toda a 
Espanha
muulmana, mal sofriam o jugo dos lantunitas, e que Seir se viu obrigado a 
conquistar
de novo as duas provncias modernas do Alentejo e Algarve, que j uma vez 
subjugara.
 assim que nos parece explicar-se naturalmente a ordem dos sucessos 
daquele obscuro
perodo. A revoluo dos rabes ocidentais propagou-se pelas terras situadas 
na margem
direita do Tejo perto da sua foz, que o destroo do conde Raimundo em 1095 
nos
persuade estarem j perdidas para os cristos. O temor de serem de novo 
submetidos
pelos almorvidas induziu, talvez, os levantados de Lisboa e Sintra a fazerem-
se
tributrios do conde Henrique, sucessor de Raimundo, para no ficarem ao 
mesmo
tempo ameaados ao norte por ele e ao sul pelas foras lantunenses. As 
palavras da
Crnica dos Godos, dizendo que por morte de Afonso VI comearam a 
rebelar-se os
sarracenos e que por isso o conde Henrique acometeu e tomou Sintra, do o 
mximo
grau de probabilidade  nossa conjectura. Comeada a guerra nos fins de 
1109, Seir
devia gastar o ano seguinte em reduzir de novo o Gharb muulmano e, assim, 
s veio a
encet-la verdadeiramente na fronteira em 1111. J, porm, no ano 
antecedente algumas
foras almorvidas tinham passado o Tejo, fazendo uma entrada na moderna
Estremadura. O conde de Portugal, vendo o activo general lantunense 
combater e
reduzir as principais povoaes do antigo amirado de Badajoz, enviara tropas 
que
reforassem a guarnio de Santarm. Marchavam descuidados os homens de 
armas do
conde; acamparam num stio denominado Vatalandi e comeavam a levantar 
as tendas
para repousar quando de improviso um grosso corpo de sarracenos, sabendo 
que era
pouco avultado o nmero dos cristos, os atacou, passando provavelmente o 
Tejo.
Salteados assim repentinamente, estes foram destroados com grande 
mortandade,
ficando no campo Surio Fromarigues, que os capitaneava, e outro cavaleiro 
notvel
chamado Mido Crescones. Na Primavera do ano seguinte, Seir, submetidas as 
cidades
mais importantes do Gharb, ps cerco a Santarm, a qual se rendeu em Maio 
ou Junho
desse mesmo ano, e nada induz a crer que o conde socorresse este ponto 
extremo dos
seus domnios ou que ao menos tentasse inquietar os sarracenos 108 . Foi, 
todavia,
durante estes dois meses que Henrique residiu em Portugal, depois da sua 
volta de
108 Conde, p. 3, c. 25; Abdel-Halim (alis Ibn Abi Zar), Histria dos 
Soberanos Maometanos, p. 178; a
Chronica Gothorum (na Monarquia Lusitana, T. 4, f. 272 v.) pe a tomada de 
Santarm nos fins de
Maio, e o Cronicon Lamecense (nas Dissertaes Cronolgicas, T. 4, P. I, p. 
174) nos fins de Junho.
Conde diz: Syn-Ben Bekir tom las ciudades de Zintiras, Badajoz, Jabora, 
Bortecal y Lisbona, y todos
los pueblos que tenian ocupados los christianos, o no habian tomado la voz de 
los almoravides, Conde,
ibid.; Seir retook the cities of Shantireyn, Batalis, Bortokal, Yeborah and 
Alisbnah, and purged the
whole of those western provinces from the filth of the infidels, Al-Makkari, 
verso de Gayangos, Vol. 2,
p. 303. Al-Makkari coloca estes sucessos em 1110, o que no concorda com a 
data estabelecida pelos
cronicons cristos..117
Frana e de Arago e antes de se ligar de novo com Afonso I para a guerra 
contra D.
Urraca. Um diploma exarado no mesmo dia em que, segundo a Crnica dos 
Godos,
Santarm caa em poder dos muulmanos alguma luz derrama para se 
descortinarem as
causas que tolhiam ao conde o socorrer as suas fronteiras meridionais.  ele o 
foral de
Coimbra. Sesnando, atraindo para ali a populao crist, no organizara o 
municpio,
contentando-se os novos habitadores com lhes ser assegurada por um ttulo 
geral a
posse hereditria das propriedades rsticas ou urbanas que se lhes 
distribuam. Depois,
por quase meio sculo, Coimbra fora a capital de um distrito, e ainda no tempo 
de
Henrique se podia considerar como a principal cidade do condado ou provncia 
de
Portugal; mas uma tradio, que os documentos contemporneos parece 
confirmarem,
nos assegura que o genro de Afonso VI estabelecera em Guimares a sua 
corte, se tal se
pode dizer de uma residncia incerta e quase anualmente interrompida. 
Coimbra, posto
que, como vimos, fosse frequentada do conde, o qual por vezes fez a larga 
assistncia,
tinha, como todos os lugares principais, governadores prprios sujeitos a ele, 
segundo o
sistema hierrquico da monarquia leonesa. Estes governadores, com os seus 
oficiais,
provavelmente vexavam os habitantes, que no possuam ainda os largos 
privilgios
municipais atribudos j nessa poca a povoaes menos importantes. 
Segundo parece
poder concluir-se das aluses obscuras do diploma a que nos referimos, os 
moradores de
Coimbra, oprimidos por uns certos Munio Barroso e Ebraldo ou Ebrardo, talvez 
chefes
militares, talvez exactores de fazenda, amotinaram-se, expulsando-os da 
cidade. Devia
suceder isto durante a ausncia do conde. Voltando, ele se dirigiu a Coimbra; 
mas os
habitantes resistiram-lhe, e Henrique teve de pactuar com eles. O resultado 
destes
sucessos foi obter a povoao uma carta de foral com amplos privilgios, 
especificando-se
as contribuies e declarando-se expressamente que nem Mnio Barroso nem
Ebraldo tornariam a ser admitidos dentro dos seus muros, e que o conde, 
satisfeito de o
haverem enfim recebido, poria em esquecimento tudo o que contra ele tinham 
at quele
dia praticado 109 .
Entretanto Seir, fortificada e guarnecida Santarm e as outras praas tanto de
cristos como de muulmanos submetidas por ele ao imprio almorvida, 
voltara para
Sevilha. Entrado em avanada idade, este clebre capito a faleceu pouco 
depois, sem
poder continuar no Ocidente da Pennsula a guerra que por este lado parece 
lhe estava
particularmente incumbida. Com a sua morte, Portugal respirou, e as correrias 
dos
sarracenos dirigiram-se principalmente contra a provncia de Toledo, cujas 
cercanias,
tendo debalde tentado tomar aquela cidade, deixou taladas o vli de Crdova, 
Mezdeli.
A Espanha crist oferecia ento o triste espectculo de que tantas vezes foi 
teatro
antes e depois destes sucessos. Enquanto os infiis invadiam as fronteiras, a 
guerra civil
encruecia cada vez mais no seio dela. Era no mesmo tempo em que os 
almorvidas
faziam recuar as fronteiras de Portugal que os condes Gomes Gonalves e 
Pedro de
Lara, lisonjeados com o valimento da rainha e esperanados ambos de que o 
divrcio de
D. Urraca lhes abrisse o caminho do trono, ajuntavam os partidrios desta para
acometerem o rei aragons, que durante a sua passageira reconciliao com a 
rainha se
109 Carta aos povoadores de Coimbra, nas confirmaes sucessivas de 
Afonso VI de 1085 e 1093, Livro
Preto, f. 7; Vita S. Geraldi, c. 8, em Baluzio, Miscelnea, T. 3, p. 185; 
Doao a A. Tibaldi, em
Figueiredo, Histria de Malta, T. 1, p. 17. Este documento  dado como 
suspeito por J. P. Ribeiro
(Dissertaes Cronolgicas, T. 1, p. 174); mas no tendo carcter algum de 
falsidade  excepo da data
errada, esse erro se pode supor cometido pelo copista, por ser um traslado do 
sculo XIII; Colimbriam
nunquam dabo per alcavallam (alis cavallariam) alicui. Non introducam 
Munium Barrosum vel
Ebrardum (alis Ebraldum) Colimbriam... Promittimus non tenere in mente vel 
corde malam voluntatem
vel iram de hoc quod nunc usque egistis adversum nos, sed habetimus gratum 
quod colligistis nos, et
honorabimus vos sicut melius potuerimus, et nunquam in vestrare vel in vestris 
corporibus habebitis
deshonor vel perdida, ibid..118
apoderara de Toledo 110 . Como j observmos, a liga entre o conde de 
Portugal e
Afonso I renovou-se naturalmente por estes meses, e Henrique, apaziguada a 
rebelio de
Coimbra, apressou-se a ir ajuntar-se com o seu aliado. Unidos ambos, pouco 
tardou que
chegassem a um encontro decisivo com os leoneses e castelhanos. Os condes 
Gomes
Gonalves e Pedro de Lara vieram esper-los em Campo de Espina, poucas 
lguas ao
nordeste de Seplveda, no distrito de Segvia. Lara, apenas comeada a 
peleja, fugiu,
deixando o conde Gomes lutar sozinho com as foras de Afonso I e do seu 
aliado, que o
venceram e mataram 111 . Obtida esta vitria (Novembro de 1111), orei de 
Arago
passou o Douro e invadiu o territrio leons. Entretanto o bispo de Compostela,
Gelmires, com os principais fidalgos e cavaleiros da Galiza, dirigiram-se  
cidade de
Leo para a aclamarem Afonso Raimundes. Soube-o o rei de Arago, e, 
marchando ao
encontro deles, acometeu-os de improviso entre Astorga e Leo no lugar 
chamado Fonte
de Angos ou Viadangos. Depois de tenaz resistncia, os galegos foram 
destroados, e
Gelmires, enviando o moo prncipe para a fortaleza de Orsilln, em Castela, 
onde
ento se achava D. Urraca, retirou-se com as relquias das tropas galegas para 
Astorga e,
demorando-se a apenas trs dias, voltou a Compostela, fazendo um largo 
rodeio, a fim
de evitar o encontro dos vencedores 112 .
Nesta faco, porm, interviera s o rei aragons abandonado j pelo conde de
Portugal. Imediatamente depois da batalha de Campo de Espina o exrcito dos 
dois
aliados entrara em Seplveda. Os fidalgos castelhanos recorreram ento aos 
meneios
ocultos para os dividir. Mandaram afeiar a Henrique o haver-se unido ao 
inimigo
comum da monarquia contra os outros bares de Leo e Castela. Pediam-lhe 
que se
apartasse do aragons e que viesse ajuntar as suas foras s deles, 
prometendo fazerem-no
seu chefe nestas guerras e induzirem a rainha a repartir fraternalmente com ele 
uma
parte dos estados de Afonso VI. Alguns fidalgos, aos quais o prendiam laos da 
antiga
amizade, invocavam, at, as recordaes do passado para mais o moverem. 
Cedeu,
enfim, o conde a estas sugestes, e para no despertar as suspeitas do rei de 
Arago
pretextou a ocorrncia de negcios que o chamavam aos seus domnios 113 , 
Ento,
partindo de Seplveda, veio ao castelo de Monzn 114 , onde se achava a 
rainha, a qual
confirmou as promessas feitas ao conde pelos bares seus parciais. 
Esperando assim ver
realizados os desgnios de engrandecimento que concebera, Henrique no 
tardou a
declarar-se pelo partido de D. Urraca 115 . Esta, apenas seu filho chegou ao 
castelo de
Orsilln ou de Monzn, deixando-o entregue a alguns cavaleiros em que mais 
confiava,
partiu para a Galiza, atravessando as montanhas de Oviedo no corao do 
Inverno,
posto que este fosse naquele ano rigorosssimo. Dali encaminhou-se na 
Primavera de
110 Era MCXLIX, El-Rey d'Aragon en 14 dias cal. De Maio entr em Toledo e 
regn, Anales
Toledanos, I (1111), na Espaa Sagrada, T. 23, p. 387. Veja-se o que a este 
propsito observa Berganza
(Antiguedades, T. 2, p. 7), atendendo  escritura n12 do Apndice do Vol. 7 da 
Crnica Beneditina, de
Ypes.
111 Era MCXLIX, VII cal. Novembr. Rex Adefonsus Aragonensis et Comes 
Enricus occiderunt
Comitem D. Gomes in campo de Spina, Anales Complutenses (1111), na 
Espaa Sagrada, T. 23, p.
314; Lucas de Tuy (Cronicon Mundi, na Hispaa Ilustrada, T. 4, p. 103) diz 
que Gomes Gonalves
fora preso e depois morto pelo conde Henrique. Veja-se Rodrigo de Toledo, L. 
7, c. 2.
112 Historia Compostellana, L. 1, c. 68, pargrafo 2. Flores estabelece para 
data destes sucessos o Outono
de 1110. Como advertimos na nota VII no fim do volume, a cronologia da 
Historia Compostellana 
errada. Lucas de Tuy, Rodrigo Ximenes e todos os historiadores pem o 
recontro de Viadangos depois do
de Campo de Espina. Os Anales Complutenses fixam este em Outubro de 
1111, o que  confirmado
pelos Anales Compostellanos, na Espaa Sagrada, T. 23, p. 321.
113 Casi como quien va a ver sus heredades, parti-se de el-rei, annimo de 
Sahagn, c. 21.
114 Parece que  o mesmo a que na Historia Compostellana se chama 
Orsilln, na Castela Velha, onde a
rainha se achava quando se deu a batalha de Viadangos.
115 Annimo de Sahagn, c. 21..119
1112 116 e aos distritos meridionais de Leo, ordenando marchassem para 
aquele ponto
todos os que se lhe conservavam fiis. Mas Afonso I, que entretanto tinha 
engrossado o
seu exrcito com os socorros de vrias partes, ao mesmo tempo que chamava 
novas
tropas de Arago, marchou a cercar Astorga. Sendo, todavia, destroados 
pelos
castelhanos os cavaleiros aragoneses que vinham ajudar os sitiadores, Afonso 
alevantou
o stio e retirou-se para o forte castelo de Penafiel 117 , Entretanto o conde de 
Portugal
ajuntava os seus homens de armas enquanto as tropas da rainha convergiam 
das
Astrias, de Castela e das Estremaduras para se reunirem com ela. Estas 
foras
capitaneadas por Henrique, ao qual acompanhava D. Urraca, avanaram para 
o lado do
castelo de Penafiel nas vizinhanas de Valhadolid e puseram-lhe cerco. Era o 
lugar forte
e bem defendido, e o assdio prolongou-se. Os sitiadores, no entretanto, 
ocupavam-se
em assolar e roubar os territrios circunvizinhos que se dilatam pela margem 
esquerda
do Douro e cujos habitantes se tinham mostrado parciais do prncipe aragons 
118 .
D. Teresa, que durante a ausncia do marido parece ter residido sempre em
Portugal, partira nesse meio tempo de Coimbra para vir unir-se com ele. 
Chegada ao
acampamento, poucos dias tardou em semear a a discrdia, persuadindo ao 
conde que,
antes de tudo, exigisse a diviso dos estados leoneses que lhe fora prometida,
lembrando-lhe que era rematada loucura arriscar a prpria vida e a dos seus 
soldados s
em proveito alheio. Deu-lhe Henrique ouvidos e comeou a apertar para que se
realizassem as promessas feitas. A estas pretenses se ajuntavam outras 
circunstncias
que ajudavam a irritar D. Urraca. Os portugueses que se achavam no exrcito 
tratavam a
irm como rainha 119 . Este ttulo, que alis fora vo, dado  mulher do mais 
poderoso
dos seus bares, daquele que era o principal cabea do exrcito, apontava-lhe 
o alvo em
que a irm e o cunhado punham a mira. A fraqueza do seu sexo incitou-a ento 
a seguir
a poltica tortuosa a que nesse tempo no duvidavam recorrer os mais fortes e 
nobres
cavaleiros. Abrindo relaes ocultas com o rei de Arago, procurou de novo 
congraar-se
com ele e, aproveitando o pretexto de querer satisfazer s pretenses de 
Henrique e
de D. Teresa, levantou o cerco e dirigiu-se com eles para Palncia. A se 
escolheram
rbitros, e a diviso do imprio de Afonso VI se fez, ao menos nominalmente 
120 . O
castelo de Ceia sobre o rio do mesmo nome, que tocara ao conde, lhe foi logo 
entregue,
e resolveu-se que ele, ajudado pelos homens de armas da rainha, marchasse a 
apoderar-se
de Zamora, que era uma das terras mais importantes das que lhe tocavam e 
que
116 Profecta est per gravia itinera et laboriosos montes, frigidos que nivibus et 
glacie praeteritae hiemis,
Historia Compostellana, L. 1, c. 73.
117 Annimo de Sahagn, c. 21; Historia Compostellana, L. 1, c. 73. As duas 
crnicas contemporneas de
Sahagn e Compostela parece contradizerem-se e at certo ponto no 
concordam entre si. A primeira
omite os sucessos de Viadangos e de Astorga e d a entender que Afonso I, 
sabida a mudana do conde
de Portugal, se retirara para Penafiel, enquanto a segunda o faz acolher-se a 
Carrin depois do cerco de
Astorga. Ns atemo-nos ao nico arbtrio que nos parece razovel. O silncio 
de uma das crnicas no
basta para recusar a narrativa da outra, sendo ambas coevas, e por isso, no 
havendo impossibilidade de
tempo ou de lugar que o proba, procurmos ligar os sucessos contidos numa e 
noutra. Quanto ao stio
para onde se retirou o rei de Arago seguimos o annimo de Sahagn, escrito 
mais perto do teatro da
guerra.
118 Eum Carrione (lege Penafideli) obsessit, obessumque diuturno tempore 
tenuit, Historia
Compostellana, L. 1, c. 73, pargrafo 4; annimo de Sahagn, c. 21.
119 La mujer del conde era ya llamada de los suyos reyna, lo qual oyendo la 
reyna mal le sabia,
annimo de Sahagn, c. 21.
120 Se acreditssemos um documento achado ultimamente, esta diviso ter-
se-ia realizado.  o foral de
Auca, em cpia do sculo XIII e sem data, dado por Diogo Vermudez, o tenens 
de Auca, em nome do
conde Henrique e de D. Teresa. No prembulo desse foral narram-se as 
guerras de D. Urraca e do rei de
Arago, e como a filha de Afonso VI, por conselho dos seus bares, dividiu o 
reino com o cunhado. O
que no  fcil  dizer onde era Auca. Veja-se Coleccin de fueros y cartas 
pueblas por la Real Academia
de Historia, Catlogo, 32, Madrid, 1852..120
provavelmente estava ento pelos aragoneses. As duas irms deviam 
entretanto
recolher-se  cidade de Leo 121 .
Tais eram as intenes patentes de D. Urraca, mas bem diversas as ocultas. 
Aos
cavaleiros que iam na companhia do conde ordenou em segredo que, tomada 
Zamora,
no lha entregassem, e ao mesmo tempo mandou prevenir a guarnio de 
Palncia de
que, se Afonso I para ali se encaminhasse, lhe abrissem as portas. Depois 
disto dirigiu-se
 vila de Sahagn, cujos habitantes eram fautores daquele prncipe e por isso
facilmente os persuadiu .a fazerem o mesmo. Da, separando-se primeiro de D. 
Teresa,
recolheu-se efectivamente a Leo, conservando-se no entanto a condessa de 
Portugal no
clebre mosteiro de Sahagn, contra cujos monges como senhores da vila o 
dio dos
burgueses era grande e causa do seu aferro  parcialidade aragonesa. A 
partida de D.
Urraca, abandonando ali a irm, parece ter sido resultado de acordo secreto 
com o rei de
Arago, porque este entrou de repente na vila e, sabendo que D. Teresa fugira, 
mandou
aps ela tropas que a perseguissem, mas que no puderam alcan-la 122 .
A notcia da traio de D. Urraca brevemente chegou aos ouvidos de Henrique,
talvez pela boca da infanta sua mulher fugida de Sahagn.  fcil de supor qual 
seria a
indignao do conde, vendo-se assim escarnecido e transtornados os seus 
desgnios. Os
nobres de Leo e Castela, a quem sobretudo era odioso o domnio do rei de 
Arago,
mostraram-se inclinados a favorecer Henrique, desaprovando o procedimento 
da rainha.
Aproveitou o conde esta irritao dos nimos e com os outros bares ofendidos 
resolveu
prosseguir contra os dois a guerra que at ento tinha feito unicamente ao 
prncipe
aragons.
D. Urraca, partindo de Sahagn, pouco tempo se demorara em Leo, aonde o
marido se foi unir com ela, havendo-lhe sado baldada a tentativa da priso de 
D.
Teresa. Sabida esta nova, o conde de Portugal e os bares seus aliados 
marcharam a pr
stio a Carrin, para onde Afonso e D. Urraca tinham entretanto voltado. Breve, 
porm,
acabou o assdio, porque  diz um escritor contemporneo  os nobres, alm 
do respeito
que deviam  filha de Afonso VI, estavam certos de que, atento o gnio do rei 
aragons,
poucos dias duraria a concrdia entre ele e sua mulher. No parece este 
motivo o mais
provvel para assim abandonarem a empresa; mas, fosse essa ou diversa a 
causa do
sucesso,  certo que Henrique se retirou com os outros nobres que a ele se 
haviam
associado 123 .
Se atendermos a que o cerco de Penafiel, de que acima falmos e a que
precederam diversos acontecimentos posteriores  batalha de Campo de 
Espina, s
poderia verificar-se no Vero de 1112, os variados sucessos que havemos 
referido
deviam ocupar o Outono deste ano. Quais fossem, porm, as aces do conde 
depois de
levantado o cerco de Carrin nenhum monumento contemporneo no-lo diz.  
crvel
andasse empenhado em obter pelas armas ou por outro qualquer meio os 
senhorios que
sua cunhada lhe cedera para trair a causa do rei aragons. Entretanto este, 
cuja
reconciliao com D. Urraca no era seno um clculo de cobia, apenas se 
achou livre
do cerco procurou afast-la de si. Com promessas lisonjeiras e por interveno 
dos seus
hbeis conselheiros alcanou, enfim, resolv-la a ir administrar o Arago 
enquanto ele
ficava ordenando as coisas da monarquia leonesa. Partiu com efeito a rainha; 
mas pouco
tardou a receber novas das violncias que nos seus estados continuava a 
praticar o
marido. Desde ento resolveu-se a voltar; mas, seguindo o exemplo de Afonso, 
que
soubera criar um partido entre castelhanos e leoneses, buscou iguais alianas 
entre os
sbditos dele, chamando a si alguns nobres aragoneses descontentes, ao 
mesmo tempo
121 Annimo de Sahagn, c. 21.
122 Id., ibid.
123 Id., c. 23..121
que trabalhava por criar ou renovar simpatias em Leo e Castela. Afonso I, 
sabendo que
sua mulher regressara, pensou em embargar-lhe os passos, ou desvanecendo 
a ira de que
ela vinha possuda ou prendendo-a, se as circunstncias o permitissem. Nem 
uma nem
outra coisa obteve. A parcialidade da rainha engrossara a ponto de se fazer 
temer, e a
confiana nos seus parciais animava D. Urraca a abandonar o sistema da 
dissimulao.
As discrdias renovadas entre os dois consortes chegaram a termos de 
separao e logo
de guerra, que se dilatou, segundo parece, por algum tempo 124 .
Concebe-se facilmente qual seria o estado de um pas, em cujo solo se viam 
ainda
os tristes vestgios das correrias dos sarracenos, convertido agora em teatro de 
longas e
deplorveis lutas civis. Nobres e burgueses tinham sido vtimas das dissenses
suscitadas ou favorecidas por eles prprios. O desejo da paz devia ter ganhado
incremento no meio de tantas devastaes e de tanto sangue vertido em vo. 
As igrejas
roubadas; muitos personagens notveis do clero e da fidalguia mortos a ferro, 
presos ou
fugitivos; os pees perecendo de nudez e de fome ou passados  espada; tal  
o quadro
que nos apresenta um historiador desse tempo 125 , lanando-o  conta do rei 
de Arago,
mas em que  de crer fossem culpados os diversos partidos. , todavia, certo 
que
Afonso I, empregando nestas guerras gente colectcia de alm dos Pirenus e 
dotado de
um gnio to violento e feroz como valoroso, devia ter maior quinho nos 
males
cometidos, posto que muito se haja de rebaixar nas acusaes dos seus 
inimigos. Mas,
devido a uns ou a outros, o estado das coisas era intolervel., e alguns bares 
leoneses e
castelhanos com os cabeas populares dos mais poderosos municpios de 
Leo
ajuntaram-se em Sahagn com o propsito de constranger os dois consortes a 
darem
trguas s suas discrdias e a deixarem, enfim, respirar a nao das 
calamidades que
padecia. Exigiam que o rei de Arago guardasse as condies estabelecidas 
quando, em
consequncia das pretenses do conde de Portugal, D. Urraca se congraara 
com ele em
Penafiel. Falto acaso de foras para quebrar com a assembleia que assim lhe 
impunha a
lei, o prncipe aragons valeu-se da dissimulao; fingiu reconciliar-se com a 
rainha e,
tendo-se demorado algum tempo em Carrin, veio com ela residir em Astorga 
126 .
A dobrez de Afonso I logo se tornara visvel. Com pretextos e evasivas dilatava 
o
cumprimento das promessas que fizera. Entre estas era a principal tirar os 
castelos
pertencentes a sua mulher das mos dos aragoneses. Passando pela cidade 
de Leo ao
dirigir-se a Astorga, recusou entregar o alcaar desta cidade, apesar de D. 
Urraca assim
o requerer. Era evidente que a pacificao obtida  fora pelos povos no 
duraria largo
tempo. A primeira circunstncia que, se oferecesse para nova ruptura havia de 
ser
aproveitada por ele, e tal circunstncia no tardou a aparecer.
Estes sucessos passavam nos primeiros meses de 1114. Posto que, no meio 
das
inquietaes e bandos em que figuraram tantos indivduos eminentes, os factos 
relativos
ao conde de Portugal sejam muitas vezes esquecidos nas incompletas e 
informes
memrias desse tempo, todavia, se dermos crdito a um documento acerca do 
qual no
nos ocorre dvida, mas que j foi impugnado, ao menos na sua data, Henrique 
ligou-se
com a rainha quando ela, tendo voltado de Arago, se achava mais uma vez 
separada do
marido 127 , Foi no meio destas repetidas discrdias 128 e pacificaes 
passageiras que
findou a carreira das ambies e esperanas do conde, atalhando-lhe a morte 
os
desgnios; mas o modo, o lugar e as particularidade deste sucesso cobre-os 
vu
124 Annimo de Sahagn, c. 27, ad unem.
125 Historia Compostellana, L. 1, c. 79.
126 Annimo de Sahagn, c. 29. Compare-se com a Historia Campostellana, L. 
1, c. 80.
127 Documento na Espaa Sagrada, T. 38, p. 347. Veja-se a nota VII no fim do 
volume.
128 Ibid., T. 36, Apndice 43. Por este documento se v que a 12 de Abril 
ainda durava a separao..122
impenetrvel. Sabemos s que ele faleceu no 1 de Maio do ano de 1114 129 . 
A narrao
do annimo de Sahagn faz suspeitar que, durante a residncia de Afonso e D. 
Urraca
em Astorga, Henrique os seguira e ali morrera 130 o que de certo modo  
fortificado pela
tradio dos cronistas portugueses, que o do por morto naquela cidade, posto 
que essa
tradio revista o facto das circunstncias extraordinrias e fabulosas com que 
a
imaginao do povo costuma poetizar a histria 131 .
Voltemos agora os olhos para o passado e observemos qual era a verdadeira
situao poltica de Henrique no momento de falecer. Levado pela natureza 
das coisas e
ainda mais pela ambio a representar um papel importante no meio da guerra 
civil que
devorava a monarquia, conhece-se pelos actos dos ltimos quatro anos da sua 
vida que a
todas as consideraes ele ante-punha o pensamento de obter para si, no s 
a indepen-dncia
do condado cujo governo subalterno alcanara da generosidade do sogro, mas
tambm largo quinho nas outras provncias limtrofes, de modo que Portugal 
se
convertesse em ncleo de um poderoso estado no Ocidente da Pennsula. Pelo 
tratado de
diviso que a necessidade de o atrair ao seu partido obrigou D. Urraca a 
celebrar com
ele, sabemos lhe ficava pertencendo Zamora, cujo distrito se dilata pela 
fronteira
oriental do nosso pas. E se outro tratado entre a rainha e D. Teresa, de que 
adiante
havemos de falar, assentava, como suspeitamos, sobre este pacto anterior 
feito com o
conde, vemos por ele que esses territrios abrangiam a maior poro das 
provncias a
que ento chamavam de Campos e das Estremaduras e hoje se denominam 
de
Valhadolid, Zamora, Toro e Salamanca.  provvel que j nos ajustes feitos 
com
Afonso I para repartirem entre si a monarquia leonesa o conde tivesse 
escolhido estas
provncias. Assim, se ele morreu depois da ltima reconciliao de Afonso com 
D.
Urraca, achando-se nessa ocasio aliado com a rainha e tendo direito pelas 
convenes
anteriores a exigir de ambos a cesso daqueles distritos, seria ofender todas as
probabilidades o imaginar que no cuidasse ento seriamente em realizar um 
facto a que
dedicara todos os seus esforos e para o qual trabalhava j, como vimos, em 
vida de
Afonso VI.
No comum sentir dos nossos historiadores o conde borgonhs havia chegado 
aos
setenta e sete anos de idade quando faleceu; mas esta opinio envolve graves
dificuldades. Ele teria nascido, por esse clculo,, em 1037, pouco mais de trinta 
anos
depois do nascimento de seu av Roberto, o que torna essa data quase 
impossvel, tanto
mais se nos recordarmos de que ele era quarto filho de Henrique e este o 
segundo
daquele prncipe 132 . A actividade militar do conde nos ltimos tempos da sua 
vida,
junto a estas consideraes, nos persuadem a supor-lhe quando morreu a 
idade de cin-quenta
a sessenta anos. O seu cadver foi transportado de Astorga para Braga, em 
cuja
catedral jazem ainda hoje os restos daquele que, at certo ponto, se pode 
chamar o
fundador da nacionalidade portuguesa.
Se Henrique fora ambicioso, no o era menos sua mulher. Apenas soube que 
ele
falecera, apareceu na corte de Astorga. Armava grande competncia  diz um
contemporneo  com sua irm e com o rei. Que outra podia ser essa 
competncia seno
a das pretenses do marido? Mas o guerreiro conde descera ao sepulcro, e a 
sua espada,
que luzira ao sol de tantas batalhas, jazia ao lado dele debaixo da campa. 
Sobravam 
129 Cal. Maii obiit comes D. Henricus, Chronica Gothorum, era 1152. 
Veja-se especialmente sobre
esta matria a nota VII no fim do volume.
130 ...entrambos fueronse para Astorga. Muerto el conde Enrique, D. Theresa 
all se fu,  con la reyna
su hermana  con el rei gran competencia armaba, annimo de Sahagn, c. 
29.
131 Livro das Linhagens, atribudo ao conde D. Pedro, tit. 7; Galvo, Crnica 
de El-Rei D. Alonso
Henriques, c. 4; Acenheiro, Crnica dos Reis de Portugal, c. 2.
132 Exame comparativo das Crnicas Portuguesas, nas Memrias da 
Academia, T. 11, p. 2, pp. 31 e 32;
Art de vrifier les dates, T. 3, p. 2, p. 14, col. 2..123
infanta ambio, energia, pertincia: faltava-lhe um brao de homem para 
sustentar o
bom ou mau direito que supunha ter; faltava-lhe o ferro, que a poltica, em 
todos os
tempos, costumou e costuma lanar na balana em que se pesam as 
contendas dos
prncipes ou dos povos. Recorreu s armas de que a sua fraqueza mulheril 
podia tirar
tanta vantagem como o marido tirara do esforo e percia militar: empregou a 
astcia.
Por interveno de um indivduo de cujas artes se fiava, teve modo de 
persuadir o rei de
Arago de que sua mulher intentava dar-lhe peonha, acusao, talvez, no 
inteiramente
infundada 133 . Afonso, que nada desejava tanto como um pretexto para punir 
a rainha,
sem que lhe fugissem da mo os vastos estados de que ela era a legtima 
herdeira, deu
ou fingiu dar crdito  revelao que lhe fora feita. Perante os nobres que 
estavam na
corte, acusou-a do intentado assassnio, para assim se justificar do 
procedimento que
determinava seguir, e este era o separar-se dela. Segundo o costume daqueles 
tempos,
recorreu a rainha  prova do combate, escolhendo um cavaleiro que 
mantivesse na
estacada a sua inocncia; mas o rei negou-se a aceitar o chamado juzo de 
Deus,
fazendo-se julgador da prpria causa. Debalde os condes de Castela e at os 
bares
aragoneses que se achavam presentes procuraram sossegar os nimos 
irritados dos dois
consortes: D. Urraca foi expulsa de Astorga seguida de poucos cavaleiros, que 
no
quiseram abandon-la naquela desgraada conjuntura 134 .
A violncia de Afonso, que recusara a sua mulher um meio de justificao
considerado como o mais solene a que um ru podia recorrer para se mostrar 
alheio 
imputao do crime, produziu geral descontentamento. Os prprios aragoneses 
que
guarneciam as torres da antiga capital da monarquia, a cidade de Leo, 
abriram as portas
do castelo  desterrada princesa. Os burgueses, que at a se haviam 
mostrado mais
favorveis ao rei de Arago que a D. Urraca, uniram-se ao partido dela. Os 
concelhos de
Burgos, de Naxera, de Carrin, de Leo e de Sahagn, juntos nesta ltima vila 
com
muitos nobres, ou porque ainda se no houvesse dissolvido a passada 
assembleia ou
porque de novo se congregasse, mostraram-se to resolutos em sustentar as 
condies
juradas por Afonso I que este, obrigado a declarar-se abertamente e no 
podendo resistir
 torrente, saiu a ocultas de Sahagn e quase como fugitivo recolheu-se aos 
seus
estados. Ento os nobres e burgueses reconheceram por toda a parte, nas 
vilas e
castelos, a autoridade da rainha 135 .
D. Teresa ficara residindo em Astorga quando sua irm fora expulsa. Ali 
pactuara
aliana com o rei de Arago; mas os acontecimentos de Sahagn vinham 
coloc-la
numa situao excessivamente dificultosa. Os seus domnios eram demasiado
circunscritos: no podia achar neles recursos contra a irm ofendida 
mortalmente por
ela. O seu aliado, que se retirara para os prprios estados, s de modo 
indirecto poderia
ser til a Portugal, divertindo as armas leonesas para as fronteiras de Castela. 
Por outra
parte, a morte do conde, sucedida antes de ele obter definitivamente a posse 
de uma
parte da monarquia em que pudesse constituir um reino independente e assaz 
importante
para se fazer respeitar, deixava, at, a provncia que Afonso VI lhe dera para 
governar
ligada virtualmente a Leo, e se D. Teresa quebrasse os laos de obedincia 
que a uniam
 irm, esse acto seria considerado como flagrante rebelio 136 .
A infanta de Portugal debaixo de gesto anglico 137 escondia o nimo sagaz e 
vivo
133 Orderico Vital afirma positivamente que D. Urraca tentara envenenar o 
marido: Urraca... ei
(Hildefonso) perniciem tam veneno, quam armis machinata, Historia 
Eclesistica, L. 13.
134 Annimo de Sahagn, c. 29.
135 Historia Compostellana, L. 1, c. 80; annimo de Sahagn, c. 30.
136 Considerando [D. Teresa] que para se rebelar la fortuna no le abastaba, 
annimo de Sahagn, c. 29.
137 A formosura de D. Teresa foi celebrada pelos seus contemporneos. Veja-
se Bernardo, Vita B.
Geraldi, c. 8, em Baluzio, Miscelnea, T. 3, p. 185; documento nas 
Dissertaes Cronolgicas, T. 3, p.
1, p. 45, n 136..124
que lhe atribui um escritor, o qual devia conhec-la e trat-la de perto, ao 
menos durante
a sua residncia em Sahagn 138 . Os factos de catorze anos em que regeu a 
provncia
cujo governo lhe legara o marido provam que o monge cronista se no 
enganara em
assim a qualificar.  durante esse perodo que a nacionalidade portuguesa 
comea a
caracterizar-se bem, e  poltica de D. Teresa se deve, at certo ponto, o 
nascer e
radicar-se em Portugal aquele sentimento de individualidade que constitui 
barreiras
entre povo e povo mais slidas e duradouras que os limites geogrficos de 
duas naes
vizinhas. Como a infanta evitou as consequncias das dificuldades em que se 
lanara e
como aproveitou as discrdias civis da Espanha crist para ir fundando a 
independncia
dos seus estados, v-lo-emos subsequentemente. Agora observemos mais de 
perto qual
era a situao especial da monarquia leonesa, de que ainda o nosso pas fazia 
parte,
quando a paz do sepulcro veio atalhar as lidas e intentos do ambicioso conde 
de
Portugal.
J anteriormente narrmos quais perturbaes agitaram a Galiza depois das
primeiras discrdias entre Afonso e Urraca. O bispo Gelmires, declarando-se 
pelo
partido do filho do conde Raimundo, restabelecera momentaneamente a paz. 
Novas
dissenses, porm, se alevantaram entre os bares daquela provncia, 
movidos por
interesses obscuros e dando largas a violentas paixes  sombra da fraqueza 
do poder
real, que disputavam entre si o prncipe aragons, a rainha e o infante Afonso
Raimundes, ou antes os bares e prelados que se chamavam seus defensores. 
Quando D.
Urraca se divorciava do marido ligava-se com os parciais do filho; quando se
reconciliava com aquele mostrava-se adversa a estes. Mas, em realidade, cada 
um dos
personagens que figuravam naquele drama, quer prncipes, quer senhores, s 
pensava
em tirar das desgraas pblicas a maior vantagem possvel. As alianas 
faziam-se e des-faziam-
se rapidamente, porque nenhuma sinceridade havia no procedimento dos
indivduos. Os interesses particulares dos nobres e prelados cruzavam-se com 
as
questes polticas e modificavam-nas diversamente. Era a anarquia descendo 
dos paos
para os municpios e ensinando-lhes com a licena a liberdade, porque, 
faltando a fora
 autoridade pblica, os burgueses, no meio das vexaes de uma fidalguia 
desenfreada,
valiam-se dos prprios recursos para se defenderam e vingarem dos seus 
opressores.
Talvez, durante a Idade Mdia, nenhuma poca da histria peninsular oferea 
tantos
vestgios da influncia municipal nos acontecimentos polticos, tantas 
resistncias das
vilas contra o domnio dos senhores, tantos cometimentos das povoaes 
contra os
castelos que as assoberbavam, como o primeiro quartel do sculo XII. Mas isto 
que era
um bem absoluto, um elemento de ordem futura, porque ia estabelecendo o 
equilbrio
entre as diversas classes, era relativamente um mal e mais uma causa de 
confuso e de
derramamento de sangue: tendia a produzir a desmembrao do pas; porque 
as
provncias e distritos, no s moralmente, mas tambm materialmente, se 
dividiam uns
dos outros. Assim, durante os sucessos que narrmos, a Galiza, principalmente 
adicta ao
infante Afonso Raimundes, vira rebentar no seu seio uma revoluo de 
alcaides de
castelos e senhores de terras que tomara por bandeira o nome do rei de 
Arago e se
derramara ao sul pelo extenso territrio entre o Ulla e o Minho. Entretanto o 
bispo de
Santiago, Gelmires, que pelo seu engenho enredador e manhoso soubera 
obter grande
influncia naquela provncia, ajuntara um poderoso exrcito para combater os
levantados, e a parcialidade aragonesa foi vencida. No deixaram, porm, as
perturbaes de se protrarem ainda por algum tempo 139 .
D. Teresa achava-se viva, e de trs filhos que lhe deixara o conde um s era
138 Un saber astuto e ingenioso, annimo de Sahagn, c. 29. O autor desta 
importante crnica era
companheiro do abade Domingos, eleito em 1111.
139 Historia Compastellana, L. 1, c. 74 e ss..125
varo, e esse, o infante Afonso Henriques, apenas de dois ou trs anos de 
idade 140 . O rei
de Arago, com quem ela se ligara em Astorga, era na verdade um poderoso e 
activo
aliado. Mas, repelido de Leo pela assembleia de Sahagn, e perdido o alcaar 
de
Burgos (ento capital de Castela) com muitos outros lugares fortes que ou se 
rendiam s
tropas de D. Urraca ou estavam estreitamente cercados, Afonso I fez 
proposies de
trguas, que foram aceitas 141 . Desapressada assim da guerra, podia a rainha 
vingar-se
do mal que sua irm tentara causar-lhe. No o fez. As actas das cortes de 
Oviedo, de que
adiante havemos de falar, persuadem que a infanta dos portugueses recorrera 

submisso para evitar a procela; mas o que no parece menos provvel  que 
o
esquecimento da passada injria no fora em D. Urraca pura longanimidade. 
H muitas
vezes na histria ao lado dos factos pblicos outros sucedidos nas trevas, os 
quais
frequentemente so a causa verdadeira daqueles e que os explicariam se 
fossem
revelados. Mas ordinariamente, no passando de enredos obscuros, a notcia 
de tais
factos morre com os que neles intervieram, e o mais que ao historiador cabe, 
quando cr
descortin-los,  apontar as suas suspeitas e deixar aos que o lem avaliar o 
fundado ou
infundado delas.  tal doutrina aplicvel s consideraes que vamos fazer;
consideraes que, a serem exactas, lanam bastante luz sobre a poca de 
que tratamos e
sobre sucessos posteriores, alis inexplicveis.
Desde a morte de Fernando Magno a diocese do Porto, como quase todas as
dioceses do moderno Portugal, carecia de bispo e era governada por 
arcediagos. No
reinado de Afonso VI a s portugalense estava unida  de Braga, e esta 
mesma,
metropolitana da Galiza, achou-se por alguns anos sem pastor nos tempos que
precederam a eleio de Giraldo. At pouco antes do falecimento do conde 
Henrique as
coisas conservaram-se no mesmo estado. Nos fins, porm, de 1112 ou, o que 
 mais
certo, entrado o ano de 1113, o francs Hugo, arcediago da s de Compostela, 
fora
escolhido para bispo do Porto e sagrado no ano seguinte pelo metropolitano 
bracarense
Maurcio Burdino. Hugo era homem inteiramente estranho ao clero portugus, 
e no nos
consta residisse jamais em Portugal ou a ele viesse, seno em companhia de 
Gelmires,
anos antes, para roubar certas relquias. Era Hugo, alm disso, entre os 
cnegos de
Compostela o amigo ntimo do bispo e a pessoa a quem este incumbia com 
especiali-dade
de ir tratar em Roma os seus negcios mais rduos. A devoo do arcediago 
para
com Diogo Gelmires foi ilimitada, no s nessa poca, mas ainda depois, 
quando, j
iguais ambos no episcopado, ele empreendia novas viagens para servir na 
Cria romana
de simples procurador ao seu antigo patrono, o qual acompanhou para 
Compostela
depois de bispo, no aparecendo memrias dele em Portugal seno em tempo 
bastante
posterior. A escolha, portanto, de um homem que nem sequer tinha ainda o 
grau de
presbtero quando foi eleito e que residia em uma provncia que, segundo 
havemos
visto, estava em relaes hostis com Portugal, teve necessariamente causas
extraordinrias. Outras circunstncias se deram nesta elevao de Hugo, 
relatadas por
escritor contemporneo e testemunha ocular dos sucessos que narra, as quais 
vo rasgar
um pouco mais o vu que nos encobre as causas probabilssimas, no s dos
acontecimentos desse tempo, mas ainda dos subsequentes 142 .
Era no Inverno de 1113 para 1114 143 . Maurcio resolvera ir a Tui sagrar o 
novo
bispo do Porto e juntamente o de Mondonhedo, eleito por esse mesmo tempo. 
O
arcebispo convidou para assistir a esta solenidade o prelado compostelano, a 
cujo
140 Duorum vel trium annorum, Chronica Gothorum.
141 Historia Compostellana, L. 1, c. 83 a 90.
142 Flores, Espaa Sagrada, T. 21, pp. 56 e si.; Dissertaes Cronolgicas, T. 
1, pp. 149 e si., e T. 5, p.
180; Bernardo, Vita B. Giraldi, c. 5; Historia Compostellana, L. 1, passim.
143 Nota VIII no fim do volume..126
cabido ambos pertenciam; mas, receoso dos tumultos que agitavam o Sul da 
Galiza, ele
refusou o convite. Ento Maurcio, cujos altivos espritos os sucessos 
posteriores da sua
vida bem mostraram, sabida a recusao de Gelmires, apesar de sair de grave 
e longa
enfermidade e de ser a estao rigorosa, determinou ir celebrar a sagrao dos 
dois
novos eleitos em Lerez, na diocese de Compostela. Fraco e doente, Maurcio
empreendeu to longa jornada, atravessando as agras serras e os profundos 
vales que se
dilatam entre o Cvado e Lerez. Era a causa deste empenho, diz o escritor que 
nos guia,
o desejo ardente que tinha de se ver com Gelmires para tratarem mais 
plenamente de
remover a discrdia, de restabelecer a paz e de dar tranquilidade  Igreja; 
porque, no
meio das dissenses, os pastores no podiam ajuntar-se para os conclios 
provinciais e
nem sequer fazer com segurana a visita das prprias dioceses. Certificado da 
vinda de
Maurcio, o compostelano anuiu aos seus desejos, e aqueles dois clebres 
prelados
encontraram-se, finalmente, em Lerez 144 .
Desta narrativa se v que os negcios polticos, no menos que os 
eclesisticos,
influram na estranha humilhao do arcebispo de Braga, cuja principal virtude 
no era
por certo a abnegao. Tratava-se ao mesmo tempo da paz civil e da 
eclesistica. Uma e
outra s mui remotamente podiam importar a Maurcio pelo que respeitava s
perturbaes da Galiza, em parte da qual apenas tinha a autoridade indirecta 
de
metropolitano, para no serem essas perturbaes causa do seu 
procedimento. Era, pois,
a paz com Portugal que ele pretendia definitivamente assentar; paz que das 
palavras dos
historiador se deduz ter-se j dantes procurado. A eleio de Hugo, do valido 
mimoso
do influente Gelmires, foi acaso o primeiro passo para ela, o preo imposto 
para se
obter. Se no nos enganamos, daqui datam as relaes estreitas e, s vezes, 
misteriosas
de D. Teresa com o poderoso prelado de Compostela; e este facto, passado 
nos ltimos
meses da vida do conde Henrique, mas em que devia talvez exclusivamente 
intervir sua
mulher, ento residente em Portugal, parece-nos ter contribudo mais para 
salvar este
pas e a infanta do que a generosidade de D. Urraca. A influncia de Gelmires 
na Galiza
era ilimitada, e a soberania da rainha nesta provncia mais um ttulo vo que 
uma
realidade; ttulo que obtinha  custa de considerar como associado ao imprio 
seu filho
Afonso Raimundes,  sombra de cujo nome os bares da Galiza dirigidos pelo 
prelado
compostelano gozavam de uma quase independncia. Se, como o que 
havemos relatado
nos leva a acreditar, D. Teresa se ligara com Gelmires, qualquer procedimento 
da rainha
contra ela podia trazer-lhe por esse motivo as graves consequncias que, por 
diversa
causa, no pde pouco depois evitar.
Todavia este estado foradamente pacfico deixava subsistir a incerteza sobre 
a
sorte futura de Portugal. D. Teresa, que durante a vida de seu marido usara 
apenas do
ttulo de condessa e de infanta, e desses mui raras vezes, contentando-se 
ordinariamente
da qualificao mais modesta de mulher do conde Henrique e da de filha de 
Afonso VI,
comeava j a usar promiscuamente nos seus diplomas do ttulo de infanta, de 
rainha e
de ambos juntos. O de rainha prevaleceu por fim: os prprios sbditos, como 
vimos, lho
davam j em vida do conde e, at, o papa, depois a lisonjeava com ele 145 . A 
vastido
144 Historia Compostellana, L. 1, c. 82; et cum Gelmiridem toto mentis affectu 
videre desideraret ut com
illo de discordiae remotione, de pacis reformatione, de ecclesiarum tranquillitate 
plenius pertractaret,
ibid.
145 Dissertaes Cronolgicas, T. 1, pp. 156 e ss., T. 3, P. 1, pp. 30 a 90, T. 4, 
P. 1, pp. 158 e 159. Neste
ltimo lugar vm citados documentos de 1120 em que ainda se d a D. Teresa 
o ttulo de comitissa. A
crnica de Afonso VII diz, falando dela: Mortuo autem Enrico comite 
Portucalenses vocaverunt eam
reginam (Espaa Sagrada, T. 21, p. 348). Este facto  confirmado por um 
documento de 1114 do
Cartulrio de Refios de Lima (Kopke, Apontamentos Arqueolgicos, p. 28), no 
qual se diz, no
prembulo: Ego Taresie filia regis Anfus, depois da data Imperante 
Portugalis Regine Taresie, e no
lugar da robora (equivalente  assinatura) Ego Taresie Infans, donde se v 
que o redactor do diploma.127
relativa dos seus estados e a importncia destes, que aumentava  proporo 
que se
enfraquecia a dilacerada monarquia leonesa-castelhana, davam valor material 
a um
ttulo de que, alis, vulgarmente usavam todas as filhas legtimas dos reis, mas 
que por
isso mesmo mal caberia  filha de Ximena Muniones. Ao passo que a 
condessa de
Portugal aceitava aquela denominao, a provncia cujo governo lhe legara seu 
marido
parece ter principiado poucos anos depois a receber dos prprios habitantes o 
ttulo de
reino 146 .
Mas, considere-se Portugal naquela poca ou como condado ou como 
provncia
ou como reino,  certo que os povos derramados por todo o tracto de terra 
desde o
Minho at o Mondego comeavam a deixar perceber j na segunda e terceira 
dcadas do
sculo XII certo carcter de nacionalidade que no  possvel desconhecer. Os 
sucessos
polticos mostram-no melhor que nenhum outro indcio. Nas guerras civis, a 
que o mal-fadado
consrcio de D. Urraca e de Afonso I deu origem e que se prolongaram por
tantos anos, as dissenses no rebentavam entre um ou outro estado, entre 
uma ou outra
provncia, mas nasciam de distrito para distrito, de castelo para castelo e quase 
de
indivduo para indivduo. Os bares ou nobres principais conhecidos 
vulgarmente pelos
nomes de condes e de ricos-homens, inimigos muitas vezes uns dos outros, 
tomavam
cada qual sua bandeira e satisfaziam dios particulares a pretexto de seguirem 
esta ou
aquela parcialidade. Os clculos dos ambiciosos, as mudanas de opinio, as 
vinganas
de famlia, as modificaes dos partidos, davam frequentemente quelas 
discrdias um
carcter pessoal. A Galiza, cuja histria relativa quele perodo chegou at ns 
mais
particularizada que a das restantes provncias, no nos oferece outro quadro. 
Leo ainda
nos ltimos anos desta sanguinolenta luta apresenta quase o mesmo 
espectculo, a ponto
que na capital do reino vinham s mos os burgueses com os cavaleiros que 
guarneciam
as fortificaes da cidade, aqueles em nome de Afonso Raimundes, estes em 
nome do
conde castelhano Pedro de Lara 147 . Portugal, porm, no meio de tais 
divises,
conservou sempre um notvel aspecto de unidade moral. Fosse qual fosse o 
partido a
que ele se associasse, todos os bares portugueses se mostravam conformes, 
ao menos
passivamente, com o sistema da que, debaixo desse aspecto, podemos 
chamar poltica
externa do pas. Favorecendo o infante Afonso Raimundes, o rei de Arago, ou 
D.
Urraca; fazendo a guerra por conta de um deles ou por interesse prprio, os 
nobres de
Portugal combatiam sempre sob o mesmo pendo, embora tivessem entre si 
malqueren-as
particulares, de que alis no faltam vestgios. Assim o pensamento de
desmembrao e independncia, que  visvel existia j nos nimos de 
Henrique e da
sua viva e que veio a realizar-se completamente no tempo de Afonso 
Henriques,  um
pensamento comum ao chefe do Estado e aos membros dele, sendo talvez os 
actos dos
prncipes ainda mais o resultado da influncia do esprito pblico do que a 
manifestao
espontnea da prpria ambio. Os documentos dos primeiros anos em que 
regeu
ou notrio lhe chamava rainha, ao passo que ela se denominava filha do rei 
Afonso e infanta.
Rodrigo Ximenes, do modo como se expressa (L. 7, c. 5), d a entender que D. 
Teresa usava do ttulo de
rainha durante a vida de seu marido, o que  desmentido pelos documentos 
contemporneos, posto seja
inegvel que os sbditos j ento lho davam, segundo o testemunho do 
annimo de Sahagn, a este
respeito anteriormente citado. Em 1114, Bernardo, arcebispo de Toledo, 
denominava-a infanta dos
portugueses. Em 1116 a bula de Pascoal II Fratrum Nostrorum  dirigida a 
Tarasie regine (Livro
Preto, f. 234); mas o bispo D. Gonalo de Coimbra, seu sbdito, tratava-a por 
infanta neste mesmo ano,
ibid., f. 241.
146 O primeiro documento em que Portugal figura com o ttulo de reino  a 
carta de couto de Osseloa feito
a Gonalo Eriz em 1116 (Dissertaes Cronolgicas, T. 1, p. 245). So, porm, 
to raros os anlogos a
este, antes de Afonso I, que no bastam para se afirmar positivamente coisa 
alguma a semelhante respeito.
Veja-se, todavia, a Memria sobre a Origem do Nome e Limites de Portugal, 
nas Memrias da
Academia, T. 12, p. 2.
147 Historia Compostellana, passim; Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 1, c. 
1..128
Portugal Afonso Henriques, concordes com os da poca de D. Teresa, tendem 
a
confirmar esta suspeita 148 .
Os acontecimentos interiores do condado ou provncia portuguesa nos tempos
imediatos  morte de Henrique ignoram-se, e o silncio das memrias 
contemporneas
prova, pelo menos, que eles foram de bem pequena importncia. As trguas 
propostas
por Afonso I e aceitas por D. Urraca trouxeram, seno uma paz definitiva, ao 
menos
uma suspenso de hostilidades. Mas a ndole do prncipe aragons no lhe 
consentia
depor jamais as armas. Repelido de Castela, voltou ao Arago para renovar a 
guerra
com os sarracenos. Ajudado pelo conde de Perche, Rotrou, assenhoreou-se de 
Tudela
ainda nesse ano e cercou Saragoa, cujo dilatado assdio lhe fez levantar em 
1116 o vli
almorvida de Granada, Abu Mohammed 149 . Entretanto D. Urraca, receosa 
das intrigas
do astuto Gelmires e aproveitando o desafogo que lhe concedia o rei de 
Arago, voltava
 Galiza no ano de 1115. O bispo compostelano, que havia sido maltratado em 
Burgos
por se mostrar contrrio  paz, a qual por outro lado hipocritamente 
aconselhava,
comeara, de feito, naquela provncia a indispor ocultamente os nimos contra 
a rainha.
Intentou ela prend-lo, mas malogrou-se-lhe o intento; porque o soberbo 
prelado
mostrou-se assaz forte e resoluto para lhe resistir. Por interveno dos fidalgos 
galegos
esta discrdia asserenou; porm, os acontecimentos posteriores bem depressa 
mostraram
a pouca sinceridade com que se fizera a reconciliao 150 .
Os ambiciosos desgnios do conde de Portugal, em que sua mulher tomara to
activa parte, pareciam inteiramente abandonados por ela. Nas relaes com a 
rainha de
Leo e Castela, D. Teresa reconhecia a inferioridade da sua situao. Os actos 
que
serviam ento para indicar a sujeio dos grandes vassalos ao imperante no 
eram to
caractersticos como o foram em sculos subsequentes, e ainda mais raros e 
obscuros se
tornavam nas ocasies de bandorias e lutas civis, em que os membros mais 
poderosos
da nobreza procuravam  porfia sacudir todo o jugo da obedincia, para lhes 
impor o
qual muitas vezes faltava a fora. Assim, no estudo das fases polticas daquela 
poca,
importa no desprezar as menores circunstncias dos factos, porque a se 
encontra s
vezes a soluo de muitas questes histricas.
Na antiga capital das Astrias, em Oviedo, celebrou-se em 1115 uma 
assembleia
de bispos, de nobres e de deputaes municipais (plebs) com o intuito de 
ocorrer aos
crimes e violncias que se perpetravam por toda a monarquia, e especialmente 
entre os
asturianos. Considere-se aquele numeroso ajuntamento como cortes ou como 
conclio,
porque a natureza de tais assembleias celebradas por esses tempos nem 
sempre se pode
bem distinguir,  certo que uma parte das suas actas chegou at ns, e nelas 
se
encontram disposies, no s eclesisticas, mas tambm criminais e civis. 
Assistiram a
estas cortes D. Urraca e suas duas irms, Teresa e Elvira, com avultado 
nmero de
prelados e bares das diversas provncias da monarquia,  excepo dos de 
Portugal. A
subscrio daquele importante documento apresenta-nos a situao relativa 
das duas
filhas de Ximena Muniones e da herdeira de Afonso VI. Eis aqui essa 
subscrio:
A rainha D. Urraca com todos os seus filhos e filhas confirmou e jurou a
sobredita constituio e mandou-a jurar e confirmar a todos os habitantes do 
seu reino
inteiro, tanto eclesisticos como seculares. E assim as irms da mesma rainha, 
D.
148 Assim como em diplomas particulares D. Teresa era chamada rainha, 
antes de ela tomar esse ttulo,
assim a seu filho se deu o de rei em documentos semelhantes quando ele 
apenas usava os de infante e
de prncipe. Veja-se Dissertaes Cronolgicas, T. 1, p. 62, nota 4; 
Memrias sobre a Origem do
Nome e Limites de Portugal, pp. 43 e 44.
149 Historia Compostellana, L. 1, c. 85, 87 e si.; Foral de Tudela, referido por 
Moret, em Pagi, Crit.
Anual. Baronii ad Annum 1114; Orderico Vital, Historia Eclesistica, cit. na 
Espaa Sagrada, T. 10, p.
580; Conde, p. 3, c. 25.
150 Historia Compostellana, L. 1, c. 102..129
Geloira infanta, com todos os seus filhos e filhas e com todos os seus 
sbditos, e a
infanta D. Teresa, com todos os seus filhos e filhas a ela sujeitos, juraram e
confirmaram como acima fica declarado. Portanto, ns todos que 
subscrevemos, etc.
Seguem os nomes dos condes, nobres e prelados que se achavam presentes 
ou que
depois aderiram s resolues a tomadas 151 .
 numa assembleia dos principais personagens de Leo e Castela que D. 
Teresa
figura como infanta e o seu nome  includo nas subscries, no s depois do 
da rainha,
mas tambm depois do de Elvira, sua irm mais velha: mas, ao passo que 
Elvira
confirma e jura em nome dos seus descendentes 152 e sbditos, ela (se no 
supusermos
aquela passagem truncada) s fala dos primeiros. No resulta evidentemente 
deste facto
o reconhecimento da superioridade de D. Urraca? E a ausncia dos bares de 
Portugal e
o silncio de D. Teresa acerca deles no vem reforar as nossas suspeitas de 
que o
esprito pblico, ainda mais, se  possvel, que os desejos dos prncipes, tendia
energicamente em Portugal  independncia?
Enquanto estas coisas passavam os sarracenos do Gharb no empreenderam
faco alguma notvel pela fronteira de Coimbra; ao menos, nem os 
historiadores
rabes, nem as memrias crists mencionam nenhuma tentativa por esta parte 
desde a
morte de Henrique at 1116. A guerra, como j dissemos, fazia-se entre os 
almorvidas
e os condes e capites das fronteiras sertanejas de Toledo, e principalmente, 
em Arago,
pelas cercanias de Saragoa e de Lrida. No Ocidente as entradas e algaras 
do serto
parece terem cessado; mas a cena de mtuas assolaes apenas mudou de 
teatro. O
progresso da arte de navegar e da cincia da guerra martima era ainda ento 
mui
diverso entre os habitantes das provncias crists do Ocidente da Pennsula e 
os
sarracenos espanhis e africanos. Aqueles apenas construam pequenas 
embarcaes
destinadas ao comrcio e  navegao costeiros, nas quais no ousavam 
aventurar-se ao
largo: estes possuam navios armados, com que se engolfavam um pouco mais 
no
oceano, posto que no para largas viagens, e com que tentavam expedies 
militares.
Saindo de Almeria, Sevilha, Silves, Lisboa e outros portos, corriam as costas 
de
Portugal, Galiza e Astrias e, salteando subitamente os lugares prximos das 
praias,
roubavam e incendiavam as aldeias e, at, os paos fortificados, e matavam ou 
cati-vavam
os que podiam colher s mos, destruindo os gados e plantios; enfim,
espalhavam tal terror entre a gente dos campos que os habitantes das 
vizinhanas do
mar durante a fora do estio abandonavam os seus lares ou escondiam-se em 
cavernas,
onde pudessem ao menos salvar a vida dos repentinos saltos dos sarracenos. 
Por esta
poca tinha crescido a tal ponto a audcia dos inimigos que se tornava 
indispensvel
ocorrer a tamanha runa. O activo bispo de Compostela, mandando vir de 
Gnova, onde
ento florescia a cincia naval, obreiros hbeis, ordenou se construssem duas 
gals,
que, dirigidas por pilotos genoveses e guarnecidas com soldados e 
marinhagem de
Padrn, saram para as costas do Gharb. Os estragos que a fizeram 
desagravaram, at
certo ponto, os cristos dos que antes haviam padecido. Com esta expedio, 
em que
151 As actas do conclio ou cortes de Oviedo, guardadas no arquivo da 
catedral de Toledo, foram
extractadas por Sandoval (Cinco Reyes, p. 123). Aguirre publicou-as depois na 
Colectnea Max.
Concilior. Hisp., T. 3, p. 34, e da passaram para a grande Coleco de 
Conclios, de Mansi (Venera,
1776), T. 21, p. 133. Barbosa (Catlogo das Rainhas de Portugal, pp. 46 e ss.) 
pretendeu negar a
autenticidade destas actas que contrariavam as suas opinies, mas com to 
fracos fundamentos que J. P.
Ribeiro as citou como no duvidosas no T. 3, P. 1, pp. 65 e 66 das 
Dissertaes Cronolgicas. Pode
haver erros nas cpias que delas se tiraram, e decerto os h ao menos nas 
datas relativas a algumas
confirmaes posteriores; mas isto no basta para invalidar o documento. 
Sobre estas subscries dos
ausentes veja-se Mabillon, De Re Diplomat, L. 2, c. 20.
152 Cum amnibus filiis et filiabus suis significa evidentemente na subscrio 
das trs primeiras o
mesmo que na dos bares, que depois subscreveram, as palavras omni 
progenie nostra futura..130
foram destrudos muitos navios dos sarracenos, Portugal ganhou o ficarem os 
seus
portos mais livres para o pequeno comrcio costeiro que ento fazia, e a Galiza
convertida em alvo principal da vingana dos sarracenos, que contra ela 
especialmente
dirigiram nos anos seguintes as suas tentativas 153 .
Ao mesmo tempo que Diogo Gelmires buscava assim atrair as simpatias
populares, defendendo a Galiza das agresses dos mouros, no se esquecia 
de promover
por todos os outros meios a realizao das suas ambiciosas miras. Quais estas 
fossem
transluz do seu panegrico histrico (feito por ordem dele prprio), o qual 
chegou at
ns com o ttulo de Historia Compostellana. Viviam os autores deste livro em 
tempos
demasiado rudes e faltos de arte, e por isso no souberam dar s aces do 
seu patrono o
aspecto de honestidade e rectido que intentam atribuir-lhes. Gelmires era 
homem de
intolervel vaidade e de no menor cobia, e para satisfazer estas duas 
paixes nenhuns
meios julgava vedados: a corrupo, a revoluo, a guerra, a insolncia, a 
humilhao,
os enredos ocultos eram as armas a que sucessivamente recorria, conforme as 
cir-cunstncia
lhe indicavam a convenincia de usar de umas ou de outras. Desde a sua
aparente reconciliao com D. Urraca, de que h pouco fizemos meno, 
parece que ele
no cessara de promover secretamente as perturbaes civis. Pedro Froilaz, 
conde de
Trava, era na aparncia o cabea de um partido que pretendia despojar a 
rainha do
governo ou pelo menos separar da coroa a Galiza e os distritos de Salamanca 
e Zamora
(Estremaduras) para constituir enfim um governo, na realidade independente, 
para o seu
pupilo Afonso Raimundes. Havia estreita amizade entre Gelmires e o conde de 
Trava, e
as suspeitas de conivncia do bispo com os partidrios do infante, suspeitas 
que a
histria parece legitimar, deram provavelmente motivo ao procedimento de D. 
Urraca.
Esta, vindo  Galiza, segunda vez tentou prender o ardiloso prelado, que 
segunda vez
lhe baldou os intentos, resistindo com mo armada. Cedeu a rainha e, quando 
voltou
para Castela, seno a mtua confiana ao menos a paz parecia restabelecida. 
Mas 
evidente que entre ambos devia subsistir inimizade e temor. No tardou nova 
tentativa
de priso do lado de D. Urraca, nem Geimires a tirar a mscara. Declarou-se 
pelo
infante, e os bares da Galiza que ainda se no haviam unido ao conde de 
Trava
seguiram, de boa ou de m vontade, o exemplo. Pedro Froilaz dirigiu-se ento 
com o
seu pupilo a Compostela; mas a rainha retrocedeu imediatamente para a 
Galiza com os
cavaleiros que pde ajuntar para socorrer os poucos que ainda obedeciam ali  
sua
autoridade. Os descontentes da nova revoluo comearam a unir-se-lhe, e ela 
marchou
para Compostela, ao mesmo tempo que procurava com largas promessas 
mover o nimo
de Diogo Gelmires pela cobia a trair a causa que tinha abraado.
Enquanto o conde de Trava saa com o seu exrcito a fim de procurar ensejo 
de
dar batalha a D. Urraca, os parciais desta, que eram a maior parte dos 
burgueses,
abriam-lhe as portas. J, porm, o bispo fizera com que o infante se retirasse 
da cidade,
enquanto ele, vendo-se abandonado do povo que o aborrecia cordialmente, se 
fortificava
no edifcio da catedral com os seus homens de armas. Conhecendo, enfim, que 
era intil
a resistncia, humilhou-se constrangido pela necessidade, tanto mais que o 
conde de
Trava, de cujo exrcito muitos trnsfugas tinham passado para o campo da 
rainha, no
se atrevera a acomet-la e se havia retirado.
Todavia, com a fuga de Pedro Froilaz e com a submisso do turbulento 
Gelmires,
o mais influente e perigoso inimigo de D. Urraca, ela no obteve a paz. Um dos 
bares
da Galiza, Gomes Nunes, senhor de muitos castelos e que trazia a soldo 
grande nmero
de homens de armas e pees, prosseguiu na guerra a favor de Afonso 
Raimundes. D.
Urraca intentou subjug-lo, marchando a sitiar os lugares que tinham voz pelo 
infante;
153 Historia Compostellana, L. 1, c. 103, e L. 2, e 21..131
mas um novo adversrio veio embargar-lhe os passos c fazer com que, em vez 
de cercar
Gomes Nunes, se visse a si mesma sitiada.
Estas coisas passavam-se nos primeiros meses. de 1116. No ano antecedente,
como dissemos, D. Teresa assistira pacificamente com sua irm s cortes de 
Oviedo, e
nem a histria nem os documentos dessa poca nos indicam que houvesse 
motivos
alguns extraordinrios para a boa harmonia se quebrar entre as duas irms. 
Fora
escusado procurar outro que no seja a soltura das paixes prpria de tempos
semibrbaros. Os pretextos que hoje se buscam para coonestar ainda as 
guerras mais
injustas sabiam-se aproveitar, se ocorriam, mas no se faziam nascer, nem se
inventavam, com o profundo artifcio da moderna poltica. A ambio, a 
turbulncia, a
ingratido eram ferozmente sinceras, quando a hipocrisia no alcanava 
facilmente
disfar-las. Se, como todas as probabilidades o insinuam, Diogo Gelmires, 
ligado com
Pedro Froilaz, era a inteligncia que dirigia ocultamente a guerra civil na Galiza, 
e se
entre ele e D. Teresa havia as relaes cuja existncia parece resultar da 
elevao de
Hugo ao episcopado da diocese portucalense, nada mais natural do que fazer 
entrar a
infanta dos portugueses na vasta conspirao que, rebentando nas 
Estremaduras, to
rapidamente lavrou por toda a Galiza, at porque  viva do conde Henrique 
no
faltariam desejos de ir reconquistando a nascente independncia dos prprios 
domnios,
a qual, pela sua acesso  assembleia de Oviedo, de certo modo resignara. 
Seja o que
for,  certo que, tendo D. Urraca dividido o exrcito para cercar os castelos dos 
rebeldes
e demorando-se no de Suberoso, o conde Pedro Froilaz e a infanta D. Teresa 
com tropas
numerosas vieram cerc-la a ela. Ento a rainha fez aproximar as suas foras 
e,
protegida por estas, retirou-se para Compostela 154 .
Ficaram desbaratados o conde e a infanta, ou D. Urraca pde apenas evadir-se 
ao
cerco? As palavras do nico historiador contemporneo que nos transmitiu 
aqueles
sucessos parece favorecerem a segunda interpretao; mas o que se passou 
depois desse
acontecimento persuade a primeira. Em Compostela os burgueses tinham-se 
valido das
desinteligncias da rainha com o bispo, senhor da cidade, para formarem uma 
dessas
ligas populares que depois, dilatadas e aperfeioadas, to clebres se 
tornaram na
histria de Espanha com o nome de irmandades. A vida municipal surgia 
enrgica em
meio das lutas dos poderosos, e D. Urraca aproveitara habilmente a conjurao 
dos
compostelanos para anular a influncia e os recursos do prelado, aproveitando-
a e
colocando-se de certo modo  frente dela. Voltando de Suberoso, demorou-se 
mui
pouco ali, partindo para Leo, e, apesar de que os burgueses a aconselhavam 
a que se
vingasse de Gelmires, deixou-o em paz, posto que humilhado, talvez para que 
o odioso
da sua presena alimentasse o ardor dos populares e ao mesmo tempo 
servisse de seguro
penhor de mtua unio e de lealdade para com ela. Se os inimigos no 
houvessem sido
destroados, fora pouco provvel que D. Urraca abandonasse assim a Galiza, 
aonde s
viera para os castigar.  por isso que nos parece mais de crer que D. Teresa e 
Pedro
Froilaz fossem desbaratados em Suberoso.
Mas a partida da rainha foi como o sinal de novas lutas. O conde de Trava com
seus dois filhos, Bermudo e Fernando, o qual j anteriormente se distinguira no 
meio
destas perturbaes assolando o distrito saliniense, avanou imediatamente 
com os seus
aliados para as cercanias de Compostela, matando e cativando os homens e 
destruindo
os gados. Teresa, afeita  dura vida dos campos, talvez o acompanhava nesta 
guerra. A,
no meio das fadigas e riscos dos combates, despontaria essa afeio entre 
Fernando de
154 Historia Compostellana. L. 1, c. 107 a 110; Cum regina vellet obsidere sibi 
rebelles, obsessa est ab
eis. Comes P. pedagogus regia et infantisa Terasia soror reginae, domina totius 
Portugaliae, cum exercitu
magno obsedere reginam in castro Suberoso. Sed regina, ascito exercitu suo, 
evasit reversa est
Compostellam, ibid., c. 111..132
Trava e D. Teresa, que to notvel se tornou anos depois e que veio produzir 
em
Portugal cenas anlogas s que se representavam ento na Galiza 155 .
Os socorros dados por D. Teresa ao conde Pedro Froilaz no foram gratuitos. 
Os
seus domnios dilataram-se, conforme parece, desde esta poca, para alm do 
Minho
pelos distritos de Tui e de Orense, cujos bispos j seguiam, trs anos depois, 
pelo
menos, a sua corte, exercendo ela no territrio de Tui actos de senhorio por 
largo tempo
156 . Mas os primeiros anncios da procela que se alevantava nas fronteiras 
meridionais
dos seus estados comeavam a aparecer, e  provvel que para ocorrer a ela 
voltasse
ento a Portugal com as foras que tinha na Galiza; porque nenhuns vestgios 
mais
encontramos da sua interveno nos bandos civis que assolavam aquela 
provncia.
Enquanto D. Teresa buscava assim alargar ao norte os limites dos prprios
estados, aproveitando as inquietaes da monarquia, os sarracenos 
atravessavam os
ermos que se estendiam entre as fronteiras portuguesas do sul e as praas do 
Gharb na
margem direita do Tejo, e vinham cercar o castelo de Miranda sobre o Doessa, 
ao sueste
de Coimbra. Subjugado o de Miranda, metidos  espada ou reduzidos  
escravido os
seus defensores, os muulmanos, atravessando para o poente, ousaram 
passar o
Mondego e acometer o castelo de Santa Eullia, junto de Montemor. A sorte 
deste foi
igual  do primeiro; porventura ambos mal defendidos em consequncia da 
expedio
na Galiza. Os sarracenos arrasaram-no at os fundamentos e depois, 
retrocedendo,
dirigiram-se ao de Soure. Aqui, porm, o terror dos habitantes tornara intil o
cometimento; porque, lanando fogo quela povoao e desamparando-a, 
haviam-se
acolhido aos muros de Coimbra. Miranda, Soure, Santa Eullia, com outros 
castelos que
por esses tempos existiriam, formavam uma linha curva de fortificaes 
avanadas, que
defendiam a capital do distrito pelo lado do oriente, meio-dia e poente. 
Destrudos eles,
Coimbra ficava exposta ao primeiro embate dos inimigos. Esse, talvez, foi o 
objecto
desta entrada, feita ainda em 1116 e que os historiadores rabes confundem 
com a do
ano seguinte, dirigida pessoalmente pelo prncipe dos almorvidas; ao passo 
que, se
atendermos ao nome que as memrias crists do ao general sarraceno na 
invaso deste
ano, ela parece ter sido capitaneada pelo vli de Crdova, Yahya Ibn Taxfin 
157 .
Por este mesmo tempo Afonso de Arago desbaratara o fronteiro almorvida
Abdullah Ibn Mezdeli e, talando os distritos de Saragoa e Lrida, tomava ou 
destrua
grande nmero de castelos dos sarracenos. Irritado com estes revezes, o amir 
de
Marrocos resolveu passar  Espanha para se vingar dos danos recebidos, 
mandando
marchar imediatamente contra o rei aragons seu irmo Temin e os vlis de 
Crdova e
de Valncia. Enquanto estes avanavam para as fronteiras orientais, ele 
passava o
Estreito e vinha substitu-los nas do ocidente. Reunindo s numerosas tropas 
de frica
algumas foras almorvidas de aqum-mar, atravessou o Gharb e 
encaminhou-se para
Coimbra. Estava desguarnecida ou derribada a linha de castelos que a 
defendia, e Ali
veio sem resistncia assentar campo em volta dela (Junho, 1117). D. Teresa 
achava-se
ento a. Tal e to repentina foi a invaso dos sarracenos que a muito Custo a 
rainha se
155 As palavras da Historia Compostellana (L. 1, c. 111, pargrafo 3): Comes 
Petrus cum filiis... et
coadjutoribus suis, e a no existncia conhecida de algum diploma de D. 
Teresa expedido em Portugal
neste ano antes de Novembro, claramente indicam a persistncia da infanta na 
Galiza.
156 Portugalensis Regina Tudem et circumquaque ohm invaserat, sibique es 
mancipaverat, Historia
Compostellana, L. 2, c. 40 (1121); em 1119 os bispos de Tui e Orense 
confirmam j a doao de Lourosa
 s de Coimbra, Livro Preto, f. 135. Veja-se acerca do tempo em que ainda 
durava este domnio de D.
Teresa alm do Mnho, Espaa Sagrada, T. 17, p. 81, e T. 22, pp. 256 e 238; 
Yepes, Crnica Beneditina,
T. 7, Apndice, f. 24 v.
157 Crnica Lusitana, Crnica Conimbrieense e Crnica Lamecense, era 
1154; Salvato, Vita S.
Martini Sauriensis, na Monarquia Lusitana, P. 3, f. 287; Iben Tafima: 
...Colimbrianorum confines
crudeliter diripuit..133
pde salvar dentro dos muros da cidade. Os arrabaldes ficaram reduzidos a 
cinzas e as
fortificaes foram combatidas durante vinte dias sem interrupo de um s.
Defenderam-se, porm, os cercados vigorosamente, e o amir, conhecendo que 
era intil
o insistir, retirou-se, assolando tudo a tal ponto, que  diz um escritor rabe 
subsistiram por largo tempo claros vestgios daquela terrvel entrada. De feito, 
ainda
sete anos depois o lugar onde existira Soure achava-se convertido em 
habitao de feras
158 .
Ali passara de novo o Estreito e voltara a Ceuta, satisfeito com a vingana que
tomara dos cristos. Nos distritos, porm, do Leste, as armas muulmanas 
haviam sido
mal sucedidas. Temin, destroado pelos aragoneses, tinha-se retirado para 
Valncia, e
finalmente Afonso I viu realizada da a pouco a sua antiga pretenso de 
conquistar
Saragoa (1118). Dez mil almorvidas, que haviam sido mandados de alm-
mar em
socorro daquela cidade, chegaram tarde para a salvar, e s serviram para 
tornar mais
brilhantes as vitrias do rei aragons, ao qual bem quadrava o apelido de 
Lidador.
Transpondo o Ebro para o sudoeste, Afonso e os seus cavaleiros precipitaram-
se como
uma torrente pelo territrio muulmano e, desbaratando mais uma vez Temin 
na
terrvel, batalha de Cotanda (Junho, 1120) apossaram-se de Kalat Ayub 
(Calataiud) e
sucessiva-mente de muitas outras povoaes importantes dos sarracenos.
Ao passo que o rei de Arago prosseguia to vigorosamente a guerra contra 
estes,
continuava pelos seus capites a disputar a D. Urraca a posse da coroa de 
Leo e
Castela, ou, como dizem os historiadores rabes, no cessava de fazer 
entradas nos
territrios de Al-Djuf (do Norte). Ainda durante o ano de 1116 o conde de Trava 
e o seu
pupilo se haviam reconciliado com a rainha por diligncia de Gelmires, que, 
odiado do
povo, constrangido a guerrear o conde, seu oculto aliado, e temido por D. 
Urraca, s
assim podia sair da situao dificultosa em que afinal o tinham colocado a 
dobrez e a
perfdia do seu carcter.  sombra desta pacificao, em que o conde de Trava 
se no
esqueceria de a incluir 159 , D. Teresa pde empregar todos os seus recursos 
em resistir 
furiosa invaso do amir de Marrocos, o que de outro modo lhe houvera sido 
impossvel.
Neste respiro que davam  monarquia as discrdias civis, a guerra com o 
Arago vinha
substitu-las. Em 1117 um exrcito combinado de Leo, Galiza, Estremaduras, 
Castela e
Astrias marchou para a fronteira aragonesa, e a luta protraiu-se, mais ou 
menos
violenta, entre os dois estados pelos anos seguintes at  morte de D. Urraca, 
sucedida
em 1126, como adiante veremos.
Os reveses recebidos nas fronteiras orientais, as perturbaes intestinas e, 
mais
que tudo, a revoluo que a nova seita de Al-Mahdi ou dos almadas produziu
brevemente em frica obrigaram os almorvidas a afrouxar nas correrias pelas 
terras
dos cristos. Se acreditssemos as crnicas rabes, em 1120 Ali teria feito 
uma segunda
entrada em Espanha e, marchando para o Gharb, houvera cercado e tomado 
Lisboa ou,
158 Conde, P. 3, c. 25; Salvato, ibid.; Crnica Lusitana, era 1115; Crnica 
Lamecense, era 1115;
Ceterum dum affines episcopi veteres rumas, castellorunique vel villarum 
dissipationes, post ildefonsi
regis mortem illatas vera inquisitione memorarent, alteris (alis litteris) 
portugalensis reginae, vel barones
(al. baronum) quaequae ipsi pro certo noverant, edocti, hoc in anno multis hinc 
inde milibus amissis,
suburbio etiam Conimbriae commato (al. cremato) infra muros civitatis, reginam 
vix vitam servasse,
Bosonis, Epist. ad Pasch. ex Concil. Burgensi, era 1115, Livro Preto, f. 238 v.
159 Em 1119 a aliana estreita entre D. Urraca, os parciais do infante e D. 
Teresa parece concluir-se das
palavras do bispo do Porto, Hugo, ditas em Burgos, onde fora reconhecido, 
passando por ali disfarado
em romeiro por mandado de Diogo Gelmires: Neque a regina D. Urraca, 
neque a filio suo rege A, neque
ab infantissa Portugaliae missus proficiscor in Franciam aut Burgundiam; hoc 
enim pertimescit rex vester
aragonensis; Historia Compostellana, L. 2, c. 13, pargrafo 2. Isto  
confirmado pelos documentos do
mesmo ano e do antecedente, em que se v reinar a harmonia entre D. Urraca 
e seu filho (Flores, Reynas
Catlicas, T. 1, p. 267)..134
segundo outros, uma cidade chamada Medina Sanbria, voltando para a frica 
em
1121, depois de assolar e submeter todo o Ocidente. Mas o silncio dos 
monumentos
cristos acerca destes sucessos extraordinrios, a confuso e variedade que 
reinam a
semelhante respeito nas relaes rabes e, at, as contradies em que elas 
laboram,
tudo nos persuade de que os escritores muulmanos quiseram, com entradas e 
vitrias
imaginrias, tornar menos triste o quadro das perdas experimentadas nos 
distritos
orientais e do nenhum resultado importante que o amir tirara no Ocidente da 
passada
tentativa contra D. Teresa 160 .
No decurso daquela calamitosa poca, em que as provncias do Norte e Oeste 
da
Pennsula eram sucessivamente oprimidas e devastadas pelas discrdias civis, 
pela
guerra com o rei de Arago e pelas invases dos almorvidas, os trs anos de 
1117 a
1120 passaram comparativamente tranquilos, sobretudo para Portugal. 
Nenhuns indcios
se encontram de que D. Teresa ou os ricos-homens dos seus estados 
interviessem na
empresa guerreira de D. Urraca e de seu filho contra os aragoneses, para a 
qual vimos
terem marchado as tropas de quase todos os outros distritos. Creramos que os 
bares de
Portugal procediam em tudo guiados pelo pensamento de consolidarem pouco 
a pouco
as barreiras entre a monarquia leonesa e a provncia que habitavam, se fosse 
lcito
atribuir a guerreiros rudes e, por assim dizer, semibrbaros um sistema ao 
mesmo tempo
generalizado e profundo, que honraria ainda uma poca muito mais ilustrada. 
Todavia, 
impossvel deixar de reconhecer na srie dos factos que ilustram a histria do 
esta-belecimento
da independncia portuguesa certo instinto de vida poltica individual nas
populaes aqum do Minho, que j anuncia nelas a futura perseverana com 
que
resistiram desde ento at hoje a assimilar-se ao resto da Espanha e a 
incorporar-se nela.
E, ao passo que este esprito pblico se desenvolve e progride, vemos D. 
Teresa,
recebendo em Leo e Castela o ttulo indefinido e singular de infanta dos 
portugueses,
exercitar entre estes um poder que torna duvidoso o predomnio de D. Urraca 
e, at,
conservar o senhorio de Tui e de Orense, fazendo com que sigam a sua corte 
os prelados
daquelas dioceses.
De feito, a posse de Tui foi o motivo ou o pretexto de um rompimento de
hostilidades em 1121. O territrio do nascente Portugal, que at a escapara de 
ser teatro
das lutas civis, teve finalmente o seu quinho nos males que oprimiram a 
monarquia
durante o longo e desgraado governo de D. Urraca. As circunstncias deste 
sucesso e
as suas consequncias polticas foram assaz graves para que hajamos de 
lanar toda a
luz possvel sobre ele, e isso no ser fcil enquanto pretendermos desligar os
acontecimentos desta parte da Espanha dos que eram comuns  monarquia 
leonesa. Em
nosso entender o erro vulgar dos historiadores nacionais e o quererem 
determinar data
precisa  independncia de Portugal;  o imaginarem como simples e, digamos 
assim,
fundido de um s jacto um sucesso complexo, que, progredindo com fases 
mais ou
menos rpidas, veio a ser por fim uma coisa definida e completa. Assim, 
segundo a
poca que escolhem para assinalar a instantnea passagem do reino de 
Portugal do no
ser  existncia, vem-se obrigados a rejeitar como falsos ou a desprezar 
todos os
monumentos que se opem  prpria opinio, ao passo que, por sua parte, 
alguns escri-tores
castelhanos rejeitam ou fingem esquecer os monumentos em que essoutros se
estribam.  por este modo que o diploma se tem oposto ao diploma, a crnica 
 crnica,
a interpretao  interpretao, com uma gravidade e um peso de erudio de 
que 
impossvel, s vezes, deixar de sorrir. O historiador, porm, que no se colocar 
 luz
falsa em que um mal-entendido pundonor nacional ps os que precederam, 
longe de
abandonar as fontes histricas s porque se contrapem a uma opinio 
formada
160 Veja-se acerca destes ltimos pargrafos a nota IX no fim do volume..135
antecipadamente, aceita-as todas, quando intrinsecamente puras e deduz 
delas as suas
concluses. Os que procedem por diverso modo no somente avaliam mal 
esse grande
facto da independncia, mas ainda, fechando-se num horizonte limitado, 
atribuem 
nao logo no seu bero uma individualidade to profunda que se inabilitam 
para
avaliar bem os homens e as coisas, desprezando as solues que a factos, 
alis
inexplicveis, lhes ministraria a histria das paixes e dos interesses que ento 
se
agitavam no seio da monarquia leonesa, ligada ainda ao novo estado que se 
formava no
Ocidente da Pennsula por mil laos que s gradualmente se podiam quebrar. 
Assim os
sucessos ocorridos em Portugal durante as primeiras dcadas do sculo XII 
so quase
sempre determinados pelos acontecimentos comuns da Espanha crist.  o 
que at aqui
temos visto, e  o que ainda veremos por alguns anos na prossecuo desta 
narrativa.
Como dissemos, D. Teresa tinha-se apossado, segundo todas as 
probabilidades em
1116, de uma parte do territrio da Galiza, e com certeza era senhora de Tui e 
Orense
no ano de 1119, em que os bispos daquelas duas dioceses seguiam a sua 
corte e
confirmavam em Coimbra as mercs que ela fazia aos seus sbditos de 
Portugal. A boa
harmonia, ao menos aparente, reinava, todavia, entre ela e sua irm, e o rei de 
Arago
considerava a viva do seu antigo aliado como ligada intimamente com os 
prprios
inimigos. Na assembleia de Oviedo a infanta dos portugueses tinha de certo 
modo
definido a sua situao poltica relativamente a D. Urraca: a independncia 
completa de
Portugal, a sua desmembrao da monarquia no estava consumada, e a 
guerra que D.
Teresa fizera na Galiza em 1116 provava tanto a independncia dos seus 
domnios
como provaria a dos do conde de Trava ou dos outros fidalgos galegos a quem 
ela
auxiliara. Feita a paz nesse mesmo ano, as coisas tornaram naturalmente ao 
antigo
estado, e a espcie de supremacia de D. Urraca, reconhecida por D. Teresa no 
ano
antecedente, continuava a subsistir. Unicamente a reteno de uma parte da 
Galiza
meridional pela infanta era um facto que os sucessos posteriores nos mostram 
ter ficado
indefinido.
A rainha de Leo e Castela visitou essas provncias por duas ou trs vezes nos 
fins
de 1120 e nos primeiros meses de 1121. A guerra de Arago corria 
frouxamente, porque
Afonso I, empenhado nas suas gloriosas campanhas contra os sarracenos, no 
podia
conduzi-la com grande vigor. A esta causa se atribuiria a volta de D. Urraca ao 
outro
extremo dos seus estados, se no fosse mais provvel desse causa a essa 
vinda a trama
que de novo se urdia para lhe tirarem a coroa e porem-na na cabea do infante 
Afonso
Raimundes, chegado  puberdade, para quem naturalmente se voltavam os 
olhos de
todos os poderosos senhores inimigos da rainha. A fim de podermos explicar 
razoavel-mente
as circunstncias que concorreram para a invaso dos estados de D. Teresa 
em
1121,  necessrio conhecer essa trama, em que, como era de esperar, figura, 
posto que
entre sombras, o faanhoso Gelmires.
Este homem, cuja vaidade era igual  sua cobia, desejava ardentemente ver
elevada a s de Santiago  categoria de metropolitana. Tinha tentado o 
negcio no
tempo dos papas Pascoal e Gelsio, sem .que o chegasse a alcanar. A 
eleio de Calisto
II veio reanimar-lhe as esperanas. Calisto era irmo do conde Raimundo, e 
estava, por
consequncia, ligado por estreitas relaes com a Espanha. Pedia Gelmires 
que fosse
transferida a cadeira arquiepiscopal de Braga para Compostela, transferncia 
tanto mais
importante quanto era esse o meio de humilhar o grosseiro Pelgio ou Paio 
Mendes,
sucessor de Burdino e irmo dos senhores da Maia, Soeiro e Gonalo Mendes 
161 . D.
Paio tinha-se apossado de vrios bens na diocese de Braga que pertenciam  
s de
Compostela e recusara restitu-los. Bastava isto para suscitar o rancor do 
prelado
161 Pelagius Menendiz quidam idiota, Historia Compostellana, L. 1, c. 117; 
Cunha, Histria
Eclesistica de Braga, P. 2, c. 11, pargrafo 4..136
compostelano; mas acrescia que D. Paio, como metropolita da Galiza, tinha
necessariamente nesta provncia uma superioridade que mortificava Gelmires. 
Giraldo,
cnego de Santiago, solicitava na Cria a pretenso, empregando as 
importunaes, o
dinheiro e a proteco de poderosos bares franceses, dos quais o bispo 
Gelmires
soubera captar a benevolncia. O papa,. eleito em Frana, reservava este 
negcio para o
resolver no conclio que ia reunir em Tolos a (1119), quando uma dificuldade 
poltica
veio suscitar novos embaraos s miras do ambicioso compostelano.
Constrangido, como j advertimos, pela situao falsa em que se colocara,
Gelmires, durante os tumultos da Galiza em 1116, tinha-se posto em campo 
contra o
conde Pedro Froilaz e contra os demais fautores de Afonso Raimundes. 
Provavelmente
estes persuadiram-se de que a reconciliao do prelado com a rainha havia 
sido sincera,
e a paz que ele solicitou pouco depois entre os dois partidos mais confirmava 
esta
suspeita. Na ocasio, pois, em que Giraldo trabalhava activamente no negcio 
a que fora
mandado, o papa recebeu uma carta em nome do infante, dirigida pelo 
arcebispo de
Toledo, Bernardo, na qual Afonso Raimundes se queixava a seu tio do 
procedimento de
Gelmires, acusando-o de lhe fazer todo o mal que podia e de pretender 
despoj-lo da
herana de seus avs. Calisto parece que amava com ternura o filho de seu 
irmo
Raimundo: as lgrimas rebentaram-lhe dos olhos ao ler a carta. Desde ento 
pensou
seriamente em segurar a coroa na cabea de Afonso Raimundes. Comeou 
por escrever
a Gelmires, pondo-lhe por condio para obter o arquiepiscopado favorecer 
constante e
energicamente o partido do rei seu sobrinho. O compostelano enviou ento ao 
papa um
homem de ntima confiana, Hugo, bispo do Porto. Ignoramos qual era a 
resposta que
ele levava; mas  certo que, ajudada esta por avultadas quantias e pela 
influncia do
abade de Cluni e dos bares franceses, os desejos de Gelmires ficaram 
satisfeitos sem a
supresso do arcebispado bracarense.  s de Santiago, elevada  dignidade 
de
metrpole, deram-se por sufragneos os bispados que no tempo dos mouros 
dependiam
de Mrida, e, para humilhar D. Paio, o seu adversrio obteve a nomeao de 
legado do
papa nas provncias eclesisticas de Compostela e Braga (Fevereiro, 1120). 
Na bula da
ereco da nova metrpole, Calisto declara que os rogos de Afonso 
Raimundes
contriburam para esta resoluo. Semelhantes palavras, se as compararmos 
com as
queixas feitas no ano anterior, provam que Gelmires nesta concesso do 
pontfice
recebia o preo da sua perfdia para com D. Urraca 162 . No meio dos enredos 
polticos o
novo legado no se esqueceu de D. Paio, cometendo contra ele vexames tais 
que este
recusou assistir ao snodo convocado por Gelmires no ano de 1121, recusa 
que o papa
aprovou depois como justa, exemptando a diocese bracarense da legacia do
compostelano. O receio de que este pretendesse aproveitar-se da sua situao 
para o
esbulhar da posse de uma parte do senhorio de Braga, sobre o qual versavam 
entre
ambos disputas, foi talvez o motivo por que D. Paio buscou obter da rainha de 
Leo e
Castela, no s a confirmao do couto da sua s, mas igualmente que este 
fosse
ampliado. O diploma expedido por essa ocasio, o qual ainda existe, nos 
mostra que D.
Urraca se considerava como revestida, ao menos de direito, da suprema 
autoridade na
provncia de Portugal 163 .
162 A narrao deste pargrafo, bem como dos antecedentes e posteriores, 
resulta de um estudo atento do
L. 2 da Historia Compostellana, o que dizemos aqui para evitar repetio de 
citaes. Que por este ano de
1120 se haviam renovado dissenses entre D. Urraca e seu filho v-se dos 
documentos contemporneos
(Flores, Reynas Catlicas, T. 2, p. 267); mas da narrao da Historia 
Compostellana resulta que estavam
aparentemente congraados em 1121, porque o moo Afonso Raimundes 
acompanhava sua me na
expedio aqum do Minho, talvez porque a revoluo, que se preparava nas 
trevas, no estava
perfeitamente amadurecida.
163 Liber Fidei, f. 54 v., nas Memrias da Academia, T. 13, P. 1; Historia 
Compostellana, L. 2, c. 16 e ss.
A confirmao do couto de Braga por D. Urraca parece-nos evidentemente 
correlativa s bulas que.137
O papa no cessava de recomendar ao arcebispo a causa do jovem Afonso, e,
porventura, estas recomendaes importavam as do cumprimento de uma 
promessa. Ao
mesmo tempo o duque da Aquitnia, Guilherme IX, e a condessa da Flandres, 
parentes
do infante, escreviam a Gelmires cartas anlogas, chegando o duque a 
declarar-lhe que
estava resolvido a empregar quaisquer meios para fazer seu sobrinho herdeiro 
de
Afonso VI e avisando-o de que sobre tal matria se entendesse com Pedro 
Froilaz.
Ento o ardiloso prelado impetrou de Calisto II uma bula que o desligava dos
juramentos feitos a D. Urraca e lhe impunha o dever de guardar aqueles que 
fizera ao
infante. Depois disto ele se cria habilitado para entrar em alguma tentativa, cuja
natureza  fcil de adivinhar; mas o cardeal Boso, tambm legado em 
Espanha,
dissuadiu-o disso. Posto que, dizia ele, muito desejasse ver levar o negcio a 
cabo,
aconselhava-o no tentasse nada de leve, porque lhe estavam armadas por 
toda a parte
ciladas. Na sua opinio, o melhor seria fazer a paz com a rainha. Assim 
procedia o
arcebispo, ao menos simuladamente. Chegava a perseguir aqueles mesmos 
que mais
seus parciais eram, como Fernando Peres de Trava, alferes-mor ou chefe das 
tropas
arquiepiscopais 164 e que da mo de Gelmires tinha alcaidarias e terras em 
soldo ou
prstamo. Um castelo que este havia edificado no territrio de Santiago foi 
derribado, e
sorte igual coube a vrios outros de diversos nobres. Apesar destas 
demonstraes exte-riores,
D. Urraca parece que no ignorava os enredos daquele homem astucioso e 
sem
f; mas, ou porque j no pudesse lutar com ele frente a frente ou pela 
fraqueza prpria
do seu sexo, no ousava tomar uma resoluo enrgica. As tentativas 
indirectas para o
prender eram desfeitas pelo prelado, e a rainha para o mitigar via-se 
constrangida a
aumentar-lhe a influncia e o poderio. Nestes enganos mtuos, nesta guerra 
covarde e
tenebrosa passaram os primeiros meses de 1121. Ento ocorreram os 
sucessos que
interessam especialmente a nossa histria, para explicar os quais era preciso
compreender a situao dos dois partidos e, sobretudo, a de Diogo Gelmires, 
espcie de
Mefistfeles sacerdotal, cujo carcter  assaz negro para ainda sobressair no 
quadro da
anarquia e dos crimes que despedaavam o seio da monarquia leonesa.
O moo Afonso Raimundes simulava entretanto no proceder de acordo com 
os
fidalgos do seu partido, que alis trabalhavam, como o tempo mostrou, em 
dispor os
elementos de uma revoluo, cujo resultado, diferente do das tentativas at a 
feitas,
fosse decisivo. D. Urraca veio ento a Compostela acompanhada de seu filho. 
Foi nessa
ocasio que se resolveu a guerra com Portugal, dando-se por motivo que D. 
Teresa
havia noutro tempo invadido Tui e as suas cercanias e que retivera esses 
territrios
debaixo do prprio domnio 165 . Seria, talvez, esse o fundamento da empresa; 
mas tem
visos de ser apenas um pretexto especioso, se, como cremos, a ocupao 
daquele
territrio remonta a cinco anos antes, durante os quais as duas irms 
conservaram entre
si paz, quer fingida, quer sincera. D. Urraca, aproveitando a aliana aparente 
de
Gelmires, tinha feito danos considerveis aos seus inimigos na Galiza: o mais 
provvel
 que D. Teresa estivesse ligada com eles e que sua irm, instruda at certo 
ponto do
que se forjava, quisesse dar um golpe no adversrio mais poderoso, como era 
D. Teresa,
que dispunha dos recursos de uma provncia inteira. Porventura, tambm 
Gelmires
aconselhava este movimento, ou para despertar o incndio ou para entreter a 
rainha
elevaram Gelmires ao arquiepiscopado e  legacia de Mrida e Braga. Destas 
bulas, passadas em
Fevereiro e Maro, haveria noticia na Espanha em Junho (quando se passou a 
carta de couto de Braga),
posto que s em Agosto se publicassem solenemente. A confirmao de 
Gelmires nesse diploma nada
prova contra a nossa opinio. Ele no a podia recusar vivendo na corte, 
aparentemente de acordo com a
rainha.
164 ...ejus (sc. archiepiscopi), militiae princeps, Historia Campostellana, L. 2, 
c. 51, pargrafo 2.
165 Nempe Portugalensis regina Tudem et circumquaque olim invaserat, 
sibique ea mancipaverat,
Historia Compostellana, L. 2, c. 40..138
numa guerra perigosa, cujos cuidados a distrassem de seguir o fio da 
conspirao na
Galiza.
J no princpio deste ano ou do antecedente, Fernando Peres, filho de Pedro
Froilaz e alferes-mor do arcebispo, vivia na corte de D. Teresa, de quem 
obtivera os
mais importantes governos que lhe podiam ser confiados, os do distrito do 
Porto e do
distrito de Coimbra, com o ttulo de cnsul ou conde, como o tivera o 
borgonhs
Henrique 166 . Era preciso que as suas relaes com a infanta dos 
portugueses fossem
antigas e a sua influncia no nimo dela excessiva para que um simples 
cavaleiro e,
posto que filho segundo de uma das mais nobres famlias de Espanha, soldado 
do
arcebispo de Compostela, subisse a to elevados cargos. A boa harmonia do 
filho de
Pedro Froilaz com o prelado subsistia ainda depois da guerra. Seguindo cada 
qual o
campo de uma das irms, a amizade entre os dois no acabara, porque na 
realidade
deviam ser estreitas as suas relaes ocultas. O vnculo que os unia pode, em 
parte,
conhecer-se do que at aqui temos relatado.
Resolvida a invadir os estados da irm, D. Urraca marchou com seu filho para 
Tui
na Primavera ou no estio de 1121. Seguiu-a, posto que constrangido 167 , o 
faanhoso
Gelmires, acompanhado dos seus homens de armas e dos cavaleiros vilos de
Compostela, que por seus foros no eram obrigados a avanar at o distrito de 
Tui, mas
que ele teve artes de arrastar consigo. Sabida a aproximao do exrcito 
galego, D.
Teresa com as foras que pde coligir veio acampar na margem fronteira. Mais 
prximo
ao lado de Portugal, o rio fazia naquele stio uma nsua. A posse dela facilitava 
a
passagem, mas defendiam-na as barcas portuguesas que vogavam pelo 
Minho. Os
destros marinheiros de Padrn e alguns compostelanos, com vrios cavaleiros
escolhidos, embarcaram da parte oposta e vieram acomet-las. Vencedores, 
em breve se
apossaram da nsua. Este sucesso levou o terror pnico aos arraiais de D. 
Teresa, que
foram abandonados, e, quase sem combate, D. Urraca entrou no territrio 
inimigo.
Nesta poca de barbaridade e bruteza, a guerra entre os cristos 
assemelhava-se nas
devastaes s correrias mtuas entre eles e os sarracenos. O exrcito galego, 
descendo
para o interior da provncia, incendiava, roubava e assolava impunemente as 
povoaes
e os campos, porque, fugindo desordenadas, as tropas portuguesas se haviam
dispersado. A conquista de Portugal corria rpida. Gelmires, porm, pesou as
consequncias de tal conquista e comeou, segundo parece, a trabalhar 
ocultamente para
que se no realizasse um acontecimento que, aumentando a fora moral e 
material do
partido da rainha, empecia o progresso da conspirao, cuja existncia os 
factos at aqui
narrados nos revelam.
Capitaneando foras avultadas, cuja falta necessariamente devia embargar a
continuao da guerra, este homem que, para segurar no rosto a mscara 
hipcrita de
uma fidelidade em que a prpria rainha no cria e da qual ele pedira ao papa o
absolvesse, no duvidara combater os seus mais ntimos aliados, nem destruir-
lhes os
castelos e propriedades; este homem vingativo e cruel sentiu um sbito horror 
das
atrocidades cometidas no territrio portugus e um desejo invencvel de voltar 
ao
exerccio das suas funes episcopais, pretendendo recolher-se para a Galiza 
com as
tropas compostelanas. Todavia, D. Urraca, suspeitando provavelmente qual 
seria o fito
166 Consule D. Fernando dominante Colimbrie et Portugali, documento de 
Janeiro de 1121 extrado do
cartrio de Lorvo, na Monarquia Lusitana, P. 3, L. 9, c. 2: cf. Historia 
Compostellana, L. 2, c. 51, e
Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, p. 73. Na doao de Ulvaria a Odorio, 
prior de Viseu, do 1 de
Fevereiro de 1120 (Arquivo Nacional, Gav. 1, Mao 6, n6), j confirma 
Comes Fernandus. Este
documento no tem, todavia, inteira fora, por ser uma pblica-forma de 1306 e 
por ser nico.
167 Blandissimis aggreditur precibus (s. Gelmiridem) ut secum illo ire non 
recuset, Historia
Compostellana, L. 2. c. 40. Quem est afeito  linguagem dos historiadores 
compostelanos, quando falam
do seu patrono, sabe que blandissimis precibus significa por fora..139
deste inesperado acesso de amor da humanidade, concedeu que os burgueses 
de
Compostela se retirassem, atentos os seus privilgios, mas recusou a licena 
ao
arcebispo e aos homens de armas que o seguiam. No descorooou ele; 
escreveu ao
legado Boso, que j vimos no era alheio, nem como agente de Calisto II o 
podia ser, s
tramas que se urdiam. O legado respondeu-lhe congratulando-se com ele das 
vitrias
obtidas pela rainha e pelo filho; mas recomendando-lhe ao mesmo tempo com 
a maior
eficcia que por nenhum caso deixasse de comparecer no concilio que se ia 
celebrar em
Sahagn. A convocao deste conclio fora resolvida pouco antes da 
expedio contra
Portugal: a se deviam tratar negcios, no s pertencentes  Igreja, mas 
tambm ao
Estado, e por isso mal se compreende como ele se poderia ajuntar sem a 
concorrncia da
rainha e do infante Afonso Raimundes, que haviam determinado a reunio 
daquela
assembleia e que se achavam retidos entre Douro e Minho por uma guerra cujo 
prspero
progresso lhes no permitia abandonarem-na. A carta do cardeal legado, 
evidentemente
feita para facilitar a partida do arcebispo, no surtiu efeito; antes, talvez, 
servisse para
tornar D. Urraca mais vigilante sobre o procedimento deste.
A sorte das armas continuava a mostrar-se adversa a D. Teresa. Uma no 
pequena
parte de Portugal achava-se j subjugada: o exrcito real, marchando pelo sul 
e poente,
havia chegado at s margens do Douro, e a infanta-rainha dos portugueses 
tinha-se
retirado para o distrito ao oriente de Braga. Perseguida por sua irm, encerrou-
se no
castelo de Lanhoso, onde no tardou a ser sitiada. As coisas tinham chegado 
extremidade, tanto para ela como para os bares desta provncia. Tomado 
Lanhoso e
cativa D. Teresa, faltava o ncleo  roda do qual vigorasse e crescesse a 
nascente nacio-nalidade
portuguesa. A fora dos acontecimentos veio, porm, salv-la.
No meio dos graves e tenebrosos meneios em que se achava envolvido, 
Gelmires
no se esquecera de aproveitar a ocasio que se lhe oferecia de recuperar os 
bens sobre
que havia anos disputava com D. Paio. Eram estes a metade de Braga 
pertencente 
Igreja de So Vtor e Frutuoso e a metade da vila de Cornelhan com outras
propriedades. Tomando posse delas, o prelado ps a os seus vlicos ou 
mordomos,
seguro de as conservar, fosse qual fosse a sorte da guerra, o que de feito 
aconteceu,
porque depois s D. Paio pde obt-las de novo por merc do compostelano,
reconhecendo o seu domnio eminente, o que prova quanto Gelmires contava 
com a
benevolncia de D. Teresa e serve para nos ilustrar sobre a srie de enredos, 
cuja
histria s se pode deduzir dos factos externos que a eles se ligavam.
No esqueamos que Fernando Peres era nesta conjuntura conde do Porto e 
de
Coimbra e que  provvel se achasse em Lanhoso com a infanta-rainha, de 
quem
passava por amante. Lembremo-nos, tambm, da afeio que por toda a vida 
ele
mostrou, salvo raros desgostos, ao arcebispo de Santiago, cujo homem era, 
para nos
servirmos duma expresso desse tempo. Cumpre igualmente observar que 
ambos eles
pertenciam, um oculta, outro francamente, ao partido inimigo irreconcilivel de 
D.
Urraca. O vencimento e a sujeio de D. Teresa vinham, pois, a ser por muitos 
modos
golpes fatais nos interesses e desgnios de Gelmires e dos seus associados. 
Tornava-se,
portanto, necessrio ao ambicioso prelado correr o risco de uma resoluo 
atrevida para
salvar a causa em que se. achava empenhado 168 .
Ignoramos quais fossem nesse momento os factos praticados por Gelmires
conducentes ao seu fim.  certo, porm, que D. Urraca resolveu prend-lo. Era 
negcio
delicado. Tinha ele consigo os seus homens de armas: tinha, alm disso, 
parciais no
exrcito e uma influncia na Galiza que era impossvel desconhecer. Em frente 
do
inimigo, semelhante empenho tornava-se quase inexequvel pela certeza de 
que os
168 Sobre este e os antecedentes pargrafos leiam-se alternadamente os c. 
40, 41, 42 e 51, pargrafo 2, do
L. 2 da Historia Compostellana..140
sitiados aproveitariam a luta intestina dos sitiadores para os destroarem.  
provvel
que neste apuro a rainha preferisse congraar-se com a irm a deixar impune 
aquele
homem desleal e hipcrita, contra o qual sentiria dio tanto mais violento 
quanto se vira
por longo tempo obrigada a reprimi-lo e a disfar-lo.
Fez-se, de feito, a paz. Por quais meios e por interveno de quem, eis o que 
no
chegou at ns. Um tratado, porm, existe celebrado entre as duas irms, que 
atribumos
a esta conjuntura e que, na verdade, fora dificultoso de conciliar com outra 
data. Ou a
situao de D. Urraca habilitou D. Teresa para negociar com imensa vantagem 
a
cessao das hostilidades, ou aquela princesa quis assegurar a lealdade de 
sua irm,
confiando-lhe um senhorio muito mais extenso do que at a desfrutara. Na 
conveno e
juramento feito pela rainha  infanta, prometeu aquela conservar a esta 
amizade fiel e
opor-se a todo o mal que lhe intentassem fazer. Concedeu-lhe, alm disso, o 
domnio de
muitos lugares e terras nos modernos distritos de Zamora, Toro, Salamanca e 
vila com
as rendas e direitos senhoriais destas cidades, afora outros nos de Valhadolid 
e Toledo,
obrigando por isto D. Teresa a que lhe jurasse amparo e defesa contra os seus 
inimigos,
quer mouros, quer cristos, e a que lhe prometesse no dar acolhimento a 
nenhum
vassalo da rainha levantado com terras ou castelos, nem a nenhum traidor. Os 
domnios
novamente concedidos  infanta deviam ser considerados como uma tenncia
semelhante  dos que anteriormente possua, no que, porventura, s se fazia 
referncia
s terras de Tui e Orense, ou antes, como cremos, a estas e s de Portugal 
169 .
O leitor, decerto, no esqueceu a cesso feita por D. Urraca ao conde Henrique
quando pretendeu atra-lo ao seu partido, nem que a diviso dos estados de 
Afonso VI
assentada em Palncia no parece ter chegado a realizar-se plenamente 
durante a vida
do conde. Igualmente estar lembrado do modo como D. Teresa se houve, 
depois da
morte dele, para tornar efectivas as miras ambiciosas que lhe eram comuns 
com o
marido, e das circunstncias que a reduziram a contentar-se do senhorio de 
Portugal
como provncia dependente de Leo. Comparando agora este facto com 
essoutros e com
as conquistas feitas em 1116 na Galiza, tal comparao o levar, como nos 
leva a ns, a
vermos no tratado de Lanhoso uma renovao, posto que modificada, daquelas 
antigas
promessas e pactos. Neste pressuposto, as terras cedidas ao conde teriam 
sido as da
Galiza, de que D. Teresa se apoderara depois, e as que sua irm lhe cedia
especificamente pelo actual convnio, entre as quais se encontra Zamora, que 
sabemos
tocara a Henrique na diviso feita em 1111. Se o conde, porm, pretendera e 
obtivera a
cesso do pleno e independente domnio desses territrios, havia entre os dois 
factos
uma diferena profunda, a da vassalagem de D. Teresa, nascida das 
circunstncias que
tinham obrigado a infanta a aceder  assembleia de Oviedo em 1115.
Dados recprocos fiadores da execuo do tratado, as duas irms parece terem
convivido familiarmente; ao menos os ntimos conselheiros da rainha julgaram 
poder
comunicar a D. Teresa o que se tinha resolvido acerca da priso de Gelmires e 
os meios
que para isso se haviam de empregar. D. Teresa, porm, talvez por influncia 
de
Fernando Peres, mandou avisar o prelado, oferecendo-lhe ao mesmo tempo ou 
um dos
seus castelos para ele se acolher, ou algum dos seus navios para voltar a 
Compostela.
Gelmires, confiado na reconciliao jurada com D. Urraca ou, o que  mais 
certo, nos
homens de armas que o cercavam, recusou a oferta, posto que antes deste 
aviso j
corresse no arraial uma notcia vaga da tentativa. Assim, pondo-se em retirada 
para a
Galiza o exrcito invasor, ele no se apartou da rainha, a quem tambm 
acompanhavam
alguns sbditos de D. Teresa, porque nos consta seguiam o campo o arcebispo 
de Braga
e o bispo de Orense. Chegados  margem esquerda do Minho, a rainha 
ordenou
169 Nota X no fim do volume..141
passassem primeiro os cavaleiros de Gelmires, o que efectivamente se 
executou, ficando
este com o infante e com ela para depois seguirem com o resto do exrcito. 
Apenas,
porm, os homens de armas do compostelano pisavam o territrio galego e 
comeavam
a acampar-se, a rainha mandou prender o prelado, que, na impossibilidade de 
resistir,
contentou-se de protestar contra semelhante procedimento. Divulgada a nova 
da priso,
o arcebispo D. Paio e o bispo de Orense fugiram atemorizados 170 o que no 
deixa de ser
extraordinrio e parece indicar alguma cumplicidade destes dois personagens 
da corte
de D. Teresa com o astucioso Gelmires e, at, pode fazer suspeitar, atentas as 
relaes
estreitas que existiam entre ele e Fernando Peres, que do lado da infanta no 
houvera a
melhor f na paz que celebrara e que nem com to avultadas concesses pde 
a rainha
deslig-la inteiramente do seu antigo aliado. Mais veementes, porm, ainda se 
tornaro
as suspeitas se nos lembrarmos do aviso oculto que ele recebera de D. Teresa 
sobre este
mesmo sucesso e da aliana da a pouco francamente feita contra a rainha 
entre a infanta
e o prprio arcebispo de Santiago.
A audcia com que D. Urraca satisfazia assim dios antigos e feria no corao 
o
partido dos seus adversrios, longe de conter estes fez rebentar mais breve 
essa
conjurao latente cujos vestgios bem palpveis nos aparecem nas bulas de 
Calisto II,
nas cartas do cardeal Boso e do duque da Aquitnia, nos actos de Gelmires e 
nas
frequentes tentativas da rainha contra este homem dissimulado, cujo carcter e
maquinaes seria impossvel descortinar se os seus trs panegiristas, autores 
da grande
crnica de Compostela, fossem to destros na arte de transfigurar a histria 
como ele o
foi em tecer enredos polticos. Nos oito dias que durou a sua priso as coisas 
mudaram
inteiramente de aspecto. Transferido o arcebispo para o castelo de Cira, D. 
Urraca
dirigiu-se a Compostela, onde s encontrou demonstraes de 
descontentamento.
Dentro de poucos dias seu filho Afonso Raimundes, o conde de Trava, Pedro 
Froilaz, e
outros fidalgos da Galiza abandonaram-na, dirigindo-se s margens do 
Tambre, ao norte
de Santiago, onde as tropas deles dependentes estavam acampadas. A 
rebelio no
tardou a rebentar na cidade. A rainha viu-se obrigada a ceder  torrente, e 
Gelmires foi
solto, retendo, todavia, a rainha em poder de governadores seus os castelos do
arcebispo, de que, depois de o prender, se havia sucessivamente apoderado.
No bastava, porm, ao orgulhoso sacerdote o haver sido restitudo  liberdade 
e o
ver mais uma vez D. Urraca humilhada. A posse desses castelos era assaz 
importante
para ele no abandonar sem tentar fortuna a ideia de os recuperar. Enquanto a 
rainha
dificultava a final concrdia, impondo ora estas, ora aquelas condies, 
Gelmires julgou
oportuno tirar finalmente a mscara. Faz sorrir o grosseiro engano que os 
historiadores
compostelanos pretendem fazer  posteridade assegurando que o arcebispo, 
ao ver que
nem obteria os castelos, nem alcanaria apaziguar o nimo da rainha sem 
despender
avultadas somas, se ligara ento com Afonso Raimundes e atrara ao seu 
partido Pedro
Froilaz e os outros condes e senhores de Galiza, que os sucessos at aqui 
narrados nos
mostraram serem, havia muito, seus ntimos, posto que ocultos, aliados. A 
verdade 
que a hipocrisia de lealdade  rainha no lhe era j nem possvel nem 
necessria;
Afonso Raimundes entrara nos dezoito anos, e a monarquia inteira estava 
cansada das
calamidades que sobre ela trouxera a administrao de D. Urraca, pouco 
habilitada,
apesar da energia do seu carcter, para dirigir os negcios do Estado. Acrescia 
a isto o
cime dos bares espanhis contra a privana do conde Pedro de Lara, marido 
oculto
ou, antes, amante da rainha, e cuja influncia, como era natural, no conhecia 
limites, ao
passo que Afonso I de Arago, continuando a denominar-se no s rei, mas 
tambm
imperador de Leo e Castela, apesar de ocupado nas suas gloriosas 
campanhas contra os
170 Historia Compostellana, L. 2, c. 42, pargrafos 1 e 2..142
sarracenos, prosseguia, ou pessoalmente ou por seus capites, em assolar a 
monarquia
que chamava sua e na qual ainda, com efeito, possua algumas povoaes e 
castelos. A
irritao dos nimos e a situao dos negcios facilitavam o verificar-se 
plenamente o
que os parentes estrangeiros do infante, j de muito rei nominal da Galiza, 
ardentemente
desejavam, e que o mancebo, dotado de altos espritos, no menos 
ambicionava, isto ,
o ser metido de posse da herana inteira de Afonso VI. O que, pois, at a no 
passara
de uma conspirao permanente tornou-se numa revoluo declarada. Desde 
1122
vemos Afonso Raimundes, ou antes Afonso VII, adquirir uma verdadeira 
supremacia
nos estados de sua me e esta reduzida a submeter-se ao orgulho de Gelmires 
e a buscar
amparo daquele famoso intrigante nas obscuras e inteis dissenses que ainda 
teve com
seu filho, durante os quatro anos em que sobreviveu a estes acontecimentos.
D. Teresa havia-se unido imediatamente ao partido do arcebispo, ou, o que  
mais
de crer, como acima insinumos, tendo aproveitado a conjuntura da paz 
oferecida, no
s para salvar o que possua por morte de Henrique e as terras de Galiza 
retidas por ela,
mas tambm para assegurar os novos senhorios que sua irm lhe confiava, 
entendeu que
no devia arriscar-se a perd-los conservando-se no partido da rainha, cuja 
estrela
visivelmente declinava. Era to frequente naqueles tempos a quebra das mais 
solenes
promessas, a ambio e o egosmo to pouco rebuados, que no devemos 
julgar esse
procedimento com o mesmo rigor com que o condenaramos numa poca mais 
recente.
Alm disso, Fernando Feres obtivera inteiro domnio no seu esprito, e nesta 
resoluo
da infanta-rainha sabemos que ele interveio por metade 171 .
No seguiremos aqui a srie dos sucessos passados desde ento na Galiza.
Tramos com cores que reputamos verdadeiras o quadro da tenebrosa trama 
que a se
urdira; porque sem conhecer esse quadro nunca se compreender bem o 
perodo do
governo de D. Teresa, nem se podem encontrar a deduo natural dos factos 
per-tencentes
a esta dificultosa poca da nossa histria. Desde os fins, porm, de 1121 172
at  morte de D. Urraca (Maro de 1126), no longo crepsculo do poder da 
rainha de
Leo e Castela, Portugal parece conservar-se inteiramente alheio s 
convulses mais ou
menos violentas da monarquia de que, at certo ponto, ele ainda fazia parte. 
Volvamos
agora os olhos para o seu estado poltico interno enquanto no-lo consente o 
remanso da
paz exterior.
A interveno da infanta-rainha dos portugueses nos acontecimentos gerais da
Espanha crist tinha aumentado quase em dobro a extenso dos seus 
domnios. No
Sueste da Galiza eles se dilatavam at s margens do Vibey, por todo o 
territrio a que
naquele tempo chamavam Limia. No Sudoeste possua Tui e as suas 
dependncias, que
no parece terem sido ento grandes, posto que seja dificultoso determinar 
quais eram.
O senhorio das importantes povoaes a leste das modernas provncias de 
Trs-os-Montes
e Beira concedido a D. Terega envolvia o domnio dos termos de cada uma
delas. Assim o antigo condado desmembrado da Galiza por Afonso VI em 
1095, sem se
haverem dilatado as suas fronteiras para o sul, antes tendo sido cerceadas 
pelas
conquistas dos almorvidas, achava-se notavelmente aumentado. A filha de 
Ximena
Muniones colhera o fruto de se associar  faco da Galiza. Restava-lhe o 
conserv-lo.
Enquanto D. Urraca viveu, ela soube reter o que adquirira 173 ; mas a acesso 
de Afonso
171 ...adscivit sibi pintes Galleciae principes... insuper reginam Portugaliae T. 
et comitem Fredenandum,
Historia Compostellana, L. 2, c. 42, pargrafo 7.
172 Os sucessos at aqui narrados passaram-se no Vero de 1121. A paz 
entre Gelmires, Urraca e Afonso
Raimundes, depois da priso do arcebispo, foi celebrada nos ltimos dias de 
Dezembro deste mesmo ano
(Histria Compostellana, L. 2, c. 49, pargrafo 3).
173 O domnio de b. Teresa nos territrios da Galiza entre Minho e Vibey, e no 
de Tal depois desta poca e
antes da morte de D. Urraca (1122 a 1126), prova-se dos privilgios 
concedidos por D. Teresa a Orense
em Fevereiro de 1122 (Espaa Sagrada, T. 17, p. 84); da doao de Cola e 
Arganil  s de Coimbra.143
VII ao trono, para a qual contribura, veio a ser-lhe contrria, ao passo que a 
sua afeio
desordenada por Fernando Feres no tardou a saci-la nos ltimos anos da 
vida de
desventuras maiores que as de D. Urraca.
O filho de Pedro Froilaz achava-se revestido de uma autoridade tal que nos
documentos contemporneos ele figura como igual ou quase igual da infanta-
rainha.
Elevado  categoria de conde, entregues  sua administrao imediata os 
distritos do
Porto e Coimbra, os principais dos estados de D. Teresa, e obcecada esta por 
uma
paixo, segundo parece, violenta,  natural que Fernando Peres obtivesse, at, 
a
supremacia sobre os outros condes ou tenentes do resto do pas. Os diplomas 
expedidos
durante esse perodo, as expresses dos cronistas, as frmulas das escrituras
particulares, tudo conspira em persuadi-lo. A infanta seguia o triste exemplo 
que sua
irm lhe dera, e o alferes-mor do arcebispo Gelmires representava em Portugal 
o mesmo
papel que Pedro de Lara fazia em Leo e Castela. As consequncias disso 
deviam ser
semelhantes, em mais resumido teatro, s que tinham enchido de perturbaes 
a mo-narquia.
D. Paio, arcebispo de Braga, era homem rude e pertencia a uma famlia cujos
membros foram mais notveis por faanhas guerreiras que por brndura e 
polcia
cortess. As suas discrdias com o arcebispo de Santiago sobre a posse de 
vrios bens
entre Douro e M.inho pertencentes  s de Composteia tinham sido violentas e
dilatadas. Afinal os dois prelados reconciliaram-se, e a legacia de Gelmires em 
Braga
foi reconhecida por D. Paio, a troco de conservar as propriedades disputadas 
com o
ttulo de prestimnio ou merc, como cnego de Santiago, no grmio de cujo 
cabido
entrou, segundo o costume, vulgar nesse tempo, de serem os bispos de uma 
diocese
membros do cabido de outra. Fizera-se esta reconciliao nos fins de 1121 e j 
em
Maro de 1122 ele enviava o clero da sua metrpole ao snodo nesse ms 
reunido em
Compostela, no indo ele prprio por se achar ento ausente em Zamora 174 . 
Voltando
da a pouco a Portugal, foi preso por D. Teresa. Os motivos que para isso 
houve
ignoram-se. Sabemos s que o papa expediu uma bula a Gelmires em Junho 
deste
mesmo ano, para que compelisse a rainha dos portugueses a solt-lo at os 
fins do ms
seguinte, alis declarava-a excomungada, ordenando ao compostelano 
pusesse interdito
em todos os senhorios dela. A ameaa produziu seu efeito, porque D. Paio 
aparece j
confirmando os diplomas da rainha-infanta em Outubro desse ano 175 .
Se os monumentos histricos nos no transmitiram as causas da priso do
metropolita bracarense, as circunstncias deste facto, comparadas com os 
sucessos
contemporneos e com os que pouco depois ocorreram, levam-nos a suspeitar 
que esta
priso seja o primeiro e tnue indcio da revoluo que, arrancando o poder 
das mos de
D. Teresa, o fez cair nas de seu filho. A influncia ilimitada de Fernando Feres 
devia
forosamente excitar desde o princpio o descontentamento e o cime dos 
bares
(Livro Preto, f. 85), em que confirmam os bispos de Tui e Orense; dos foros 
desta cidade dados pelo
bispo Diogo com a aprovao de D. Teresa, que tinha Limia com o conde 
Fernando, foros
mencionados numa escritura de 1189 (Espaa Sagrada, T. 17, p. 84); e 
finalmente pela clebre doao ao
Mosteiro de Monte Ramo (1124), em que D. Teresa se intitula mulher do 
conde Fernando (Yepes, T. 7,
escrito 33). O senhorio de Tal v-se, alm do documento do Livro Preto acima 
citado, das doaes feitas
quela s em Setembro e Outubro de 1125 (Espaa Sagrada, T. 22, Apndices 
4 e 5), senhorio que
conservava ainda em 1127, nesta e noutras terras adjacentes a Portugal 
(Historia Compostellana, L. 2, c.
85). A posse de Zamora deduz-se de se armar cavaleiro na s desta cidade o 
infante Afonso Henriques em
1125 (Chronica Gothorum, era 1163), e de vir ainda a Afonso VII tratar de 
pares com D. Teresa e com
o conde Fernando em 1127 (Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 1, pargrafo 2), 
conservando tambm,
porventura, ao menos uma parte das outras terras adquiridas pelo tratado de 
1121.
174 Bracharensis arcbiepiscopus... circa id tempos in Numantiae morabatur 
finibus, Historia
Compostellana, L. 2, c. 52.
175 Documento de Outubro de 1122, no Livro Preto, f. 85..144
portugueses, e as revoltas da Galiza, produzidas por um caso anlogo, eram 
exemplo
mui evidente e prximo, que lhes apontava o caminho que deviam seguir. No
ignoravam eles, por certo, os meios a que os fidalgos galegos tinham recorrido 
na sua
conspirao, porque Portugal nela tivera boa parte. Os poderosos parentes que 
o amante
de D. Teresa tinha na Galiza e as suas relaes com o omnipotente Gelmires 
tornavam
necessrio que eles preparassem de sobremo os meios de sacudir o jugo 
importuno do
conde. A famlia dos Mendes da Maia,  qual pertencia o arcebispo, foi uma 
das que
principalmente figuraram na revoluo que da a anos privou D. Teresa do 
governo 176 .
Existiam j neste ano princpios da conjurao? Era Zamora, como lugar 
remoto e ao
mesmo tempo importante, o centro dela? D-se alguma relao entre esta 
residncia em
Zamora de D. Paio e o facto de ir Afonso Henriques armar-se ali cavaleiro 
pouco
depois, o que, como adiante diremos, tem para ns uma significao diversa da 
que lhe
atribuem os historiadores? Teve indcios D. Teresa da comeada trama e quis 
por ela
punir o arcebispo? Eis uma srie de questes que, nas trevas espessas que 
obscurecem a
maior parte dos sucessos daquele tempo, no passam de conjecturas, mas 
conjecturas
verosmeis, que os progressos dos estudos histricos viro acaso algum dia 
resolver
afirmativamente.
Temo-nos aqui abstido de falar em Afonso Henriques, acerca de cuja infncia 
no
faltam curiosas lendas nos nossos livros histricos. Como a de Carlos Magno 
ou de
Artur; como a de quase todos os fundadores de antigas monarquias, a sua vida 
foi desde
o bero povoada de maravilhas e milagres pela tradio popular. Infelizmente 
os
inexorveis monumentos contemporneos destroem, ou com o seu testemunho 
em
contrrio ou com o seu no menos severo silncio, esses dourados sonhos que 
uma
erudio mais patritica e piedosa que ilustrada recolheu e perpetuou. A 
histria  hoje
uma coisa assaz grave para no se entreter em conservar lendas nascidas e 
derramadas
em pocas mui posteriores aos indivduos a quem se referem. At  idade de 
catorze
anos o filho do conde Henrique apenas figura como confirmante de alguns 
diplomas de
sua me, segundo a frmula de chancelaria, vulgar nesse tempo, de se 
lanarem nos
documentos antes dos nomes dos bispos e ricos-homens confirmantes os dos 
filhos do
prncipe, muitas vezes ainda na primeira infncia deles 177 . A Crnica dos 
Godos,
escrita, ao menos em parte, por um contemporneo 178 , apesar de ser 
principalmente
destinada a conservar as memrias do seu governo, nada menciona que lhe 
diga respeito
antes dos catorze anos. O cronista ignorava, at, a poca prefixa do seu 
nascimento 179 .
A crtica tem feito a devida justia aos documentos forjados para encher essa 
lacuna,
alis de nenhuma importncia.  em 1125 que o infante pratica o primeiro acto 
de que a
histria conserva lembrana. Este acto foi o armar-se cavaleiro em Zamora, 
ento unida,
como vimos, aos domnios de D. Teresa. Na catedral daquela cidade, no santo 
dia de
Pentecostes, ele prprio foi tirar as armas de cavaleiro de cima do altar de S. 
Salvador e
176 Documento do infante Afonso Henriques, de Maio de 1128, no Elucidrio; 
verbete Tempreiros,
onde entre os principais confirmantes figuram trs membros dessa famlia; 
Documento de Pedroso, em
Brando, Monarquia Lusitana, L. 9, c. 19.
177 Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, n209 e ss. A enumerao dos filhos 
dos prncipes nos
documentos destes  to trivial que fora intil abon-la com citaes.
178 O autor desta crnica, a mais importante para os primeiros tempos da 
monarquia, fala de Nuno Soares
e de D. Joo Midiz como de personagens vivos e conhecidos (era 1148), e 
estes dois fidalgos existiam na
poca de D. Teresa e de Afonso I (veja-se o Livro das Linhagens, atribudo ao 
conde D. Pedro, tits. 21 e
40, e o Livro Preto, fs. 163, 223 e 245). Alm disso, ele ainda ouvira contar a 
muitas pessoas idosas que
Coimbra estivera deserta sete anos depois de destruda por Al-Manssor (era 
1026). Para isto devia ter
nascido muito antes do fim do sculo X.
179 Sobre a poca do nascimento de Afonso Henriques veja-se a nota XI no 
fim do volume..145
junto dele vestiu a loriga e cingiu o cinto militar, segundo o costume dos reis 
180 . A
elevao de Afonso Henriques ao mais nobre grau da vida das armas, em 
idade
imprpria para satisfazer as obrigaes que ela lhe impunha, oferece uma 
circunstncia
notvel, e  que no ano antecedente e neste mesmo dia Afonso VII praticara 
igual
cerimnia na catedral de Compostela, e tomara do altar de Santiago a espada 
que para
esse fim Diogo Gelmires benzera 181 . Brevemente os dois primos deviam 
exercitar um
contra o outro o nobre mister que a aceitavam e que a Igreja santificara para 
os
combates contra os infiis.
Durante estes anos, as perturbaes causadas em frica pela nova seita dos
almadas tinham impedido Ali, o amir de Marrocos, de promover a guerra 
contra os
cristos da Espanha. Nesta regio o terrvel aoute dos muulmanos, Afonso I 
de
Arago, entretinha principalmente as foras dos almorvidas, e as incurses 
das
fronteiras do Ocidente eram passageiras e apenas feitas pelos sarracenos 
naturais do pas
182 . D. Teresa aproveitara esta conjuno para restaurar a linha de castelos 
que
defendiam a fronteira meridional do distrito de Coimbra. Pelo menos os de 
Soure e
Santa Eullia foram por esses anos reedificados. Em 1122 o conde Fernando 
Feres, que
possua o de Coja sobre o Alva, cedeu-o  rainha, recebendo em recompensa 
o senhorio
daqueloutros. Soure, como mais exposto s correrias, com dificuldade achava
habitadores; todavia, j por 1125 ele era no s um lugar forte, mas tambm 
uma
povoao importante 183 .
Depois de um reinado de dezassete anos consumidos em tumultos e guerras, 
D.
Urraca faleceu em Maro de 1126. A sua morte punha definitivamente nas 
mos de
Afonso VII o ceptro de Leo e Castela. A maior parte da nobreza declarou-se 
por ele.
Os fautores do conde Pedro de, Lara debalde tentaram opor-se a que o moo 
monarca
subisse tranquilamente ao trono: o prprio conde foi constrangido a fazer com 
ele a paz.
Os lugares que o rei de Arago conservava ainda em Castela comearam a 
rebelar-se-lhe,
e os habitantes das povoaes acometiam e reduziam os castelos guarnecidos 
de
tropas aragonesas, tomando a voz de Afonso VII.
Previa este, por isso, uma guerra com aquele que fora seu padrasto, e para a
sustentar na fronteira oriental importava-lhe que se conservasse pacfico o 
Ocidente dos
seus estados. Fora isto o que ele primeiramente assegurara, vindo a Zamora, 
onde D.
Teresa se achava ento com o conde Fernando Peres, e fazendo a paz e 
amizade com
eles por um perodo marcado; porque, como o tempo mostrou, Afonso no 
estava
resolvido a consentir de futuro na independncia completa de uma das mais 
belas
180 ... apud sedem Zamorensem, ab altario sancti Salvatoris, ipse sibi manu 
propria sumpsit militaria
arma ab altari, et ibidem in altari indutus est et accintus militaribus armis, sicut, 
moris est regibus facere,
in die sancto Pentecoste, Chronica Gothorum, era 1163. O Pentecostes era 
a festividade em que mais
costumavam armar-se os cavaleiros. Veja-se Ducange, verbetes Arma, 
Miles e Carpentier, verbete
Militia (1). Como o cavaleiro que armava um novel tomava sobre ele uma 
espcie de superioridade
(Ducange, ibid., pargrafo ut porro apud romanos, etc.), os reis de Espanha, 
ciosos da sua
independncia, seguiam o costume de se armarem pelas prprias mos. 
Compare-se Rodrigo de Toledo,
L. 9, c. 10, Espaa Sagrada, T. 26, p. 304; Muntaner, Cronica delrey D. James 
primer, c. 297, Cronica
delrey en Pedro de Arago, L. 2, c. 9, etc.
181 Historia Compostellana, L. 2, c. 64, pargrafo 2.
182 ...agarenorum insidias, qui tunc (1123) viarum comeatus clam, necnon et 
publice incursabant grave
captivitatis pondus cum acerbae mortis casibus homibus inferentes, Salvato, 
Vita S. Martini
Sauriensis, pargrafo 6; ismaelitae ou agareni era naquela poca a 
denominao que davam os cristos
aos muulmanos espanhis: a palavra moabitae, como nos parece ter dito j, 
designava os almorvidas
(al-morabethyn).
183 Carta de permutao de Coja por Santa Eullia e Soure, e doao daquele 
castelo ao bispo de Coimbra
em Novembro de 1122 (Livro Preto, f. 214 e 85 v.; Salvato, Vita S. Martini 
Sauriensis, pargrafos 6, 7,
8)..146
provncias unidas  coroa leonesa por seu bisav Fernando I 184 .
A guerra com Afonso de Arago comeou, de feito. O rei lidador entrara
rapidamente em Castela para reforar as guarnies dos lugares fortes que 
ainda
possua. Afonso VII saiu-lhe ao encontro com um poderoso exrcito. Apesar da
conhecida traio do conde de Lara, que, posto formasse com as suas tropas 
parte da
vanguarda castelhana, recusara pelejar com os aragoneses, Afonso I no se 
atreveu a
acometer o enteado. Tratou-se ento de armistcio entre os dois prncipes, e a 
guerra
ficou suspensa, para da a dois anos rebentar com dobrada violncia.
As dvidas que, provavelmente, foram suscitadas nas vistas em Zamora entre 
D.
Teresa e o sobrinho sobre as relaes polticas de Portugal com Leo parece 
terem
ficado indecisas como o estavam havia anos. Mas a infanta-rainha, enquanto 
Afonso VII
partia para Castela contra os aragoneses, cuidava activamente de pr em 
estado de
defesa os seus domnios da Galiza. Com este intuito fazia passar tropas para o 
Norte do
Minho e, no se julgando segura com os castelos que ali possua, edificava 
outros de
novo, por cujo meio cria habilitar-se para recusar sujeio a seu sobrinho se 
este
pretendesse impor-lha 185 . Ao mesmo tempo os fidalgos galegos, sempre 
turbulentos,
comeavam a preparar de novo a guerra civil; mas Gelmires, ou j cansado 
das
perturbaes passadas ou porque sinceramente se resolvera a seguir por 
ento o partido
do novo rei, soube traz-los por meios brandos  obedincia, e Arias Peres, 
que se
mostrava tenaz na intentada rebelio, viu destrudas ou tomadas pelas foras 
do
arcebispo e do conde Gomes os castelos de Lobeira, Taberiolo, Penacornaria e 
outros
em que confiava 186 .
A reduo de Portugal era, porm, negcio mais grave. D. Teresa tinha por si 
no
s os bares de Portugal, mas tambm Fernando Peres, seu amante, e os 
cavaleiros da
Galiza que  sombra dele tinham vindo residir em Portugal. No lhe faltavam, 
alm
disso, homens de armas e riquezas para sustentar a guerra. Orgulhosa do seu 
poder, D.
Teresa, que durante o governo de D. Urraca evitara, como temos visto, o 
declarar-se de
todo independente, constrangida, talvez, agora pelas pretenses mais precisas 
de Afonso
VII, recusava formalmente cumprir com as obrigaes nascidas da tenncia 
que,
conforme o tratado de 1121 e atenta a origem primitiva dos domnios de que 
era
senhora, o rei leons entendia que ela exercitava 187 .
Foram estes os motivos que trouxeram a Portugal uma invaso semelhante  
que o
deixara assolado dez anos antes. Na Primavera de 1127, feitas j as trguas 
com o rei de
Arago, Afonso VII veio  Galiza e, mandando ajuntar as tropas desta 
provncia,
marchou com um exrcito numeroso por Entre Douro e Minho. Das 
circunstncias da
guerra no nos restam memrias seno dos males que so comuns em tais 
sucessos e
que pela barbaria dos tempos ainda o eram mais naquele sculo: devastaes 
dos
campos e aldeias, assdios de castelos, runa das grandes povoaes. A sorte 
das armas
mostrou-se mais uma vez adversa a D. Teresa, cujo poder, por grande que 
fosse, era por
certo mui inferior s foras do seu sobrinho. Os reveses experimentados nesta
campanha, que apenas durou seis semanas, obrigaram a rainha a humilhar-se 
e a
reconhecer a supremacia do monarca. Fez-se ento a paz, e Afonso VII 
regressou
imediatamente a Compostela, cujo prelado o acompanhara com todas as 
tropas que
184 Inde rex abiit Zamoram et habuit hic collocutionem in Ricovado cum 
Tarasia regina portugalensium
et cum comite Ferdinando, fecit que, pacem cum eis usque ad destinatum 
tempus, Chronica Adefonsis
Imperatoris, L. 1, pargrafo 2.
185 ...fines Galleciae armato exercitu invadebit ... municipia etiam nova ad 
inquietandam et ad
devastandam patriam et ad rebellandum regi aedificari faciebat, Historia 
Compostellana, L. 2, c. 85.
186 Ibid., c. 84.
187 Fastu superbiae data terminos justitiae egrediebatur, et nullum regi 
servitium de regno, quod ab illo
tenere debetat, exhibere dignabatur; mimo viris, armis, atque opubus 
poteris..., ibid., c. 85..147
pudera ajuntar para aquela expedio 188 .
Um dos factos mais poticos da nossa histria parece ter-se verificado durante
esta invaso do rei leons. Falamos da devoo herica de Egas Moniz, tantas 
vezes
citada como um dos mais nobres exemplos de honra e lealdade. Colocando a 
data do
sucesso nos fins do ano seguinte ou nos princpios de 1129, como o fazem 
comummente
os historiadores, seria necessrio rejeit-lo por fabuloso, como contrrio a 
factos
indisputveis. Supondo-o, porm, realizado neste ano, no s se torna 
possvel, mas
tambm, concordando com documentos de outro modo inexplicveis, refora a 
nossa
opinio sobre haverem aparecido j neste ano os primeiros sintomas da 
rebelio do
infante Afonso Henriques contra D. Teresa.
Fizemos antes notar a circunstncia da priso do arcebispo de Braga depois de
uma residncia demorada em Zamora, e a de ser este prelado dum gnio 
violento e
membro da famlia dos senhores da Maia, cujas estreitas ligaes polticas com 
o
infante, ainda em vida da rainha,  impossvel desconhecer. Narrmos tambm 
por que
maneira Afonso Henriques, tendo apenas catorze anos, idade mais prpria dos
entretenimentos juvenis que da ambio de glria, se armara cavaleiro por 
suas prprias
mos na s de Zamora. O exemplo do que havia sucedido em Leo e Galiza 
nos anos
anteriores, a irritao dos bares portugueses contra o valimento de Fernando 
Peres,
tudo, enfim persuade que essa violenta revoluo, que numa batalha s 
acabou com a
autoridade de D. Teresa, no foi um sucesso repentino sem antecedncias, 
sem uma
conspirao longamente preparada. Afonso Henriques, tomando o grau de 
cavaleiro
pela forma que usavam os prncipes independentes e numa idade em que a 
espada era
para ele um vo ornato, prestou-se em nosso entender a uma farsa dos 
conjurados, que
com esse acto queriam lavrar uma espcie de protesto, no contra o domnio 
leons, mas
contra o de Fernando Peres, a quem, segundo se v das subscries dos 
diplomas desse
tempo, ele era inferior na considerao da corte de sua me, que o ia 
afastando
inteiramente dos negcios do Estado 189 . Desde ento,  natural que esses 
mesmos que
assim comeavam a preparar o infante para instrumento dos seus desgnios 
lhe fossem
despertando e alimentando a ambio, sentimento que o tempo mostrou ser 
fcil de
desenvolver no corao do mancebo. Se o estudo dos costumes daquela 
poca e ainda
mais o do corao humano nos no ilude, cremos que se uma histria 
contempornea e
particularizada destes sucessos tivesse chegado at ns a encontraramos 
mais de uma
cena anloga s que passaram na Galiza e em Leo durante a menoridade de 
Afonso
Raimundes, quando os nobres, irritados contra a influncia de Pedro de Lara e 
contra D.
Urraca, tomavam por bandeira da sua vingana o nome daquele prncipe.
Os historiadores modernos supem que foi unicamente em 1128 que as 
discrdias
entre D. Teresa e seu filho chegaram a declarada ruptura. Ns persuadimo-nos 
de que as
primeiras tentativas de rebelio comearam um ano antes e de que a narrao 
das cr-nicas
do sculo XVI, hoje com razo excludas do nmero das legtimas fontes
histricas, pode no se afastar absolutamente da verdade giesta parte 190 . 
Em tal
pressuposto, eis, segundo a nossa opinio, como devia passar o sucesso. As 
terras de
Portugal em que dominavam ou influam os parciais de Afonso Henriques 
comearam a
rebelar-se nos princpios de 1127. Entre elas Guimares, a antiga corte do 
conde
Henrique, declarou-se pelo infante, que a se achava. A invaso de Afonso VII 
veio
188 Magno exercitu... ibique per sex hebdomadas vilas devastando, castra et 
civitates capiendo... donec
terra fere tota devastata fuit, Rex - A. portucalensi pago... acquisito e pacificato, 
Compostelam citato calle
adivit, ibid., c. 85 e 86.
189 ...amoto filio a negocio regni, Chronica Gothorum.
190 Galvo, Crnica de El-Rei D. Afonso Henriques, c. 6; Acenheiro, Crnica 
dos Reis de Portugal, c. 2;
Livro das Linhagens, atribudo ao conde D. Pedro, tit. 7..148
ento impedir ou antes adiar a guerra civil. Na sua marcha vitoriosa, o rei de 
Leo,
rendidos outros castelos e povoaes, ps stio a Guimares; porque ao 
prncipe no
importava por certo se era sua tia ou seu primo que regia Portugal; importava-
lhe que
esta provncia reconhecesse a sua autoridade suprema. Depois de alguma 
resistncia,
vendo que as suas foras no bastavam para repelir os cercadores, os bares 
e cavaleiros
encerrados nos muros de Guimares declararam em nome do moo Afonso 
que ele se
consideraria de futuro vassalo da coroa leonesa. Egas Moniz, poderoso fidalgo 
cujos
senhorios se dilatavam pelas margens do Alto Douro e que, talvez mais que 
nenhum,
gozava a reputao de homem leal, ficou por fiador da promessa. O rei de 
Leo
levantou o cerco e, depois de reduzir  obedincia D. Teresa, retirou-se para a 
Galiza.
Quando, porm, os sucessos de 1128 entregaram Portugal nas mos do filho 
do conde
Henrique, ele esqueceu as promessas de Guimares, e com ele as 
esqueceram os bares
portugueses. S Egas Moniz se lembrou do que jurara. Seguido de sua mulher 
e filhos,
dirigiu-se a corte do monarca e, apresentando-se perante ele descalo e com 
uma corda
ao pescoo, pediu para resgatar com a morte a sua palavra nunca trada. Era 
grande a
clera de Afonso VII; mas venceu-o aquela inaudita faanha de lealdade. 
Deixou-o
partir solto e livre e, o que era mais para o nobre cavaleiro, sem a taxa de 
deslealdade
191 .
A independncia portuguesa, que por tantos anos tendera a realizar-se, 
retrocedia
ainda uma vez; era um problema cuja soluo j perto do seu termo tornar a 
ser tentada
de novo. Mas as consequncias da vitria obtida pelo rei de Leo, posto que 
graves, no
eram talvez as mais de recear: o amor cego da rainha por um homem alheio  
provncia,
poderoso por alianas e parentescos com muitos ilustres barbes da Galiza e 
ainda de
Leo e de Castela 192 , e a importncia que, alm dele, obtivera em Portugal 
seu irmo
mais velho, Bermudo Peres, o qual nos princpios de 1128 achamos 
dominando em
Viseu 193 , e por consequncia a clientela numerosa, quer de naturais, quer de 
estranhos,
cujos interesses seriam conformes com os dos dois irmos, tudo servia para 
tornar
duvidosa a sorte fritura de Portugal, ligada  vontade de um valido cujo 
procedimento
poltico podia ser guiado por consideraes e respeitos contrrios  desejada
independncia do pas que indirectamente governava. Se atendermos  
confiana que,
pouco depois, Afonso VII punha no conde Fernando Peres, e  guerra que este 
fez a
Portugal com os outros condes da Galiza, como adiante veremos, no ser 
demasiado
violento supor que na invaso de 1127 ele contribura para D. Teresa dar 
obedincia ao
rei de Leo, pressuposto tanto mais provvel quanto nos Consta que o principal 
autor da
pacificao foi o antigo favorecedor do conde, o clebre Gelmires 194 .
Tal era a situao poltica do pas. Afonso Henriques, o moo cavaleiro, 
chegara 
idade de dezassete anos. Era ele, segundo o testemunho de um seu 
contemporneo,
destro nas armas, eloquente, cauteloso e de claro engenho. Ajuntava a estes 
dotes, 4ue
devemos supor exagerados por se atriburem a to curta idade, a nobreza da 
figura e a
beleza de rosto 195 . A ambio do poder, o exemplo de seu primo Afonso 
Raimundes, a
disposio dos nimos irritados contra o predomnio de Fernando Peres, as 
instigaes
dos fidalgos, a excluso ignominiosa em que o conservavam dos negcios 
pblicos,
tudo o excitara a colocar-se  frente de uma revoluo cujas consequncias, 
naqueles
191 Sobre este e os antecedentes pargrafos. veja-se a nota XII no fim do 
volume.
192 Estes parentescos e alianas de Fernando Peres podem ver-se na Historia 
Compostellana, e em Salazar
de Castro, Historia de la casa de Lara, passim.
193 Documento de Arouca, na Monarquia Lusitana, P. 3, Apndice, escrito 
12.
194 Et ipse [sit. archiepiscopus] concordiam inter regem et reginam suo 
consilio atque solertia
reformavit, Historia Compostellana, L. 2, c. 35, pargrafo 1.
195 Fuit vir armis strenuus, lingua eruditus, prtidentissimus in operibus suis, 
clarus ingenio, corpore
decorus, pulcher aspectu, e visu desiderabilis, Chronica Gothorum, era 
1163..149
verdes anos, no era fcil prever. Tinha amigos prprios, e a principal nobreza 
preferia
v-lo apossar-se do mando supremo a sofrer que os estranhos e os partidrios 
destes
governassem por interveno de D. Teresa 196 . Como se manifestou a 
rebeldia e quais
foram as particularidades que ocorreram nela so coisas sobre que restam 
sobejas
fbulas, mas apenas fugitivas memrias. Parece, porm, certo que nos 
primeiros meses
de 1128 a guerra civil, encetada no ano antecedente, se preparava de novo ou 
j
porventura comeara. As principais personagens que em Maio desse ano 
estavam
ligadas com Afonso Henriques eram o arcebispo D. Paio, seu irmo Soeiro 
Mendes,
denominado o Grosso, Ermgio Moniz, Sancho Nunes, marido que era ou 
depois foi de
D. Sancha, irm do infante, e Garcia Soares. Diante destes e doutros nobres 
cavaleiros
de Portugal declarava ele em Braga a sua inteno de se apossar do governo, 
e fazia de
antemo mercs ao metropolita, contando com o auxlio dele nessa empresa 
197 .
Pelos indcios que os documentos nos ministram, o infante abandonou sua 
me, a
qual talvez se achava ento na corte de Afonso VII, e dirigiu-se  provncia de 
Entre
Douro e Minho no ms de Abril. A revoluo parece ter rebentado naquela 
provncia,
dilatando-se pelo distrito de Guimares, pelo condado de Refios de Lima, pelo
territrio de Braga e pelas terras, enfim, dos nobres que seguiam a parcialidade 
do
infante. A suspeita da ausncia de D. Teresa na ocasio do levantamento 
adquire maior
probabilidade, se atendermos a que s quase trs meses depois os dois 
partidos vieram a
uma batalha, que foi decisiva e fatal para a rainha. De feito, esta, tendo 
marchado para
Guimares com as tropas dos fidalgos galegos e dos portugueses seus 
partidrios, a se
encontrou com o exrcito do infante no campo de S. Mamede, junto daquela 
povoao.
Foi desbaratada D. Teresa e fugiu: nesta fuga, porm, perseguida pelo filho, 
ficou
prisioneira com muitos dos seus 198 . A tradio refere que Afonso Henriques 
a lanara
carregada de cadeias no castelo de Lanhoso. No desdiz essa tradio dos 
costumes
ferozes do tempo; mas desdiz dos monumentos coevos, que no a autorizam. 
O que 
certo  que num s dia de combate o poder supremo, que o moo prncipe 
tanto
ambicionava, lhe cara nas mos.
Afonso Henriques no quis ou no ousou aproveitar-se das vantagens obtidas 
para
se vingar de sua me e do conde, contentando-se com expuls-los de Portugal 
199 . Como
a de D. Urraca, a desgraada afeio de D. Teresa tinha dado ou motivo ou 
pretexto a
uma guerra civil e  quebra dos laos da natureza que a deviam prender a seu 
filho,
simples laos morais que a histria daquela poca por toda a Europa nos 
mostra serem
ento assaz frgeis para conter as ambies. Nesses tempos a desordem dos 
costumes
fazia com que semelhante procedimento no estampasse um ferrete indelvel 
de
ignomnia na fronte dos prncipes que assim calcavam aos ps o amor filial, at 
porque
lhes serviam de desculpa  se tais factos podem em tempo nenhum merec-la 
 os erros
ou crimes dos seus progenitores e as convenincias, bem ou mal entendidas, 
da ptria.
As memrias que nos restam da filha de Afonso VI durante os dois anos que
196 Quidam indigni e alienigenae vendicabant regnum Portugallis, matre ejus 
regina D. Tarasia eis
consentiente, volens et ipsa superbe regnare loco mariti sul, amoto filio a 
negotio regni. Quam injuriam...
nullatenus ferre valens... convocatis amicis suis et nobilioribus de Portugal, qui 
eum multo maxime quam
matrem ejus, vel indignos et exteros natione, volebant regnare super se, ibid., 
era 1166.
197 Quando habuero portugalensem terram adquisitam... ut tu [sc. Pelagius 
archiepiscopus] sis adjutor
meus (doao  s de Braga, Maio de 1128, no Elucidrio, T. 2, p. 352). 
Acerca de Sancho Nunes veja-se
o Livro Velho das Linhagens, na Histria Genealgica, Provas, T. 1.
198 Commisit cum eis praelium in campo S. Mametis, quid est prope 
castellum de Vimaranes, et contriti
sunt, et devicti ab eo, et fugerunt a facie ejus, et comprehendit eos, Chronica 
Gothorum, era 1666.
Veja-se a nota XIII no fim do volume.
199 Regina una cum suo comite a regno expulsis, ejus filius... uno die 
bellando... susciperet principatum,
Livro dos Testamentos de Santa Cruz, na Monarquia Lusitana, P. 3, Apndice, 
escrito 15..150
sobreviveu desterrada so assaz escassas. Fugitiva e sem o prestgio da 
autoridade,
quem se lembraria mais dela? O que parece provvel  que seguisse para a 
Galiza
Fernando Peres. Este, ao menos, no se esqueceu de quanto D. Teresa lhe 
sacrificara e,
ainda depois da sua morte, empregava acerca dela expresses que revelam 
amor sincero
e afectuosa saudade. Se algum, dizia o conde fazendo exarar uma doao 
de terras 
s de Coimbra para que Deus associasse aos bem-aventurados a j falecida 
princesa, 
se algum houver a que intente anular (o que no creio) a doao que ora 
fao, pague
em dobro a ousadia  autoridade real, e se for algum indivduo to poderoso e 
cruel que
possa conservar-se pertinaz, seja o seu destino na morte o de Dathan e 
Abiron.200 A
frmula inslita por que termina este diploma diz-nos que os restos de D. 
Teresa ainda
tiveram quem sobre eles vertesse lgrimas. Os monumentos histricos 
contemporneos
apenas, porm, nos referem que falecera no primeiro de Novembro de 1130 
201 . Um
antigo tmulo na catedral de Braga nos assegura, finalmente, que as suas 
cinzas foram
transportadas para o lugar onde tambm repousam as cinzas de seu marido.
Os escritores modernos, empenhados em salvar a reputao moral de D. 
Teresa
como mulher, esqueceram-se de lhe fazer justia como rainha ou regente de 
Portugal.
Tem-se dissertado largamente sobre o seu consrcio com o conde Fernando 
Peres, que
nada nos autoriza a admitir 202 , enquanto o valor histrico do seu governo 
perfeitamente desprezado. Todavia, durante catorze anos os actos da viva do 
conde
Henrique mostram bem a perseverana e destreza com que buscou 
desenvolver e
realizar o pensamento de independncia que ele lhe legara. Cedendo  fora 
das
circunstncias, no duvidava de reconhecer a supremacia da corte de Leo 
para obter a
paz quando dela carecia, salvo o recusar a obedincia quando cria possvel 
resistir.
Associando-se habilmente aos bandos civis que despedaavam a monarquia 
leonesa, ia
criando no meio dela para si e para os seus uma ptria. Apesar das invases 
de cristos e
sarracenos e das devastaes e males causados por uns ou por outros nos 
territrios dos
seus estados, estes cresceram em populao, em riquezas e em foras 
militares 203 . Pelas
armas e pela poltica aumentou a extenso dos prprios domnios ao oriente e 
ao norte
conservando ao meio-dia a linha das fronteiras que seu marido j lhe deixara 
encurtadas.
O castigo de um erro, que, medido pelos costumes do tempo, estava longe de 
ser
imperdovel, parece-nos demasiado severo, e o procedimento dos bares 
portugueses
para com ela merecer dos desprevenidos a imputao de ingrato. D. Teresa 
foi vtima
de um sentimento nobre em si, mas s vezes excessivo e cego, que ela tinha 
feito
crescer, radicar-se, definir-se, e que serviu de pretexto de rebeldia  ambio 
de Afonso
Henriques, ou antes  daqueles que por meio do inexperiente prncipe 
esperavam
melhor satisfaz-la. Este sentimento era o da nacionalidade. A Crnica dos 
Godos, que,
narrando os sucessos de 1128, toma o estilo do libelo poltico, no era 
provavelmente
mais que o eco da opinio vulgar. A os galegos so tratados de estrangeiros 
ou
forasteiros indignos. Esta denominao de injria, que, aplicada vinte anos 
antes aos
habitantes das outras provncias da monarquia fundada por Pelgio, seria 
ininteligvel
em Portugal, estreava por uma revoluo gravssima a sua fortuna popular de 
sete
sculos.
200 Si vero aliquis, quod fieri non credo, ad conturbandum vel irrumpendum 
hoc meum testarnentum,
restituat et regie potestati aliud tantum. Qui si tante potencie vel credulitatis 
fuerit ut in ista pertinacia
hujus vite finem faciat, cum Datan et Abiron, Livro Preto, f. 126.
201 Ad aerum 1168. Obiit regina Donna Tarasia mater domini Allonsi, calend. 
Novembris, Chronica
Gothorum
202 Nota XIV no fim do volume.
203 Viris, armis atque opibus potens, Historia Compostellana..151
LIVRO II
1128-1185
Primeiros anos do governo de Afonso Henriques. Guerra na Galiza.  Tentativa
de rebelio.  Continuao da guerra.  O castelo de Celmes fundado e 
perdido. 
Alianas de Afonso com o rei de Navarra e com alguns fidalgos da Galiza.  
Vitria de
Cerneja.  Perda de Leiria e destroo em Tomar.  Paz de Tui com o imperador 
Afonso
VII.  Os almorvidas e os almadas.  Jornada de Ourique.  Renovao das
discrdias com o imperador.  Recontro de Valdevez.  Pacificao.  Algara 
dos
sarracenos. Leiria e Trancoso destruidas. Desbarato dos invasores.  Afonso 
toma o
ttulo de rei.  Feudo ao papa. Circunstncias do sucesso.  Situao dos 
sarracenos.
Aliana de Afonso I com Ibn Kasi e correrias dos cristos no Gharb.  
Consrcio do rei
de Portugal.  Tomada de Santarm, Lisboa e outros La gares.  Guerras civis 
entre os
muulmanos.  Tentativas repetidas contra Alccer.  Conquistas no moderno 
Alentejo
 Leo e Castela por morte de Afonso VII.  Alianas de famlia entre Afonso I, 
o conde
de Barcelona e Fernando II de Leo.  O rei de Portugal desbaratado pelos 
almadas.
 Tomada de Beja e vora.  Invaso dos portugueses alm do Guadiana.  
Moura,
Serpe e Alconchel submetidas.  Discrdias entre Afonso I e o rei de Leo.  
Destroo
dos portugueses em Arganal.  Conquista do Sul da Galiza.  O rei de 
Portugal,
prisioneiro dos leoneses em Badajoz,  posto em liberdade.  Providncias 
para a
defenso do pas.  Primeiro cerco de Santarm pelos almadas. Trguas.  
Casamento
do prncipe herdeiro, o infante Sancho.  Invaso dos portugueses na Andei 
azia.
Represlias.  O papa confirma o ttulo de rei a Afonso Henriques.  
Continuao da
guerra com os sarracenos.  A infanta D. Teresa desposada com o conde da 
Flandres.
 O amir al-mumenin Yusuf Abu Yacub invade pessoalmente Portugal.  
Segundo cerco
de Santarm e morte do amir.  ltimos dias de Afonso I  Eplogo.
No podia, porm, Afonso VII olhar com indiferena para esse grave sucesso.
Apenas decorrera um ano desde que o moo rei obrigara sua tia a reconhecer-
lhe uma
espcie de vassalagem, fazendo paz com ela depois de lhe devastar os 
domnios. O
pretexto de nacionalidade que servira de estandarte  revoluo, segundo se 
deduz da
crnica denominada dos Godos, equivalia a uma declarao formal de 
independncia,
porque este pensamento se continha virtualmente naquele. Dois meios tinha o 
prncipe
leons de acudir ao mal; ou restituir pelas armas  rainha fugitiva o poder de 
que seu
filho a privara ou, aceitando o facto consumado, exigir de Afonso Henriques 
que se
considerasse como simples lugar-tenente ou vassalo da coroa, qual fora sua 
me, ao
menos nos ltimos tempos. As inquietaes intestinas da monarquia e a guerra 
quase
incessante com o belicoso rei de Arago aconselhavam o segundo expediente 
ou, antes,
constrangiam Afonso VII a segui-lo. Mas se as circunstncias polticas 
tornavam
inexequvel o usar do primeiro com toda a energia, os sucessos posteriores 
provaram
204 Ego infans Alfonsus... ab amida pressura alienas, et Colimbriensium ac 
totius urbium
portugalensium dominas securus effectus, Documento de Arouca, em 
Brando, Monarquia Lusitana,
P. 3, L. 9, c. 16 (Abril de 1129).
Expulsos de Portugal a rainha D. Teresa e o conde Fernando Peres, toda a
provncia seguiu a fortuna do vencedor, posto que um documento 
contemporneo
parea indicar que algumas resistncias houve e que estas se prolongaram at 
os fins de
1128 ou princpios do ano seguinte 204 ..152
que, empregadas frouxamente as armas e s como auxiliares do segundo, isso 
no
serviria seno de ir firmando o poder independente do filho do conde Henrique.
Vimos como D. Teresa se apoderara, alm do que propriamente era territrio 
de
Portugal, dos distritos de Tui e Orense e como, pelo convnio celebrado em 
1121 com
D. Urraca, ficara possuindo, no s estes, mas tambm outros senhorios em 
nome de sua
irm at  morte dela. As questes suscitadas em 1127 e a entrada do rei de 
Leo em
Portugal lhos fizeram provavelmente perder; ao menos, depois deste 
acontecimento
nenhuns vestgios se encontram da sua jurisdio na Galiza ou nas cidades 
das
Estremaduras cujo domnio obtivera. Afonso Henriques herdava, assim, apenas 
o antigo
condado ou provncia de seu pai, e isso mesmo, na opinio da corte leonesa, 
no
passava de simples tenncia, da qual Afonso VII pretendia ter o domnio 
eminente como
sucessor de D. Urraca e de Afonso VI 205 . O infante, porm, resistiu s 
pretenses de seu
primo. No era s a ambio; era tambm o voto dos sbditos que a isso o 
incitava. O
sentimento de independncia nacional adquirira novas foras com a vitria de 
Gui-mares,
e os nimos repeliam com horror a ideia de sujeio ao filho do conde
Raimundo, que j consideravam como estrangeiro 206 . Afonso Henriques, 
segundo se
colhe das poucas memrias histricas deste tempo, resolveu (1130) evitar os 
males da
guerra nos prprios domnios, penetrando na Galiza com mo armada 207 . 
Serviam-lhe,
provavelmente, de pretexto as convenes feitas com seu pai e, sobretudo, a 
posse que
D. Teresa tivera de Tui e da terra de Limia, de que pretenderia ser senhor 
como o era de
Portugal. Este pensamento explica a sua insistncia em acometer as provncias
limtrofes de Portugal pelo norte. Fossem, porm, quais fossem os motivos de
semelhante procedimento, a tentativa de Afonso Henriques causou srios 
receios ao rei
de Leo. Andava ele a braos nesse tempo com terrveis dificuldades: a 
Espanha crist
ardia em guerras:
Afonso I de Arago continuava a devastar a Castela, e as turbulncias dos 
fidalgos
parciais dos Laras ou do prncipe aragons no davam um momento de 
descanso a
Afonso VII, obrigado a submeter sucessivamente pela fora das armas os 
castelos
rebelados nas Estremaduras, em Castela, nas Astrias e em Leo 208 . A 
entrada de
Afonso Henriques aumentava os embaraos. Para obviar ao mal, o rei leons 
mandou ao
arcebispo Gelmires e aos condes e magistrados da Galiza que lhe sassem ao 
encontro e
o repelissem do modo que fosse possvel. Enquanto os demais coligiam foras 
e se
preparavam para marchar contra os portugueses, o prelado compostelano 
adoeceu ou
fingiu adoecer, e as tropas municipais de Santiago, intimadas para 
acompanharem o
exrcito, recusaram obedecer. A traio de alguns indivduos acabou de 
malograr a
205 Que houve esta pretenso, posto que dela no reste documento,  o que 
se deduz das palavras da
Historia Com posteilana (L. 3, c. 24, pargrafo 1). Ipse infans... regis 
dominationi subjici noluit, sed
adepto honore contra eum arrogantet intumuit. Que os leoneses 
consideravam por este tempo o ttulo de
rei que os portugueses, logo depois da morte de D. Teresa em 1130, 
comearam a dar a Afonso Henriques
como uma coisa sem absoluto valor poltico v-se da crnica latina de Afonso 
VII (L. 1, c. 29): Qua
defuncta (Tarasia) filium suum regem, sicut et postea fuit, ad honorem nominis 
sui dixerunt..
206 Numa sentena de Afonso Henriques na demanda entre herdeiros de 
Garcia Sazes e de Froila Guedaz
sobre a Igreja de 8. Miguel de Borba de Godim, dada a 28 de Maio de 1129 
(Livro de Doaes de Afonso
III, L. 1 f. 100 v., no Arquivo Nacional), diz-se nas maldies usuais do fim: Si 
filius vel nepos meus
judicium et mandatum hujusmudi non observaverit... sst maledictus et 
excommunicatus, et ab extraneo
rege sit coactas et subjucatus, expresses inslitas que provam qual era o 
ardor dessa poca pela
independncia.
207 Jam olim multoties ipse rex portugalensium venerar in Gallaetiam, diz a 
Crnica de Afonso VII,
falando de sucessos ocorridos em 1134; e a Historia Compostellana: Cum que 
rex... pugnaturus in
Galleciam venire nequiret, ut eum (scil. Alphonsum Henrichidem) expugnaret... 
mandavit... ut ei obviam
irent, L. 3, c. 24, pargrafo 1.
208 Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 1, c. 6 a 10; Historia Compostellana, L. 3, 
c. 24..153
empresa, e Afonso Henriques voltou a Portugal sem ter encontrado resistncia 
na sua
tentativa 209 .
Quais foram, porm, as consequncias dela? Eis o que no nos conservaram 
os
monumentos desse tempo. O mais provvel  que o infante se contentasse 
com os
resultados ordinrios destas correrias, muitas vezes suscitadas pelos dios dos 
prncipes
e no raro pela cobia, sem nenhum outro pensamento poltico. , todavia, 
certo que
Afonso VIL no procurou por ento tirar vingana do dano e afronta recebidos. 
A
necessidade de dar trguas s desordens pblicas moveu-o a convocar cortes 
em Leo
210 , onde se tratou de restabelecer a paz pblica e onde foram multados os 
burgueses de
Compostela que haviam recusado defender a provncia da invaso dos 
portugueses.
Estes ltimos, satisfeitos com as vantagens obtidas, abraaram, tcita ou 
expressamente,
as disposies pacficas das cortes de Leo. Ao menos,  preciso supor que a 
boa
harmonia reinava entre as duas provncias limtrofes nos fins de 1130 e em 
1131, para
compreendermos a persistncia de Fernando Peres em Portugal por este 
perodo 211 .
Expulso daqui dois anos antes, e combatendo encarniadamente durante os 
seguintes
contra Afonso Henriques, como depois veremos, s por este meio se poder 
explicar a
vinda do conde aos estados do seu mulo, cuja autoridade parece reconhecer 
nas
prprias expresses do documento que nos guia e que nos deixa ver uma luz 
fugitiva no
meio das trevas que cercam estes primeiros tempos do governo do infante 212 
; luz, na
verdade, tenussima, mas que  prefervel s fbulas inventadas com o correr 
dos
sculos e s tradies maravilhosas recebidas com sobrada boa-f, no s 
pelos
cronistas, mas at pelos mais graves historiadores.
Dissemos j que Bermudo Peres, irmo do conde Fernando e cunhado de 
Afonso
Henriques 213 , obtivera durante o grande predomnio de seu irmo o governo 
de Viseu.
Ou ele se conservara estranho aos sucessos de 1128, ou se reconciliara com o 
cunhado.
De um ou doutro modo,  certo que residia em Portugal em 1131 e que o 
castelo de Seja
estava debaixo do seu domnio. Era Seja um desses lugares fortes, edificados 
pelas
ramificaes da serra da Estrela, que serviam de asilo aos habitantes das 
fronteiras
meridionais contra as correrias dos sarracenos do Gharb, e cujos guerreiros 
povoadores,
repetindo as entradas no territrio muulmano, viviam naquelas speras 
montanhas
principalmente dos saltos e roubos que faziam nos campos e povoaes dos 
seus
adversrios.  fcil de supor a influncia que os senhores das terras e os 
alcaides dos
castelos deviam ter nesses homens duros, ferozes e brutais, habituados a 
obedecerem-lhes
nas cavalgadas contra os mouros, as quais se renovavam todas as primaveras. 
A
fortaleza do lugar e, talvez, a agrura do distrito em que Seja est situada 
favoreciam a
209 Nec tamen contra eum quorundam fraudulentia pugnaverunt, ibid.
210 Risco (Espaa Sagrada, T. 35, p. 180 e ss.) parece confundir esta 
assembleia de Leo, convocada por
Afonso VII, com o Snodo de Carrin desse mesmo ano, presidido pelo legado 
Humberto. A Historia
Compostellana fala, no c. 24 do L. 3, daquela, e diz-nos que o seu objecto era 
o que vai apontado no
texto: O snodo carrionense tinha precedido, como se colhe da mesma Historia 
Compostellana (L. 3, c.
15) e da doao feita durante o snodo pelo primaz de Toledo ao bispo de 
Segvia (Colmenares, Historia
de Segovia, p. 115), em que ainda figura Diogo, bispo de Leo, quando nas 
cortes desta cidade j assistia
Arias, seu sucessor.
211 Documento de Julho de 1131, Livro Preto, f. 126, citado a p. 289. Uma 
parte dos confirmantes so
cnegos de Coimbra, e por isso ali o supomos exarado. Por outro documento 
do Liber Fidei, citado por
Brando (Monarquia Lusitana, L. 9, c. 18), se conhece tambm a assistncia 
do conde em Portugal j em
Julho de 1130.
212 ...do et concedo... sicut illam dederat... et super scriptum terminaverat 
infans domnus Adefonsus,
documento do Livro Preto, citado.
213 Este conde D. Vermoim foi casado com a filha do conde D. Henrique e da 
rainha D. Teresa (Livro
Velho das Linhagens, na Histria Genealgica, Provas, T. 1, p. 198). A mulher 
de Bermudo era D.
Urraca; a outra irm de Afonso Henriques casou com Sancho Nunes, ibid., p. 
146..154
rebelio de Bermudo, e ele tentou-a. Fora intil buscar outros motivos de 
semelhante
tentativa, quando a expulso de Fernando Peres, seu irmo, e a m vontade 
mtua entre
os bares de Portugal e da Galiza nos oferecem explicao bvia do sucesso. 
A vinda do
conde Fernando a Coimbra por este mesmo tempo  uma coincidncia 
singular, e
legitima, at certo ponto, a suspeita de que ele no fosse inteiramente alheio 
ao
procedimento do irmo. O filho de Pedro Froilaz havia cursado assaz a escola 
do
traioeiro Gelmires para ter aproveitado as suas lies de dissimulao e 
perfdia. A
actividade, porm, do moo Afonso Henriques impediu que esta pequena 
chama se
dilatasse e se convertesse em incndio. Instrudo do que se maquinava, 
marchou contra
Seia, e a conspirao falhou.
Bermudo, expulso daquele castelo e da provncia de Portugal, serviu depois
Afonso VII contra o cunhado, cujo prisioneiro foi no recontro de Valdevez, vindo 
a
acabar, passados anos, monge no Mosteiro de Sobrado. Aqueles que se 
haviam unido a
Bermudo Peres foram despojados dos seus bens, e estes distribudos pelos 
servidores do
infante 214 .
Na idade de pouco mais de vinte e um anos, dotado de gnio belicoso e destro 
nas
armas 215 , Afonso Henriques estava talhado para desenvolver largamente a 
ideia da
nacionalidade portuguesa, ideia que amadurecera e se radicara nos nimos de 
modo
indestrutvel. O Portugal daquela poca abrangia escassamente metade do 
nosso
moderno territrio. No resto da Espanha a nova monarquia no tinha aliado 
algum
natural, salvo o Arago e a Navarra: ao norte e oriente o poder do j vastssimo 
imprio
de Leo e Castela ameaava esmag-la, e ao meio-dia os seus limites iam 
entestar com
os sarracenos, inimigos irreconciliveis pela diferena ou antes oposio de 
raa e de
crena. A energia e o esforo necessrios para resistir a to perigosos vizinhos 
deviam
ser grandes. Afonso provou por todo o decurso de um longo reinado que os 
possua. Na
falta de educao literria, inconveniente comum a todos os prncipes e 
cavaleiros de
ento; privado ainda na infncia daquele amor de me que tantas vezes 
afeioa e suaviza
os caracteres mais duros; repelido da interveno nos negcios pela influncia 
ilimitada
da famlia de Trava, em parte as lies da adversidade supriram-lhe as lies 
dos
homens, e em parte a opresso produziu nele o que por via de regra produz 
nas almas
rijamente temperadas: redobrou-lhe a ambio e a audcia; mas tornou-o 
cauteloso,
desconfiado dos homens e, por consequncia, mudvel. O mancebo, diz um 
escritor
desse tempo, sabia a arte de reinar, e todavia, possudo de ardente amor de 
glria,
como a frgil cana facilmente se inclinava para onde quer que o sopro das 
auras o
levava.216 Cobioso de renome, valente, sem afeies profundas e 
duradouras, ele no
houvera sido, talvez, apesar da sua aptido para dirigir os negcios um dos 
prncipes
mais apropriados a tempos tranquilos; mas era-o para esta poca, em que o 
entusiasmo,
o esforo, a ambio e, at, o desprezo de certas consideraes de ordem 
moral se
tornavam necessrios para pr o remate ao edifcio que este pas ia 
laboriosamente
construindo, o edifcio da sua independncia.
Aos sucessos que decorreram desde 1132 at 1135 no  fcil assinalar datas
precisas e, se houvssemos s de atender aos monumentos nacionais, o 
silncio que eles
guardam acerca deste perodo de mais de trs anos nos persuadiria que 
Portugal gozara
da paz exterior, s interrompida pelas correrias obscuras das fronteiras 
muulmanas,
214 Chronica Gothorum, era 1169; Yepes, T. 7, f. 323 v. Doao a Joo 
Viegas dos bens de Aires
Mendes e Pedro Pais Carofa, em Ribeiro, Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 
1, p. 103, n306.
215 Strenuus fuit armis et bellicosus, Lucas de Tuy, na Hispnia Ilustrada, 
Vol. 4, p. 106.
216 Qui juvenis, etsi regend imperii jam bene sciolus, tamen amore laudis 
ardenter plenus, ad
quoscunque aurae flatus, ut arundo fragilis ferebatur, Livro dos Testamentos 
de Santa Cruz de
Coimbra, em Brando, Monarquia Lusitana, T. 3, Apndice, escrito 15..155
faces unicamente de roubos e mortes, sem nenhuma consequncia poltica, 
e que mais
importavam aos habitantes das povoaes limtrofes do que ao comum do 
pas. Com o
carcter, porm, do infante essa existncia pacfica fora impossvel por to 
largo espao.
A guerra tornou, de feito, a renovar-se por aqueles anos. D. Teresa forcejara
constantemente por dilatar os prprios estados para a Galiza, e este sistema 
era seguido
com a mesma tenacidade por seu filho. Ignoramos quais motivos, a no serem 
as antigas
pretenses a que j mais de uma vez aludimos, Afonso Henriques teve para 
nova
invaso naquela provncia. Talvez nenhuns; como provavelmente nenhuns 
existiram
para a suspenso de armas que parece houvera em 1131. Penetrou, pois, o 
infante por
terras de Limia. Saram-lhe ao encontro os condes Fernando Peres e Rodrigo 
Vela e
outros fronteiros do rei de Leo. Desbarataram-no e constrangeram-no a 
retirar-se para
Portugal 217 . No desanimou ele, todavia; ajuntando os mais valentes e 
nobres cavaleiros
e as bandeiras populares, volveu de novo ao distrito de Limia. Os capites 
leoneses ou
no ousaram disputar-lhe o passo ou foram destroados pelos portugueses. 
Senhor
daquele territrio, Afonso Henriques edificou um castelo conhecido nas 
memrias desse
tempo pelo nome de Celmes; ps a de guarnio no s excelente peonagem 
ou tropas
de infantaria, mas tambm muitos cavaleiros de nome, com abundantes 
provises, e
voltou a Portugal. Entretanto Afonso VII, sabendo o que se passava, ajuntara 
um
numeroso exrcito, composto de leoneses e galegos, e com rpidas marchas 
dirigiu-se
aos territrios submetidos pelos portugueses e veio sitiar Celmes. No podiam
fortificaes alevantadas em to curto espao oferecer grande resistncia. 
Combatido
fortemente, o castelo caiu dentro de breves dias em poder do rei de Leo, 
ficando
prisioneiros os que o defendiam, boa parte dos quais eram das mais nobres 
famlias de
Portugal. Tomando Celmes, Afonso VII aumentou-lhe os meios de defesa e, 
depois de
expulsar de todo o distrito os invasores, voltou vitorioso  sua capital 218 .
A morte ou cativeiro de tantos soldados valentes produziu na corte de Afonso
Henriques um sentimento de profunda tristeza 219 . A fortuna favorecia por 
toda a parte o
filho de D. Urraca. O amir de Rottat-al-Yahud (Roda), Seyfu Al-Daulah, havia-
se
voluntariamente sujeitado a ele; Garcia, rei de Navarra, j reconhecia nele uma 
espcie
de supremacia e do mesmo modo o conde de Barcelona. At o conde de 
Tolosa e outros
poderosos bares de alm dos Pirenus se honravam de se chamarem seus 
vassalos. O
famoso rei de Arago, Afonso I, o mais ilustre capito espanhol daquele tempo 
e o mais
terrvel adversrio do jovem monarca, havia acabado a sua longa e gloriosa 
carreira,
depois de vencido pelos sarracenos na sanguinolenta batalha de Fraga. 
Apenas num
ngulo dos vastos estados do prncipe leons o senhor de uma pequena 
provncia,
cercada ao meio-dia pelos muulmanos, no s ousava recusar-lhe obedincia, 
mas at
invadia o territrio da monarquia e, apesar dos ltimos reveses, conservava 
hasteado o
pendo da independncia, resolvido a defend-la com as armas na mo contra 
aquele
ante quem outros prncipes mais poderosos curvavam o joelho. Sem a menor 
sombra de
vaidade nacional, parece-nos ser lcito dizer que o esforo e a constncia dos
portugueses e do seu prncipe nesta conjuntura so um dos mais belos 
exemplos daquela
217 ...multoties venerat in Galletiam et a comite Ferdinando Petri et Roderico 
Velle, et ab aluis ducibus
Gallaetiae expulsus fuerat inde et reversus est iii terram suam sine honore, 
Chronica Adefonsi
Imperatoris, L. 1, c. 30. Esta passagem, a que j aludimos, referindo-se aos 
anos que precederam a
coroao de Afonso VII como imperador (1135), vem necessariamente colocar 
os sucessos que narra no
tempo a que os atribumos. A expresso multoties obriga-nos tambm a supor 
que estas entradas foram,
pelo menos, quatro ou cinco, contando entre elas a de 1130, e trs ou quatro 
nos anos de 32 e 33. A de
que se vai falar devia ser em 34, porque as cortes de Leo, em que Afonso VII 
foi adamado imperador,
celebraram-se na Primavera do ano seguinte.
218 Ibid.
219 Facta es autem in domo regis portugalensis intolerabilis tristitia, ibid..156
energia moral de que to rica era a Idade Mdia e a troco da qual a Europa 
moderna tem
ido comprando a brandura do trato entre os homens e os cmodos da 
civilizao.
Exceptuada, pois, a pequena provncia de Portugal, toda a Espanha crist e 
ainda
uma parte da Frana aqum do Rdano reconheciam directa ou indirectamente 
o
domnio de Afonso VII 220 . O ttulo de imperador que se lhe atribua 
vulgarmente e de
que j, no raro, ele prprio usava nos seus diplomas cabia com razo ao 
senhor de to
vastos domnios. No ms, pois, de Junho de 1135, convocadas cortes em 
Leo, foi o
moo prncipe aclamado solenemente imperador. A desgraa de Celmes 
refreara a
audcia dos portugueses, e a situao comparativamente pacfica da 
Pennsula
habilitava-o para dar nova fora s leis esquecidas no meio das guerras civis, 
que, por
breves perodos interrompidas, duravam desde o tempo de D. Urraca. 
Empenhou-se
ento em restaurar as igrejas e os mosteiros e em restabelecer a boa 
administrao e a
ordem pblica, perseguindo e castigando os malfeitores sem distino de 
classes. Com o
intuito de alargar de futuro as suas conquistas pelo - territrio muulmano, ele 
buscava
reanimar as foras internas da monarquia com a paz e prosperidade comuns. 
Assim,
apesar das vantagens obtidas de seu primo, deixou-o tranquilo o resto deste 
ano e todo o
de 1136, em que nem nas memrias de Leo nem nas de Portugal se 
encontram
vestgios de mtuas agresses 221 .
Todavia, o nimo inquieto de Afonso Henriques e a facilidade que o imperador
lhe dera de reparar o dano recebido na Galiza no consentiram durasses por 
muito
tempo o estado pacfico dos pases cristos da Espanha. O ano de 1137 viu de 
novo
rebentar a guerra. As circunstncias dela obrigam-nos a dizer alguma coisa 
sobre
sucessos que no pertencem imediatamente  nossa histria, mas que 
explicam, at certo
ponto, as audazes tentativas do infante contra um prncipe to poderoso como 
era seu
primo. A morte do clebre rei de Arago, pouco posterior  jornada de Fraga, 
trouxera a
desmembrao dessa monarquia. Em Navarra fora eleito rei Garcia Ramires,
descendente dos antigos prncipes daquele estado, e em Arago propriamente 
dito,
Ramiro, monge de Tomires, irmo de Afonso I. O rei de Leo, ou com o 
pretexto de
ser o herdeiro de seu padrasto, ou porque parte das provncias aragonesas 
tinham per-tencido
outrora a Castela, ou, finalmente, porque era o mais forte, marchou
imediatamente para Rioja, de que se apossou sem contradio. O novo rei de 
Navarra,
longe de mostrar intenes de lhe resistir, saiu a receb-lo, reconhecendo-o  
maneira
francesa por suserano e evitando assim as consequncias quase certas da 
guerra. Ento
Afonso VII dirigiu-se a Arago e apoderou-se da nova capital dele, Saragoa, 
que lhe
abriu as portas. Dizem uns que Ramiro se retirara a Sobrarbe, outros que, 
imitando o de
Navarra, o aceitara por suserano. No nos pertence a ns averiguar este 
ponto. ,
todavia, certo que desde essa poca Afonso VII se intitulou, no s por 
imperador de
Leo e Castela, mas tambm de Saragoa e Navarra. Garcia, porm, no 
fizera mais do
que ceder  fora das circunstncias. Era natural que, asserenada a 
tempestade que o
ameaava, renascesse na sua alma o desejo da independncia. A esta causa 
nos parece
dever-se atribuir o seu procedimento ulterior.
O gnio guerreiro de Afonso Henriques e a nobre ousadia com que os 
habitantes
de Portugal se conservavam estranhos  submisso geral da Espanha crist 
deviam
excitar a admirao e fazer desejar a aliana do senhor desta pequena 
provncia e dos
seus indomveis bares e homens de armas a todos aqueles que sofriam
impacientemente o jugo do imperador. Entre estes era o mais notvel Garcia, o 
jovem
220 ...facti sunt termini regni Adefonsi regis Legionis a mare magno oceano, 
quod est a patrono S. Jacobi
usque ad fluvium Rodani, Ctbronica Adefonsi Imperatoris, L. 1, c. 26.
221 Veja-se a suma dos sucessos deste perodo em Sandoval, Cinco Reyes, f. 
156 e ss.; e melhor em Risco,
Reys de Len, T. 1, pp. 337 e ss..157
monarca navarro, que, antes de nada tentar contra aquela espcie de 
suserania, que
reconhecera, procurou e obteve travar aliana com Afonso Henriques. Dos 
mesmos
fidalgos da antiga monarquia leonesa, habituados ao desenfreamento e  
independncia
de facto que tinham desfrutado  sombra das desordens pblicas, muitos 
suspiravam
pelo momento em que pudessem renovar as anteriores parcialidades 222 . 
Essa disposio
dos nimos oferecia a Afonso Henriques conjuntura favorvel para remir o 
desar de
Celmes e, com a demonstrao das prprias foras, provar a seu primo que 
no era fcil
submet-lo; intento este que, conforme a razo o persuade, devia estar adiado, 
porm
no esquecido, no esprito do imperador. A ocasio do desagravo para o 
infante no
tardou a oferecer-se.
A Galiza, como vimos no livro antecedente, era desde muito uma das mais
turbulentas provncias da monarquia. Os senhores de terras e os condes dos 
distritos em
que ela se dividia no hesitavam em recorrer aos motins para satisfazer a sua 
ambio
ou vingar a menor injria que recebiam. Assim, a maior parte das vezes a 
histria no
pode assinalar facilmente os motivos dos levantamentos frequentes dos 
vassalos contra
os prncipes; das perseguies destes contra aqueles; das guerras civis que
inesperadamente nasciam; das ligas que se formavam e desfaziam entre os 
nobres com
rapidez incrvel. As causas que produziram em 1137 a conjurao dos dois 
condes,
Gomes Nunes e Rodrigo Peres, ignoramo-las, pela mesma razo que se 
ignoram tantas
outras. Governava Gomes Nunes a terra de Toronho, isto , o territrio de Tui, 
o qual se
dilatava pelas ribeiras setentrionais do rio Minho 223 , e Rodrigo Peres tinha as 
tenncias
de grande nmero de castelos no distrito de Limia, alm de outros senhorios 
que
recebera de Afonso VII. Excitado por estes poderosos fidalgos 224 , o infante 
apoderou-se
de Tui e sucessivamente dos castelos e terras que eles possuam e cujo 
domnio supremo
voluntariamente lhe cederam. No contentes com isso, uniram as suas tropas 
s de
Portugal e, juntos com o seu novo aliado, prepararam-se para a guerra, 
enquanto Garcia
de Navarra, quebrando o preito que fizera, rompia as hostilidades pelo oriente 
225 .
O castelo de Alariz est assentado na margem esquerda do Arnoya, que vem
desaguar no Minho pouco abaixo da confluncia deste rio com o Avia. 
Governava-o
nessa poca um cavaleiro esforado por nome Fernando Anes, cuja lealdade 
ao
imperador era radicada e sincera e de quem dependiam vrios outros castelos
circunvizinhos. Com seus filhos, irmos e amigos; Fernando Anes ops-se
valorosamente  invaso e, posto que vencido, combateu at perder todos os 
lugares que
lhe cumpria defender e guardar. Vencido o alcaide de Alariz, Afonso Henriques, 
tendo
levado as suas armas at o corao da Galiza e metido guarnies nos 
castelos que a
traio lhe entregara, recolheu-se a Portugal, porventura para aumentar o 
exrcito,
necessariamente enfraquecido com a distribuio das tropas pelos lugares 
fortes de que
o infante se fizera senhor. Que este fosse o motivo parece indic-lo a sua volta 
imediata
a Galiza para continuar a guerra. Os capites do imperador tinham entretanto 
ajuntado
os seus homens de armas e preparavam-se para seguir o nobre exemplo de 
Fernando
Anes. Distinguiam-se entre eles os condes Rodrigo Vela e Fernando Peres: 
nestes
222 ... Comites et principes... quis potius laetantur guerra imminente quam 
pacis et tranquillitatis
tempore, Historia Compostellana, L. 3, c. 51.
223 Flores, Espaa Sagrada, T. 22, p. 183.
224 Ipsi (se. comites Rodericus et Gomes) imiserant discordiani inter 
imperatorem et regem, Chronica
Adefonsi Imperatoris, L. 13 c. 34. Gomes Nunes era nascido em Portugal e 
cunhado de Rodrigo Peres,
irmo do conde de Trava. Veja-se a Monarquia Lusitana, L. 9, c. 28. As 
conjecturas de Brando sobre os
motivos por que Gomes Nunes (que em 1128 tinha seguido a parcialidade de 
D. Teresa) tornou a possuir
terras em Portugal desvanecem-se com os sucessos que vamos narrando e 
que explicam obviamente a
volta do conde ao seu pas.
225 Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 1, c. 29..158
encontrara sempre o infante os mais duros adversrios, e nas suas passadas 
empresas
contra .a Galiza fora por eles rechaado. Juntas as tropas dos fronteiros, o 
exrcito
galego veio encontrar os portugueses num stio chamado Cernesa ou Cerneja. 
Travada
batalha, a fortuna declarou-se contrria aos condes de Leo, e as tropas 
galegas reti-raram-
se desordenadamente. Rodrigo Vela caiu nas mos dos inimigos com outros
cavaleiros; mas dois dos seus homens de armas arriscaram-se 
denodadamente para o
salvar, atirando-se como desesperados ao meio dos que o levavam cativo e, 
tendo-o
desembaraado das mos destes, foram com ele ajuntar-se ao exrcito fugitivo 
226 .
Com semelhante vitria o futuro parecia sorrir a Afonso Henriques e aos 
condes
rebeldes de Toronho e Limia seus aliados. Sujeitos os distritos meridionais e
desbaratados os mais ilustres capites de Afonso VII nestas partes, o Norte da 
Galiza
oferecia-se para teatro das novas conquistas. E elas teriam de feito 
prosseguido, se um
acontecimento gravssimo no viera justamente nessa conjuntura atalhar os 
passos do
infante e chamar-lhe a ateno para a defesa dos prprios estados.
A Ordem dos Templrios, da qual, juntamente com as outras ordens militares,
teremos de falar em tempo oportuno, conforme o plano do nosso trabalho, tinha
recebido de D. Teresa nos ltimos meses do seu governo o senhorio do castelo 
de
Soure. Os monges cavaleiros, cujo entusiasmo e valor em parte nenhuma se
desmentiam, e cujo instituto era o pelejar sem descanso contra os sectrios do
islamismo, haviam em poucos anos mudado o aspecto daqueles arredores. 
Cobriam
ento extensos bosques e matos o tracto de terra que hoje constitui a 
Estremadura alta, e
Afonso Henriques devia ceder com facilidade estes desertos, que eram como 
barreira
natural entre as duas raas inimigas, a essa ordem composta inteiramente de 
esforados
homens de guerra. Com a espada numa das mos e com a enxada ou alvio 
na outra,
eles foram gradualmente contendo ou castigando as correrias dos sarracenos e
desbravando ou povoando aqueles arredores 227 . A oeste, porm, de Soure 
ficava um
largo espao aberto s invases dos sarracenos, que vinham, sem encontrar 
resistncia,
assolar as vizinhanas de Coimbra. A este mal ocorrera o infante. Aproveitando 
a
conjuntura da paz que houve por ano e meio depois da aclamao de Afonso 
VII,
comeara durante o Inverno de 1135 a edificao do castelo de Leirena 
(Leiria). Era o
lugar idneo no s para servir de defenso aos seus estados, mas tambm 
para guerrear
os muulmanos. No meio daqueles vastos desertos que se dilatavam ao sul de 
Soure e
ao noroeste do Nabo, escolhera Afonso Henriques para lanar os 
fundamentos de
Leiria um monte que satisfazia no s s condies indispensveis de 
defenso numa
praa de fronteira, mas tambm ao fim principal para que esse lugar era 
destinado.
Guarnecido por tropas escolhidas, cobriria facilmente o caminho de Coimbra e, 
por
outra parte,. tornaria fcil, partindo-se daquele ponto, atacar inesperadamente 
qualquer
das trs praas mais importantes do ocidente do Gharb  Santarm, Lisboa, 
Sintra.
Concluda a edificao de Leiria, nomeou o infante um dos seus cavaleiros, 
Paio
Guterres, sujeito de estremado esforo, para alcaide do castelo, e debaixo do 
seu mando
ps ali uma forte guarnio 228 .
Deviam os sarracenos fronteiros sofrer mal este novo padrasto que o guerreiro
prncipe cristo alevantava na raia dos seus domnios. Paio Guterres, que um 
antigo
226 Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 1, c. 30 e 31.
227 Doaes de Soure aos templrios de Maro de 1128 e de Maro de 1129 
(Carta de Tomar, no Arquivo
Nacional). Viterbo, Elucidrio, verbetes Ladera e Tempreiros. Bulas 
relativas aos templrios no
Arquivo Nacional, Gav. 7, Mao 3, n17, e Mao 9, n35: Quod... rex 
portugallensis (a do Mao 9, n.35,
diz: Mater... illustris portugalensis regis) quam silvam domui vestrae in 
perpetuum contulisset, eam
cum dllicultate maxima de sarracenorum manibus liberantes, per vos et 
homines vestros studiosius
coluistis.
228 Chronica Gothorum, era 1173..159
escritor compara a Cipio Africano 229 , oprimia-os com correrias e entradas. 
Irritados
pelos danos que recebiam da molesta vizinhana de Leiria, congregaram 
suficientes
foras e marcharam a siti-la. Afonso Henriques achava-se na Galiza e 
acabara de obter
a vitria de Cerneja quando recebeu as novas do movimento dos sarracenos e 
com elas
as do trgico desfecho que a tentativa tivera contra os cristos. O exrcito 
muulmano,
composto de almorvidas ou mouros e de sarracenos espanhis 230 , tinha 
acometido e
levado  escala o castelo de Leiria. A defesa fora desesperada. Duzentos e 
quarenta
cavaleiros e homens de armas da guarnio haviam ficado mortos defendendo 
aquelas
muralhas, e entre eles contavam-se indivduos de alta jerarquia 231 . Salvou-
se, porm, o
valoroso Paio Guterres, que posteriormente devia ali mesmo cair nos ferros do 
cativeiro
232 . Na conjuntura em que os cristos recebiam to importante perda 
experimentavam
outro revs, de que apenas resta confusa memria: ou fosse uma diverso que 
os
fronteiros tentassem fazer para inquietar os sitiadores de Leiria, ou alguma 
correria
anterior a este sucesso,. a qual o provocasse mais depressa,  certo que um 
corpo de
tropas, tendo avanado at as proximidades do Nabo, foi destroado no stio 
chamado
Tomar (se no era antes este o nome rabe do rio), onde anos depois os 
templrios
construram a casa capitular da ordem e o forte castelo que a subsiste ainda 
233 .
A perda de Leiria era nos seus efeitos anloga, de certo modo,  de Celmes e
ainda mais dolorosa; mas ao menos aqui fora, conforme as ideias do tempo, 
sangue de
mrtires o que por mos de infiis tingira aqueles muros. O lastimoso 
acontecimento
desse castelo e o destroo de Tomar anulavam as consequncias do triunfo 
obtido em
Cerneja. A fora moral do pas diminura necessariamente com estes reveses, 
ao mesmo
tempo que se tornava necessrio ao infante voltar a Portugal para opor 
barreiras 
audcia dos sarracenos, guarnecendo melhor as fronteiras meridionais.  a 
estas causas
evidentes que ns atribumos os sucessos posteriormente acontecidos na 
Galiza.
Dissemos j que o rei de Navarra sofria impacientemente o jugo que o temor
nascido de se achar colocado num trono vacilante lhe fizera aceitar pouco 
depois de
obter a coroa daquele pas. De feito, ele quebrara a sua vassalagem a Afonso 
VII na
mesma ocasio em que o infante portugus penetrava na Galiza. Acudira o 
imperador a
rebater o navarro como mais poderoso, e principalmente a isto devera, talvez, 
Afonso
Henriques a fortuna das suas armas. Mas o imperador alcanara considerveis 
vantagens
contra Garcia, ao passo que, com a jornada de Cerneja, a guerra da Galiza 
tomava um
aspecto assaz grave para atrair toda a sua ateno. Tinha ele partido havia 
pouco de
Palncia para Zamora, quando nesta cidade encontrou um cavaleiro que vinha 
relatar-lhe
os sucessos ocorridos na fronteira de oeste. Partiu imediatamente com 
marchas
rpidas, acompanhado das poucas foras que pde coligir em Zamora e, 
dirigindo-se de
salto a Tui, teve a felicidade de entrar a, parece que sem combate. De Tui 
enviou
mensageiros aos nobres, condes, alcaides e ao prprio arcebispo de 
Compostela, para
que viessem ajuntar-se ali a fim de invadirem Portugal, aproveitando a prxima
conjuntura das ceifas para destrurem as searas e reduzirem esta turbulenta 
provncia 
ltima estreiteza 234 .
O infante voltava ento a socorrer as suas fronteiras meridionais, e a 
impresso de
desalento, que era natural incutisse nos nimos dos portugueses a morte de 
tantos
229 ...Pelagium Guterriz; ah illo ergo virtus et audacia sarracenorum coepit 
infirmari, quis videbant
quidem alterum Scipionem africanum, qui eos valde opprimeret et affligeret, 
ibid. (se isto no se refere
antes a Afonso Henriques).
230 Moabites et agareni, Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 1, c. 32.
231 Id., ibid.
232 Chronica Gothorum, era 1178.
233 Era 1175 evenit infortunium super christianos in Tomar. Veja-se a nota 
XV no fim do volume.
234 Ibid., L. 1, c. 29 e 32; Historia Compostellana, L. 3, c. 51..160
cavaleiros ilustres como os que tinham perecido em Leiria, proporcionava ao 
imperador
o ensejo para duras represlias. No aconteceu, porm, assim. Os senhores e 
cavaleiros
que Afonso VII convocara para a intentada invaso dilataram o cumprimento do 
que
lhes fora ordenado, e entretanto o velho Gelmires, que se dispunha a partir 
para Tui com
os seus homens de armas, recebeu aviso de que a vinda era desnecessria. O 
imperador
tinha feito a paz com Afonso Henriques 235 .
Qual foi a causa deste acontecimento inopinado? Nas crnicas brbaras 
desses
tempos, pelas quais , at, difcil estabelecer a cronologia dos factos, mal se 
poderia
achar uma explicao plausvel dos motivos que o determinaram. Foi pura 
generosidade
do imperador ou receio que tivesse da pouca lealdade dos bares da Galiza, 
que
mostravam a sua m vontade com as delongas que punham em vir auxili-lo? 
Foi o
infante que se humilhou a pedir trguas, vendo-se ameaado no meio-dia pelos
sarracenos e nas fronteiras setentrionais por seu primo? A diversa situao em 
que se
achavam os dois contendores e a apreciao dos documentos relativos a este 
sucesso
mostram que era a segunda hiptese a que se verificava.
Para se fazer a paz, Afonso Henriques havia-se dirigido a Tui. Acompanhavam-
no
o arcebispo de Braga, D. Paio, e D. Joo, bispo do Porto. Com o imperador 
estavam os
de Segvia, Tui e Orense.  de crer fossem estes prelados quem trabalhasse 
ento na
concrdia dos seus prncipes. O arcebispo mostrara sempre grande afeio ao 
infante, e
nada mais natural do que buscar o prelado livr-lo da dura alternativa de 
abandonar as
suas fronteiras meridionais s irrupes dos muulmanos ou os distritos do 
Norte 
vingana do imperador. Como metropolita dos bispos de Tui e Orense devia 
exercer
sobre eles maior ou menor influncia, e esta no seria decerto intil  
pacificao dos
dois primos naquelas circunstncias difceis. O convnio celebrado ento foi, 
todavia,
assaz desfavorvel para Afonso Henriques, visto que desse pacto s para ele 
resultavam
obrigaes e nenhumas para Afonso VII. A jurou o infante leal amizade ao 
imperador,
para que nunca por si ou por outrem lhe buscasse morte ou dano e que, se 
algum lho
fizesse, ele disso tomasse vingana como por um filho que muito amasse. 
Prometeu
igualmente respeitar os territrios do imprio em seu nome e no dos seus 
bares e que,
se algum destes os invadisse, ele ajudaria lealmente  vingana ou a restaur-
los como
se fossem os prprios: que no caso de invaso, quer de muulmanos, quer de 
cristos,
marcharia a socorrer Afonso VII, sendo-lhe pedido soc6rro: que, se o filho ou 
filhos do
imperador quisessem permanecer na paz, ele, infante, seria obrigado a guardar 
as
condies desta: que no caso de ser quebrada aquela conveno por algum 
dos bares
portugueses o infante repararia o mal at onde fosse possvel, a arbtrio dos 
que ento
trabalhassem em impedir a quebra da boa harmonia: que as honras (terras 
imunes) que o
imperador lhe dava restitu4as.ja a ele ou ao seu sucessor, sem tergiversao 
236 nem
engano, em qualquer tempo que lhe fossem pedidas. Este pacto foi jurado pelo 
infante
com cento e cinquenta dos seus homens bons e exarado em Tui a 4 de Julho 
de 1137, na
presena do arcebispo de Braga e dos bispos de Segvia, Porto, Tui e Orense 
237 .
Um tratado em que se continham j estipulaes relativas aos sucessores de
Afonso VII importava a ideia de bem longa durao; mas nem o imperador nem 
o
infante deviam consider-lo na realidade seno como trguas mais ou menos 
dilatadas,
segundo as circunstncias futuras o exigissem ou aconselhassem. 
Sobradamente
desvantajoso para Afonso Henriques, cuja virtude no era por certo a 
resignao, podia
235 Ibid.
236 Et dabit iratus aut pacatus. Esta expresso  traduzida nas frmulas 
vulgares dos preitos e menagens
dos castelos em tempos posteriores por dar o dito castelo irado e pagado.
237 Este tratado vem transcrito no Apndice 3 da Historia dei Monasterio de 
Sahagn, por Escalona, p.
527, escrito 161..161
logo prever-se que, reparada a desgraa de Leiria ou obtidas quaisquer 
vantagens
importantes contra os sarracenos nas fronteiras meridionais, ele no tardaria a 
buscar
pretextos ou a achar motivos para quebrar aquela espcie de jugo a que se 
curvara.
Desde esse momento a guerra contra o primo,  qual at aqui seria impossvel 
atribuir
causas bem precisas, converte-se em uma necessidade de situao. As 
expresses do
tratado so claras:
o filho de D. Teresa conserva domnios como vassalo do imperador e, posto 
que
no possamos dizer ao certo quais fossem, o facto nem por isso  menos 
indubitvel. Se
Portugal fosse um pas cuja independncia, datando de largo tempo, estivesse 
bem
firmada, essa vassalagem do infante por outros senhorios (a serem diversos 
dos que
herdara) nada influiria na sua autoridade como prncipe dos portugueses, no 
faltando
naquela poca bares de alm dos Pirenus que possussem terras na 
Pennsula, sem que
os reis espanhis pretendessem por isso ter o domnio eminente sobre os 
territrios fran-ceses
de que eles eram senhores. Mas  evidente que, sendo a independncia da
provncia de Portugal apenas um facto duvidoso, a sujeio de Afonso 
Henriques ao
imperador, debaixo de qualquer pretexto, influiria por muitos modos na sorte 
futura
deste pas. Apesar, pois, de todas as solenidades de que fora revestido, o 
Tratado de Tui
no podia subsistir, e a quebra dele dentro de um perodo mais ou menos curto 
era
inevitvel.
Durante o resto deste ano e quase todo o decurso dos dois seguintes 238 , as
fronteiras da Galiza e de Portugal respiraram do contnuo revolver das batalhas 
e das
correrias assoladoras em que tanto sangue cristo tingira as espadas crists. 
Como de
comum acordo, os dois primos voltaram as armas para mais nobre empresa  
o
combater os antigos inimigos da cruz; o prosseguir nessa luta, encetada havia 
mais de
quatro sculos e que desde a conquista de Toledo dava j indcios de terminar 
um dia
pela vitria decisiva do cristianismo. Os desastres padecidos na Estremadura e 
os
prprios triunfos obtidos na Galiza tinham atenuado as foras de Portugal. Era 
por isso
indispensvel refaz-las antes de tentar qualquer faco contra os sarracenos 
do Gharb.
Devia o golpe dado nos infiis soar bem alto para lhes quebrar o orgulho das 
passadas
vantagens, vantagens que estavam habituados a alcanar nestas partes desde 
o tempo do
conde Henrique, todas as vezes que as prprias discrdias lhes consentiam 
repelir as
lentas e fracas tentativas dos cristos, entretidos, ainda, talvez mais do que 
eles, em
guerras civis. O estado, porm, das coisas entre os maometanos oferecia 
agora ensejo
para grandes empresas da parte dos seus adversrios. Enquanto estes davam 
trguas a
ambiciosas disputas, as perturbaes aumentavam no meio daqueles, e 
sobretudo os
sucessos ocorridos por esse tempo em frica, enfraquecendo o poder dos 
almorvidas
na Espanha, mostravam aos chefes da raa goda ocasio oportuna de 
repararem o tempo
consumido at a em recprocas malquerenas. Para conhecermos qual era a 
situao
relativa dos contendores  necessrio que, tomando um pouco de longe a srie 
dos
acontecimentos, examinemos o estado poltico dos territrios muulmanos da 
Pennsula
ligados pela conquista almorvida  sorte da frica setentrional.
Ali Ibn Yusuf (Abul-Hassan) continuava a reinar tanto no Andaluz como no
Moghreb; mas a revoluo poltica e religiosa que devia acabar dentro de 
pouco tempo
238 Que a paz durava em 1138 deduz-se no s do silncio das memrias 
coevas sobre sucessos militares
entre Portugal e Galiza durante este ano e quase todo o seguinte, mas tambm 
da presena do conde
Fernando Peres na corte de Afonso Henriques em Maio do mesmo ano, 
confirmando a ampliao do
couto do Porto (Arquivo Nacional, Chancelaria de Afonso IV, L. 2, f. 32), se no 
era antes o Fernando
Peres que, com o ttulo de coiermanus do infante, confirma a carta de couto de 
Cucujes em Julho de
1139 (Arquivo Nacional, Mao 12 de Forais Antigos, n 3, f. 62 v., que supomos 
ser Fernando Furtado,
filho bastardo de D. Urraca e do conde Pedro de Lata, cuja presena na corte 
do primo prova igualmente a
existncia da paz entre os dois pases..162
com a dinastia lantunense tinha principiado e tomava cada vez maior 
incremento, havia
perto de vinte anos. Um berbere de ilustre ascendncia, Abu Abdillah 
Mohammed Ibn
Tiumarta, tendo estudado a teologia muulmana com o clebre Al-Ghazaly de 
Bagdade,
convencido da superioridade da prpria cincia, resolveu fundar uma nova 
seita no
Ocidente. Perseguido, no tardou a cobrar reputao e, por consequncia, a 
ter sectrios.
Foi dos primeiros um mancebo, berbere como ele, por nome Abdul-Mumen, 
que Abu
Abdillah escolheu para discpulo querido e seu ajudador naquela misso que 
atribura a
si prprio. Depois de correr vrias cidades do Moghreb, o novo reformador veio 
a
Marrocos, onde comeou a pregar contra os costumes e erradas opinies dos
almorvidas. Contentaram-se estes com expuls-lo da capital, como sedutor do 
vulgo;
mas ele foi estabelecer a sua. morada num cemitrio vizinho, aonde 
concorriam a ouvir-lhe
as prticas os seus devotos, prticas nas quais, como  fcil de antever, no 
poupava
os almorvidas.
Neste tempo (1120) tomou ele o nome de Al-Mahdi, que, segundo a tradio
rabe, era um chefe poderoso que no fim dos sculos devia vir ao mundo 
reconduzir os
homens aos verdadeiros caminhos do islamismo. Seguiam-no j muitos, e o 
amir
pensou seriamente em acabar com este perigoso profeta. Sabendo-o a tempo, 
Al-Mahdi
fugiu para Tynmal, na provncia de Sus, onde se fez aclamar im ou sumo 
pontfice e,
prosseguindo entre os rudes montanheses a misso que empreendera, em 
breve
aumentou o nmero dos seus sectrios a ponto de se fazer temido. 
Denominou-os
almadas (al-muwahedun) ou unitrios; porque um dos objectos a que mais se 
dedicava
era a provar a unidade de Deus. Tanto que pde ajunta: vinte mil homens 
capazes de
pegar em armas, recorreu ao sistema de converso muulmano  a guerra. 
Desde 1122
at 1130, em que A1-Mahdi faleceu, os almadas aumentaram em poder e em 
nmero
com repetidas vitrias contra os almorvidas. Por morte do profeta, Abdul-
Mumen, que
entre os seus primeiros discpulos fora o que ele sempre distinguira, soube 
obter para si
a dignidade de im e, continuando com prspera fortuna a combater os seus 
adversrios,
vendo-se j obedecido numa grande parte do Moghreb, declarou-se amir al-
mumenin ou
califa, ttulo que nenhum dos amires lantunenses, apesar de dominarem na 
frica e na
Espanha, ousara tomar para si 239 .
No meio destes acontecimentos chegou o ano da hegira 532 (1137-8). A 
Temin,
seu irmo, Ali substitura no governo da Espanha o prprio filho e sucessor, 
Taxfin. Era
o prncipe sarraceno activo e valente: sustentava com esforo a guerra nas 
fronteiras
crists e continha com energia os muulmanos do Andaluz, mal-sofridos 
debaixo do
jugo almorvida. Porm, esse esprito de independncia dos indgenas, em 
grande parte
de raa rabe e inimigos dos lantunitas berberes, que, no contentes de os 
dominarem,
os oprimiam, comeou a mostrar-se claramente apenas foram sabidos na 
Pennsula os
triunfos dos almadas e que a potncia almorvida comeava a declinar. Os 
distritos de
Huete e Alarcn rebelaram-se, e a cidade de Cuenca ousou resistir a Taxfin, 
que viera
sossegar aqueles alvorotos. Entrada  fora, os seus habitantes foram 
passados  espada.
No meio destes sintomas tanto de recear, o prncipe sarraceno recebeu ordem 
de seu pai
para passar ao Moghreb. Os exrcitos do amir eram destroados em quase 
todos os
recontros com os sequazes de Abdul-Mumen, j senhor de grande parte das 
provncias
do imprio, com o que a runa da dinastia lantunense parecia iminente. Passou 
Taxfin
logo o mar, levando consigo a flor das tropas almorvidas que traziam 
sopeados os
muulmanos andaluzes e defendiam as fronteiras contra os cristos, 
aumentando, alm
disso, o seu luzido exrcito com quatro mil auxiliares morabes, homens 
moos e
239 Abdel-Halim Histria dos Soberanos Maometanos (verso de Moura), c. 43 
e 44; Conde, P. 3, c. 26 a
28 e 31; Khamel el-Tewarikh, p. 335, em Romey, Histoire dEspagne, T. 6, pp. 
1 e ss.; A1-Makkari,
History of the Mohammedan Dynasties in Spain (verso de Gayangos), B. 8, c. 
1 e 2..163
valentes. A partida destas foras, deixando desguarnecidas as praas 
muulmanas, abriu
caminho ao fogo da rebelio que lavrava nos nimos e excitou a audcia dos 
cristos,
que fraca resistncia podiam achar nas rareadas fileiras dos lantunitas, 
obrigados a
prevenirem-se contra as tentativas dos prprios sarracenos da Espanha 240 .
Neste estado de coisas, Afonso VII, feita a paz com o infante de Portugal,
preparou-se para invadir o territrio muulmano. Posto que o rei de Navarra 
continuasse
a sustentar a guerra contra o monarca leons, este fazia-a ali pelos seus 
capites e, livre
das inquietaes que lhe davam os portugueses pelo lado da Galiza, avanou 
(1138) at
as margens do Guadalquivir. Deste ponto, dividindo o exrcito em corpos 
volantes,
mandou-os devastar e saquear os distritos de Jaen, Baeza, Ubeda e Andujar, 
queimando
os lugares abertos e destruindo os campos e arvoredos. Marchando nesse 
mesmo ano
contra Corja, apesar de fazer grandes estragos nas cercanias, no a pde 
tomar e retirou-se
a Salamanca; mas no ano seguinte preparou-se para a conquista do famoso 
castelo de
Aurelia (Oreja). Era este uma das principais fortalezas mouriscas das fronteiras 
de
Toledo e terrvel padrasto contra os cristos. Comeou o cerco em Abril e 
prolongou-se
por todo o estio, com repetidos combates dos sitiadores e defenso 
desesperada dos
cercados. Propuseram, enfim, estes um armistcio para enviarem mensageiros 
 frica,
prometendo que, se o amir ou os generais almorvidas da Espanha os no 
socorressem
dentro de um ms, se dariam a partido. Concedeu o imperador as trguas 
pedidas:
partiram os mensageiros; mas o socorro no veio, antes o triste desengano de 
que era
necessrio render-se Aurelia. Andavam por tal modo revoltas as coisas do 
Moghreb e,
apesar da reputao e esforo militar de Taxfin e das excelentes tropas que 
levara da
Pennsula, a sorte mostrava-se to adversa aos lantunitas que o auxlio pedido 
era
impossvel. Taxfin, desbaratado em sucessivas batalhas, mal podia amparar o 
trono
vacilante de seu pai, trono a que s devia subir para ficar sepultado nas runas 
dele.
Aurelia entregou-se, portanto (Outubro de 1139), e as demonstraes de jbilo, 
no s
do exrcito, mas tambm da capital, provam qual era a importncia daquela 
conquista
241 .
Particularizmos estes sucessos, em aparncia estranhos  nossa histria, 
porque
na realidade tm com ela ntima conexo. Entrado na poca da batalha de 
Ourique e
constrangido pelo, s vezes bem triste, dever da sinceridade a reduzir s suas 
dimenses
verdadeiras um facto que  tradio dos sculos aprouve cercar de fbulas no 
menos
absurdas que brilhantes, cumpria-nos dar a conhecer a situao desses 
homens que nos
campos do Alentejo vinham combater com os duros cavaleiros de Afonso 
Henriques.
Era uma seita agonizante debaixo dos golpes da sua feliz e vigorosa rival; era a 
estrela
da dinastia lantunense que se eclipsava; era um povo, conquistador recente, 
que sentia
agitar-se-lhe em roda sedento de vingana o povo subjugado, o qual 
virtualmente
conspirava com os seus prprios e antigos adversrios, os cristos, para a 
runa daqueles
que se podiam chamar inimigos duns e doutros; inimigos dos sarracenos 
espanhis por
tirania poltica; dos cristos por dio de crena e por emulao de conquista. O
armistcio to facilmente concedido por Afonso VII aos esforados defensores 
de
240 Pass a Africa llevando en su compaia la flor de la caballeria de los 
almoravides, que hizo notable
falta para las revueltas y turbaciones que en Espaa se suscitaran con au 
ausencia: y assi mismo llev
quatro mil cristianos de Andalusia mui diestros en las armas..., Conde, P. 3, c. 
36; Rex Texufinus abiit
transmare... et transtulit secum muitos cristianos quos vocant musarabes, 
Chronica Adefonsi
Imperatoris, L. 2, c. 52. Esta crnica pe a partida de Taxfin em 1138, o que 
devia ser no princpio do
ano. A entrada de Afonso VII at o Guadalquivir e a diviso do seu exrcito em 
partidas provam, alm
disso, claramente a ausncia de Taxfin e da cavalaria almorvida.
241 Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 2, c. 60 a 63 e 67 a 72; documentos em 
Manrique, Anales
Cistercienses, T. 1, p. 402, em Colmenares, Historia de Segovia, p. 124, e na 
Espaa Sagrada, T. 38, p.
143; Conde, P. 3, c. 36..164
Aurelia prova que o verdadeiro estado dos negcios na frica era por ele bem
conhecido. A sua aparente generosidade, que, de outro modo, seria um grande 
erro, sem
dvida se estribava na certeza que tinha da inutilidade dela para os sitiados.
Afonso Henriques jazia aparentemente em profunda inaco desde a paz de 
Tui,
como se o seu nimo inquieto e guerreiro se achasse cansado de uma vida de 
contnuos
perigos e combates. No era assim. Preparava-se em silncio para novas e 
mais
gloriosas empresas do que fazer nos domnios do imperador uma guerra sem 
resultados
seguros e que, na situao especial da Pennsula, onde duas crenas e duas 
raas esta-vam
a braos uma com a outra, se podia considerar de certo modo como guerra 
civil.
Tinha de vingar os desares por que passara nas fronteiras meridionais, e era 
assim,
entretido nos preparativos para uma grande correria dirigida ao corao do 
Gharb, que o
prncipe se conservava em simulado repouso. A conjuntura acomodava-se
maravilhosamente ao intento. No ano pretrito seu primo penetrara at bem 
perto da
capital dos estados muulmanos da Espanha e deixara assoladas provncias 
at onde
raro ou nunca tinham ousado chegar as armas crists. A dbil resistncia que 
Afonso
VII encontrara era indicio evidente da impotncia do imprio lantunense. Era-o 
agora
tambm o cerco de Aurelia, praa militar importantssima, para os sarracenos 
no
haverem de consentir em que estivesse posta impunemente em apertado stio, 
se lhe
fosse possvel socorr-la. Na verdade Ibn Ghaniyah, vli de Valncia, com 
outros cabos
principais das foras almorvidas do Andaluz tinham feito uma demonstrao 
contra
Toledo com o intuito de divertirem para a capital a ateno do imperador, mas 
nem por
isso este abrira mo da empresa em que estava empenhado, e os generais 
almorvidas
haviam-se retirado sem tirarem proveito algum da sua tentativa 242 .
Era tempo de aproveitar as circunstncias. J em Maio deste ano de 1139 se
faziam os preparativos de uma expedio militar, e os homens de armas 
corriam a
ajuntar-se s suas bandeiras 243 . Entrado o ms de Julho, o exrcito 
portugus marchou
para o Meio-Dia 244 . Em vez de se encaminhar para aquela parte do Gharb 
que se
dilatava desde a fronteira de Santarm at Lisboa pela margem direita do Tejo 
e que,
por este lado da Espanha, tinha tantas vezes sido teatro de sanguinolentas 
lutas, o
infante transps o rio e, atravessando no seu terrvel fossado ou correria o 
serto da
provncia, nunca at a devassado das armas crists, dava mostras de se dirigir 
contra
Silves, a povoao mais importante daquelas partes. A audcia da empresa, os 
estragos
inevitveis nestes fossados, expedies cujo fim principal era o talar os campos 
do
inimigo, deviam causar profundo susto, por isso que a invaso de Afonso 
Henriques
parecia combinada, e porventura o era, com o cometimento de Aurelia pelo 
imperador.
Por outra parte,  vista do que temos narrado, mal podiam os governadores 
almorvidas
destes distritos esperar socorro das provncias mais orientais do Andaluz, e a 
marcha
rpida de Ibn Errik (nome com que o- filho do conde Henrique era designado 
pelos
sarracenos) dificilmente consentiria delongas para invocar alheio auxlio, ainda 
quando
houvesse probabilidade de obt-lo. Assim, era necessrio que em si prprios 
buscassem
recursos para cortarem o passo aos cristos, servindo-se unicamente das 
foras que,
partindo para a frica, lhes deixara Taxfin.
A vasta extenso de territrio que se divide hoje nas duas provncias do 
Alentejo e
do Algarve, quando os almorvidas subjugaram a Espanha nos fins do sculo 
XI,
constitua, juntamente com uma poro da Estremadura espanhola e, talvez, 
da
242 Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 2, c. 68.
243 Et si obiero iu exercitu regia, diz um cavaleiro em doao de 18 de Maio 
de 1139 ao Mosteiro de
Pendorada, Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, p. 116, n 354.
244 Doao a Mnio Guimariz feita pelo infante em Julho de 1139 quando ia 
para o fossado de Ladera,
Elucidrio de Viterbo, T. 1, p. 473, verbete Fogo Morto.165
provncia de Sevilha, os estados dos Benu Alafftas ou amires de Badajoz, que
senhoreavam tambm aquela parte da Estremadura portuguesa ainda no 
conquistada
pelos cristos, intitulando-se por isso amires do Gharb. Com a entrada dos 
lantunitas
acabou este amirado, como os outros do Andaluz 245 , e os valiados dos 
distritos, os
vizirados das cidades de segunda ordem e as alcaidarias dos castelos foram
naturalmente distribudos entre os conquistadores. Se estes conservaram as 
anteriores
divises territoriais ou se fizeram nova distribuio de governos subalternos  o 
que no
ser fcil dizer. Todavia, antes de comearem os cristos a apoderar-se dos 
territrios
alm do Tejo e ao sul de Leiria, o Gharb compunha-se de trs provncias: 
primeira, a de
Alfaghar ou de Chenchir, onde estavam situadas as cidades e castelos de 
Santa Maria
(Faro), Mirtolah (Mrtola), Chelb (Silves), Oksonoba (Esti), Tabira (Tavira) e 
outros;
segunda, a de Al-Kassr Ibn Abu Dans, contendo as importantes cidades de 
Batalis
(Badajoz), Xerixa (Xerez de los Caballeros), Iaborah (vora), Manda (Mrida), 
Cantarat
Al-Seyf (Alcntara), Curia (Coria), Belch ou Ielch (Elvas?), Bajah (Beja), 
Alkassar
(Alccer do Sal) e vrios castelos e povoaes, como Jelmanyah (Juromenha?) 
e
Sheberina (Serpa?); terceira, a de Belatha, cujos principais lugares eram as 
duas cidades
de Chantarin ou Chantireny (Santarm) e Lixbona ou Achbuna (Lisboa) e o 
roqueiro
castelo de Chintra ou Zintiras (Sintra). Abaixo de Achbuna, na margem oposta 
da baa
do Tejo, via-se o forte de Al-Maden (Almada), isto , da mina, nome que lhe 
vinha das
palhetas de ouro que o rolo do mar lanava nas suas praias, e que se 
entretinham em
ajuntar durante o Inverno os habitantes daqueles distritos 246 . Esta importante 
parte da
Espanha muulmana foi a primeira a abandonar a decadente dinastia lantunita. 
No meio
das perturbaes que agitavam ento o Andaluz, um certo Ahmed Ibn Kasi 
apoderou-se
de Mrtola e dos territrios circunvizinhos, enquanto Seddaray ou Sid Ray se 
fazia
senhor de Badajoz e do resto do Gharb. Das narrativas dos historiadores 
rabes no se
pode conhecer exactamente quando se verificou a partilha; se antes, se depois 
de 1139.
Ocorressem, porm, tais sucessos anterior ou posteriormente a essa data,  
certo que por
aquela poca Seddaray e Ahmed desmembraram em dois estados 
independentes a antiga
monarquia dos Benu Alafftas 247 , dominando Seddaray, segundo parece, ao 
norte e ao
oriente, e Ahmed ao sul e ocidente.
Ou dominassem estes rgulos, ou estivesse ainda o pas sujeito aos 
governadores
a postos pelo imperador de Marrocos, o que sabemos  que os chefes 
muulmanos, pelo
menos os do Alentejo, se uniram para atalhar a invaso do terrvel Ibn Errik. 
Este
achava-se j nos campos que se dilatam ao sul de Beja quando os vlis e 
caides das
praas do Gharb marcharam ao seu encontro. Numa das eminncias, por meio 
das quais
o solo se vai fazendo mais agro e ondeado desde as planuras de Beja at se 
converter
nas speras serranias de Monchique, estava assentado o lugar ou castelo 
denominado
245 Ibn al-Khatib, em Casiri, Biblioteca Arabico-Hispana, T. 2, p. 217; Conde, 
P. 3, c. 1, e especialmente
o 22.
246 Edrisi, Geografia (verso de Jaubert, Paris, 1840), Vol. 2, pp. 15 e 16, e pp. 
21 e as., comparado com
Al-Makkari e Ibn Khaldun (verso de Gayangos), Vol. 2, texto e apndices, 
passim; Conde, P. 3; e Casiri,
Vol. 2, passim. Edrisi acabou de escrever a Geografia em 1154 por ordem de 
Rogrio de Siclia; mas a
sua viagem na Espanha devia ter sido bastante anterior, porque as matrias 
para a obra levaram muito
tempo a coligir (Prlogo, XX e XXI). E na verdade essa viagem foi feita de 1142 
a 1147, pois que da
narrativa de Edrisi se v que precedeu a conquista de Santarm e Lisboa pelos 
cristos e foi posterior 
tomada de Coria em 1142 (Edrisi, Vai. 2, p. 25, e Chronica Adefonsi 
Imperatoris, L. 2, c. 74).
247 Ibn Khaldun, cit por Al-Makkari, L. 8, c. 2 (T. 2, p. 309 de Gayangos); Ibn 
Kasi (Alimed) and Ibn
Wasir (Seddaray) shared among themselves the whole of that eontry, wich 
had once belonged to the
Benu Alafftas, ibid.; Ahmed Ibn Kasi... profiting by the civil wars, whieh 
distracted Mohammed on
Spain at the commencement of the twelfth century, he made himself master of a 
eonsiderable portion of
the Al-Gharb, Gayangos, VaI. 2, Apndice D, p. 49; Conde, P. 3, c. 34, pe 
estes sucessos de Ibn Kasi
(Aben-Cosai) em 1144..166
pelos rabes Orik 248 . Foi nestas imediaes que sarracenos e cristos se 
encontraram.
Apesar de que o antigo esforo e o irresistvel entusiasmo dos lantunitas, 
corrompidos
pelas riquezas e pelo luxo, frutos das passadas conquistas, tinham 
grandemente
esmorecido, eles recorreram a uma das guerreiras usanas dos seus 
antepassados do
Moghreb para preencherem as fileiras, ou rareadas pela partida de Taxfin, ou 
porque as
guarnies dos castelos daquele tempo, ainda completas, eram mui pouco 
numerosas
249 . As mulheres almorvidas, vestindo as armas, vieram pelejar ao lado de 
seus maridos
e irmos em defesa da terra que as tribos de Lantuna olhavam como nova 
ptria depois
da conquista do Andaluz 250 .
 excepo desta, as circunstncias da batalha de Ourique ignoram-se
inteiramente. As crnicas crists coevas ou quase coevas que a mencionam 
fazem-no
em bem curtas palavras, e nos diversos escritores rabes que nos transmitiram 
a histria
da Espanha neste perodo no se encontra o mnimo vestgio de um facto que 
pouco
devia avultar no meio dos graves acontecimentos que ento passavam na cena 
poltica,
tanto na Pennsula como na frica. Sabemos s que Afonso Henriques 
desbaratou os
sarracenos, cujo chefe, denominado nos cronicons portugueses o rei Ismar, 
Smare ou
Examare, corrupo, talvez, de Omar ou de Ismael, a custo salvou a vida com 
a fuga. O
campo ficou alastrado de mortos, entre os quais se acharam os cadveres de 
muitas das
mulheres que ali tinham vindo e que haviam perecido combatendo como as 
antigas
amazonas.
Foi ganhada esta batalha, que to memorvel se tornou com o correr dos 
tempos, a
25 de Julho de 1139. No consta, porm, ao certo quais fossem as 
consequncias dela.
A mais provvel  a das devastaes ordinrias nestas correrias quando eram 
bem
sucedidas. A audaz empresa do prncipe dos portugueses fora, como ele 
mesmo no-lo
assegura 251 , um verdadeiro fossado, isto , uma dessas entradas que todos 
os anos se
renovavam pelas fronteiras dos sarracenos, e para as quais, pelas suas cartas 
de foral,
eram obrigados a marchar os cavaleiros vilos dos diversos concelhos, ou dos 
distritos,
como noutra parte veremos. As circunstncias peculiares que neste 
concorreram, sendo
o primeiro tentado pelos portugueses alm do Tejo e conduzido pelo prprio 
infante no
serto do Gharb, aonde nunca ou raramente os cristos haviam chegado, 
contriburam,
acaso, para que a tradio engrandecesse pouco a pouco o sucesso, a ponto 
de o tornar
maravilhoso at o absurdo. A inclinao aos encarecimentos chegou a elevar o 
nmero
dos vencidos a quatrocentos mil sarracenos e a fazer intervir na tentativa o 
prprio
Deus. Se acreditarmos os cronistas antigos e ainda os historiadores modernos, 
a batalha
de Ourique foi a pedra angular da monarquia portuguesa. Ali os soldados, no 
delrio de
to espantosa vitria, de que haviam sido instrumento e vtimas cinco reis 
mouros e
os exrcitos sarracenos da frica e da Espanha, aclamaram monarca o moo 
prncipe
que os conduzira ao triunfo. Algumas, porm, das memrias ou coevas ou mais
prximas contentam-se de exagerar o nmero dos inimigos, omitindo as outras
particularidades que o tempo foi acrescentando ao sucesso; dizemos exagerar, 
porque o
limitado das foras almorvidas que guarneciam a Espanha muulmana, 
segundo se v
do que anteriormente narrmos, e a rapidez da invaso, feita em quinze ou 
vinte dias,
no consentiam virem a Ourique tropas das provncias mais remotas, ainda 
supondo a
248 Moura, Vestgios da Lngua rabe, p. 171.
249 Para se fazer ideia do limitado nmero de soldados que guarneciam 
qualquer castelo naquele tempo,
observe-se que Mrtola, o mais forte de todo o Charb, foi salteado por 
setenta homens do partido de
Ibn Kasi (Conde, P. 3, c. 34).
250 Foeminae sarracenae in hoc praelio, amazonico ritu, ac modo pugnarunt, 
ut occisae tales
deprehensae, Chtonica Gothorum, na Monarquia Lusitana, P. 3, L. 10, c. 3. 
Este uso de entrarem as
mulheres nas batalhas era peculiar dos almorvidas (Casiri, Vol. 2, p. 219).
251 Documento j citado do Elucidrio, verbete Fogo Morto..167
existncia dessas tropas, o que o abandono de Aurlia bastaria para nos 
constranger a
no acreditar 252 .
Aps esta jornada, Afonso Henriques, saqueados e destrudos, provavelmente, 
os
lugares abertos da provncia de Al-Kassr, voltou aos seus domnios. Os 
despojos,
porm, daquela brilhante entrada eram o preo de menos valia em tal empresa. 
Mais
graves resultados deviam ser os da ordem moral. O prncipe portugus dera 
aos
sarracenos uma spera demonstrao de que s algaras pelo lado das 
fronteiras de
Santarm ele respondia assolando os distritos centrais do Gharb; mostrava ao 
imperador
qual era a ousadia dos cavaleiros e homens de armas de Portugal; habituava 
estes a
combater os infiis em rasa campanha, exercitando-os e predispondo-os para 
as futuras
conquistas, e, finalmente, restaurava os brios necessariamente amortecidos 
com os
tristes acontecimentos renovados por tantos anos nas fronteiras do distrito de 
Belatha e
com as humilhantes condies impostas por Afonso VII ao infante na 
conjuntura dos
reveses de Leiria e Tomar.
A guerra entre Portugal e Leo rompeu da a pouco, ainda nos fins de 1139 ou, 
o
que nos parece mais de crer, nos princpios do ano seguinte 253 . As memrias 
desses
tempos no nos dizem quem quebrou as pazes juradas: s sabemos que a luta
interrompida por dois anos comeou de novo. O mais de presumir  que 
Afonso
Henriques fosse o agressor, porque era a ele que interessava o anular o 
tratado de 1137.
Nesse ou noutro pressuposto,  certo que o vencedor de Ourique penetrou na 
Galiza
pelo lado de Tui 254 . Invadindo, porm, aquela provncia, o infante encontrou 
o seu mais
perigoso adversrio, o valente alcaide de Alariz. Fernando Anes j no era o 
simples
defensor de um castelo; era o general ou prncipe 255 do distrito de Limia. 
Nessa
campanha, se acreditarmos a crnica de Afonso VII, os portugueses no foram 
felizes,
posto que se apoderassem de alguns castelos, e o silncio dos nossos 
cronicons a
respeito de tais sucessos, longe de invalidar aquela narrativa, tende, quanto a 
ns, a con-firm-
la. O fronteiro leons obteve diversas vantagens, aprisionando alguns dos
principais cavaleiros de Portugal, que para obterem a liberdade sacrificaram 
avultadas
somas, naturalmente adquiridas na passada correria alm do Tejo. O prprio 
infante saiu
ferido em certo recontro de uma ascuma ou lana vibrada por um peo das 
tropas de
Limia, ficando assim por algum tempo impossibilitado de conduzir 
pessoalmente a
guerra 256 .
Posto que parea no terem sido em geral os sucessos da campanha nas 
fronteiras
do Norte favorveis a Afonso Henriques, todavia o seu valor, ajudado pelo dos 
bares e
cavaleiros portugueses, tornavam-no adversrio digno de sria ateno. 
Apesar da
252 Nota XVI no fim do volume.
253 A falta absoluta de diplomas originais de Afonso Henriques desde Julho de 
1139 at Junho de 1140
persuade que ele se demorara na expedio do Alentejo e que, voltando aos 
seus estados, quebrara
imediatamente a paz com o imperador, penetrando na Galiza. Esta falta de 
diplomas, que verificmos por
nossos prprios olhos no Arquivo Nacional e que em vo temos feito examinar 
se  suprida nas outras
coleces de documentos do pas,  notvel. Existe, todavia, uma carta de 
privilgios aos cavaleiros do
Sepulcro, includa em confirmao de 1256 (Arquivo Nacional, Gav. 6, Mao 
nico, n 29) e datada de 3
das calendas de Abril de 1178 (30 de Maro de 1140). Mas como dizemos no 
fim da nota XVII, esta data
 obviamente errada, pertencendo o diploma a uma poca bastante posterior.
254 D. Alfonsum esse... in partibus Galleciae circa Tudem, Chronica 
Gothurum, era 1178.
255 Ferdinandus princeps Limiae, Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 1, c. 32.
256 Id., ibid. Das memrias de Portugal apenas a Chronica Gothorum nos 
diz que neste ano Esmar,
sabendo que Afonso Henriques estava na Galiza para as bandas de Tui retido 
por negcios de que no
podia facilmente desembaraar-se, veio sbito, etc., etc. Estes negcios no 
podem ser, quanto a ns,
seno a guerra - com Fernando Anes e a ferida que impossibilitou o infante de 
vestir armas por algum
tempo, e depois a entrada do imperador e o recontro de Valdevez, de que 
vamos falar. Sobre a cronologia
destes sucessos veja-se a nota XVI..168
entrada pelas terras dos sarracenos at o Guadalquivir e do assdio e 
conquista de
Aurelia nos dois anos anteriores, o imperador sustentara contnua guerra com 
Garcia, rei
de Navarra. Sabendo, porm, que o infante penetrara com mo armada nos 
seus
territrios, marchou contra ele com as foras da provncia de Leo, ordenando 
aos con-des
de Castela prosseguissem entretanto em combater activamente o navarro. 
Naquele
primeiro mpeto alguns castelos caram nas mos dos leoneses, e as terras por 
onde
Afonso VII passou foram saqueadas e destrudas 257 .
Ao longo das correntes do Lima, pela sua margem direita, as montanhas de
Penagache, na Galiza, internam-se em Portugal, e vm formar ao nascente de 
Arcos de
Valdevez os speros pendores do Soajo sob as altssimas chapadas da 
Peneda, cujos
agrestes habitantes so ainda hoje dos que mais tenazmente conservam as 
tradies e
usanas de antigos tempos.  territrio crespo de serranias e cortado de rios e 
torrentes.
Perto da vila de Arcos, aquelas altas cordilheiras bifurcam-se e achatam-se, 
deixando
para o poente a veiga de Valdevez. Avanando do lado do norte, depois de 
atravessar o
Minho ou, talvez, marchando do nascente pela provncia de Trs-os-Montes, o
imperador descia das alturas daqueles selvticos desvios dirigindo-se s 
margens do
Lima. Passada a Portela de Vez, que tira o nome do mesmo ribeiro que o deu  
veiga,
ele acampara em frente do castelo de Pena da Rainha, que era acaso o que
posteriormente chamaram Torre de Penaguda. O conde Radimiro adiantou-se 
ento com
algumas foras a talar o territrio inimigo; mas no tardou a topar com o 
infante, que
marchava rapidamente ao encontro dos invasores. Travou-se um combate, e o 
conde,
que loucamente se atrevera a afastar-se do grosso do exrcito, foi desbaratado 
e cativo.
Com este prspero sucesso os portugueses no hesitaram em avanar para 
Valdevez, e
Afonso VII viu coroarem-se de uma selva de lanas as altas e speras 
serranias que se
prolongavam defronte do seu acampamento 258 .
Assim com as pocas de adiantada civilizao tendem a fazer semelhantes os
costumes de povos diversos, assim na infncia das sociedades usanas 
barbaramente
poticas se repetem frequentemente entre naes divididas por largas 
distancias de
espao ou de tempo. Os heris da Ilada preludiavam ao travar as batalhas por 
combates
singulares, com os quais se excitavam o esforo e o entusiasmo do comum dos
guerreiros. A Idade Mdia viu muitas vezes renovarem-se estas cenas da 
infncia da
civilizao grega, e nas razes do carrancudo Soajo repetiram-se tambm 
esses duelos
homricos. Entre os dois exrcitos a veiga do Vez oferecia-se como uma vasta 
estacada,
onde os bares e cavaleiros de Leo e Portugal podiam encontrar-se corpo a 
corpo, sem
a desordem e confuso de uma batalha, e experimentarem qual das duas 
provncias da
Espanha gerava braos mais robustos, nimos mais feros. Foi um largo torneio 
em que a
vitria coube aos valentes homens de guerra do infante. Fernando Furtado, 
irmo do
imperador, Vermudo Peres, cunhado de Afonso Henriques, o conde Ponce de 
Cabrera e
muitos outros dos mais notveis fidalgos da corte do imperador, derribados 
pelas lanas
dos portugueses, ficaram prisioneiros, segundo as leis da cavalaria. A memria 
do facto
perpetuou-se a no nome de Jogo do Bufurdio ou Boforda 259 , que se ps ao 
lugar do
257 Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 1, c. 33.
258 Ibid.
259 Ibid.; Chronica Gothorum, na Monarquia Lusitana, P. 3, L. 10, c. 8; 
Captis quibusdam castellanis
in loca qui voeatur Ludus Bufurdii, e mais particularmente na que supomos 
parfrase posterior, ibid.,
Apndice 1, era 1178; Capri sunt ex atraque parte, diz o cronista de Afonso 
VII; mas v-se em toda a
narrativa deste sucesso que ele pretende atenuar a desvantagem do 
imperador, que alis no pode negar.
Bufurdium (baforda ou boforda, e da bafordar ou bofordar, 
Elucidrio, P. 1, p. 168) significava
conjuntamente o que depois veio a distinguir-se com os nomes de torneio e de 
justa: isto , jogos militares
com armas verdadeiras e em que corria o. sangue, e Jogos com armas 
emboladas e de puro divertimento..169
torneio, o qual, depois, a tradio popular, engrandecendo o sucesso, segundo 

costume, denominou Veiga da Matana, bem que a histria no nos diga que 
morresse
no combate um s dos nobres contendores 260 .
Supersticiosa como era aquela Idade, o desbarato do conde Radimiro e o 
cativeiro
de tantos senhores e cavaleiros principais deviam parecer aos leoneses 
pssimos
auspcios para uma batalha, que, alis, se tornava inevitvel. E na verdade a 
perda
daqueles ilustres guerreiros era justo motivo de desalento. Acrescia que os 
portugueses
tinham tomado melhores posies 261 . Nesta situao, Afonso VII mandou ao 
campo
inimigo mensageiros que, em nome dele, pedissem ao arcebispo de Braga 
para, por sua
interveno, se tratar da paz. No obstante as vantagens alcanadas pelo 
infante, o
desfecho da batalha era incerto, e o prelado portugus acedeu facilmente aos 
desejos do
monarca. Os receios de um combate brevemente se desvaneceram e, 
concordados afinal
os dois primos, falaram amigavelmente um com o outro. Ajustou-se uma 
suspenso de
armas por alguns anos, ficando por mtuos fiadores os cabos principais de um 
e de
outro exrcito, at que depois, com mais sossego, se pudesse assentar uma 
paz definitiva
e duradoura, o que poucos anos depois se realizou. Entretanto, os prisioneiros 
feitos de
parte a parte foram logo postos em liberdade, e restitudos os castelos 
reciprocamente
conquistados 262 .
Estes acontecimentos passaram, como j notmos, dos fins de 1139 at 
Primavera de 1140. O chefe sarraceno desbaratado em Ourique soubera da 
entrada de
Afonso Henriques na Galiza e dos reveses que experimentara. , at, natural 
que a fama
exagerasse o perigo da ferida que a recebera. Sedento de vingana, Ornar (se 
este era o
seu nome) ajuntou as tropas do Gharb e, atravessando inesperadamente a 
fronteira,
acometeu e tomou o castelo de Leiria, j reparado e guarnecido de novo. Morta 
uma
parte da guarnio e cativa outra com o seu antigo alcaide, Paio Guterres, 
aquela
importante fortaleza foi reduzida a um monto de runas. Dali, segundo parece, 
os
sarracenos, prosseguindo na sua marcha assoladora, internaram-se no 
corao de
Portugal e, dirigindo-se para nordeste; avanaram at s imediaes de 
Trancoso. A
sorte desta povoao foi igual  de Leiria, e os sarracenos haveriam tirado 
maior
vingana das devastaes do ano antecedente feitas pelos cristos na 
provncia de Al-Kassr,
se a reconciliao com o imperador no habilitasse Afonso Henriques para 
voar
em socorro dos castelos meridionais. Seguido das suas coortes, ele desceu 
das margens
do Lima, veio passar o Douro junto de Lamego e marchou para Trancoso. Em 
dois
recontros sucessivos os muulmanos foram desbaratados, pagando assim bem 
caro a
reparao que tinham buscado  afronta recebida em Ourique 263 .
A concrdia feita em Valdevez, como preliminar a um tratado de paz entre
Portugal e Leo, cujas condies se deviam assentar mais de espao,  indcio 
bastante
da reputao militar do infante de Portugal e de que o imperador j no cria 
negcio
fcil, nem talvez possvel, submeter o guerreiro filho do conde Henrique. O 
grande
corao do mancebo abraara o altivo pensamento dos homens esforados a 
cuja frente
Veja-se Ducange, verbete Bohordium. Os ingleses chamavam-lhe 
buhurdicium (Rymer, Foedera,
Londres, 1816, Vol. 1, P. 1, p. 213.
260 Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 1, c. 33; Chronica Gothorum, loc. cit.
261 In laco altiori el aspero, Chronica Adefonsi Imperatoris, loc. cit.
262 Chronica Gothorum, na Monarquia Lusitana; P. 3, L. 10, c. 8; Chronica 
Adefonsi Imperatoris, loc
cit. A crnica toledana atribui aos portugueses as diligncias para se fazer a 
paz. A verosimilhana
favorece a narrativa da Chronica Gothorum, que as atribui ao imperador, 
contra o qual estavam as
probabilidades da batalha iminente.
263263 Chronica Gothorum, era 1178; Memrias da Fundao do Mosteiro 
de Tarouca, Monarquia
Lusitana, P. 3, Apndice, escrito 16. Em a nota XVII se acharo os 
fundamentos pelos quais ligmos os
sucessos de Trancoso com a destruio de Leiria..170
a sorte o colocara, o pensamento de fundar um reino independente no Oeste 
da
Pennsula. Esse intento, concebido por seu pai, aprovado com nsia pelos 
bares portu-gueses,
desenvolvido largamente por D. Teresa e que, porventura, se houvera j
realizado completamente se a paixo amorosa da rainha e as tristes 
consequncias dessa
paixo no tivessem dado azo a rixas intestinas; esse intento, dizemos, estava 
na opinio
popular convertido em facto consumado. E o povo tinha razo. Embora na letra 
dos
tratados de 1121 e de 1137 haja indisputavelmente expresses que revelam 
certa inferio-ridade
ou sujeio dos prncipes portugueses  coroa leonesa; embora, como depois 
da
invaso de 1127, Portugal parea s vezes resignar-se  sorte das outras 
provncias de
Espanha crist, os factos positivos e palpveis contradizem essa espcie de 
fico
poltica. Os pendes portugueses j no esvoaam em terras dos infiis ao 
lado dos de
Leo e Astrias, da Galiza, de Castela e de Toledo. O infante de Portugal, 
quando solta
o seu grito de guerra, ao atirar-se por entre selvas de lanas sarracenas, vai, 
como o rei
das feras, buscar solitrio a sua preia; arca peito a peito com o islamismo, sem 
pedir
socorro aos outros prncipes, que tem j na conta de estranhos: na corte do 
imperador
ningum o viu nunca; nas assembleias polticas da monarquia o seu lugar est 
sempre
vazio: os cofres do Estado jamais se abrem para receber os tributos municipais 
das
provncias portuguesas, que comeam a cobrir-se de povoaes, restauradas 
ou
fundadas de novo; finalmente, o orgulhoso Afonso VII, que no pode consentir 
a
independncia de Arago e, de certo modo, de Navarra, tomando o titulo de 
senhor de
Naxera; Afonso VII, que inclui na enumerao dos seus domnios esses pases, 
ainda
quando os naturais lhe disputam o senhorio deles, nem uma s vez se intitula 
dominador
de Portugal, contentando-se, acaso, com imaginar que esse novo estado 
virtualmente se
acha includo debaixo do nome da Galiza, da qual  senhor e a que poucos 
anos antes os
dois distritos do Porto e Coimbra estiveram ligados.
Que se pode deduzir desta oposio entre os factos materiais e o carcter 
poltico
das nossas relaes com a monarquia leonesa naquela poca? A mais bvia  
que certo
nmero de circunstncias, cuja apreciao na mxima parte  hoje impossvel, 
tinham
tornado assaz distinta a nacionalidade portuguesa, apesar da. sua recente 
data, pata se
perceber, ainda nesses rudes tempos, que seria difcil empresa o destru-la. 
Mas, em
nosso entender, no era s isto. O leitor no esqueceu por certo quais foram 
depois da
morte de Afonso VI as pretenses do conde Henrique, pretenses que so 
como o elo de
todo o processo da desmembrao de Portugal. Quisera ele para si um largo 
quinho na
herana do sogro, e ambos os partidos contendores, o do rei de Arago e o de 
D. Urraca,
tinham entendido dever ceder-lhe o Oeste da Pennsula para o atrarem  
prpria
parcialidade. A diviso e a demarcao do novo estado chegaram a fazer-se 
com a
possvel solenidade e com a concorrncia dos bares leoneses e castelhanos. 
Desde esse
momento a ambio do conde tinha um fundamento legtimo. Da as 
pretenses de D.
Teresa depois da morte do marido, e da, quanto a ns, a insistncia, assim da 
rainha
como de seu filho, em tentarem apoderar-se das terras na Galiza e ainda nos 
distritos de
Zamora, Toro, Salamanca e Valhadolid, que em 1121 vimos serem to 
facilmente
cedidas por D. Urraca a sua irm. As invases para alm das fronteiras 
setentrionais e
orientais de Portugal, por este perodo, aparecem-nos sempre na histria to 
repentinas,
to destitudas de motivos conhecidos, que dessa mesma circunstncia se 
conclui a
existncia de uma causa permanente que tornava inteis outros quaisquer 
pretextos para
tal procedimento. Pode, na verdade, a ferocia dos tempos explic-las algumas 
vezes:
mas fora exagerar demasiado a barbaria da poca o atribu-las constantemente 
ao desen-freamento
das paixes e  quebra de solenes promessas.
Nesta hiptese, que nos parece a nica verosmil, a situao relativa entre 
Portugal
e Leo era reciprocamente falsa. Se por um lado a questo da independncia 
se podia.171
ainda em 1140 considerar como problema, a dos limites verdadeiros dos 
territrios que
deviam pertencer ao herdeiro e representante de Henrique de Borgonha no 
era menos
disputvel. A dificuldade de resolver este complicado negcio parece-nos 
conciliar as
ideias, aparentemente opostas, que as memrias e documentos daquele 
perodo suscitam
sobre o valor exacto das relaes entre o novo estado que surgia e aquele de 
que
nascera.
No sculo XI, bem como nos que lhe precederam, o ttulo de infante era j o 
que
se dava aos filhos dos reis. D. Teresa, que, como vimos, recebia dos sbditos o 
de
rainha ainda em vida do conde Henrique, havia tomado este ltimo quase
constantemente nos seus diplomas pouco tempo depois da morte do marido.
Arrancando-lhe das mos o poder, seu filho conservou por alguns anos o de 
infante com
que antes disso era designado. Todavia os portugueses no tardaram a dar-lhe 
o de rei,
que o mancebo hesitava em aceitar. Pouco a pouco, porm, ele comeou a 
adoptar o de
prncipe misturado com o de infante e predominando sobre este desde 1136. 
Era a
palavra prncipe um vocbulo genrico para indicar o chefe ou principal 
personagem de
uma provncia, de um distrito e, at, de um corpo de tropas, vindo, portanto, a 
ser mais
ambguo ainda que na linguagem moderna e por isso acomodado  situao 
incerta em
que Afonso Henriques se achava colocado. V-se, contudo, que, quando as
circunstncias o constrangiam a recuar nos seus desgnios de completa 
independncia,
ele o abandonava, limitando-se ao de infante. O povo atribua-lhe s vezes um 
ou outro,
posto que o uso mais comum parea ter sido o denomin-lo rei. Esta hesitao 
cessou
finalmente. Depois das trguas de Valdevez, Afonso Henriques ps, enfim, 
patente de
modo claro e preciso o alvo a que os seus esforos tendiam, aceitando esse 
ttulo
popular 264 .
No arraial junto da Pena da Rainha, ou porque Afonso Henriques tivesse de
marchar prontamente contra os sarracenos ou por algum outro motivo, no se 
haviam
assentado as convenes de uma paz duradoura, reservando-se para ocasio 
mais
oportuna terminar este negocio 265 . Dali, Afonso VII, tendo-se demorado 
pouco tempo
em Santiago e em Leo e Castela, marchara para o lado de Pamplona a dar 
calor 
guerra de Navarra e, depois de assolar aquele territrio, recolhera-se a Naxera, 
donde
regressara a Castela. A lanou bando para que as tropas desta provncia e as 
de Leo se
ajuntassem na Primavera seguinte a fim de reduzir o rei de Navarra. A notcia 
dos
extraordinrios preparativos do imperador e dos preliminares da paz 
assentados com o
prncipe de Portugal encheu o nimo de Garcia de srios receios. Felizmente o 
conde de
Tolosa, Afonso Jordo, primo do imperador, achava-se nessa conjuntura em 
Espanha,
aonde viera em romagem a Santiago. Por sua interveno, o rei de Navarra 
pde evitar a
procela. Tratou-se de uma concrdia, que se concluiu, diz a crnica de Toledo,
reconhecendo o navarro a supremacia do imperador e prometendo-lhe este por 
mulher a
infanta D. Urraca, sua filha bastarda ainda menina, consrcio que de feito veio 
a
celebrar-se da a quatro anos, em 1144 266 .
Entretanto os sarracenos, desbaratados na jornada de Trancoso, tinham
retrocedido para o sul. Soube ento Afonso I que uma armada francesa de 
setenta velas
surgira junto ao porto de Gaia e, acossada dos temporais ou por outro qualquer 
motivo,
viera fundear dentro do rio. Navegavam para a Terra Santa, talvez porque os 
prncipes
cristos da Sria pediam socorros aos seus correligionrios da Europa, 
suspeitando j os
sucessos que trouxeram em breve a perda de Edessa e deram motivo  
segunda cruzada.
O prncipe portugus resolveu ento cometer os sarracenos pelo distrito de 
Santarm.
264 Nota XVIII no fim do volume.
265 Ut iterum, dum pax esset, firmius pacificarentur, Chronica Adefonsi 
Imperatoris, L. 1, c. 34.
266 Ibid., L. 1, c. 35 e 36..172
Tratou o negcio com os capites da frota, que levantou ferro e, descendo ao 
longo da
costa, entrou na baa do Tejo, enquanto um exrcito, marchando por terra, se
aproximava de Lisboa. Era o lugar forte e bem defendido, como o tempo 
mostrou, e as
foras do rei de Portugal juntas s dos cruzados insuficientes para conquist-la.
Devastados os seus arredores, a armada velejou para o Estreito, e o exrcito 
recolheu-se
com os despojos obtidos, que eram um dos principais motivos dessas correrias
contnuas 267 .
Depois deste sucesso os primeiros cuidados de Afonso Henriques foram o
fortificar as fronteiras meridionais dos seus estados. O castelo de Leiria, que 
ficara
destrudo na passada algara dos sarracenos, considerava-se como a chave do 
pas por
este lado. Assim no tardou a ser de novo edificado e guarnecido. A sua 
importncia era
tal que num documento pouco posterior os alvazis e demais membros do 
conselho
municipal de Coimbra declaravam que os homens de armas do concelho que 
tentassem
ir combater pela f na Palestina fossem defender a Estremadura e em especial 
Leiria,
onde, se morressem, obteriam a remisso dos seus pecados do mesmo modo 
que em
Jerusalm 268 . A fortaleza de Germanelo foi construda tambm por esses 
tempos para
impedir os insultos dos inimigos, que, avanando da provncia de Al-Kassr 
pelos
territrios agrestes e montuosos ao noroeste do Tejo, vinham ousadamente, 
seguindo o
curso do Doessa ou por entre Pombal e Penela, talar os campos de Ateanha e 
do
Alvorge 269 .
No meio de tais prevenes chegou o ano de 1143. Aproveitando as 
dificuldades
com que os almorvidas andavam a braos, o imperador sitiara Corja, que se 
rendeu
depois de ter implorado em vo os socorros de frica, enquanto o famoso 
alcaide de
Toledo, Munio Afonso, desbaratava os vlis de Sevilha e de Crdova. Na 
Primavera
deste ano, Afonso VII devastou os distritos de Carmona, de Crdova e de 
Sevilha, e,
rico de despojos, voltou a Toledo para os repartir com os seus homens de 
armas. A
morte, porm, de Mnio Afonso, que entretanto perecera num combate com o 
adalid
sarraceno de Calatrava, produziu viva impresso no nimo do prncipe leons, 
que
despediu as suas tropas, resolvido a no prosseguir a guerra seno no ano 
seguinte 270 .
Foi durante esta calma da guerra com os muulmanos que se tratou de 
estabelecer
definitivamente a paz cujos preliminares se tinham assentado em Valdevez. O 
cardeal
Guido de Vico viera por aquele tempo a Espanha como legado do papa 
Inocncio II e
ajuntara um conclio provincial em Valhadolid, em que se promulgaram as 
resolues
do segundo conclio geral de Latro e se deram algumas outras providncias 
relativas
especialmente  Igreja de Espanha. O imperador e o rei de Portugal dirigiram-
se nessa
conjuntura a Zamora para numa conferncia assentarem as condies de 
duradoura
concrdia. Guido, provavelmente como representante do pontfice, foi chamado 
a
assistir  conferncia dos dois prncipes, que, segundo parece, resolveram
amigavelmente as controvrsias que os tinham obrigado a demorar a 
concluso da paz.
Quais foram as condies desta? Nenhum monumento especial que no-lo diga 
chegou
at ns; mas o que se pode asseverar  que o imperador reconheceu o ttulo 
de rei que
seu primo tomara, e que este recebeu dele o senhorio de Astorga 271 , 
considerando-se
267 Chronica Gothorum, na Monarquia Lusitana, P. 3, L. 10, c. 9.
268 Doao do domnio ec1esistico de Leiria a Santa Cruz de Coimbra, em 
1142, na Monarquia Lusitana,
ubi supra. Posturas da Cmara de Coimbra, de 1145, no Livro Preto, f. 221; 
a Chronica Gothorum
(exemplar de Resende) traz a data da reedificao de Leiria evidentemente 
errada, atribuindo-a ao ano de
1144 (1182). O seu primeiro foral  de 1142. (Arquivo Nacional, Mao 12 de 
Forais Antigos, n 3, f. 3.
269 Chronica Gothorum, era 1180. Foral de Germanello, no Livro Preto, f. 
222.
270 Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 2, c. 74.
271 A 4 de deciembre del 1143 en donacin de la infanta D. Sancha... que 
tenia esta ciudad (Astorga) el
rey de Portugal por grada dei nuestro; anadiendo que la gobernaba, en nome 
del portugues, Fernando.173
por essa tenncia seu vassalo. No  menos provvel que, ainda como rei de 
Portugal,
ficasse numa espcie de dependncia poltica de Afonso VII, o imperador das
Espanhas, ou de  toda a Espanha, como ele se intitulava nos seus 
diplomas. Segura
assim a tranquilidade dos dois estados, Afonso I voltou aos prprios domnios, 
deixando
por governador de Astorga o seu alferes, Fernando Cativo.
A separao de Portugal era, enfim, um facto materialmente consumado e
completo, fosse qual fosse a dependncia nominal em que o seu prncipe 
ficasse do
imperador. Nem as armas nem os tratados tinham podido impedi-lo. Mas a 
concrdia de
Zamora deixara ainda porta franca a futuras disputas sobre a legitimidade do 
facto, e a
concesso de Astorga, como senhorio dependente em tudo da coroa, era 
talvez um lao
armado  ambio de Afonso Henriques. Por esse meio os caracteres de rei de 
Portugal
e de vassalo de Leo, acumulados no mesmo indivduo, tornavam-se mais 
evidentes. Se,
todavia, fora esta a esperana do imperador ou dos seus conselheiros, o 
portugus soube
iludi-la. A interveno de Guido naquele negcio e, at, as insinuaes do 
legado
mostraram-lhe, talvez, o caminho por onde podia ir quebrar o ltimo e tnue fio 
que o
prendia ao senhor de toda a Espanha.  indubitvel que as instituies da 
monarquia de
que Portugal fizera at ento parte contradiziam a sua separao perfeita e 
absoluta: era,
portanto, necessrio anul-las por uma jurisprudncia superior a elas. O povo a 
cuja
frente Afonso I se achava no tinha, nem podia ter, um direito pblico diferente 
do
leons: este era o mesmo dos visigodos, segundo o qual a existncia poltica 
do rei
dependia em rigor da eleio nacional 272 ; e, na verdade, havia muitos anos 
que o jovem
prncipe recebia dos seus sbditos o ttulo de rei, posto que nenhum acto nos 
reste de
uma eleio regular. Mas isto no era bastante para destruir as leis gticas que 
se
opunham  desmembrao da monarquia, apesar de alguns abusos anteriores 
273 . Assim,
com um direito poltico assaz disputvel, numa poca em que a fora resolvia 
mais que
nunca a sorte dos povos e dos imperantes e sendo possvel, ou antes provvel, 
que,
renovada a luta da independncia, Portugal, ainda em dbil infncia, viesse ou 
cedo ou
tarde a sucumbir, como sucedera  Navarra, s colocando o seu trono  
sombra do slio
pontifcio Afonso Henriques podia torn-lo slido e estvel.  supremacia que 
em geral
o sumo pastor exercia sobre todas as monarquias crists associava-se a ideia 
de que na
Espanha tinha a s romana um domnio particular e imediato 274 , e por isso, 
uma vez que
ela se declarasse protectora do novo estado, a existncia individual deste 
estribava-se
numa jurisprudncia poltica superior s mesmas instituies visigticas.
Desde o X sculo, e ainda mais desde o tempo de Gregrio VII, a mxima de 
que
do papa derivava de certo modo a legitimidade e o poder dos prncipes 
temporais havia-se
dilatado e estabelecido como um princpio de direito pblico, que chegou ao 
auge do
seu predomnio no pontificado de Inocncio III. Era o papado, para nos 
servirmos .da
frase de um profundo e por vezes eloquente defensor de semelhante ordem de 
coisas
naqueles tempos 275 , uma espcie de ditadura tribuncia; porque, recaindo a 
sua aco
sobre os ferozes e brutais dominadores da Europa, ela no podia deixar de ser 
protectora
dos pequenos e desvalidos. A influncia religiosa do pontfice, numa poca
principalmente caracterizada pela associao da crena viva com a soltura dos
Captivo, etc., Flores, Espaa Sagrada, T. 16, p. 206. Sobre a narrativa deste e 
dos subsequentes
pargrafos veja-se a nota XIX no fim do volume.
272 Marina, Ensayo Histrico Crtico sobre la Antigua Legislacin, pargrafos 
66 e ss.
273 Id., ibid.
274 Non latere vobis credimus regnum Hispaniae ab antiquo juris S. Petri 
fuisset, et adhuc... num
mortalium sed soli apostolicae sedi ex aequo pertinere. Regnum Hispaniae ex 
antiquis constitutionibus
beato Petro et S. Rom. Ecclesiae in jus proprietatem esse traditum, Gregrio 
VII, epstolas 1 e VII, apud
Aguirre, Colectnea Max. Concilior. Hisp., T. 4, pp. 438 e 442.
275 Gioberti, Del Primato Morale e Civile degli Italiani, T. 1, p. 245 (edio de 
1843)..174
costumes, vinha a ser uma poderosa alavanca para fazer vacilar os tronos mais 
firmes e
ao mesmo tempo uma coluna de bronze a que se encostavam os mais 
vacilantes. Sem
sistema fixo, os soberanos de ento procuravam ajudar-se da fora moral do 
papa nas
suas questes de ambio, e obtinham esse perigoso auxlio  custa de 
concesses que
iam consolidando a poltica invarivel de Roma em tornar realidade prtica as 
doutrinas
da ditadura universal. Repeliam eles algumas vezes a ideia de que o papa 
fosse o
dispensador das coroas; mas esses mesmos que numa ou noutra conjuntura 
recusavam a
jurisdio eminente da Igreja, levados da necessidade ou da cobia, da a 
pouco a
reconheciam, invocando-a por interesse prprio. Em tempo oportuno teremos 
de tratar
especialmente das opinies que nesses tempos vogavam a semelhante 
respeito e das
suas consequncias. Aqui ser suficiente advertir que pelo meado do sculo 
XII a teoria
da ditadura dos papas adquiria cada vez mais fora, e os estados que se 
formavam de
novo, ou as dinastias recentes que as revolues substituam as antigas, 
procuravam
legitimar a sua existncia poltica pela confirmao do sucessor de S. Pedro, 
esquecen-do-
se do preo por que haviam de comprar no futuro essa sano do chefe visvel 
da
Igreja 276 .
Partindo do pensamento teocrtico predominante na cristandade, Afonso
Henriques, apenas assentada a paz de Zamora, tratou de iludir as 
consequncias dela
que lhe podiam ser de futuro desfavorveis, apelando para a doutrina de 
Gregrio VII e
reconhecendo que ao pontfice pertencia o sumo imprio dos estados cristos 
da
Pennsula. Este reconhecimento f-lo nas mos de Guido, ou anteriormente  
partida do
legado, nos fins de Novembro de 1143 para presidir ao snodo de Gerona 277 , 
ou depois
4isso, supondo que ele veio a Portugal antes de regressar para Roma. Numa 
carta
dirigida ao papa, o novo monarca declarava qual era a situao em que se 
colocara
relativamente  s apostlica em virtude da homenagem que fizera, e oferecia 
o seu
reino  Igreja romana pagando o censo anual de quatro onas de ouro. As 
condies
desta homenagem eram que os seus sucessores contribuiriam sempre com 
igual quantia
e que ele rei, como vassalo (miles) de So Pedro e do pontfice, no s em 
tudo o que
pessoalmente lhe tocasse, mas tambm naquilo que dissesse respeito ao seu 
pas e 
honra e dignidade do mesmo pas, achasse auxlio e amparo na Santa S, no 
reco-nhecendo
domnio algum eminente, eclesistico ou secular, que no fosse o de Roma
na pessoa do seu legado 278 .
A declarao de Afonso I, escrita em Dezembro de 1143, era dirigida a 
Inocncio
II; mas havia mais de um ms que este falecera e fora substitudo por Celestino 
II. O
governo do novo papa foi demasiado curto, e a carta do rei de Portugal ou no 
lhe
chegou s mos, ou os negcios da Frana e da Siclia, que especialmente 
mereceram a
ateno de Celestino, impediram durante os cinco meses do seu pontificado 
uma
resposta quela no diremos se pretenso, se oferta. O sucessor, porm, de 
Celestino,
Lcio II, elevado ao slio pontifcio em Maro de 1144, respondeu ao prncipe
portugus no princpio de Maio, louvando-o pela resoluo tomada de fazer 
homenagem
 s apostlica da Terra cujo regimento Deus lhe confiara. Pelo arcebispo de 
Braga, que
nessa conjuntura se achava em Roma, e, talvez, por novas cartas, que no 
chegaram at
ns, Afonso Henriques tinha revalidado a promessa do censo perptuo e pedira 
desculpa
276 Acerca da supremacia temporal do papa nesta poca veja-se Hallam, 
Europe zn the Middie Ages, c. VI,
in medio; Eichhorn, Deutsche St. und Rechts Geschichte, B. II, pargrafo 231; 
Raumer, Geschichte der
Hobenstauffen, B. VI, S. 112 e ss. (2. edio).
277 Aguirre, T. 5, p. 57.
278 Ex Regesto de Inocncio IV, p. 364, autntico exemplar (no Arquivo 
Nacional); Baluzio, Miscelnea,
Vol. 2, p. 220; Viterbo, Elucidrio, T. 1, p. 378; Brando, Monarquia Lusitana, P. 
3, L. 10, c. 10;
Aguirre, T. 5, p. 61..175
de no ir  capital do orbe catlico fazer a oferecida homenagem, acto que, 
segundo os
usos do tempo, devia ser pessoalmente celebrado. Desta irregularidade o 
absolvia Lcio
II na sua resposta, atentas as ocupaes do governo e os cuidados da guerra 
com os
infiis, que tolhiam ao prncipe tentar uma to longa viagem. Assim, mediante o 
censo
prometido e por aquele testemunho de obedincia e submisso, Lcio, na 
qualidade de
sumo pastor, lhe prometeu para ele e seus sucessores, como herdeiros do 
prncipe dos
apstolos, bnos e proteco material e moral, com o que, fortes contra os 
inimigos
visveis e invisveis, resistissem aos seus adversrios e obtivessem na morte a
recompensa da vida eterna 279 .
Apesar da linguagem afectuosa que predominava na resposta do pontfice, 
dava-se
nela uma circunstncias que de certo modo devia tornar menos valiosas as 
promessas
to largamente liberalizadas. Afonso I era rei pela vontade dos sbditos e pela
concesso do prprio imperador das Espanhas, que por esse ttulo o 
designava. Portugal
era, portanto, um reino, embora o quisessem considerar como dependente da 
coroa
leonesa. Lcio II, porm, no endereo da carta tratava o jovem monarca por 
dux
portugallensis, o que, no rigor da lngua latina, significava o principal cabea, o 
chefe
de Portugal, designao vaga que admitia diversas interpretaes, esquivando-
se ao
mesmo tempo a intitular o pas reino, usando do nome terra em relao aos 
domnios
de Afonso I, posto que este na carta de vassalagem se intitulasse rei e 
qualificasse
reino esses domnios que fizera censuais ao papa.
Bastava uma circunstncia tal para mudar o aspecto do negcio. Aceita pela s
apostlica a homenagem da coroa portuguesa, os ltimos vestgios da 
dependncia para
com Leo desapareciam de todo, mas o ttulo de rei tornava-se duvidoso para 
Afonso
Henriques. A separao de Portugal estava concluda e legitimada; no assim 
a questo
da monarquia. Sbdito do prncipe da Igreja, a este pertencia confirmar-lhe a 
dignidade
real. Era sobre tal matria que desde ento deviam versar as negociaes com 
Roma e
sobre que provavelmente versaram at o tempo de Alexandre III, que afinal 
reconheceu
de modo explcito essa dignidade na dinastia de Henrique, o Borgonhs.
Parece que a notcia das relaes especiais que se estabeleciam entre 
Portugal e o
papa no transpirou durante algum tempo e que este negcio foi conduzido 
com
discrio e segredo; mas, enfim, Afonso VII chegou a saber o que se forjava. 
Acaso ele
chamara o rei portugus para o seguir  conquista de Almeria, a que assistiram 
todos os
prncipes e senhores cristos da Pennsula exceptuando Afonso I, e este se 
negou a ser-vi-
lo, fazendo ento valer a homenagem que tributara ao pontfice e os privilgios 
que
alcanara de Roma. As memrias contemporneas autorizam a nossa 
conjectura 280 .
Lcio II vivera apenas um ano, e Eugnio III lhe sucedera em Fevereiro de 
1145. A este
pontfice dirigiu o imperador uma carta que no chegou at ns, mas cujo 
contedo se
depreende da resposta de Eugnio. Tinha ela por objecto principal duas 
questes
diversas, uma eclesistica, outra secular, mas ambas vinham a cifrar-se na da
independncia de Portugal. Para conhecermos a razo por que Afonso VII as 
tratava na
sua carta conjuntamente e com igual interesse, e para entendermos como a 
questo
eclesistica, na aparncia absolutamente estranha  poltica, se prendia com 
ela, 
necessrio que antecipemos aqui resumidamente alguns dos factos que 
havemos de
tratar com mais individuao quando chegarmos a estudar a histria do clero 
nesta
poca, da qual  um dos mais curiosos episdios a luta .entre Os metropolitas 
de Toledo
e de Braga.
Desde o sculo VII, no tempo dos godos, o bispo de Toledo, isto , da cidade
cabea da monarquia, tinha obtido uma espcie de superioridade sobre os das 
outras
279 Id., loc. Cit.
280 Nota XX no fim do volume..176
metrpoles, por motivos de disciplina da Igreja nacional nas suas relaes com 
o poder
civil. Enquanto os rabes dominaram na maior parte da Pennsula, o prelado de
Crdova, sede do governo sarraceno, teve em boa parte essa espcie de 
supremacia,
que, como a de todos os primados de diferentes regies, nasceu de causas 
pura.. mente
polticas. Restaurada Toledo e convertida em corte da nova monarquia gtica, 
bem
como o fora da antiga, Bernardo, seu primeiro arcebispo, obteve de Urbano II o 
ttulo e
a dignidade de primaz das Espanhas, em virtude das anteriores preeminncias 
de que
esta se gozara 281 . Por algum tempo Braga aceitou o facto sem disputar a 
validade
daquela primazia. O primeiro arcebispo bracarense depois de restaurada esta 
metrpole
foi Giraldo, que era cliente de Bernardo e que por consequncia no repugnou 
 ordem
hierrquica ento estabelecida. Seguiram-se-lhe trs homens de carcter 
violento, que
sucessivamente obtiveram a s arquiepiscopal de Braga  Maurcio Burdino, 
Paio Men-des,
Joo Peculiar. As resistncias destes trs prelados  autoridade que sobre eles
pretendiam exercer os arcebispos de Toledo, ou como primazes ou como 
legados do
papa, foram cada vez mais enrgicas, ao passo que a s toledana mais 
vivamente insistia
em exigir deles obedincia. As fases daquela larga contestao 
acompanharam as do
estabelecimento da independncia de Portugal. Ao passo que a 
desmembrao deste
pas se caracterizava mais e mais, exageravam-se as pretenses de primazia 
da parte de
Toledo. Eram dois factos acidentalmente paralelos? No o cremos. Tinham 
mtua
correlao: deviam, pelo menos, t-la. Com a influncia imensa que o alto clero
exercitava moralmente, como tal e como classe ou ordem do Estado, a 
sujeio de todos
os prelados a um s indivduo, que fosse, por assim dizer, uma imagem do 
pontfice,
significava indirectamente a sujeio ao prncipe cuja corte esse chefe supremo 
seguia.
Ajunte-se a isto a confuso que reinava naquela poca entre as assembleias 
eclesisticas
ou conclios provinciais e os parlamentos ou cortes, promulgando-se nos 
conclios leis
puramente civis, revestidas por isso de uma sano religiosa, a qual lhes dava 
fora e
autoridade nas dioceses dos bispos que intervinham no acto. Reconhecida a 
supremacia
do prelado toledano, ele tinha o direito de convocar todos os da Pennsula a 
essas
assembleias, onde, portanto, se legislava para estados alis politicamente 
divididos.
Estas e outras razes que seria por demais enumerar explicam a carta de 
Afonso
VII dirigida a Eugnio III pelos anos de 1147 ou 1148 282 , e a resposta deste 
papa, que
nos foi conservada. Queixava-se o imperador de que o pontfice lhe quisesse 
diminuir o
senhorio e a dignidade e quebrar os foros da monarquia, e de que tivesse 
aceitado
algumas coisas de Afonso Henriques e concedido outras que este pretendera, 
de modo
que os direitos da coroa leonesa eram lesados, ou antes destrudos, com uma 
injustia
no transitria, mas perptua. Queixava-se tambm de que o arcebispo de 
Braga no
reconhecesse a primazia de Toledo estabelecida por Urbano II e confirmada 
por todos
os seus sucessores, sem excluir o prprio Eugnio 283 .
Tais eram os agravos de Afonso VII. A resposta  redigida com a astcia 
ordinria
da chancelaria romana. Aludindo rapidamente s queixas sobre a aceitao de 
censo e
sobre as promessas de proteco contra quem quer que pretendesse dominar 
em
281 Flores, Espaa Sagrada, T. 4, pp. 237 e ss.; Masdeu, Historia Crtica de 
Espaa, T. 11, pp. 149 e ss.,
T. 13, pp. 288 e ss.
282 O conclio remense foi celebrado em Maro de 1148, e a ele se alude na 
carta de Eugnio III de um
modo que indica ter sido escrita nessa conjuntura: Quia vero episcopus et 
abbates regni tui ad
vocationem nostram, tanquam devotus et humilis filius, remensi interesse 
concilio voluisti..
283 Neque... nobis fuit quandoque voluntas ut honorem vel dignitateni tuam, 
seu justitiani regni tibi a
Domino commissi minuere in aliquo... Dignum est igitur, de caetero, ut a 
querimonia tua desistas: in eo
videlicet quod a portugalensium duce nos aliquid recepisse, vel ei etiam 
concessisse unde jura regni tui
debeant imminui, vel auferri vel perpetuo injuria irrogari, Eugnio III, epstola 
74, apud Mansi, T. 21,
p. 672..177
Portugal, ao que,  evidente, se referia o imperador, Eugnio, que 
provavelmente
renovara as promessas do seu antecessor Lcio II, nega o facto de um modo 
ambguo,
envolvendo a sua obscura negativa numa torrente de expresses vagas de 
carinho e
afeio. Passando depois a tratar de outros objectos, procura dar satisfao ao 
monarca
ofendido  custa do arcebispo de Braga. Neste ponto Eugnio abandona o 
estilo
luxurio, as longas frases que se arrastam como a serpente, e , enfim, claro e 
conciso.
Os seus predecessores mandaram que os metropolitas bracarenses 
obedecessem aos
toledanos: ele mandou o mesmo, e os seus preceitos sero executados. Joo 
Peculiar 
oferecido por vtima expiatria da homenagem feita pelo prncipe portugus e 
aceita
pela corte de Roma. O papa mostrou-se, de feito, inexorvel nesta matria, e o 
prelado
de Braga, suspenso do ofcio pastoral, debalde foi advogar a sua causa 
perante Eugnio,
que, para lisonjear o imperador, no s constrangeu a ele, mas tambm a 
todos os
arcebispos e bispos da Pennsula a reconhecerem a primazia de Toledo 284 .
Assim terminou a larga contenda da separao de Portugal da monarquia 
leonesa:
ao menos no nos restam monumentos de nenhuma outra tentativa do 
imperador para
recobrar a mnima autoridade directa nesta parte da Espanha. Ao mesmo 
tempo Afonso
I parece abandonar para sempre a ideia de dilatar os seus estados ao norte e 
nascente das
fronteiras portuguesas, e nem sequer se encontram vestgios de que 
conservasse o
domnio de Astorga, do qual, alis,  naturalssimo o privasse Afonso VII logo 
que
soube das negociaes que ele entabulara com Roma. Desde este momento 
toda a
actividade e esprito conquistador do prncipe portugus voltam-se para o Meio-
Dia: 
sobre os territrios sarracenos que ele vai disputar ao primo os limites dos 
prprios
estados. Cada um de seu lado,  porfia, eles vibram as achas de armas sobre 
as arrancas
e os troncos da rvore carcomida do islamismo espanhol; e a rvore geme 
estroncando-se
debaixo dos golpes daqueles braos robustos.  uma grande mudana que por 
esta
poca se opera no carcter da nossa histria poltica.  luta da desmembrao 
vai
suceder a de assimilao. Portugal est constitudo. O sangue derramado em 
muitos
combates, os estragos de sucessivas invases e quase trinta anos de energia, 
de
perseverana e de destreza tal foi o preo por que nossos avs compraram a 
sua
independncia. Os historiadores tm pretendido assinalar uma data exacta, um 
nico
ponto no correr dos tempos em que ela nascesse e plenamente se realizasse, 
como se a
natureza das coisas no repugnasse a isso e os factos sucessivos que 
compem este
facto, mltiplo, complexo e por consequncia lento em completar-se, no lhes
bradassem bem alto que semelhante pensamento era absurdo. Preocupados 
por aquela
ideia no exame dos sucessos parciais, colocaram a uma luz falsa a maior parte 
deles. E
assim que a histria de Portugal no seu bero, amplamente recheada de 
fbulas
inverosmeis e insulsas, est, acaso, transfigurada pela m apreciao dos
acontecimentos verdadeiros ainda mais do que por elas. As fbulas, versando
ordinariamente sobre particularidades, fogem em parte da memria do leitor: o 
que fica
estampado na sua alma so os lineamentos dos factos capitais da histria. O 
valor
mentido destes, a sua cor legtima alterada, eis o que induz mais que tudo em 
erro grave,
e, por via de regra, os erros mais graves so os de mais larga vida.
Antes de comearmos a narrativa das empresas guerreiras de Afonso I contra 
os
sarracenos, cumpre que volvamos os olhos para o que se passava nos estados
muulmanos que iam ser teatro dessas empresas. Importantes acontecimentos
coincidiam a com os actos que, assegurando-a definitivamente, consumavam 
a
separao de Portugal do resto da Espanha crist. Esses acontecimentos 
facilitavam de
extraordinrio modo as novas tentativas que ia fazer o esforado rei dos 
portugueses,
284 Id., ibid., epstola 75 e ss..178
constrangido no menos da necessidade poltica do que da ambio. 
Examinados
superficialmente, vistos unicamente por um lado, no tm fcil explicao os 
repetidos
triunfos e rpidas conquistas de Afonso I, desse homem que, senhor de uma 
provncia
pequena, pobre e pouco povoada, quase com os nicos recursos dela sujeitou 
ao seu
domnio a maior poro do Gharb, territrio abundante de populao, 
enriquecido pela
indstria, pela agricultura e pelo comrcio, coberto de cidades e povoaes 
florescentes
e defendido assim pelos naturais, como pelos sarracenos da frica. Este 
fenmeno
explicavam-no os nossos bons e simples cronistas ou por milagres de valor 
pessoal ou
por milagres do cu, solues, na verdade, to fceis de dar quanto dificultosas 
de
receber. Desaparece, porm, o maravilhoso desde que se contempla o triste 
espectculo
da gangrena que devorava poltica e moralmente a sociedade muulmana da 
Espanha.
Sem recusar aos guerreiros da cruz a audcia e o entusiasmo prprios 
daqueles
vigorosos tempos, as suas faanhas reduzem-se s propores ordinrias 
quando se
confrontam com a situao dos que eles venceram e subjugaram. Longe 
tambm de
negar por este modo a interveno da Providncia nos destinos do gnero 
humano, s a
acharemos motivos para admirar as leis de ordem moral que regem o universo, 
no
menos imutveis do que as leis fsicas que presidem  existncia material dele. 
Os
maometanos da Pennsula oferecem-nos pelo meado do sculo XII mais um 
desses
exemplos, ao mesmo tempo terrveis e salutares, de que abunda a histria. 
Naquele pas,
seja qual for o seu grau de civilizao e poderio, onde falece o amor da ptria, 
onde os
vcios mais hediondos vivem  luz do Sol, onde a todas as ambies  lcito 
pretender e
esperar tudo, onde a lei, atirada para o charco das ruas pelo p desdenhoso 
dos grandes,
vai l servir de joguete s multides desenfreadas, onde a liberdade do 
homem, a
majestade dos prncipes e as virtudes da famlia se converteram em trs 
grandes
mentiras, h a uma nao que vai morrer. A Providncia, que o previu, suscita 
ento
outro povo que venha envolver aquele cadver no sudrio dos mortos. Pobre, 
grosseiro,
no numeroso, que importa isso? Para pregar as tbuas de um atade 
qualquer pequena
fora basta.
Como bem observa um historiador moderno, a Espanha muulmana 
representava
no meado do sculo XII uma imagem do Baixo Imprio, inabilitada igualmente 
para se
defender e para se governar 285 . O quadro que do estado das coisas pblicas 
naquele
tempo nos deixaram os escritores rabes, ou contemporneos ou mais 
prximos, , na
verdade, lastimoso. A runa do pas, aos olhos das pessoas prudentes, parecia 
inevitvel,
porque a decadncia moral era extrema. Os homens de probidade e cincia 
viviam
desprezados e esquecidos, e os que se apoderavam das magistraturas 
pblicas ajuntavam
 cobia e ao orgulho completa incapacidade. No meio de guerras civis, feitas 
sem
entusiasmo, sem glria e s por causas abjectas, ao passo que a agricultura se 
definhava
e as artes esmoreciam, o povo deixava aos ambiciosos tratarem das armas, e 
os homens
de guerra habituavam-se a combater mais com os enredos do que com o ferro. 
Bastava
s o nome dos inimigos (os cristos) para fazer enfiar de susto os muulmanos. 
A paz
desaparecera completamente, e ningum podia contar com a prpria 
segurana. Corria-se
evidentemente para a dissoluo da sociedade atravs das discrdias 
intestinas e, por
assim dizer, no pas do Andaluz eram j tantos os potentados quantas as 
povoaes que
havia nele 286 .
Vimos antes como o prncipe Taxfin fora chamado  frica por Ali. O renome
militar do capito sarraceno e as tropas de Espanha que levava consigo eram a 
ltima
esperana do imprio lantunense. A guerra com os almadas continuou sem 
interrupo;
285 Rosseeuw Saint-Hilaire, Histoire dEspagne, T. 3, p. 461 (edio de 1844).
286 Ibn Abdul-Wahed, apud Casiri, Biblioteca Arabico-Hispana, T. 1, p. 215; 
Abu-Bekr, Vestis Serica,
ibid, T. 2, p. 53; Ibn Khaldun, cit. por Al-Makkari (verso de Gayangos), B. 8, c. 
2..179
mas a sorte das armas nunca melhorou para os almorvidas, e Ali, consumido 
de
desgostos, faleceu em Marrocos (1143), deixando ao filho a triste herana de 
um trono
que desabava. Como general de seu pai e como imperador, Taxfin perdera o 
prestgio da
passada reputao e a boa ,estrela que na Espanha o guiara. Os destroos 
sucediam aos
destroos, sem que, apesar da sua actividade e esforo, pudesse uma s vez 
melhorar-se.
Vencido numa sanguinolenta batalha junto de Tlemecen, acolheu-se a esta 
cidade, onde
se fortificou. Ali o teve cercado o prncipe dos almadas, Abdul-Mumen, e no 
podendo
assenhorear-se da povoao que Taxfin defendia valorosamente, marchou 
contra Oro,
em socorro da qual foi logo o imperador almorvida. Por muito tempo as duas 
seitas
combateram encarniadamente sobre a posse daquele lugar, que o amir de 
Marrocos
considerava como um dos mais importantes; porque os seus desgnios eram 
passar da
para a Espanha, no caso de se ver inteiramente perdido na frica, salvando 
assim ao
menos os seus estados da Europa. Nestes combates as foras dos lantunitas 
diminuam,
e Taxfin via desvanecer-se cada vez mais as esperanas de remdio. 
Resolveu-se, enfim,
a partir. Certa noite saiu de Oro sozinho, dirigindo-se a uma das fortalezas do 
porto,
junto da qual tinha os navios aparelhados para a passagem. Eram profundas 
as trevas, e
ele seguia a cavalo as ribas do mar fragosas e altas. No meio da escurido 
errou o
caminho e, precipitando-se dos barrocais, pereceu miseravelmente (1145). 
Este
acontecimento foi um golpe mortal para os almorvidas. Ibrahim Abu Isak, 
irmo ou
antes filho, como outros dizem, de Taxfin, aclamado em Marrocos por sucessor 
do pai,
brevemente viu reduzidos os seus domnios ao mbito da capital. Sitiada, 
enfim, esta
por Abdul-Mumen, caiu nas mos dos almadas (1147), e Ibrahim foi 
barbaramente
decapitado pelos vencedores, acabando nele a dinastia do clebre Yusuf, o 
feliz e
valoroso mulo de Afonso VI 287 .
Enquanto estes sucessos se passavam na frica, via a Espanha muulmana
representarem-se iguais cenas, posto que em mais resumido teatro. Ibn 
Zakaria Ibn
Ghaniyah era nesta poca o chefe supremo do resto das tropas almorvidas 
que
guarneciam o Andaluz. Os muulmanos espanhis davam desde a partida de 
Taxfin
visveis sinais de quererem sacudir o jugo dos lantunitas. Os sintomas de dio 
profundo
contra aqueles que, vindos como salvadores e amigos, se haviam convertido 
em
senhores tirnicos surgiam por toda a parte, e a fraqueza dos ministros 
pblicos, que no
tinham, como dentro de pouco se experimentou, os meios necessrios da 
represso para
com os indgenas, comeava a ser de todos conhecida. A primeira centelha de
turbulncia devia produzir um grande incndio, e foi o que sucedeu 288 .
Dissemos anteriormente que Seddaray (o qual tinha sido vizir de vora pelos
almorvidas) se apoderara de uma parte do Gharb, ao mesmo tempo que Ibn 
Kasi se
fazia senhor de outra. Fora isto o comeo da revoluo que estava j no nimo 
de todos.
Ligados entre si, os dois chefes invadiram o distrito de Sevilha, onde tomaram 
vrios
lugares fortes, chegando a sua ousadia a ponto de entrarem num dos 
arrabaldes desta
cidade. Os voluntrios indgenas, movidos da m vontade geral contra os 
almorvidas,
corriam a alistar-se debaixo das bandeiras de Ibn Kasi. Evidentemente Ibn 
Ghaniyah,
cuja actividade e gnio militar os acontecimentos posteriores provaram, deixara
progredir o levantamento do Gharb, porque se julgara inabilitado para tentar 
reprimi-lo
com certeza de triunfar; alis, fora inexplicvel a sua inaco. Sabendo, porm, 
em
Crdova, onde residia, dos progressos dos amotinados, conheceu que era 
necessrio
arriscar tudo para atalhar o mal, e marchou para aquelas partes com as foras 
que pde
ajuntar. No ousaram os inimigos esper-lo e recuaram para o Gharb; mas Ibn
Ghaniyah, tendo-os alcanado, desbaratou-os e foi siti-los em Niebla, aonde 
se haviam
287 Conde, P. 3, c. 36 e 37; Abdel-Halim (verso de Moura), pp. 206 e ss.
288 Conde, P. 3, c. 34; Al-Makkari, 13. 8, c. 2..180
acolhido. No durou muito tempo o cerco. Livre da guarnio que a sopeava, 
Crdova
aievantou-se, e Valncia seguiu o seu exemplo. A revoluo propagou-se logo 
por
Mrcia, Almeria, Mlaga e outras cidades, de modo que Ibn Ghaniyah 
abandonou a
ideia de submeter o Gharb para acudir ao mais essencial. No seguiremos os 
sucessos
desta guerra sanguinolenta que se prolongou durante os ltimos meses de 
1144 e
prosseguiu pelos anos seguintes, seno no que tocar aos distritos ocidentais, 
que, em
consequncia daquelas discrdias, vieram a cair nas mos de Afonso 
Henriques 289 .
Estes distritos estavam irremediavelmente perdidos para os lantunitas. Ibn Kasi
fizera do forte castelo de Mrtola o centro dos seus estados, enquanto 
Seddaray fazia o
mesmo em Badajoz. Ornar Ibn Al-Mundhir, que fora um dos primeiros e mais 
ardentes
partidrios de Ibn Kasi, recebera deste o governo de Silves, sua ptria, com 
uma espcie
de independncia. Ibn Ghaniyah, que tratava por todos os modos de amparar o
decadente domnio almorvida, buscou meios de introduzir o cime entre estes 
trs
chefes que haviam sido os principais motores da guerra civil. Breve se lhe 
ofereceu
ocasio para realizar o intento, o qual devia dar um resultado que ele no 
previra. A
revoluo do Gharb tinha-se estribado em dois slidos fundamentos, um 
poltico e outro
religioso. Era o primeiro o dio concebido pelos indgenas contra os lantunitas: 
era o se-gundo,
que Ibn Kasi comeara a sua ambiciosa carreira seguindo as pisadas de Al-
Mahdi,
o que fundara na frica a seita dos almadas. Como ele, Ibn Kasi estudara as
doutrinas de Al-Ghazaly e como ele viera propag-las entre os seus naturais, 
onde
encontrou muitos outros do mesmo sentir 290 . Por este meio alcanou a 
influncia
necessria para dirigir a reaco poltica. Sabendo da morte de Taxfin em 
frica,
sucesso que excitou ainda mais, como era natural, o incndio da revoluo na 
Pennsula,
Ibn Kasi, unido pela identidade de crena com os almadas, enviou 
mensageiros a
Abdul-Mumen, oferecendo-lhe obedincia. O prncipe africano nomeou-o ento 
vli do
Gharb, o que era habilit-lo para oprimir de futuro aqueles que o tinham 
ajudado a
engrandecer. Este negcio, segundo parece, fora tratado em segredo; mas Ibn 
Ghaniyah,
que dele tivera notcia, aproveitou o ensejo para semear a discrdia entre os 
trs cabeas
da revoluo, fazendo persuadir a Seddaray e a Ornar, coisa alis fcil, que Ibn 
Kasi s
dera este passo para se engrandecer  custa deles, trazendo  Pennsula o 
jugo almada,
mais duro que o dos lantunitas. Surtiu efeito o aviso. Seddaray e Ornar 
buscaram
pretextos para declarar guerra quele que havia, sido seu chefe, e as tropas de 
Badajoz e
de Silves marcharam contra Ibn Kasi 291 .
Estes sucessos passavam em 1145, quando as sanguinolentas dissenses 
entre o
rei de Portugal e o imperador se haviam j trocado, seno em paz sincera, ao 
menos em
combates nos quais a vitria se no disputava com o ferro, mas com as intrigas 
em
Roma e com as queixas e as concesses ao pontfice que anteriormente 
relatmos.
Fortificadas as fronteiras, vendo-se  frente de homens de armas aguerridos 
nas
passadas lutas, Afonso I, cujo pensamento quase exclusivo de toda a vida foi o 
das
guerras e conquistas,. e cujo valor e constncia lhe granjearam entre cristos e
sarracenos a reputao de um dos prncipes do seu tempo mais 
empreendedores e
pertinazes 292 , no devia estar tranquilo enquanto o. estrondo das armas 
retumbava por
todos os ngulos da Pennsula. As turbulncias do Gharb ofereceram-lhe 
brevemente
ensejo para ceder s suas propenses belicosas. Acometido a um tempo por 
Seddaray e
289 Conde P. 3, c. 34, 35, 37 e 38.
290 Id., P. 3, c. 34, in princip.
291 Ibn Khaldun, em Gayangos (verso de Al-Makkari), Vol. 2, Apndice D, p. 
50; Conde, P. 3, c. 88.
292 Hic Adelphonsus fuit strenuus et pertinax in agendis, Rodrigo de Toledo, 
de Rebus Hispaniae, L. 7,
c. 6; Alfonso was one of the most entreprtssng among the christian Kings of 
these calamitous times,
Ibn Sahibi s-Salat, citado por Al-Makkari, Vol. 2, p. 522..181
por Ornar, o vli de Mrtola lanou-se nos braos do tirano Ibn Errik, senhor de
Coimbra, como os sarracenos denominavam o guerreiro prncipe portugus. 
Alm das
inclinaes militares deste, um motivo recente de vingana o impelia a intervir 
nestas
discrdias em que o sangue dos muulmanos devia correr em torrentes por 
mo dos seus
prprios correligionrios. Como as algaras ou correrias mtuas das duas raas 
inimigas
se repetiam regularmente todas as primaveras, no ano antecedente (1144) o 
vizir ou
caide de Santarm, Abu Zakaria, um dos mais valorosos chefes dos 
sarracenos, invadira
as fronteiras crists e aproximara-se de Soure. Safram a encontr-lo os 
cavaleiros
templrios, mas foram desbaratados, ficando a maior parte deles cativos, e, 
satisfeito
com o feliz resultado da algara, Abu Zakaria tinha-se recolhido ao seu forte 
castelo de
Santarm 293 .
Aceitando, pois, as propostas de Ibn Kasi, Afonso passou o Tejo com as suas
tropas e penetrou no distrito de Al-Kassr. Era um grave erro o que a cegueira 
das
paixes polticas levava os sarracenos a cometerem, aliando-se com os 
cristos para se
melhorarem contra os seus adversrios nas discrdias civis. Excelentes aliados 
para a
guerra activa, eram remissos e as mais das vezes absolutamente inteis para a 
defensiva.
Chamava-os o dio: no os retinha o afecto. Ibn Kasi foi um novo exemplo da 
verdade
desse facto que nascia antes da natureza das coisas do que de propenses 
ingnuas de
deslealdade. O rei de Portugal ajuntou-se com o senhor de Mrtola, e ambos 
penetraram
pelos distritos de Beja e de Mrida. A passagem dos cristos ficou assinalada 
sobre
aquele solo, empapado de sangue, por inumerveis estragos. Saindo-lhes, 
porm, ao
encontro Seddaray e AJ-Mundhir, houve entre uns e outros grande nmero de
escaramuas, nas quais a vantagem final parece ter ficado aos rgulos de 
Badajoz e de
Silves. Entretanto Ibn Kasi, esse homem que subira ao poder pela sua audcia 
e esforo,
achara em Afonso Henriques um nimo ainda mais duro e audaz que o seu. 
Temia-o ou,
para nos servirmos da pinturesca expresso dos historiadores rabes, era 
como um servo
que s movia as pestanas quando Afonso lho ordenava 294 . Os sarracenos 
toleravam mal
esta subservincia do seu chefe ao prncipe infiel. Ou que, em consequncia 
do desgosto
geral, Ibn Kasi julgasse dever despedir o seu auxiliador, ou que este, com o 
mesmo ou
diverso pretexto, quisesse retirar-se,  certo que as tropas crists 
abandonaram o senhor
de Mrtola quando a fortuna da guerra se lhe mostrava contrria. Tendo j 
recuado para
o centro dos seus estados e indo buscar refgio nos fortes muros de Mrtola, 
Ibn Kasi
despediu os cristos com ricos presentes. Era tarde para conter, sem os 
soldados de
Afonso, a indignao popular e o mpeto dos inimigos. Os habitantes daquela 
povoao
rebelaram-se, e o chefe sarraceno, tentando debalde defender-se no alcaar, 
caiu
prisioneiro nas mos de Seddaray, a quem os levantados tinham aberto as 
portas.
Conduzido a Beja e lanado num calabouo, deveu a liberdade a Ibn Samail, 
um dos
seus antigos parciais que lhe ficara fiel e que logrou apoderar-se daquela 
cidade. Ibn
Kasi dirigiu-se ento ao Mohgreb para invocar o socorro dos almadas, 
incitando-os a
invadirem a Espanha e a restiturem-no ao valiado do Gharb, cargo em que 
pedira ser
confirmado por Abdul-Mumen e de que lhe fizera homenagem 295 .
Tal fora o resultado da politica de Ibn Ghaniyah: obtivera os seus fins; mas as
consequncias iam mais longe. As representaes do vli fugitivo no saram 
baldadas.
293 Salvato, Vita S. Martini Sauriensis, pargrafo 11. Que Abu Zakaria 
(Auzecri ou Abzecri) foi o
capito desta entrada deduz-se de serem os cativos levados a Santarm (ibid.). 
Que ele governava aquele
distrito nessa poca v-se da Chronica Gothorum, era 1178, e do relatrio da 
tomada de Santarm, de
cujo valor como fonte histrica adiante se vera a nossa opinio.
294 Se habia con elle como un siervo que movia sus pestanas por 
insinuaciones del otro, Conde, loc. cit.
295 Conde, ibid.; Ibn Khaldun, loc. cit.  a esta campanha de Afonso I no 
Alentejo que alude
provavelmente a Chronica Gothorum (exemplar de Resende) quando diz: 
Rex Portugaliae D.
Alfonsus vehementer eos devastabat, et depraedabatur terram eorum militum 
et ad nihilum redigens..182
Ele chegara  frica justamente na conjuntura em que Abdul-Mumen se tinha
apoderado de Marrocos. O prncipe almada enviou logo para a Espanha uma 
expedio
capitaneada por Berraz Ibn Mohammed Al-Masufi, a qual foi seguida 
imediatamente de
outras duas debaixo do mando de Abu Imram Musa Ibn Said e de Ornar Ibn 
Saleh As-Senhaji.
As tropas de desembarque eram, segundo alguns, trinta mil homens, dos quais
dez mil de cavalaria. Berraz, general daquelas foras, encaminhou-se 
rapidamente para
o Gharb. Xeres, Ronda, Niebla caram uma aps outra em poder dos 
almadas. Mrtola,
aonde eles se dirigiram, no foi acometida, porque j, segundo parece, Ibn Kasi 
se fizera
outra vez senhor dela. O exrcito de Berraz transps ento as serras e 
acometeu Silves,
que levou  escala, entregando-a depois ao vli de Mrtola. De Silves 
retrocedeu para a
provncia de Al-Kassr com o intento de subjugar os estados de Seddaray; mas 
este,
receando sorte igual  de Al-Mundhir, apressou-se a dar obedincia ao general 
almada
e a reconhecer a supremacia de Abdul-Mumen. Berraz, tendo passado os 
ltimos meses
de 1145 em Mrtola, marchou contra Sevilha no princpio do ano seguinte. No 
caminho,
Hisn Al-Kassr e Tablada abriram-lhe as portas, enquanto de toda a parte os 
muulmanos
espanhis corriam a unir-se aos almadas em dio dos almorvidas. Investida 
Sevilha,
foi tomada  viva fora, e dali prosseguiu Berraz nas suas conquistas 296 .
No meio destas perturbaes e guerras, a provncia mais ocidental do Gharb,
denominada pelos rabes Belatha, a qual, como dissemos, ocupava o territrio 
entre o
Tejo, o oceano e as fronteiras meridionais de Portugal, deixa de figurar, ao 
menos
activamente, na histria dos sarracenos. Abu Zakaria, o governador de 
Santarm,
aparece-nos nas crnicas crists como o ltimo capito ilustre dos muulmanos 
de
Belatha. Era um chefe que se tinha conservado fiel aos almorvidas? 
Reconhecia a
autoridade de Seddaray ou de Ibn Kasi? Eis o que o silncio completo dos 
historiadores
rabes nos no consente resolver. O que de tal silncio, comparado com os 
sucessos que
acima relatmos, parece poder concluir-se  que esta poro do territrio 
muulmano
esquecera, por assim dizer, s parcialidades que combatiam nas duas 
provncias mais
importantes, e sem comparao mais vastas, de Al-Kassr e de Chenchir ou Al-
Faghar. O
estado de completa anarquia a que tinham chegado as coisas do Andaluz, a 
situao
deste pequeno distrito separado pelo Tejo da provncia de Al-Kassr, donde s 
podia ser
socorrido, e sobretudo o carcter do rei de Portugal deviam fazer sentir aos 
sarracenos
destas partes que a hora de serem subjugados pelos cristos no tardaria a 
soar. Os
habitantes de Santarm, de Lisboa e dos outros lugares menos importantes 
estavam na
triste persuaso de que o termo de uma guerra com Ibn Errik, o fero senhor de 
Coimbra,
lhes seria fatal. As devastaes feitas por Afonso I nos domnios de Seddaray 
eram um
bem temeroso exemplo, e, para ao menos arredar por algum tempo a ltima 
runa, os
moradores das povoaes de Belatha, sem exceptuar Santarm e Lisboa, 
fizeram-se
tributrios do prncipe cristo, esperando salvar a troco da fazenda a vida e a 
liberdade
297 .
O rei dos portugueses parecia querer dar, enfim, trguas a tantas lidas no 
remanso
das afeies domsticas. Em 1146 desposou-se com Matilde ou Mafalda 
(Mahaut), filha
do conde de Mauriana e Sabia, Amadeu III 298 . Ignoramos hoje quais fossem 
os
motivos desta escolha, a no serem as relaes que havia entre a casa de 
Mauriana e a
296 Ibn Khaldun e Conde, loc. cit. Seguimos principalmente a narrativa de Ibn 
Khaldun como mais
completa.
297 Homagium ei facientes dabant ei tributum et censum de civitabus et de 
castellis de Santarem et de
Ulixbona et de vicinis suja, Chronica Gothorum.
298 Art de vrifier les dates, Vol. 5, p. 152. A Chronica Gothorum atribui este 
casamento ao ano de
1145, mas nos documentos s comea a figurar a rainha Mafalda desde Julho 
de 1146 (Dissertaes
Cronolgicas, T. 3, P. 1, p. 192.).183
de Borgonha,  qual por seu pai, como sabemos, pertencia Afonso Henriques.
Dominado, todavia, pela ambio das conquistas, o amor de Mafalda no pde 
distra-lo
dos cuidados da poltica ou da guerra. Nesta mesma conjuntura ele tratava das 
suas
pretenses em Roma com Eugnio III 299 e preparava-se para submeter 
inteiramente ao
seu domnio a parte do territrio muulmano  direita do Tejo, conquista que o 
terror do
seu nome e as guerras civis do Andaluz tanto lhe facilitavam.
Santarm era ento uma das principais povoaes de Belatha e o padrasto 
mais de
recear para as fronteiras crists. Dali saam, como temos visto, a maior parte 
das algaras
que iam levar a devastao e a morte at os distritos situados no corao de 
Portugal.
Menos defendida que Lisboa pela arte, era-o mais pela natureza; porque, 
embora no
estivesse cingida de muros como essoutra povoao e os seus habitantes 
vivessem em
grande parte num arrabalde  borda do rio, o castelo que lhe servia de coroa, 
edificado
no cimo da montanha em que estava assentada, era como um ninho de guias 
pendurado
sobre o Tejo 300 . As hortas e vergis rodeavam-na por toda a parte, e a 
fertilidade dos
campos que se dilatam ao sul dela pelas margens amenssimas do rio tinha-se 
por to
subida que se acreditava geralmente no Gharb bastarem quarenta dias para 
neles
nascerem, vegetarem e amadurecerem os cereais 301 . Com estas 
circunstncias, as
tentativas dos cristos para se apoderarem de Santarm, tentativas repetidas 
com melhor
ou pior fortuna desde o tempo dos reis leoneses, eram coisa bem natural. 
Estava, porm,
reservado para Afonso I o hastear naquele inexpugnvel castelo, de uma vez 
para
sempre, o estandarte vitorioso da cruz.
A luta em que andavam envolvidas as duas raas inimigas que habitavam na
Pennsula tinha ndole diversa das guerras do resto da Europa. L, por via de 
regra, ou
eram discrdias entre os monarcas sobre o senhorio de uma provncia, ou duas 
dinastias
que contendiam acerca de um trono, ou, enfim, questes de dependncia entre 
suseranos
e feudatrios: na Espanha, porm, eram duas sociedades e duas religies que 
dis-putavam
uma  outra a existncia, e para as quais a posse ou perdimento da mais
diminuta poro de territrio significava a posse ou perdimento, digamos assim, 
de um
membro, de uma parte da prpria individualidade. Daqui nascia que o sistema 
militar
apresentava nestas partes caracteres especiais. A guerra era essencialmente 
local. As
batalhas campais, posto que disputadas e sanguinolentas quando ocorriam, 
davam-se
raramente. Defesas e cometimentos de castelos, eis o que se repetia, a bem 
dizer,
diariamente; porque em cada montanha, quase em cada outeiro, surgia uma 
fortaleza, s
vezes uma simples torre, cuja conquista importava a sujeio do territrio 
circunvizinho
e que eram sustentadas com tanta firmeza pelos que as defendiam, como 
combatidas
com pertincia pelos que as assaltavam. Assim a arte da guerra consistia 
principalmente
no sistema ofensivo ou defensivo dos assdios. As cenas que teremos de 
descrever da
tomada de algumas cidades importantes mostraro ao leitor quanta energia e 
audcia, de
uma parte, valor e sofrimento, de outra, se tomavam necessrios para este 
combate
incessante de semanas e meses, no s com os homens, mas tambm com os 
elementos.
A solidez e o inacessvel do castelo de Santarm e o grande nmero de 
defensores
que acharia na povoao assentada  sombra dele na margem do rio tinham 
convencido
Afonso I de que os seus recursos militares no eram suficientes para o levar  
escala
vista. Meditava, portanto, no modo de se apoderar dele por algum estratagema. 
Educado
299 Vejam-se as notas XIX e XX.
300 A descrio que fazemos  o nico meio de conciliar a afirmativa de Edrisi 
(Vol. 2, p. 29) de que
Santarm no era cercada de muralhas com o encarecimento das nossas 
memrias coevas sobre a
excessiva fortalera daquele castelo, conciliao que, alias, parece casar-se 
com a topo. grafia da
povoao.
301 Edrisi, ibid..184
no meio dos perigos da guerra, a experincia ajudava o seu engenho natural, 
as suas
irresistveis propenses de conquistador. Como todas as inteligncias 
eminentes, os
grandes capites no alcanam nome glorioso seno por meio das, inspiraes 
sbitas e
fecundas a que chamamos o gnio. O rei dos portugueses teve uma inspirao 
dessas, e
desde ento a conquista do famoso castelo foi irrevogavelmente resolvida 302 .
Existe uma relao da tomada de Santarm, espcie de poema em prosa em 
que
figura o prprio rei narrando as particularidades da empresa. Esta composio 
,
segundo cremos, obra de um monge de Alcobaa. Posto que no haja absoluta 
certeza
de que ela seja um monumento contemporneo,  ao menos quase coeva 303 
. E ainda que
pelo seu estilo fuja das condies de uma narrativa ch e simples, no nos  
lcito omitir
as circunstncias do sucesso a referidas, ao menos aquelas que no parece 
derivarem
das formas poticas que predominam nessa memria. A substncia da 
narrativa do
monge cisterciense  a seguinte:
Afonso I tinha feito trguas com os, sarracenos, facto alis confirmado pelo que
acima dissemos. Um certo Menendo ou Mem Ramires, homem astuto, 
cauteloso e
atrevido, foi enviado a Santarm para examinar qual seria o stio do castelo 
mais
acessvel de noite e qual o atalho mais seguro para chegar ao p dele. Voltou 
Mem
Ramires, depois de ver tudo atentamente, dizendo ser o negcio no s 
possvel, mas,
at, fcil, e gabando-se de que iria adiante de todos erguer o pendo real sobre 
o muro
do castelo e quebrar os ferrolhos das portas por onde os outros entrassem. 
Assinalou
ento o rei o dia em que deviam sair de Coimbra para a empresa: foi uma 
segunda-feira.
Afonso levava consigo os homens de armas de Coimbra, alm de alguns 
cavaleiros
seus, capitaneados por Fernando Feres. Ao segundo dia da marcha um certo 
Martim
Mohab, provavelmente sarraceno renegado ou morabe, partiu com mais dois 
para
intimarem aos de Santarm que as trguas ficavam rotas por trs dias. A 
pequena hoste
havia caminhado para sudoeste, com o fim, talvez, de no despertar suspeitas, 
visto que,
anunciada a quebra da paz, os exploradores sarracenos deviam principalmente 
vigiar a
estrada de Coimbra.
Chegando  serra de Albardos, a cavalgada fez um ngulo para o oriente, 
seguindo
ao longo das serras que se estendem naquela direco, e chegou a Pernes ao 
romper da
alva da sexta-feira. Acamparam. As marchas, pelo menos as ltimas, tinham 
sido feitas
de noite, e a gente que o rei trazia ignorava qual era o alvo da correria, porque 
Afonso
s revelara o seu desgnio a Mem Ramires e ao prior de Santa Cruz, Teotnio 
304 . Em
Pernes, porm, ele lhes patenteou tudo, animando-os com dizer-lhes que tinha
comprados alguns dos vigias do castelo, posto que assim no fosse. A 
tentativa assustou
os cavaleiros, no por si, mas pelo prncipe, que viam oferecido a tamanho 
risco.
Insistiam em que no os acompanhasse; achando-o, porm, inabalvel, 
prepararam-se
para aquele rduo feito. Partindo ao anoitecer, ajuntaram-se os pees e 
cavaleiros a
pouca distncia da povoao ameaada e tomaram por um vale, entre o monte 
Iraz ou
Motiraz e a fonte de Tamarm, assim chamada pela doura das suas guas 
305 . Ia na
frente Mem Ramires como prtico; e, no pressentidos pela povoao 
adormecida,
aproximaram-se dos muros do castelo.
O desenho para saltear aquela fortaleza inexpugnvel tinha sido de antemo
302 Cum enim rex civitatem ipsam novo generi pugnandi aggredi voluisset, 
furtim videlicet, et quasi per
latrocinium, nam aliis bellicis apparatibus nunquam potuit; nam erat propter 
locorum situm impossibile et
propter nimiam fertilitatem populorumque frequentiam, Vita S. Theotonii, 
apud Bolland., Acta
Sanctor. Februarii, T. 3, p. 116.
303 Apndice da Monarquia Lusitana, p. 3, escrito 20. Veja-se a nota XXI no 
fim do volume.
304 Ad virum Dei venies (sc. Theotonium) illi sou consilium detexit, Vita S. 
Theotonii, ubi supra.
305 Fontem qui propter amaras aquas arabice appelatur Athumarmal. 
Tamarm tem a significao que
lhe damos (Moura, Vestgios da Lngua rabe, p. 190)..185
traado pelo rei, que para isso aproveitara as informaes de Ramires. 
Haviam-se feito
dez escadas, a cargo cada uma de doze homens de armas escolhidos, os 
quais, portanto,
somavam cento e vinte. Doze golpes de gente, de dez soldados cada um, 
subiriam assim
sucessivamente ao muro no stio que indicara o espia e que era uma quadrela 
ou lano
onde os sarracenos no costumavam colocar esculcas ou vigias nocturnas. 
Subidos
todos, deviam hastear a signa ou pendo real sobre as ameias, de modo que 
se pudesse
enxergar  luz duvidosa da noite, e depois, descendo do adarve ou andaime da 
muralha
para a corredoura interior, quebrar os ferrolhos das portas por onde entrariam 
os que
ficavam de fora. O que especialmente se recomendava aos cento e vinte que 
tinham de
subir  escala era que naquele primeiro mpeto, enquanto os inimigos estavam
sonolentos e inertes, no perdoassem nem a homens nem a mulheres, nem 
aos velhos
nem s crianas. Os gritos variados dos moribundos, o sangue correndo em 
torrentes,
aquele relampejar incessante dos ferros e o som rouco dos golpes 
indiscriminados
espalhariam tal confuso, terror to profundo, que a defesa se tornaria 
impossvel, e o
castelo seria sem grande custo subjugado.
Tal era o plano; mas o alvitre que ocorrera a Afonso para tomar os defensores 
de
Santarm descuidados no aproveitou por demasiado subtil, segundo se pode 
coligir da
narrativa que vamos seguindo. Vimos que na tera-feira o rei enviara 
mensageiros a
declarar que as trguas ficavam por trs dias suspensas. O prazo terminava na 
sexta, e
era durante ele que os sarracenos deviam redobrar de vigilncia e cautela. Nos 
termos
da declarao feita por Ibn Errik, expirado o prazo, era natural que, aps to 
longa
ansiedade, no vendo movimento algum, eles se limitassem de novo s 
prevenes
ordinrias. Assim, na noite do sbado, destinada para o assalto, tornava-se
probabilssimo que os atalaias e roldas estivessem descuidados. Se, como 
parece, o
clculo foi este, clculo na verdade no exempto de perfdia, as esperanas 
dos cristos
falharam em parte. No lugar onde habitualmente no havia sentinelas 
descobriam-se
agora duas que mutuamente se espertavam a vozes. A pequena hoste, cuja 
retaguarda o
prncipe fechava, parou ento no meio de uma seara, esperando que os vigias
adormecessem com a modorra do quarto de alva. Largas horas lhes deviam 
parecer estas
em que esperavam; mas os dois muulmanos cederam por fim ao sono. Pelo 
tecto da
casa de um oleiro contgua ao muro, Mem Ramires cozeu-se com este e 
procurou com a
ponta da lana segurar uma escada s ameias; mas, falhando-lhe o tiro, a 
escada caiu
com grande rudo. No titubeou ele entre a vida e a morte e, curvando-se, 
ergueu sobre
os ombros um soldado, que lanou as mos  aresta da muralha, e, pulando 
acima, pde
amarrar a escada a uma das ameias. Num relance o alferes subiu com o 
pendo real e
hasteou-o. Quase a um tempo Mem Ramires se achou ao p dele. Tudo isto 
fora obra de
um instante; mas o rudo despertara, de feito, as sentinelas. Olharam: o 
pavoroso
estandarte do tirano Ibn Errik estava l como o espectro da morte. 
Estupefactos,
perguntaram ambos com voz tomada: Quem sois? Fora impossvel engan-
los. Trs
vezes clamaram em brados confusos: Nazarenos! Trs eram tambm os 
cristos que
se achavam no adarve. Mem Ramires respondeu com o grito de guerra: 
Santiago e rei
Afonso! A voz do rei, sobrelevando s do tropel que o cercava, retumbou 
ento por
cima da estrupida. Bradava por Santiago e pela Virgem, e ao mesmo tempo 
dizia aos
que estavam no adarve: Eis-me aqui; eis-me aqui! Metei-os  espada! Nem 
um escape
do ferro!Entretanto tinham arvorado outra escada, e vinte cinco homens de 
armas
estavam em cima. A vozearia dentro e fora do castelo era j confusa e 
medonha. Afonso
dividiu as suas pequenas foras em dois corpos, um que tentasse escalar o 
muro pela
direita, outro que tomasse o caminho do arrabalde assentado na margem do 
rio, para que
os sarracenos no viessem por aquela parte impedir-lhe o aproximar-se da 
entrada. Ao
mesmo tempo os vinte cinco esforados tentavam quebrar as portas, 
arremessando.186
pedras contra elas, mas debalde, at que, atirando os de fora um malho de 
ferro por cima
do muro, puderam os que se achavam dentro partir com ele os ferrolhos. 
Despedaado o
dique, a torrente precipitou-se dentro do castelo. Afonso, movido pelo mpeto 
do
entusiasmo religioso, ajoelhou no limiar daquelas portas que mal cuidava se 
haviam to
facilmente de abrir para o receberem vencedor. Seguiu-se uma resistncia 
intil e uma
larga carnificina. Os raios do Sol, que nascera entretanto, no encontraram j 
sobre o
roqueiro castelo o estandarte do Islo, derribado nessa noite (15 de Maro) 
para nunca
mais se erguer sobre as torres da opulenta Santarm 306 .
Este acontecimento extraordinrio, este feliz resultado de uma tentativa que,
talvez, parecera loucura, se antes se divulgasse, ao passo que aumentava a 
audcia e a
confiana dos cristos, devia gerar profundo desalento nos muulmanos de 
Belatha,
abandonados aos prprios recursos no meio das guerras civis. Subjugada 
aquela
povoao, s restavam aos sarracenos em todo o territrio ao ocidente do Tejo 
dois
lugares verdadeiramente importantes: Lisboa, pela sua grandeza, pela solidez 
de seus
muros, pelos recursos que podia tirar do seu vantajoso assento sobre a vasta 
baia do
Tejo, e o castelo de Sintra, por estar situado no cimo de um rochedo quase 
inacessvel e
posto como na vanguarda de serrania spera e intratvel, onde os habitantes 
dos .
campos vizinhos poderiam facilmente abrigar-se e defender-se. No resto do 
distrito,
talvez alguns castelos ou, torres colocados pelos cabeos dos montes 
amparavam as
aldeias e habitaes rurais derramadas pelos campos e vales que se dilatam 
entre o Tejo
e o oceano; mas todas aquelas pequenas fortalezas, se existiam, eram coisa 
de pouco
momento; ao menos os historiadores e viajantes rabes desses tempos como 
tais as
consideravam, esquecendo-se de nos conservar nos seus escritos a memria 
da
existncia delas.
Desde a tomada de Santarm os pensamentos de Afonso I voltavam-se todos 
para
a conquista de Lisboa; mas os muulmanos deviam estar precatados, e, 
porventura, a
conscincia das poucas foras que tinha para to grande empresa fazia-lhe 
considerar a
tentativa como incerta e remota 307 . Os sucessos que nessa conjuntura 
ocorriam na
Europa fizeram com que se realizassem os seus desgnios com maior 
brevidade do que
ele ousaria esperar. Daremos de tais sucessos uma ideia sucinta, para que o 
leitor possa
conhecer a causa do inesperado auxlio que o rei de Portugal ento obteve 
para se
apoderar de Lisboa, habilitando-se assim para prosseguir as suas conquistas 
ao sul do
Tejo.
A existncia dos estados cristos na Sria tinha sido desde a primeira cruzada 
uma
srie quase no interrompida de combates, em que ora os conquistadores, ora 
os
muulmanos levavam a melhoria, sem que nem uns nem outros obtivessem 
vantagens
permanentes e decisivas. A perda, porm, de Edessa (1144), uma das cidades 
mais
importantes daqueles estados, fez profunda impresso na Europa. Por mais de 
meio
sculo no haviam cessado de partir para o Oriente cavaleiros e peregrinos de 
ambio
ou de f viva, que iam buscar naquelas remotas partes melhor fortuna ou mais 
segura
salvao; mas estes continuados socorros serviam apenas para preencher as 
fileiras dos
306 In era MCLXXXV pressa fuit civitae Sanctae Herenae per manus Ildefonsi 
portugallensis regia,
Crnica Conimbricense; Capta est idus Marcii (15), illucescente die sabbati 
in era MCLXXXV,
relatrio da tomada de Santarm; Ano ab incarnatione MCLIV, et ab urbe ista 
capta VII, inscrio de
Santa Maria da Alcova, no Elucidrio, p. 354. A Chronica Gothorum atribui 
o sucesso ao dia 11 de
Maio do mesmo ano, a um sbado, no que h evidente erro: primeiro, porque o 
dia 11 de Maio deste ano
no caiu ao sbado, mas sim o dia 15 de Maro, como diz a relao de 
Alcobaa; segundo, porque existe
a doao aos templrios do domnio eclesistico de Santarm, feita em Abril 
deste mesmo ano: Carta de
Tomar, no Arquivo Nacional, e nas Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, p. 
130, n 400.
307 Sed si forte evenerit ut in aliqua tempora mihi Deus sua pietate daret illam 
civitatem, quae didtur
Ulixbona, doao aos templrios, ubi supra..187
defensores da cruz, diariamente rareadas pelo ferro sarraceno. Assim, o 
pensamento
duma nova cruzada para salvar das mos dos infiis os santos lugares 
comeou a crescer
e a dilatar-se. Esta ideia achou um intrprete ardente em Bernardo, abade de 
Claraval,
talvez entre os seus contemporneos o homem mais eminente por muitos 
dotes
reunidos. A sua eloquncia, a austeridade dos seus costumes, a sua 
actividade, a audcia
com que media pela mesma escala os poderosos e os humildes para a 
repreenso ou
para o louvor, tinham-lhe granjeado extrema popularidade e alta influncia nos 
negcios
pblicos, sobretudo nos que de algum modo se ligavam com a religio. Foi, 
pois,
Bernardo quem principalmente pregou a cruzada. Na Primavera de 1146 o rei 
de
Frana, Lus VII, tomou a cruz vermelha das mos do abade de Claraval, e 
com ele a
tomaram quase todos os senhores e principais cavaleiros franceses, alm de 
muitas
outras pessoas. Passando  Alemanha, Bernardo soube resolver Conrado III, 
na dieta de
Spira, a associar-se a este grande movimento militar. Os resultados da 
empresa foram,
porm, fatais para os dois prncipes, que deixaram aniquilada na sia a flor dos 
seus
exrcitos, sem que vissem realizar-se alguma das brilhantes promessas do 
monge
cisterciense, que, apesar da sua indisputvel capacidade, levado do 
entusiasmo, no
soubera calcular as dificuldades da tentativa 308 .
Os cruzados da Alemanha e os da Frana, que os seguiram pouco depois,
capitaneados tanto uns como outros pelos respectivos monarcas, tinham-se 
dirigido pela
Hungria e passado  sia atravessando o Bsforo. Constava o exrcito alemo
principalmente de subios, bvaros, francnios e lotarngios, bem como da 
gente do
Sudoeste da Alemanha 309 . Certo nmero, porm, de habitantes do Reno 
inferior e da
Frsia, que tinham sido movidos pelos discursos do clero para a guerra santa, 
mais
habituados  vida do mar que os povos do serto, preferiram embarcar-se e 
irem unir-se
com outros peregrinos em Inglaterra. As tropas teutnicas, em que entravam 
muitos
lotarngios, juntas em Colnia passaram a Dartmouth, porto da Gr-Bretanha, 
onde se
achava uma armada de perto de duzentas velas destinada a transportar os 
cruzados das
vrias regies martimas da Flandres, da Inglaterra e ainda da Aquitnia 310 . 
Eram os
personagens principais daquela frota, fundeada em Dartmouth 311 , o conde 
Arnulfo de
Areschot, chefe dos alemes, e Cristiano de Gistell, chefe dos flamengos, 
sendo a gente
da Inglaterra regida por quatro condestveis 312 . As tropas que ali se 
ajuntaram subiam,
talvez, a pouco mais de treze mil homens, pela maior parte de inferior 
condio,
porquanto a nobreza da Alemanha e da Frana se agregara aos exrcitos de 
Conrado III
e de Lus VII 313 . Esta armada velejou para as costas da Espanha, no tanto 
com o
intuito de guerrear os sarracenos da Pennsula, como porque era aquela a rota 
que
deviam seguir para entrarem no Mediterrneo e chegarem  Sria. Depois 
duma procela
308 Wilken, Geschichte der Kreuzzuge, B. 3, 12; Michaud, Histoire des 
Croisades, P. 2, L. 6.
309 Pfister, Geschichte der Teutschen, 2 B., 5. 351.
310 V cal. mau movit exercitus a Colonia, Dodequino, Exercitus, Colonia et 
aliis civitatibus Rheni
conflatus, Helmoldo; Flandrigenae... Angli... Lotharingii, Arnulfo; Exercitus 
ex Anglia, Elandria et
Lotharingia, Roberto de Monte; Variarum nationum gentes, Crucesignati 
Anglici Epistola; Pars
eorum maxima venerat ex Anglia, Henrique Huntingdonense; Castra 
Theutonicorum ceterorumque
diversis qui venerant provinciis... Angu viri, et reliquus Britaniae, Aquitaniae que 
populus, Indiculum
Fundat. Achar-se-o no fim do volume, nota XXII, os ttulos, edies e lugares 
dos autores, que citamos
s pelos seus nomes para evitar prolixidade e repeties.
311 So laesset sich wohl dreist das Derchimed des Dedekin und das 
Tredemunde des Arnulf deuten,
Lappenberg, Geschichte von England, 2 B., 5. 357.
312 Crucesignati Anglici Epistola.
313 Venimus in portum Angliae Derchimite, ubi erat comes Areschot cum 200 
fere navibus anglicis et
flandricis, Dodequino; Cum de ipsis essent tredecirn millia, Roberto de 
Monte; Exercitus virorum
non potenumnec alicui magno duce ennixi... humiliter profecti sunt... His 
pauperibus de quibus
praediximus, H. Hutingdonense..188
furiosa, que facilmente espalhou os pequenos baixis da frota 314 , esta, 
havendo buscado
sucessivamente abrigo em dois ou trs portos das costas das Astrias e 
Galiza, veio
afinal ajuntar-se na foz do Tambre (ria de Noya). Prximos do clebre santurio 
de
Compostela, to frequentado de peregrinos de toda a Europa, os cruzados 
dirigiram-se
ali para celebrarem a festa de Pentecostes no templo do apstolo. Aps esta 
romagem,
embarcando de novo e correndo a costa para o sul, vieram entrar no Douro 315 
.
A 16 de Junho de 1147 a armada surgiu diante do Porto e ali esperou onze 
dias
pelo conde de Areschot e por Cristiano de Gistell, que, levados pela fora do 
temporal,
se haviam separado do resto da frota e at esse tempo no a haviam podido 
alcanar 316 .
O bispo D. Pedro, que j tinha notcia da vinda daquela armada, recebera na 
vspera
uma carta de Afonso Henriques, na qual lhe dizia que, se os navios dos 
cruzados apor-tassem
ali, tratasse aquela gente o melhor que fosse possvel e que, se alcanasse 
ajustar
com os seus chefes servirem-no na guerra, conclusse um acordo sobre isso, 
dando todas
as seguranas necessrias e embarcando com eles para a foz do Tejo. Havia, 
com efeito,
dez dias que o rei, sabendo pela gente de cinco navios que, corridos do tempo, 
tinham
arribado previamente s costas de Portugal, da vinda da frota e que entraria no 
Douro,
ajuntava foras para marchar sobre Lisboa, resolvido a conceder aos cruzados 
quanto
exigissem e coubesse nos seus recursos para se valer deles na conquista de 
to
importante cidade 317 .
Como os cruzados eram de vrias naes e tinham diferentes chefes, o bispo
congregou-os no cemitrio do burgo episcopal, porque no cabiam na s, e a 
lhes
dirigiu um discurso em latim, que os intrpretes iam traduzindo nos diversos 
idiomas.
Depois de os incitar pelo sentimento religioso a darem o sangue e a vida pela 
f
combatendo os sarracenos da Espanha, recorreu enfim ao meio no menos 
eficaz de lhes
expor as vantagens que el-rei lhes oferecia. A deliberao que se tomou afinal 
foi
aceitar a proposta e partir para Lisboa logo que o conde de Areschot e 
Cristiano de
Gistell chegassem, devendo entretanto vir o arcebispo de Braga ajuntar-se com 
o seu
sufragneo para acompanharem a expedio 318 . Efectivamente, unida de 
novo toda a
armada 319 , seguiu a sua rota e subiu pelo Tejo no penltimo dia do ms, 
depois de dois
de trabalhosa viagem 320 , enquanto Afonso I marchava por terra com as 
foras que
pudera ajuntar para esta empresa, as quais, conforme o testemunho dum 
historiador
coevo, formavam um poderoso exrcito 321 .
Lisboa j ento era cidade importante. A sua situao, hoje grandemente
acomodada para ser um dos principais emprios do comrcio do mundo, se os 
erros dos
homens ou os seus maus fados lho consentissem, no era nesse tempo menos 
prpria
para centro da navegao costeira dos mares oceano e Mediterrneo e, 
principalmente,
para o trato entre a Mauritnia e a Europa. A bondade do porto, a brandura do 
clima, os
314 Barcias lhes chama a Memria de So Vicente. De feito, sendo treze mil 
os cruzados e perto de
duzentas velas, cada uma no transportava mais de sessenta a setenta 
homens.
315 Ad Portugalim per alveum fluminis, qui Dorius dicitur, applicuimus, 
Arnulfo. Cf. Crucesignati
Anglici Epistola.
316 Crucesignati Anglici Epistola.
317 Id., ibid.
318 Id., ibid.
319 A Memria de So Vicente diz que a frota entrada no Tejo era de cento e 
noventa navios, que vinham a
ser os quase duzentos (a Crucesignati Anglici Epistola fixa o nmero de navios 
sados de Dartmouth em
cento e noventa e quatro) com que sara de Inglaterra o conde de Areschot.
320 Estas datas, em que concordam Arnulfo e Dodequino, estio certas. A 
Pscoa, em 1147, caiu a 20 de
Abril, e o Pentecostes a 8 de Junho. Chegaram ao Porto oito dias depois, e 
portanto a 16. Demoraram-se
a onze, e gastaram quase dois em correr a costa desde o Douro at o Tejo, 
onde surgiram na vspera de
So Pedro (28), o que d exactamente o cmputo feito por Arnulfo e por 
Dodequino.
321 Rex quoque, terrestre accedens itinere, validum adduxit exercirum, 
Helmoldo..189
ricos produtos do territrio circunvizinho deviam t-la engrandecido por muitos 
modos.
Assentada  beira do rio e protegida pelo castelo ou kassba (alcova) que se 
erguia na
sua extremidade ao norte, esta bela cidade, como lhe chama Edrisi, estava 
cingida de
muros de admirvel estrutura, no o sendo menos as altas torres do eminente 
castelo,
que pareciam invencveis para foras humanas. Uma das coisas mais notveis 
dela eram
as suas termas ou banhos sempre tpidos, tanto no estio como no Inverno, e 
que naquela
poca ficavam situados no centro da povoao 322 . Era esta opulentssima 
pelo trato e
mercancia dos portos da Europa e da frica, e nela abundavam tanto o ouro e 
a prata
como os artefactos e gneros mais preciosos que o luxo pode desejar ou a 
necessidade
exigir. J ento o vinho, o sal e as frutas constituam os principais produtos dos 
seus
arredores. Calculava-se oficialmente a sua populao, depois que os 
habitantes de
Santarm, expulsos dali pela conquista, tinham vindo acolher-se a Lisboa, em 
cento e
cinquenta e quatro mil homens, afora mulheres e crianas, clculo na verdade
exageradssimo apesar daquele inesperado aumento, mas que, ainda assim, 
indica ser
esta cidade naquela poca uma das mais populosas da Espanha. Tudo o que 
era gente
principal de Almada, de Palmela e de Sintra residia em Lisboa, e aqui se 
encontravam
negociantes de todos os portos da frica e da Pennsula. As razes de ordem 
econmica
pelas quais aflua a esta cidade to extraordinrio nmero de pessoas 
acresciam outras,
segundo corria, de ordem moral, talvez as mais fortes, para essa singular 
acumulao de
habitantes. Era a soltura dos costumes, a liberdade levada ao grau de licena. 
Cada qual
dava a lei a si prprio: nenhuma religio havia, e os homens mais depravados 
do mundo
vinham mergulhar-se nessa sentina de corrupo, onde pululavam  vontade 
os mais
asquerosos vcios e as paixes mais ruins podiam francamente saciar-se 323 .
O mbito da cidade era o actual castelo, defendido por um muro circular 
torreado,
de cujo exterior partiam lateralmente duas muralhas, que, fazendo volta por 
nascente, se
iam encontrar na orla do Tejo, exactamente  beira da gua. A rea intermdia 
devia
abranger os actuais bairros de Alfama e Ribeira Velha; espao que mal
compreenderamos como pudesse conter populao avultada, se uma 
testemunha ocular
da conquista de Lisboa no nos subministrasse os meios de explicar, ao menos 
at certo
ponto, esse facto. Os edifcios eram por tal modo apinhados que, exceptuando 
os
bazares ou mercados, seria difcil achar uma rua ou passagem que tivesse 
mais de oito
ps de largo. Alm disso, em todo o circuito dos muros 324 e contguos a estes 
havia uma
espcie de vastos subrbios, cujo acesso era talhado a pique, e por tal modo 
dificultoso
de entrar que cada um podia considerar-se como um castelo ou baluarte 325 .
No mesmo dia em que a frota fundeou em frente da povoao, os cruzados
desembarcaram em grande nmero e travaram escaramua com os 
sarracenos,
escaramua que terminou por se recolherem estes  cidade e os cruzados aos 
seus
navios, ficando apenas acampados em certa eminncia uns trinta a quarenta 
deles.
Apenas, porm, amanheceu o Dia de So Pedro, tudo saltou em terra. Tinha j 
chegado
com o seu exrcito o rei de Portugal, e os dois prelados de Braga e do Porto 
foram
imediatamente busc-lo. A presena de Afonso Henriques produziu grande 
tumulto
entre os cruzados; todos queriam falar-lhe. Pediu-lhes o prncipe que lhe 
indicassem
quais eram os seus chefes e, depois de elogiar o aspecto guerreiro do campo e 
o zelo
322 Cette belle vile stend de long du fleuve, est ceinte de murs, et protge 
par un chateau-fort. Au
centre de la ville est une source deau chaude en t comme en hiver, Edrisi 
(verso de Jaubert), Vol. 2,
p. 25; Quae civitas... mirabilis structura tam murorum quam turrium super 
montem humanis viribus
insuperabilis fundata est, Arnulfo.
323 Crucesignati Anglici Epistola.
324 Circumquaque suburbiis, ibid.
325 Id., ibid..190
religioso que congregou ali tantos homens valorosos, declarou que, embora
empobrecido pela incessante luta em que andava com os infiis, subministraria 
aos
recm-vindos quanto os prprios recursos lhe permitissem dar-lhes; mas que 
era
necessrio que nomeassem algumas pessoas com quem se debatessem as 
promessas que
lhes mandara fazer, a fim de ser depois submetido o acordo  aprovao de 
todos. Esta
proposta, feita a gente colectcia e de desvairadas origens, esteve a ponto de 
dar azo a
baldar-se a expedio. O debate sobre ela, protrado durante a manh, 
renovou-se de
tarde com mais violncia, e tanto mais que os flamengos, movidos talvez por 
secretos
meneios, manifestavam j o intento de estar por tudo e de ficarem ao servio 
do rei de
Portugal em qualquer eventualidade. Combatiam outros a aceitao do pacto 
proposto,
distinguindo-se entre os insofridos os dois irmos Wilhelm e Radulph, que, 
segundo
parece, eram chefes de piratas normandos 326 , aos quais se associavam, 
alm de outros,
muitos cruzados de Inglaterra que haviam tomado parte na mal sucedida 
tentativa feita
cinco a seis anos antes contra Lisboa 327 . Fundavam-se os dois piratas e os 
seus sequazes
nas grandes vantagens que poderiam tirar das depradaes nas costas da 
Espanha, na
maior brevidade com que chegariam  Terra Santa e, sobretudo, na 
deslealdade com
que, segundo diziam, procedera Afonso Henriques da outra vez em que 
recorrera ao seu
auxlio. Wilhelm declarou que com oito ou dez navios que quisessem seguir a 
sua
fortuna partiria sem detena. O maior nmero, porem, isto , os alemes, os 
flamengos,
a maioria dos ingleses e os escoceses mostravam-se resolvidos a prosseguir 
no encetado
empenho, ficando s contumazes os normandos e as gentes de Bristol e do 
Hampshire.
Os alemes e flamengos partiram logo para o lado oriental da cidade, onde 
acamparam,
fundeando os seus navios tambm daquele lado, enquanto os cruzados de 
Inglaterra pro-curavam
reduzir  concrdia os dissidentes. Afinal,  fora de razes, de splicas e at
de lgrimas, Herveu de Glanville, condestvel da gente de Suffolk e Norfolk, 
alcanou
dobrar o nimo feroz de Wilhelm e aquietar os seus partidrios sob condio, 
todavia,
de no lhes faltarem vitualhas e de lhes ser pago soldo pelo rei ou pelos outros 
cruzados,
na falta do que nem mais um dia se demorariam. Pacificado deste modo tudo, 
a gente
das diversas naes nomeou cada qual seu comissrio para, juntos, tratarem 
com os
delegados rgios de assentar as condies definitivas do acordo. Foram estas. 
que,
tomada Lisboa, os bens dos inimigos pertenceriam exclusivamente aos 
cruzados; que os
resgates de vidas oferecidos por quaisquer prisioneiros seriam tambm para 
eles,
ficando esses prisioneiros cativos do rei; que os mesmos cruzados reteriam em 
seu
poder a almedina, se fossem eles que a tomassem, at a saquearem 
completamente,
entregando-a s depois disso a Afonso Henriques; que debaixo da inspeco 
deste se
repartiriam os prdios da cidade e as propriedades rsticas aos que ficassem 
em
Portugal, continuando a viver aqui com as liberdades, foros, usos e costumes 
dos seus
respectivos pases e reconhecendo s o domnio eminente da coroa; que, 
finalmente,
assim os que intervinham naquela arriscada empresa como os seus herdeiros 
e suces-sores
gozariam da imunidade de portagens e peagens para os seus navios e 
mercadorias
em todos os portos de Portugal. De uma e da outra parte nomearam-se para se 
darem em
refns do convnio vinte indivduos notveis 328 . Confirmando este acordo, 
Afonso I
jurou que no levantaria campo seno por motivo de enfermidade mortal, ou 
sendo os
326 Willelmus vitulus adhuc spirans minatum cedisque pyraticae et Radulfus 
frater ejus, ibid. Vituli
eram uma espcie de homens de mar (ver Ducange e Carpentier). Da narrativa 
do cruzado ingls e
sobretudo do discurso de Herveu de Glanville se v que eram principalmente 
os normandos que se
opunham ao acordo, com a ideia de piratear nas costas de Espanha.
327 Vide ante p. 171.
328 Na carta do cruzado ingls, de que vamos extraindo principalmente esta 
particularizada narrativa, vem
escrito textualmente o convnio..191
seus estados invadidos pelo inimigo, e que no inventaria em caso nenhum tal 
pretexto
para faltar ao pacto jurado. Esta promessa solene, que decerto no foi 
espontnea,
parece indicar que a anterior tentativa contra Lisboa se malograra pela retirada 
das
tropas de Afonso Henriques, que antes quisera adiar a reduo da cidade do 
que
submeter-se s condies impostas pelos seus aliados, condies, talvez, 
ainda mais
duras do que estas que finalmente se resolvia a aceitar.
Antes de assentar arraiais e de comear as operaes do assdio, os 
sitiadores
entenderam ser conveniente propor uma capitulao vantajosa aos cercados, a 
qual, no
sendo provavelmente aceita, at certo ponto legitimaria os horrores que eram
consequncia forosa de ser a cidade tomada  escala vista. Os dois prelados 
de Braga e
do Porto com alguns dos capites estrangeiros foram enviados como 
parlamentrios.
Reconhecidos por tais ao aproximarem-se dos muros, no tardaram a aparecer 
no adarve
o caide da cidade, o bispo morabe 329 e os magistrados civis. Dadas mtuas 
trguas
para que de parte a parte pudessem desafogadamente explicar-se, o arcebispo 
de Braga
encetou a discusso com um longo mas pouco concludente discurso, em que 
as ameaas
mitigadas pela brandura da linguagem mal supriam a mngua de boas razes. 
Propunha
que entregassem o alcaar e as outras fortificaes aos sitiadores, feito o que a
propriedade, honra e vida dos habitantes seriam respeitadas e mantidas. O 
acordo pouco
antes jurado entre Afonso I e os seus aliados habilita o leitor para apreciar a 
lealdade das
promessas do arcebispo. A resposta, porm, dos cercados, foi franca e altiva. 
No
reconheciam de modo algum o direito que o metropolita invocava, nem 
estavam
resolvidos a abandonar Lisboa ou a aceitarem o jugo estranho sem 
experimentarem a
sorte das armas. Resignavam-se de antemo aos decretos da fatalidade. 
Sabiam por
experincia prpria que nem sempre as tentativas daquela ordem eram 
coroadas de bom
resultado. Fazei o que poderdes, concluam eles; ns faremos o que for da 
divina
vontade.
O bispo do Porto, irritado, segundo parece, pela linguagem dos chefes 
sarracenos,
replicou-lhes com aspereza, porm mais laconicamente do que o seu colega: 
Dizeis
que as nossas tentativas contra Lisboa tm falhado: veremos se falha esta. 
Afastando-nos
dos vossos muros, no vos sado: no me saudareis tambm. Tal foi o 
epifonema
com que terminou o belicoso prelado.
Com a volta dos parlamentrios desvaneceram-se todas as ideias de 
capitulao,
se  que algum as concebera. Afonso I com as suas tropas escolheu por 
estncia o
monte ao norte da cidade, que hoje chamamos da Graa. A esquerda dos 
arraiais dos
cruzados ingleses e normandos, acampados ao ocidente, distava apenas 
quinhentos
passos da ala direita dos portugueses, ao passo que a ala esquerda destes se 
dilatava para
o lado dos alemes e flamengos, ao oriente. Na manh seguinte, enquanto se 
trocavam
os refns, conforme o acordo da vspera, os fundibulrios ingleses 
provocavam as
primeiras hostilidades, despedindo pedras para o subrbio que lhes ficava 
fronteiro, com
o intuito de irritar os sarracenos e faz-los sair ao campo. Obtiveram-no. Como, 
porm,
os cruzados se comeassem a armar para os repelir, foram-se os mouros 
acolhendo ao
subrbio, ao passo que os inimigos lhes iam picando a retaguarda. No 
estavam os
defensores de Lisboa em situao de arriscarem batalhas campais. Diz-se que, 
apesar da
densa populao da cidade, no tinham mais de quinze mil homens armados, 
que por
turmas faziam o servio das torres e muros. Ao mesmo tempo o exrcito dos 
sitiadores
329 Ipso civitatis alcaie super murum cum episcopo et prmc s civitatis 
stantibus, id., ibid. Este bispo que
vinha com o caide e com os magistrados de Lisboa no podia ser seno o 
bispo da populao morabe, o
qual, como adiante veremos, foi morto pelos conquistadores..192
devia subir de vinte cinco a trinta mil homens 330 . Bastantes para resistirem 
detrs dos
seus parapeitos, no o eram os sarracenos para resistir sem vantagem de 
posio a gente
no s mais numerosa, mas tambm mais afeita ao trato das armas.
Quanto  possvel inferir das insuficientes descries topogrficas das 
memrias
contemporneas relativas  conquista de Lisboa, o vasto subrbio onde 
ocorreu o
primeiro acto de to memorvel drama descia ao longo das muralhas 
ocidentais do
alcaar e da almedina pela encosta que vem morrer no vale a que chamamos
vulgarmente cidade baixa. A este arrabalde acrescera gradualmente uma 
poro de
edifcios que iam invadindo a planura, efeito necessrio de um rpido 
acrscimo de
populao. Esses edifcios, rematando em eirados e unidos uns aos outros, 
constituam
uma espcie de forte cerco, a curta distncia do qual, no pendor da encosta, 
corria um
muro ou trincheira. Entre esta e as muralhas da que propriamente se podia 
chamar
almedina ou cidade ficava a metade mais elevada do subrbio. Dos eirados 
dos prdios
exteriores ao muro intermdio choviam os tiros de arremesso sobre os anglo-
normandos,
ao passo que estes avanavam e que o seu nmero crescia. O ataque
tornava-se cada vez mais violento, e os cruzados, carregando ora a um ora a 
outro lado,
esquadrinhavam por toda a linha dos edifcios exteriores se haveria algum beco 
ou
galeria coberta por onde pudessem romper; mas a dificuldade estava em 
chegar ao rs
das casas, donde partia uma chuva de pedras. Caam a cada instante feridos e 
mortos de
frechas e tiros de bestas. Nesta luta sem resultado se passou a maior parte do 
dia, at
que pelo fim da tarde os anglo-normandos, fazendo uma sbita arrancada, 
tiveram arte
de penetrar no arrabalde por algumas vielas, na aparncia imprvias para 
qualquer
homem ainda sem o peso e o volume das armas, e naquele primeiro mpeto 
ocuparam
uma parte da encosta. A irrupo, segundo parece, verificou-se na extrema 
direita do
arrabalde no fortificado, e por isso as tropas sarracenas que defendiam a 
parte da
povoao aberta estendida ao longo da tranqueira para o lado do Tejo 
acolheram-se ao
subrbio fortificado, temendo ficarem assim a grande distncia da kassba ou
fortificao principal 331 . Nesta conjuntura chegava Saherio dArcells, um dos
condestveis dos ingleses, a ordenar a retirada em nome de el-rei e dos outros 
chefes,
que tinham concordado em dar no dia seguinte um ataque geral  cidade, 
devendo por
isso evitar-se aquele intil derramamento de sangue. Quase toda a gente, 
porm, tanto
do acampamento como dos navios anglo-normandos, achava-se j a esse 
tempo
envolvida na peleja, e a revolta era tamanha no arrabalde externo que 
andavam a braos
uns com os outros, e s pela diferena das armaduras se podiam distinguir os 
cristos
dos sarracenos. A noite aproximava-se, e Saherio dArcells, vendo que a 
retirada no
era possvel sem grave perda dos sitiadores, tomou uma resoluo contrria s 
ordens
que recebera.  frente do resto das tropas que se conservavam no arraial, s 
quais
lanou a bno o bispo do Porto, avanou para o arrabalde, onde, no meio de 
um
terrvel combate de ruas, ora vencia um grupo de cruzados, ora um grupo de 
muul-manos.
Penetrando por entre aquele ddalo de casarias, DArcells foi dar a um 
cemitrio
onde se mantinha um troo de anglo-normandos, apesar de lhes faltarem os 
chefes. Com
estes e com os homens de armas que trazia, o condestvel ingls em breve 
repeliu os
inimigos. Foi ento grande a matana e completo o desbarato destes. 
Lanando por terra
330 No s o testemunho de Helmoldo, que chama poderoso exrcito 
quele que Afonso Henriques
trouxe ao assdio de Lisboa, usas tambm a circunstncia de ser ele capaz de 
manter em respeito os cru-zados,
como veremos da sequncia da narrativa, tornam altamente provvel que fosse 
ou superior ou, pelo
menos, igual ao dos cruzados, que era de treze mil homens. A Crucesignati 
Anglici Epistola  que nos
conservou o nmero dos defensores de Lisboa, provavelmente exagerado.
331 Quo comperto, hostes in fisgam versi sunt. Nam longi a munimento urbis 
superioris aberant,
Crucesignati Anglici Epistola.  desta razo da retirada que deduzimos ter sido 
entrado o arrabalde
externo pela direita..193
as preciosidades que levavam, e distraindo com isso a ateno de uma parte 
dos
vencedores, alcanaram os vencidos refugiar-se pelas portas da cerca no 
subrbio
superior 332 . Mas os homens de armas com os frecheiros e alguma 
peonagem, no
fazendo caso do engodo, remeteram s portas, o que salvou os cruzados de 
serem de
novo repelidos. A noite, que se havia cerrado de todo, ps termo  luta, ficando 
obra de
trs mil anglo-normandos senhores de um bairro onde exageradamente se 
dizia haver
quinze mil famlias e cujo acesso tantas dificuldades oferecia 333 .
DArcells, com os seus homens de armas e alguma peonagem escolhida, 
passou a
noite em vigia e com sentinelas avanadas naquele recosto, entendendo que, 
se
abandonasse uma posio vantajosa a tanto custo adquirida, o acesso aos 
muros se
tornaria difcil no outro dia. Um incndio horrvel devastava no entretanto o 
arrabalde e
reflectia o seu claro sinistro nas armas dos anglo-normandos apinhados no 
cemitrio.
Apenas a manh rompeu, os sarracenos fizeram uma surtida para expulsar 
DArcells;
mas no tardaram a chegar de refresco tropas portuguesas e alguns restos das 
inglesas,
que obrigaram os sitiados a recolherem-se. Assim o cerco estreitava-se apenas 
posto,
estabelecendo-se pelo ocidente o campo dos sitiadores entre as runas 
fumegantes do
arrabalde, ao passo que os mouros, desanimados de poderem defender os 
bairros
situados fora das fortificaes, abandonavam igualmente o subrbio oriental 
aos
alemes e flamengos, a bem dizer sem combate 334 .
A runa daquela parte da povoao, o nmero de vidas que uma intil defesa 
tinha
custado, os valores devorados pelo incndio eram uma perda grave para os 
moradores
de Lisboa; mas a mais grave de todas vinha a ser outra. No alto e ao oriente da
povoao a natureza do solo era, por excessivamente pedregosa, imprpria 
para a
construo das matmoras ou silos subterrneos que, ao modo de frica, 
serviam de
celeiros: nem estes se podiam elevar  superfcie dos terrenos urbanos, porque 
todo o
espao era pouco para as habitaes daquela grande populao apinhada. No 
vale,  raiz
da encosta, tambm a construo de silos se tornava impossvel pela 
humidade do solo,
consequncia das guas abundantes que por ele a baixo, corriam para o Tejo. 
Tinham-se
por isso aberto as matmoras na ladeira do arrabalde externo, onde o terreno 
era
acomodado ao intento. Ocupado este pelos anglo-normandos, Lisboa perdia o 
principal
depsito de subsistncias. Encontraram ali os sitiadores quase cem mil cargas 
de cereais
e legumes 335 . A fome ia ser para eles um poderoso aliado.
Os sitiadores, deixando na parte da povoao abandonada pelos sitiados 
troos de
quinhentos homens, que serviam de atalaia e que eram diariamente 
substitudos,
distriburam ao longo da praia oito batis que vigiassem pela parte do mar o 
inimigo.
Naqueles primeiros dias as surtidas repetiam-se frequentemente, saindo os 
sitiados ora
por uma, ora por outra das diversas portas que tinham, e que do lado dos 
anglo-normandos
eram trs, duas ao poente e uma na praia. Estas surtidas, que muito
incomodavam os de fora, s davam em resultado gente morta e ferida de 
ambas as
partes. Prolongava-se o assdio, e os muulmanos como que se consolavam 
dos seus
males com vomitar dos adarves injrias contra os cristos e, sobretudo, contra 
a sua
332 Nunc tandem in fisgam versi, predaruni objectionem suaram, cum multi 
nostroi-um ad hanc iam
intenderent, donec infra portas argumento subtili invenere viam, Crucesignati 
Anglici Epistola. O texto
parece incompleto; mas a significao no nos parece poder ser diversa da 
que lhe damos no texto.
333 Id., ibid.
334 Hiis ex parte flandrensium compertis, muro urbis se includunt mauri, 
relicto eis inexpugnati
suburbio, Crucesignati Anglici Epist ala; Circa quam figentes tentaria calendis 
julii, suburbano ejus
divina virtute adjuti, cepimus, Arnulfi Epstola.
335 Centum, fere, milha summarum. Summa era a carga ordinria de uma 
cavalgadura. Consistia pois o
depsito em mais de um milho de alqueires ou dezasseis mil moios, o que nos 
pode dar uma ideia da
importncia da populao de Lisboa naquela poca..194
crena. Mais de uma vez, segundo parece, Afonso I, de acordo com os aliados, 
lhes
props capitulao vantajosa. Rejeitavam tudo. Tinham assim decorrido quinze 
dias
quando os cruzados comearam a construir as mquinas necessrias para um
cometimento decisivo, ao passo que alevantavam duas capelas nos cemitrios 
dos dois
acampamentos estrangeiros, cada uma no seu, as quais, ampliadas depois, 
deram origem
ao Mosteiro de So Vicente e  igreja paroquial dos Mrtires. Enquanto os 
alemes
construam uma torre de rodzios que defendia um vaivm, os anglo-
normandos
edificavam igualmente outra torre mvel de noventa e cinco ps de altura, 
donde
podiam bater os adarves e eirados. Alm da torre do vaivm, os flamengos e 
alemes
tinham assentado cinco catapultas com que arrojavam pedras para aluir os 
muros e
torres; mas foi-lhes tudo incendiado pelos sitiados, os quais com frechas e tiros 
das
manganelas faziam grande estrago nos cristos, que a muito custo apenas 
puderam
salvar a torre. Pelo outro lado, a dos anglo-normandos, tendo avanado quase 
at  raiz
dos muros, emperrou na areia e, depois de batida quatro dias pelos trabucos 
ou
engenhos dos sarracenos, foi afinal incendiada. Com estes contratempos os 
estrangeiros
ficaram desanimados por alguns dias, at que constou que a fome comeava a 
aparecer
dentro dos muros, abundando fora toda a espcie de vitualhas. Cobraram 
novos brios os
cruzados, e para significarem que estavam resolvidos a perseverar na empresa
encalharam os navios em terra, arriaram os mastros e recolheram os 
aparelhos, como
quem contava passar ali aquele Inverno. Entretanto os alemes, tendo 
empreendido
cinco vezes minar os muros, outras tantas viram os seus esforos inutilizados. 
Fez isso
viva impresso nos anglo-normandos, e entre esta gente impaciente e indmita
apareciam j manifestaes ruidosas de descontentamento, queixando-se de 
terem
perdido o tempo, que melhor, alis, haveriam empregado noutra parte 336 .
Tal era o estado das coisas quando a completa revelao da grande estreiteza 
a
que os cercados tinham chegado veio reanimar os nimos abatidos. Um dia, ao
anoitecer, algum deu aviso de que dez homens sados da cidade, cozendo-se 
com o
muro, tinham entrado num barco, o qual parecia navegar com a proa a 
Palmela.
Perseguidos a toda a pressa, os mouros, vendo-se alcanados, deitaram-se  
gua,
deixando a bordo quanto levavam. Examinado o barco, achou-se um mao de 
cartas em
rabe. Uma era dirigida a Abu-Mohammed, ento vli ou caide de vora, e 
outras a
vrias pessoas daquela cidade. Os habitantes de Lisboa pediam instantemente 
auxlio e
especificavam a quantidade de vitualhas a que estavam reduzidos. Pintavam 
os males
que tinham padecido, a resistncia herica que tinham feito e as 
consequncias que teria
para o islamismo a perda de Lisboa. Conhecida no campo a matria destas 
cartas, o
descontentamento desapareceu, e as escaramuas, reiteradas desde ento 
diariamente,
provaram aos cercados que o inimigo estava plenamente informado da sua 
triste
situao 337 .
Dias depois, o cadver de um homem afogado apareceu junto aos navios 
anglo-normandos.
Trazia atada ao brao uma carta. Era de Abu-Mohammed para os habitantes
de Lisboa. Dizia-lhes que tratassem de resgatar-se a peso de ouro, 
sacrificando 
salvao as riquezas. Da sua parte nada podia fazer. Tinha assentado trguas 
com
Afonso Henriques, e no lhe era licito quebrar a f jurada acometendo-o a ele 
ou aos
seus aliados.  vista desta carta, a reduo da cidade era questo de tempo. 
Os
sitiadores estavam seguros contra a agresso exterior. Era essa carta 
autntica? Parece
demasiado capricho do acaso virem assim a poder dos impacientes cruzados 
as secretas
336 Arnulfi Epistola; Indiculum Fundat; Crucesignati Anglici Epistola.
337 Crucesignati Anglici Epistola. O cruzado ingls transcreve parte da carta 
dirigida a Abu-Mohammed e
resume outra parte..195
correspondncias dos sarracenos 338 . Fosse, porm, como fosse, o que  
certo  que no
s cessaram as manifestaes de descontentamento no campo dos 
estrangeiros, mas
tambm renasceram a os mpetos de audcia. Uma correria deixou 
devastados os
arredores do castelo de Sintra, que, alis, pela fortaleza do lugar no era 
possvel
acometer ou sitiar. Sucedeu entretanto que vrios cruzados, andando a pescar 
nas praias
contguas ao territrio de Almada, foram nessa conjuntura mortos ou 
prisioneiros. Ento
um troo de anglo-normandos, capitaneados por DArcells, devastou aquele 
territrio,
com grande mortandade de mouros e muitos cativos, no obstante terem os 
agressores
sido abandonados pelos alemes e flamengos que a princpio se haviam 
associado
quela empresa. Para aumentar o terror dos habitantes de Lisboa, os anglo-
normandos
trouxeram oitenta cabeas, que cravaram em postes  vista dos muros. A 
populao
espalhada pelo territrio de Almada devia ter parentes e amigos na infeliz 
cidade. No
tardaram estes a sair suplicando que se lhes permitisse dar sepultura s 
truncadas
cabeas. Concedeu-se-lhes aquela triste consolao. Os choros e os soluos 
com que foi
recebida a horrvel ddiva soavam alto: e durante a noite seguinte no se 
ouviram dentro
dos muros seno gritos de dor e o murmrio tremendo de prantos por toda a 
parte 339 .
A mais particularizada memria que nos resta deste notvel assdio, escrita 
por
testemunha ocular, refere uma circunstncia em que, pelo menos, h 
grandssima
exagerao, exagerao anloga ao cmputo, indubitavelmente excessivo, que 
a se faz
da populao de Lisboa naquela poca. Se acreditssemos essa narrativa, 
Afonso I teria
nesta conjuntura retirado o seu exrcito, ficando ele apenas no arraial com os 
seus
bares e poucos cavaleiros 340 . Os factos ulteriores referidos nessa mesma 
narrativa
repugnam ao da retirada das tropas portuguesas.  possvel que alguma parte 
delas
abandonasse o campo, suposta a imperfeita organizao militar daquele 
tempo, em que
os cavaleiros vilos e pees, sobretudo os dos concelhos, no eram obrigados 
a acom-panhar
o rei na guerra seno por um perodo determinado, que, por via de regra, no
excedia a trs meses.  at possvel que Afonso I, cuja astcia era proverbial e 
nem
sempre ajustada pelos preceitos de probidade severa, quisesse abater as 
exaltadas
esperanas dos cruzados retirando alguma parte das suas foras e fazendo 
acreditar que
essa parte era muito maior. Vimos qual fora o acordo feito entre ele e os seus 
aliados.
Realizada a conquista de Lisboa, que lhe ficava a ele? Muros e edifcios meio
arruinados e os restos que escapassem de uma populao reduzida a profunda 
misria e
rareada pela fome e pelo ferro. As tentativas, repetidas vezes feitas, para 
induzir os
sarracenos a capitularem provam quo graves eram as apreenses do rei de 
Portugal.
Alm disso, como acreditar que o assdio pudesse prosseguir, desassombrada 
a
povoao pelo lado da kassba ou castelo e diminudas as foras sitiadoras de 
mais de
metade?
Possuda de novos brios, a gente estrangeira comeou com energia os 
preparativos
para renovar o assalto. Do ocidente, os anglo-normandos e alguns outros 
cruzados que
andavam com eles (provavelmente aquitanos) tratavam de abrir mina entre 
uma das
portas e a torre que lhe ficava mais prxima: mas sendo descoberta pelos 
assediados e
de fcil acesso para eles, mais de dano que de proveito veio a ser para os 
sitiadores, que
em a defender consumiram muito sangue. Assentavam entretanto daquela 
parte dois
trabucos ou balistas, um conduzido do lado da praia pela marinhagem, outro 
contra uma
das portas pelos homens de armas e peonagem. Cada um dos engenhos era 
servido por
cem homens que se revezavam, de modo que no cessasse o combate e se 
despedissem
338 Ibid. Acha-se igualmente transcrita a a carta verdadeira ou suposta de 
Abu-Mohammed para os
habitantes de Lisboa.
339 Crucesignati Anglici Epistola.
340 Ibid..196
cinco mil pedras em cada dez horas, o que excessivamente incomodava o 
inimigo. Ao
mesmo tempo um engenheiro italiano, natural de Pisa, construa uma torre 
sobre
rodzios e de oitenta e trs ps de altura, para substituir a dos anglo-
normandos que
havia sido destruda, e nesta mquina, admirvel por solidez e altura, 
trabalhava no s
a gente de Inglaterra mas tambm a portuguesa, no poupando o rei esforos 
para a ver
concluda 341 .
Entretanto na cidade sentiam-se j os horrores da fome, ao que acrescia o 
cheiro
intolervel dos cadveres que ficavam insepultos por no haver onde os 
enterrar. Alguns
restos de comida lanados dos .navios e vindos  praia eram avidamente 
aproveitados
pelos sarracenos que de relance podiam sair a apanh-los. Certa vez um troo 
de
sentinelas postadas nas runas das casarias prximas do muro oriental, 
deixando a uma
poro de frutos que lhes sobejara da sua refeio, quando se retiraram viram 
chegar
quatro mouros que buscavam no ser vistos e que arriscavam a vida para obter 
aqueles
insignificantes restos. Desde ento os flamengos imaginaram um brbaro 
divertimento,
que era pr coisas de comer como esquecidas por entre as runas vizinhas das 
muralhas,
armando laos em que colhiam um ou outro esfaimado que no podia resistir 
ao engodo.
J antes disto chegava frequentemente aos arraiais um ou outro trnsfuga que, 
fugindo
ao horror da fome, vinha delatar a triste situao de Lisboa. Entre os sitiados, 
os mais
poderosos e os homens de guerra guardavam para si quantas subsistncias 
restavam,
deixando expirar de media os pobres e fracos, que chegaram ao extremo de 
devorar ces
e gatos. Por fim vinham entregar-se aos cristos, que os baptizavam, mas que, 
s vezes,
depois de lhes cortarem as mos, os impeliam contra as muralhas, onde os 
seus
compatrcios, arrojando-lhes pedras de cima, acabavam de mat-los 342 .
Enquanto no campo dos anglo-normandos se construa a torre mvel, os 
alemes e
flamengos minavam o cho pelo lado do oriente, dirigindo-se  muralha da 
kassba. Era
singular pela sua grandeza a obra da mina, espcie de vasta caverna a que 
davam acesso
cinco entradas diversas e que levou um ms a abrir. Viram o perigo os 
sarracenos e a 29
de Setembro saram caladamente da cidade e vieram travar-se com os 
alemes e
flamengos  boca da mina. Durou o combate boa poro do dia: quando, 
porm, os
sarracenos quiseram retirar-se estavam quase cortados por uma nuvem de 
frecheiros que
os ladeavam por uma e outra parte. Foi grandssimo o estrago, e raro o que 
pde
acolher-se aos muros sem ser assinalado do ferro inimigo 343 .
Concluda a sapa, encheu-se de lenha aquele subterrneo que se dilatava por 
baixo
do alicerce da muralha. Durante a noite de 16 para 17 de Outubro lanaram 
fogo s
matrias inflamveis do vasto fojo, e o incndio progrediu com violncia. Um 
extenso
lano do muro 344 , que apenas assentava sobre os troncos amontoados 
debaixo dele, ao
341 Iterum normanni et anglici et qui cum eis erant turrim... incipiunt, 
Crucesignati Anglici Epistola. A
malevolncia do cruzado ingls para com Afonso I aparece aqui bem patente. 
Arnulfo, tambm testemu-nha
ocular, d ao rei e aos portugueses um largo quinho nos esforos para a 
construo daquela mquina,
que se pode dizer foi o decisivo instrumento da vitria. A frase et qui cum eis 
erant mostra que o cruzado
ingls no se atrevia a ocultar que os seus tinham sido ajudados naquele 
empenho; mas deixou no vago o
facto, podendo a frase entender-se como relativa aos poucos aquitanos que, 
segundo parece, militavam no
campo anglo-normando.  tambm pela carta de Arnulfo que sabemos ter sido 
um italiano o construtor da
torre.
342 Crucesignati Anglici Epistola; Arnuldi Epistola. O cruzado ingls narra o 
brbaro divertimento dos
flamengos, e Arnulfo, que era flamengo, narra a atrocidade de cortar as mos 
aos esfaimados.
Provavelmente era gracejo anglo-normando. O silncio do cruzado ingls e a 
ferocidade proverbial dos
normandos, ainda naquela poca, do-nos quase a certeza disso. Quem sabe, 
at, se os que assim vinham
entregar-se eram morabes, sendo uma inexaco de Arnulfo a histria dos 
mouros que recebiam o
baptismo?
343 Crucesignati Anglici Epistola; Arrnulfi Epistola.
344 O cruzado ingls diz trinta cvados; Arnulfo, duzentos ps..197
chegar ali o incndio abateu e desmoronou-se. Erguendo-se ao rudo, as 
tropas
germano-belgas avanaram  brecha. Os troos que vigiavam pelas quadrelas 
bradavam
chamando ao combate, e o frenesi da desesperao fazia entre os sarracenos 
as vezes do
entusiasmo. Tecendo uma espcie de sebe ou estacada de paus sobre as 
runas,
apinharam-se atrs dela. Era obstculo que no faria grande impedimento aos 
cruzados;
porm, atrs das runas e em terreno mais elevado viam-se  luz vermelha do 
incndio
os esquadres sarracenos em ordem de batalha. Remeteram uns contra os 
outros, e a
peleja travada  meia-noite prolongou-se durante dez horas. Afinal os alemes 
e
flamengos, que ocupavam uma posio desvantajosa, foram repelidos com 
grande
estrago. Entretanto os anglo-normandos, rodeando a cidade, tinham avanado 
para
aquela parte; mas o conde de Areschot e os outros chefes das tropas 
repelidas, ardendo
em clera e cobrindo-os de injrias, obrigaram-nos a recuar. Aconselhavam-
lhes que
continuassem a tentar com as suas mquinas abrir caminho por onde 
entrassem; porque
esse que ali estava patente para si o tinham aberto e no para os anglo-
normandos.
Recebidos assim, estes recolheram-se aos seus arraiais 345 .
Todos os cometimentos  brecha repetidos nos dias seguintes foram inteis. 
Era
herica a defesa. A torre, porm, dos anglo-normandos achava-se afinal 
concluda. Para
a preservarem de ser desconjuntada pelos tiros dos trabucos ou balistas, ou de 
ser
queimada pelas matrias inflamadas que haviam de arrojar sobre ela, tinham-
na forrado
de couros de boi e coberto de uma forte bastida de vimes tecidos. A bordo dos 
navios
estavam tambm prontas padesadas e uns como bailus mveis, debaixo dos 
quais se
pudesse combater a coberto. No domingo 19, os homens de armas anglo-
normandos e
portugueses, depois de se armarem, receberam a bno do arcebispo de 
Braga, aps o
que um sacerdote fez uma larga exortao incitando-os a pelejarem e a 
morrerem
gloriosamente pela f. Acabada a prtica, todos se prostraram por terra. Ento 
o
sacerdote, mandando-os erguer, distribuiu a cada um dos combatentes a divisa 
da cruz,
que era o distintivo daqueles que se votavam  morte pela glria do 
cristianismo. Um
brado unssono de muitas vozes que imploravam o auxlio divino anunciou que 
se ia
impelir contra as muralhas a torre mvel, a qual efectivamente rodou quase 
quinze
cvados para a frente, sendo morto apenas um homem nessa conjuntura pelos 
tiros dos
trabucos do inimigo. No dia seguinte, aquela alterosa mquina de novo rolou 
para se
colocar em frente da torre que se erguia no ngulo da cidade ao dobrar da 
muralha
ocidental para o lano ou quadrela do lado do rio. Era nessa torre que os 
sitiados tinham
concentrado os seus principais meios de defesa; mas os sitiadores, que disso 
estavam
informados, evitaram dar o ataque naquele ponto e, rolando a mquina para a 
direita,
foram aproxim-la do muro obra de vinte cvados mais adiante, enquanto os 
frecheiros
e os besteiros metidos entre as runas do arrabalde despediam de revs contra 
a torre,
mal defendida por aquele lado, milhares de frechas e virotes, que obrigaram a 
fugir
ferida pelas costas a guarnio do eirado e do adarve contguo  torre pela 
esquerda.
Nestes preldios do ataque passou o dia 20, e com a noite cessou o combate. 
De guarda
ao castelo de madeira ficaram duzentos homens de armas, cem portugueses e 
cem
anglo-normandos, alm de muitos frecheiros, besteiros e peonagem de servio 
346 .
A mar subia ao anoitecer, e da a pouco a mquina ficou rodeada de gua e
interrompida a comunicao com os arraiais. Era por isso que esperavam os 
sarracenos.
345 Id., ibid. Arnulfo omite estas ltimas circunstancias e supe quase 
simultneo o ataque pelo ocidente.
346 Ex nostris centum miitibus et ex gallicianis C, Crucesignati Anglici 
Epistola. Esta circunstncia de
ser a guarda da torre de madeira entregue por metade tanto aos anglo-
normandos como aos portugueses,
no s prova irrefragavelmente que tanto uns como outros tinham trabalhado 
nela, mas tambm mostra
que as tropas portuguesas se mantinham no arraial e quo inexacto  o que o 
cruzado ingls refere acerca
de se haverem retirado..198
Abrindo uma porta de ferro que havia no muro a pouca distncia da mquina,
avanaram at ao p desta, enquanto outros de cima do adarve, onde tinham 
amontoado
incrvel quantidade de lenha com estopa repassada de leo e alcatro e com 
outras
espcies de combustveis, arrojavam isso tudo sobre o castelo de madeira no 
meio de
uma saraiva de pedras. Encostada, porm, ao castelo, entre este e o muro, 
estava uma
padesada de vimes, a que se dava o nome de gata romanisca 347 , a qual 
tinham sempre
conduzido junto da mquina sete pees ingleses. Unidos com estes, os que 
iam no andar
trreo da mquina afastavam as matrias incendiadas, espalhando-as quando 
podiam, ao
passo que outros, abrindo covas no cho e metendo-se nelas, empurravam dali 
os globos
de fogo que se arrojavam dos muros. Nos andares superiores havia orifcios 
por onde
deitavam gua sobre os couros crus de que o exterior estava forrado, a qual se 
espalhava
por todos eles coada atravs de renques de umas como grandes escovas ou 
borlas de
crina enfeixadas em redor do castelo a diferentes alturas. Uma parte, 
finalmente, da
guarnio combatia em baixo, num esquadro cerrado, a turba dos sarracenos 
quando
faziam surtidas. Aquele encarniado revolver de ferro e de fogo durou toda a 
noite com
leve perda dos cristos e muitas mortes dos sarracenos, feridos na peleja 
brao a brao,
mas ainda mais por mos invisveis dos andares e eirado da mquina 348 .
Esta, que na vazante da noite estivera em seco, ao amanhecer comeava j a 
ser
rodeada pela gua, ao menos do lado por onde se poderia comunicar com o
acampamento. Os mouros repetiram ento a surtida, ao passo que, 
acumulando novos
trabucos nos adarves, faziam chover nuvens de pedras sobre os inimigos. O 
castelo
achava-se apenas a oito ps de distncia da quadrela fronteira, e os 
sarracenos
trabalhavam em fazer passar por cima desta barcos cheios de matrias 
inflamadas, os
quais tinham tido arte de guindar at ali. O chefe das gals portuguesas 
pereceu neste
conflito. Posto que sem esperana de humano socorro, os defensores do 
castelo
resistiram por muito tempo impertrritos. O ferimento, porm, do engenheiro 
pisano, a
quem um tiro de trabuco quebrara uma perna, comeou a infundir desalento. 
Foram,
segundo parece, os portugueses os que principalmente desanimaram vendo-se 
pela
maior parte feridos e cercados de mar 349 . Grande nmero deles, 
abandonando o castelo,
tentaram passar a vau. O esto da vazante salvou a mquina. Os sarracenos, 
vendo que ia
ser socorrida, cederam o campo cheios de feridas e de cansao. A mar que 
descia faci-litou
ento o serem rendidos os que por to longas horas tinham defendido o mvel
castelo, sem poderem nunca, nem por um momento, depor as armas 350 .
Ao mesmo tempo que os anglo-normandos e os portugueses combatiam por
aquele lado, os alemes e flamengos tinham atacado pelo oriente a brecha 
anteriormente
aberta, e, at, segundo parece, um troo deles viera tomar parte na defesa da 
mquina e
no ataque pelo ocidente; mas o novo cometimento da brecha no teve 
resultado 351 .
347 Cattus waliscus, ibid. A gata, mquina de guerra cujo nome provinha 
de servir para minar a raiz
dos muros,  mencionada nos nossos monumentos da Idade Mdia. Waliscus, 
segundo Ducange e os
maurienses, significa agente inferior ou servil. Ns supomos que esta palavra  
o germnico walch,
walsch (welsch) alatinado, e que exprimia a qualidade de estrangeiro, de 
no germnico, e
especialmente o de ser de raa romana ou latina, como os galo-romanos, 
italianos, etc., e, no sentido mais
lato, a origem latina de qualquer coisa.
348 Ibid.
349 Nesta parte so acordes o cruzado ingls e Arnulfo.
350 Ibid.
351 Arnulfo assevera que, ao verem os sarracenos os lotarngios e flamengos 
subirem ao castelo de
madeira, se encheram de terror e trataram de capitular. O cruzado ingls, pelo 
contrrio, nem sequer alude
 interveno deles. Cada um dos dois escritores busca atribuir aos seus a 
glria principal daquele feito.
No Indiculum quem figura como principal conquistador da cidade  Afonso I, e 
se existisse outro
monumento portugus to particularizado acerca do sucesso como a carta do 
cruzado, ou ainda como a de
Arnulfo, seriam a provavelmente os portugueses quem teria feito tudo. O que 
dizemos no texto  o que.199
Afinal alcanou-se mover o castelo de madeira at ficar distante do adarve 
apenas
quatro ps. Era ocasio de preencher o fim para que principalmente fora 
construda
aquela engenhosa mquina. Como um brao gigante, uma forte ponte de 
traves comeou
lentamente a sair do alto da torre para a quadrela fronteira, e ao passo que ia 
quase a
tocar no muro cobria-se de homens de armas prestes a galgar s ameias. Os 
sarracenos
viam enfim esses agigantados e ferozes homens do Norte a ponto de se 
precipitarem nos
adarves, onde teriam de travar com eles um combate desigual, ao mesmo 
tempo que as
tropas germano-belgas repetiam furiosos assaltos  brecha da muralha 
oriental. Diante
desta perspectiva aqueles nimos, quebrados j pela misria, pela fome e pela 
doena
originada de tantos cadveres insepultos, vergaram diante do iminente risco e
depuseram as armas, erguendo as mos e pedindo um armistcio at  manh 
seguinte,
para se tratar da capitulao. Parou logo o ataque, e o alferes-mor, Fernando 
Cativo, e
Herveu de Glanville foram chamados para ouvirem as propostas dos 
defensores de
Lisboa. Concordou-se numa suspenso de armas, com a condio de no se 
aproveitar a
noite para obras de defesa ou para alguma tentativa contra os engenhos e 
mquinas dos
sitiadores, sobre o que foram dados refns da parte dos sitiados. Concedia-se 
aquela
noite aos habitantes da cidade para resolverem se haviam de render-se. No 
caso
contrrio no tinham que esperar misericrdia: restava-lhes a sorte das armas 
352 .
Os refns foram pelos dois chefes entregues a Afonso Henriques. Irritaram-se 
com
isto os cruzados, e um facto que parecia indiferente esteve a ponto de perder 
tudo. O
descontentamento que, ao chegar aos arraiais o rei de Portugal, tinham 
suscitado os que
se queixavam da deslealdade usada com eles na anterior tentativa contra 
Lisboa, tornou
a acender-se mais violento com esta entrega dos refns, que, conforme se 
afirmava,
deviam ter ficado no campo dos cruzados. Temiam-se de uma traio do rei, e
clamavam irritados contra Fernando Cativo e Herveu de Glanville. Durante a 
noite
progrediu a desordem, e os flamengos e alemes, juntando-se aos anglo-
normandos com
os seus chefes  frente, dirigiram-se aos arraiais do rei, dizendo que queriam 
saber o que
tinham resolvido aqueles traidores. Disse-se-lhes o que havia. O acordo era 
que a
entrega da cidade se fizesse a Afonso I, e que se entregassem aos cruzados a 
prata, o
ouro e os mais haveres dos habitantes. Com esta notcia aquela espcie de 
deputao
tumulturia retirou-se para deliberar, e foi ento que recresceu o perigo da 
anarquia. A
marinhagem e parte da soldadesca, as quais incitava um sacerdote de Bristol, 
homem de
pssimos costumes, apinhadas na praia comearam a amotinar-se. Clamavam 
que era
coisa indigna estar tanta gente notvel, como a que vinha na armada, sujeita 
ao mando e
vontade de meia dzia de homens; que em situaes destas no havia que 
debater, mas
sim que combater; que sem os principais chefes se tinham apoderado do 
subrbio e do
territrio de Almada, e que, se houvessem atacado a cidade sem fazer caso 
das
contemporizaes desses chefes, j a teriam entrado  fora ou feito mais 
avantajado
negcio com os habitantes. Era Herveu de Glanville alvo principal da clera 
daqueles
furiosos, que j o acusavam no s de ter entregado os refns ao rei, mas 
tambm de
querer excluir muitos na diviso da presa, como se fossem estranhos aos 
perigos e
trabalhos comuns 353 . Mais de quatrocentos anglo-normandos, saindo do 
arraial, corriam
como loucos em busca de Glanville, bradando: Morra o malvado! Abaixo o 
traidor!
Os que andavam pelo acampamento dos portugueses correram ento a 
reprimir aquele
parece mais provvel. Se fossem os flamengos e alemes que tivessem 
obrigado os sarracenos a capitular,
no seriam o alferes-mor de Portugal e o chefe anglo-normando Herveu de 
Glanville que pactuassem a
suspenso de armas, mas sim o conde de Areschot, Cristiano de Gistell ou 
outro chefe germano-belga.
352 Crucesignati Anglici Epistola; Arnulfi Epistola.
353 Crucesignati Anglici Epistola. O texto est aqui corrupto e obscuro; mas o 
sentido , quanto a ns,
este..200
comeo de um grande tumulto, aquietado o qual tratou-se de quanto antes dar 
uma
resposta sobre o acordo. Entretanto os mouros que estavam em refns, 
sabendo o que
ocorrera, retiraram as primeiras propostas, declarando que estavam prontos a 
fazer ao
rei e aos seus todas as concesses, mas que preferiam a morte a mant-las 
em relao
aos cruzados, gente imoral, sem f nem lealdade e ferozes a ponto de nem 
sequer
pouparem os prprios chefes. Passado, porm, o primeiro despeito, vieram a 
termos
mais razoveis, at que entre eles, Afonso I e os capites dos cruzados se 
chegaram a
assentar definitivamente as condies da capitulao. Eram simples. A cidade 
render-se-ia
ao rei, ficando o caide e um seu genro com tudo o que lhes pertencesse, e os 
demais
habitantes s com as vitualhas que tivessem. Diz-se que os anglo-normandos 
queriam
aprovar estas convenes, facto pouco crvel  vista do que fica referido, e que 
foram os
alemes e flamengos que se opuseram a elas 354 . Fosse como fosse, o que  
certo  que a
multido no conveio na concesso dos mantimentos seno pelo que tocava 
ao caide, ao
passo que os mouros se mantinham firmes nas resolues tomadas. Assim 
passou o dia,
voltando os cruzados aos seus arraiais resolvidos a combater no outro dia a 
cidade.
A insistncia em privar uma populao esfaimada das ltimas subsistncias 
que
lhe restavam era de repugnante desumanidade, mas  possvel que houvesse 
quem
excitasse o descontentamento por motivo diverso, o qual, alis, no importava 
 grande
maioria dos cruzados, resolvidos a seguir viagem para o Oriente sem inteno 
de voltar
a este pas.  provvel que essa questo das vitualhas fosse menos motivo 
que pretexto.
Interessavam em repelir qualquer conveno aqueles que pretendiam ficar em 
Portugal,
e entre os quais, pelo acordo tomado com Afonso I no comeo do cerco, se 
devia
repartir a cidade e o seu territrio, regulando-se os novos possuidores nas 
relaes com
o prncipe portugus pelos usos e costumes dos seus respectivos pases, isto 
, pelas
instituies feudais, o que lhes dava uma independncia que desdizia 
profundamente
das instituies do Ocidente da Pennsula. S uma grande necessidade podia 
ter movido
Afonso Henriques a aceitar essa e outras duras condies. Mas todas elas 
pressupunham
um facto: o de ser a cidade entrada  viva fora. Uma capitulao era facto 
diverso; era
um novo contrato, em que os sarracenos entravam tambm como partes, e que
inutilizava o primeiro. A ndole astuta de Afonso Henriques persuade que ele 
saberia
tirar vantagem dessa nova situao, e que o despeito dos cruzados contra ele 
e a
manifesta inteno de levar a cidade  escala vista podiam no ser prudentes 
nem justos;
mas, porventura, no eram, tambm, absolutamente infundados.
A inquietao, que durara todo o dia 22, parecia ter cessado com a retirada dos
amotinados para os respectivos arraiais e com as esperanas de no dia 
seguinte entrarem
na cidade sem condies e com a espada na mo. Os agitadores, porm, no 
o
entendiam assim. Apenas recolhidos, os alemes e flamengos armaram-se e 
saram
tumultuariamente das tendas, acusando o rei de Portugal de parcialidade a 
favor dos
refns sarracenos. Queriam ir arrancar estes do arraial dos portugueses e 
vingar-se.
Levantou-se ento um grande arrudo, e por toda a parte se ouvia o estrpito 
das armas.
Uma poro de anglo-normandos, que ainda no se haviam retirado e estavam
apinhados no intervalo que mediava entre os arraiais germano-belgas e os 
portugueses,
foram, segundo se disse, quem correu a avisar o rei da causa do motim, 
enquanto
Cristiano de Gistell e o conde de Areschot, mal armados, se opunham aos 
turbulentos e
faziam os ltimos esforos para conter o motim. Entretanto os portugueses 
pegavam em
armas e preparavam-se para repelir a violncia. Os dois chefes, tendo, enfim, 
obtido
354 Di-lo o cruzado ingls, autor da narrativa que vamos seguindo. Os 
anteriores tumultos que ficam
narrados provam que os anglo-normandos no eram melhores que os alemes 
e flamengos, e a moderao
que ele atribui aos seus no ltimo acto deste drama  altamente incrvel. 
Quando ele ou Arnulfo tratam de
desculpar ou glorificar os seus, pouco crdito merecem..201
apaziguar a desordem, dirigiram-se ao rei, protestando a sua inocncia. A 
irritao de
Afonso chegara ao ltimo auge, e foi preciso que Areschot e Gistell lhe dessem 
todas as
seguranas possveis de que manteriam a ordem para lhe modificar o nimo e 
obter dele
que mandasse recolher os seus homens de armas. O rei, porm, declarou aos 
dois chefes
que, se as coisas continuassem assim, abandonaria o assdio, porque preferia 
ao
senhorio de Lisboa a prpria honra; que sem esta o mundo inteiro nada para 
ele valia, e
que em todo o caso, depois de tantas injrias, no queria tornar a associar-se 
com
aquelas gentes sem f, insolentes e capazes de todos os flagcios. Afinal, 
depois de
muitas ponderaes e splicas, e acalmada de todo a clera de que fora 
tomado,
prometeu no resolver coisa alguma seno no dia seguinte 355 .
Rompeu a manh: os nimos tinham, segundo parece, completamente 
asserenado,
o que, talvez, era devido  enrgica resoluo que Afonso Henriques mostrara. 
Os
cruzados resolveram dar ao rei plena satisfao, fazendo-lhe os chefes, por si 
e pelos
seus, juramento de preito e lealdade por todo o tempo que residissem em 
Portugal.
Praticado este acto solene, os cruzados resolveram aceitar o acordo que na 
vspera se
tinha feito com os sarracenos sobre a capitulao. Assentou-se ento que 
entrassem
primeiro que ningum na cidade trezentos homens de armas, sendo cento e 
sessenta
germano-belgas e cento e quarenta anglo-normandos. Esta guarda avanada 
iria postar-se
na kassba ou castelo. Ali deviam os habitantes fazer entrega de todo o dinheiro 
e
mais haveres que possuam, dando juramento de que nenhuma coisa ficava 
sonegada.
Depois os cruzados dariam busca a toda a povoao e, se em casa de algum 
se achasse
algum dinheiro ou alfaia alm do que fora entregue na kassba, o dono da 
habitao seria
punido de morte. Saqueado assim tudo, permitir-se-ia livre sada aos 
moradores sem se
lhes fazer mal 356 .
Tal foi o acordo celebrado na quinta-feira, 23 de Outubro. Nesse mesmo dia ou,
talvez, no imediato 357 uma das portas abriu-se para facilitar o acesso aos 
homens de
armas que iam tomar conta da kassba. Aos alemes e flamengos deu-se a 
precedncia
da entrada, se  que no a tomaram, e, contra o que estava pactuado, mais de 
duzentos
acompanharam os cento e sessenta que para isso tinham sido escolhidos, ao 
passo que
um sem-nmero deles, aproveitando a desordem interior da cidade, 
penetravam nesta
pela brecha do lado oriental, abandonada pelos seus infelizes e hericos 
defensores.
Entraram depois os cento e quarenta anglo-normandos, e aps eles o rei 
precedido do
arcebispo de Braga, de cruz alada e rodeado de outros bispos. Seguiam o rei 
os chefes
portugueses e estrangeiros e um numeroso squito. Esta espcie de prstito 
dirigiu-se 
kassba, e na torre mais elevada, do castelo, ao som de cnticos religiosos, 
hasteou-se
uma cruz, que se via de toda a parte e que indicava ter Lisboa, enfim, 
submetido o colo
ao domnio cristo, depois do que o rei, a p, correu todos os muros da kassba,
provavelmente para examinar o estado das fortificaes 358 .
Enquanto, porm, no castelo ressoavam os cnticos da igreja, na almedina e 
nos
355 Crucesignati Anglici Epstola.
356 Ibid.
357 O dia da entrada dos cristos em Lisboa no se pode determinar 
precisamente pela narrativa do
cruzado ingls; mas o que desta resulta forosamente  que foi a 23 ou a 24, 
quinta ou sexta-feira,
comeando a sada dos sarracenos no sbado, como nessa narrativa  
expresso. O Indiculum pe em 25 a
entrada do rei, o que  inexacto. Dodequino e Arnulfo fixam a consumao da 
vitria a 21, considerando
a cidade tomada no dia da suspenso de armas e da entrega dos refns. A 
crnica primitiva dos godos pe
a entrada numa sexta-feira, isto  a 24, o que expressamente diz (9 das 
calendas de Novembro) o
exemplar parafraseado de Resende. Talvez isto seja o mais crvel, supondo 
que se gastasse a quinta-feira
em tomar a deciso sobre o juramento de fidelidade ao rei, na execuo deste 
acto e em resolver a forma
da entrada e entrega dos despojos.
358 Crucesignati Anglici Epistola..202
arrabaldes fortificados que formavam como uma continuao dela passavam-
se cenas
infernais. Querer dar ordem e regularidade ao saco e distribuio dos despojos 
fora v
tentativa. Pretender coibir a cobia, a crueldade, a luxria, as paixes ardentes 
e ruins
daquela multido de homens desalmados e ferozes era tentar o impossvel. 
Juramentos,
acordos, promessas de obedincia, tudo esqueceu num momento. Diz-se que 
os autores
e actores dessas cenas de horror foram os alemes e flamengos 359 : as 
antecedncias,
porm, dos anglo-normandos legitimam a persuaso de que no ficariam 
simples
espectadores de tais cenas, convertidos de sbito em modelos de moderao e 
de
desinteresse, assim como  de crer que no faltariam soldados portugueses 
que se
associassem nesta conjuntura aos estrangeiros. O que, porm,  certo  que 
uma grande
parte das tropas vitoriosas se derramaram pela cidade, praticando toda a 
espcie de
desatinos. Espalhados por aquele ddalo de ruas e becos, de cujos meandros, 
escurido e
estreiteza apenas a moderna Alfama nos poderia dar uma remota ideia, no 
meio da plebe
esfaimada, por entre os cadveres das vtimas do ferro, da doena e da fome, 
caminha
desenfreada a nsia da rapina. As portas estouram aos golpes de machado; os 
aposentos
interiores so devassados e revolvidos: espancam-se os homens e violam-se 
as mu-lheres:
as alfaias amontoam-se nas ruas para logo se dispersarem, arrebatadas
furtivamente para uma e outra parte. No meio da confuso,  menor 
resistncia, o
sangue corria; corria at o daqueles que nem podiam tent-la. Assim sucedeu 
com o
bispo morabe, ancio venervel, a quem cortaram a cabea, talvez por 
querer salvar
os ornamentos do culto 360 . Apesar do artigo especial relativo ao caide, no 
s o
despojaram de tudo, mas, at, o prenderam. Desafogado, porm, aquele 
primeiro mpeto
de cobia, o despojo da cidade comeou a fazer-se mais regularmente, e 
resolveu-se
averiguar depois quem tinha sonegado quaisquer objectos, para se fazer com a 
possvel
equidade a repartio do roubo 361 .
Com a noite de sexta-feira acabou o saco. A populao, completamente 
espoliada,
comeou a sair por trs portas que para esse fim foram designadas, e aquele 
triste xodo
dos sarracenos durou sem interrupo at  quarta-feira seguinte. Contava-se 
depois que
as poucas subsistncias que restavam em Lisboa se tinham tornado incapazes 
de servir
por intolervel mau cheiro, e que depois da entrada das tropas franco-
portuguesas se
converteram em alimento de excelente sabor. Naquelas pocas nunca faltava 
um
milagre que justificasse com visveis sinais da aprovao celeste as grandes 
atrocidades.
Apesar da raridade das vitualhas, ainda depois de despejada a cidade se 
acharam em
subterrneos oito mil cargas de trigo e cevada e doze mil sexteiros de azeite. 
Do que,
porm, restava maior abundncia era de cadveres e de moribundos. S 
dentro da
mesquita, vasto edifcio formado por sete renques de colunas com os seus 
coruchus,
estavam acumulados duzentos mortos e mais oitocentos enfermos esqulidos 
e imundos
362 . O espectculo da profunda misria dos vencidos, quer dos que ficavam e 
que
deviam ser os servos e os indivduos da classe mais humilde, quer dos que, 
foragidos,
iam buscar abrigo nas provncias da Pennsula ainda sujeitas ao islamismo, era 
bastante
para despertar a piedade nos nimos menos ferozes ou menos pervertidos. A 
doena
fazia horrveis estragos. Nas ruas e vielas, nas casas convertidas em 
pardieiros, por entre
os vinhedos dos arredores, nas azinhagas e nos trilhos das charnecas, muitos 
milhares de
cadveres jaziam convertidos em pasto das feras e das aves de rapina. 
Encontrava-se
359 Ibid.
360 Episcopum vero civitatis antiquissimum praeciso jugulo contra jus et fas 
occidunt, ibid. Este bispo
no podia ser seno o dos cristos morabes, que deviam constituir uma 
grande parte da populao de
Lisboa, como sabemos positivamente que constituam parte da de Santarm.
361 Ibid.
362 Ibid..203
gente viva que no gesto pouco se dessemelhava de cadveres e que mais se 
arrastava do
que andava. Muitos deles, abraados com a cruz, beijavam-na e clamavam  
Virgem
Maria, como ao seu ltimo amparo. Notavam com espanto os cruzados que em 
tudo
quanto diziam ou faziam misturavam o nome da me de Deus e invocavam-na 
ainda no
momento de expirar. Aos olhos dos francos, os quais ignoravam que a antiga 
raa goda
submetida pelos sarracenos ficara pela maior parte no meio deles, adoptando-
lhes trajos,
lngua, costumes, tudo, menos a crena, aqueles sinais de ardente cristianismo 
eram a
manifestao de um grande milagre na sbita converso de tantos infiis; mas 
para os
portugueses o facto devia provar apenas quo grande era o nmero dos 
morabes na
mesclada populao de Lisboa.
Qual fosse o efeito moral de to importante conquista fcil  de supor. Todo o
distrito desta como pennsula formada pelo territrio aqum e alm do Tejo, 
perto da
foz do rio, submeteu-se imediatamente. Apesar do quase inacessvel da sua 
posio, o
castelo de Sintra entregou-se a Afonso Henriques por capitulao antes de ser
combatido, e as tropas que guarneciam o de Palmela desampararam-no, indo
pacificamente apoderar-se do deserto castelo um troo de homens de armas 
enviado
pelo rei de Portugal 363 .
No meio das conquistas que temos narrado a populao sarracena devia ter
consideravelmente diminudo. Aqueles a quem as circunstncias o permitissem 
acolher-se-
iam  provncia de Al-Kassr; mas os outros, expostos a todas as calamidades 
da
guerra, e guerra de homens ferozes e possudos do dio religioso contra os 
vencidos,
experimentaram, como acabamos de ver em relao a Lisboa, as 
consequncias de tal
situao. Aldeias inteiras ficariam ento ermas, e incultos muitos campos at a
produtivos e abundantes por benefcio da to adiantada agricultura dos rabes. 
Estes
resultados provveis da conquista foram, todavia, remediados, ao menos em 
parte. Os
francos que no voltaram aos seus pases receberam terras para arrotearem 
ou
repovoarem, debaixo da autoridade dos seus respectivos chefes. Assim 
Guilherme,
apelidado Lacorni ou Descornes, povoou, em parte, com os seus homens de 
armas a
Atouguia; Jourdan, outro capito dos cruzados, estabeleceu-se na Lourinh, e 
Alardo
(talvez Adhelard) em Vila Verde 364 . Dentro em breve esta gente colectcia, 
este
vulgacho indmito, foi-se afazendo  vida sedentria e abandonando o trato 
das armas,
ou porque os seus chefes desejassem, enfim, o repouso, ou porque o prprio 
rei os
escusasse, temendo a ferocidade nativa deles, da qual ainda h pouco tivemos 
de relatar
bem notveis exemplos 365 .
363 Ibid. Veja-se a nota XXIII no fim do volume.
364 Arquivo Nacional, Mao 12 de Forais Antigos, n 3, fs. 32 v. e 33 v.; Gav. 
15, Mao 9, n 22; Forais
Antigos de Leitura Nova, f. 16; Mao 12 de Forais Antigos, n 3, f. 34 v. O 
grande nmero de
estrangeiros, principalmente sacerdotes, que ficaram residindo em Lisboa 
deduz-se dos muitos nomes
peregrinos que aparecem em alguns documentos exarados naquela poca. Tal 
 a doao feita aos
templrios em 1159 (Carta de Tomar, no Arquivo Nacional) por Gilberto 
primeiro bispo de Lisboa
depois de restaurada, em que figuram como confirmantes diversos cnegos 
cujos nomes so estranhos,
declarando, at, alguns as suas ptrias, como Gualterius flandrensis, Galterius 
hastingiensis. Entre as
testemunhas aparece Jocelinus de Baius, Hua de Silesia, Alfredus de 
Caranton, Dominicus Ferriol, etc.
Vejam-se iguais subscries em Cunha, Histria Eclesistica de Lisboa, P. 2, c. 
2.
365 Concebe-se qual era a fereza dos costumes nesta espcie de colnias 
vindas do Norte quando se l no
foral da Lourinh uma pena atroz, de que apenas encontrmos exemplo em 
outro de terra povoada por
gente portuguesa: Si aliquis aliquetu interfecerit, si eum pretor et concilium 
comprehendere poterint
sepeliatur vivus, et interlectus super eum projiciatu. De que os estrangeiros 
foram sucessivamente
escusados do servio militar e de que, at, se negavam a faz-lo so indcios 
claros as seguintes passagens
do foral de Atouguia (francos): In diebus D. Villelmi moa fuit ut quando in 
exercito regis pergere cum
co debebant, in quantiscumque poterat eos excusabat; Quando mandatum 
do-mmi regis audierint, ut lii
exercitu suo ad pugnam contra paganos, aut ubi ipse jusserit, pergant leti, abs 
que ulla contradictione.204
Enquanto Santarm e Lisboa sucumbiam assim  fortuna de Afonso I, a guerra
civil continuava a devorar a Espanha muulmana, e as duas provncias de Al-
Kassr e
Al-Faghar eram o principal teatro de novas revolues. As violncias e tiranias 
de dois
irmos de A1-Mahdi, que, depois de subjugada Sevilha pelo general almada 
Berraz,
residiam naquela cidade, tinham comeado a indispor os nimos dos 
sarracenos
andaluzes contra os seus novos senhores. O antigo governador de Niebla, 
privado
daquela dignidade em consequncia dos ltimos sucessos, vivia tambm em 
Sevilha.
Vexado pelos dois orgulhosos almadas, resolveu, enfim, vingar-se e, partindo 
para o
distrito que anteriormente governara, teve maneira de fazer rebelar Niebla. 
Daqui,
marchando contra Tablada, apoderou-se desta povoao e do castelo 
chamado Hisn Al-Kassr.
O bom sucesso da empresa produziu imitadores. Ibn Kasi, o antigo aliado de
Afonso Henriques e que pouco havia se declarara to ardente parcial dos 
almadas,
rebelou-se em Silves, ao passo que Ibn Ali Ibn Al-Hajan fazia o mesmo em 
Badajoz e
Ali Ibn Isa em Cdis. Enfim, a revoluo lavrou pelo Sul e Ocidente do Andaluz 
com tal
fora que apenas Ronda e Xerez se conservaram fiis. A dificuldade, porm, 
era
sustentar a independncia destes pequenos estados, que nasciam e morriam 
com a
mesma rapidez, contra as foras do sempre vitorioso Abdul-Mumen. Este, 
apenas soube
do levantamento, fez passar aqum do Estreito um exrcito de almadas 
conduzidos por
Yusuf Ibn Suleiman, que brevemente reduziu  obedincia Niebla e Tablada. 
Dali Yusuf
marchou contra Silves, que tomou, bem como Faro, onde dominava um certo 
Isa Ibn
Maimun. Vendo a presteza com que tudo cedia ao general do amir de 
Marrocos,
Mohammed Ibn Ali, governador de Badajoz, enviou mensageiros a Yusuf com 
ricos
presentes, implorando perdo. Obteve-o, e o exrcito vencedor retirou-se para 
Sevilha
366 .
Vimos como Palmela caiu sem combate em poder de Afonso I. A posse deste
castelo, fortssimo pelo ponto em que est assentado, tornava-se militarmente 
de grande
importncia. Ao mesmo tempo que, por nos servirmos duma expresso da 
tctica
moderna, ele era uma excelente base de operaes para prosseguir a guerra 
na provncia
de Al-Kassr, podia considerar-se como a chave do territrio que se dilata entre 
a baa do
Sado e a do Tejo e, por consequncia, como servindo de atalaia ou posto 
avanado dos
territrios de Almada e de Lisboa. Assim ficava submetida aquela lngua de 
terra entre
as duas baas, a qual, bojando para o Atlntico, termina no cabo Espichel, e 
Lisboa
defendida de um assalto inesperado, alis fcil, se as tropas muulmanas 
pudessem
aproximar-se livremente da margem esquerda do Tejo e transportar-se  
margem direita
em barcas que, saindo do Chetawir (Sado), viessem entrar de noite no vasto 
porto da
cidade novamente subjugada.
Entre Alccer do Sal e Palmela medeiam pouco mais de seis lguas, e essa
distncia no era bastante para impedir que os homens de armas deste ltimo 
castelo
fizessem num s dia ou numa s noite correrias e estragos nos arredores da 
antiga
Salcia, que to clebre se tornara no tempo do imprio dos Benu Umeyyas de 
Crdova
como arsenal donde saam poderosas frotas contra os cristos, entre as quais 
 a mais
notvel aquela que levou ao Douro parte do exrcito de Al-Manssor para a 
expedio de
Compostela. Porventura o ter sido durante algum tempo a capital dum extenso 
territrio
no Ocidente da Pennsula fizera com que desse o seu nome  mais dilatada 
das trs
provncias do Gharb. Alccer achava-se no sculo XII decada da anterior 
grandeza;
secundum posse suum. Esta ltima clusula, igualmente alheia  
generalidade dos forais portugueses,
pressupe a resistncia ou m vontade dos colonos do Norte no servio militar. 
Em lugar prprio
trataremos especialmente desta colonizao singular.
366 Ibn Khaldun, em Gayangos (verso de Al-Makkari), Vol. 2, Apndice D, pp. 
50 e ss. Assaleh (Abdel-Halim)
e Conde so omissos acerca destes sucessos..205
mas ainda se distinguia pelo pinturesco do stio e pelo seu aprazvel aspecto. 
Assentada
nas margens do Chetawir, grande nmero de embarcaes subiam e desciam 
o rio
carregadas com as mercadorias que lhe alimentavam o comrcio, 
necessariamente
activo pela proximidade da populosa e opulenta Iaborah (vora). Cercavam-na 
por
todos os lados extensos pinhais, e as madeiras que neles se cortavam 
constituam um
dos principais objectos de exportao. Naturalmente frteis, os seus arredores 
eram
ricos de gados, que produziam abundncia de lacticnios e carnagens. O mel 
que a se
recolhia formava uma poro da sua riqueza 367 . Tal  o quadro que, apesar 
da deca-dncia
poltica de Alccer, ainda nos fazem dela os escritores rabes do sculo XII. Da
sua importncia militar, da fortaleza do castelo que a defendia  argumento 
quanto
sangue custou aos cristos conquist-la e reconquist-la depois de perdida de 
novo.
Hoje de tudo isto restam apenas largos panos de muros rotos e pendidos, 
torres
derrocadas ou fendidas, que vacilam e ameaam esmagar parte da povoao 
assentada a
seus ps. Os bosques desapareceram em grande parte, e os prados que 
alimentavam
numerosos armentios converteram-se em alagadios, donde mana a 
corrupo. As
febres mortferas do estio tingem o gesto dos habitantes de uma cor de 
cadver, que
harmoniza tristemente com aquelas pedras tombadas e plidas, com os 
vestgios de duas
grandes civilizaes que passaram por essa terra de muitos sculos.  raiz do 
alto
cubelo sarraceno jaz o fuste da coluna romana: a inscrio latina faceia o muro 
da que,
talvez, foi mesquita muulmana e que hoje  um pobre templo cristo. Runas 
sobre
runas cimentadas com o sangue de muitos combates, e no meio delas uma 
populao
enfezada e doentia, eis o que resta da bela A1-Kassr Ibn Abu Dans, afora 
uma pouca
actividade comercial que os erros dos homens no puderam destruir, porque 
dependia
da situao do lugar, emprio e mercado natural das terras sertanejas que 
demoram ao
norte e oriente do Sado.
De Palmela, conforme  de crer, Afonso I infestava o territrio de Alccer. Um
dos meios que empregavam os cristos para reduzirem os lugares populosos, 
em cuja
conquista punham a mira, era o devastarem de antemo as cercanias deles. 
No faltam
exemplos de tal sistema, e um dos mais notveis  o que seguiu Afonso VI 
antes de
cercar Toledo. Assim, empobrecida a povoao, principalmente de vveres, a 
fome, que
pouco tardava a associar-se aos outros males de um estreito assdio, ajudava
poderosamente a violncia dos assaltos. Talvez movido por este pensamento 
ou por
ocasio de alguma tentativa para experimentar de novo em Alccer o plano da 
tomada
de Santarm, Afonso I lanou-se num risco extremo, de que parece ter-se a 
custo
salvado. Seguido apenas de sessenta homens de armas, o prncipe portugus
aproximara-se daquele castelo. Iam ele e os seus levemente armados. 
Descobertos pelos
sarracenos, estes acometeram impetuosamente os cristos. Eram os 
cavaleiros
muulmanos quatro ou cinco vezes mais numerosos e ajudados por muita 
gente de p.
Cercado daquele punhado de guerreiros, no recusou Afonso I o combate. Os 
sculos
escureceram a memria dos prodgios de valentia que a se praticaram: 
sabemos s que
os inimigos foram, enfim, constrangidos a recolher-se para Alccer, posto que o 
prprio
Afonso sasse ferido daquele perigoso combate. O extraordinrio do sucesso 
fez, como
era natural, que os contemporneos o atribussem a milagre 368 .
Dissemos que, porventura, o rei de Portugal se aproximara de Alccer com o
intuito de saltear inesperadamente o castelo. S assim se explica 
plausivelmente a sua
presena ali com to pouca gente de guerra e to levemente armada para 
combate
367 Edrisi, Geografia, Vol. 2, p. 32.
368 Chronica Gothorum, na Monarquia Lusitana, L. 10, c. 39.. A se diz que 
os sarracenos eram
quinhentos cavaleiros e dez mil pees. Como se esta exagerao no 
bastasse, na parfrase daquela
crnica (exemplar de Resende) se eleva o nmero da infantaria sarracena a 
quarenta mil homens..206
campal. De mais, o feliz resultado obtido em Santarm devia incit-lo a repetir 
a
tentativa. No , porm, s isto. Um clebre historiador rabe quase coevo nos 
diz que a
maior parte das conquistas do senhor de Coimbra foram feitas por aquela 
maneira. O
testemunho insuspeito do escritor muulmano  ainda mais glorioso para 
Afonso I que
as narrativas rpidas e obscuras dos monumentos cristos. Por ele sabemos 
hoje que o
valente prncipe era o primeiro a expor a vida naqueles cometimentos 
nocturnos. O
modo como este inimigo de Deus, diz Ibn Sahibi s-Salat, tomou a maior parte 
dos
castelos (das provncias de Belatha e de Al-Kassr) foi o seguinte: escolhido o 
ponto do
ataque, em noite escura e tempestuosa saa de uma das suas fortalezas, nas 
quais
usualmente habitava, levando consigo um punhado de homens de armas 
resolutos.
Chegado ao castelo que ia saltear, era ele quem encostava a escada ao muro; 
ele o
primeiro em subir. Apenas galgava as ameias punha-se a escutar para saber 
ao certo se
as sentinelas vigiavam ou no. Obtida a certeza de que os nossos dormiam,
arremessava-se  sentinela mais prxima e, pondo-lhe um punhal aos peitos,
constrangia-a a passar palavra, segundo o costume, para fazer acreditar s 
outras que
no havia novidade. Aps isto esperava no adarve que tivessem subido em 
nmero
suficiente os que o seguiam. Ento, levantando o seu grito de guerra 
(Santiago!),
precipitavam-se todos dentro da povoao, passando  espada, sem 
excepo, aqueles
que encontravam 369 .
Se fora, porm, um destes cometimentos nocturnos que Afonso I empreendera
contra Alccer, ele lhe sara baldado. Era, por consequncia, necessrio 
apoderar-se
daquela povoao importante  viva fora, e para isso acaso faltavam ento 
recursos ao
rei de Portugal. O dispndio de cabedal e de sangue que lhe custara a 
conquista de
Lisboa; a gente dos cruzados que devia ter abandonado o pas para conduzir, 
quer ao
Oriente, quer aos portos donde sara, uma armada de perto de duzentas velas; 
as tropas
necessrias para guarnecer as cidades e castelos to rapidamente subjugados; 
a
distraco de uma grande parte dos francos que restavam para os trabalhos 
rurais e
estabelecimento de colnias na Estremadura; tudo isto diminua o nmero de 
soldados
aptos para entrarem em campanha nas plancies do Alentejo, comeando por 
sitiar
Alccer. Assim, o motivo do silncio que guardam as memrias desse tempo 
acerca dos
sucessos ocorridos nos anos imediatos  conquista do territrio que se estende 
entre o
Tejo e o Atlntico, fica sendo bvio. A histria era ento quase exclusivamente
guerreira, como os homens a que se referia, e, com efeito, a guerra no s 
constitua, em
geral, o estado ordinrio das sociedades naquela poca, mas tambm vinha a 
ser, em
especial, a primeira necessidade de um pas assaz pobre e limitado e que no 
podia viver
de vida prpria, sem que, dilatando-se  custa dos sarracenos, adquirisse 
maior vulto e
robustez. Quando, pois, os prncipes, cansados de contnuos combates, 
depunham as
armas para restaurarem a exaurida energia, a histria abandonava-os para de 
novo os
seguir quando tornavam a aparecer nos campos de batalha.  esta a razo por 
que as
raras crnicas coevas ou quase coevas de Afonso I nada ou pouqussimo nos 
dizem
acerca dos sucessos de dez anos, isto , desde a tomada de Lisboa at que os 
cristos
alcanaram, enfim, apoderar-se de Alccer. A actividade, porm, do rei de 
Portugal
devia durante esse perodo voltar-se para os negcios internos do pas e 
sobretudo para a
restaurao da nova provncia que incorporara nos seus domnios, 
necessariamente
assolada pelos acontecimentos de que fora teatro. Era desse modo que ele 
poderia
habilitar-se para empreender as suas ulteriores conquistas.
Muitos dos estrangeiros vindos na armada do conde de Areschot ficaram, como
dissemos, residindo em Lisboa; muitos deles fizeram assento no interior da 
provncia.
369 Ibn Sahib s-Salat, em Gayangos (verso de A1-Makkari), Vol. 2, nota, p. 
552..207
As ordens de cavalaria, as catedrais, as corporaes monsticas foram 
liberalmente
dotadas nas terras novamente adquiridas. Abaixo de Leiria para o ocidente 
fundou-se
por esta poca (1153) um mosteiro, o de Alcobaa, que veio a ser o mais 
clebre de
Portugal e a cujos monges se deveu sucessivamente a cultura de uma extensa 
parte da
Alta Estremadura, a qual at a fora uma vasta solido e por muito tempo 
servira de
campo neutro entre cristos e sarracenos 370 , Ao passo que estas poderosas 
corporaes
faziam surgir as vilas e aldeias por meio dos novos colonos que atraam, tanto 
de fora
do pas como dos distritos do Norte, rei ia repartindo pelos seus homens de 
armas as
propriedades sitas nos lugares principais e pertencentes aos sarracenos 
mortos durante a
luta ou que haviam abandonado a ptria serva dos inimigos 371 . Ao mesmo 
tempo os
muulmanos que aceitavam o jugo dos cristos continuavam a desfrutar os 
seus bens
debaixo da denominao de mouros forros, chegando em breves anos a 
obter
concesses especiais de proteco que os punham a abrigo de quaisquer 
violncias da
parte dos vencedores 372 .
Apenas, porm, tinham passado quatro anos depois da tomada de Lisboa e j 
o rei
de Portugal se preparava para prosseguir a guerra. Na falta de tropas, 
produzida
necessariamente pelas causas cuja existncia indicmos, procurou engrossar o 
seu
exrcito com gente estrangeira, fazendo levas em Inglaterra. O islamismo, 
contra o qual
ele combatia, dava um carcter de cruzada a qualquer expedio que viesse 
em auxlio
deste prncipe; e assim, era com o pretexto de militar contra os inimigos da cruz 
que ele
devia principalmente atrair esses guerreiros impvidos da Europa setentrional. 
Gilberto,
sacerdote ingls que fora elevado  dignidade de bispo de Lisboa, partiu, 
portanto, para
a Gr-Bretanha em 1151 a pregar uma nova cruzada contra Sevilha, isto , 
contra os
domnios dos almadas na Espanha, cuja capital era ento aquela cidade. As 
diligncias
de Gilberto foram, segundo parece, coroadas de bom sucesso, e uma armada 
partiu de
Inglaterra para Portugal. Junto com os seus auxiliares, Afonso foi sitiar Alccer,
provavelmente ainda nesse ano ou no seguinte. Mas a empresa falhou, porque 
os defen-sores
da forte povoao resistiram energicamente, e a armada dos cruzados voltou,
segundo cremos, a Inglaterra sem haver concludo coisa alguma 373 .
Apesar de repelido, Afonso no desistiu da empresa, que se renovou no ano de
1157. Deu ocasio  tentativa a vinda de outra armada que, navegando do mar 
do Norte,
se dirigia para a Sria. Nestas longas viagens, as costas da Pennsula 
ofereciam aos
navegantes corridos dos temporais ou necessitados de provises e refrescos, 
antes de
370 A disputa entre o arcebispo de vora, So Boaventura (Histria 
Cronolgica e Critica de Alcobaa, p.
37), e J. P. Ribeiro (Dissertaes Cronolgicas, T. 4, P. 1, p. 9) sobre se os 
coutos de Alcobaa foram ou
no arroteados e povoados pelos cistercienses no teria progredido se 
qualquer deles houvera atendido
aos documentos citados por Brando (Monarquia Lusitana, P. 3, L. 9, c. 25), s 
bulas relativas aos
templrios, existentes na Torre do Tombo, Gav. 7, Mao 3, n 17, e Mao 9, n 
35, e  narrativa da vida
de So Martinho de Soure, pargrafo 2. A comparao destes monumentos 
prova com clareza que antes
do meado do sculo XII a maior parte da Alta Estremadura era um ermo.
371 ...corporali labore et pervigili astucia mei et meorum hominum oppidum de 
Santarem sarracenis
abstuli et eam dei cultui restitui, et vobis meis hominibus atque vassalis et 
alumnis ad habitandum jure
hereditario tribui, foral de Santarm, no Arquivo Nacional, Mao 3 de Forais 
Antigos, n 3.
372 Vobis mauris qui estis forri in Ulixbona et in almadana et in palmela et in 
alcazar, foral dos Mouros,
no Arquivo Nacional, Mao 12 de Forais Antigos, n 3, f. 12
373 Anno 1151 Gilebertus episcopus Olisiponis, praedicans in Anglia, 
plurimos sollicitavit in Hispaniam
proficisci, Hispalim obsessuros et expugnaturos, Johan Prior Hagustald., apud 
Twysden, Hist. Anglicar.
Scriptores, p. 278. A interpretao que demos a este incompleto e obscuro 
texto  a nica possvel.
Sabemos pela Chronica Gothorum que Alccer fora atacada inutilmente 
duas vezes com socorro de
estrangeiros. Nos escritores contemporneos no se acham vestgios de 
nenhuma armada de cruzados que
pudesse vir a Portugal por estes anos, seno a de Thierry de Flandres, em 
1157.  por isso necessrio
supor que a primeira expedio se dirigiu determinadamente aqui, e o mais 
natural  que ela fosse o
resultado das diligncias de Gilberto..208
entrarem no Mediterrneo, abrigo seguro nos seus vastos portos. Entre os do 
territrio
dominado pelos cristos nenhum podia igualar o da foz do Tejo pela sua 
situao, e
assim, desde a conquista de Lisboa, veio este a ser o mais frequentado pelas 
frotas que
seguiam a rota do Oriente. A braos com os muulmanos na prossecuo dos 
desgnios
que tinha de engrandecer os prprios estados, Afonso I devia invocar em seu 
auxlio os
motivos que arrojavam os guerreiros da cruz para a Palestina. Por pouco que 
lhes
mostrasse a perspectiva de duros combates com os infiis e de ricos despojos, 
a cobia,
menos hipcrita ento que nestes nossos tempos, e o entusiasmo religioso, 
que de algum
modo nobilitava essa cobia, eram incentivos suficientes para os resolver a 
ajudarem-no
nas suas conquistas. Com a mira na de Alccer, socorreu-se aos recm-
chegados para
repetir a tentativa; mas, como da primeira vez, de novo foi rechaado 374 . 
Acerca destes
sucessos, referidos sucintamente pela Crnica dos Godos, nenhumas 
particularidades se
encontram nas memrias contemporneas, que, assaz resumidas em relatar os
acontecimentos prsperos, ainda o so mais nos adversos, quando no os 
ocultam de
todo. Apenas se pode acreditar com grande probabilidade que esta frota era a 
do conde
da Flandres, Thierry ou Teodorico da Alscia, que em 1157 partiu para a Sria 
375 . Da
vinda de Thierry a Portugal naquela conjuntura se originou provavelmente a 
errada
tradio de que ele fora um dos cruzados que assistiram ao cerco e tomada de 
Lisboa
376 .
Todavia, Alccer caiu enfim (24 de Junho de 1158). Aquele castelo, cujos 
restos
do ainda um melanclico testemunho da antiga solidez e que resistira s 
foras
reunidas de Afonso I e dos homens de armas ingleses e flamengos, veio a 
render-se
depois de sessenta dias de incessantes combates aos ss portugueses que o 
sitiavam.
Segundo os historiadores rabes, a guarnio foi metida  espada, mas das 
memrias
crists parece concluir-se que, entregue o castelo, concederam os vencedores 

guarnio sarracena o retirar-se para o interior do Gharb, levando aos seus
correligionrios a dolorosa certeza de que os campos da provncia de Al-Kassr 
ficavam,
finalmente, abertos s entradas do impetuoso Ibn Errik 377 .
Enquanto assim o pequeno reino de Portugal se dilatava para o sul e oriente, a
poderosa monarquia de Leo e Castela recebia um profundo golpe com a 
morte do
imperador Afonso VII (1157). Apesar da experincia das perturbaes 
passadas, antes
de falecer este prncipe dividira os vastos estados que possua entre os seus 
dois filhos.
A Castela com todas as provncias que lhe estavam unidas ficou ao 
primognito,
Sancho, e a Fernando, o segundo-gnito, Leo com a Galiza e a Estremadura. 
Entre os
dois irmos parece terem-se levantado a princpio algumas discrdias que no 
consta
chegassem a rompimento. Essa nuvem, porm, que assomava nos horizontes 
polticos
no tardou a desvanecer-se. Os reis de Castela e Leo encontraram-se em 
Sahagn e a
celebraram um convnio destinado, no s a manter a paz entre os respectivos 
estados e
374 Jam quidem, prius obsederat eum per duas vices, adjutus multitudine 
navium quae adverant de
partibus aquilonis, Chronica Gothorum, na Monarquia Lusitana, P. 3, L. 10, 
c. 39.
375 Roberto de Monte, apndice, Pistrio, T. 1, p. 636, e os autores citados na 
Geschichte der
Hohenstaufen, de Raumer, T. 2, p. 341, nota 4 (2. edio).
376 Monarquia Lusitana, P. 3, L. 10, c. 25.
377 Crnica Conimbricense, na Espaa Sagrada, T. 23, p. 331; Chronica 
Gothorum, na Monarquia
Lusitana, L. 10, c. 39. As palavras: Tradidit eum (sdil. Alcasserum) 1111 
dominus... ejectis inde
omnibus sarracenis indicam um convnio, em virtude do qual a guarnio 
sarracena saiu do castelo.
Tomado este de assalto, os que escapassem ficariam cativos ou seriam 
mortos, segundo a narrativa de
Conde, alids errada, pelo menos na data: En el mismo ao (1160) los 
cristianos tomarn la fortaleza de
Alcazar Alfetah en Algarbe, que se llamava alcazar dAbi Denis, y degollarn  
los que la defendian,
Conde, P. 3, c. 44, in fine. A denominain de Alletah (a entrada) dada a Alccer 
prova bem que este
castelo era considerado como a chave do Alentejo por esta parte, conforme 
dissemos..209
a assegurar o mtuo auxlio nas suas guerras defensivas ou ofensivas, mas 
tambm a
regular os limites das futuras conquistas de cada um. Interessa-nos 
especialmente esse
convnio, porque a se revela que, embora Afonso VII houvesse dado uma 
espcie de
consentimento tcito  independncia de Portugal, ou reservara na mente a 
esperana de
submeter ainda o primo, legando esse pensamento a seus filhos, ou estes 
adoptaram
novamente uma ideia j abandonada. O que  certo  que no tratado feito em 
Sahagn a
22 de Maio de 1158 entre Sancho e Fernando, ambos se obrigaram a no 
celebrarem
acordo algum com o rei de Portugal desvantajoso para qualquer deles, sem 
mtuo
consentimento. Na hiptese de conquistarem os estados do seu primo, no que, 
parece,
seriamente meditavam, comprometiam-se a repartirem-nos igualmente entre si, 
fazendo
o rei de Leo a partilha e escolhendo o de Castela o quinho que lhe 
conviesse. Quanto
s aquisies nos territrios sarracenos, Fernando devia apoderar-se das 
modernas
provncias portuguesas do Alentejo e Algarve e dos territrios de Niebla, 
Montanches e
Mrida, enquanto as conquistas da para o oriente ficariam pertencendo  
coroa de
Castela 378 .
A morte, porm, de Sancho, ocorrida poucos meses depois da celebrao 
deste
convnio, baralhou todos os desgnios de engrandecimento dos dois irmos. O 
rei de
Castela deixava um filho de menor idade, que foi Afonso VIII, denominado o 
Nobre.
Com o pretexto de ter direito  tutoria do sobrinho e aproveitando as discrdias
suscitadas pelos grandes acerca deste objecto, Fernando entrou com mo 
armada no
territrio de Castela, onde durante a guerra civil, que se protraiu por alguns 
anos,
chegou a apoderar-se de Toledo 379 . No meio destes calamitosos sucessos 
produzidos
pela ambio, o imprio dos almadas ia-se consolidando na Espanha 
muulmana. Ao
mesmo tempo adversrio dos almorvidas, que debalde lhe disputavam uns 
restos de
domnio nos distritos meridionais do Andaluz, e dos cristos, inimigos
incomparavelmente mais fortes e perigosos, Abdul-Mumen, entretido em 
esmagar
rebelies na Africa e em alongar naquela regio as fronteiras do imprio, 
sustentava a
guerra daqum-mar pelos seus generais. Ibn Ghaniyah, o ltimo defensor 
ilustre da
dinastia lantunense, perecera em um combate na veiga de Granada (1148), 
depois de ter
perdido Crdova e quase todas as outras povoaes importantes. Lanando-se 
ento nos
braos de Afonso, cujas armas vitoriosas tinham chegado at s praias do mar 
Mediter-rneo,
onde ele reduzira Almeria no mesmo ano em que seu primo se apoderava de
Lisboa, os almorvidas no tinham feito mais do que contribuir para o 
engrandecimento
do monarca leons, sem por isso evitarem a prpria runa. Com a ambio de 
Afonso
VII, bem semelhante em carcter e esforo ao rei de Portugal, fcil  de 
imaginar se ele
saberia aproveitar esta contenda dos dois partidos rivais, que, hostilizando-se 
mu-tuamente,
lhe facilitavam o realizar os seus desgnios. A histria dos dez anos
decorridos desde a tomada de Almeria at  morte do imperador  a de uma 
srie quase
no interrompida de devastaes feitas pelos cristos no Meio-Dia da 
Pennsula.
Debalde os muulmanos espanhis parciais dos almadas enviaram ao 
poderoso amir de
Marrocos deputaes numerosas com protestos de ilimitada adeso e 
obedincia,
pedindo ao mesmo tempo fizesse passar para Espanha foras capazes de 
porem termo s
prosperidades do prncipe infiel. Ouviu-os ele, tratou-os benignamente e 
despediu-os
com ricos presentes e grandes promessas. Veio, at, a Ceuta com 
demonstraes de
querer transpor o Estreito; mas repentinamente marchou dali para o Oriente da
Mauritnia a prosseguir nas suas conquistas, reduzindo o socorro dado aos 
sarracenos
378 Documento da era 1196, 10 das calendas de Junho, apud Escalona, 
Historia dei Monasterio de
Sahagn, Apndice III, escrito 174.
379 Rodrigo de Toledo, de Rebus Hispaniae, L. 7, c. 12 e ss. Lucas de Tuy, 
Cronicon Mundi, pp. 105 e
ss.; Risco, Reyes de Lon, T. 1, pp. 355 e ss..210
espanhis a enviar foras de mar e terra que cercaram Almeria. Foram elas 
suficientes
para resistirem a Afonso VII, que tentou em vo fazer levantar o assdio; mas 
no
bastaram a impedir que os inimigos rendessem outros lugares, como Baeza e 
Ubeda,
dos quais o imperador se apoderou durante aquele cerco. No mesmo ano em 
que Afonso
faleceu, Almeria caiu, enfim, nas mos de Cid Abu Said, filho do amir al-
mumenin, que
este pusera  frente daquela expedio 380 .
A conquista da antiga Salcia sem auxlio estranho devia aumentar a confiana
dos homens de armas portugueses na capacidade do seu chefe e no prprio 
esforo.
Diante deles se alongava a provncia de Al-Kassr por vastas plancies, onde o 
risco de
recontros em campina rasa com os inimigos, muitas vezes superiores em 
nmero,
sobretudo de cavalaria, era compensado pela menor frequncia de alturas 
coroadas de
castelos difceis de reduzir e ao mesmo tempo perigosos para qualquer 
exrcito os
deixar aps si guarnecidos de sarracenos. Ao passo que o terror produzido por 
tantos
reveses conservava acabrunhados os nimos dos muulmanos, a reputao 
militar de
Afonso I excedia a de todos os prncipes da Espanha crist pelo brilho das 
vitrias e
pela rapidez das conquistas 381 .
No vigor da idade, tendo visto realizarem-se uns aps outros quase todos os 
seus
intentos, este homem, cujo nome aparece na histria da lenta agonia do 
islamismo
espanhol como um anjo de extermnio, devia ter profunda confiana na sua 
fortuna.
Assim, para admitir factos subsequentes uniformemente referidos pelos 
historiadores
rabes,  necessrio supor que depois da conquista de Alccer os cristos 
vitoriosos
penetraram como uma torrente no serto do moderno Alentejo e que naquele 
primeiro
mpeto algumas povoaes importantes se lhes renderam, entre as quais 
vora e Bela.
Esta ltima, tomada nos princpios de Dezembro de 1150, foi abandonada 
depois de
quatro meses, havendo-lhe os conquistadores desmantelado primeiramente as
fortificaes 382 .
A glria adquirida por Afonso I fazia naturalmente desejar a sua aliana aos
outros prncipes da Espanha crist, que buscaram ligar-se com ele, no s 
estabelecendo
com Portugal estreitas relaes polticas, mas tambm unido-se com o valente 
prncipe
pelos laos de famlia. Perdera o rei dos portugueses, pouco depois da tomada 
de
Alccer, a rainha D. Matilde ou Mafalda, sua mulher (3 de Dezembro de 1158) 
383
ficando-lhe dela um filho e trs filhas, Sancho, Mafalda, Urraca e Teresa, todos 
ainda na
infncia, alm dos quais tivera outra filha, D. Sancha, segundo alguns 
pretendem, e dois
filhos, Henrique e Joo, falecidos em tenra idade 384 . Sancho (chamado 
primeiramente
Martinho) nascera em 1154, e nos anos prximos, posterior ou anteriormente, 
suas
irms D. Urraca e D. Mafalda. O conde de Barcelona, Raimundo Berenguer, 
tendo
casado com Petronilha, rainha de Arago; tivera dela um filho, chamado, como 
seu pai,
Raimundo Berenguer, o qual veio a herdar os estados de Barcelona e Arago, 
subindo
380 Assaleh, Histria dos Soberanos Maometanos, pp. 209 e ss.; Conde, P. 3, 
c. 42 e 43; Al-Makkari, B. 8,
c. 2.
381 He (Alfonso) pushed his conquets farther than any other chief of bis 
nations, Ibn Sahibi s-Salat, em
Gayangos (verso de Al-Makksri), Vol. 2, p. 521.
382 He took... Bela, on the 22 of Dil-Hajjah Heg. 554. (which answers to the 
first december of the
christian year 1159). After a stay of four months and ten days in the latter city, 
Alfonso evacuated it,
having previously demolished the fortification, id., ibid. Que no foi o prprio 
rei que a se conservou os
quatro meses, segundo a interpretao literal do texto de Ibn Sahibi, v-se do 
documento apontado por J.
P. Ribeiro, Dissertaes Cronolgicas, 1. 3, P. 1, n 458. Consultem-se os 
lugares dos historiadores
rabes citados adiante sobre o desbarato de Afonso I pelos almadas, em 
1161.
383 Pereira de Figueiredo, Elogios dos Reis de Portugal, p. 300; Dissertaes 
Cronolgicas, T. 3, P. 1, n.os
448, 449, 453.
384 Chronica Gothorum, era 1183; Brandin, Monarquia Lusitana, P. 3, L. 10, 
c. 19..211
ao trono com o nome de Afonso II 385 . Era este prncipe pouco mais velho que 
D.
Mafalda: todavia seu pai tratou de despos-lo com a infanta portuguesa. Para 
isto, no
meio das guerras em que andava ento envolvido no Sul da Frana, partiu para 
a
fronteira de Portugal, a fim de ajustar com Afonso I aquele consrcio. 
Encontraram-se
os dois prncipes em Tui (30 de Janeiro de 1160) e a, na presena de vrios 
prelados e
bares de Portugal, de Arago e de outras partes da Espanha, foi celebrado o 
contrato de
casamento, que a morte da infanta no consentiu chegasse a realizar-se 386 .
Nas discrdias civis que por aquele tempo andavam ateadas entre Castela e 
Leo,
em consequncia das ambiciosas pretenses de Fernando II, este prncipe, 
esquecido das
ideias de conquista que nutrira subindo ao trono, procurara tambm a aliana 
do rei de
Portugal, e s vistas de Tui com o conde de Barcelona seguiram-se no mesmo 
ano
outras em Cellanova com o rei leons. No nos resta especial memria dos 
objectos que
se trataram naquela conferncia; mas suspeitamos que por essa ocasio se 
ajustasse o
casamento da infanta D. Urraca e do rei de Leo, casamento que se efectuou 
em 1165. 
provvel que os dois prncipes, ambos resolvidos a prosseguir nas suas 
empresas pelo
territrio muulmano, tratassem a da demarcao dos limites futuros dos 
respectivos
estados. E, na verdade, os rpidos triunfos de Afonso I, que, j senhor de uma 
parte da
provncia de Al-Kassr, podia levar as suas armas at o corao da Andaluzia, 
tomando
assim o passo s conquistas dos leoneses e castelhanos, legitimam a suspeita 
de que
fosse a questo de limites uma das matrias tratadas naquela reunio dos dois 
prncipes.
O motivo capital, porm, que obrigava o rei de Leo a buscar a aliana do de 
Portugal
era o t-lo favorvel nas suas tentativas de usurpao em Castela 387 .
Estas importantes alianas, que eram um testemunho evidente da alta 
reputao do
rei de Portugal, tiveram em breve um triste desconto. O amir de Marrocos, 
tendo
concludo a conquista da Mauritnia oriental, resolvera, enfim, passar  
Espanha, onde a
fortuna to adversa se mostrava s armas muulmanas, sobretudo no 
Ocidente. Desde os
primeiros meses de 1160 ordenara ele a seu filho Abu Said, vli de Granada, 
que
aumentasse as fortificaes de Gibraltar. Conclu-das estas, o amir atravessou 
o Estreito
com um exrcito e veio ali fazer residncia por algum tempo (1161). Soava por 
todo o
Andaluz a fama das conquistas e dos estragos feitos pelo fero Ibn Errik nos 
territrios
do Gharb, e Abdul-Mumen vinha vingar as afrontas do islamismo. Dezoito mil
cavaleiros almadas foram ento enviados para as fronteiras ocidentais 
debaixo do
mando de Abu Mohammed Abdullah Ibn Hafss. Entrando na provncia de Al-
Kassr
saiu-lhes ao encontro Afonso I: os esquadres portugueses no puderam, 
porm, resistir
ao mpeto dos veteranos de Abdul-Mumen, afeitos a repetidas vitrias nas 
guerras de
frica. Os cristos, desbaratados, deixaram no campo dizem que uns seis mil 
mortos,
afora um grande nmero de prisioneiros. A consequncia deste sucesso foi 
perderem as
povoaes de que se haviam apoderado no interior do moderno Alentejo. Os
vencedores, ricos de despojos dos inimigos, no prosseguiram avante, e, 
mandando
retirar Ibn Hafss, o amir al-mumenin nomeou vli do Gharb, para defender a 
fronteira, a
Mohammed Ali Ibn Al-Hadj 388 .
Apesar daquele grande revs, no eram fceis de amortecer os brios de um 
povo
cheio de mocidade e de energia e cuja vida quase inteira passava no meio das 
lidas e
385 Art de vrifier les dates, Vol. 1, p. 359.
386 Documento do Liber Fidei, na Monarquia Lusitana, P. 3, L. 10, c. 41; 
Sousa, Histria Genealgica,
provas, T. 1, p. 195.
387 Nota XXIV no fim do volume.
388 Al-Makkari, B. 8, c. 2, Vol. 2, p. 315; Conde, P. 3, c. 45; Assaleh (Abdel-
Halim), Histria dos
Soberanos Maometanos, p. 219. Variam os trs quanto aos nomes das 
povoaes recuperadas pelos
muulmanos, mas so concordes no essencial do facto..212
perigos de contnua guerra. A luta com os muulmanos renovou-se no ano 
seguinte, ao
passo que Abdul-Mumen regressava para frica a fim de visitar a capital e de 
repousar
a das suas longas fadigas. Os fossados ou correrias dos cristos comearam 
a cruzar
aquele solo do Gharb, onde ainda subsistiam todos os vestgios das passadas 
invases;
mas agora o rei de Portugal e os seus ricos-homens, entretidos, segundo 
parece, em
reparar a grave perda do ano anterior, abandonavam aos populares o 
prosseguimento
dessas algaras ou entradas que, levando a assolao aos campos e lugares 
no
fortificados, abriam caminho para as importantes conquistas das cidades e 
castelos
defendidos por guarnies numerosas. No eram, de feito, s os prestameiros 
do rei ou
cavaleiros assoldados, nem os homens de armas dos bares e senhores que 
figuravam
nestas empresas, pela maior parte obscuras: eram tambm e principalmente os
chamados cavaleiros vilos, isto , os indivduos mais abastados daqueles 
concelhos,
que, ou se organizavam nos distritos de novo subjugados e a que serviam de 
centro as
povoaes restauradas, ou que j existiam nas provncias anteriormente 
sujeitas a Leo
e que tinham sido como o ncleo da classe popular do novo estado. Divididos 
os chefes
das famlias, conforme eram mais ou menos ricos, nas duas categorias 
militares de
cavaleiros e de pees, enquanto estes ltimos s ficavam ordinariamente 
obrigados 
defenso do territrio municipal, do territrio daquela espcie de pequenas 
repblicas,
incumbia aos primeiros o servirem nas guerras ofensivas durante certo nmero 
de meses
cada ano, na conformidade dos seus foros. Segundo este admirvel sistema, 
cuja
natureza e modificaes especiais teremos de expor largamente noutra parte, o 
pas, sem
exrcitos permanentes, oferecia poderosos meios de agresso contra os 
inimigos e ainda
mais poderosos elementos de resistncia contra quaisquer invases. Foi a 
estas tropas
municipais que se deveu por esse tempo a conquista de Beja, cujas 
fortificaes,
derribadas trs anos ,antes, os sarracenos deviam ter reedificado. Um corpo de
burgueses ou de vilos dirigido por um certo Fernando Gonalves marchou 
contra
aquela cidade no corao do Inverno, e num ataque nocturno e repentino, em 
que
provavelmente se empregou o mesmo ardil pelo qual Santarm cara em poder 
dos
cristos, estes se apoderaram de Beja no ltimo de Novembro de 1162 389 .
vora era naquele tempo, depois da capital da provncia (Badajoz), a cidade 
mais
importante dela. Vasta e populosa, estava toda cingida de muros, e um castelo 
ou kassba
que a assoberbava constitua a sua principal defesa. O territrio dos arredores 
passava
por ser um dos singulares em fertilidade, e os seus principais produtos eram os 
cereais,
os gados e toda a casta de frutas e legumes. Um extenso comrcio, tanto de 
importao
como de exportao, a tornavam poderosa e rica, e a magnificncia da sua 
principal
mesquita merecia particular ateno dos viajantes 390 . Entrada, como vimos
anteriormente, pelos cristos no primeiro mpeto depois da conquista de 
Alccer, as
tropas almadas a haviam brevemente restitudo ao islamismo; mas a hora em 
que a
cruz devia hastear-se no topo da sua clebre mesquita tinha, finalmente, 
soado.
 fcil de conceber quais seriam as condies da vida social pelas incertas
fronteiras de sarracenos e cristos, imenso campo de um combate, por assim 
dizer,
incessante de anos e sculos. Entre homens naturalmente ferozes e 
desenfreados, para
quem o viver era acaso e a morte espectculo de todos os dias, e que se 
haviam
habituado a subsistir mais de rapinas feitas aos seus contrrios que do trabalho 
das
prprias mos, a impotncia das leis devia ser completa ou, antes, a lei que 
no podia
389 Chronica Gothorum, na Monarquia Lusitana, P. 3, L. 10, c. 42; Crnica 
Lamecense e Crnica
Conimbricense.
390 Edrisi, Geografia, Vol. 2, p. 24. Provavelmente o chamado Templo de 
Diana, cujas magnficas runas
ainda existem, servia de mesquita aos sarracenos de vora, se  que no era 
antes o stio da kassba, por
estar a cavaleiro da povoao, sendo a mesquita no lugar onde depois se 
edificou a s..213
proteg-los menos devia obrig-los. Assolar os campos e aldeias, alancear 
mouros,
ganhar castelos para el-rei, eis em que vinham a cifrar-se os deveres desses 
arraiais
permanentes a que chamavam castelos e povoaes das estremaduras ou 
fronteiras. 
assim que o direito civil dos municpios, representado pelos costumes ou leis
tradicionais, nos aparece nebuloso sempre na sua origem e, at, as mais das 
vezes o
direito poltico estabelecido nos forais s vem a promulgar-se anos depois de
conquistado ou fundado o lugar a que so concedidas aquelas cartas de 
garantia
constitucional. O crime e a bruteza como que transudam de todos os 
documentos dessa
poca em que se alude aos usos e hbitos ordinrios da vida, e no 
escasseiam
memrias, que a seu tempo havemos de apontar, nas quais se encontra o 
repugnante
quadro de um malvado moribundo, recapitulando  face da sociedade e sem 
titubear a
negra histria de uma torpe existncia e legando a um mosteiro o fruto das 
suas
extorses e assassnios, para depois expirar com a tranquilidade do justo. Se, 
porm, tais
espectculos eram vulgares por aquele tempo em todo o pas, imagine-se 
quais seriam
as cenas de imoralidade e ferocia que diariamente se passariam nos lugares 
fortificados
da fronteira, onde quase s dominava o pensamento das assolaes e rapinas.
Nada mais natural do que aparecerem no meio desta gente, a bem dizer 
selvagem,
homens de carcter mais sfaro e duro, para quem o viver  sombra das 
muralhas de um
castelo fosse j sujeio intolervel e que nas brenhas, separados de um tnue 
simulacro
de existncia social, buscassem gozar ilimitada liberdade. As rixas entre os 
homens de
armas, os dios que resultavam da impetuosidade das paixes, as longas 
vinganas entre
as famlias, que muitas vezes no cessavam seno com o extermnio de uma 
delas; todas
estas causas e vrias outras deviam povoar os bosques dos territrios 
disputados entre
portugueses e sarracenos de bandos de salteadores, provavelmente 
compostos de
indivduos de uma e de outra crena, unidos pelo instinto do crime, guerreando
indiscriminadamente cristos e muulmanos, indiferentes  luta do predomnio 
das duas
raas, e atentos s a saciar a prpria crueldade e cobia nas suas correrias e 
assaltos sem
objecto poltico.
A tradio revestiu de circunstncias poticas a singela histria do capito de 
uma
destas companhias de salteadores. Se dssemos crdito s lendas escritas em 
tempos
mais recentes, Giraldo, o heri do romance, que pelo seu esforo adquirira o 
apelido de
Sem Pavor, era um nobre cavaleiro que por vrios delitos abandonara o servio 
de
Afonso I e ajuntara no Alentejo um bando que lhe obedecia. Os remorsos e a 
vergonha
do vil ofcio que exercitava induziram-no a tentar uma empresa gloriosa cujo 
feliz
resultado lhe servisse de reabilitao moral. Foi ela .a tomada de vora. A 
relao da
forma por que obteve sair com o intento  quase inteiramente semelhante  
narrativa da
conquista de Santarm e, porventura, imitada desta. Restitudo com os seus
companheiros  graa do prncipe, foi elevado  dignidade de alcaide da cidade 
que com
tanta ventura e destreza sujeitara ao domnio cristo 391 . A Crnica dos 
Godos apenas,
porm, nos diz que em 1166 ela fora tomada e saqueada por Giraldo Sem 
Pavor com os
salteadores seus scios e que este a entregara depois a Afonso I 392 . O 
silncio dos
outros monumentos coevos acerca de haver sido Giraldo o conquistador de 
vora
poderia, at, fazer suspeitar o sucesso de fabuloso, ainda reduzindo-o  
primitiva
singeleza 393 .
391 Monarquia Lusitana, L. 11, c. 9 e 10.
392 Chronica Gothorum, ibid.
393 A Crnica Conimbricense e a Lamecense so conformes com a 
Gothorum quanto ao ano da
conquista de vora, data que, alis, se prova de um documento citado no 
Elucidrio (T. 1, p. 410), o que
se diz exarado na era de 1204 (1166) em vora quando fuit ablata  mauris. 
Nenhuma delas, todavia,
alude  histria de Giraldo, antes a Lamecense atribui aquela conquista ao 
prprio rei: Elbora et.214
O exrcito real pisava ento de novo o territrio da provncia de Al-Kassr, cuja
conquista inteira a tomada de vora e Beja facilitava grandemente ou, antes, 
tornava
inevitvel, faltando os poderosos socorros de alm-mar, cuja vinda era, alis, 
pouco
provvel. Abdul-Mumen falecera em Sal (1163), onde ajuntara numeroso 
exrcito para
passar  Espanha. Seu filho Yusuf Abu Yacub, que ele escolhera por sucessor 
e que se
achava ento em Sevilha, partiu para a frica, onde foi aclamado amir; mas as
resistncias de seus irmos excludos do trono e vrios outros motins que
sucessivamente ocorreram naquelas partes obstaram por alguns anos a que 
Yusuf
pudesse atender  defenso das fronteiras ocidentais do Andaluz 394 . Livre 
assim do
receio que deveriam causar-lhe os almadas de frica, Afonso I invadira de 
novo o
territrio muulmano. As memrias crists aludem resumidamente  conquista 
feita em
1176 de Moura, Serpa e Alconchel, alm do Guadiana, e  reedificao do 
castelo de
Coruche, entre vora e o Tejo 395 . Um escritor rabe contemporneo relata 
mais
especificadamente esta rpida srie de triunfos, que roubaram por ento ao 
islamismo
talvez a melhor poro do Gharb. Segundo ele, o rei de Portugal correu at 
Truxillo, de
que se apoderou por estratagema (Abril ou Maio de 1165). Sorte igual coube a 
vora
pouco depois (Setembro ou Outubro). Cceres estava rendida em Janeiro de 
1166, e j
na Primavera deste ano os cristos eram senhores do castelo de Muntajech e 
das
povoaes de Sheberina e Jelmanyah, a primeira das quais fora submetida na 
entrada do
ms de Abril 396 .
A relao do historiador rabe, que vivia perto do teatro da guerra, no 
contradiz,
mas completa e ilustra as resumidas memrias que restam entre ns relativas 
a estes
sucessos. A diversa data que ele parece atribuir  tomada de vora  fcil de 
conciliar
com a que indicam os monumentos portugueses, supondo que aluda  entrada 
dos
salteadores de Giraldo, e os cronicons  entrega feita por estes a Afonso I. 
Quanto s
diferentes designaes de alguns dos lugares submetidos pelos cristos,  
possvel que
as de Muntajech, Sheberina e Jelmanyah correspondessem aos nomes de 
Alconchel,
Serpa e Juromenha, postos depois queles lugares, ou grandemente alterados 
dos
antigos pelos conquistadores.
A circunstncia, porm, mais grave da narrativa de Ibn Sahibi  que ela nos faz
conhecer quo atrevida e impetuosa foi a invaso tentada nesta conjuntura 
pelo rei dos
portugueses. O exrcito parece ter passado a fronteira moderna de Portugal 
pelo Alto
Alentejo ao norte de Badajoz, seguindo pela Estremadura espanhola, numa 
linha de
poente a nascente de mais de vinte lguas, e retrocedendo obliquamente a 
ocupar os
lugares fortes de Alconchel e Serpa, situados ao longo da margem esquerda do
Guadiana. Assim, estabelecendo as suas fronteiras alm deste rio, Afonso I 
assegurava o
domnio de todo o territrio do actual Alentejo, logo que obtivesse apoderar-se 
de
Badajoz, onde uma forte guarnio podia cobrir o norte desta provncia, cuja 
orla boreal
ia entestar pela direita de Badajoz com a Beira Baixa ou Portugal antigo. 
Quanto a
Cceres e Truxillo (Tordjala), o silncio que as crnicas nacionais guardam 
acerca da
Maura et Serpa capte sunt a rege Allonso. No ousamos, apesar disso, 
rejeitar o sucesso, porque nesta
parte o exemplar da Chronica Gothorum que pertenceu a Resende concorda 
substancialmente com os
de Alcobaa e Santa Cruz, cujo texto seguiu Brando.
394 Al-Makkari, B. 8, c. 2 e 3; Conde, P. 3, c. 46 e 47; Abdel-Halim, pp. 221 e 
ss.
395 Crnica Lamecense, Crnica Conimbricense, Chronica Gothorum. 
A Chronica Gothorum  a
nica em que se menciona Alconchel. Preferimos, acerca de Coruche, o 
exemplar de Resende, porque nos
parece evidente erro de copista o que se lia no de Alcobaa. Veja-se a 
Monarquia Lusitana, L. 11, c. 11.
396 In Jumada the second of 560 he surprised the city of Truxillo, and in Dhi-l-
kadah of the same year
did the same with Ieburah. He also took Cazeres in Safar 561, and the castle 
Muntajesh in Jumada the
first. Severina... and Jelmanyyah were the next to fali into his hands, the former 
having surrendered to
hhn in the last day of Jumada the fitst of the sarne year, Ibn Sshibi s-Salat, em 
Gayangos, Vol. 2, p. 522..215
sua conquista persuade que foram destrudas e abandonadas. A runa de 
Truxillo
equivalia, contudo, a uma grande vitria. Tordjala, que os rabes comparavam 
a uma
praa de guerra por causa das suas slidas muralhas, era habitada por uma 
raa de
homens inquietos e valentes que s se dedicavam, assim cavaleiros como 
pees, a fazer
algaras contnuas, nas quais assolavam e metiam a saco o territrio dos 
cristos. A nsia
do roubo e a perfdia eram as qualidades dominantes da sua ndole 397 . 
Apesar, porm,
da solidez dos muros a cuja sombra se abrigavam, chegara, finalmente para 
eles o dia de
severo castigo.
Entretanto o rei de Leo, que se apoderara de uma parte dos estados do rei de
Castela seu sobrinho, achava-se ainda a braos com os sbditos do moo 
prncipe que se
conservavam fiis a este. Na vria fortuna com que prosseguira a guerra desde 
o ano de
1160, o consrcio que Fernando II celebrara com a filha do rei de Portugal, 
pensando
assegurar a aliana de Afonso I, fora insuficiente para obter os seus fins. Longe 
de ser-virem
esses laos de famlia para nascer um afecto mtuo nos nimos do sogro e do
genro e estabelecer-se uma paz duradoura entre os dois estados, pelo 
contrrio, quase
nunca deixara de haver entre eles discrdias depois daquela poca 398 .
No consta com bastante clareza o motivo real por que veio, finalmente, a
rebentar guerra violenta entre os dois prncipes. Diz-se que um servo ou 
familiar de
Afonso I, movido de certas ofensas que deste recebera, fugira para a corte do 
prncipe
leons e que lhe persuadira fundasse Ciudad Rodrigo, donde Fernando II fez 
muitos
danos a Portugal 399 . Estes danos podiam na verdade dar motivo a 
represlias: mas as
causas por que as primeiras hostilidades comearam ficam do mesmo modo 
obscuras,
sendo mau de acreditar que Afonso as rompesse unicamente porque o genro 
fundava em
territrios seus e longe das fronteiras de Portugal uma cidade, embora forte ou
vantajosamente situada. Podia, na verdade, desgostar-se o rei portugus com 
o
acolhimento dado ao foragido e fingir que cria ou imaginar realmente que o 
prncipe
edificava Ciudad Rodrigo por instigaes daquele homem, com o intuito de 
fazer
correrias em Portugal, se algum dia para isso se oferecesse ensejo. Mas tentar 
logo
destruir a povoao, entrando na Estremadura espanhola com mo armada, 
parece um
pouco estranho. Se nos lembrarmos de que  fundao daquela cidade se 
opuseram os
poderosos concelhos de Salamanca e vila e de que os povos destes distritos 
se
levantaram contra o rei de Leo, que se viu constrangido a dar-lhes batalha, 
ocorrer
facilmente a conjectura de que eles houvessem buscado o favor de Afonso, 
que este
pblica ou secretamente lho desse e que assim rebentasse afinal a discrdia 
que, talvez,
lavrara entre os dois prncipes por motivos que no chegaram at ns 400 .
Tendo-se o casamento de Fernando e Urraca celebrado em 1165 401 ,  
necessrio
supor que essas dissenses foram posteriores, at porque a edificao de 
Ciudad
Rodrigo parece coincidir com esta data 402 , e os cronistas tudense e toledano 
fazem
comeada a luta dos dois reis depois daquele consrcio. Acresce que, 
entretidas as
tropas portuguesas durante uma parte do ano de 1165 e pelo decurso do 
seguinte nas
conquistas aqum e alm do Guadiana, no era possvel qu Afonso I quisesse 
arriscar
os seus estados, declarando ao mesmo tempo guerra ao poderoso rei de Leo. 
Assim, os
sucessos que vamos narrar passaram necessariamente depois de 1166.
397 Edrisi, Geografia, Vol. 2, p. 30.
398 Fernandus, licet gener, regi Portugaliae pacificus raro fuit, Rodrigo de 
Toledo, L. 7, c. 19.
399 Unde ad consilium cujusdam vernali (alis vernuli) qui  rege Portugalliae 
laesus effugerat, locum
optimum populaverat qui dicitur civitas Roderici, ex qua Portugalliae intulit multa 
mala, id., ibid.
400 Id., ibid., c. 20; Lucas de Tuy, p. 106.
401 Documento em Flores, Reynas Catlicas, T. 1, p. 322, nota 2.
402 Risco, Reyes de Len, T. 1, p. 360..216
Sancho, o nico filho varo do rei de Portugal, tinha mais de doze anos. Nas
circunstncias especiais em que se achava o pas, cujo chefe ele seria por 
morte de seu
pai, e segundo as ideias, vulgares naquela poca, de que o primeiro dote de 
um prncipe
consistia no esforo e no trato das armas, a grande escola que o infante devia 
cursar era
a dos campos de batalha. Cumpria-lhe afazer-se na juventude aos terrveis 
espectculos
da guerra, s devastaes, aos incndios, s mortes; endurecer os membros 
na spera
vida dos arraiais, e fechar o esprito aos sentimentos de brandura e ao desejo 
de repouso.
Lembrado, talvez, do triste exemplo de Sancho, o filho querido de Afonso VI 
morto s
mos dos sarracenos em Ucls, o rei de Portugal no quis que o infante 
recebesse as
suas primeiras lies na arriscada conquista do Gharb, onde ao vencido era 
quase
indiferente escolher entre o cativeiro e a morte. Assim, preparando uma 
expedio
contra Ciudad Rodrigo, que determinara destruir, ordenou que Sancho 
acompanhasse o
exrcito enviado quela empresa.
Nesta conjuntura a resistncia dos castelhanos contra a usurpao de 
Fernando II
tinha tomado grande incremento, e os partidrios de Afonso VIII haviam-se 
apoderado
em 1166 de Toledo, capital dos estados que pertenciam ao moo prncipe 403 . 
No meio
dos cuidados que preocupavam o rei leons, chegou-lhe a notcia de que um 
novo
adversrio vinha complicar as dificuldades da sua situao. Aos dotes morais 
de
piedoso, lhano, liberal e benigno, pelos quais o celebram os antigos 
historiadores,
ajuntava Fernando indomvel esforo, virtude comum da poca. Naquela 
estreiteza, no
desanimou: deixando a maior parte das tropas a sustentar a guerra contra o 
sobrinho,
dirigiu-se com o resto ao encontro das foras que nominalmente capitaneava o 
cunhado.
Tinham os portugueses avanado com rapidez e j pisavam o territrio 
adjacente a
Ciudad Rodrigo quando toparam com os leoneses que vinham receb-los. Era 
inevitvel
uma batalha, e esta se travou num lugar chamado Arganal, perto da povoao 
ameaada.
Declarou-se a vitria pelo rei de Leo, e Sancho viu-se obrigado a fugir. 
Grande nmero
dos seus soldados ficaram prisioneiros; mas Fernando deu-lhes a liberdade, ou 
por seu
nimo generoso ou, o que  mais natural, para com este procedimento 
abrandar a clera
do sogro, cujo carcter impetuoso sobradamente devia conhecer 404 .
Todavia Afonso I, irritado pelo destroo de Arganal, abriu pessoalmente a
campanha, acompanhado do infante, pela fronteira de Galiza com os veteranos 
que o
tinham ajudado a ganhar tantas vitrias. Preparando-se para esta empresa, 
ajudava-se da
poltica. Soubera de antemo corromper  fora de ddivas vrios fidalgos da 
Galiza,
no dos nfimos, que a princpio o serviam ocultamente, dando-lhe avisos e
aconselhando-lhe o que devia fazer, e que no momento de ele invadir aquela 
provncia
se mostraram remissos na defesa do territrio 405 . Atravessando o Minho, 
Afonso
investiu a cidade de Tui, de que se assenhoreou. A catedral, onde a guarnio 
procurara
resistir, foi acometida e violada 406 , e o exrcito invasor, dirigindo-se para o 
norte,
sujeitou brevemente o distrito de Toronho at s margens do Lerez. Voltando 
para o
oriente, o rei de Portugal apoderou-se ento do territrio de Limia, se  que as 
foras
portuguesas se no dividiram desde logo em dois corpos, o que parece mais 
provvel,
403 Documento em Colmenares, Historia de Segovia, pp. 146 e 147.
404 Lucas de Tuy, pp. 106 e 107; Rodrigo de Toledo, L. 7, c. 23.
405 Vita S. Rudesindi, L. 2, pargrafo 20, na Espaa Sagrada, T. 18, p. 397, 
e manuscrita no Cdice
133 da Livraria de Alcobaa, na Biblioteca Pblica de Lisboa.
406 Pro ecclesia Tudensi quam obsedi et violavi, doao de Afonso I  s de 
Tui de 1169 no Arquivo de
Braga, citada por Sandoval, Iglesia de Tuy, f. 133 v. No alcanamos corno 
Flores (Espaa Sagrada, T.
22, pp. 92 e ss.) imaginou,  vista deste documento e do encontro do conde de 
Barcelona com Afonso I
em Tui, no ano de 1160, uma conquista daquela cidade feita pelo ltimo, logo 
depois da morte de Afonso
VII..217
atacando simultaneamente ambos os distritos 407 . Enquanto Afonso era 
obrigado a
alevantar o cerco do castelo Sandino em consequncia de uma horrorosa 
tempestade,
que a superstio da poca atribuiu a So Rosendo, protector dos monges de 
Cellanova,
sob cujo senhorio estava aquele castelo, o conde Velasco apoderava-se por 
estratagema
dos de Santa Cruz e Monte Leboreiro. Para assegurar aquelas conquistas, 
Afonso
Henriques mandou edificar  pressa um novo castelo, o de Cedofeita 408 , 
junto de
Cellanova, donde parte dos monges, aterrados, fugiram para Leo. As 
violncias
praticadas pelos conquistadores naquele distrito foram intolerveis, e um 
escritor coevo
compara o rude procedimento do rei portugus ao do empedernido Fara. 
Deixando o
conde Velasco em Cedofeita, e guarnecidos os castelos desses dois distritos, 
Afonso
retrocedeu para Portugal, segundo parece, a fim de continuar a guerra com os 
sarracenos
nas fronteiras meridionais.
Fernando II marchara entretanto pelo Norte da Galiza, resolvido a expulsar os
portugueses daquela provncia, e viera pr cerco ao castelo de Cedofeita. Era o 
lugar
forte, estava bem guardado, e a resistncia prolongava-se tenazmente quando, 
por assim
dizer, a natureza interveio na luta. Certa noite cerrada e tempestuosa, um raio 
caiu na
torre principal do castelo, fulminando a guarnio de besteiros. Atemorizados 
com
aquele terrvel espectculo, o resto dos defensores de Cedofeita entregaram-se 
no outro
dia sem combate. Se o rei de Leo pde submeter mais alguns lugares 
tomados pelos
portugueses, coisa  que se ignora; mas  certo que ainda em 1169 os dois 
distritos de
Toronho e Limia se consideravam como sujeitos na sua maior parte ao rei de 
Portugal
409 .
As prosperidades deste ilustre guerreiro tinham chegado ao ltimo auge. A
extenso dos seus domnios era equivalente  do moderno Portugal; porque, 
se lhe
faltava o senhorear o territrio a que hoje chamamos Algarve, essa falta ficava 
de sobra
compensada com as ltimas conquistas alm do Minho. Feliz em quase todas 
as
empresas dirigidas pessoalmente por ele, no poderamos sem injustia deixar 
de
atribuir a uma indisputvel superioridade de talento militar tanta constncia da 
fortuna.
 de crer, porm, que, se da sua parte a aliana com o rei de Leo houvera 
sido to
sincera como, segundo parece, o fora do lado desse prncipe, ou se as 
convenincias
polticas o cegassem menos, teria evitado um acontecimento fatal que lhe 
amargurou os
ltimos anos da vida e colocou  borda de um abismo a independncia do pas, 
que por
preo de tantas fadigas e de tanto sangue vertido ele e os seus sbditos 
tinham, enfim,
conquistado.
Enquanto Fernando combatia para recuperar os castelos retidos pelos 
portugueses
em Toronho e Limia, Afonso I entrava de novo com um exrcito pelos territrios
sarracenos do Gharb, que no pudera submeter na passada invaso de 1166. 
Na
Primavera de 1169 o rei de Portugal acometeu Badajoz. Esta cidade, 
assentada numa
plancie nas margens do Guadiana e cercada de fortes muralhas, ainda era 
uma
povoao notvel, posto que os seus arrabaldes, dantes mais vastos e 
populosos que a
407 Do documento de Braga, citado de Sandoval na nota antecedente, parece 
concluir-se que o infante
capitaneava a expedio de Galiza; todavia, Lucas de Tuy e Rodrigo Ximenes 
(loc. cit.) so acordes em
atribuir a invaso ao prprio rei de Portugal. O que dizemos no texto concilia o 
documento com os
historiadores.
408 O autor da Vita S. Rudesindi (loc. cit.) chama a este castelo Birretum, 
mas designa-o tambm pelas
palavras oppidum cito factum, e diz que Fernando II o tomara antes do sucesso 
de Badajoz.  portanto,
evidentemente, o mesmo de que se fala no documento de 1170 abaixo citado.
409 Doao de Fernando II  s de Compostela, em 1170, citada por 
Sandoval, Iglesia de Tuy, fs. 133 v. e
ss. Como veremos logo, Afonso I restituiu ao genro Toronho e Limia depois do 
infeliz sucesso de
Badajoz, para o que,  evidente, devia reter ainda, ao menos em parte, o 
senhorio dos dois distritos..218
prpria cidade, estivessem agora ermos em consequncia das discrdias civis 
410 . A
notcia da expedio do sogro breve chegou aos ouvidos do rei de Leo. 
Pertencia-lhe a
ele Badajoz por dois ttulos. Era o primeiro que nas convenes de limites 
feitas entre os
dois prncipes (provavelmente em Cellanova) sobre as futuras conquistas, 
Badajoz devia
caber  coroa leonesa: era o segundo que os moradores da antiga capital do 
Gharb se
tinham colocado debaixo da proteco de Fernando, havendo-se feito seu 
vassalo e
tributrio o governador da cidade 411 . Os juramentos ou os tratados, como 
outros
quaisquer laos de ordem moral, so fracas barreiras contra os clculos da 
poltica, e a
reduo de Badajoz acabava de facilitar a Afonso I o prosseguir na sua 
brilhante carreira
de conquistador, porque completava a linha de lugares fortes que lhe 
asseguravam a
posse da margem esquerda do Guadiana por quase toda a fronteira ocidental 
da
Andaluzia. Importantssimo era, por esse mesmo motivo, para o rei de Leo o 
dominar
aquele ponto, que, senhoreado pelo sogro, lhe cerrava, por assim dizer, a 
estrada para
qualquer empresa contra a Espanha muulmana, em consequncia de se 
achar j privado
do domnio nos estados de Castela.
Como tantas povoaes que se tinham curvado ao jugo de Afonso I, Badajoz
cedera tambm; mas a guarnio, havendo-se retirado para a kassba, ali 
sustentava uma
defesa, segundo parecia, intil. Sitiados naquele breve recinto pelos 
portugueses
senhores da cidade, debalde esperavam de dia para dia o socorro dos 
almadas, quando
as tropas de Leo capitaneadas por Fernando II vieram reanimar as suas 
amortecidas
esperanas. A chegada dos leoneses mudou subitamente a face das coisas, e 
Afonso
achou-se ao mesmo tempo sitiador e sitiado. Os historiadores variam nas parti-
cularidades
dos sucessos que ento ocorreram. Segundo uns, Afonso saiu a dar batalha
ao genro. Desbaratado por ele, acolheu-se  cidade, da qual ocupava duas 
partes; no se
julgando, porm, ali seguro, tratava de retirar-se quando, indo a transpor as 
portas,
quebrou uma perna, entalando-a no ferrolho que as fechava. Mal podendo 
suster-se a
cavalo, breve caiu prisioneiro nas mos dos inimigos 412 . Pretendem outros 
que, tendo
os sarracenos da kassba pactuado render-se no fim de uma semana, se no 
fossem
socorridos, e havendo passado metade do prazo, certo dia, em que parte das 
tropas
portuguesas vagueavam por aquelas cercanias e Afonso I repousava 
descuidado na sua
tenda, chegara de improviso o rei de Leo. Ao passo que Fernando acometia o 
sogro
desprevenido, os sitiados do castelo faziam uma surtida e atacavam por outro 
lado os
cercadores. Desperto no meio do tumulto, Afonso, montando num ligeiro 
cavalo, fugiu;
mas ao sair das portas quebrou uma perna no ferrolho com que estas se 
fechavam.
Naquele estado ainda correu algumas milhas sem que pudessem aprision-lo, 
at que foi
despenhar-se num fojo profundo, donde o tiraram alguns pastores que o 
entregaram ao
genro 413 . A relao, porm, mais digna de crdito  a de Ibn Sahibi, 
historiador quase
coevo e que vivia perto do lugar do sucesso. Fernando, diz ele, cercou Afonso 
em
Badajoz. Havendo-se dado entrada na kassba a um troo de leoneses, Afonso 
e os seus
foram acometidos nas ruas por ambos os lados. Depois de grande destroo e
mortandade, os portugueses viram-se constrangidos a abandonar a povoao. 
Afonso,
410 Edrisi, Geografia (verso de Jaubert), Vol. 2, p. 24.
411 Badallocium est aggressus, quae in divisione acquirendorum provenerat 
regi Fernando, Rodrigo de
Toledo, L. 7, c. 23; Vadalozum... ad regem F. de jure spectantema, Lucas de 
Tuy, p. 107; Fernando,
whose tributary and vassal the governor of Badajoz was, Ibn Sahibi s-Salat, 
em Gayangos, Vol. 2, p.
552.
412 Rodrigo de Toledo, L. 7, c. 23.
413 R. de Hoveden, Annales, apud Savile, Rer. Anglicar. Scriptores, p. 640. 
R. de Hoveden, que
escrevia alguns anos depois do sucesso e num pas remoto,  inexacto quanto 
ao lugar, que diz fora
Silves, e quanto  data, colocando-a em 1187, provavelmente porque neste 
ano chegou  sua notcia o
facto..219
que corria  rdea solta para sair por uma das portas, bateu com a coxa da 
perna direita
no ferrolho do porto e quebrou-a. Caiu imediatamente sem sentidos do cavalo, 
e os que
o seguiam transportaram-no para um stio prximo chamado Bekayah (o 
Caia?);
todavia, perseguido pela cavalaria do seu rival, ficou enfim prisioneiro 414 .
Se historiadores quase coevos no nos dessem testemunho do generoso 
carcter de
Fernando II, o procedimento deste prncipe naquela conjuntura seria 
estrondosa prova
da nobreza da sua alma. O guerreiro que arrancara  monarquia leonesa uma 
das suas
mais belas provncias para constituir um estado independente; aquele que 
constrangera
o valoroso Afonso VII a aceitar resignadamente esse facto; o capito vitorioso 
em tantos
combates, aoute e terror dos sarracenos; e homem, enfim, que tantos danos 
lhe causara
estava cativo aos ps dele. No leito da dor, vergado o seu animo fero pela 
desdita, viu-se
desaparecer a altivez de Afonso I. Confessando que fora desleal a Deus e a 
seu genro,
oferecia entregar sem reserva a este os prprios estados em troco da 
liberdade. A
desventura nunca achara o corao do rei leons fechado  piedade, e o de 
Portugal
experimentou-o nessa ocasio. Restitui-me o que me tiraste, respondeu 
Fernando, e
guarda o teu reino. De feito, as cidades e castelos de Limia e Toronho foram
despejados pelas guarnies portuguesas, e abandonada, segundo parece, a 
margem
esquerda do Guadiana. Pelo menos, sabemos que Alconchel estava sujeito no 
ano de
1171 ao senhorio de Leo. Os castelos restitudos diz-se que foram vinte cinco 
e que o
rei de Portugal dera ao genro vinte cavalos de batalha e quinze azmolas 
carregadas de
ouro, no que parece haver alguma exagerao 415 . Depois de dois meses de 
cativeiro,
Afonso I voltou aos seus estados, mas irremediavelmente inabitado para a vida 
militar
416 .
Estes graves sucessos passavam na Primavera de 1169 417 . Afonso I, posto
finalmente em liberdade, recolheu-se aos seus estados. Nas caldas de Alafes, 
aonde
viera 418 e onde frequentes vezes residiu desde ento para convalescer da 
fractura da
perna, cuidou em ocorrer  defenso do Alentejo contra os muulmanos, 
doando 
Ordem do Templo a tera parte de tudo o que ela pudesse povoar e adquirir 
nessa
provncia, com a condio de despender a ordem as rendas que dessas terras 
lhe deviam
provir no servio dele e de seus sucessores enquanto continuasse a guerra 
entre cristos
e sarracenos 419 . Esta poderosa associao de monges cavaleiros, alm do 
que obtivera
durante o governo de D. Teresa, tinha j recebido do rei de Portugal o senhorio 
do
castelo de Cera (Ceras) e os territrios cortados pelo Nabo e pelo Zzere 
desde a Alta
Estremadura, prolongando-se ao oriente pela Beira Baixa; territrios 
vastssimos, em
que os templrios haviam fundado sucessivamente muitos castelos, como os 
de Pombal,
414 Ibn Sahibi, em Gayangos, Vol. 2, p. 522. A narrao de Lucas de Tuy, na 
sua brevidade, condiz com a
do historiador muulmano: Commisso autem praelio, devicti suor 
portugalenses. Rex autem Adefonsus
dum fugiens equo supersederet et egrederetur per portam civitatis de Badalozo, 
casu in vecte ferreo portae
impegit, et crus ejus fractum est.
415 Lucas de Tuy e Rodrigo de Toledo, loc. cit.; doao de Alconchel  Ordem 
de Santiago, em Salazar e
Castro, Historia de la casa de Lara, T. 8, p. 16; R. de Hoveden, pp. 640 e 641.
416 ...sub custodia fere per duos menses retinuit... Ipse autem Rex, quamvis 
solutus a vinculls, tamen
usque ad ultimum diem anime sue eggressionis e suo corpore permansit 
inutilis, Vita S. Rudesindi,
loc. cit.
417 Brando, seguindo a data da Chronica Gothorum, atribui o 
acontecimento de Badajoz ao ano de
1168. Flores demonstrou por documentos indisputveis (Espaa Sagrada, T. 
22, pp. 95 e ss.) que o
desbarato do rei de Portugal devia verificar-se de Abril a Junho de 1169. A 
cronologia de Ibn Sahibi
concorda com a de Flores, colocando o sucesso na hgira 564 (Outubro de 68 
a Setembro de 69). A
Crnica Conimbricense concorda tambm no ano de 1169
418 Quando rex venit Badalioz, et jacebat infirmus in balneis de Alafoen, 
documento de Novembro de
1169, no Arquivo Nacional, Mao 12 de Forais Antigos, n3, f. 69 v.
419 Doao aos templrios, era 1207, ms de Setembro, Carta de Tomar, no 
Arquivo Nacional.220
Tomar, Ozezar, Almourol, Idanha e Monsanto 420 . Era a estes homens, 
enriquecidos por
ele e cujo instituto os obrigava a combater de contnuo contra os infiis, que o 
rei,
inabilitado para vestir as armas, confiava principalmente a defenso das suas 
ltimas
conquistas.
No meio destes acontecimentos, Yusuf Abu Yacub, domados os competidores 
ao
trono e reduzidas as provncias mais turbulentas, consolidara o seu imprio de 
frica.
As notcias, porm, dos assustadores progressos que faziam no Ocidente do 
Andaluz as
armas do filho de Henrique chegavam todos os dias, e tornava-se cada vez 
mais
evidente a necessidade de acudir aos muulmanos da Pennsula. O cerco de 
Badajoz
obrigou, enfim, o amir a tomar uma resoluo pronta. Abu Hafss, irmo do 
imperador,
foi escolhido para capitanear vinte mil almadas e alguns corpos de voluntrios
destinados para repelir os cristos. Partiu Abu Hafss (1169) e, desembarcando 
em
Tarifa, tomou o caminho das fronteiras ocidentais, com a esperana de que 
ainda
poderia salvar Badajoz dos horrores de um assdio. Apenas, porm, chegara a 
Sevilha,
onde fazia os preparativos para aquela expedio, soube do desbarato de 
Afonso I e que
Fernando se recolhera aos seus estados. Ento Abu Hafss retrocedeu para 
Crdova e da
enviou um corpo de tropas, debaixo do mando de Ibrahim Ibn Humuchk, para 
cobrir a
fronteira de Badajoz 421 .
Os progressos militares dos almadas nos territrios recentemente submetidos
pelo rei de Portugal no parece terem sido grandes, apesar das foras 
auxiliares
capitaneadas por Ibn Humuchk. Algumas das memrias rabes aludem 
vagamente a
vrias escaramuas com os infiis 422 , ao passo que os monumentos 
portugueses
guardam a tal respeito absoluto silncio. , todavia, por estes tempos que a 
tradio
coloca a morte de Gonalo Mendes, irmo de Soeiro Mendes da Maia e 
denominado o
Lidador pelo seu esforo nas batalhas. Estava por fronteiro de Beja, posto que 
tivesse
mais de noventa anos. Certo dia, saindo a correr o campo, encontrou-se com 
um
esquadro de sarracenos, que desbaratou; mas, aparecendo novas tropas e 
estando ele
cansado e ferido, ficou morto no campo, ainda que com vitria dos seus 423 . 
As
circunstncias deste sucesso que se lem nos historiadores so pela maior 
parte de tal
modo inverosmeis que ns o teramos absolutamente omitido, se um 
monumento que
reputamos assaz remoto no aludisse a ele 424 .
Entrado o ano de 1171, enquanto os sarracenos, aumentando as fortificaes 
de
Mrtola, punham em melhor estado de defesa o distrito de Al-Faghar (AIgarve), 
que era
.tudo o que lhes restava ao ocidente do Guadiana 425 , Abu Yacub passava o 
mar e vinha
com tropas de refresco avivar a guerra que corria frouxamente. Reunidos ento 
na
Espanha, segundo dizem, cem mil soldados 426 , os muulmanos obtiveram 
algumas
vantagens no Gharb 427 . A tradio conservou a memria de uma invaso 
feita nessa
420 Inscrio de Almourol, transcrita no Elucidrio, T. 2, p. 356. Sobre as terras 
e mosteiros dos
templrios no tempo de Afonso I, o documento mais importante  a bula de 
Urbano III de 1186
confirmando-lhes a posse de todos os seus bens (Arquivo Nacional, Gav. 7, 
Mao 9)
421 Ibn Khaldun, em Gayangos, Vol. 2, Apndice D, p. 58; Abdel-Halim, 
Histria dos Soberanos
Maometanos, p. 230.
422 Conde, P. 3, c. 48.
423 Brando, Monarquia Lusitana, P. 3, L. 11, c. 16; Livro das Linhagens, 
atribudo ao conde D. Pedro,
rir. 21, pargrafo 2.
424 E este Gonalo Mendes mataram os mouros na lide que houve com eles 
em Beja, Livro Velho das
Linhagens, na Histria Genealgica, Provas, T. 1, p. 169.
425 En 7 dylhagia del ao 566 (1171) se acab la obra de la torre de Mirtula, 
que mand edificar Cid Abu
Abdalla Ben Abi Hfas, Conde, ibid. Veja-se Moura, verso de Abdel-Halim, p. 
230, nota (a).
426 Y entonces edific una ciudad en Gebal-Fetah (1172) por occupar sus 
cien mil soldados, Conde,
ibid., c. 49.
427 En Algarbe de Espaa, los almoades triunfaban en sus fronteras, id., 
ibid..221
conjuntura pelos almadas at o interior de Portugal, e a narrativa dos nossos 
cronistas 
confirmada, ao menos no essencial, pelos historiadores quase coevos. Sem 
encontrar
sria resistncia, ou o prprio Yusuf ou, o que  mais crvel, os seus generais
atravessaram o Alentejo e vieram pr cerco a Santarm. Achava-se a Afonso I. 
O
sucesso de Badajoz diminura o terror que este prncipe incutia aos sarracenos, 
e havia-lhes
dado ousadia para sitiarem o velho leo no seu antro. Animava-os tambm a 
ideia
de que o valente rei de Leo, irritado pelos anteriores acontecimentos, 
abandonaria o
sogro ao seu destino. Deste modo esperavam tirar vingana dos passados 
males e,
porventura, anulando o resultado das vitrias de trinta anos, reduzir as 
fronteiras de
Portugal aos antigos limites. Sabida a nova do cerco de Santarm, Fernando II,
convocando os seus homens de armas, dirigiu-se imediatamente para os 
distritos de
sudoeste. Apenas constou em Santarm a marcha do rei leons, graves 
receios
assaltaram o corao de Afonso I. Apesar do generoso proceder do genro no 
triste
acontecimento de Badajoz, temia que ele quisesse aproveitar o ensejo, ou para 
o privar
de uma parte dos prprios domnios, ou para ajudar os infiis a esmag-lo. 
Nestas
apuradas circunstncias, o rei de Portugal expediu mensageiros que 
indagassem do
leons as intenes com que vinha e que procurassem aplac-lo. Desabilitado 
para
conduzir os seus guerreiros no revolver das pelejas, aquele nimo de ferro 
descia a
suplicar a paz. Mas o temor brevemente se converteu em jbilo. Fernando 
voava em seu
auxlio: tal foi a resposta que, voltando, trouxeram os mensageiros. Espalhou-
se esta
nova no campo dos muulmanos. A sua situao mudava. Colocados entre as 
foras de
Portugal e as de Leo, entenderam que era necessrio retirarem-se, e assim 
foi Santarm
salva 428 . Naquela volta, provavelmente, os almadas devastaram os 
territrios vizinhos
do Guadiana possu dos pelos cristos e retomaram Alcntara ao rei leons, 
que dela se
apoderara em 1167 429 . O hav-los este prncipe constrangido a levantarem o 
assdio de
Santarm tornava natural a vingana. Pelo menos os historiadores rabes, que 
omitem a
pouco brilhante empresa do amir contra Portugal, atribuem a esta poca a 
conquista dos
castelos de Thogor, Al-Kantara e Al-Seyf, e exageram os estragos feitos 
naqueles
distritos e o grande nmero de cativos que por esta ocasio caram nos ferros 
de Yusuf
430 .
Alguns anos antes, a retirada dos almadas houvera sido fatal para os povos
muulmanos das fronteiras, porque Afonso I os teria sem dvida acometido e 
tirado
crua vingana dos males causados aos seus sbditos. Mas desde a desgraa 
de Badajoz a
decadncia da energia moral parece ter acompanhado nele o quebrantamento 
das foras
fsicas. Enquanto a guerra se protraa entre os outros prncipes cristos da 
Pennsula e o
amir de Marrocos, o rei de Portugal, o antigo aoute do Islo, encerrado nos 
muros de
Santarm, de Lisboa ou de Coimbra, negociava e conclua trguas com os 
sarracenos
431 , trguas que subsistiram, talvez, at serem rotas pelos portugueses em 
1178. Este
428 Lucas de Tuy, p. 107; Rodrigo de Toledo, L. 7, c. 23. Os nossos 
historiadores referem a grande vitria
obtida por Afonso I, que saiu de Santarm a dar batalha ao rei de Sevilha, 
Albaraque. Foi sobre esta
narrativa que se bordou a fbu1a da instituio da Ordem da Aia (Monarquia 
Lusitana, L. 11, c. 22;
Crnica de Cister, L. 5, c. 18. O silncio dos monumentos nacionais coevos 
confirma indirectamente a
narrativa de Lucas de Tuy e de Rodrigo Ximenes, que atribuem  vinda do rei 
de Leo o levantar-se o
cerco. A Chronica Gothorum, ao menos, no teria omitido tal vitria de 
Afonso Henriques se realmente
a retirada dos sarracenos se tivesse devido aos esforos dos sitiados.
429 Documento na Espaa Sagrada, f. 18, p. 136.
430 Conde, loc. cit.
431 ...the accursed cbristian (Ibn Errik) shut himself up in his stronghold, and 
the moslems were for some
time delivered from his mischief, Al-Makkari, B. 8, c. 3, Vol. 2, p. 318; Et 
tandem, volente Deo, pacis
foedera inter regem saepe dictum et mauros... securius iter efficerent, diz o 
relatrio da trasladao de
So Vicente por um autor coevo (Monarquia Lusitana, P. 3, Apndice, escrito 
25). Essa trasladao fez-se
no ano de 1173 (ibid.), aproveitando-se o ensejo das trguas celebradas entre 
Afonso I e os sarracenos,.222
procedimento, que, depois da nobre interveno do rei leons, no pode deixar 
de
parecer estranho, contribuiria em parte para Fernando II repudiar D. Urraca em 
1175 432 ,
recorrendo ao pretexto ordinrio do parentesco, instrumento de que os 
prncipes se
valiam quando ou a poltica ou as paixes os convidavam a partir os laos 
domsticos
que os prendiam. Era esta paz com os almadas uma necessidade de 
situao? Fora
dificultoso resolv-lo de modo positivo. O aceit-la o amir de Marrocos, que
expressamente viera  Pennsula com tropas numerosas para dar calor  
guerra contra os
cristos, mostra que a reputao militar dos portugueses ainda gerava temor, 
apesar do
revs de Badajoz, mais fatal para o prncipe nas consequncias que tivera do 
que para o
pas. O repouso de to longas guerras era, em todo o caso, uma convenincia, 
e no
decurso desta narrativa temos visto que Afonso I no costumava ser 
demasiado
escrupuloso em sacrificar a generosidade de cavaleiro e ainda a f poltica s
convenincias pblicas. O modo como quase sempre se houve para assegurar 
a
independncia e alargar os limites de Portugal faz mais honra ao seu esforo e 
destreza
do que ao seu aferro s ideias pundonorosas, de que Fernando II lhe dera 
ultimamente
dois grandes exemplos. Se, porm, a histria imparcial e severa tem de ver 
sombras no
carcter de Afonso I como homem, para ser justa deve lanar na balana em 
seu favor
as dificuldades que o cercavam para poder legar  gerao seguinte uma 
existncia
poltica bem cimentada, uma nacionalidade, digamos assim, assaz compacta 
para resistir
s procelas que agitavam a Pennsula. Tinha ele de atender  organizao 
interna da
sociedade e, no exterior, a coloc-la vantajosamente em relao aos vrios 
povos da
Espanha crist e muulmana. Noutra diviso do nosso trabalho veremos como 
Afonso I
fez concorrer os diversos elementos sociais para aviventar a energia interior do 
pas, e
no processo dos factos at agora relatados temos observado que para lhe dar 
fora e
importncia externa combateu sem cessar, vertendo mais de uma vez o seu 
sangue na
prossecuo de semelhante fim.
Dizemos isto aqui porque, de certo modo, o reinado de Afonso I, como chefe de
uma nao que as circunstncias e as diligncias dele prprio tinham tornado
essencialmente militar e conquistadora, acabou com os acontecimentos que o 
inibiram
do exerccio das armas. No raro o indivduo, embora eminente, que deu o 
impulso a
uma sociedade ou que lhe criou uma nova situao poltica  por ela vencido 
na carreira
e, em breve, se v obrigado a abandonar a mos, s vezes mais inbeis, 
porm mais
robustas, o concluir ou continuar a sua obra. A actividade do homem  
demasiado curta
comparada com a extenso das suas concepes, e quando elas vo influir na 
existncia
de um povo, apenas este entra em mocidade viosa, j a decadncia das 
foras mentais e
fsicas obriga a afrouxar o passo quele que pouco antes parecia arrast-lo 
aps si.
Em verdes anos o infante Sancho recebera nos combates com os leoneses as 
tristes
lies da guerra, ofcio que algum dia tinha de exercer largamente. Contava ele 
apenas
quinze anos na ocasio em que seu pai caa prisioneiro nas mos do rei 
leons.
Restitudo  liberdade, um dos primeiros cuidados de Afonso I foi armar seu 
filho
cavaleiro, cerimnia celebrada em Coimbra a 15 de Agosto de 1170 433 . Esta 
qualidade,
segundo vimos, dos actos praticados por Afonso Henriques e por seu primo, 
tomando o
grau de cavalaria antes da conveniente idade, quando pretendiam revestir-se 
do supremo
poder, parece que se considerava na Espanha como inerente ao carcter de 
monarca. Se
assim era, as doutrinas predominantes naquela poca sobre os deveres de um 
cavaleiro,
as quais com probabilidade se podem colocar no ano antecedente, sendo a 
sua existncia inegvel  vista
da passagem citada.
432 Consultem-se em Flores (Reynas Catlicas, T. 1, pp. 324 e ss.) os 
documentos que determinam a
poca deste divrcio.
433 Crnica Conimbricense..223
isto , as doutrinas de lealdade, cortesia e munificncia, deviam suprir de 
algum modo a
falta de cultura intelectual, defeito no menos comum entre os prncipes e 
nobres que
entre o povo. Os preceitos de ordem moral que constituam em parte aquela 
clebre
instituio modificavam a violncia prpria dos tempos, suavizando, sem os 
afrouxar,
os espritos embrutecidos pelo hbito contnuo da guerra.
Nas circunstncias em que se achava o rei de Portugal a cerimnia celebrada 
em
Coimbra era apenas o preldio de resoluo mais ponderosa. Fundador de 
uma nova
dinastia, no meio de sociedade igualmente nova, nada mais natural do que 
conceber
Afonso I a necessidade de ir habituando, no s os sbditos, mas tambm os 
estranhos a
considerarem Sancho como rei, antes que a morte viesse, por assim dizer, 
produzir uma
soluo de continuidade entre o pai e o filho e, portanto, na monarquia. Em 
Leo e
Castela, o hereditrio tinha substitudo de facto o electivo da coroa; mas o 
direito
visigtico da eleio subsistia como lei escrita, e nas frmulas da coroao do 
rei
pressupunha-se ainda no sculo XIII a existncia desse direito 434 . Em 
Portugal no
havia instituies particulares que determinassem a sucesso, nem havia a 
segurana
que  dinastia leonesa-castelhana oferecia uma longa srie de monarcas 
sucedendo-se de
pais a filhos. No faltava naquela poca nem audcia nem ambio, e a morte 
do
primeiro rei dos portugueses podia produzir srias perturbaes, ou geradas no 
prprio
pas ou trazidas de fora, tanto mais que Fernando II j mostrara, no 
procedimento que
tivera para com o jovem rei de Castela, que nem sempre a sua generosidade 
resistia 
prova de poder ajuntar uma nova coroa  que possua. Estas consideraes ou 
outras
semelhantes moveram provavelmente Afonso I a associar seu filho ao governo, 
no por
um acto formal, de que no temos notcia, mas dando-lhe larga mo no 
regimento do
estado, principalmente nas matrias de guerra. Pelo menos, faz que assim o 
acreditemos
a impossibilidade em que se achava o rei enfermo de tratar as armas com a 
anterior
energia 435 .
A aliana de famlia contratada em 1160 pelo conde de Barcelona, Raimundo
Berenguer, com o rei de Portugal para o consrcio de seus filhos no se havia 
realizado
por falecer pouco depois a. infanta Mafalda. Esta aliana, porm, veio a 
renovar-se por
diverso modo em 1174, casando o prncipe Sancho com Dulce, filha de 
Raimundo
Berenguer e irm de Afonso II, que sucedera a seu pai no condado de 
Barcelona e a sua
me, Petronilha, na coroa de Arago 436 . Durante os anos que precederam e 
seguiram
este casamento parece ter reinado paz profunda em Portugal. O silncio das 
memrias
coevas sobre os sucessos do pas por todo o perodo decorrido desde a 
retirada dos
sarracenos at 1178  completo, e nem sequer os nossos cronistas, cujo 
defeito no ,
por certo, a falta de imaginao, acharam tradies e lendas para preencher 
essa extensa
lacuna.
A guerra entre os portugueses e os muulmanos acendeu-se, todavia, de novo
neste ltimo ano, ou porque o prazo das trguas houvesse expirado, ou porque 
se
dessem por findas de alguma das partes. Numa ou noutra hiptese, o que 
sabemos  que
os portugueses foram os primeiros em romper as hostilidades. Sancho, no 
vigor da
juventude, seguia o exemplo de seu ilustre pai. Atravessando o Guadian.a  
frente de
um exrcito, internou-se na Andaluzia, e os homens de armas de Portugal 
pisaram,
enfim, territrios sobre os quais nunca havia tremulado o pendo de Afonso I, 
do velho
434 Marina, Ensayo Histrico Crtico, pargrafos 66 e ss.; Ritual de Cardea 
del siglo XIII, em
Berganza, Antiguedades, T. 2, p. 682.
435 Nota XXV no fim do volume.
436 Chronica Gothorum, era 1212. Romey (Histoire dEspagne, T. 6, p. 205) 
diz que este casamento se
fez por interveno de Henrique II de Inglaterra, e cita em seu abono a Histria, 
de Mateus Paris, que no
diz uma palavra a semelhante respeito..224
rei-soldado que tantas vezes os guiara  vitoria 437 . Tendo obtido diversas 
vantagens dos
prncipes cristos e reunido debaixo da sua autoridade toda a Espanha 
muulmana, sem
exceptuar o amirado de Valncia, que por muitos anos se conservara 
independente,
Yusuf Abu Yacub voltara  frica em 1176. Desafogado do temor que poderia 
causar-lhe
a presena do amir al-mumenin na Pennsula, o infante marchou contra 
Sevilha,
cidade ento a mais importante do Andaluz e onde o prncipe dos crentes 
quase sempre
residira enquanto se demorou aqum do Estreito. Yusuf gastara somas 
avultadas em
fortific-la, em prov-la de gua por meio de aquedutos magnficos, em adorn-
la de
edifcios, entre os quais se distinguia uma sumptuosa mesquita, e, finalmente, 
na
construo de vastos cais, para tornar fcil o acesso de terra s mercadorias
transportadas pelo Guadalquivir 438 . Os vestgios do seu vasto circuito, a 
fortaleza das
suas muralhas, a majestade dos seus monumentos, ainda no meio da 
sucessiva
decadncia do um brilhante testemunho do que era Sevilha debaixo do 
domnio
almada 439 .
Assentada na margem esquerda do rio, a cidade comunicava por uma ponte de
barcas com um dos seus principais arrabaldes, o de Triana ou Atrayana, 
conforme os
rabes lhe chamavam, sito na margem direita. Era Triana como um posto 
avanado que
defendia a capital por aquela parte. Uma torre do lado do subrbio dominava a 
ponte,
que ia entestar com a outra margem perto da torre do ouro 440 , Assim, o 
populoso
arrabalde, que alguns pretendem fosse o assento da antiga Hspalis 441 , 
ficava exposto ao
primeiro embate dos cristos, cujas fronteiras se dilatavam, posto que a larga 
distncia,
pela direita do Guadalquivir. As foras do exrcito portugus estavam, sem 
dvida,
longe de bastarem para acometer uma cidade em cuja conquista foi necessrio
empregar, anos depois, quase todos os recursos militares da Espanha crist e 
ainda o
auxilio de estrangeiros. Sancho, porm, fazendo um largo circuito pela 
moderna
Estremadura espanhola, atravessou a serra Morena e, descendo para o meio-
dia
desbaratou algumas tropas que se lhe opuseram e naquele primeiro mpeto 
veio entrar
em Triana. Saqueado o lugar e feitos nele grandes estragos, voltou a seu salvo 
para
Portugal carregado de despojos, sem que os almadas pudessem obstar a isso 
442 .
Facilmente se imagina qual seria a clera do amir de Marrocos ao receber a
notcia da runa e saco do subrbio de Sevilha. Se  lcito avaliar a empresa do 
infante,
ignorando-se hoje as circunstncias que precederam ou acompanharam o 
facto, ao
primeiro aspecto ela parece merecer, pelo menos, a qualificao de 
imprudente. A
esperana de conquistar Sevilha com os recursos de Portugal no existia por 
certo, at
porque fora impossvel que o rei de Leo o tolerasse, ainda supondo essa 
conquista
exequvel. Considerada como simples correria, sendo conduzida to longe da 
linha das
fronteiras, ao passo que era intil, assim para as dilatar como para as defender,
inquietava os almadas sobre a segurana da capital do Andaluz, acendia 
neles o desejo
da vingana e desafiava necessariamente as duras represlias de Yusuf. Foi o 
que
sucedeu. O imperador de Marrocos preparou-se para de uma vez reduzir  
extremidade
esta nova monarquia crist que, ainda no bero, j se tinha dilatado pela maior 
parte do
Gharb, e cujos homens de armas vinham temerariamente fazer reluzir os ferros 
das suas
437 Chronica Gothorum, era 1216; Crnica Conimbricenses, ad eandem 
aeram.
438 Conde, P. 3, c. 49; Abdel-Halim, pp. 220 e ss.; Ben Al-Khatib, em Casiri, 
Vol. 2, p. 220.
439 Caro, Antiguedades de Sevilla, L. 2, c. 2 e ss.; Ponz, Viage de Espaa, T. 
9, passim.
440 Crnica General, em Morgado, Historia de Sevilla, L. 1, c. 17 e 18.
441 Trianam, antiquam urbem Sibillie, Chronica Gothorum, era 1212 
(exemplar de Resende);
Thirianam, quae nunc Triana, antiquam urbem Felilie, ibid. (exemplar de 
Santa Cruz e de Alcobaa).
Os bons ou maus fundamentos desta opinio podem ver-se em Caro, L. 3, c. 
12.
442 Memrias de Tarouca, em Brandin, Monarquia Lusitana, P. 3, L. 11, c. 
26. Chronica Gothorum,
loc. cit.; Crnica Conimbricense, ad eandem aeram..225
lanas por entre os vergis das margens do Guadalquivir.
Resolvido a atacar os portugueses por mar e por terra, Yusuf aprontou uma 
frota,
a qual, capitaneada por Ghamim Ibn Mohammed Ibn Mardanix, se dirigiu s 
costas de
Portugal e, dobrando o cabo de So Vicente, entrou no Tejo (1179). O 
resultado desta
expedio martima foi voltar o almirante sarraceno sem empreender nenhum
cometimento decisivo contra Lisboa, contentando-se, conforme  de crer, com 
saquear
os arredores, donde levaria os despojos cuja importncia memoram os 
historiadores
rabes, posto que os monumentos portugueses guardem sobre tais sucessos 
um absoluto
silncio 443 .
Enquanto o rei de Portugal preparava uma armada, ou para resistir s foras
navais de Yusuf, ou para se vingar nos lugares martimos da Andaluzia dos 
danos que
recebera, o titulo de rei, que to activamente diligenciara obter da Cria 
romana, era-lhe,
enfim, confirmado por Alexandre III, como se a fortuna quisesse consol-lo das
recentes infelicidades. Devendo na histria especial do clero referir-nos  longa 
e
pertinaz resistncia da metrpole bracarense em aceitar o jugo da primazia de 
Toledo,
teremos a ocasio de calcular at onde essa questo influiria na demora da 
concesso de
um ttulo, para obter o qual, alm dos outros motivos que anteriormente 
expusemos,
Afonso I fizera os prprios estados censuais da s apostlica. No meio das 
suas
incessantes guerras e das dificuldades que essas questes das duas 
metrpoles opunham
 concluso do negcio, o rei de Portugal continuara com maiores ou menores
interrupes a tratar o assunto perante a Cria romana. O direito que tinha a 
ser como
tal qualificado pelo chefe da Igreja era evidente. Outros prncipes haviam 
herdado de
seus pais as coroas e deviam a um acaso de nascimento que o supremo pastor
reconhecesse neles o carcter de monarcas, sem que lhes custasse, para o 
obterem,
exporem-se aos riscos da guerra, e quando esta lhes aumentava os domnios 
no iam
dizer ao papa:
Concede-me tu o que eu conquistei. Ele, pelo contrrio, tinha feito voluntria
oferta a Roma, no s do que livremente houvera da herana paterna, mas 
tambm dos
mais vastos senhorios que adquirira  ponta da lana em cem combates. Tais 
eram as
razes alegadas por Afonso I 444 . O desconto relativo que elas deviam ter 
sabemo-lo
pelas circunstncias que ocorreram para a homenagem feita nas mos do 
legado Guido;
mas, fossem quais fossem as causas polticas do passo que dera, as 
alegaes de Afonso
I no eram menos exactas, absolutamente falando, ou menos legtima a 
pretenso que se
estribava em to slidos fundamentos.
Desejaramos poder afirmar que Alexandre III fora generoso e justo acedendo 
s
splicas do velho rei de Portugal, que pedia ao chefe supremo da grande 
famlia crist
santificasse um ttulo comprado por bem caro preo em quarenta anos de lides 
com os
infiis. Produz uma impresso de tristeza em quem sabe quo grandes 
servios o papado
fez aos progressos da sociedade moderna o ver pontfices que, alis, 
conheciam bem
qual era a sua misso, no meio daquela idade frrea, prostiturem-se, apesar 
disso, 
cobia e sacrificarem  mais abjecta de todas as paixes a majestade da 
ditadura que
exerciam na Europa, ditadura que, pesados os bens e os males da 
provenientes, se pode,
sem receio de erro, dizer que foi salutar. Mas a sede de ouro era o vcio 
inveterado de
Roma. Afonso I sabia-o, como o sabiam todos aqueles cujas pretenses 
pendiam do
slio pontifcio. Ningum na Espanha ousava j, na verdade, disputar-lhe uma
qualificao que os sbditos lhe haviam espontaneamente atribudo e que fora 
escrita a
ferro e fogo nas assoladas fronteiras da monarquia leonesa e no Gharb 
conquistado.
Mas, sem a sano do papa, no o disputariam a seu filho? Eis o que ele, 
quanto a ns,
443 Ibn Khaldun, em Gayangos, Vol. 2. Apndice D, p. 60.
444 Documento do Arquivo de Santa Cruz de Coimbra, em Brando, 
Monarquia Lusitana, L. 11, c. 4..226
temia. Assim, renovando as instncias na Cria, recorreu ao meio quase 
sempre seguro
de conciliar a benevolncia dela. A substituio de dois marcos a quatro onas 
de ouro,
censo anual que oferecera  s apostlica em 1144, obteve-lhe, enfim, a 
confirmao da
dignidade real.  crvel que os motivos expostos pelo pontfice no prembulo 
da bula
passada sobre esta matria no deixassem de contribuir tambm, at certo 
ponto, para a
concesso. Memorando os servios feitos por Afonso Henriques ao 
cristianismo e os
dotes que o tornavam ilustre, Alexandre III rendia homenagem  verdade e 
achava, alm
disso, uma slida base em que estribar o acto que motivos mesquinhos de 
interesse o
induziam, alis, a praticar. Uma das particularidades mais importantes deste 
diploma  o
confirmar igualmente o papa ao rei de Portugal o domnio de todos os territrios
conquistados aos sarracenos, sobre os quais no pudessem provar ter direito 
os prncipes
comarcos. Estas concesses eram, finalmente, feitas no s a Afonso I, mas 
tambm a
todos os seus sucessores, aos quais a Santa S tomava, como a ele, debaixo 
da sua
especial proteco. Um presente de mil morabitinos que o rei de Portugal 
enviou ao
papa passados dois anos serviu de paga, afora o aumento do censo, pela 
concesso tanto
tempo inutilmente solicitada 445 .
Se, porm, esta concesso valia muito para rebater quaisquer futuras 
tentativas dos
reis cristos da Pennsula, havia um inimigo contra o qual os raios de Roma 
no tinham
vigor algum. Era Yusuf. O amir guardava na lembrana a destruio de Triana 
pelo
infante Sancho e o pequeno resultado da tentativa da sua armada contra 
Lisboa. Retido
em frica pela rebelio de um certo Azzobiar ou Ibn Zobeir, que se alevantara 
com a
provncia de Efrikia, o imperador sustentava a guerra na Espanha pelos seus 
generais.
Segundo as memrias crists, Yacub 446 , filho mais velho do amir de 
Marrocos, entrou
com um exrcito em Portugal (1179) e, atravessando o Alto Alentejo, veio pr 
stio ao
castelo de Abrantes. Defenderam-se valorosamente os cercados, e o prncipe 
almada
teve de retirar-se. Se acreditssemos a Crnica dos Godos, a perda dos 
sarracenos teria
sido avultada, e a dos portugueses apenas digna de mencionar-se 447 . No 
ano seguinte as
tropas almadas tomaram e destruram Coruche, levando cativos os seus 
moradores.
Todavia, dentro de dois anos este importante castelo achava-se reconstrudo e 
repovoa-do
448 .
A guerra prosseguia, apesar disso, com a mesma actividade. Os nossos
historiadores dizem que o infante a sustentava  frente dos soldados de seu pai 
e referem
vrias vitrias obtidas contra os infiis. Faltam-nos memrias e documentos 
coevos em
que possamos estribar-nos para relatar tais sucessos. No s, porm, as 
probabilidades
nos autorizam a crer que Sancho dirigia nessa conjuntura as armas 
portuguesas, mas
tambm os pequenos resultados dos esforos que faziam os almadas nos 
revelam que
estes acharam no infante um duro adversrio. O moderno Alentejo era ento 
um vasto
campo de batalha, onde os capites de Yusuf parece terem concedido pouco 
repouso por
445 Sobre este pargrafo veja-se a nota XXVI no fim do volume.
446 O filho mais velho de Yusuf e seu sucessor chamava-se Yacub. A 
Chronica Gothorum denominava-o
Aben (Ben ou Ibn, filho de) Yacub, fcil inexaco que no impede ver no 
chefe da expedio de
1179 o prncipe almada. Nos nomes dos seus dezassete irmos, que se lem 
em Abdel-Halim (p. 225),
no  possvel descobrir qual deles era o Fossem, ou Ossem, que a mesma 
crnica diz o acompanhava.
447 Innumerabilis eorum exercitus pulsus com magna clade fuit, ex nostris 
novem tantum desideratis,
Chronica Gothorum. O adjectivo inumervel parece cair insensivelmente 
da pena aos escritores
daqueles tempos cada vez que aludem a qualquer corpo de sarracenos.
448 Chronica Gothorum, era 1218, na Monarquia Lusitana, P. 3, L. 11, c. 30. 
Foral de Coruche de 1182
no Arquivo Nacional, Mao 12 de Forais Antigos, n 3, f. 13. Brando, levado 
do prembulo deste foral
(Coluchi quam sarracenis abstulimus), supe que o castelo ficara presidiado 
pelos almadas, o que 
contrrio  inteligncia literal da Chronica Gothorum. A frase quam a 
sarracenis abstulimus 
frequente nos forais do Meio-Dia de Portugal e no prova o que Brando dela 
pretende deduzir, podendo
referir-se  anterior conquista..227
estes tempos aos fronteiros de Portugal. Se acreditarmos um clebre 
historiador rabe
do sculo seguinte, pelos fins de 1180 ou primeiros meses de 1181 
Mohammed Ibn
Yusuf Ibn Wamudin,  frente das tropas de Sevilha, atravessou o Guadiana e 
veio pr
cerco a vora. Como no ano anterior em Abrantes, os sarracenos encontraram 
aqui, se-gundo
parece, tenaz resistncia; porque, tendo saqueado os territrios circunvizinhos 
e
destrudo alguns pontos fortificados, tornaram a voltar para a capital da 
Andaluzia,
enquanto Abdallah Ibn Ishak Ibn Jami, almirante da frota sevilhana, se 
encontrava com
uma armada portuguesa sada do Tejo e, travando com ela combate, a punha 
em fugida
e lhe apresava vinte navios, com avultados despojos e grande nmero de 
cativos 449 .
Depois destes sucessos a luta das fronteiras parece ter diminudo de violncia;
porque nem as memrias rabes nem as de Portugal aludem a nenhuma 
faco militar
que naquele tempo ocorresse. Como brevemente veremos, este respirar de 
contnuos
combates era apenas a triste calma que no oceano . costuma preceder e 
anunciar
temerosa procela. Yusuf preparava-se j no ano de 1182 para .passar  
Espanha e reunia
um dos mais brilhantes exrcitos que transpuseram o Estreito durante o 
domnio
sarraceno no Ocidente da Europa. Ordenadas as coisas de frica, ele 
resolvera, enfim,
realizar o intento que concebera de dar um golpe decisivo nos estados cristos 
da
Pennsula, comeando pelos do velho Ibn Errik, senhor de Portugal, o mais 
perigoso de
todos os adversrios do islamismo. Segundo uns, a partida do imperador da 
sua capital
para esta expedio verificou-se ainda em 1182; segundo outros, no princpio 
do ano
seguinte. Porventura, o tempo que deviam gastar em se ajuntarem as 
numerosas tropas
do amir explica estas diferentes datas e concilia a divergncia, alis pouco 
importante,
dos historiadores 450 , Ao passo que as foras do imprio se encaminhavam 
de vrias
partes para Ceuta, Abu Yacub recebia em Sal a nova de que na provncia de 
Efrikia se
achava completamente restabelecida a tranquilidade. Assim, dessassombrado 
das
perturbaes de frica, ele pde dedicar-se inteiramente a apressar a sua 
expedio 
Espanha.
Enquanto o raio que ameaa Portugal no vem desfechar sobre este pas,
alonguemos por um pouco o esprito do montono e tedioso espectculo de 
tantas
batalhas, assdios e correrias a que temos sido obrigados a assistir, na histria 
de mais
de meio sculo, com raras interrupes. O viandante que debaixo de sol 
ardente
caminhou todo o dia por charneca sfara e erma, se ao cair do Sol descobre, 
abrigada 
sombra de algum rochedo, uma bonina solitria, pra e contempla com 
sentimento de
jbilo a pobre flor que em variegado jardim lhe seria importuna por singela e
campesina. No meio dos furores da guerra e dos clculos ambiciosos da 
poltica, um
afecto que surge puro e desinteressado  a bonina da solido.
O rei de Portugal vira acabar em tenra infncia Mafalda, sua filha, destinada a
servir de lao entre a prpria dinastia e a de Arago. Urraca, buscada para 
esposa por
Fernando II quando a reputao militar e a glria de Afonso I no seu auge 
faziam
desejada a estreita aliana deste prncipe aos outros reis da Espanha, tragava 
agora no
silncio do claustro a afronta de um repdio a que servira de pretexto o 
parentesco entre
ela e o marido. Restava ao velho monarca ainda uma filha, Teresa, a quem ele 
destinava
o senhorio de uma boa poro das terras que comprara por alto preo de 
sangue e
fadigas 451 , Devia am-la quanto o seu duro corao o comportava; devia ser-
lhe grato
449 Ibn Khaldun, em Gayangos, Vol. 2, Apndice D, p. 61.
450 Ibn Khaldun (loc. cit.) pe a partida de Yusuf ainda em 1182; Abdel-Halim 
(p. 232) e Conde (P. 3, c.
50) em 1183. Esta partida entende-se de Marrocos; mas a jornada at chegar a 
Ceuta foi assaz demorada,
como se v da narrativa dos mesmos historiadores rabes.
451 Com filio meo... et filia mea regina D. Tarasia regni mei coheredibus, 
carta de couto ao Mosteiro de
Ceia, nas Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, n 512..228
repousar o nimo, gasto e cansado de to longa e turbulenta existncia, no 
carinho
afectuoso da infanta. Ao menos, assim o persuade a repugnncia que mostrou 
em afast-la
de si. Era Teresa extraordinariamente gentil, e a fama celebrava pela Europa a
formosura desta princesa da ltima provncia do Ocidente, como superior  de 
todas as
dos pases setentrionais 452 . Filipe, conde da Flandres e filho de Thierry da 
Alscia,
tinha-se cativado da infanta, ou pelo retrato que dela lhe faziam ou, o que  
mais
natural, por hav-la visto na corte de Afonso I, aonde viria na sua segunda 
viagem 
Palestina (1177-8); porque, conforme advertimos j, Lisboa era a escala em 
que
frequentes vezes os cruzados buscavam mantimentos e refrescos na ida ou 
volta das
suas expedies do Oriente. Vivo de Isabel, irm e herdeira de Rodolfo, 
conde de
Vermandois e de Amiens, pela morte da qual ele houvera os dois condados, 
Filipe era
um dos cavaleiros mais ilustres daquela poca e um dos prncipes cuja vida foi 
mais
inquieta 453 . Sem filhos do primeiro consrcio, vinha a suceder-lhe no 
condado sua irm
Margarida, casada com Balduno, conde de Hainaut, a qual fizera reconhecer 
por
herdeira em 1177. O novo casamento que intentava contrair devia desagradar, 
portanto,
 condessa de Hainaut e igualmente ao moo Filipe Augusto, rei da Frana, 
que
pretendia ter direito a uma parte dos estados do conde, parte que, de feito, 
reivindicou
depois da morte dele 454 . Fracas barreiras eram estas para se oporem  
paixo de Filipe;
mas encontrou-as mais fortes na repugnncia de Afonso I a separar-se da filha 
455 .
Enfim,  fora de repetidas embaixadas, o rei de Portugal cedeu. Uma armada 
velejou
ento da Flandres para Portugal destinada a conduzir a infanta, que partiu 
acompanhada
de vrios cavaleiros. Despedindo-se da filha para nunca mais a ver, o velho 
monarca
mostrou-se amplamente generoso com ela, e os historiadores contemporneos 
celebram
as riquezas de ouro, brocados, sedas e pedras preciosas de que os navios 
flamengos iam
carregados. Chegando  Rochela com prspera viagem, Teresa a achou 
comissrios do
rei de Inglaterra, Henrique II, que muito diligenciara este consrcio 456 , 
encarregados de
subministrar  infanta os cmodos necessrios para uma aprazvel jornada at 
s
fronteiras da Flandres, por serem do domnio de Henrique II quase todas as 
terras por
onde havia de passar. O namorado Filipe da Alscia veio receber a princesa ao 
entrar
nos seus estados e, na presena do exrcito e de grande nmero de povo que 
concorrera
quele espectculo, se uniu pelos laos nupciais com a formosa infanta, a qual 
por esta
ocasio trocou o seu nome pelo de Matilde, posto que alguns lhe chamem
impropriamente Beatriz 457 .
452 Quam hilarior fama concupiscibilem forma filiabus regum australium 
praeferebat, Radulfo de
Diceto, Ymagines Historiar, apud Twysden, Hist. Anglicar. Scriptores, p. 623
453 Art de vrifier les dates, T. 4, pp. 104 e 105. Do excelente resumo da 
histria dos condes da Flandres
que a se encontra tirmos tudo o que acerca de Filipe da Alscia dizemos 
neste pargrafo.
454 In detrimentumque domini sui (sc. francorum regis) duxerat filiam regis 
Portugallie, diz
expressamente Gervsio Dorobornense (apud Twysden, p. 1465).
455 Philipus... Adelfonsum... per internuncios saepius sollicitavit ut Beatricem 
(lege Therasiam) filiam
suam, etc., Radulfo de Dtceto, loc. cit. Desta passagem de Radulfo, escritor 
contemporneo e bem
informado, se conhece que foi necessrio insistir com o rei de Portugal, contra 
o que afirma Gilberto de
Mons, citado pelos autores da Art de vrifier les dates.
456 Rex Anglorum Henricus, sapientia et devitiis sois acquisivit sororem regis 
portugalensis Hispaniae,
ad hoc ut fieret uxor comitis Flandrensis... Hujus pater, licet grandaevus, adhuc 
vivit, Roberto de Monte,
apud Pistorium, Illust. Veter. Scriptores, T. 1, p. 675. A frase irm do rei de 
Portugal mostra que
Sancho j era considerado na Europa como o verdadeiro rei, posto que 
Afonso ainda vivesse. Do
mesmo modo Rogrio de Hoveden diz: Duxit in uxorem sororem Sanctii regis 
portugalensis,
Annales, p. 622
457 Regis, igitur, filiae comes accensus amore, venientibus hispanis in 
equitatu magno, dignum duxit
festinanter occurrere. Beatricem vero, superius tociens memoratam, comes, in 
facie commilitonum
suorum et in praesentia multitudinis quae convenerat, sibi foedere nuptiali 
conjunxit, Radulfo de Diceto,
loc. cit.; Mathildem filiam regis Portugaliae (sic enim apud nos, sed apud sues 
portugallienses Terasia.229
A invaso dos sarracenos no concedeu a Afonso I largo espao para sentir a
ausncia da filha 458 . Mais graves cuidados o assaltaram brevemente. Juntas 
em Ceuta
todas as tropas da frica destinadas para a guerra da Espanha, Yusuf ordenou 
que o
exrcito passasse o Estreito, seguindo-o ele imediatamente com a guarda de 
negros,
oficiais da corte e ministros, no meado de Maio de 1184 (5 de saphar da hgira 
580).
De Gebal-Fetah (Gibraltar), onde efeituou o desembarque, o imperador de 
Marrocos
dirigiu-se por Algeciras a Sevilha e, incorporando com os numerosos 
esquadres que
trazia as foras de seu filho Abu Ishak, ento vli daquela provncia, marchou 
para o
ocidente e, atravessando o Alentejo, veio assentar campo junto de Santarm, 
quase nos
fins de Junho desse mesmo ano 459 .
As narrativas dos historiadores rabes acerca das circunstncias e desfecho 
deste
assdio variam entre si e so quase inconciliveis com as dos cronistas 
cristos, posto
concordem nos factos capitais. Se acreditarmos alguns dos primeiros, Yusuf, 
passando o
rio, sitiou a povoaao, assentando os seus arraiais do lado do norte. Comeada 
a luta, os
sarracenos foram repelidos em sucessivos cometimentos, que se repetiram por 
quinze
dias, posto que empregassem naquele empenho todos os seus esforos. Ao 
anoitecer do
dia 4 de Julho (22 de rabieh 1), Abu Yacub fez mudar o acampamento para o 
lado
ocidental, o que todos estranharam, sem que todavia se atrevessem a 
contradizer a
resoluo do imperador. Julgavam, porventura, que, perdida a esperana de 
submeter
Santarm, resolvera marchar para o interior da provncia, devast-la e 
retroceder para
Sevilha. E de feito, sendo j noite, Yusuf mandou chamar seu filho e ordenou-
lhe que na
manh seguinte marchasse com as tropas andaluzas contra Lisboa e pusesse 
a ferro e
fogo aquela comarca. Entendeu Abu Ishak que seu pai o mandava voltar para 
Sevilha 
meia-noite. Pouco tardou a correr voz pelo campo de que o prncipe dos 
crentes
resolvera levantar imediatamente os arraiais e retirar-se. O exrcito comeou 
ento a
passar o Tejo, e ao romper da alva Ishak partiu com o resto da gente, ficando 
s no
acampamento Abu Yacub com as suas guardas e os alcaides andaluzes, que 
sempre o
acompanhavam na vanguarda ou na retaguarda. Nascido o Sol, os cristos que 
guar-neciam
as torres e adarves observaram que o arraial se tinha levantado e que o 
exrcito
partira. Os exploradores enviados a reconhecer o campo voltaram em breve a 
confirmar
a notcia, assegurando que s o amir ficara e um pequeno troo de soldados. 
Abrindo
ento as portas, os sitiados arrojaram-se impetuosamente para o 
acampamento,
bradando: Ao rei! Ao rei! A guarda dos negros tentou resistir; mas, rota e 
dispersa
pelos portugueses, estes penetraram at a tenda do imperador. Como valente, 
o prncipe
lanou mo da espada, defendendo-se dos que o acometiam, seis dos quais 
lhe ficaram
aos ps. Os gritos de terror das mulheres de Abu Yacub atraram quele ponto 
os
almadas e andaluzes que se haviam conservado firmes, os quais obrigaram 
os cristos
a recuar, levando-os de vencida at os muros de Santarm. Mas Yusuf cara 
ferido
gravemente, e a retirada era inevitvel. Puseram o imperador a cavalo, 
segundo parece,
j sem sentidos e inabilitado para mandar. Destitudas de chefe, as tropas 
atravessaram o
Tejo e, dirigidas pelos tambores, encaminharam-se para Sevilha. Desta cidade 
Abu
Yacub foi levado a Algeciras; mas, antes de poder passar  frica, faleceu 
naquela
cidade, das feridas que recebera, a 12 de rabieh 2 de 580 (24 de Julho de 
1184) 460 .
vocabatur) sibi matrimonio copulavit, Joh. Iperii Chron., apud Martene, 
Thesaur. Nov. Anecdot., T. 3, p.
669.
458 Nota XXVII no fim do volume.
459 A 7 do ms de rabieh 1 de 580 (19 de Junho de 1184), segundo Abdel-
Halim (p. 233); e a 5, segundo
Conde (P. 3, c. 50); Vigilia S. Johannis Baptistae, Crnica Conimbricense; 
Circa nativitatem B.
Johannis, Radulfo de Diceto, p. 623.
460 Assaleh (Abdel-Holim), Histria dos Soberanos Maometanos, pp. 233 e 
234; Conde (P. 3, c. 50) narra
o sucesso com alguma diferena, posto que no essencial..230
Tal  a narrao de Abdel-Halim e de outros escritores rabes. As
inverosimilhanas dela so palpveis. Como acreditar que Ishak no 
percebesse que seu
pai o enviava contra Lisboa, ordenando-lhe ele ao mesmo tempo a devastao 
daquela
comarca, o que seria absurdo em relao  de Sevilha? Alm disso, so as 
tropas
andaluzes as que se destinam para a expedio e que, com o filho do amir, se 
retiraram
do territrio invadido; mas os seus chefes no as acompanham, ficando junto 
de Yusuf.
Destas e de semelhantes contradies o que se pode deduzir  que algum 
cometimento
repentino dos cristos espalhou o terror pnico entre os muulmanos e que, 
ferido Yusuf
no meio do tumulto, redobrando o terror, o exrcito se precipitou em 
desordenada fuga.
 certo que dois dos mais graves historiadores rabes, Ibn Khaldun e Al-
Makkari,
omitiram as circunstncias referidas por Abdel-Halim, provavelmente 
inventadas para
corar o triste resultado da empresa. O primeiro diz-nos positivamente que, 
depois de
alguns dias de assdio, Abu Yacub dera ordem para se alevantar o campo, o 
que no s
produziu descontentamento geral, mas tambm desanimou as tropas; que, 
tendo os
sitiados feito uma surtida, encontraram o imperador quase s e desprevenido e 
que,
depois de sanguinolento conflito, ele e os seus foram obrigados a voltar costas. 
Neste
mesmo dia, prossegue Ibn Khaldun, o califa expirou; uns dizem que de uma 
frechada
que recebeu no fervor do combate, outros que de enfermidade sbita, a qual e 
acometeu
durante a retirada.461 Al-Makkari ainda  mais sucinto. O prncipe dos 
crentes, diz
ele, esteve acampado diante de Santarm durante um ms, at que uma 
doena que lhe
sobreveio lhe causou a morte. Pretendem alguns que esta fosse procedida de 
um virote
arrojado pelos cristos; mas s Deus sabe como o caso se passou.462 De 
feito, os
fugitivos deviam narrar variamente as causas e circunstncias da retirada, e as 
conve-nincias
polticas que fizeram esconder por algum tempo a morte de Abu Yacub no
menos contriburam, por certo, para obscurecer as particularidades do sucesso.
Os monumentos portugueses que podiam ilustrar-nos sobre este gravssimo
acontecimento narram-no, infelizmente, em termos demasiado curtos. Deles 
apenas
sabemos que os muulmanos se espalharam por toda a Estremadura e a 
devastaram,
demorando-se a cinco semanas, perodo acerca do qual, com pouca diferena,
concordam os escritores rabes 463 . O desfecho, porm, daquela empresa, 
para a qual se
haviam ajuntado quase todas as foras do Moghreb e do Andaluz, devia soar 
assaz alto
para ecoar pela Europa. Assim, um historiador ingls, que escrevia justamente 
por
aqueles anos, nos conservou a relao mais interessante do modo como se 
desfez a
furiosa tempestade que ameaava Portugal da ltima runa. A narrativa de 
Radulfo de
Diceto foi, provavelmente, recebida de algum dos actores daquele drama, 
sendo certo
que o trato entre Portugal e Inglaterra j ento era frequente, como temos visto 
e vere-mos
na histria dos subsequentes reinados. Ela nos parece por isso prefervel  dos
escritores muulmanos, interessados nesta parte em dissimular a verdade, 
cumprindo,
todavia, reduzir s dimenses naturais a perda que o historiador cristo atribui 
aos
vencidos, perda impossvel de crer e, sem dvida, exagerada pelos 
vencedores, segundo
o costume daquele e de todos os tempos.
Se acreditarmos, pois, Radulfo, Abu Yacub conduzia no seu numeroso exrcito
trinta e sete vlis (reges) com a gente de guerra das respectivas provncias. 
Transposto o
Tejo, os invasores acometeram Santarm, que foi combatida sem interrupo 
durante
461 Ibn Khaldun, em Gayangos, Vol. 2, Apndice D, p. 62.
462 Al-Makkari, B. 8, c. 3, Vol. 2, p. 319.
463 Crnica Conimbricense era 1222. A Chronica Gothorum apenas nos 
diz que Yusuf invasit
Scalabium, sed pulsos et victus; e ainda esta parte daquela crnica  
evidentemente acrescentada por
mo diversa e em tempos posteriores, aludindo-se  batalha das Navas de 
Tolosa, dada muitos anos
depois..231
trs dias e trs noites, at que, rotos os muros, os almadas penetraram 
dentro,
obrigando a guarnio a refugiar-se na alcova 464 . Na seguinte noite 
chegou um corpo
de cristos, a cuja frente vinham Sancho e o bispo do Porto. Acometido por 
eles, Gami,
um dos principais chefes muulmanos (talvez Ghamin Ibn Yusuf Ibn Mardanix, 
almi-rante
das frotas almadas), pereceu no conflito com a maior parte das suas tropas, 
cujos
cadveres amontoados na brecha serviram de parapeito aos vencedores. 
Entretanto,
sabida a vinda de Yusuf, um exrcito de vinte mil homens capitaneado pelo 
arcebispo
de Santiago descia da Galiza em auxlio dos portugueses e chegava a 
Santarm ao
romper de alva do dia 26 de Julho 465 , imediato ao da vitria de Sancho. 
Atacados
repentinamente, os muulmanos tiveram uma espantosa perda. No foram, 
todavia,
decisivas as vantagens obtidas, e o cerco prosseguiu por todo o ms seguinte. 
Talvez
para divertir a ateno do rei de Portugal, um corpo de sarracenos se 
encaminhara para o
lado de Alcobaa, e na sua marcha assoladora metera  espada as mulheres e 
crianas,
cujo nmero se avaliava em dez mil pessoas. O castelo, porm, de Alcobaa 
lhes
ofereceu mais sria resistncia, e trs vlis com grande poro daquela 
soldadesca
desenfreada pagaram com a vida as cruezas antes praticadas. Enfim, a 24 de 
Julho
chegou aos arraiais muulmanos a nova de que o valente rei de Leo se dirigia 
para ali e
que desafiava a combate singular o imperador almada. Preparava-se j Yusuf 
para a
batalha, quando ao querer montar a cavalo vacilou e caiu. Trs vezes tentou 
cavalgar;
trs vezes desmaiou. Fora tiro de besta vibrado das muralhas que o 
trespassara? Fora
ataque de sbita e mortal enfermidade? Eis o que nos no diz o cronista ingls.
Espalhada a nova daquele impensado caso, o terror pnico apoderou-se do 
exrcito, que
fugiu desordenadamente, abandonando os despojos que ajuntara na 
devastada
Estremadura 466 .
Tal  a relao menos inverosmil e, ao mesmo tempo, mais completa do cerco 
de
Santarm, da morte de Abu Yacub e da disperso do seu numeroso exrcito.  
possvel
que em uma ou outra particularidade seja inexacta e at se poderia suspeitar 
que o
historiador inseriu neste acontecimento algumas circunstncias do primeiro 
cerco de
Santarm em 1171; mas, ainda assim, o confirmar o pouco que nos 
transmitiram os
monumentos nacionais abona a generalidade da narrativa 467 .
Livre, com o por milagre, da situao arriscada em que se vira, o rei de 
Portugal
mostrou a sua gratido aos benefcios da Providncia pelo modo que naquela 
poca se
cria mais agradvel a Deus. Grande nmero de sarracenos tinham ficado 
cativos durante
uma retirada feita sem ordem e s conduzida pelo temor. Estes cativos foram
condenados  servido e distribudos pelo pas para carregarem a pedra e o 
cimento nas
reedificaes e reparos das igrejas, e o ouro que pertenceu ao Estado do saco 
do arraial
de Yusuf aplicou-se  feitura de uma arca destinada a guardar as relquias de 
So
Vicente, transferidas anos antes para Lisboa do cabo que daquele santo 
recebeu o nome,
e conservadas durante o domnio sarraceno pelos sacerdotes morabes em 
um templo
construdo sobre o alto promontrio, templo respeitado sempre pela exemplar 
tolerncia
religiosa dos muulmanos 468 .
Pouco tempo decorrera desde que Yusuf cercara Santarm e que o territrio da
464  o que evidentemente significa a frase se intra torrem receperunt.
465 In crastino autem, scilicet in die sanctorum Tohannis et Pauli. A festa de 
So Joo e So Paulo,
mrtires, cai a 26 de Junho.
466 Radulfo de Diceto, p. 624. Romey (Histoire dEspagne. T. 6, p. 218) tira a 
relao deste sucesso de
Mateus Paris, que a transcreve quase literalmente de Radulfo e que comps a 
sua Historia Maior muito
depois.
467 ... vastavit totam Extrematuram, et fuit ibi par quinque septimanas, 
Crnica Conimbricense era
1222.
468 Radulfo de Diceto, loc. cit.; Edrisi, Geografia, Vol. 2, p. 22..232
moderna Estremadura fora devastado pelas tropas almadas, quando uma 
numerosa
armada, em que provavelmente se achavam reunidas as foras navais da 
frica e da
Andaluzia, bem como sucedera no exrcito de terra, penetrou pela foz do Tejo 
e veio
atacar Lisboa. Entre as gals de que se compunha a frota distinguia-se uma 
daquelas a
que pela grandeza se dava ento um nome especial, o de dromon ou 
dromunda. Eram
embarcaes de primeira ordem, correspondendo de certo modo s nossas 
naus de linha
469 , Sobre esta possante gal conduziam os sarracenos uma engenhosa 
mquina de
guerra, por meio da qual, fundeando aquele navio perto dos muros da cidade, 
as tropas
de desembarque poderiam ir saltar sobre os adarves e combater peito a peito 
com os
cristos. Era de temer um tal cometimento, em que para os defensores a 
vantagem de
pelejar de alto e a coberto das ameias desaparecia; mas entre os de Lisboa 
apareceu um
homem que, oferecendo-se a morte quase certa, removeu o perigo comum. 
Infelizmente
a histria no salvou do esquecimento o nome daquele esforado, e nem 
sequer nos con-servou
as circunstncias do feito. Sabemos s que ele, aproximando-se pela calada da
noite do temeroso baixel, lhe abriu um rombo, pelo qual penetrando o mar o fez
soobrar, e a mquina mal-guardada, descendo  superfcie da gua, foi 
trazida  praia e
suspensa das muralhas. Logo que amanheceu conheceram os sarracenos que 
os seus
desgnios haviam sido burlados, e assim abandonaram a empresa, no sem 
haverem
primeiro saltado a terra e cativado todos os cristos que vagueavam 
imprudentemente
pelos arrabaldes da cidade ou pelos campos circunvizinhos 470 .
Tal foi para os almadas o infeliz xito da tentativa contra Portugal, que na sua
soberba eles tinham crido poder facilmente riscar da lista dos povos cristos da
Espanha. No longo crepsculo de velhice aborrida e enferma, o corao do 
valente
Afonso I ainda pde dilatar-se pela ltima vez nos contentamentos de uma 
grande
vitria. A sua boa espada repousava havia muito na bainha junto do seu leito 
de dor;
mas consol-lo-ia a certeza de que deixava um filho digno dele no esforo, e 
uma nao
cheia de energia e de esperana, a qual lhe devia quase inteiramente a sua 
vida poltica.
A resistncia invencvel que as foras de terra e de mar do imprio muulmano 
tinham
encontrado em Portugal provava-lhe que o povo educado por ele passara em 
curtos anos
de dbil infncia a juventude robusta. O edifcio da independncia nacional, 
desenhado
pelo conde Henrique, cimentado por D. Teresa e realizado de todo o ponto por 
ele,
achava-se, enfim, concludo com a segurana necessria para resistir  
destruidora aco
dos sculos. Quando, na ebriedade da vitria ou ao sentir-se grande e forte, o 
rei de
Portugal tomava para si os ttulos de feliz, de prncipe egrgio e de triunfador 
471 , o
orgulho que o dilatava era nobre e legtimo, porque se estribava na voz da 
conscincia e
no testemunho unnime de amigos e de inimigos, de estranhos e de naturais.
O ltimo ano da vida de Afonso I passou sem que a histria tivesse nada que
mencionar acerca deste prncipe. O guerreiro como que j dormitava no sono 
da morte,
que em breve devia cerrar-lhe perpetuamente as plpebras. Apenas alguns 
documentos
dessa poca nos mostram que nos seus derradeiros dias no abandonou de 
todo o leme
do Estado, ao passo que se mostrava ainda liberal para a Igreja, com quem 
sempre
repartira largamente os frutos das suas conquistas 472 . Veio, enfim, a falecer 
a 6 de
Dezembro de 1185 473 , depois de governar este pas com os ttulos de infante 
e de
469 Ducange, Glossrio, verbete Dromones.
470 Radulfo de Diceto, loc. cit.
471 Documento nas Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, n.os 439, 474, e T. 
4, P. 1, n 786. Ribeiro
duvida da genuinidade dos dois primeiros em consequncia desses ttulos, o 
que nos no parece motivo
bastante para os rejeitar.
472 Foral de Palmela, no Arquivo Nacional, Mao 3 de Forais Antigos, n 15, e 
Mao 12, n 3, f. 75;
Doao  s de vora, nas Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, n 557.
473 VIII idus decembris obiit rex Ildefonsus portugalensis, Crnica 
Conimbricense.233
prncipe doze anos e com o de rei quarenta e cinco. Ordenara ele que o 
enterrassem no
Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde jaziam tambm as cinzas de sua 
esposa D.
Mafalda. A, de feito, descansou finalmente aquele corpo gasto de tantas lidas 
em
sepultura modesta, conforme permitia a rudeza dos tempos, at que el-rei D. 
Manuel lhe
alevantou o rico mausolu em que ainda hoje se guardam os ossos do 
fundador da
monarquia 474 .
Seguindo as fases deste longo reinado e julgando parcialmente as aces do
homem que a Providncia ps  frente da nao para a guiar nos primeiros 
anos da sua
existncia, conhece-se que o pensamento de firmar a independncia 
portuguesa
subjugava no esprito do prncipe outras quaisquer consideraes, ainda, 
talvez, com
ofensa de algumas que deveriam ser respeitadas.  realmente quela ideia 
que vo ligar-se
muitos actos de Afonso Henriques, os quais, avaliados separadamente, dariam 
direito
a acus-lo de pouca f e de ambio desmedida. Alm da rebelio contra D. 
Teresa, que
mais se h-de atribuir  nobreza do que a um mancebo inexperiente, a quebra 
do tratado
feito com o imperador em 1137, o engano imaginado para colher desprevenida 
a
guarnio de Santarm, as crueldades praticadas com os sarracenos, a 
maneira, enfim,
por que se houve com o rei de Leo seu genro, cujo nobre e generoso carcter 
no pode
deixar de fazer sombra ao de Afonso I, foram aces que, avaliadas em si 
unicamente,
sero sempre dignas de repreenso, ao menos enquanto os monumentos nos 
no
revelarem algumas circunstncias ainda ignoradas que possam absolv-las. 
Mas, se as
ligarmos ao pensamento a que o rei de Portugal se votara e que, por assim nos
exprimirmos, ele encarnara em si, quem no desculpar tais aces, sobretudo 
se
atendermos  barbaria da poca,  dificultosa situao do pas e  fraqueza 
real de uma
sociedade desmembrada de outra que forcejava para reconduzi-la ao prprio 
grmio? A
grande necessidade a que Afonso I tinha de prover era a de dar 
homogeneidade e
robustez interna e externa  nao que se constitua. Para isto importava que 
ao mesmo
tempo buscasse o favor da Igreja, primeiro elemento de fora naqueles tempos, 
que
favorecesse a fidalguia, principal nervo dos exrcitos, e que, finalmente, desse 
o
mximo grau de vigor ao esprito municipal, sem o que, em nossa opinio, 
nunca houve
nem haver energia popular ou vivo afecto  terra natal. Alm deste trabalho de
organizao interior, cumpria-lhe dilatar os limites do territrio que herdara, 
demasiado
estreitos para o estabelecimento de um estado independente. O temor do seu 
nome entre
muulmanos e cristos e a audcia das suas tropas eram meios para o obter.
Naturalmente belicoso, duas geraes sucessivas aprenderam na sua escola o 
duro
mister da guerra e alcanaram legar aos vindouros as gloriosas tradies de 
esforo e de
amor ptrio que a nao guardou religiosamente durante alguns sculos. 
Antes, porm,
que Afonso I pudesse confiar  sorte das batalhas a independncia do seu 
pas, precisava
de ampar-la, enquanto planta dbil, com a destreza da poltica. Da nascia, 
em certas
circunstncias, um proceder que, absolutamente considerado, a severidade da 
moral
condenar. Visto, porm, o quadro  conveniente luz, as manchas que, alis,
assombrariam o altivo e nobre vulto do nosso primeiro rei quase desaparecem, 
e a
simpatia que em todos os sculos a gente portuguesa mostrou pela memria 
do filho do
conde Henrique torna-se respeitvel, porque tem as razes num afecto dos que 
mais
raros so de encontrar nos povos, a gratido para com aqueles a quem muito 
deveram.
Este afecto nacional chegou a atribuir a Afonso Henriques a aurola dos santos 
e a
pretender que Roma desse ao fero conquistador a coroa que pertence  
resignao do
474 Monasterio Sancte Crucis, ubi jubeo sepeliri corpos meum, doao a 
Santa Cruz, em Maio de 1159,
Arquivo Nacional, Mao 12 de Forais Antigos, n 3, f. 68 v.; Monasterio Sancte 
Crucis ubi pater meus et
mater mea, avi mei, et fratres mei, tumulati jacent, Confirmao dos 
Privilgios de Santa Cruz por
Afonso II, ibid., E. 67; Gis, Crnica de El-Rei D. Manuel, P. 4, c. 85..234
mrtir. Se uma crena de paz e de humildade no consente que Roma lhe 
conceda essa
coroa, outra religio tambm venerada, a da ptria, nos ensina que, ao 
passarmos pelo
plido e carcomido portal da Igreja de Santa Cruz, vamos saudar as cinzas 
daquele
homem, sem o qual no existiria hoje a nao portuguesa e, porventura, nem 
sequer o
nome de Portugal..235
NOTAS DE FIM DE VOLUME
I
CALE  PORTUCALE  PORTUGAL
Sobre a origem de Cale e sobre a sua situao na margem esquerda do Douro 
no
tempo dos romanos veja-se Flores, Espaa Sagrada, T. 21, pp. 1 e ss. 
Conhecida no
tempo dos brbaros (sculo V) pelo nome de Portucale, em Idcio, no T. 4, pp. 
374, 377
e ss. da Espaa Sagrada. Com o mesmo nome no sculo IX, em Sampiro, 
Crnica, 9.
Situada ainda na margem esquerda do Douro no princpio do X (912) em 
documento do
Livro Preto da S de Coimbra, f. 38, citado nos Novos Aditamentos as 
Dissertaes
Cronolgicas, p. 5, e a a palavra Galhia em lugar de Ga..a, que apenas se 
pode ler
naquele cdice. Este ltimo documento prova contra Flores (Espaa Sagrada, 
T. 21, p.
10, pargrafo 31) que efectivamente a povoao ao sul do rio se chamou 
Portucale. A
escritura sobre a diviso dos bispados em tempo dos suevos, embora no 
remonte 
antiguidade que se lhe atribui, no deixando de ser bastante remota, nos 
explica
perfeitamente como nasceu o Porto moderno, chamando-se a a este Portucale 
castrum
novum e  povoao primitiva na margem fronteira Portucale castrum 
antiquum. A
Cale do Itinerrio de Antonino ou o Portucale de Idcio estava assentada ao sul 
do rio,
provavelmente no monte hoje chamado castelo de Gaia. No correr dos tempos 
foi-se,
talvez, estabelecendo uma povoao na margem oposta, ou antes, o que nos 
parece mais
verosmil, quando as conquistas dos cristos se dilataram at o Douro, eles 
fundaram
um castelo no monte mais eminente da margem direita, onde hoje existe a 
catedral.
Estendidas estas conquistas at o Vouga, os dois castelos ficaram constituindo 
de certo
modo um s Portucale, e, porventura, dessa poca  a distino de Portucale 
castrum
antiquum e Portucale castrum focam, que se l nas supostas actas do primeiro 
Conclio
de Lugo. O nosso pensamento de que os castelos das duas margens 
constituiriam, ao
menos durante certo tempo, uma povoao nica ocorre facilmente vendo-se 
estender
no sculo XI o territrio portugalense tanto para o interior da provncia do Minho
(Documento de Pedroso nas Dissertaes Cronolgicas, T. 1, p. 221) como 
para o
lado do Vouga (Livro Preto, f. 62 e 65), desprezada a diviso natural de um rio
caudaloso, como o Douro, circunstncia alis inslita naqueles tempos, em que 
muito se
atendia a hidrografia interior para estremar as provncias e distritos dos 
diferentes
governos.  vulgarmente sabido que desta povoao veio o nome do nosso 
pas, e por
isso nos parece intil acrescentar mais nada ao que fica dito no texto.
II
O CONDE SESNANDO
Sesnandus, David prolis... Tentugal que fuit hereditas parentum meorum, 
Livro
Preto, f. 37. Obsedit Colimbriam civitatem com consilio D. Sisenandi consulis, 
que
antea honorifice in urbe Hispali morabatur, et sublimis habebatur... et dedit eam 
dli,
ibid., f. 8 v. Cf. Mon. Silens, pargrafo 39, e Lucas de Tuy (na Hispnia 
Ilustrada, T. 4,
p. 94). O ter sido Sesnando levado cativo de terra de cristos para Sevilha, 
como dizem
os dois cronistas,  inexacto, a ser ele das imediaes de Coimbra, como 
parece dever
concluir-se do Livro Preto, porque esse territrio antes de 1064 pertencia aos
sarracenos. O estilo em que so redigidos os documentos do conde Sesnando 
oferece,.236
em geral, frmulas diversas das que usavam os notrios cristos. Alguns 
desses
documentos parecem diplomas rabes escritos com palavras latinas. No 
seria, at,
conjectura demasiado atrevida supor que Sesnando fora muulmano antes de 
passar ao
servio de Fernando Magno. Quanto ao territrio que abrangia o condado de 
Coimbra,
veja-se Dissertaes Cronolgicas, T. 4, P. 1, p. 28, e Livro Preto, fs. 137 e 
149.
III
ILEGITIMIDADE DE D. TERESA
Nas Memrias da Academia de Lisboa (Exames Comparativos das Crnicas
Portuguesas, Vol. 11, Parte 1, Exame 6, Art. 3; Exame 8, pargrafos 3 e 4; 
Parte 2,
Exame 1, Art. 7; Exame 9, Art. 8, por A. de Almeida) provou-se pelos 
testemunhos dos
escritores contemporneos que D. Teresa fora filha bastarda de Afonso VI e 
aduziram-se,
alm disso, vrias provas de congruncia  vista dos documentos e dos factos.
Depois, outro acadmico (D. Francisco de S. Lus) pretendeu sustentar a 
legitimidade
com os fundamentos que logo avaliaremos (Vol. 12, P. 2), sem todavia refutar, 
porque
no o podia fazer, o testemunho dos autores coevos, entre os quais, fique j 
dito, o
primeiro acadmico se esquecera de mencionar o da importante crnica do 
annimo de
Sahagn, publicada por Escalona na sua histria daquele mosteiro. O annimo 
no s
viveu em tempo de D. Teresa, mas tambm devia t-la tratado de perto quando 
ela
residiu em Sahagn. Apesar de no existir este monumento seno numa 
traduo vulgar,
talvez do sculo XIII, e de ter perecido o original no incndio do mosteiro, a sua 
frase
latino-brbara transparece ainda na frase da verso, e nunca sobre a 
autenticidade dela
se levantou, que ns saibamos, a mnima dvida, sendo citada frequentemente 
pelo
continuador da Espaa Sagrada, o padre Risco, e pelo severssimo e, s 
vezes,
exageradamente desconfiado autor da Historia Critica de Espaa, Masdeu. 
Fazemos
aqui esta advertncia porque nos espanta o haverem desconhecido os nosso 
modernos
escritores to importante fonte da histria portuguesa no primeiro quartel do 
sculo XII,
para escrever a qual no sobram os recursos. O annimo, pois, de Sahagn 
diz
expressamente:  de saber que elrey D. Alonso de noble memoria, mientras 
que ei
viviesse, de una manceba, pero bien noble, habia habido una hija llamada 
Teresa, la
qual el habia casado con un conde llamado Enrique, que venia de sangre real 
de
Francia. Este testemunho dato e terminante vem confirmar os de Pelgio de 
Oviedo, de
Rodrigo Ximenes, da crnica latina de Afonso VII e do monge de Silos, 
expostos
largamente por Pereira de Figueiredo, que numa Memria especial provou a
ilegitimidade de D. Teresa (Memrias da Academia, T. 9, pp. 274 e 55.), e de 
cujo
trabalho se aproveitou, nesta parte, o mais recente autor dos Exames 
Comparativos.
Na Memria de S. Lus, em que se tornou a pr em questo esta matria,
recorreu-se a dois argumentos em favor da legitimidade.  o primeiro: Que D. 
Afonso
VI foi obrigado a separar-se de D. Ximena, me de D. Elvira e de D. Teresa, 
por uma
bula do papa So Gregrio VII, que vem nos Annaes de Baronio ao ano 1080 e 
em
Sandova e em Aguirre. E diz o Santo Padre que o matrimnio era nulo, por s 
haver
contrado sem dispensao do parentesco que havia entre a actual e a outra 
precedente
mulher de D. Afonso.  o segundo: Que a Senhor D. Teresa era 
frequentemente
denominada infanta e rainha nos documentos e monumentos histricos, 
antigos e
coevos, de Leo, Castela e Portugal; e  certo que nem uma nem outra 
qualificao se
dava ordinariamente naqueles tempos s filhas ilegtimas dos reis. Estribado 
neste dois
fundamentos, o autor da Memria mostra-se favorvel  opinio da 
legitimidade.
Este segundo argumento chega a parecer impossvel se fizesse, porque a.237
proposio em que se funda, isto , que s bastardas se no davas aqueles 
ttulos, est
desmentida quanto ao de infanta pelos documento desses tempos e, o que 
mais , tinha-se
j demonstrado isso mesmo com exemplos indisputveis nas duas Memrias
anteriores a favor da ilegitimidade, sem que todavia o autor daquela a que 
aludimos se
fizesse cargo de as refutar e, pelo que toca ao titulo de rainha, da nossa 
narrativa,
fundada igualmente em autoridades insuspeitas e que o escrito recente tinha 
obrigao
de conhecer, se v por quem, quando e de que modo lhe foi dado.
O primeiro argumento, resumido de Brando (Monarquia Lusitana, L. 8, c. 13),
posto que o autor o no diga,  mais grave. Se foi preciso que uma bula 
separasse
Afonso VI de Ximena e declarasse o matrimnio nulo,  evidente que esse 
matrimnio
existia, e a sua dissoluo no importava a ilegitimidade dos filhos gerados e 
nascidos
durante ele. Tal  o raciocnio confusamente expresso por Brando e 
apresentado mais
perspicuamente pelo escritor moderno.
Mas averiguou-se j bem se a clebre bula de Gregrio VII dizia respeito a
Ximena Muniones? Parece-nos que era essa uma questo que valia a pena de 
tratar-se,
porque, resolvida negativamente, no testava um nico pretexto para protrair 
as
interminveis disputas sobre a legitimidade ou ilegitimidade da me do nosso 
primeiro
rei, que tem entretido demasiadamente os espritos por mal entendido 
pundonor
nacional. F-lo-emos aqui, posto que de m vontade, porque chamam por ns 
questes
de interesse histrico um pouco mais grave.
Primeiro que tudo: Aguirre (Colectnea Max. Concil. Hisp., T. IV, p. 446) atribui
a esta bula a data de 1079.  um erro, demonstrado como tal por Flores 
(Espaa
Sagrada, T. 3, p. 316), e de feito ela vem com o seu verdadeiro ano em Mansi 
(Sacror.
Concilior. Nova et Ampliss. Collect., T. XX, p. 31). Foi remetida ao alcaide de 
Cluni,
Hugo, inclusa em carta para este datada de 27 e Junho de 1080 (ibid.), a fim de 
que a
fizesse chegar  mo do rei espanhol, e, portanto, devia ser exarada 
igualmente nos fins
de Junho. Daremos uma ideia dela e da carta em que vinha inclusa, para o que 
depois
veremos.
Nesta ltima diz o papa a Hugo que um seu monge, chamado Roberto, fizera
grandes males na Espanha  religio, pondo a em grande perigo a Igreja e 
enganando o
rei com suas fraudes: que h grandes queixas contra ele, Hugo, que se teria 
inimizado
com Roma, se o prprio papa no sustentasse, fechando os ouvidos s 
acusaes:
ordena-lhe que corrija os seus monges, que obrigue o dito Roberto a voltar a 
Cluni e que
avise o rei da ira de S. Pedro, em que incorreu por tratar indignamente o legado 
romano
(era o cardeal Ricardo, abade de Marselha), e de que para ser absolvido lhe 
cumpre dar
satisfao ao dito legado que afrontara: adverte-o de que excomungar o 
mesmo rei, se
no o fizer assim, e de que at ele, papa, vir a Espanha para o perseguir, se 
tanto for
preciso: exige, finalmente, que Hugo tome a seu cuidado fazer com que os 
monges
dispersos injustamente nestas partes voltem ao seu mosteiro, etc.
Na bula ou carta a Afonso VI diz Gregrio VII: que lhe consta que ele se 
afastara
do seu antigo e bom procedimento em relao  Igreja, induzido pelo falso 
monge
Roberto e pela mulher perdida sua antiga protectora (per Robertum pseudo-
monachum
et per antiquam adjutricem suam perditam faeminam); que lhe pede remova
de si os conselheiros da falsidade; que obedea ao legado Ricardo; que no o 
torne
surdo s suas admoestaes o amor incestuoso de uma mulher, e no queira 
assim fazer
rproba e intil a sua posteridade; que cobre esforo e anule inteiramente o 
consrcio
ilcito que celebrara com uma parenta por consanguinidade de sua mulher 
(illicitum
connubium, quod cum uxoris tuae consanguinea inisti, penitus respue); que ele 
j
mandou fechar no Mosteiro de Cluni o nefandssimo Roberto, sedutor dele e
perturbador do reino; que esteja certo de que o abade Hugo assim o h-de 
cumprir,.238
porque o dito abade est de acordo com ele, papa, em procedimento, em 
sentimentos e
em nimo. A verdade com que Gregrio VII falava, quanto a esta ltima 
circunstncia,
conhece-se da carta dirigida a Hugo; mas Hildebrando era demasiado poltico 
para se
no prender com essa falta de exaco.
Quem era este monge Roberto? Di-lo o annimo de Sahagn, e a sua narrativa
ilustra as duas cartas do papa. Afonso VI, no dcimo quinto ano do seu reinado
(comeou nos ltimos dias de Dezembro de 1063, e portanto viria a cair o 
sucesso em
1080; mas, pelo que adiante veremos, deve ler-se dcimo quarto), pediu a 
Hugo alguns
monges que viessem estabelecer em Sahagn a religio, costumes e 
cerimnias de
Cluni. Mandou-lhe logo Hugo o monge Roberto e pouco depois outro. Mas, 
tendo
estes agradado pouco ao rei, enviou um chamado Bernardo, que, mandado a 
Roma por
Afonso VI com cartas para o papa, voltou de l com privilgios para o 
mosteiro ficar
exempto da jurisdio do ordinrio. Foi recebido o novo abade (depois 
arcebispo de
Toledo) pela comunidade dos monges de Sahagn, que desde a vinda dos 
dois
anteriores cluniacenses andavam fugidos por diversas partes. Esta  em 
resumo a
relao do annimo. Vemos dela e das cartas acima extractadas que Roberto, 
tendo sido
mandado de Cluni para reformar, em bem ou em mal, os beneditinos de 
Sahagn,
afugentara os monges; que estes se valeram provavelmente do legado do 
papa; que
Ricardo, por esse ou por outro qualquer motivo, se desaveio com Roberto, e 
que este,
protegido pela mulher de Afonso VI, foi causador das injrias e maus 
tratamentos feitos
pelo rei ao legado. As cartas de Gregrio VII, recheadas de ameaas, mostram 
bem o
carcter violento do pontfice e quo grande havia sido a afronta recebida pelo 
cardeal
Ricardo. Quando, porm, essas cartas chegaram tinha j vindo a Espanha o 
cluniacense
Bernardo, que, promovido a abade de Sahagn, partiu para Roma, como narra 
o
annimo, pelos motivos que este oculta, e que nos revela uma nova carta de
Hildebrando, carta cuja ntima ligao com as antecedentes  visvel. Aguirre 
atribui-a
ao ano de 1080; porm, Mansi redu-la ao de 1081, que  a sua verdadeira data 
(Sacror.
Concilior. Nova et Ampliss. Collect., T. XX, p. 340). Dela parece colher-se que 
Afonso
VI escrevera energicamente ao pontfice; mas que ao mesmo tempo lhe 
assegurara ter
estabelecido em toda a monarquia o rito romano com excluso do morabe, 
coisa em
que o papa altamente se empenhava. Trata a Hildebrando da eleio de um 
certo
arcebispo que ele recusa pela incapacidade literria do eleito, propondo a 
Afonso VI
eleja outro e que, se no seu pas no tiver pessoa digna disso, o procure 
estrangeiro; faz-lhe
vrias recomendaes contra os judeus; mas sobretudo alude a dois objectos, 
que
so aqueles que nos parece terem ntima conexo com as anteriores cartas. 
Diz-lhe que
pelo que respeita ao que lhe pede acerca de sua mulher e do Mosteiro de 
Sahagn,
responder pelo legado e pelo bispo Simeo. Depois espraia-se em 
encarecimentos e
aces de graas pelo riqussimo presente que Afonso lhe fizera, to amplo e 
magnfico,
diz o papa, que era digno de ser feito por um rei e recebido por S. Pedro. 
Acaba a carta
com as expresses mais amigveis que podia empregar um homem da altivez 
de
Hildebrando, debaixo das impresses agradveis que nele produzira a 
liberalidade do
monarca espanhol.
Qualquer ver no complexo dos documentos que havemos apontado o 
comeo,
meio e desfecho de um negcio em que figuram Afonso VI, sua mulher, o papa, 
o
legado Ricardo, o monge Roberto, os cluniacenses e os beneditinos de 
Sahagn, e em
que, por ltimo, quem lucra  Hildebrando, que obtm do rei a concluso da 
mudana
de rito, no que trabalhava a corte de Roma havia anos, e, alm disso, dons 
preciosos que
extasiam o ambicioso pontfice. Ningum imaginar que essa mulher do rei de 
que se
trata na ltima carta seja diversa da perditam faeminam da primeira. Todavia, a 
admitir
a comum opinio, nesta aludiria o papa a D. Ximena, devendo supor-se em tal 
hiptese.239
que na ltima se refere a D. Constncia, que em 1081 estava 
indisputavelmente casada
com o rei leons.
Mas como admitir semelhante pressuposto? O monge Roberto veio de Frana 
para
Espanha em 1080, segundo o testemunho do annimo, ou antes, em 1079, 
conforme se
deve ler: Ximena era asturiana: como podia, pois, ser antiga protectora de 
um monge
que nesse ou no antecedente ano veio de alm dos Pirenus? Se, porm, 
supusermos que
o papa se referia a D. Constncia, o patronato desta para com Roberto no s 
era
possvel, mas, at, natural. Roberto fora escolhido para vir a Sahagn pelo 
abade de
Cluni, e este era tio de D. Constncia. As relaes da sobrinha de Hugo com o 
mosteiro
que seu tio governava e que era ento o mais clebre da Europa deviam ser 
estreitas, e
porventura,  sua influncia deveu Roberto o ser chamado para reformador de 
Sahagn.
O ano do casamento de Afonso VI com D. Constncia  ainda disputado, como 
o
 tudo o que respeita s cinco ou seis mulheres que teve este prncipe. A 
primeira, D.
Ins, que uns fazem espanhola outros francesa, faleceu ou foi repudiada (que 
at isso 
disputvel) em 1178, porque  de Maio deste ano o ltimo diploma de seu 
marido em
que ela figura (Flores, Reynas Catlicas, T. 1, p. 167).  depois disto que os
historiadores pem comummente o enlace de Afonso VI com Ximena 
Muniones;
todavia, muitos dos mais graves escritores castelhanos, como Sandoval, 
Mondejar e
outros, datam de 1078 o consrcio de D. Constncia,  vista de documentos de 
cuja
veracidade no duvidam. Flores, preocupado pela ideia de que a bula de 1080 
alude
necessariamente s ligaes de Afonso VI com uma concubina, rejeita de certo 
modo
todos os documentos em que se fala de Constncia anteriores a este ano, para 
a supor
casada depois de Junho (Espaa Sagrada, T. 3, pp. 317 e 318); mas faziam-
lhe tal fora
as provas diplomticas em contrrio que conclui por dizer que quem for mais 
destro
que ele desatar estas dvidas. Longe de ns o supormo-nos mais 
inteligentes que o
sbio espanhol, mas a dificuldade desaparece logo que se abandone a ideia de 
que ele
estava preocupado e que nenhum facto, nenhum documento nos obriga a 
aceitar.
Porque, possudo de clera violenta pelas afrontas feitas ao seu legado, no 
aplicaria o
orgulhoso e irascvel Hildebrando o nome de mulher perdida a D. 
Constncia? No
era ele homem cuja linguagem para com os prncipes fosse medida pelos 
respeitos
humanos. Leia as suas cartas e a sua histria quem quiser desenganar-se 
disso.
Mondejar (Casamientos delrey D. Alonso VI, pargrafo 9) fixa os desposrios 
de
D. Constncia nos fins de 1078  vista de uma escritura citada por Arevalo. 
Sandoval
(Cinco Reyes, f. 45) estabelece a mesma data por outra escritura, que Flores 
(Reynas
Catlicas, T. 1, p. 168) d por suspeita pela mesma preocupao a que acima 
aludimos.
Deixando esta questo, venhamos ao exame de diplomas que parecem 
indisputveis.
Existe a nomeao do clebre Roberto para abade de Sahagn (Escalona, 
Historia del
Monasterio de Sahagn, Apndice 3, escrito 113) feita por D. Afonso e por sua 
mulher
D. Constncia em 10 de Maio de 1079 (por isso se deve emendar o ano 
dcimo quinto
do annimo para dcimo quarto), e a se expem os motivos daquela 
nomeao,
concordes com os que aponta a Crnica de Sahagn, isto , o introduzir neste 
mosteiro
a reforma cluniacense. Em Maio do ano seguinte achamos a nomeao de 
Bernardo para
substituir Roberto feita pelos mesmos prncipes na presena do cardeal 
Ricardo (ibid.,
escrito 114), donde se v que na ocasio em que Hildebrando preparava a 
fulminante
bula pata desagravar o legado estava j este congraado com Afonso VI, 
provavelmente
porque Hugo soubera antecipadamente da tempestade que ia levantar-se em 
Roma e
mandara em seu lugar Bernardo. No h, porm, s estes documentos: Yepes 
(Crnica
Beneditina, T. 3, Apndice, 1. 19) traz um de 8 de Maio de 1080, em que j 
figura
aquela rainha. Contra o testemunho destes trs documentos, que h a opor 
para se
afirmar que D. Constncia no era casada com Afonso VI muito antes de se 
expedir a.240
bula do ms de Junho de 1080? A persuaso de que o papa se refere nesta a 
Ximena
Muniones, persuaso absolutamente infundada; porque no h um s 
testemunho
contemporneo, um nico diploma, no dizemos que o prove, mas que ao 
menos torne
plausvel semelhante opinio.
Restaria um meio para verificar se o papa aludia a Constncia e no a Ximena 
na
bula de 1080 (posto que a matria nos parea evidente), se fosse possvel 
resolver a
questo que versa entre os escritores castelhanos sobre a ptria e filiao de 
D. Ins,
primeira mulher de Afonso VI. Gregrio VII ordena que este se aparte duma 
parenta por
consanguinidade de sua mulher (uxoris tuae consanguinea). Na hiptese de 
ter sido
D. Ins francesa e parenta da casa de Borgonha estaria provado que era a D. 
Constncia
que aludia a bula. No nos  possvel discutir aqui esse ponto, nem transcrever 
as
consideraes de Flores sobre a probabilidade de ser ou no ser D. Ins a filha 
de
Guilherme VIII, duque da Aquitnia, a primeira ou a derradeira mulher de 
Afonso VI.
Podem ver-se na obra Reynas Catlicas (T. 1, pp. 219 e ss.). O que. todavia, 
nem Flores
nem ningum ainda provou  que essa primeira mulher daquele prncipe, 
chamada
indisputavelmente Ins, no fosse francesa e no pudesse, portanto, ser 
parenta de D.
Constncia, o que explicaria naturalmente as expresses de Gregrio VII.
Mas porque no teve efeito a decretada separao? A resposta  bvia: est 
no
rescrito de 1081 que acima extractmos e nas circunstncias que ento 
concorreram. A
reconciliao com o legado Ricardo, a concluso do negcio do rito romano e 
morabe
e o estrondoso presente feito ao papa pelo monarca espanhol so elementos 
que bastam
para achar a explicao do facto a quem quer que no estiver inteiramente 
convencido
da santidade de Gregrio VII, sem que por isso lhe negue o haver sido, talvez, 
o maior
homem da sua poca.
IV
COMEO DO GOVERNO DO CONDE HENRIQUE
Em Julho de 1095, j S. Giraldo era arcebispo de Braga (Dissertaes
Cronolgicas, T. 3, P. 1, p. 32, n 95). V-se daqui que ele era considerado 
como
metropolitano antes de ser confirmado nesta dignidade por Pascoal II 
(Bernardo, Vita
B. Geraldi, apud. Baluzio, Miscelnea, T. 3, p. 183). Todavia, foi eleito bispo 
pelo
clero e pelo povo, concordando nisso o rei Afonso e o conde Henrique 
(documento
do Liber Fidei, na Monarquia Lusitana, L. 8, c. 8); mas resistindo por muito 
tempo o
arcebispo de Toledo, que no o queria deixar sair da sua s (Vita B. Geraldi, 
em
Baluzio, T. 3, p. 181) e que enfim o sagrou bispo em Sahagn, donde partiu 
para
Braga. Contraindo todos estes sucessos dentro do menor tempo que se queira 
imaginar,
no pode a eleio de So Giraldo, em que interveio a autoridade do conde 
Henrique,
ser posterior aos fins de 1094. Em Maro de 1095 ainda Raimundo exercia 
jurisdio
em Coimbra (Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, p. 31, n. 91), e em Agosto
intitulava-se conde da Galiza e Santarm (ibid., p. 38, n 97).  preciso, pois, 
ou supor
que no centro dos seus domnios se criou um distrito independente dele, coisa, 
seno
impossvel, improbablssima, ou admitir a opinio que seguimos. Em 
Dezembro de
1095 e pelo ano de 1096, Henrique governava em Coimbra e Braga 
(Dissertaes
Cronolgicas, T. 3, P. 1, pp. 33 e 34). Em 1097 dominava desde o Minho at o 
Tejo
(ibid.), e neste territrio tinham desaparecido inteiramente os vestgios da 
autoridade de
Raimundo, embora ele se continuasse a chamar nos seus diplomas senhor de 
toda a
Galiza..241
V
DESTROO DO CONDE RAIMUNDO JUNTO A LISBOA
Timorem cumulavit subditorum lusitanorum ab eo defectio, qui almoraviditis
Ulyssiponani et Santarem aliaque oppida, rege ipso absente, vel invito, 
dederunt atino
egirae 487 (1094), Ben-Khathib, Biblioteca Ara bico-Hispana, em Casiri, 
Biblioteca,
T. 2, p. 67; Conde, Dominio de los Arabes, P. 3, c. 22; Livro Preto, f. 40; Toms 
da
Encarnao, Histria Eclesistica Lusitana, T. 2, p. 207, onde, na espcie de 
foral
passado aos habitantes de Montemor em 27 de Fevereiro de 1095, diz 
Raimundo:
Vobis... qui prius ad pesurium (alis, presuriam venistis. O destroo do conde 
junto
de Lisboa foi depois da primeira prepositura de Gelmires na diocese de 
Santiago,
portanto no episcopado da Dalmcia, isto , dos fins de 1094 aos fins de 1095
(Dissertaes Cronolgicas, T. 5, p. 209, e Espaa Sagrada, T. 20, p. 23). Ora,
demorando-se o conde em Coimbra durante o Inverno, aquele facto s podia 
acontecer
na Primavera deste ltimo ano. Eis como a Historia Compostellana (L. 2, c. 53) 
narra o
sucesso: Cum... ante episcopatum, post primam... praeposituram, in procinctu 
cum
Comite R. et com optimatibus Galleciae ad extirpndum tenderet (Gelmires) 
perfidiam
gentilium, sarraceni, collectis undique viribus, christicolarum castra prope 
Olisbonam
circumdantes, immensa obsederunt bellatorum multitudine. Tanta confluxerat
incredulae gentis multitudo, tanta convenerant barbarorum agmina ad 
christianorum
perniciem Impetum facturi. Denique, com christianorum alios caederent, alios 
vinculis
manciparent..., etc..
VI
PORTUGAL DADO COMO DOTE A D. TERESA
At a invaso dos rabes, os godos conservaram nas Espanhas tenazmente as
instituies germnicas acerca dos dotes. Pelas suas leis, contrrias ao que 
estatulam as
leis romanas, era o noivo quem dotava a mulher. Semelhante costume dos 
brbaros,
porventura mais nobre que o romano, foi regulado por uma lei de Chindasvinto, 
inserida
no Codex Wisigothor (L. 3, tit. 1, 1. 5). Esta lei, assim como as mais 
disposies
daquele cdigo, atravessando o domnio dos rabes, que deixaram aos 
vencidos o
governarem-se civilmente pela sua legislao e pelos seus magistrados, 
continuou a
vigorar, no s at o tempo de Afonso VI, mas, porventura, at a publicao da 
Lei das
Partidas (vejam-se no Ensaio de Martines Marina, pargrafos 249 e ss., as 
provas
indubitveis disso). No havia, pois, na legislao de Espanha, nem nos seus 
usos
tradicionais, nesta parte perfeitamente acordes com ela, causa alguma para o 
rei de Leo
se lembrar de pr em prtica no casamento de sua filha um costume romano,
provavelmente at ignorado por ele. A predileco que sempre mostrou pelas 
coisas de
Frana e que tanto contribuiu para alterar os costumes visigticos podiam t-lo 
movido
a seguir, casando suas filhas com os prncipes borgonheses Raimundo e 
Henrique e
outra com o conde de Tolosa, os costumes daquele pas, se eles nesta parte 
fossem
contrrios aos das Espanhas; mas no acontecia assim. Ainda naquele sculo 
eram
comuns por toda a Europa as instituies germnicas acerca dos dotes, as 
quais se
podem ver no excelente livro de Eichhonn, Deutsche Staats und Rechts 
Geshichte, T. 1,
pp. 361 e ss. (Gotinga, 1843). Em Ducange,  palavra dos, se acham coligidas 
as
disposies dos diversos cdigos brbaros a este respeito, bem como 
documentos de.242
que os factos no eram contrrios  legislao, o que sempre  necessrio 
examinar na
histria da Idade Mdia, na qual a confuso social e a ignorncia em que 
jaziam todas as
naes faziam que, na realidade, as relaes civis contrastassem s vezes 
com os
preceitos legais.
A dificuldade de aceitar a tradio de um facto, incompreensvel para os
indivduos por quem se diz praticado, seria bastante para o tornar mais que 
suspeito.
Mas ainda ocorrem contra ele outras consideraes.
 indubitvel que Raimundo, o marido de D. Urraca, senhoreou a Galiza e
Portugal antes de Henrique e que a poro de territrio espanhol dado a este 
para
governar como conde ou cnsul foi desmembrada do territrio governado pelo 
conde
Raimundo antes do falecimento deste. Se Portugal foi dado em dote a D. 
Teresa com
direito hereditrio, provindo dessa circunstncia o governo de Henrique, como 
se h-de
supor que D. Urraca, filha mais velha e legtima, no recebesse em dote 
tambm, jure
hereditario, as terras que seu marido governou? E, se assim foi, como e porque 
se
destruiu em parte este direito, dando-se em dote de outra filha uma poro do 
que j era
dote de D. Urraca, e isto sem que Raimundo se queixasse, antes fazendo 
pactos de
concrdia e mtua aliana com o conde Henrique?
Alm disso, D. Elvira, irm de D. Teresa e casada com o conde de Tolosa, no
recebeu em dote terras algumas. Diz-se que fora a causa disto o possuir 
Raimundo de
So Gil estados em Frana. Mas que lei ou costume de Espanha obstava a que 
ele
possusse um condado em outro pas, juntamente com os estados que tivesse 
em Leo?
E se no havia legislao ou uso em contrrio, porque consentiu este prncipe, 
mais
poderoso que os outros dois, que fossem para eles essas liberalidades, ao 
passo que -ficava
sem quinho na monarquia espanhola, que assim se faz retalhar loucamente 
pelo
hbil Afonso VI?
Se atendermos a uma passagem do Chronicon Floriacensis, quando fala do 
conde
Raimundo, veremos o nenhum fundamento da explicao que se pretende dar 

excluso do conde de Tolosa das generosidades extralegais de Afonso VI. 
Tratando dos
casamentos de Raimundo e de Henrique, diz: Quam (D. Urraca) in 
matrimonium dedit
Raimundo comiti, qui comitatum trans Ararim tenebat. Alteram filiam... Ainrico 
uni
filiorum fui Ducis Roberti. Eis, pois, Raimundo com o mesmo impedimento 
para
receber dote que tinha o conde de Tolosa, visto que Raimundo era j conde em
Borgonha, tendo o condado alm do Arar (Sane), o que se prova, no s do
testemunho do Floriacensis, mas tambm dos documentos irrefragveis que 
coligiu
Mondejar (Origen y ascendencia dei Principe D. Ramon, mas, na Biblioteca 
Real da
Ajuda).
Admitindo, porm, que isto acontecesse, ainda resta outra dificuldade maior.
Alm de Urraca, Teresa e Elvira, Afonso VI teve uma filha chamada Sancha e 
outra
Elvira (Flores, Reynas Catlicas, T. 1, p. 180) nascidas da rainha Isabel, a 
primeira das
quais casou com o conde Rodrigo Gonalves e a segunda com Rogrio, duque 
da
Siclia. Quanto a este, nada acrescentarei ao que j disse acerca do conde de 
Tolosa,
Raimundo de So Gil. Mas no conde Rodrigo Gonalves no se dava, por 
certo, a
circunstncia de ser prncipe estrangeiro com estados fora de Espanha, e 
todavia no
consta que el-rei dotasse a infanta D. Sancha com terras ou provncias que ela 
devesse
possuir hereditariamente, antes pelo contrrio, possuindo o conde Rodrigo 
as honras
de Astrias de Santillana, lhe foram estas tiradas por suas turbulncias e, 
reconciliado
depois com Afonso VI, lhe deu el-rei o governo de Segvia e a alcaidaria de 
Toledo,
que tornou a tirar-lhe passados tempos, segundo parece, por seu gnio 
inquieto. (Veja-se
Sota, Principe das Asturias, Apndice; Colmenares, Historia de Segovia, c. 14,
pargrafo 10; Mondejar, Suceos dAlonso VI, pargrafo 25). Porque seria 
excludo,.243
porm, o conde Rodrigo, nobre, natural e poderoso, do benefcio que recebera 
um
estrangeiro pobre, embora ilustre e valente? , na verdade, inexplicvel 
semelhante
contradio.
A estes raciocnios, fundados em factos incontroversos, nenhum argumento,
nenhuma autoridade se pode opor seno uma frase do cronista annimo de 
Afonso
Raimundes, que, falando de D. Teresa, - no directamente, mas por ocasio da 
guerra de
Afonso VII com seu primo Afonso Henriques, diz: Que Afonso VI a casara com 
o
conde Henrique e a dotara magnificamente, dando-lhe a terra portugalense 
com domnio
hereditrio. Este testemunho singular e bastante posterior ao facto provaria, 
quando
muito, que Afonso VI dera a seu genro, em ateno a D. Teresa, o governo de 
Portugal
para si e seus filhos perpetuamente, visto que a hereditariedade aparece uma 
ou outra
vez nos cargos administrativos. Tal seria, pois, nesse caso a significao da 
palavra
dote, que ento era mui diversa da que lhe damos e correspondia a donatio.  
o que,
entre vrios outros documentos, se v da fundao do Mosteiro de Naxera e 
foros da
povoao, no ano de 1052: Igitur com hujus rei voluntate, tum m aedificandae 
ecclesie
constructione, quam iii dotis astipulare donatione, e na doao de Jubera  
Igreja de
Santo Andr (1957): Haec est carta de dote quae dederunt vicinos de Jubera 
ad S.
Andreae (Colleccin de Privilegias de ia Corona de Castilla, T. 6, pp. 58 e 61).
VII
DA MORTE DO CONDE HENRIQUE, ETC.
So tantas e tais as dificuldades cronolgicas que se oferecem a quem estuda 
a
histria dos sucessos da monarquia leonesa desde a morte de Afonso VI at  
de seu
genro, o conde de Portugal, que chega a perder-se a esperana de as conciliar. 
H,
todavia, certo nmero de factos cujas datas precisas, ou quase precisas, se 
devem tomar
como norte para a cronologia, desprezando as circunstncias secundrias, que 
conduzem
muitas vezes  confuso e  dvida. Esses factos so os seguintes:
Morte de Afonso VI no ltimo de Junho de 1109. Veja-se Ribeiro, Dissertaes
Cronolgicas, T. 3, P. 1, p. 51.
Casamento de D. Urraca e do rei de Arago depois da morte de Afonso VI,
consequentemente em Julho ou nos seguintes meses do mesmo ano. 
Concordes neste
ponto todos os historiadores contemporneos, s contraditos pelo arcebispo de 
Toledo,
que viveu posteriormente.
Batalha de Campo de Espina, em Outubro de 1111, a que assistiu como aliado 
do
rei de Arago o conde Henrique. Concordes os Anules Complutenses e
Compostellanos quanto  data do sucesso, e confirmado este pela narrao 
de Lucas
de Tuy.
Esta batalha  posterior  volta do conde Henrique de Frana, segundo o
testamento do annimo de Sahagn. Existem documentos autnticos da 
residncia do
conde em Portugal nos meses de Julho, Agosto, Setembro, Outubro e 
Dezembro de
1109, e de Maro, Julho e Agosto de 1110 (Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 
1, pp.
53 e ss., e T. 4, P. 1, pp. 55 e as.) O maior intervalo que h neste perodo em 
que nos
faltem documentos do conde  o de Maro a Julho de 1110. Neste espao de 
trs para
quatro meses  inadmissvel que ele fosse de Portugal a Frana, estivesse l 
preso,
fugisse, vivesse algum tempo em Arago e tornasse a Portugal. Logo  
necessrio
colocar esses sucessos nos oito a nove meses de Agosto de 1110 a Maio de 
1111.
Primeira separao pblica de D. Urraca e do rei de Arago depois de Junho 
de
1111, como  vista dos documentos diz Flores (Reynas Catlicas, T. 1, p. 
264),.244
concorde com o texto da Historia Compostellana. Foi depois dessa 
separao que a
rainha se ligou com os fidalgos galegos, o que se torna evidente do discurso 
feito por ela
ao conde Fernando (Historia Compostellana, L. 1, c. 64), em que diz que tratou 
de se
divorciar do marido, que assim o fizera (facto discidio) e que o arcebispo de 
Toledo,
por ser adverso ao rei de Arago, andava expulso por ele da sua s havia dois 
anos
(archiepiscopum per biennium absentavit). Desprezando estas claras 
expresses e
esquecendo o que, talvez, pelo mesmo tempo escrevia nas Reynas Catolicas, 
Flores
atrasa os sucessos deste tempo um ano na cronologia que vai tecendo  
margem da sua
edio da Compostellana.
O recontro de Viadangos, posterior ao divrcio da rainha (como se v da
Compostellana) e, ainda,  batalha de Campo de Espuna, no que so 
conformes todas as
memrias contemporneas, s podia por isso verificar-se em Novembro ou 
Dezembro
de 1111. Foi depois dele que D. Urraca veio  Galiza (Compostellana, L. 1, c. 
69), que
convocou os seus bares para durante a Pscoa se ajuntarem em Santiago 
(portanto em
21 de Abril de 1112, e no em 2 de Abril de 1111, como aponta Flores), e que, 
depois
de dissolvida a assembleia, a rainha marchou com as suas tropas para 
Astorga. Estas
datas, deduzidas da ordem dos factos e de um clculo aproximado do tempo 
necessrio
para eles se passarem, concordam maravilhosamente com os documentos.  o 
primeiro
do Mosteiro de Arlanza, de 23 de Abril de 1112 (Berganza, Antiguedades, T. 2, 
p. 11),
em que, apesar de gasto o pergaminho, ainda se podia ler: Regnante.... 
Urraca in regno
patris sui et comite... dric una pariter com eu. Rex Adef... Arag... gherra et 
bellum in
Castella.  o segundo de 27 de Abril (Espaa Sagrada, T. 22, p. 254), do qual 
se v
residir a rainha na Galiza: Ego U. totius Hispaniae regina com filio meo.  o 
terceiro
de 1 de Maio feito em Astorga (Escalona, Historia del Monastenio de 
Sahagn,
Apndice 3, escrito 143): Rege Ildefonso com matre.  o quarto, finalmente, 
outro do
mesmo dia .e lugar (Berganza, T. 2, p. 14) expedido a favor do Mosteiro de 
Valverde
por D. Urraca e seu filho. Estes quatro documentos concordam com a 
narrativa da
Compostellana, uma vez que a cronologia de Flores seja substituda pela que 
ns
seguimos.
As palavras et... comite dric una pariter com eu do primeiro documento
atraram a ateno de Berganza, que completa a slaba dric, imaginando que 
ali se
aludia a algum dos dois condes Rodrigo Munhoz ou Rodrigo de Lata; mas 
absolutamente inslito ou antes impossvel que se dissesse que reinava D. 
Urraca
juntamente com um daqueles dois condes subalternos, que no consta 
tivessem jamais
pretenses de soberania, acrescendo que nos diplomas daquele tempo o nome 
de
Rodrigo se escreve sempre Rodericus ou Ruderic. Ns no podemos ver no 
do.
comento seno um engano na leitura da primeira letra desse fragmento de 
palavra, e que
se afigurou a Berganza um d por um a devendo ler-se... nric (Enric, Henric). Em 
tal
pressuposto, aludir-se-ia a  cesso de uma parte da monarquia feita ao 
conde de
Portugal para o separar do rei de Arago, promessa revalidada por D. Urraca 
em
Monzn. Desse modo o documento de Arlanza confirmaria a narrao do 
annimo de
Sahagn.
Mas, deixando de parte essa circunstncia, venhamos ao que mais importa. 
Para
conciliar a relao da Compostellana com a do monge annimo  necessrio 
admitir o
que ns supusemos no texto; isto , que os autores daquela crnica se 
enganaram,
aplicando a Carrin o cerco de Penafiel. Nesta jornada acompanhou o conde 
Henrique a
D. Urraca, veio a D. Teresa, retiraram-se para Palncia, e ocorreram 
sucessivamente os
outros acontecimentos referidos na Crnica de Sahagn e includos na 
nossa
narrativa. Da multiplicidade de incidentes a relatados se conhece claramente 
que 
necessrio espaar a reconciliao da rainha com seu marido para os ltimos 
meses de.245
1112.  desta reconciliao que fala o annimo de Sahagn (c. 21 ad unem e 
c. 23),
durante o princpio da qual o conde Henrique e os outros fidalgos puseram 
cerco a
Carrin:  ela, sem dvida, de que se trata no princpio do c. 80 do L. 1 da
Compostellana, captulo em que se mencionam, evidentemente, no uma, 
porm duas
reconciliaes feitas em pocas diversas. Nos fins deste ano foi a rainha 
enviada
enganosamente a Arago pelo marido, que entretanto se ia apossando de 
diversos
castelos e povoaes nos estados de sua mulher (annimo de Sahagn, c. 24), 
ao que
parece aludirem os cronistas compostelhanos (c. citado ia media): 
Quaecumque potuit
castella, municipia, fraude sua, reginae abstulit. A ausncia de D. Urraca  
confirmada
pela falta de diplomas seus nos ltimos meses de 1112. O abade de Sahagn, 
que neste
ano fora expulso do mosteiro, dirigiu-se a Arago e pintou-lhe as violncias 
praticadas
por Afonso I em Gasteis e em Leo. Resolveu a rainha voltar aos seus estados, 
o que
veio a fazer depois de alguma demora (annimo de Sahagn, c. 27), e 
efectivamente
achamos diplomas exarados em nome dela e confirmados por seu filho (o que 
sempre
indica ruptura ou, pelo menos, discrdia entre a rainha e o marido) de Janeiro a 
Agosto
de 1113 (Berganza, T. 1, pp. 16 e 454; Escalona, Apndice 3, escrito 144). 
Afonso
tentou ento prend-la (annimo de Sahagn, c. 27 ad unem); mas ela j tinha 
por si um
numeroso partido de fidalgos castelhanos e, at, de aragoneses, e as 
tentativas do marido
no tiveram efeito.
Ajuntou-se ento a assembleia de Sahagn, em que estiveram habitantes de
Burgos, de Naxera, de Carrin, de Leo e alguns nobres Burguenses, Najarei,
Carrionenses, Legionenses, aliique Hispaniae praceres, Compostellana, L. 1, 
c. 80;
Los burgueses de las dichas villas:
Burgos, Sahagn, Carrin, annimo de Sahagn, c. 29. O rei demorou por 
largo
tempo a concluso do negcio (multiplices rationes praetendens, et de 
crastino in
crastinum argumentosis verbis tem diferens, Com posteliana, ibid.). Enfim 
cedeu;
uniu-se com sua mulher e partiram ambos para Astorga. A reconciliao devia 
ocorrer
nos fins de Abril de 1114, porque temos diplomas da rainha regnante cum 
filio, desde
o princpio do ano at este ms (Berganza, T. 2, p. 17; Espaa Sagrada, T. 36,
Apndice 43, e 1. 38, p. 347). O conde Henrique, que seguia o partido da 
rainha
(documento da Espaa Sagrada, T. 38, p. 348), faleceu por este tempo 
(annimo de
Sahagn, c. 29 ia media) no 1.0 de Maio (Chronica Gothorum, era 1152), e 
D.
Teresa, que viera a Astorga por morte do marido, facilitou ao aragons 
pretextos com a
acusao verdadeira ou infundada, contra a irm, para ele a apartar de si, 
ficando-lhe
cana os estados. Mas, declarando-se nobres e burgueses por D. Urraca, 
Afonso foi
constrangido a vir  assembleia de Sahagn, que no acabara ou se 
congregara de novo
e que pretendia estabelecer a concrdia. O resultado foi no se querer ele 
submeter s
decises a tomadas, ser obrigado a retirar-se (Compostellana, L. 1, c. 80 ad 
unem;
annimo de Sahagn, c. 30), e comear de novo a guerra contra os sbditos de 
sua
mulher. O abade de Sahagn, que andava fugido havia dois anos (annimo, 
ibid.) foi
restitudo ao seu mosteiro pela rainha.
Mencionamos esta ltima circunstncia, porque ela  importantssima para
estabelecer a cronologia do annimo de Sahagn, o qual nem uma s data 
aponta em
todo o processo desta parte da sua narrativa. Tendo sido nomeado o abade D. 
Domingos
no princpio de 1111 (Escalona, Historia del Monastenio de Sahagn, p. 94) e 
expulso
durante o de 1112, fazia exactamente dois anos em 1114 que andava foragido. 
Eis como
tudo conspira em favor do sistema cronolgico adoptado por nos.
Este sistema torna necessrio o colocar a morte do conde Henrique em 1114,
contra a opinio seguida pelos nossos principais escritores modernos e, entre 
eles, por J.
P. Ribeiro, o homem a quem Portugal deve os progressos principais da cincia 
histrica..246
Dedicou este uma dissertao especial (Dissertaes Cronolgicas, T. 1, 
Dissertao
IV) a provar que o conde falecera por Maio de 1112. Foi o peso que deve ter o 
voto de
to eminente sujeito que nos obrigou a deduzir da combinao da Historia
Compostellana, do annimo de Sahagn, dos documentos espanhis daquela 
poca e do
clculo aproximado do tempo necessrio para se verificarem os factos ento 
ocorridos
as provas da opinio que seguimos. Resta unicamente examinar, nas mais 
breves
palavras possveis, os fundamentos da dissertao do nosso grande 
diplomtico.
Comeamos por pospor o argumento deduzido de figurar ou no figurar o 
conde
nos documentos de 1112 a 1114. Vimos que ele, quase desde a morte do 
sogro, andou
envolvido nas guerras civis que assolaram a Espanha crist.  fcil de crer 
que,
preocupado dos seus ambiciosos desgnios e esperanado de reinar numa 
grande parte
da monarquia leonesa, no se ocupasse demasiado com os negcios da 
pequena pro-vncia
de Portugal. No meio das revoltas e lutas em que interveio, das suas mudanas 
de
bando e das dificuldades de comunicao que so fceis de supor para quem 
conhece a
barbaria e rudeza daqueles tempos, no nos parece conjectura arriscada de 
mais
imaginar que D. Teresa suprisse por autoridade prpria ou por consentimento 
dele a
falta do marido, que at, por vezes, ela ignoraria se era morto ou vivo. Assim, 
no s se
anular a prova da morte do conde em 1112, tirada da meno exclusiva de D. 
Teresa
nos diplomas posteriores quele ano e anteriores ao de 1114, mas salvar-se- 
tambm,
por esta parte, a genuinidade dos documentos de 4 das calendas de Novembro 
da era de
1148 (1110) e 8 dos idas de Abril da de 1150 (1112) (Dissertaes 
Cronolgicas, T. 3,
P. 1, n.os 160 e 166), bem como a do documento do T. 38, p. 347, da Espaa 
Sagrada,
que deu origem a uma viva disputa entre J. P. Ribeiro e o continuador de 
Flores, o P.
Risco.
Removida esta dvida, nada resta que se oponha ou parea opor-se  data 
que
estabelecemos (concordes com o testemunho preciso da nica crnica 
contempornea e
portuguesa que fala do sucesso, a dos Gados, a qual pe a morte do conde no 
1.0 de
Maio de 1114) seno dois documentos e os obiturios do Mosteiro de- Santa 
Cruz de
Coimbra e de Moreira. Dos dois documentos o primeiro  uma doao a 
Gonalo
Gonalves, de 11 das calendas de Junho da era 1150 (Documento de 
Pedroso, no
Cartrio da Fazenda da Universidade), feita pela infanta D. Teresa, aparecendo 
entre os
confirmantes post morte de illo comes Henricus, Petrus Gundisalvis confirmo, 
et
tenebat ipsa civitas S. Maria. Esta frmula de confirmao  singular, no 
sendo fcil
encontrar outra semelhante em que se aluda  morte do imperante que deixou 
de existir.
Admitindo, porm, o diploma como genuno, pode supor-se a confirmao 
posterior, ou
antes, segundo nos parece, compre que assim o pensemos, alis fica intil a 
declarao
do confirmante, que, nas palavras post morte de illo comes Henricus 
evidentemente
quis marcar uma poca diversa daquela em que fora exarado o diploma, isto , 
uma
poca incerta, posterior a 1112 de muitos ou de poucos anos. O segundo 
documento  a
carta de couto do Mosteiro de Pombeiro, datada do 1.0 de Agosto de 1112 (era 
1150),
em que D. Teresa diz que faz aquela merc pro anima de viro meo ille comes
Henricus. Este documento j no existe seno includo numa confirmao 
rgia de
1711 e numa cpia cheia de conhecidos erros, diz J. P. Ribeiro, tirada pelo 
clebre
falsrio Lousada. Se algum fundamento se deva fazer sobre tal diploma contra 
provas
ternainantes em contrrio, o leitor decidir.
Dos dois obiturios, o de Santa Cruz de Coimbra diz: 1112 cal. Novembris 
obiit
comes Henricus, et uxor ejus D. Tharasia e o de Moreira: Cal. Novembris 
Portugal,
Comes Henricus 1112, et uxor ejus regina D. Tharasia 1130. Ambos eles 
erram
certamente a data do ms quanto ao bito do conde, e o primeiro a do ano 
quanto ao
bito de D. Teresa, e por isso podiam igualmente errar o ano da morte de 
Henrique. O.247
que no tem dvida  que estas verbas foram escritas naqueles necrolgios 
muitos anos
depois do falecimento do conde, isto , pelo menos depois de 1130, poca em 
que D.
Teresa deixou de viver. O menor peso que devem ter tais necrolgios quando 
h outras
provas em contrrio j o ponderou o mesmo Ribeiro (Dissertaes 
Cronolgicas, T. 1,
p. 153, nota 6). O fim deles no era histrico; era assinalar o dia do ano em que 
se
deviam fazer os aniversrios ou sufrgios pelos fundadores ou benfeitores dos
mosteiros.
Em ltimo lugar advertimos que no Arquivo Nacional (Gav. 15, Mao 13, n 9) 
se
conserva o foral de Talavares dado em Maro de 1114 (era 1152) pelo conde 
Henrique e
sua mulher, regnantes in Portugal et in Stremadura, Colimbria, Visou et 
Sena. J. P.
Ribeiro condenou este documento, que se opunha  sua opinio, por dois 
fundamentos
(Dissertaes Cronolgicas, T. 4, P. 1, p. 157): o primeiro  a expresso 
regnantes no
usada nos diplomas do conde: o segundo  ser escrito em letra francesa pura, 
que ainda
no era usada. Quanto ao primeiro a soluo da dificuldade  fcil, se 
atendermos s
pretenses do conde e  palavra Stremadura, que era ento justamente a 
provncia em
que est Zamora, a qual vimos ficar-lhe pertencendo na diviso feita com D. 
Urraca.
Quanto ao segundo, o prprio J. P. Ribeiro responde a si mesmo na tabela a 
pginas 114
do volume em que impugna a genuinidade do foral de Talavares. A apresenta 
o uso da
letra francesa pura como comeando desde a era de 1145.
Apesar de todos os esforos que o autor das Dissertaes Cronolgicas fez 
para
firmar solidamente a data da morte do conde em Maio de 1112, ele prprio 
mostra que
no estava de todo convencido da fora dos seus argumentos, concluindo a 
dissertao
especial que dedicou a este objecto pelas seguintes palavras: Sem estranhar 
que,
rejeitada a minha conciliao do Cronicon Lusitana, leve algum a sua morte 
(do
conde) ao 1 de Maio da era de 1152.  vista d que temos ponderado, estas
expresses acabam de nos absolver.
VIII
HUGO, BISPO DO PORTO
A opinio seguida pelos modernos, e nomeadamente por J. P. Ribeiro
(Dissertaes Cronolgicas, T. 1, p. 153, e T. 5, p. 179),  que a sagrao de 
Hugo,
bispo do Porto, foi feita em 1113. Assenta esta opinio sobre a errada 
cronologia que
Flores deu aos sucessos narrados na Historia Compostellana, erro que j se 
mostrou na
antecedente nota, e que servir de comprovar melhor. Estava o erudito autor 
da Espaa
Sagrada to preocupado do sistema que adoptara, que, tratando (Vol. 21 da 
Espaa
Sagrada, pp. 56 e ss.) do pontificado de Hugo, deduz a cronologia deste 
sucesso de
documentos que s tornam possvel aquela sagrao em 1114 e que, portanto, 
vem
plenamente confirmar a que ns seguimos.
Trs documentos nos restam, nos quais, figurando Hugo, se alude ao ano do 
seu
pontificado, que se deve contar da poca da sua sagrao, sem que seja 
necessrio
disputar sobre a poca da eleio. Destes documentos  o primeiro a doao 
do
Mosteiro de Crestuma (Cunha, Catlogo dos Bispos do Parto, P. 2, c. 1), feita 
na era de
1156, no quinto ano do pontificado de Hugo;  o segundo a doao do burgo 
do Porto a
14 das calendas de Maio da era 1158 (18 de Abril de 1120), no sexto ano do 
pontificado
(Cunha, ibid.;  o terceiro a doao da Igreja de So Frausto, a 3 das nonas de 
Outubro
da cai 1165 (5 de Outubro de 1127), no dcimo quarto ano do pontificado 
(Censual da
S do Parto, f. 48 v..
Segundo o texto da Compostellana, Hugo foi sagrado em Lerez pelo 
arcebispo.248
de Braga, Maurcio, numa dominga da paixo: no dia seguinte partiu para 
Santiago com
Gelmires: depois disto, chegando o dia da anunciao (25 de Maro), celebrou 
a missa
solene no altar do apstolo: Post haec, quia erat festivitas Annuntiationis... D. 
Hugo...
super ejusdem apostou altari missam celebravit. Temos pois a data do ms da 
sagrao
de Hugo: falta-nos a do ano e do dia. Achada a primeira, est achada a 
segunda. Flores,
levado pela falsa cronologia que adoptara, atribui o sucesso ao ano de 1113 
(Espaa
Sagrada, T. 21, Trat. 60, c. 5, pargrafos 10, 16, 26 e ss. e 34), e confirma-o 
com os trs
documentos acima. Irreflexivamente J. P. Ribeiro aceita a mesma data 
(Dissertaes
Cronolgicas, T. 1, pp. 149 e ss., T. 5, p. 179), apesar das dificuldades que 
esta opinio
encerra e que ele prprio sentiria, se no estivesse alucinado pelas 
ponderaes de
Flores.
O grande argumento, tanto do autor da Espaa Sagrada como de Ribeiro, 
deduzido de ter Hugo celebrado a sua primeira missa a 25 de Maro, dois 
dias depois
da sagrao feita na dominga da paixo; porque sendo em 1113 a Pscoa a 6 
de Abril,
veio aquela dominga a cair em 23 de Maro, exactamente dois dias antes da 
anunciao
(25 de Maro), o que se no verifica em nenhum dos anos antecedentes ou
subsequentes.
Se as premissas deste argumento fossem exactas, nada haveria a replicar; 
mas
onde acharam os dois ilustres cronlogos que tinham mediado dois dias 
entre a
sagrao de Hugo e a sua missa solene na festa da anunciao? Onde leram 
eles na
historia Compostellana que decorrera esse perodo? Mencionando a entrada 
de D. Hugo
em Santiago no dia imediato  sagrao, s a se diz que depois disto fora a 
sua missa
solene: post haec, palavras que nunca significaram dois dias depois. A 
narrativa,
portanto, da Compostellana pode aplicar-se do mesmo modo ao ano de 1114, 
em que a
Pscoa foi a 29 de Maro e, por consequncia, o dia 25 posterior  dominga da 
paixo.
Agora venhamos aos documentos. O primeiro no tem data de ms e podia por
isso ser exarado por todo o decurso de 1118. Supondo connosco falsa a 
cronologia de
Flores e substitudo o ano de 1114 ao de 1113 para a sagrao de Hugo, 
celebrada em
Maro, contar-se-ia o ano quinto do seu pontificado desde este ms em diante 
no ano de
1118, sendo necessrio sup-lo exarado em Janeiro ou Fevereiro ou Maro 
para ele
fundamentar a data de 1113; mas que ele seja desses trs meses e no dos 
nove ltimos
 o que falta provar.
Quanto ao segundo documento, passado a 18 de Abril de 1120, no sexto 
ano do
pontificado, diz Flores que se deve ler ano stimo. Aceitamos a correco, 
porque 
indispensvel. Mas  aceitando-a que justamente se prova ser a sagrao do 
bispo do
Porto em 1114; porque em Abril de 1120 contar-se-ia j o ano oitavo, se o 
sucesso
tivesse cado em 1113.
O terceiro documento, extrado do Censual da S do Porto,  datado de 3 das
nonas de Outubro do ano da encarnao de 1127, era 1165, e dcimo quarto 
do
pontificado. Este correu de Maro de 1127 a Maro de 1128, logo em Outubro 
de 1127
s podia ser o dcimo quarto, havendo-se feito a sagrao em 1114.
Resta-nos advertir que, caindo neste ano o dia 25 de Maro em Quarta-Feira 
de
Trevas, a festividade da anunciao devia ser transferida para depois da 
Pscoa. No
marcando, porm, o texto da Compostellana o dia do ms em que o novo bispo 
celebrou
a primeira missa, mas s o da festividade, tal circunstncia em nada destri a 
concluso
que tirmos dos documentos, concluso de pouca importncia pela natureza 
do objecto,
todavia de grande monta por ser mais um meio para se conhecer o erro de um 
ano em
que labora a cronologia de Flores na sua edio da Compostellana.
IX.249
SUPOSTA INVASO DOS SARRACENOS EM 1120
Na Histria dos Soberanos Maometanas, por Abdel-Halim (Assaleh, verso de
Moura, p. 181) diz-se que Ali, sabendo das correrias do rei de Arago feitas no 
ano da
hgira 513 (1119), passara  Espanha para a pr em sossego e assegurar as 
fronteiras, e
depois de chegar a Crdova partira para Lisboa, a qual tomou de assalto, e da 
sara a
assolar o pas ocidental. Os escritores seguidas por Conde (Dominio de los 
Arabes, P. 3,
c. 25 ad finem) referem o mesmo, com a diferena de fixarem precisamente a 
passagem
do amir em 1120 e de darem o nome de Medina Sanbria, e no de Lisboa,  
cidade d
Gharb que dizem ter ele tomado. Como notmos no texto, o silncio absoluto 
de
monumentos cristos acerca desta entrada de Ali em Portugal torna suspeita a 
relao
rabe. Mas o que a invalida inteiramente  o testemunho do prprio Abdel-
Halim, dos
historiadores compilados por J. Conde e do autor do Kamel el Tewarikh 
(traduo de
Reynaud, em Romey, Histoire dEspagne, T. 6, pp. 4 e ss.). Por eles vemos 
que Ali
residia em Marrocos quando o Mahadi comeou a pregar as suas doutrinas 
naquela
cidade, em 1120. Acresce que a suposta passagem do amir a Espanha teve 
por
incentivo, segundo Abdel-Halim e Conde, as assolaes e conquistas do rei de 
Arago.
Todavia, chegado  Espanha, Ali, em vez de repelir os aragoneses, marcha em 
direco
oposta para o ocidente, e toma Lisboa (Conde leu Sanabria), que no consta 
estivesse
rebelada ou em poder de cristos. Sobre as vitrias e conquistas de Afonso I 
vejam-se
Orderico Vital (Espaa Sagrada, T. 10, pp. 580 e ss. ), Anales 
Compostellanos ad
annorum 1118 (Espaa Sagrada, T. 23, p. 320) e Conde (P. 3, c. 25 ad finem), 
que
colocam a batalha de Cotanda no ms de rabieh primeiro da hgira 514 (Julho 
de 1120),
posto que os Anales Toledanos lhe atribuam a data de 1121. Quanto s 
trguas entre
D. Urraca e o conde Pedro de Trava e  guerra contra Arago, consulte-se a 
Historia
Compostellana, L. 1, c. 113 e 117.
X
TRATADO ENTRE D. TERESA E D. URRACA
Este tratado acha-se transcrito no Liber Fidei da S de Braga, donde o extraiu
Brando (Monarquia Lusitana, L. 8, c. 14). Apesar do respeito que 
consagramos ao
talento e cincia de Brando, vimo-nos obrigados a afastar-nos algum tanto da
inteligncia que ele d quele documento escrito numa linguagem 
horrivelmente
brbara. A passagem et que sic honor que la regina da ad germana quomodo 
et altera
que illa tenet no pode ter, quanto a ns, interpretao diferente da que lhe 
demos no
texto. Honor, como noutra parte se ver, significava multas vezes nos 
princpios do
sculo XII o distrito ou territrio regido por um senhor subalterno dependente 
do rei ou
de outro nobre de quem o recebera; isto , vinha a ser o mesmo que em 
pocas pouco
posteriores (nas quais a significao de honor se achava em geral mais 
restrita), a terra
ou tenncia do rico-homem: tenere era o vocbulo correlativo, que indicava ser 
o
domnio da dependncia do rei: tenens era o que possua por esse modo. Isto 
nos parece
mostrar com evidncia a relao mtua em que as duas irms se 
consideravam. O ttulo
de infanta dado constantemente a D. Teresa neste acto importante, em 
contraposio
ao de rainha atribudo a D. Urraca, nos vem confirmar na opinio de que, 
tanto pelas
terras que recebia, como (quomodo) pelas que j tinha, D. Teresa revalidava
explicitamente o que de modo indirecto reconhecera no Conclio de Oviedo em 
1115.
Assim entende-se perfeitamente como, depois dos sucessos de 1121, D. 
Teresa continua.250
a dominar em Tui e em Orense, de que alis devera ter sido desapossada.
Um escritor recente (S. Lus, nas Memrias da Academia, T. 13, P. 1) pretende
determinar a data deste tratado como feito depois da volta de D. Urraca para a 
Galiza e
da intentada batalha entre ela e seu filho ajudado por Gelmires, batalha que 
no chegou
a dar-se por se fazer a paz em que entrou o arcebispo. Esta opinio parece-
nos menos
provvel: primeiro, porque, se pelo contrrio, o atribumos  ocasio em que o 
exrcito
de D. Urraca estava junto de Lanhoso, acha-se a possibilidade de um facto, 
alis
inexplicvel; isto , de D. Teresa saber pelos ntimos conselheiros de D. Urraca 
no s a
intentada priso de Gelmires, mas tambm o modo por que ela se havia de 
fazer: Quia
intimi qui hujus consilio interfuerunt facinoris, ipsi mihi ejus enucleaverunt 
modum
captionis; segundo, porque a passagem do tratado acima transcrito rios 
explica porque
D. Teresa, em Fevereiro do ano seguinte, estava senhora de Orense e, ainda 
em 1125, de
Tui. Sem ele, como crer que, retirando-se D. Urraca para a Galiza, tornasse a 
fazer
presente de Tui e Orense a sua irm, a quem as tirara, reduzindo-a, alm 
disso, ao
ltimo apuro e deixando-lhe devastados os seus antigos domnios? Pela letra, 
porm, do
convnio, D. Teresa devia ficar possuindo o que tinha tido at  data dele, e, 
afora isso,
as cidades e territrios especificados no diploma, com a natureza comum a 
esses
domnios de tenncias (honor... tenet). Nem se diga que D. Teresa houvera 
de novo
aquelas terras pela sonhada aliana de 1122; porque nesse caso o tratado 
devera
especific-las como especifica as outras. Acresce que a reconciliao da rainha 
com o
arcebispo e com o filho foi feita nos fins de Dezembro de 1121 (Historia
Compostellana, L. 2, c. 49, pargrafo 3) e durou, pelo menos, at Maro de 
1122 (ibid.,
c. 52). Nenhum motivo havia, pois, para um convnio em que, sem 
necessidade, se
liberalizava a D. Teresa um novo senhorio quase to extenso como metade de 
Portugal.
Isto seria em D. Urraca uma generosidade no s inexplicvel, mas, at, 
absurda: e,
repetimo-lo, sem um convnio entre as duas irms fica impossvel a 
conservao de
Orense em poder de D. Teresa. Porm, ela, como o prprio escritor a que 
aludimos
notou, dominava a em Fevereiro de 1122. Para ser, pois, admissvel a sua 
opinio,
apesar destas dificuldades, era necessrio que ele se valesse de um texto 
preciso e claro
que a abonasse, e no de conjecturas voluntrias, escusadas logo que se 
coloque o
tratado na sua nica data possvel.
A consequncia que deste documento tirou Brando e quantos cegamente o
seguiram acerca da independncia da soberania de D. Teresa  quase abaixo 
da crtica.
Desejaramos que nos dissessem porque ela, intitulando-se j por esse tempo 
nos
documentos de Portugal regina, neste diploma se chama constantemente 
infanta?
Desejaramos igualmente saber se dos plcitos feitos por D. Urraca a Gelmires 
que se
lem nos captulos 49 e 59, pargrafo 2, do L. 2 da Historia Compastellana 
deduzem a
soberania do arcebispo. Estes diplomas, que contm matria igual  do tratado 
com D.
Teresa, so semelhantes, at na frase, salva a menor barbaridade da lngua, e 
encerram,
alm disso, provises de maior independncia, como  a iseno de ir o 
prelado  cria e
expedies reais, sinal caracterstico da quebra de sujeio (como se v do L. 
7, c. 5 de
Rodrigo Ximenes), faltando-lhe tambm a declarao de que os castelos que 
lhe restitui
sejam honras e tenncias.
Damos aqui uma cpia do tratado, apesar de impresso na Monarquia Lusitana,
no s pela sua importncia, como tambm porque a cpia de Brando  
inexacta e
falha em coisas essenciais. A nossa  feita pelo Sr. Esmeriz, de ordem do
Excelentssimo Governador Civil do Distrito de Braga, Joo Elias da Costa 
Faria e
Silva, cuja urbanidade poderia servir de modelo a muitos. As abreviaturas em 
que
abunda o documento, e que aumentam as dificuldades de leitura do 
barbarssimo latim
em que est escrito, so desenvolvidas por ns. O digno palegrafo 
judiciosamente as.251
lanou ou antes pintou no seu traslado:
RUBRICA
Juramentum et convenientie que fecit Regina doma hurraca germane sue 
infante domne terasie
TEXTO EM TINTA PRETA
Hec est juramentum et convenimentum quod facit regina domna borracha ad 
sua germana infanta
domna tarasa, que li sedeat arnica per fed sine mala engano quomodo bona 
gerrnana ad bona germana. et
que riam faciat morte de suo corpo nec prtsione nec conssliet pra (ou per) 
lacete, et si lo consiliado tenet
que lo disfaciat. et da la regina ad sua germana zamora cum suas directos. 
Exima com suas directos.
Salamanca et ripa de torme cum suo directo. avila com suas directos. arevalo 
com suos directos Conka
cum suas directos Olmedo com suas directos. portelo cum suas directos. 
manias e tudiela. et medina de
zofrang cum suas directos. tauro com suas directos. et torre com suas 
directos. medina pausada com suas
directos. Senabria et ripeira et valdaria et baronzeli com suas directos. talaveira 
et kouria com suas
directos. Setmancas. et rnorales que stan pra ad iudicio de egas gondesindiz et 
geda menendiz et ei can
(conde)? domno mania com fernando iohanis et exemana lupys que si poturint 
avenire que sed. et si riam
mittant sortes quales iurent et quos iurarent levent illam. et que sic ista honor 
que la regina da ad germana
quomodo et altera que illa tenet qu li a adiuvet ad amparar et defender contra 
mauros e christianos par f
sine mala engano. et herma et populata quomodo bona germana ad bona 
germana, et que riam coliat sua
vassala com sua honore aut aleivosa que naiuerit ex conduzer com iuditio 
directo et si illa regina isto nan
attenderit que des illo die que li demandar la infante ad X dies se rna noluerit 
intregare que nas sedeamus
soltas et vos periuratas ex tan (tantum?) quantum la infante voluerit adtender 
adenante.
XI
NASCIMENTO DE AFONSO HENRIQUES
A data verdadeira do nascimento de Afonso I  ainda hoje disputada. A 
Chronica
Gothorum, contradizendo-se a si prpria, assina-lhe duas diversasa de 1111 
e a de
1113. A relao da tornada de Lisboa no cartrio de So Vicente de Fora (hoje 
no
Arquivo Nacional) f-lo nascido em 1107; mas este documento tem contra si o 
ser
escrita quase um sculo depois do facto. A relao da tomada de Santarm 
(Monarquia
Lusitana, P. 3, Apndice), cuja f para algum  duvidosa, estabelece-lhe a 
data de
1110. O Livro das Linhagens, atribudo ao conde D. Pedro, parece concordar 
nisso
mesma; mas o Livro das Linhagens, como hoje existe,  abra de muitas mos e 
de
diversos tempos, sem que seja fcil discriminar o que  do conde ou posterior a 
ele, e,
portanto, pouqussima autoridade histrica pode ter. O Livro da Noa de Santa 
Cruz de
Coimbra coloca o nascimento de Afonso Henriques em 1106, e com ele 
concorda uma
nota posta num antigo manuscrito de Alcobaa. Um brevirio do mesmo 
mosteiro,
citado tambm por Brando e cuja data ignoramos, pe este sucesso em 1109.
No meio de tanta incerteza preferimos o testemunho da Chronica Gothorum 
por
ser a que unicamente reputamos contempornea. Entretanto,  tambm 
necessrio
remover a contradio que a se encontra, referindo o sucesso numa parte ao 
ano de
1113 (era 1151) e em duas ao de 1111. Eis as respectivas passagens: Era 
1151. Natos
fuit infans Alfonsus...; Era 1163. Infans D. Alfonsus... habens aetatis amas 
fere
quatordecim; no cdice que foi de Andr de Resende e no de Alcobaa:
Era 1163. Infans D. Alfonsus aetatis amo quatordecim; Era 1166... martuo
patre... com adhuc ipse puer esset duorum vel trium annorum. Esta ltima 
passagem,
admitida a nossa opinio sobre o ano da morte do conde em 1114, concorda 
com a outra
em que se afirma ter Afonso catorze anos em 1125. No s por concordarem, 
mas at
por ser mais fcil introduzir-se um erro nos algarismos  margem do cdice do 
que nas.252
palavras do texto,  que se deve preferir a data de 1111.
Dizemos de 1111, posto que o autor da Chronica Gothorum hesite entre este
ano e o de 1112 (eduorum vel trium annorum), parque esse ano se aproxima 
mais das
datas das outras memrias e porque, desde os ltimos meses de 1110 at os 
princpios
de 1112, o conde Henrique andou por Frana, Arago e Castela, quase sempre 
ausente
de sua mulher. Acresce a isto que no Pentecostes de 1125 tinha o infante 
catorze anos
completos, porque o fere que se l no exemplar da Chronica Gathonim 
que
pertenceu a Andr de Resende fala nos de Santa Cruz e Alcobaa, e noutra 
parte ns
exporemos as nossas ideias acerca da preferncia que merece a lio destes 
dois cdices
 dessoutro, que nos parece adicionado.
XII
FAANHA DE EGAS MONIZ
A tradio do feito herico de Egas Moniz era conhecida nos princpios do 
sculo
XIV, antiguidade a que, pelo menos, remonta o Livra Velho das Linhagens. 
A se diz
(Histria Genealgica, provas, T. 1, p. 171) que D. Egas Moniz de Riba do 
Douro
criou elrey D. Affonso de Portugal, o primeiro que hi ouve, e fege erguer o 
emperador
que jazia sobre Guimares com campanha e guisa de lealdade, e fez senhor 
do reino o
criado (aluna) apesar de sa madre. Na ordem e particularidades desta breve 
memria
h uma certa aparncia de verdade que cumpre no desconhecer. Quanto  
ordem dos
sucessos, a - autor do Livro Velho declara em primeiro lugar que Egas Moniz 
criara o
infante, fizera levantar o cerco de Guimares por um feita de lealdade, e s 
depois alude
 revoluo de 1128 como facto posterior, o que concorda com a opinio que 
seguimos
e cujas fundamentos mostraremos abaixo. A tradio de ter ele criado Afonso 
Henriques
abona-se com a inquirio do tempo de D. Dinis citada j par Brando 
(Monarquia
Lusitana, P. 3, L. 8, c. 27).
Existe no mosteiro que foi de beneditinos de Pao de Sousa o sepulcro de 
Egas
Moniz, lavrado de figuras toscas, que se pretende sejam alusivas  sua viagem 
 corte de
Leo. Por esse monumento se intentou demonstrar a certeza do sucesso em 
uma extensa
Memria publicada no volume XI das da Academia de Lisboa. Provou-se a 
pelo
arquivo do mosteiro, pelas crnicas e pela inscrio do tmulo que o 
monumento era do
tempo em que faleceu Egas Moniz. Dessa Memria, porm, e do que se 
refere na
Beneditina Lusitana acerca daquele monumento parece deduzir-se que o 
relevo antiga
que representava a parte superior do corpo de Egas Moniz j no existe, o que 
tornaria
de nenhum valor o tmulo como prova do facto histrico. Entretanto, unia nota
subministrada pelo Sr. Velho Barbosa, escritor bem conhecido e testemunha 
acima de
toda a excepo pelas suas luzes e critrio, nos tira de dvida a semelhante 
respeito.
Como antigo monge beneditino, o Sr. Velho Barbosa teve ocasio de estudar
atentamente aquele monumento. Segundo ele afirma, na pedra do tmulo 
existe ainda o
relevo primitivo da corda pendurada ao pescoo do cavaleiro, tendo-se 
quebrado s a
poro do vulto acima da barba, porque s esta poro ressaltava da pedra. 
Assim fica
suficientemente confirmada a tradio popular acerca da faanha de D. Egas.
Venhamos, porm, ao objecto principal desta nota, que  estabelecer nos
documentos os sucessos que atribumos ao ano de 1127, servindo eles ao 
mesmo tempo
de ilustrar o que dizemos relativamente ao ano de 1128.
Temos dois documentos que, combinadas um com o outro, provam que o 
infante
esteve cercado em Guimares por seu primo.  a primeiro uma doao a Mcm
Fernandes, datada de Maio de 1129, em que se declara ser feita aquela merc 
pra.253
servitia quod mihi fecisti in obsidione Vimarenhensi adversos Regem Alfansum 
meum
consanguineum una cum Suaria Menendi, dictus Grossos, et com aliis de suo 
genere
(Monarquia Lusitana, P. 3, L. 9, c. 19).  o segundo o foral, ou antes 
confirmao do
foral de Guimares pelo infante, datado de 5 das calendas de Maia de 1166 (27 
Abril de
1128), em cujo prembulo se diz: Vos fecistis honorem et cabum super me, et 
fecisti
mihi serviciutn bonum et fidele e no fim: Et de illas hereditates de lias 
burgueses qui
mecum sustinuerunt male et pena in Vimaranes nunquam donent fossadeiras 
(Arquivo
Nacional, Maa 12 de Forais Antigos, n 3, 1. 51 v., e Gav. 15, Mao 3, n 8).  
vista
destes dois documentos, ou se ho-de supor dois cercos de Guimares ou se 
h-de
admitir que esse a que se alude na doao a Mem Fernandes  o mesmo que 
se
menciona no foral daquela vila. Nesta hiptese  certa que ele teria precedido a 
ms de
Abril de 1128. A narrativa dos nossos cronistas e historiadores  que Afonso VII 
cercou
o infante, vindo em auxlio de D. Teresa; mas a batalha do Campo de So 
Mamede,
depois da qual tinha lugar o socorro, deu-se em Julho deste ano: logo no 
podia tal
cerco ser anterior a 27 de Abril. Na hiptese contrria, a de dois assdios, qual 
foi o
motivo do primeira e por quem pasta?  certo que na primeira doao de Soure 
aos
templrios (Carta de Tomar no Arquivo Nacional), feita por D. Teresa e pelo 
conde
Fernando, a 14 das calendas de Abril de 1116 (19 de Maro de 1128), diz-se, 
depois da
data: Qui presentes fuerunt: Aldefonsus legionensis rex, etc., e algum 
poderia supor
que j ento a infante andaria levantado e que o rei leons teria vinda a 
Portugal nessa
conjuntura em socorro de sua tia, verificando-se ento o assdio de 
Guimares; mas
obsta um documento de 2 das calendas de Abril (31 de Maro), em que Afonso
Henriques aparece confirmando um diploma de D. Teresa, o que prova no ter 
ainda
rebentado a revoluo de 1128 (Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, p. 90, n 
264):
alm de que a presena de Afonso VII ao exarar-se o diploma, quanto a ns, o 
que
mostra  que D. Teresa se achava na corte do sobrinho: porque nesse tempo 
andava o rei
leons entretido com as negcios que narra a sua crnica (Chronica Adefonsi
Imperatoris, L. 1, c. 4 e 5), no embargando a doao de D. Teresa a Garcia 
Garcez
(Monarquia Lusitana, L. 9, c. 2) feita doze dias depois, porque nem sabemos 
ande
residia por essa poca Afonso VII, se perto se longe das fronteiras 
portuguesas, nem o
lugar em que a dita doao foi exarada. Durante os meses antecedentes, 
posteriores a
Julho de 1127, tambm no podia ser este cerco: porque no consta que 
Afonso VII
tornasse a Portugal depois da invaso daquele ano que referimos no texto, 
nem podia
vir, havendo o rei de Arago no ms de Julho entrado em Castela para reforar 
as praas
que ali possua, e comeando o de Leo a chamar tropas de todas as 
provncias com que
formou um grande exrcito, para lhe opor, seguindo-se daqui os sucessos 
referidos na
crnica latina, sucessos que ela liga imediatamente com o casamento de 
Afonso VII em
Novembro de 1128.
Assim,  indispensvel que o stio a que evidentemente alude o foral de
Guimares fosse posto antes de Julho de 1127, a que coincide com a invaso 
dessa
Primavera, relatada na Historia Compostellana.
 foroso, igualmente, que a doao a Mem Fernandes se refira a esse mesmo
facto. Sendo ela datada de Maia de 1129, e dada a batalha de So Mamede 
em Julho do
ano antecedente, segue-se que nos nove meses intermdios se deveria ter 
verificado a
entrada de Afonso VII a socorrer D. Teresa e o conde Fernando, se as coisas 
passassem
conforme imaginaram os nossos historiadores. Ora, em Novembro de 1128 
casou
Afonso VII em Saldanha com a filha de Raimundo, conde de Barcelona, a qual
conduziria da sua ptria par mar duxit uxorem per mate (Chronica Adefonsi
Imperatoris, L. 1, c. 5). Cama, portanto, conceber que depois de 25 de Julho 
chegasse a
Afonso VII a notcia da vitria do infante; que ajuntasse tropas; que marchasse 
para.254
Portugal; que pusesse stio a Guimares; que o levantasse em consequncia 
das
condies oferecidas por Egas Moniz; que marchasse com o seu exrcito para 
Leo ou
para Castela; que fosse a um porto de mar, preparasse um ou mais navios e 
rodeasse
toda a costa de Espanha do mar do Norte at ao Mediterrneo, porque no 
tinha porta
algum neste mar; que voltasse pelo mesmo caminho e que em Novembro 
estivesse em
Saldanha, celebrando o seu casamento com D. Berenguela?  impossvel. 
Separar-se-ia
acaso lago da sua mulher para vir fazer guerra a Portugal por uma causa alheia 
e no
rigor do Inverno? Fora preciso algum testemunho contemporneo para que o
acreditssemos; mas o silncio dos documentas e crnicas  completa a 
semelhante
respeito. Na ms de Fevereiro de 1129, convocou ele cortes em Palncia e ali 
residia em
25 de Maro, partindo depois disso para Carrin (Historia Compostellana, L. 3, 
c. 8,
pargrafos 5 e 6). V-se, pois, a impossibilidade de haver desde ento at 
Maia um
assdio pasta a Guimares por Afonso VII, para j neste ms a infante 
recompensar as
que, durante ele, o tinham ali servido.
Sendo, portanto, insustentveis as duas hipteses que ocorrem para salvar a
narrativa dos nossos historiadores  vista dos documentos, segue-se a 
necessidade de as
substituir pela que adoptmos no texto. Assim, no s a foral de Guimares e a 
doao a
Mem Fernandes se ajudam e explicam mutuamente, mas tambm a tradio 
do feito
herico de Egas Moniz adquire maior grau de certeza. Governando ainda 
Portugal D.
Teresa na poca da invaso, o rei leons no podia exigir de Afonso Henriques 
seno
uma promessa de sujeio futura, ao passo que (conforme a inteligncia literal 
da
Historia Compostellana) obrigou logo sua tia, cama devia naturalmente obrigar, 
a
submeter-se. Nesse caso a ida de Egas Moniz a Castela seria no ano seguinte, 
quando,
apossado o infante da poder, deixou de cumprir as convenes juradas.
No  gratuita a nossa opinio de que j em 1127 o infante comeara a sacudir 
a
jugo de sua me e que, tendo-se depois congraado com ela por algum tempo, 
a
revoluo rebentou, no pela primeira vez, mas s com mais fora, na 
Primavera de
1128. Um documento sobre cuja autenticidade no temos dvida nos leva a 
assim o
acreditar.  ele a carta de couto de S. Vicente de Fragoso no julgado de Neiva, 
dado
pelo infante a 4 de Dezembro de 1127 (2 das nonas de Dezembro de 1165) 
que se acha
conforme na data de dia, ms e ano, em dois registos autnticos do Arquivo da 
Torre do
Tombo (Livro de Doaes de Afonso III, L. 1, f. 119 v.; Livro de Inquiries de 
Afonso
III, L. 9, f. 63). H nele a circunstncia de figurar entre os confirmantes Ermgio 
Moniz,
o clebre conde ou senhor da terra da Feira e o personagem talvez mais 
influente na
revoluo do ano seguinte. Figura a igualmente Egas Mendes, conde do 
distrito de
Neiva, e o governador ou alcaide do castelo deste nome. No  semelhante
particularidade notvel, se nos lembrarmos que a tradio da Idade Mdia, 
conservada
pelas crnicas mais antigas,  que o infante antes da batalha do Campo de 
So Mamede,
j andava levantado contra D. Teresa e que lhe tinha furtado dois castelos, 
os de
Neiva e da Feira? No  tambm notvel que na doao de Mem Fernandes se 
diga que
os principais defensores de Guimares tinham sido Soeiro Mendes da Maia e 
outros da
sua famlia, que eram acrrimos parciais de Afonso Henriques, que tanta parte 
parece
terem tido nos sucessos de 1128 e que to grandes servios depois fizeram ao 
infante?
Tendo ns mostrado que o assdio daquela vila s podia acontecer na ocasio 
da entrada
de Afonso VII em 1127, porque estavam a os cavaleiros da Maia, nenhum dos 
quais,
que ns saibamos, governava aquela povoao e que tinham o seu solar em 
diverso
distrito? Todas estas consideraes reforam o que dissemos, fundados na 
carta de So
Vicente de Fragaso.
 verdade que J. P. Ribeiro duvidou da genuinidade deste documento. Mas 
porque
duvidou ele? Unicamente parque se opunha s ideias histricas recebidas. 
Mais de uma.255
vez assim procedeu parque o seu fim no era escrever a histria, mas ajuntar 
slidos
materiais para ela, e por isso recebia s vezes como indisputveis factos que 
nada menos
so que certos. Desconto  este que se deve fazer nos seus gravssimos 
escritos, que
alis respeitamos como de mestre e sem cujo auxlio no fora possvel dar 
passa na
histria dos primrdios da monarquia.
XIII
REVOLUO DE 1128
As primeiras doaes de Soure aos templrios, feitas em Maro e Abril de 
1128,
so confirmadas pelo conde Fernando e por Afonso VII de Leo (Dissertaes
Cronolgicas, T. 3, P. 1, n.os 262 e 263, e Elucidrio, T. 1, pp. 321 e 322), o 
que indica,
segundo j notmos, a estada de D. Teresa na corte do rei seu sobrinho, ao 
qual poucos
meses antes fora abrigada a submeter-se. A doao a Garcia Garcez, feita em 
31 de
Maro,  o ltima diploma da rainha em que intervm Afonso Henriques 
(Monarquia
Lusitana, L. 9, c. 2). Desde ento, aparecem documentos simultneos da me 
e do filho,
em que ela parece exercer autoridade ao sul do Doura, e ele ao norte 
(Dissertaes
Cronolgicas, T. 3, P. 1, do n 265 a 268). O Primeira diploma do infante  o 
foral de
Guimares j citado na nota antecedente; o segundo  a nomeao de Mendo 
Afonso
para conde do distrito de Refoios; o terceiro  a carta de couto de Braga em 
recompensa
dos socorros que esperava de D. Paio. A srie destes documentos parece-nos 
assinalar a
progresso da revoluo. Ribeiro, julgando-os a uma luz exclusivamente 
diplomtica,
hesitou sobre a genuinidade dos dois primeiras, por no concordarem com a 
poca do
governa do infante. O nenhum fundamenta desta observao  bvio. O 
doutor Kopke,
que viria a ser um das nossos mais hbeis arquelogos se a morte no o 
roubasse na flor
da idade, vindicou perfeitamente a genuinidade do segundo (Apontamentos
Arqueolgicos, pp. 22 e 23). Sobre o terceiro-  que ns teramos alguma 
dvida  vista
de outro documenta anlogo, expedido na mesma data dele e que se acha 
lanado a f.
117 v. do Liber Fidei. Este documento, que  igualmente uma carta de couta e
privilgios ao arcebispo de Braga, difere muito do que Viterbo publicou tirado 
do
arquivo da mitra bracarense. Todavia, a diferena dos dois privilgios tem uma
explicao plausvel, vista no haver motiva para os crer forjados, e  que um 
deles,
depois de redigida, seria julgado ou omisso ou errado, e nesse mesmo dia se 
exaria
outra. Mas qual deles ficou sendo o vlido? Ns cremos que a do Liber Fidei, 
tanto por
ter particularidades que o outro cala, como por ter sido este o que lanaram 
naquele
antiqussimo cartulrio, ao passo que estoutro se copiou de um registo muito 
mais
moderno, donde o tirou o autor de Elucidrio. No s para que se passa 
comparar com
essoutro, mas tambm para que se veja com quanta razo dissemos que o 
exemplo do
que se fizera em Leo e Galiza para privar D. Urraca do poder e d-lo a seu 
filho devia
influir na revolta dos bares portugueses contra D. Teresa, a pomos aqui. 
Neste
diploma, cuja redaco pertence naturalmente ao prprio agraciado ou a algum 
dos seus
cnegos,  evidente a inteno de equiparar D. Pala ao clebre Diogo 
Gelmires.
RUBRICA
Cautum quod cancessit adefonsus enrici comitis filus et regine tarasie 
bracharensi ecclesie tempore
.pelagii archiepiscopo.
TEXTO EM TINTA PRETA
In namine patris et filii et spiritus sancti amen Ego alfonsus. egregii comitis 
henrici et egregie.256
regina tarasie filius. et alfonsi obtimi regis nepos. sancte marie bracarensi et tibi 
archiepiscopo domno
pelagio tuisque successoribus in perpetuum promovendis nec non ibidem 
clericis commorantibus dono
atque concedo cautum illud quod scilicet allonsus rex consanguineus meus et 
regina domna urracha
mater ejus ei ego tibi roboravimus in presentia com postellani archiepiscopi 
domni didaci et comitis
domni ganiizonis et comitis domou roderici et aliorum magnatum seilicet pelagii 
suarii, egee moni
menendi manionis, roderici vermuti. cautum videlicet illud dono atque concedo 
ira determinatum com
villa que dicitur lapella sicut in scripta eauti continetur per ullum videlicet 
terminum qui est inter
avellaneda et gondemar et inter cavas et vilar et per illum montem de soniariz 
et per illud manasterium de
figaredo et per portellam de gisandi et per portellam de scudarii et ad ullam 
portellam de leitones et ad
portellarn de villacova et inde ad pousafolles et ad portellam de bezerros et mdc 
per terminum de doou et
inde per terminum de lauredo et ad portellam sancti vissimi (sic) et per 
terminum inter mau ri et
antonianes usque in cavado et inde per fluvium ipsum usque ad moncoromi et 
deinde unde primiter
incepimus. insuper dono arque concedo sancte marie bracarensis et tibi tuis 
que successoribus castellum
quod dicitur perna fidelis per suas terminas antiquos et argentinum 
manasterium et comam similiter. et
pelagius ramiliter teneat ibi illud prestamum quantum mihi pIacuerit. et per 
cambeses et per roili dem
vobis cuncambium quando illud potero habere et per concambia de teendeiras 
dono tibi medietatem de
adulfi de panonias. et omnes hereditates sancte mame bracarenais ubicumque 
sint eautate Sint sive cum
servis sive com iunioribus sive com inienuis qui ad regem pertinent. Et sicut 
avus meus rex alfonsus dedit
adiutorium ad ecclesiam sancti jacobi faciendam simile toada dono ar concedo 
sancte marie bracarensis
monetam undefafricentur (sic) eeclesia. et ecclesie regales que sunt 
parochiales sint sub mano pontificis et
nullus meus habeat potestatem. monasteria regalia dent tibi tantum quantum 
dederunt predecessoribus
tuis. insuper dono tibi arque concedo in curia mea totum ullud quod ad clericale 
offocium (sic) pertinet
scilicet capellaniam et scribaniam et cetera omnia que at pontifices curiam 
pertinent. et in manu tua et ir
manu successorum tuorum qui me dilexerint totum meum consilium eommitto et 
in civitate tua bracarensi
nullam potestatem habeam preter voluntatem tuam et preter voluntatem 
successoribus tuorum et quando
habuero portugalensem terram adquisitam civitatem tuam et sedem tuam et es 
ad eam pertinent tibi tus
que succssoribus ir pace dimittam ame aliqua coritraversia et de rebus 
ecclesie sancte marie bracarensis
sive de rebus tuis, sive de rebus successorum tuorum nichul unquam requiram 
aut per me aut per meos
vicarios ame voluntate tua aut sine voluntate successorum tuorum. et hec dona 
facio sancte marie
bracarensis et tibi tuis que successoribus et clericis tuis pra anima partis mei et 
pra remedio anime mei et
ut tu sis adjutor meus, et si aliquis bania aut ego aut propinquis meis aut 
extraneis hoc nostrum factum
violare aut irrumpere tentaverit a deo sit excommunieatus et com iuda traditore 
habeat partieipium, et
habeat partem com diabolo et angelis eius. et insuper ineurrat iram ipsius 
regine sancte marie. facta fuit
karta vi kalendas iunii era MCLXVI. ego alfonsus infans hoc testamentum manu 
mea roboro.
Seguem-se as testemunhas e confirmantes, que so os mesmos do documento
publicado por Viterbo.
XIV
SEGUNDO CASAMENTO DE D. TERESA, SUPOSTO
O Livro das Linhagens, que ainda hoje existe na Torre do Tombo, atribudo ao
conde D. Pedro e que no  mais que um composto de diversas memrias 
genealgicas,
escritas em pocas diferentes e mal coordenadas, provavelmente no sculo 
XV,
estabeleceu a opinio vulgar do casamento de D. Teresa com o conde 
Fernando no ttulo
13, onde so quase tantos os erros e as fbulas quantas as palavras. Esta 
opinio
generalizou-se e predominou largo tempo. Joo de Barros e Nunes de Leo 
foram os
primeiros em contradiz-la; Brito, Estao, Faria e Sousa os primeiros em tentar
demonstr-la. O judicioso Brando combateu-a, sem todavia assentar 
decisivamente a
sua opinio. Seguiu-o D. Jos Barbosa, sustentando positivamente que tal 
casamento era
suposto. Por outra parte, em Castela, aduziam argumentos em favor da 
verdade da
tradio Yepes e Salazar de Castro. Nesta contrariedade de pareceres a 
questo pendeu
indecisa at os tempos modernos. Antnio Pereira de Figueiredo suscitou-a de 
novo,
declarando-se pela afirmativa (Memrias da Academia, T. 9, pp. 295 e ss.), e a 
sua
doutrina foi comentada e desenvolvida por dois acadmicos modernos, 
Almeida e So.257
Lus (ibid., T. 11, P. 1, pp. 174 e ss.; T. 13, P. 1, pp. 29 e ss.) Joo Pedro 
Ribeiro, cuja
opinio em tal matria valera pela de muitos, absteve-se de a declarar nas 
passagens dos
seus escritos onde ela teria cabido.
Em tudo o que os propugnadores deste consrcio tm alegado no h seno 
um
argumento srio.  o que se deduz da carta de fundao do Mosteiro de Monte 
Ramo,
publicada por Yepes (Crnica Beneditina, T. 7, Apndice, escrito 34), em que 
se diz
ego Terasia... comitis Henrici quondam uxor (expresso desconhecida nos 
documentos
de D. Teresa) nunc vero comitis Ferdinandi conjux... Hanc chartam fieri jussi et 
una
cum viro meo comite Ferdinando Peres. Este documento e assaz duvidoso: 
Ribeiro
deu-o por suspeito (Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, n 238), marcando-o 
com o
fatal asterisco. Tinham-lhe feito porventura peso os argumentos de Barbosa, 
que o d
por suposto. Entre estes argumentos h um que desejaramos ter visto 
combatido
(Catlogo das Rainhas, p. 102, pargrafo 128), e muito mais depois da 
publicao da
Compostellana, que positivamente nos diz que o conde estava casado quando 
veio para
Portugal. Era sua mulher D. Sancha Gonalves de Lara (Salazar, Historia de la 
casa de
Lera, T. 1, p. 241, n 8), a qual com seu marido, o conde, doou em 1142 a 
metade que
lhes pertencia do Mosteiro de Sobrado. Isto parece mostrar que os amores de 
Fernando
Peres com D. Teresa foram apenas temporrios.  uma terrvel dificuldade que 
se
alevanta contra o documento de Monte Ramo e que valia a pena de ser 
resolvida.
Viu Yepes este documento? Viu-o no original? Eis o que ele no diz. Que est
viciada a cpia que imprimiu  inegvel. Quem so esses ricos-homens da 
corte de D.
Teresa que confirmam a doao? Em que outro diploma rgio desse tempo 
figuram
Sueda Mendes, Paio Munhos, Pedro Bidularis? No meio destas alteraes 
visveis,
ainda supondo a doao verdadeira, no  fcil de crer que qualquer copista, 
vendo um
documento exarado em nome da rainha e do conde Fernando, quisesse 
enfrentar essa
associao, um pouco estranha, introduzindo as expresses nunc vero... 
conjux e...
vivo meo, como com evidncia se introduziram as de comiis Henrici 
quondam uxor,
absolutamente alheias aos diplomas de D. Teresa?
Mas o que mais induz a crer esse documento ou falso ou, antes, o que 
julgamos
provvel, viciado,  a falta completa de declarao de semelhante consrcio 
em todos os
diplomas de D. Teresa. Este argumento, que parece apenas negativo, tornam-
no positivo
as doutrinas triviais de diplomtica. Estabelecida com certeza a frmula de 
chancelaria
de um governo ou perodo de governo, os documentos que desdizem dela, 
quer para
mais, quer para menos, so considerados suspeitos. Era assim que procedia o 
nosso
mestre comum, o ilustre autor das Dissertaes Cronolgicas, empregando, 
at, esta
regra s vezes com demasiada severidade. Mas ser, porventura, crtica 
severa de mais o
supor viciado um nico diploma que foge das regras de chancelaria usadas 
no tempo
em que foi exarado?
Este silncio de todos os monumentos tinha bastado j para persuadir o bom 
juzo
do autor da 3 Parte da Monarquia Lusitana e foi suficiente para trazer a esta 
opinio
um hbil historiador nosso contemporneo (Schaefer, Geschichte von Portugal, 
1. B. 5.
31). A Chronica Gothorum e o Livro dos Testamentos de Santa Cruz de 
Coimbra, os
dois nicos monumentos histricos desse tempo que podiam tratar do assunto, 
guardam
o mesmo silncio. O ltimo, sobretudo, na passagem relativa ao desbarato de
Guimares, em que, se na verdade o conde fosse marido da rainha, 
naturalmente diria:
Nisi divino nutu regina una cum suo viro (vel marito) a regno expulsis, etc., 
diz:
Cum suo comite, expresso insultuosa, aluso amarga ao afecto ilcito dos 
dois,
lanada em rosto aos vencidos. O Livro Velho das Linhagens, cuja origem, 
talvez,
remonte quase aos primeiros tempos da monarquia, nem uma palavra contm 
relativa ao
consrcio do filho de Pedro Froilaz com a rainha dos portugueses, antes pelo 
contrrio,.258
f-lo casado com uma s mulher (Histria Genealgica, provas, T. 1, p. 195).
A conspirao contra o pobre documento de Monte Ramo  implacvel e
completa. Apesar disso, um dos modernos escritores de que j falmos (So 
Lus)
assevera que Flores vindicou a legitimidade e autentici4nde dele. Mas como as 
vindicou
Flores? Refutando duas observaes fteis da impugnao de Barbosa e 
desprezando as
graves, bem como as judiciosas reflexes de Brando sobre esse mesmo 
assunto
(Espana Sagrada, T. 17, p. 29).
Apesar de to segura doao de Monte Ramo, os padrinhos do segundo 
casamento
de D. Teresa recorrem a muitas provas indirectas, bem escusadas admitida a
genuinidade e pureza de to terminante e preciso testemunho. Que Fernando 
Peres
gozasse de uma influncia e poder imensos, coisa  que facilmente se 
compreende. Que
foi elevado  categoria de conde ou cnsul dos distritos portugalense e 
colimbricense e
que se lhe entregaram, at, os castelos da fronteira meridional limtrofes com 
os
sarracenos, dizem-no os documentos. Que se lhe deu uma espcie de 
supremacia sobre
os outros condes e tenentes do pas parece indic-lo a Historia Compostellana 
(toti illi
terrae principatur) e est em harmonia com a instituio dos condes supremos 
em uma
provncia, instituio comum ao resto da Espanha, em muitas partes da qual se 
viu
realizada em diversas pocas. Mas quem pretende deduzir desses documentos 
e dessas
palavras o consrcio de D. Teresa com Fernando Peres, o que deduzir da 
seguinte
passagem da mesma Historia Compostellana (L. 2, c. 29). Mandou (D. 
Urraca) que
todos os seus bares lhe fizessem homenagem (a Diogo Gelmires), e assim se 
fez... Eles
submeteram-se fielmente, a si e ao que era seu, ao domnio dele fazendo-o 
seu senhor,
seu patrono, seu rei, seu prncipe, salva a lealdade  rainha? Pela lgica de 
que usam,
ho-de a fortiori concluir que D. Urraca se casou com o arcebispo Gelmires.
 incrvel o quanto se tem violentado os textos, as interpretaes 
extravagantes
que se tem dado s palavras para provar um sucesso que se desvanece logo 
que o
examinemos sem a preveno antecipada de o defender ou impugnar. Por 
curiosidade
apontaremos algumas das alegaes que se repetem nas duas mais recentes 
Memrias
da Academia em que se trata deste objecto. Bastam, porque so as mais 
fortes, para
avaliar a fora dos outros argumentos feitos pelos dois acadmicos.
A Historia Compostellana diz no L. 3, c. 24: Portugalensis infans... acquisita
portugalensi patria, et Fernando Petride... qui, relicta sua legitima uxore, com 
matre
ipsius infantis regina Tarasia tunc temporis adulterabatun, et toti illi terrae
principabatur, vi ablato, magnam dissensionem habuit, etc. (O infante 
portugus,
ganhada a ptria portuguesa, e arrancado dela Fernando Peres, que, deixada 
sua mulher
legtima, havia j tempo adulterava com a me do mesmo infante, a rainha 
Teresa, e
imperava em todo aquele pas, teve grande discrdia, etc.). O segundo 
acadmico, dos
dois a que nos referimos, verteu vi ablato e a tomar por fora referindo-se a 
terra ou
ptria. Traduzindo  letra, daria o pensamento do historiador compostelhano, 
que era
indicar ter sido o conde expulso de Portugal. Mas, de um ou doutro modo, 
ningum
ver, decerto, uma prova do segundo casamento de D. Teresa nestas palavras.
Preocupados pela sua opinio, viram-na, porm, ambos os escritores. O 
primeiro chega
a exclamar: Que testemunho mais decisivo! D. Fernando deixa sua mulher, 
casa com a
senhora D. Teresa e governa com ela aos portugueses! O segundo, mais 
moderado, diz
que quem pretender negar, depois de to claras e terminantes frases, o 
casamento se
ver constrangido a imputar  rainha o mais indecoroso crime de tratar torpes 
amores
com o conde. E porque no havemos de crer antes isso? D o autor pouco 
adiante a
razo: Porque seria prova de no pequena desenvoltura da parte deles e de 
um grande e
escandaloso desprezo da pblica honestidade e decncia. Tudo isto  
absurdo; mas
tudo isto se acha escrito..259
O lexicon em que adulterari tenha a significao de casar-se ainda est por
compor e imprimir: adulterabatur  correlativo a relicta sua legitima uxore. Os 
dois
acadmicos parece que estavam preocupados de uma ideia grosseira, 
desgraadamente
vulgar, de que s h adultrio quando a mulher trai seu marido, que este pode 
faltar  f
conjugal sem ser adltero, e que para merecer esse ttulo de reprovao  
necessrio que
seja bgamo. Se  possvel conceder-se-nos por um momento que este 
negcio passou
como ns o entendemos, desejaramos se nos dissesse de qual palavra se 
deveriam
servir os historiadores compostelhanos para designarem as relaes do conde 
com a
rainha, a no ser adulterabatur? A razo de convenincia moral dada para a
extravagante traduo do verbo adulterari parece-nos inconsiderada e trazida 
por
atenes que nunca deveriam influir no nimo de quem se dedica ao severo 
lavor da
histria.  necessrio que esta deixe, enfim, de ser convencional, de ser um 
meio de
lisonjear os grandes ou as preocupaes nacionais, as glorolas falsas e 
insensatas do
vulgo.  necessrio aceitar as geraes e os sculos como eles foram, e no 
acordar os
nossos avs do sono da morte para lhes despir as armaduras ou os trama de 
bragal e de
almfega e cobri-los do veludo e lemiste cortesos ou dos lanifcios e algodes 
dos
teares a vapor ingleses.  necessrio no atribuir  Idade Mdia ideias ou 
costumes
diversos dos seus e no envernizar com o polimento hipcrita dos tempos 
presentes uma
poca verdadeiro caput mortuum das ltimas fezes da decadncia romana, em 
que se
deliu a fereza dos brbaros do Norte conquistadores do Meio-Dia, 
envenenadas, ainda
mais, pela adio dos costumes luxurios e voluptuosos dos sarracenos, e 
escumando no
cadinho fervente da vida solta de contnuos combates. Pretender transfigurar 
assim a
histria, violentando a significao real dos documentos,  lanar cnfora no 
sepulcro de
um cadver j corrupto, para que este no apodrea. Apesar da sua perverso 
moral, a
Idade Mdia, notvel poca de transformao, tem muitos aspectos pelos quais 
 grande
e bela. Os que desconhecem o importante papel que lhe coube na histria do 
progresso
humano  que se entretm em cobri-la de remendos e parches, para que no 
vejamos as
lceras que a roam.
Assim como se deu uma interpretao forada  Historia Compostellana para
provar o segundo casamento de D. Teresa, do mesmo modo o quiseram 
deduzir dos
prembulos e confirmaes dos diplomas, os quais apenas provam que 
Fernando Peres
chegou a gozar da maior autoridade que a rainha lhe podia dar, coisa que, 
segundo
cremos, ningum nega. Um desses documentos  uma inquirio sobre os 
bens e
direitos reguengos no distrito de Viseu (Memrias das Inquiries, documento 
1), feita
pelo prior Sandino Randufiz com vrios indivduos, entre os quais figura um 
Nuno
Mendes que se diz mordomo da rainha e do conde. Daqui se tirou um dos
poderosos argumentos a favor do pressuposto consrcio, argumento curioso 
que se
estriba num clculo feito sobre a ignorncia do leitor. Hoje mordomo significa 
nas
casas abastadas um criado que dirige certa parte do servio domstico e corre 
com as
despesas midas da casa. Mas, como nem todos os leitores ignoram as 
nossas antigas
instituies, aqueles que sabem que o maiordomus era ento um recebedor de 
tributos e
direitos reais, revestido, alm disso, de certa magistratura para julgar causas 
de fazenda
pblica, rir-se- de ver o pobre Nuno Mendes, que com razo se intitulava, 
segundo o
costume do tempo, oficial da rainha e do seu lugar-tenente, convertido em 
criado grave
da casa dos dois cnjuges. O pior  que neste mesmo documento o bom do 
homem se
esquece da comunho de bens entre marido e mulher e diz com o prior 
Sandino que
metade de certa leira e o terreno junto de umas encruzilhadas era de illa 
regina, sem
fazer caso nem meno do conde seu amo.
Depois de to concludentes alegaes como as que temos visto, pareceria 
intil
aproveitar variantes de cdices para delas extrair provas. Pois at isto se fez. 
A.260
Chronica Gothorum, no exemplar que foi de Andr de Resende, diz que o 
infante
Afonso Henriques adquirira o reino de Portugal labore suo magis quam 
parentum
voluntate. A palavra parentum  mais uma certido das segundas npcias de 
D. Teresa.
Alm da bvia fraqueza de tal prova, ela encerra uma grave dificuldade. Nos 
dois
cdices de Santa Cruz e de Alcobaa de que Brando se serviu no corpo do 
seu livro
(Monarquia Lusitana, L. 9, c. 15), falta absolutamente essa passagem, e ns 
veremos
adiante as razes por que se deve preferir a lio daqueles dois cdices  do 
exemplar de
Resende.
Em ltimo lugar advertimos que nos resta um testemunho preciso, corvo e
nacional sobre este ponto de histria.  o do autor da Vita S. Theotonii, 
publicada por
Tamayo no Martirolgio Hispano, pelos bolandistas (Acta Sanctor. Februarii, T. 
3, pp.
108 e ss.) e ultimamente  vista do prprio original nos Portugaliae Monumenta
Historica (Scriptores), Vol. 1, pp. 79 e as., e que, por causa destas e de outras
passagens, que podiam desagradar, provavelmente Brando no inseriu nos 
apndices
da Monarquia Lusitana. Eis a passagem: ...Adulteros... feriebat... fama refert 
quadam
die in ecclesia Viseensi, eo predicante, memoratam reginam et comitem 
Fernandum, qui
eo tempore contubernalis ejus, non vir legitimus era!, rubore vercundiae 
suffusos de
ecclesia festinanter exiisse.
Esta nota vai demasiado larga para objecto de to pouca monta. Servir, 
todavia,
para dar ao leitor uma ideia do estado a que chegou to depressa em Portugal 
a crtica
histrica, cincia, por assim dizer, criada h meio sculo apenas por J. P. 
Ribeiro, e 
qual ele abriu to firme e espaosa estrada.
XV
DESBARATO DOS CRISTOS EM TOMAR
Brando, que s conhecia a crnica de Afonso VII pelas citaes de Sandoval,
empenha-se em provar que o castelo destrudo pelos sarracenos fora o de 
Tomar e no o
de Leiria (Monarquia Lusitana, P. 3, L. 9, c. 27). Os seus fundamentos so: 
primeiro,
que a destruio de Leiria de que h notcia fora em 1140; segundo, que a 
Chronica
Gothorum diz ter sido o infortnio dos cristos neste ano em Tomar:
Era MCLXXV evenit infortunium christianis in Thomar. A primeira destas
razes  evidentemente de nenhuma fora. O ser o castelo de Leiria destrudo 
em 1149
no obsta a que tivesse em 1137 sido entrado pelos sarracenos e que, 
abandonado por
estes, os cristos o reparassem e guarnecessem de novo. O segundo 
fundamento no 
melhor. A Chronica Gothorum no fala do castelo de Tomar, mas do 
infortnio
sucedido aos portugueses em Tomar. Podia ser, e provavelmente foi, um 
combate dado
nas margens do Nabo, em que os cristos ficassem desbaratados. Para 
provar que a
Erena de que fala Sandoval, seguindo a crnica toledana,  o castelo de 
Tomar fora
necessrio que este j existisse.  o que se no verifica.
Para no multiplicar documentos, que todos conspiram em provar o mesmo, 
basta
citar os principais que fazem ao nosso intento:
1 A bula de Urbano III, de 1186, passada a requerimento dos templrios e, por
consequncia, estribada nos factos alegados por eles, confirmando-lhes as 
terras e bens
que possuam em Portugal (Arquivo Nacional, Gav. 7, Mao 9), diz que Soure e 
Ega
lhes tinham sido doadas por D. Teresa e terram desertam in marchia 
sarracenorum
por Afonso I, e que eles a haviam fundado os castelos de Pombal, Tomar, 
Ozezar e
Almourol. Todos estes castelos so, portanto, posteriores  doao de Afonso 
I;
2 A doao do castelo de Cera feita aos templrios em Fevereiro de 1159.261
(Cartrio de Tomar, no Arquivo Nacional)  a mais antiga desse territrio em 
que se diz
na bula de Urbano III foram fundados depois Pombal, Tomar, Ozezar e 
Almourol. A
fundao de Tomar , portanto, muito posterior ao ano de 1137;
3 A inscrio, enfim, posta  porta da igreja do convento de Tomar (Elucidrio,
T. 2, p. 359) fixa definitivamente a fundao do castelo em 1160.
Mas, dir-se-, antes desta ltima fundao podia existir outro castelo nas 
margens
do Nabo ou Tomar. Sem dvida. Todavia, como de tal castelo no h 
memria alguma,
nem a passagem da Chronica Gothorum a que Brando se refere torna 
necessria a
sua existncia,  evidente que o cronista de Afonso VII fala de Leiria, no s 
pela
semelhana do nome (Erena, Leirena), mas tambm porque no sabemos de 
outro
castelo naqueles stios edificado por Afonso Henriques nessa poca, para 
fazer
frente a Santarm e guerre-la, bem como a Lisboa e Sintra e aos outros 
castelos
circunvizinhos (Chronica Adefonsi Imperatons, L. 1, c. 31).
O nico meio de sustentar a opinio, seguida pelo autor da Monarquia 
Lusitana,
de que o castelo de Leiria foi tomado pelos sarracenos uma s vez, e esta 
depois do
recontro de Ourique, que  a destruio de que fala a Chronica Gothorum; o 
nico
meio, dizemos, de sustentar tal doutrina, fora supor que o cronista de Afonso 
VII
introduzira deslocadamente a narrativa do caso de Leiria entre acontecimentos 
de anos
anteriores. Mas, nessa hiptese, como explicar a retirada de Afonso Henriques 
depois da
vitria de Cerneja? Como a aceitao das duras condies do Tratado de Tui? 
Alm
disso, o testemunho da crnica toledana, a que nos referimos,  preciso. Ela 
nos diz que,
depois da vitria, Afonso voltou logo a Portugal para acudir a Leiria (ibid., 1, 
31).
Acresce que na relao dos acontecimentos de Valdevez em 1140 se alude  
perda de
Leiria como a um sucesso de tempos passados (ibid., c. 34.
XVI
BATALHA DE OURIQUE
A nicas fontes legtimas e positivas para a histria da batalha de Ourique so 
as
seguintes:
1 In loro qui dicitur Oric fuit praelium inter paganos et christianos, preside 
rege
Ildefonso portugalense ex una parte, et rege paganorum Examare ex altera, qui 
ibidem
mortem fugiendo... sitio evasit in die S. Jacobi apostou mense julii. Era 
MCLXXVII,
Crnica Lamecense nas Dissertaes Cronolgicas, T. 4, P. 1, p. 174, e nos
Portugaliae Monumenta Historica (Scriptores), Vol. 1, p. 20.
2 In era MCLXXVII mense julii, die S. Jacobi, in loco qui dicitur Ouric, lis
magna fuit inter christianos et mauros, praeside Ildefonso portugalensi, et ex 
parte
paganorum rege Smare, qui victus fugam petiit, Crnica Conimbricense 1 
(Livro da
Noa de Santa Cruz), em Sousa, Prov. da Histria Genealgica, T. 1, p. 375, e 
melhor
em Flores, Espaa Sagrada, T. 23, p. 330, e nos Monumenta, ibid., p. 2;
3 Inquirio sobre as questes de primazia entre Braga e Toledo, na qual um
certo Garcia Liufreiz de Jaraz disse que se lembrava de ter vinte anos, 
tempore Belli de
Aurich; Elucidrio, verbete Ladera, T. 2, p. 80, c. 2;
4 In campo Haulich quinque reges paganos cum innumera eznrum barbara
multitudine de ultra citraque mate, ut eum omnino perderent coadunata, devicit, 
auxilio
sihi facto divino ac B. Jacobi patrocinio, cujus es die solemnitas fuisse 
perhibetur,
Vita S. Theotonii, nos Monumenta, ibid., p. 86, pargrafo 27;
5 Era MCLXXVII julio mense die divi Jacobi apostou fuit victoria Alfonsi regia
de Esmar rege sarracenorum et inumerabili prope exercitu, in loco qui dicitur 
Aulic,.262
tunc cor terrae sarracenorum quo perrexit rex Alfonsus. Foeminae sarracenae 
in hoc
praelio amazonico rim ac modo pugnarunt ut occisae tales deptehensae, 
Chronica
Gothorum, em Brando, Monarquia Lusitana, P. 3, L. 10, c. 3, e nos 
Monumenta,
ibid., p. 12.
A Crnica Lamecense acha-se escrita em letra francesa na primeira folha de 
um
martirolgio da S de Lamego, e ai se diz que foi tirado autenticamente de 
Outro mais
antigo no ano de 1262. Viterbo supe o original anterior um sculo. A palavra 
Oric,
escrita de um modo que parece mais rabe, a singeleza verdadeiramente de 
cronicon
com que est escrito e o terminar em 1169 do a esta opinio do autor do 
Elucidrio tal
grau de probabilidade que toca as raias da certeza.
O Livro da Noa parece ter sido escrito por diversas pessoas e em diversos 
tempos;
mas esta primeira parte, pelas mesmas circunstncias da singeleza do dizer e 
de terminar
em 1168, deve supor-se escrita ainda no sculo xis ou quando muito nos 
primeiros anos
do XIII.
A inquirio citada por Viterbo serve apenas para corroborar o facto da batalha. 
A
Vita S. Theotonii, escrita no sculo XII, porque o autor fala do santo como de 
pessoa
com quem ele ainda tratou,  um dos monumentos com mais certeza 
contemporneos do
sucesso.  a que se acha a circunstncia dos cinco reis vencidos em Ourique; 
mas a
verdade  que a palavra rei aplicada aos rabes pelos cronistas cristos 
significa
rigorosamente chefe, como sabem todos os que os tm lido, aparecendo 
muitas vezes
simples vlis e caides honrados com esta grandiosa designao.
A Chronica Gothorum , no como os nossos escritores tm sustentado, um
monumento prximo aos tempos que memora, mas sim coeva com eles. J
anteriormente dissemos porqu. Mas, infelizmente, no a possumos na sua 
pureza
primitiva. Parece-nos que se no tem reparado, como se devera ter feito, em 
que as
passagens citadas textualmente por Brando no corpo do seu livro diferem
profundamente da ntegra desta crnica publicada no Apndice da 3. Parte da
Monarquia Lusitana. Contudo, o sincero e crtico cisterciense no se esqueceu 
de
apontar o escolho: O exemplar que vai a impresso, diz ele, foi do mestre 
Andr de
Resende... Outro mais breve, cujas palavras por essa mesma causa alego 
mais vezes, se
tirou de Alcobaa e de Santa Cruz de Coimbra. Que quis o historiador dizer na 
frase
por essa mesma causa? Decerto que no era para fazer mais resumida a 
sua narrativa,
ele que est a cada passo inserindo no corpo da histria documentos inteiros 
seguidos de
verses em vulgar. O que evidentemente aquelas expresses significam  que 
dava mais
f aos exemplares de Santa Cruz e de Alcobaa, conformes entre si. O 
exemplar de
Resende foi, sem dvida, enfeitado e parafraseado posteriormente, no 
dizemos por ele,
mas por algum. Ns subscrevemos inteiramente ao voto de Brando. Na 
cpia de
Resende h artigos que desdizem completamente da forma sempre resumida e 
rpida
com que se lanavam aquelas sries de apontamentos chamados cronicons. 
Esta forma 
constante, no s em toda a Pennsula, mas tambm em toda a Europa, como 
se pode
ver nas coleces de Martene, Achery, Muratori, etc., e ainda melhor na mais 
perfeita
de todas essas coleces, os Monumenta Htstortae Germanica, de Pertz. 
Assim, dando
textualrnente as fontes para a histria da batalha de Ourique, aproveitamos o 
artigo da
Chronica Gothorum inserido na narrativa de Brando, desprezando a leitura 
do cdice
de Resende, evidente parfrase de mo mais moderna.
E ainda assim, consideramos a autoridade da Chronica Gothorum como 
inferior
 da Crnica Lamecense, porque, posto ambas sejam do sculo XII, a 
relao daquela
 por certo posterior, nessa parte, aos sucessos que narra: as palavras tunc 
cor terrae
sarracenorum que a se lem no deixam a menor dvida de que a memria 
da batalha
foi escrita depois da conquista do Alentejo, quando j Ourique no era o 
corao da.263
terra dos sarracenos; ao passo que o artigo da Crnica Lamecense pode 
ter sido
lanado nele por ocasio do acontecimento. Por via de regra era assim que se 
iam
redigindo aquelas como ementas histricas.
Se descermos a examinar criticamente a narrao do cdice de Resende, dele
mesmo se tiraro as provas contra o subido valor que se lhe tem dado. No
transcrevemos na ntegra aquele artigo, porque no lhe atribumos grande 
importncia, 
vista do que fica advertido. Os que pretenderem consult-lo podem recorrer 
aos
Apndices da 3 Parte da Monarquia Lusitana. Citaremos s as passagens 
que, em
nosso entender, o condenam. A primeira coisa que oferece uma dificuldade, 
talvez
insolvel,  dizer-se-nos a que o rei Esmar, tendo congregado infinita 
multido de
sarracenos africanos que trouxera consigo e dos de aqum-mar, dos distritos 
de Sevilha,
Badajoz, Elvas, vora e Beja e de todos os castelos at Santarm, sara ao 
encontro de
Afonso Henriques. Comecemos por nos recordarmos de que ainda nos 
princpios do
ms de Julho o prncipe portugus no tinha sado dos seus domnios, onde 
ento fazia
mercs (Elucidrio, verbete Ladera) e de que a 25 se deu a batalha. Assim, 

necessrio que em vinte dias, pouco mais ou menos, o exrcito cristo 
passasse o Tejo;
que Esmar soubesse da invaso; que desse ordem s tropas almorvidas e 
andaluzes
para marcharem de to diversos pontos; que essa infinita multido marchasse 
de feito,
se reunisse e viesse encontrar os portugueses em Ourique.  duro de crer; 
mas sigamos
avante. Como tinham vindo estas tropas de frica, se Taxfin havia dois anos 
levara para
l as melhores de Espanha, a fim de salvar o imprio das mos dos almadas, 
e desde
ento s experimentara reveses e, por consequncia, diminuio de foras? 
Porque no
se encontra o menor vestgio desta vinda nos historiadores rabes? Porque 
no se dirigiu
Esmar contra Afonso VII para descercar Aurelia, negcio sem comparao 
mais
importante do que repelir uma correria, quando a retirada dos cristos, metidos 
no
centro do territrio inimigo, no podia tardar? Porque se respondeu aos 
defensores de
Aurelia, nesta mesma conjuntura, que no havia foras para enviar a socorr-
los? No
invejamos a quem quiser salvar esta passagem o trabalho de anular a histria 
dos
sucessos da Espanha e de frica, no meio dos quais a dinastia do zenetense 
Abdul-Mumen
veio a substituir no supremo poder entre os muulmanos a do lantunita Taxfin.
Diz-nos mais esta narrativa extraordinria que tendo aquela infinita multido 
de
sarracenos cercado Afonso Henriques em um outeiro, no qual estava 
acampado com um
punhado de gente (cum paucis suorum), quiseram os infiis romper o arraial, 
mas que,
saindo contra eles algumas tropas escolhidas (electi milites) os passaram  
espada
depois de os repelirem; que, vendo isto o rei Esmar e conhecendo que os 
cristos
estavam resolvidos a triunfarem e a morrerem antes do que fugirem, fugiu ele 
com os
seus, e no houve mais que matar e dispersar a multido dos infiis. Tinha 
Esmar razo
de assim o fazer, e qualquer, por mais esforado que fosse, fugiria do mesmo 
modo. So
poucos os cristos; inumerveis os soldados sarracenos. Acometem o campo; 
mandam
os portugueses alguns cavaleiros a receb-los. Tal era a conta em que tinham 
aquele
gentio que nem quiseram sair todos ao rebate. Os cavaleiros escolhidos 
repelem os
agressores e passam-nos  espada,  vista de to inaudito e incrvel 
espectculo, quem 
que no fugiria?
Diz-nos por fim a narrativa daquela no j extraordinria mas sim milagrosa
vitria que a ficou prisioneiro um certo Omar Atagor, sobrinho do rei Esmar e 
neto do
rei Ali. Vemos, pois, que Esmar era filho do imperador de Marrocos e, por
consequncia, irmo de Taxfin, vindo Ornar Atagor a ser ou filho ou sobrinho 
deste
prncipe. Semelhantes personagens deviam ser conhecidos na histria dos 
sarracenos, e
Esmar um dos mais ilustres caudilhos lantunitas. Busquem-se, porm, estes 
nomes na
histria dos rabes, que deles no se encontrar o menor vestgio. Pelo 
contrrio,.264
sabemos que os chefes principais dos almorvidas de Espanha, depois da 
partida de
Taxfin para frica, eram Ali Ibn Abu Bekr, tio do prncipe lantunense Abu 
Zakaria Ibn
Ganyiah, e Osman Ibn Adha, nicos de que se acha feita meno nos 
historiadores da
Espanha rabe (Conde, P. 3, c. 36).
Que firmeza, pois, se pode fazer numa narrao que nos conta sucessos
humanamente impossveis e que neles faz figurar indivduos cuja existncia 
desconhecida dos escritores que tinham obrigao de conservar a sua 
memria, se
realmente houvessem existido?
Restam-nos, pois, os cinco monumentos que acima transcrevemos como 
nicas
provas do facto. A Crnica Lamecense e a inquirio de Braga apenas nos 
asseguram
que ele no  uma fico. A Crnica Conimbricense chama  batalha de 
Ourique lis
magna e a Chronica Gothorum, nos exemplares de Alcobaa e Santa Cruz, 
diz que o
exrcito sarraceno era prope innumerabili. Esta graduao parece-nos 
indicar a ordem
em que as trs memrias foram escritas: primeiro a Lamecense; segundo, a
Conimbricense; terceiro, a Gothorum. As palavras lis magna do Livro de 
Noa
tero tanto valor neste caso como aplicadas a no sabemos que recontro 
obscuro de
Cereigio, mencionado tambm neste livro (Chronicon III, era 1163) com a
qualificao de lis magna. Quanto s expresses innumerabili prope 
exercito da
Chronica Gothorum, ainda as achamos pouco exageradas  vista dos 
encarecimentos
que, por via de regra, se lem nas crnicas daquele tempo, tanto rabes como 
crists, em
que os inimigos sempre so em nmero infinito ou inumerveis, frases de que 
esta
mesma nos d um exemplo, dizendo que as tropas com que Ali cercou 
Coimbra em
1117 eram inumerveis como as areias do mar, e que s Deus podia saber o 
nmero
delas. Isto que dizemos da frase da Chronica Gothorum  aplicvel 
inteiramente 
Vita S. Theotonii.
Advirta-se em ltimo lugar que em nenhum historiador por ns conhecido, quer
rabe, quer cristo, daquele tempo ou dos imediatamente prximos se acha 
mencionado
o sucesso de Ourique, sem exceptuar o prprio Rodrigo de Toledo, que na sua 
Historia
de las cosas de Espaa dedicou um captulo especial (L. 7, c. 6) s batalhas 
insignes
do rei de Portugal, Afonso.  um argumento negativo, que nada prova contra 
a
realidade do acontecimento atestado por escritores nacionais e coevos, mas 
que nos
parece mostrar quanto ainda na primeira metade do sculo XIII ele estava 
longe de fazer
o rudo e de ter a importncia que em pocas posteriores se lhe atribuiu.
Discutir todas as fbulas que se prendem  jornada de Ourique fora processo
infinito. A da apario de Cristo ao prncipe antes da batalha estriba-se em um
documento to mal forjado que o menos instrudo aluno de diplomtica o 
rejeitam como
falso ao primeiro aspecto (o que facilmente podem qualquer verificar no 
Arquivo
Nacional, onde hoje se acha). Parece, na verdade, impossvel que to 
grosseira falsidade
servisse de assunto a discusses graves. Quem, todavia, desejar conhecer a 
impostura
desse documento famoso consulte a memria de Fr. Joaquim de Santo 
Agostinho
(Memrias de Literatura da Academia, T. 5, p. 335), as Dissertaes 
Cronolgicas (T.
1, Dissertao 2, pp. 60 e ss.; e T. 3, P. 1, n 187), e as Memrias da Academia 
(T. 12,
P. 1, pp. 75 e ss.) onde a censura no consentia que se dissesse tudo, mas 
onde se diz o
suficiente para os entendidos. O ainda mais clebre auto das cortes de 
Lamego, nico
pela sua forma e circunstncias no meio de tantas actas que nos restam de 
conclios e
cortes de Espanha e Portugal desde o tempo dos godos at o fim do sculo 
XV, tambm
se refere  batalha de Ourique como o fundamento da aclamao de Afonso I 
naquelas
cortes. Faremos a devida justia a esta inveno de algum dos faunos do 
sculo XVI
quando tratarmos da histria das instituies e legislao do bero da 
monarquia.
Diremos, porm, de passagem que para conhecer que as actas das cortes de 
Lamego.265
seriam abaixo da crtica, se no fosse o haverem sido consideradas desde o 
sculo XVII
como as leis fundamentais do nosso pas, bastar atender ao seu prembulo; 
no qual j
figura um procurator regis na poca em que procurator significava sempre
administrador, cabea, principal de uma terra ou de uma corporao, e 
onde os
imaginrios representantes dos municpios que ali se fazem figurar se dizem
procurantes bonam prolem per suas civitates, no que o falsrio passou alm 
da meta,
carregando ignorantemente a mo na barbaridade do latim. Prol (proveito) era 
palavra
antiquada no fim do sculo XVI, e por isso querendo o impostor traduzir em 
latim
brbaro que eles eram os que procuravam o bom proveito dos concelhos, 
faz dizer ao
redactor das actas, que eles procuravam ter boa descendncia ou filhos nas 
suas
cidades.  pelo menos como entenderia aquela frase um homem do sculo XI 
ou XII,
tempo em que prolis tinha a restrita significao de filho ou descendente e 
em que
at, comummente, as personagens que intervem nas escrituras se dizem, por 
exemplo,
Sancius prolis Roderici, Alfonsus prolis Oveci, em lugar de filho de Rodrigo, 
ou filho
de Oveco. Apontamos estas duas pequenas circunstncias para dar uma ideia 
do
mesquinho talento dos falsrios que tanto enredaram com os embustes de 
diplomas
grosseiramente forjados a histria dos primeiros tempos da monarquia.
XVII
DESTRUIO DE LEIRIA E TRANCOSO
Atribuindo ao ano de 1140 vrios sucessos que o comum dos historiadores, 
ainda
aqueles que mais atentos se mostram s investigaes cronolgicas, supem 
anteriores,
aproveitaremos aqui as passagens das crnicas em que nos fundamos para 
alterar essa
cronologia e citaremos os documentos que, revalidando a autoridade das 
crnicas, nos
levam a apartarmo-nos da ordem dos sucessos estabelecida pelos 
historiadores que nos
precederam, entre os quais se contam o portugus Brando e o castelhano 
Risco.  mais
curto e mais claro provar a nossa opinio que refutar em especial a de cada um 
deles.
Na histria latina de Afonso VII h uma passagem importante para a cronologia
daquela poca. A primeira destruio de Leiria, que a histria do imperador
especificadamente narra, j vimos na nota XV que foi em 1137, quando, pelo
testemunho da Compostellana e pelo Tratado de Tui deste ano, sabemos que 
se fez a
paz entre o imperador e o infante depois da invaso da Galiza, intentada por 
instigaes
de Gomes Nunes e de Rodrigo Veloso.
Eodem tem pore venerunt. moabites et agareni super praedictum castellum
Erene, ceperunt que illud... ...Dum... ista gererentur imperator Iaciebat bellum in 
terra
regis Garciae, cepit que... comitem Latronem Nafarrum... Comes veto Latron 
Nafarrus,
dato imperatori juramento servivit ei multis anais... postquam pax Iacta est inter
imperatorem et comitep Latronem Nafarrum fuit bellum per aliquot annos inter 
regem
Garciam et tmperatorem... Ceterum in Portugali Ferdinandus Joannis... quotidie 
agebat
bellum contra regem... Ferdinandus praedictus cepit aliquos ex pnincipibus 
regis, ct
expoliatos magnis divitiis dimisit. Et factum est postquam haec gesta sunt 
imperator
ablit in Portugale. Segue-se a relao dos acontecimentos de Valdevez, 
sucedidos em
1140, segundo a Chronica Gothorum.
Vemos, pois, que os recontros de Fernando Anes com o infante no podiam
verificar-se seno nos fins de 1139 ou princpios de 1140, porque das palavras
postquam haec gesta sunt se v que  vinda do imperador precederam 
imediatamente
esses recontros, tendo o cronista narrado antes que a outra guerra entre 
Afonso VII e
Garcia (posterior a 1137), durara por alguns anos. Alm disso, no se 
podendo.266
atribuir estes sucessos aos primeiros sete meses de 1139 em que Afonso 
Henriques
preparava e empreendia a jornada do Alentejo, seria necessrio atras-los a 
1138, em
que nem nos monumentos de Espanha nem nos de Portugal se acha o menor 
vestgio de
cometimentos na fronteira de Galiza, antes vemos Fernando Penes, quer seja 
o de Trava,
quer o irmo do imperador, figurando na corte de Afonso Henriques e 
acompanhando-o,
talvez, ainda a batalha de Ourique (documento do Arquivo Nacional, 
Chancelaria de
Afonso IV, L. 2, f. 2, e Mao 12 de Forais Antigos, n 3, f. 62 v.). Como j 
notmos, a
notcia que teve Esmar de que o infante estava ocupado na Galiza (in partibus
Galleciae circa Tudem) em negcios de que se no podia desembaraar e o 
restituir
Afonso Henriques ao primo nas trguas de Valdevez os castelos que lhe tinha 
tomado
(Chronica Adefonsi Imperatoris, L. 1, c. 34) so dois factos que reciprocamente 
se
ilustram. A notcia recebida pelo chefe sarraceno era relativa, sem questo, a 
sucessos
posteriores  jornada de Ounique e, portanto, a guerra do prncipe dos 
portugueses com
o prncipe de Limis, sendo uma s, devia necessariamente ser uma invaso e 
tomada de
castelos na Galiza. As palavras quotidie agebat bellum da passagem que 
acima
transcrevemos mostram-nos que durou por algum tempo a guerra antes da 
vinda de
Afonso VII.
Pelo que respeita  destruio de Trancoso pelos sarracenos no podemos
entender como Brando a atribuiu ao ano de 1131. Pelo relatrio da fundao 
de
Tarouca, que nos transmitiu o sucesso, se v claramente que ele se deve 
lanar em 1140,
e nesse caso vem a prender-se com a entrada em que pela segunda vez Leiria 
foi
destruda, conforme refere a Chronica Gothorum. Naquele relatrio temos 
guia
seguro para a cronologia:  a carta de couto de Tarouca, transcrita a com a 
data de
Junho de l140, data exacta segundo verificaram Viterbo e Ribeiro (Elucidrio, 
T. 1, p.
324; Dissertaes Cronolgicas, T. 3, p. 119). Ora, o relatrio diz-nos que, 
voltando
Afonso Henriques de desbaratar os sarracenos que haviam assolado o distrito 
de
Trancoso, viera lanar a primeira pedra do mosteiro na presena de tropas e 
dera ento a
carta de couto. Logo este sucesso coincide exactamente com a destruio de 
Leiria.
Veja-se o dito relatrio no Apndice 16 da 3 Parte da Monarquia Lusitana, e 
nos
Portugaliae Monumenta Historica (Scriptores), Vol. 1, p. 89.
XVIII
AFONSO I TOMA O TTULO DE REI
Cingindo-nos aos documentos, vemo-nos constrangidos a colocar no ano de 
1140
o facto gravssimo de tomar Afonso Henriques o ttulo de rei. A opinio at hoje
recebida de que ele fora aclamado em Ourique encerra graves dificuldades, 
sendo a
primeira que no haveria meio algum srio de o provar a quem o negasse. 
Nenhum
diploma conhecido deste prncipe existe desde Julho de 1139 at Julho de 
1140
(Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, p. 119, n 361), tempo em que deviam 
ter-se
verificado os sucessos de Valdevez; porque j a 26 de Junho estava Afonso VII 
em
Zamora (documento da Espaa Sagrada, T. 22, p. 265). Dos particulares existe 
apenas
uma escritura do 1.0 de Outubro de 1139 em que  denominado infante 
(Dissertaes
Cronolgicas, T. 3, P. 1, n 358) e outra de 19 de Agosto desse ano em que 
tambm o
notrio lhe d o mesmo ttulo (escambo entre Egas Gonalves e Toda Egas, 
Tombo de
D. Maior Martins, no cartrio de Arouca, hoje no Arquivo Nacional, P. 1, 
documento
89). Isto quanto aos documentos; quanto, porm, s memrias histricas, 
nenhuma das
indubitavelmente coevas encerra a menor aluso donde se possa concluir que 
Afonso
Henriques fosse aclamado em Ourique. O monumento mais antigo em que 
temos.267
achado meno dessa particularidade  um extenso rolo de pergaminho do 
cartrio de
Palmela, contendo os artigos apresentados ao papa pela Ordem de Santiago 
em Portugal
para se desmembrar da de Castela (transcritos no Livro dos Copos, f. 53, alis 
80),
artigos oferecidos no tempo do mestre Pero Escacho (1316 a 1330). A se diz, 
que ...
D. Alfonsus I.us rex Portugaliae... in manu potenti conterendo sarracenorum 
barbanican
fenitatem in campo de Ourique a sitia nobilibus et aliis communitatibus in regem
assumptus est. Este documento posterior quase duzentos anos ao sucesso, 
se no serve
para a histria, serve para os amigos de tradies. Oferecemos-lho.  em 
especial digno
de notar-se que essa circunstncia de ser eleito rei se omita na Chronica 
Gothorum
enfeitada (exemplar de Resende), o que, sendo assaz adverso  verdade da 
tradio,
persuade que as adies feitas nesta cpia da crnica so anteriores ao sculo 
XIV,
alis, no escaparia ali a anedota da aclamao, que pelo documento de 
Palmela vimos
que j vogava no meado deste sculo.
A tais consideraes acrescem as probabilidades histricas. Se a batalha de
Ourique no teve nem as dimenses nem a importncia que se lhe atriburam,
desaparece todo o motivo racional de aclamao, quer antes, quer depois do 
recontro.
Alm disso, os sarracenos podiam disputar a Afonso Henriques o domnio de 
um ou de
outro castelo, de um ou de outro territrio, mas o ttulo de rei, de prncipe ou de 
infante,
decerto no, e por isso o resultado do combate nada tinha que ver com a 
questo poltica
da independncia. Pelo contrrio, em Valdevez o imperador achava-se a 
braos com o
infante, e a causa da guerra era talvez unicamente essa. As vantagens obtidas 
pelo
prncipe portugus ofereciam-lhe ensejo acomodado para lanar fora a 
mscara e
quebrar os derradeiros e tnues laos que o ligavam  coroa leonesa. 
Recordemo-nos de
que em 1138, usando j Afonso Henriques na maior parte de seus diplomas do 
ttulo de
prncipe, ao celebrar o Tratado de Tui, em Julho desse ano, o abdica para se 
intitular
infante (convenientia quam facit infans portugalensis cum A. Ispanie 
imperatore) e de
que, expedindo nesse mesmo ms, provavelmente ainda em Tui, o foral de 
Penda
(Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, p. 113, n 342), se limita igualmente ao 
primeiro
ttulo que adoptara. No nos indica isto que Afonso VII, quando era o mais 
forte, no
consentia a seu primo a denominao de prncipe dos portugueses, que, por 
isso
mesmo que era demasiado vaga, favorecia as suas pretenses? Parece-nos 
que
dificilmente se achar outra explicao queles documentos. Depois da jornada 
de
Valdevez, tomar Afonso Henriques o ttulo de rei era uma verdadeira reaco; 
era
anular ao mesmo tempo a letra e o esprito do tratado de 1137. Foi isto, por 
certo, o que
ele fez, se a harmonia dos documentos, das memrias coevas e de grandes 
probabili-dades
histricas tem alguma fora contra tradies assaz modernas em relao aos
tempos a que se referem. Um diploma original dos ltimos cinco meses de 
1139 em que
Afonso Henriques se denominasse rei destruiria a nossa opinio. As diligncias 
que
temos feito para o encontrar foram baldadas; outros sero, porventura, mais 
felizes.
No nos esquece o haver o autor das Dissertaes dado por suspeito o 
segundo
dos dois documentos que acima citmos. Fez mais: deu como tais todos 
aqueles em que
Afonso Henriques se denomina infante depois de Novembro de 1136. Num 
dos seus
primeiros trabalhos de crtica histrica tinha ele estabelecido como regra geral 
que o
filho do conde Henrique se intitulara infante de 1128 a 1136: desse ano at o 
de 1139
(batalha de Ourique) prncipe; desde esta poca em diante, rei. Posto 
semelhante
princpio  vista de um certo nmero de documentos, ele lanou na conta de 
suspeitos os
que fugiam a esta classificao e que no tinham outro motivo de suspeita 
seno modifi-carem
a regra. Sem que por isso desconsideremos as opinies do nosso mais ilustre
crtico, seja-nos lcito dizer que esta no nos parece admissvel. Ribeiro foi 
como o
chefe e guia da escola diplomtica e, convencido por diuturna experincia de 
que nos.268
nossos arquivos no faltam documentos forjados, mostrou-se por vezes severo 
de mais,
rejeitando como supostos ou duvidosos muitos que nada tinham contra si 
seno oporem-se
a opinies histricas geralmente recebidas. Aquele sbio era essencialmente o
homem da reaco contra os crendeiros e falsrios e, como todos os homens 
de reaco,
exagerou um tanto a crtica. No  evidente que, achando alguns, bem que 
raros,
diplomas anteriores a 1136 em que Afonso Henriques se intitula prncipe e 
bastantes
posteriores a essa poca em que se denomina infante, sem que contra a 
genuinidade
deles lhe ocorresse outra dvida, resultava da no o d-los por suspeitos, mas 
o alterar a
regra e reconhecer que o uso destas diversas designaes era modificado 
pelas
circunstncias? O que j acima advertimos mostra bem porque no foral de 
Penda
Afonso Henriques se intitula infante: assim para os outros dar-se-iam motivos 
anlogos.
Nesta matria mesma, Ribeiro reconheceu a possibilidade das variaes, 
aceitando
como genunos documentos particulares posteriores a 1131 em que  intitulado 
infante e
prncipe, quando, no s por outros documentos mas tambm pelo testemunho 
das
histrias coevas, sabemos que desde esse ano o povo lhe chamava 
geralmente rei. Ainda
depois de 1140 nos aparecem diplomas em que o novo monarca se diz 
Afonso rei,
prncipe dos portugueses (Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, n.os 368, 
371 e 408),
como se os notrios que os redigiram hesitassem sobre o verdadeiro ttulo do 
imperante.
A opinio que seguimos no texto, de que a designao de prncipe dos
portugueses no podia ser tomada pelo filho do conde Henrique seno como 
um meio
de transio entre a qualidade de infante, isto , de filho da rainha D. Teresa, 
e a
dignidade real, estribamo-la no sentido vago que se ligava ao vocbulo. De 
feito,
achamos este aplicado por aqueles tempos como um termo genrico aos 
indivduos que
exerciam algum poder pblico, bastando para o tomarem que fossem simples
governadores de distrito. Assim vimos que Fernando Anes era princeps Limiae 
e que
prncipes eram os bares de Portugal e os de Navarra (Chronica Adefonsi
Imperatoris, L. 1, c. 34 e 36). Gonalo Gonalves era prncipe (alcaide) do 
castelo de
Soure pelos anos de 1112 (Livro Preto, f. 116 v.), e, finalmente, para no citar 
uma
infinidade de documentos, tanto Afonso VI de Leo como seu genro, o conde 
Henrique,
foram chamados ao mesmo tempo prncipes (Dissertaes Cronolgicas, 1. 
3, P. 1,
n.os 122, 125, 130, 133, 145, etc.). De passagem observaremos aqui que o 
infante se
denominava de preferncia prncipe dos portugueses em ver de prncipe de
Portugal, preferncia que continua a subsistir depois de se intitular rei, sendo 
geral em
Espanha o costume de se chamarem os prncipes (governadores) ou os reis 
prncipes ou
reis de tal terra, distrito ou reino. No oferece este facto uma coincidncia 
singular com
a mudana feita depois de 1830 do ttulo real da nova dinastia de Frana, hoje 
expulsa?
Seria j no sculo XII, como no XIX, a qualificao de rei dos sbditos, em 
vez da de
rei da terra, uma condio dessa popularidade que actualmente dura to 
pouco?
Depois de escrita esta nota, recebemos a cpia do primeiro documento do 
Liber
Fidei, em que Afonso Henriques se intitula rei.  a doao da Ermida de 
Santa
Marinha de Panias ao presbtero Nuno Gonalves (Liber Fidei, f. 139 v.). Este
documento lana nova luz sobre a matria. O seu prembulo concorda com o 
dos trs
documentos de que Ribeiro duvidou (Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, 
n.os 368,
371 e 408) pela acumulao dos ttulos de rei e prncipe: Ego egregius 
rex
alfonsus gloriosissime yspanie imperatoris nepos et consulis domni henrici et 
tarasie
regine filius, dei vero providentia totius portugalensis provincie princeps, e, 
sendo
datado IV idus aprilis era MCLXXVIII, acha-se entre os confirmantes o irmo 
do
imperador Afonso VII, Fernando Furtado, o qual vinha no exrcito de Leo e foi 
um dos
prisioneiros em Valdevez. Portanto, o filho bastardo de D. Urraca s poderia 
confirmar
aquele diploma depois do recontro, ou quando se achava cativo no campo de 
Afonso.269
Henriques ou depois de congraados os dois primos, o que  mais provvel. 
Deste modo
o sucesso de Valdevez comea a aproximar-se de uma data precisa, pois 
ficamos
sabendo que precedeu a 10 de Abril de 1140.
Na nota (50), a pg. 437, aludimos ao documento de 30 de Maro de 1140
(Arquivo Nacional, Gav. 6, Mao nico, n 29), em que Afonso I se intitula rei, 
dando-o
por suspeito. Guiou-nos naquele lugar um corto apontamento que dele 
extraramos.
Examinando-o de novo no Arquivo Nacional, vimos efectivamente que lhe 
erraram a
data ao transcrev-lo na confirmao de Afonso II, porque nele figura j a 
rainha D.
Mafalda casada em 1146.
XIX
SUJEIO AO PAPA
Apesar de tantos escritos que possumos sobre a dificultosa cronologia da 
nossa
histria, o leitor tem visto quantas vezes ainda as opinies mais acreditadas se 
afastam
da verdade, at nas datas dos sucessos. O complicado negcio da 
confirmao do ttulo
de rei e da sujeio imediata  s apostlica, oferecida por Afonso Henriques 
para
firmar a separao de Portugal,  um dos factos mais obscuros e disputados na 
histria
daquele reinado. So os erros de datas uma das causas principais da 
obscuridade e das
disputas. Na carta de Lcio II, publicada por Baluzio (Miscelnea, T. 2, p. 221) 
do
arquivo da igreja rutenense (e no auscitana, como aponta J. P. Ribeiro) e por 
Viterbo
(Elucidrio, T. 1, p. 378) do arquivo de Braga, diz o papa que Afonso I fizera
homenagem ao seu predecessor Inocndo II nas mos de Guido, cardeal 
dicono, ento
legado naquelas partes (em Espanha). Se a carta de Lcio II  verdadeira (e 
logo
veremos que no h motivo suficiente para a supor falsa), devemos procurar 
uma poca
em que se realize a circunstncia de se achar Guido na Pennsula como legado 
de
Inocncio II e de ser ao mesmo tempo conjuntura prpria para Afonso 
Henriques dar
esse passo. Vejamos primeiro quais foram as legacias do cardeal de Vico, 
Guido, na
Espanha.
Sem discutir se o subdicono Guido, legado em Espanha em 1131, era o 
mesmo
Guido de Vico,  certo que este, j cardeal dicono, se achava aqui legado em 
1134
(Historia Compostellana, L. 3, c. 39 e 43), que estava em Roma no ano 
seguinte (ibid.,
c. 45) e que voltou  Pennsula em 1136. Celebrado em Outubro desse ano o 
conclio de
Burgos, de novo regressou a Roma, donde na Primavera de 1137 escrevia ao 
arcebispo
Gelmires (ibid., c. 49 e 50) e onde subscrevia nesse ano em Abril as letras 
apostlicas
(Ciacnio, Vitae Pontificia, T. 1, p. 987). Desde ento o nico legado que 
encontramos
na Pennsula at 1143  um outro Guido, no cardeal, mas bispo lascurrense 
(Historia
Compostellana, L. 3, c. 57, e Livro Preto, f. 235), vindo extraordinariamente em 
1138 a
convocar os bispos espanhis para o Conclio II lateranense celebrado na 
Quaresma de
1139 (Mansi, T. 21, p. 536). Por todo este perodo de 1137 at 1143 no s 
faltam abso-lutamente
notcias do cardeal Vico em Espanha, mas, ainda, achamo-lo subscrevendo
em Roma as bulas pontifcias nos anos de 1138, 40, 41 e 42 (Ciacnio, ubi 
supra).
Yepes (Crnica Beneditina, Vol. 7, Apndice, escrito 9) publicou um privilgio
dado ao mosteiro de Valparalso por Afonso VII, em cujo fecho se diz: Facta 
carta
donationis Zamore IV non. octob. tem-pote quo Guido romanae ecclesiae 
cardinalis
concilium in Valleoleti celebravit et ad colloquitmi regia Portugaliae com 
imperatore
venit. Era 1175. Deste documento deduziram Aguirre, Pagi, Mansi e os outros
colectores de monumentos eclesisticos a existncia de um conclio de 
Valhadolid de
1137 cujas actas se no podem encontrar. E como se encontrariam, se tal 
conclio nesse.270
ano  evidentemente um sonho? A data atribuda por Yepes ao privilgio de 
Valparaso
est errada. D. Toms da Encarnao colocou aquele conclio no ano de 1140 
(Histria
Eclesistica Lusitana, T. 3, p. 69) sem nos dizer porqu. J. P. Ribeiro inclina-se 
a esta
data (Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, n 344, nota), por se dar nele o 
nome de
rei a Afonso Henriques. Com efeito, como poderia Afonso VII chamar rei a 
seu
primo em 1137, quando ainda este se no arrogava tal ttulo? Mas no  s 
isto; o
privilgio de Valparaso  datado de 4 de Outubro, e a 10 deste ms de 1137 
estava
Afonso VII a cem lguas de Zamora nas margens do Ebro (documento em 
Colmenares,
Historia de Segovia, p. 122). Acresce que nesse privilgio se encontra entre os
confirmantes Petrus compostellanus archiepiscopus, e Diogo Gelmires viveu 
at 1139
(Espa6a Sagrada, T. 19, p. 327).
V-se, pois, que  indispensvel supor o conclio de Valhadolid posterior a 
1139.
No ano, porm, de 1140, Guido, que presidiu a ele, estava em Roma como 
vimos, e no
achamos memria daquele legado nos documentos de Espanha neste ano, 
nem nos dois
seguintes. Assim, como D. Toms da Encarnao no nos diz porque atribuiu a 
1140 o
conclio de Valhadoid, de que ningum faz meno nesta poca, para rejeitar a 
sua
opinio basta o infundado dela.
No Livro Preto da S de Coimbra, acham-se lanadas as actas de um conclio 
de
Valhadolid, celebrado anno ab incarnatione dominica MCXLIV pontificatus D. 
Pape
Innocentii secundi XIV. indictione... (6) presente D. Guidone sancte romane 
ecclesie
cardinali diacono, apostolice sedis legato. So estas sem dvida as clebres 
actas que
ningum pde encontrar, porque, colocado o conclio em 1137, era, como 
afirmmos,
um sonho. A sua verdadeira data do ano vem, portanto, a ser a de 1143 em 
Outubro,
admitindo que esteja certa a do ms na escritura de Valparaso. Dizemos 1143 
e no
1144, como  primeira vista parece no documento do Livro Preto, porque as 
variaes
com que se calculava o ano da encarnao (veja-se Dissertaes 
Cronolgicas, T. 2, pp.
10 e as.) consentem que se entenda tanto de um como de outro ano. O dizer-
se, porm,
que  o dcimo quarto de Inocncio II (corria de 15 de Fevereiro de 1143 a 15 
do
mesmo ms de 1144), supondo celebrado o conclio em Outubro, mostra que 
foi no ano
de 43.
A crnica de Yepes subministra-nos um documento decisivo (Vol. 7, escrito 9)
que  a doao feita por Afonso VII a Poncio de Cabrera do lugar de Moreruela 
para a
fundar um mosteiro. Esse documento, que se refere tambm ao conclio de 
Valhadoid e
ao colquio do imperador com o rei de Portugal, tem a data que 
estabelecemos.
Inocncio II faleceu a 24 de Setembro de 1143. Celebrado o conclio nos
primeiros quatro dias de Outubro durante este ms a sua morte era ainda
necessariamente ignorada em Espanha, e Guido cria presidir como legado de 
Inocncia,
quando, na verdade, j o era de Celestino II, eleito a 26 de Setembro. Note-se 
esta
circunstncia que adiante nos h-de servir.
Daqui se conclui que o encontro do imperador com Afonso I em Zamora no foi
nem em 1137 nem em 1140, mas em 1143. No temos testemunho preciso 
sobre os
resultados dessa conferncia em que interveio o legado; mas o documento de
Valparaso, o de Moreruela e o citado por Flores (T. 16, p. 206) autorizam-nos 
para dar
como certos dois factos: primeiro, que Afonso VII reconheceu o ttulo de rei 
tomado por
seu primo: os documentos publicados por Yepes so expressos nesta parte; 
segundo,
que o rei de Portugal, se no como monarca deste pas, ao menos em 
consequncia do
senhorio de Astorga (uma das cidades que pertenciam a seu pai pela cesso 
de D.
Urraca), continuou a ficar dependente do imperador, como se v da doao 
referida pelo
autor da Espaa Sagrada. O mais crivei  que Afonso Henriques, aceito por 
Afonso VII
o seu ttulo de rei, cedesse no ponto da independncia absoluta. O exemplo de 
Garcia de.271
Navarra, cujos direitos eram mais antigos e legtimos, e que por fim conviera 
em se
considerar como vassalo do prncipe leons, devia induzi-lo a sujeitar-se a uma 
situao
anloga. Sem isso,  incompreensvel como seu primo lhe concedesse o 
senhorio de
Astorga e, porventura, de outros lugares. O rescrito do papa Eugnio III citado 
no texto
confirma-nos na nossa conjectura, a qual temos por mais que provvel. Em 
Valdevez s
rigorosamente se haviam feito trguas, reservando-se para tempo mais 
oportuno a
concluso de uma paz definitiva: Fecerunt pacem inter imperatorem et 
regem, diz a
crnica de Afonso VII, non absolute sempiterne, sed per aliquot annis, et 
juraverunt
eam, ut iterum, dum pax esset firmius pacificarrentur, e pouco depois 
acrescenta:
Facta est pax inter iilos per multas annos. Aqui temos, pois, duas 
convenes
diversas: uma, por alguns anos: outra, posterior, por muitos. Em 1143 
tinham
decorrido alguns anos, e a prpria crnica, apesar de no nos dizer a data 
precisa da
final concrdia, harmoniza com os factos que resultam dos documentos. E 
porque no
se fez logo em Valdevez a paz definitiva?  evidente que havia condies para 
ela que
era necessrio discutir pausadamente, e estas no podiam versar, quanto a 
ns, seno
sobre dois pontos: o da vassalagem ou no vassalagem da coroa de Portugal  
de Leo,
e o das terras e senhorios que deviam considerar-se como pertencendo ao filho 
e
herdeiro de Henrique e Teresa. Se vemos que o imperador cedeu quanto ao 
ttulo de rei
tomado pelo primo e quanto a uma parte, ao menos, de senhorios a que 
Afonso
Henriques tinha at certo ponto direito, porque havemos de imaginar que este 
no
cederia da sua parte numa vassalagem mais de nome que de substncia? Um 
pundonor
nacional pouco ilustrado poder fazer inclinar  negativa; mas a razo 
desapaixonada e
fria persuade a conjecturar o contrrio. Que significa a homenagem feita 
imediatamente
pelo rei portugus ao papa nas mos de Guido?  claro que foi para quebrar 
outra que,
embora fosse pouco pesada, podia comprometer algum dia a independncia 
real dos
seus estados. Imaginar que Afonso Henriques se fez sbdito ou homem do 
papa por
simples devoo  conhecer bem mal as coisas e os personagens da Idade 
Mdia. Nos
exemplos que se podem citar de factos anlogos no se encontrar um s 
procedido de
simples e espontnea vontade. Esta deferncia para com a s apostlica 
nascia sempre
de uma necessidade ou convenincia poltica ou das pretenses dos prprios 
papas
apresentadas em conjunturas difceis. Era sempre uma nova dinastia que 
tentava
santificar a sua origem impura, um feudatrio (nos pases feudais) que sacudia 
o jugo de
suserano, um monarca electivo, cuja existncia poltica se acharia, sem a 
proteco de
Roma,  merc dos eleitores, um prncipe, enfim, que procurava defender-se 
com os
raios da Igreja contra os seus sbditos rebelados. E ainda que este carcter 
politicamente
hipcrita daquelas eras s teve completo desenvolvimento no tempo de 
Inocncio III,
lembremo-nos de que j no sculo VII Pepino, pai de Carlos, o Grande, 
buscava
legitimar a sua usurpao do trono de Hild-Rik, fazendo que o papa Zacarias
transferisse da raa dos merwings para ele o ttulo de rei.
Postos estes factos e estas datas, segue-se o examinarmos o carcter dos
documentos relativos  homenagem feita  s apostlica. A sua veracidade, 
impugnada
habilmente nos tempos modernos, parece-nos dever, apesar disso, ser 
admitida.
Determinada a primeira poca dos sucessos, as dificuldades que se opunham 
 aceitao
dos documentos em que se funda a histria dessa homenagem desaparecem 
em grande
parte. A carta de Afonso Henriques ao papa, que comea Claves regni 
coelorum,  o
primeiro monumento dos que chegaram at ns relativos quela homenagem. 
Esta carta
foi publicada por F. Bernardo de Brita (Crnica de Cister, L. 3, c. 4), causa 
principal do
seu descrdito; porque o falsrio, semelhante ao animal imundo, polui tudo 
aquilo em
que toca. Brando aceitou-a por genuna, reproduzindo-a (Monarquia Lusitana, 
L. 10, c.
10). Viterbo (Elucidrio, T. 1, p. 378) publicou-a de novo, extraindo-a do arquivo 
da s.272
de Braga e dando-a como verdadeira. Ultimamente, J. P. Ribeiro, numa 
dissertao
destinada a pulverizar a ridcula carta de feudo ao mosteiro de Claraval, 
incidentemente
combateu a genuinidade desta, persuadido de que fora fabricada para 
corroborar aquela
insigne impostura, devida  pena de Brito, de Lousada ou de algum outro 
mentiroso da
escola dos dois falsrios. Vejamos os argumentos em que se estriba a opinio 
de que
essoutra carta ao papa  igualmente forjada:
1 Diz-se que este diploma, dirigido a Inocncia II, fora extrado do regesto de
Lcia II. No  natural que, metendo-se de permeio entre Inocncia e Lcia o
pontificado de Celestino II, se lanasse no regesto de Lcia uma carta dirigida 
a
Inocncia;
2 Na subscrio do mesmo diploma, segundo a cpia de Brita, lia-se o nome 
de
Dominicus como bispo do Porto e, sendo a sua data de 1142 (Dezembro), 
naquela
conjuntura quem presidia na diocese do Porto era Pedro Rabaldiz, no 
havendo nunca a
bispo chamado Domingos;
3 Sendo a carta datada dos idas de Dezembro da era 1180 (ano 1142), na 
edio
de Baluzio supe-se dirigida, no a Inocncia, mas a Lcia II, e a resposta 
deste papa 
datada das calendas de Maio.  esta uma prova clara de falsidade. Lcia s foi 
papa de
12 de Maro de 1144 at 25 de Fevereiro de 1145. No se lhe podia, pois, 
escrever uma
carta em Dezembro de 42 e, supondo que se lhe dirigisse em Dezembro de 
1144, no
podia ele responder em Maio de 45, quando j era falecido;
4 A cpia de Braga, publicada por Viterbo, aparece com a data de 1181 (ano
1143), e confirmada por D. Joo, bispo de Coimbra. Neste ano ainda Lcia II 
no era
papa, nem D. Joo bispo de Coimbra, porque vivia D. Bernardo.
 vista destas contradies devem dar-se por esprias tanto a carta de Afonso
Henriques como a resposta de Lcia II, que pressupe a existncia dela.
Tais so as objeces feitas contra os dois documentos primordiais da 
homenagem
 s apostlica, as quais procurmos reproduzir com mais clareza, sem 
diminuir um
pice da sua fora. Alm destes dois diplomas, existe uma bula de Inocncia II 
que, na
Crnica de Cister e na Monarquia Lusitana, serve de resposta  carta do 
prncipe
portugus, em lugar da de Lcia II, que nem Brita nem Brando conheceram. 
Esta bula
 que nos parece indubitavelmente forjada, no s por se dar a a Afonso I o 
ttulo de
rei, contra a prtica uniforme da chancelaria romana, que sempre lhe atribuiu o 
de dux
at o tempo de Alexandre III, e por ser, como observa J. P. Ribeiro, 
evidentemente
tirada da bula deste papa Manifestis Probatum, mas tambm porque  
impossvel que tal
bula existisse se os factos passaram como ns os narrmos, o que fizemos 
sem hesitar,
porque entendemos que no podiam suceder de outro modo.
Deixamos provadas quatro coisas; primeira, que o cardeal Guido no voltou 
Espanha desde 1137, seno em 1143; segunda, que neste ano, por Outubro, 
foi
celebrado o conclio de Valhadolid, cujas actas se conservam no Livro Preto; 
terceira,
que Afonso VII reconheceu o ttulo de rei a Afonso Henriques nas vistas de 
Zamora;
quarta, que este aceitou a supremacia do primo, ao menos pelo senhorio de 
Astorga que
ele lhe concedeu.
Suponhamos por um momento a carta ao papa verdadeira e que a pretenso 
que j
houve de canonizar o nosso primeiro rei no fosse uma das mais bem 
fundadas.
Suponhamo-lo um pouco inclinado a iludir os tratados, quando essa quebra de 
f podia
contribuir para se consolidar a sua independncia absoluta. Guido assistiu  
conferncia
como legado do papa  do papa que dava e tirava coroas. Daqui a ideia da 
homenagem
nas mos de Guido. Era preciso um ttulo da sujeio, ttulo que o cardeal 
devia
apresentar em Roma. No  muito se gastasse pouco mais de um ms com 
este negcio.
A carta redigiu-se no 1.0 de Dezembro desse mesmo ano. A quem foi ela 
dirigida?.273
Questo de pouca monta. No a este ou quele homem oferecia prncipe 
submeter
os seus estados, mas sim  entidade papa; a S. Pedro, ento dizia; a uma 
potncia a
quem Afonso VII no ousasse disputar a supremacia sobre Portugal. Assim, 
dizia ele na
carta: Fiz homenagem nas mos do cardeal Guido a meu senhor e meu pai o 
papa, e
tambm ofereo a minha terra a So Pedro e  santa Igreja Romana; e mais 
abaixo:
De modo que no receba nunca na minha terra o jugo (potestatem) de 
nenhum domnio
eclesistico ou secular seno o dos delegados da s apostlica enviados por 
ela.
Na ocasio da homenagem e naquela em que esta carta se escrevia, pocas
diversas, segundo se v das palavras feci, offera, era j Celestino II pontfice; 
mas a
morte de Inocncio II ainda, ao fazer-se a carta, era provavelmente 
desconhecida em
Portugal. Por mar no  crvel viesse a notcia no corao do Inverno, num 
sculo cru
que a arte de navegar estava na infncia; por terra, s dificuldades ordinrias 
do trnsito,
 falta de postas ordinrias ajuntava-se o rigor da estao. As relaes entre 
Roma e o
Ocidente da Espanha deviam ser forosamente tardias. Pelo menos a 
homenagem foi
sem questo feita a Inocncia II crendo-o vivo, a supormos este acto praticado 
poucos
dias depois da conferncia de Zamora, o que  necessrio admitir dizendo 
Afonso
Henriques no 1 de Dezembro: Fiz homenagem.
Guido demorou-se na Espanha durante ao menos uma parte do curto 
pontificado
de Celestino II.  o que se deduz de uma carta deste papa ao arcebispo de 
Toledo
(Aguirre, T. 5, p. 59), e dos documentos do Livro Preto (f. 235 e 235 v.) em que 
se v
fazer ele em Roma confirmar por Lcia II a soluo que dera em Portugal 
como
legado de Inocncia II s questes que se agitavam entre os bispos do Porto 
e de
Coimbra.  por isso de crer que ele s viesse a apresentar a carta de Afonso I 
(dirigida a
Inocncia II em Dezembro de 1143, porque se ignorava o seu falecimento) ao 
novo
pontfice que sucedera a Celestino II em Fevereiro de 1144. Nada mais fcil 
que, ao
lanar-se no regesto de Lcia II aquela declarao de homenagem, reduzirem 
a direco
dela ao papa que efectivamente a recebera, at porque, sendo datada do 1 de 
Dezembro
de 1143, no condizia tambm com o pontificado de Inocncia, o que de certo 
modo
autorizava a alterao.
Assim desaparece o motivo de suspeio resultante de se achar lanada a 
carta do
rei dos portugueses no regesto de Lcia II e igualmente a dificuldade de 
conciliar as
datas. Este papa podia responder em Maio de 1144 a uma carta datada de 
Dezembro de
1143, apesar de ser escrita para um seu antecessor. Fora um homem que 
morrera e no o
papado, e era a este, era  entidade moral, o papa, que Afonso se dirigia.
Note-se agora que as duas cpias mais seguras deste documento lhe atribuem 
a
data de Dezembro de 1181 (ano 1143).  a primeira a de Braga, tirada do 
prprio
regesto de Lcia II e examinada por Viterbo;  a segunda a que foi remetida ao 
Arquivo
Nacional em 1841 pelo Sr. Visconde da Carreira, passada por certido, 
juntamente com
a resposta de Lcia II, do apgrafo autntico do regesto de Inocencio IV, que 
as mandou
trasladar a instncias do arcebispo de Braga e munir com o prprio selo, no 
para que
tivessem mais autoridade do que deviam ter, mas para dar testemunho, ele 
papa, de que
eram autnticas: Non ex hoe auctoritatem eis aliam impendentes, nisi quod 
eas esse
authenticas perhibemus. Deste modo, Inocncia IV confirma e explica o que j
Inocncio III asseverava na carta a Sancho 1, que comea: Serenitatem 
regiam
(Baluzio, Epistolrio de Inocncio III, L. 1, epstola 99, T. 1, p. 54), isto , que 
dos
regestas pontifcios constava que Afonso I fizera o seu reino censual  s 
apostlica, e
isto, segundo Inocncio III, no tempo de Lcia II.
Mostrmos acima que no regesto deste papa se podia lanar a carta como 
dirigida
a ele, ao passo que no autgrafo se mencionava Inocncia II. Assim as cpias 
deviam
variar, conforme fossem extradas do regesto ou do original, que 
provavelmente existiu.274
por muitos anos e, talvez, ainda exista nos arquivos apostlicos, que no  
permitido
examinar.
Os que se ativerem  opinio de Ribeiro diro que isto so conjecturas. Mas 
so
conjecturas que se estribam em factos seguros e a que ele no atendeu. Pelo 
contrrio,
para admitir que  falsa a carta cumpre no fazer conjecturas verosmeis, mas 
supor
quase um milagre. Que ela no foi fabricada pelas falsrios do sculo XVI  
evidente.
Existe no regesto de Inocncio IV, que vivia no sculo XIII: existe em cpias 
antigas
nos arquivos bracarense e rutenense. Como se multiplicou este documento por 
to
diversos lugares, a cr-lo forjado, e, sobretudo, como cr-lo forjado em tempos
modernas? Ou mentem todas os documentos incontroversas pelos quais se 
conhece que
Portugal pagava ou devia pagar um censo  s apostlica desde o tempo de 
Lcia II, ou
este censo se estribava nalgum ttulo. Se recusamos aquela carta, aonde 
vamos buscar
outro?  o que valeria a pena de se nos dizer, ainda que no fosse mais do 
que por
conjectura.
Resta a dificuldade de se lerem variamente entre os bispos confirmantes os 
nomes
dos bispos da Porto e Coimbra, mas estes nomes facilmente se podiam alterar 
nas cpias
achando-se escritas s pelas iniciais. Alm disso, sendo tantos os traslados e
encontrando-se certos esses nomes num ou noutro deles,  necessrio 
acreditar que a ser
o diploma forjado e hav-lo o falsria feito depositar em to diversas arquivos, 
era um
mentecapto para assim pr essa variedade de bispos confirmantes, quando 
sabia quais
eram os verdadeiros. Do mesmo modo o era, se fez a seu bel-prazer as 
variantes que se
encontram no texto da carta. E se nas dizem que essas variantes nasceram 
dos copiaras,
ento o argumenta que delas se tira  de todo inconcludente; porque, se os 
copistas
podiam alterar um documento suposto, no poderiam tambm alterar um 
verdadeiro?
Baluzio publicou a carta de Lcio II em que este papa aceitava a homenagem
oferecida a Inocncia II e a promessa, feita por escrito e por boca do arcebispo 
de Braga
a ele, Lcio II, de pagar o censo anual das quatro onas de ouro. Ribeiro 
parece hesitar
na condenao deste documento; mas, levado pela torrente das suas ideias, 
rejeitou-o
afinal por dois fundamentos especiais, mas principalmente por ser correlativo  
carta de
Afonso I, cuja falsidade se persuadia ter provado. Vejamos agora quais so os 
dais
motivos especiais da rejeio:
1 Diz o papa que o rei, entretido com a guerra dos infiis e com outros 
negcios
seculares, no pudera ir a Roma e por isso fizera a homenagem nas mos de 
Guido.
Deduz daqui o autor das Dissertaes Cronolgicas que, a ser este documento
verdadeiro, ele se referiria no  carta que existe, mas a outra em que. Afonso 
Henriques
se desculpasse de no ir fazer homenagem a Roma. Pois esta desculpa no 
podia ser
dada de viva voz pelo prprio Guido ou pelo arcebispo de Braga, que na 
mesma
resposta do papa se diz ter ido naquela conjuntura a Roma e renovado os 
protestas de
sujeio? Parece-me este argumento abaixo da lgica severa de J. P. Ribeiro;
2 A frase de Lcia II terram tibi a Deo commissam, falando de Portugal,
pertence a sculos mais iluminados, se  que no alude  apario do campo 
de Ourique,
o que seria uma prova da falsidade do documento.
Ns no vemos naquelas palavras a menor aluso  temerria impostura do
documento da apario; vemos sim uma frase prpria para incutir a ideia de 
que Deus
era quem dava as coroas da Terra e de que, senda o papa o seu vigrio, a ele 
pertencia o
ser executor da vontade suprema. Neste sentido, semelhantes palavras, longe 
de
pertencerem a tempos mais iluminados, pertencem quela poca e muito a ela. 
Em
grande nmero de bulas ou cartas expedidas desde o pontificado de Gregrio 
VII at o
de Inocncio III se lem expresses equivalentes a estas, e em algumas quase
exactamente as mesmas. Tais so as de Gregrio VII ao rei da Dinamarca 
(Mansi, T. 20,.275
p. 244): Monemus... ut tibi cammissi a Deo regni honarem... custodias; a de
Inocncio III a Henrique de Inglaterra (ibid., T. 21, p. 424): Expedir ut regno, 
sive
ducatu, a divina dispositione tibi commisso... ; e a de Eugnio II a Afonso VII, 
que fica
citada no texto (id., ibid., p. 672): Justitiam regni tibi a Domino commissi. 
Assim as
palavras notadas na carta de Lcia II como provando a sua falsidade tendem, 
pelo
contrrio, a mostrar que  genuna.
Quando um homem coma J. P. Ribeiro no achou melhores provas contra a
genuinidade daquele documenta que as acima refutadas,  que na realidade 
no as havia.
Cegava-o o desejo de demonstrar a impostura da carta de feudo a Claraval, e 
por isso
combateu tudo o que lhe parecia ter correlao com ela. No era, porm, 
necessrio
tanto. As aluses ao aparecimento de Ourique, os confinantes, o estilo e os 
caracteres
extrnsecas do diploma bastavam para o condenar, no menos que a 
imaginria carta de
Inocncio II a Afonso I, que na verdade tem todas os sinais de ser forjada, 
como j
advertimos.
Na mesma Dissertao em que se impugnaram as cartas de Afonso 
Henriques e
Lcia II foi posta em questo a afirmativa de Inocncio III (bula Serenitatem 
Regiam)
de que at o tempo de Alexandre III o nosso primeiro rei fora tratado pela ttulo 
de
duque (Pater tuus usque ad tempora felicis memoriae Alexandri papae... ducis 
esset
nomine appellatus). Aproveitaremos esta nota para ilustrar esse ponto, em 
que tambm
J. P. Ribeiro nos parece ter-se afastada um pouco da sua natural exaco e 
critrio.
1 Diz ele que Inocncio III afirma expressamente que Afonso I s usou do
ttulo de dux at o tempo de Alexandre III.
Inocncio III no afirma tal: o que certifica  que o prncipe portugus fora
tratado pelo ttulo de duque. Tratado por quem? Pela corte de Roma. Era isto 
o que,
como logo veremos, Inocncia tinha razo para assegurar;
2 Os diplomas do reino  que nos podem indicar o ttulo de que usava Afonso
Henriques, e no o testemunho de Inocncio III. Os diplomas portugueses 
podem
mostrar-nos o ttulo que a si atribula o prncipe; mas aquele com que era 
tratada
melhor o podia dizer Inocncio III, que tinha  vista os regestos dos papas seus
antecessores, tanto mais que a validade do ttulo real s a podiam dar os 
pontfices,
segunda estes o criam, e no menos o crera Afonso I, que tantos anos 
diligenciou obt-lo
de Roma;
3  notvel que o ttulo de dux s aparea em um documento do governo do
nosso primeiro rei, e esse anterior ao ano de 1140.
Esta proposio  ambgua. Tomada em relao aos diplomas expedidos pelo
prncipe,  exacta. Tomada em relao a todas os documentos dessa poca,  
falsa. Os
papas efectivamente lhe chamavam dux depois de ele tomar o ttulo de rei. 
Daremos
alguns exemplos.
Bula de Lcia II de proteco ao Mosteiro de Santa Cruz: Quicquid etiam
Alfansus iflustris dux portugallensis... vobis concesserit (Livro Preto, f. 245 v.).
Carta de Eugnio III a Afonso VII, citada no texto e anteriormente nesta nata:
Quod a portugallensium duce nos aliquid recepisse (Mansi, T. 21, p. 672).
Bula de Alexandre III: VI cal. aprilis indictione XI incarnat. domin. 1163, de
proteco a Alcobaa, confirmando-lhe em especial a posse daqueles bens, 
que
Alfonsus portugallensis dux una cum Mahalda uxore sua... concessit (cartrio 
de
Alcobaa, na Arquivo Nacional).
Eis aqui, pais, como por todo o perodo decorrido desde que Afonso Henriques
tomou o ttulo de rei at que Alexandre III lho confirmou (1179), a chancelaria 
romana
no lhe deu seno o de duque, em conformidade com o que posteriormente 
afirmava
Inocncio III..276
XX
LTIMOS VESTGIOS
DAS PRETENSES DE AFONSO VII
O que dizemos no texto como simples conjectura  o nico meio de explicar e
concordar uma passagem de Rodrigo de Toledo e outra do rescrito de Eugnio 
III a
Afonso VII que comea: In pastaram specula com a matria da nota anterior, 
a qual,
assim entendidas, confirmam e ilustram. Hic pnimus, diz o arcebispo, in 
Portugallia
sibi imposuit nomen regis, com pater ejus comes et ipse dux antea dicerentur et 
ab
Eugenia papa III, cui regnum suum constituit censuale, multa privilegia et 
indulgentias
imperavit. No rescrito l-se a seguinte passagem: Petitiones tuas (de Afonso 
VII) pra
expeditione contra infidelium tyrannidem facienda, libenter admisimus: et ad 
hoc ipsum
faciendum lo posterum com honore Domini paternae sumus caritatis debito 
preparati.
Dignum est igitur de caetero ut a querimonia tua desistas: in eo videlicet, quad 
a
portugallensium duce... e o mais que fica citado a p. 346 (nota 2).
V-se destes extractos que no tempo de Rodrigo de Toleda, isto , menos de 
um
sculo depois do facto, se cria em Espanha que fora a Eugnio III que Afonso 
Henriques
fizera a homenagem, o que mostra, quanto a ns, que nesta conjuntura  que 
se divulgou
a existncia do acto praticada anos antes. Parece tambm deduzir-se da que o 
rei por-tugus
obtivera de Eugnio novas concesses e privilgios dos quais j no existem
documentos, se no  que Rodrigo de Toledo atribua tambm a carta de 
proteco de
Lcia II a Eugnio. Por outra parte, da resposta do papa ao imperador se colhe 
que este
requeria dele alguma coisa concernente a servio militar contra os sarracenos. 
Ao
perodo em que se alude s pretenses sabre este objecta parece ligar-se o 
perodo
seguinte pela palavra igitur. Sendo assim, aquela petio do imperador sabre 
servio
militar era relativa a Afonso Henriques, quer fosse como rei de Portugal, quer 
coma
tenda tia coroa leonesa o senhorio de Astorga. Nada mais natural, portanto, do 
que
imaginar que, exigindo tal servio de Afonso I, este o recusasse com o pretexta 
do
preito que fizera  s apostlica, e que ento Afonso VII levasse o negcio a 
Roma,
negcio que devia fazer rudo e gerar a tradio que nos transmitiu Rodrigo de 
Toleda.
 provvel que com a recusao do rei de Portugal o imperador a privasse do 
senhoria
de Astorga; parque nenhuns vestgios mais se encontram de que Afonso 
Henriques ali
continuasse a dominar.
XXI
TOMADA DE SANTARM
A Noticia da Tomada de Santarm publicada por Brando foi condenada como
supositcia pelo critico frei Joaquim de Santo Agostinho (Memrias de Literatura 
da
Academia, T. 5, p. 316) com dais fundamentas: primeiro, por ser escrita no fim 
de um
cdice antigo com letra do sculo XVI e junto de outros documentos provados 
falsos;
segundo, por ser (quanto a ele) incerta a data da tomada de Santarm, 
colocando-a a
notcia em 1147, com a particularidade do ms e dia (Maro, 15). Destas 
razes a
segunda  inteiramente ftil. As provas de que Santarm se tomou em 1147, e 
com
probabilidade em Maro, acham-se solidamente estabelecidas por Brando 
(Monarquia
Lusitana, P. 3, L. 10, c. 24). Que importa, pois, que documentos suspeitas ou 
escritores
mais recentes variem na data, se esta concorda com a verdade? Estribar-se 
aquele.277
crtico, para provar a incerteza da ano, na crnica cisterciense de Montalvo, 
que atribui
a conquista a 1144,  na verdade extraordinrio. Os nicos dois historiadores 
quase
coevos do sucesso que Mantalvo cita em abono da sua opinio so Lucas de 
Tuy e
Rodrigo Ximenes, em cujas crnicas ele, crtico, podia facilmente verificar que
Montalvo fizera duas citaes falsas, vista que nenhum assinala a data da 
tomada de
Santarm, e Lucas de Tuy nem sequer particulariza este acontecimento. O 
primeiro
fundamento para duvidar da genuinidade da notcia seria mais atendvel se 
fosse exacto.
No cdice 207 de Alcobaa, hoje na Biblioteca Pblica de Lisboa, h coisas de 
mo
muito mais moderna, mas nem a narrativa da tomada de Santarm nem o 
poema de
Gosuno o so. Assim as consideraes de frei Joaquim de Santo Agostinho 
carecem de
fundamentos razoveis. Veja-se o que dizemos acerca desta relao a p. 93 
dos
Portugaliae Monumenta Historica (Scriptores), Vol. 1.
O que poderia produzir suspeitas, se j no existisse o cdice 207 de 
Alcobaa,
seria a correco comparativa da frase latina em que est escrita a narrativa. 
Mas essas
suspeitas seriam destrudas, quando no nas restasse seno uma cpia 
moderna deste
monumento histrico, pela concordncia dele com outros monumentos daquela 
poca
recentemente descobertos e, portanto, desconhecidos dos falsrias do sculo 
XVI. Tais
so o modo e particularidades do cometimento, que a se fazem proceder de 
um plano
previamente assentada, o que concorda com o sistema que, segunda o 
testemunha de Ibn
Sahibi s-Salat, de que noutro lugar do texto fazemos meno, Afonso I seguiu
constantemente, atacando os castelos sarracenos. Alm de concordar com o 
autor da
Vita S. Theotonil, publicada pelos bollandistas e mais correctamente nos 
Portugaliae
Monumenta Historica (Scriptores), Vol. 1, p. 79, no essencial de ser Santarm 
tomada
por estratagema, temos disso documenta indisputvel numa doao de Sancho 
I aos
cavaleiros de Santiago (cartrio de Palmela, no Arquiva Nacional, documenta 
original):
De ilha nostris domibus in quibus facta est turnis, per quam pater meus rex 
Domnus
Alfansus, felicis memonie... Sanctaren furtive intravit.
Uma das circunstncias que mais contribuem para dar  memria de Alcobaa 
um
carcter de verdade  o depreender-se do seu contexto que foi no a povoao 
mas o
castelo o ponto acometido na noite de 15 de Maro. O lugar por onde os 
portugueses
avanaram naquela arriscada noite indica-o bem, mas ainda melhor o dividir o 
rei a sua
gente e o enviar um troo a impedir o socorro externo do arrabalde de 
Seserigo: Ut
praeoccupet callem, qui venit de Setenigo (alis Seserigo) ne portae additus ab 
ilha
praeoccupetur. Edrisi diz-nos (verso de Jaubert, Vol. 2, p. 29): Chantarin est 
une
ville btie sur une montagne trs haute, au midi de laquelle est un vaste 
enfoncement. Il
ny a point de murailles, mais au pied de la montagne est mi faubourg bti sur le 
bord
du fleuve. Este bairro ou arrabalde, hoje a Ribeira, pelo nome que lhe d a 
memria de
Alcobaa,  o mesmo a que ela alude. A denominao de Seserigo dada  
Ribeira de
Santarm aparece num documento dos templrios de 1159 (Elucidrio, T. 2, p. 
357) e
ainda no Cancioneiro do Colgio dos Nobres:
Ai senterigo, ai senterigo!
Ai  Alfanx, e ai Sesenigo.
Esta palavra  derivada de Sessega, que parece significar, no qualquer 
assento ou
plancie (como interpreta Viterbo, mas especialmente o terreno  borda de um 
ribeiro ou
rio, prprio para construir azenhas (documento no Elucidrio, verbete 
Sessega, e no
Direito Enfitutico de Lobo, Apndice, pp. 80 e 90), nem sabemos em que se 
funda a
extraordinria significao que J. P. Ribeira d a este vocbulo (Dissertaes
Cronolgicas, T. 4, P. 2, p. 133); ns, pelo menos, nunca em tal sentido a 
encontrmos..278
A comparao do diploma de Sancho I que acima citmos, do cartrio de 
Palmela,
com os artigos oferecidas pelos freires de Portugal para obterem separar-se do 
mestrado
de Castela (Livro dos Copos, ff54, alis 84) prova de modo indisputvel que foi 
a
alcova velha ou castelo mourisco, e no a vila, o ponto atacado. Aludindo 
quela
doao de D: Sancho, dizem os freires: Concessit dieta ordini fortellitium com 
turre et
domibus alcaceve veteris castri Sanctaren, per quem locum idem castrum fuit
recuperatum a sarracenis. Os freires deviam saber onde era a propriedade 
que
possuam, e Sancho I o lugar por onde seu pai acometera o castelo.
XXII
FONTES HISTRICAS SOBRE A TOMADA DE LISBOA
As fontes legtimas para a histria desta expedio dos cruzados e tomada de
Lisboa aos sarracenos, saa:
1 Crucesignati Anglici Epstola de Expugnatione Ulisiponis, citada com outro
ttulo por Cooper (On Public Records, T. 2) e publicada ultimamente a p. 392 
das
Portugaliae Monumenta Historica (Scriptores), Vol. I.  obra de testemunha 
ocular, e
sem comparao a mais circunstanciada e importante narrativa do sucesso. 
Seguimo-la
principalmente;
2 Epistola Arnulfi ad Milonem Episcopum Morinensem, apud Martene, Veteres
Scriptores et Monumentor. Ampliss. Collectio, T. 1, p. 800.  testemunha ocular 
dos
sucessos da expedio, da qual fez parte. Narra algumas particularidades 
desta
conquista;
3 Dadequino, Appendix ad Mariani Scoti Chronicon, apud Pistnio, Illustr.
Veteres Scriptores (Francoforte, 1613), T. 1, pp. 473 e 474.  tambm 
testemunha
ocular. Refere o sucesso mais sucintamente que Arnulfo;
4 Helmoldo, Chronica Slavorum seu Annales (Francoforte, 1581, fol.), L. 1, c.
49. Autor contemporneo (obiit anno 1170, Cave, Scriptores Ecclesiasticor. 
Hist.
Litter., Vol. 2, p. 237).  por isto, e por algumas circunstncias que relata, 
assaz
importante;
5 Chronica Gothorum, na Monarquia Lusitana, P. 3, L. 10, c. 28. Aponta
apenas o facto e a sua data. Mais extensamente no exemplar parafraseado de 
Resende,
ibid., Apndice, escrito I. Melhor nos Monumenta (Scriptores), Vol. I, p. 15;
6 Crnica Lamecense, nas Dissertaes Cronolgicas, T. 4, P. 1, p. 174.
Melhor nos .Monumenta (Scriptores), Vol. I, p. 20. S o sucesso e a data;
7 Crnica Conimbnicense, na Espa,1a Sagrada, T. 23, p. 330. Melhor nos
Monumenta (Scriptores), Vol. I, p. 2. O mesmo que o antecedente;
8 Roberto de Monte, Appendix ad Chronographiam Sigeberti, apud Pistrio, T.
1, p. 628. Contm algumas particularidades interessantes. Vivia este escritor 
pelos anos
de 1210, segundo alguns; mas a opinio mais segura  a de ter falecido em 
1186 (Cave,
ob. cit., Vol. 2, p. 285). Assim, foi coevo;
9 Henrique de Huntingdon, Historiar. Lib. 8, apud Savile, Rer. Anglicar.
Scriptores post Bedam, p. 394 (claruit anno 1150, Cave, ob. cit., p. 225).  
mais breve
que Roberto de Monte; mas no deixa de merecer ateno, sobretudo por ser
perfeitamente contemporneo;
10 Rogrio de Hoveden, Annalium Pars Prior, apud Savile, pp. 489 e 490
(claruit anno 1198, Cave, ob. cii., p. 255). No fez mais do que copiar, at 
nas
miosinas circunstncias, os outros cronistas (Lappenberg, Geschichte vais 
England, 1 B.
Litter, Einleitung 5. 61). Nesta parte seguiu  letra Henrique de Huntingdon; 
mas v-se.279
que no cdice de que se aproveitou lia-se civitatem... Ulixbona, et aliam quae 
vocatur
Almade, enquanto no texto impresso de Henrique de Huntingdon se leu 
erradamente
Almaria;
11 Joo Brompton, Chronicon, apud Twysden, Hist. Anglicae Scri piores, x, p.
1035 (claruisse videtur circa annum 1198, Cave, ob. cit., p. 254). Lappenberg 
diz que
viveu no sculo XIV: mas que a obra que se lhe atribui  talvez dum escritor 
mais
antigo (ob. cit., Einleitung 5. 69). Quase coma Rogrio de Hoveden, copia 
apenas
Henrique de Huntingdon;
12 Joo, prior de HagustaId, Continuatio Histor. Simeonis Dumelmensis, apud
Twysden, ob. cit., p. 277 (vivia pelos fins do sculo XII; veja-se Selden, De 
Scriptor, a
Twysdeno editis, p. XXVI). Alude ao sucesso;
13 Vita S. Theotonii, apud Bailando, Acta Sanctor. Februarii, T. 3, p. 116, 
cal.
2, e melhor nos Monumenta (Scriptores), Vol. 1, p. 79. Como se depreende da 
sua
narrativa, o autor foi contemporneo do acontecimento, ao qual apenas alude 
como o
precedente escritor;
14 Indiculum Fundationis Monasterii B. Vincentii Ulixbone. Manuscrito do
cartrio de So Vicente, no Arquivo Nacional. Foi publicado por Brando, 
Monarquia
Lusitana, P. 3, Apndice, escrita XXI, substancialmente errado. Publicada
correctamente nos Monumenta (Scriptores), Vol. I, p. 92. Tm-se oferecido 
algumas
dvidas sobre a sua autenticidade. O que se pode ter por certo  que ou no foi 
escrita
nos primeiros anos do reinado de D. Sancho I, como a se indica, ou que  uma 
cpia
tirada posteriormente, o que nos parece mais provvel  vista das ponderaes 
que
vamos fazer acerca desta memria, a mais particularizada de todas, salvo a 
carta do
cruzada ingls e a carta de Arnulfo ao bispo morinense.
Em primeiro lugar cumpre advertir que o transunto publicada por Brando est
cheio de erros intolerveis, sendo provavelmente tirado por mo imperita. 
Assim (por
no falarmos em muitas palavras trocadas ou deturpadas), onde se lia a data 
da tomada
de Lisboa bem claramente por estas palavras anno igitur ab incarnatione 
Dominica
MCXXXXVII puseram 1148. O nmero das velas da armada estrangeira, que 
o
manuscrito diz ser de cento e noventa ficou reduzida a cento e sessenta por 
no saberem
que x aspado valia quarenta. Daqui fcil  conceber qual seja a imperfeio da 
cpia
impressa por Brando.
Posto que a memria parea indicar que foi escrita no ano terceiro de Sancho 
I,
o que l no se acha  o ano de 1188, que logo segue na edio junta  
Monarquia
Lusitana, mas sim o de 1148, data evidentemente errada, porque neste ano 
ainda D.
Sancho nem sequer era nascida, tendo-se emendado no transunto comunicada 
a Brando
48 em 88 para coincidir com a data do reinado.  deste erro evidente do 
manuscrito,
sem atender aos seus caracteres paleogrficos, que se deduz ser ele apenas 
uma cpia;
porque no  provvel que no original se errasse a data do ano da encarnao, 
corrente
na acto de se escrever a memria.
Mas o que de todo acaba de persuadir isto mesmo  a letra em que ela se acha
escrita. Os palegrafas sabem que os caracteres franceses, que comearam a 
vagar mais
entre ns desde o meado do sculo XII, diminuram sucessivamente em 
grandeza no
reinado de Sancho I e chegaram a ser s vezes minutssimos, j no tempo de 
Afonso II,
Sancho II e Afonso III. Mas, em geral, os diplomas dos primeiras anos de 
Sancho I so
ainda escritos em grandes caracteres, sem diferena sensvel dos de Afonso I. 
A letra,
porm, do manuscrito de So Vicente  semelhante em grandeza, em forma, 
em tudo, 
da volume da Chancelaria de Afonso II que nos resta (Mao 12 de Forais 
Antigos, n. 3)
e, ainda, aos volumes das inquiries do mesmo Afonso II.
Assim, o mais provvel  que a memria como existe seja uma cpia feita 
neste.280
ou no seguinte reinado, parque  sabido que s pela letra no  possvel 
determinar com
preciso a data dela;
15 As crnicas de Guilherme de Nangis e de Nicolau Trivett (apud Achery,
Spicilegi um, T. 3, pp. 7 e 147) narram igualmente a tomada de Lisboa; mas, 
sendo
ambas do sculo XIV, pouca autoridade tm acerca do sucesso. Guilherme de 
Nangis
parece ter seguido Roberto de Monte, e Trivett, Henrique de Huntingdon.
A carta de Dodequino citada por Schaefer (Geschichte von Portugal, 1 B., 5. 
64)
deve ser interessante, mas no pudemos consultar a obra de Gercken Reise 
durch
Schwaben, onde vem transcrita.
XXIII
CIRCUNSTNCIAS DA TOMADA DE LISBOA
Narrando a conquista de Lisboa cingimo-nos, quanto s circunstncias do 
assdio,
 carta da cruzado ingls,  de Arnulfo,  crnica de Dodequino e ao Indiculum, 
nicas
autoridades que nos era lcito seguir. Os nossos historiadores narram 
particularidades
diversas. Tais so o combate na ponte de Sacavm entre os cristo e cinco mil
sarracenos que vinham de Tomar, Torres Novas, Alenquer e bidos em 
socorro de
Lisboa; a morte de Martim Moniz entalado na porta setentrional do castelo, por 
ande os
portugueses acometeram e entraram na povoao, etc. Todas estas 
circunstncias tm
parecenas de famlia com as mais fbulas que deturpam a nossa histria. 
Nenhum
escritor ou documenta contemporneo alude a semelhantes sucessos, e nos 
mesmas
sucessos est a sua refutao. O combate de Sacavm, em que figuram 
mouras de
Tomar,  relatada em certa memria das fins do sculo viu (Monarquia 
Lusitana, P. 3,
L. 10, c. 27), onde os erros grosseiros de histria so quase tantos como as 
palavras, e a
faanha de Martim Moniz no tem melhor abonador que uma frase vaga do 
Livro das
Linhagens, atribudo ao conde D. Pedro (tit. 53), Babel de quantos contos 
absurdos se
foram forjando durante a Idade Mdia, do fim da qual data o mais antigo 
manuscrito
completo que dele possumos, e em que so visveis as alteraes e cerzidos 
de diversas
pocas. Basta examinar a topografia do actual castelo de Lisboa para ver que 
um ataque
por aquela parte, se no era impossvel, ao menos fora loucura, descendo as 
muralhas da
cidade em duas linhas quase perpendiculares sobre o Tela e partindo do 
poente e oriente
do erguido monte da kassba, que, se hoje  despenhada para o lado do norte, 
muito mais
o devia ser ento. O simples senso comum nos persuade o mesma que as 
memrias
contemporneas referem, isto , que os assaltos foram dirigidos contra os 
lanos dos
muros mais acessveis. Se, com uma larga brecha, aberta no stio mais baixo 
da
povoao, os alemes e flamengos foram repelidos, como acreditar que, 
trepando por
um despenhadeiro e indo acometer o ponto mais fortificado e melhor 
defendida, como
sempre o eram as alcovas, cujas muralhas do lado do norte estavam 
intactas, os
portugueses entrassem por um postigo, quando os francos no podiam entrar 
por uma
larga brecha? So coisas to admiravelmente insensatas que custa a perceber 
por que
ttulo semelhantes patranhas mereceram ser no s lembradas, mas ainda 
referidas como
factos correntes por um homem to grave e judicioso coma era Brando.
XXIV
CONFERNCIA DE CELANOVA
Reina a maior confuso entre os historiadores acerca do ano do casamento 
de.281
Fernando II e D. Urraca. Brando, Barbosa, Flores, Risco, seguem cada qual 
seu
parecer, fundando-se em diversas documentos, que, de feito, se excluem uns 
aos outros,
ao menos aparentemente. A confuso foi aumentada com os diplomas 
coligidos por J. P.
Ribeiro (Dissertaes Cronolgicas, T. 3, P. 1, n.os 479, 487, 490) em que D. 
Urraca
figura durante os anos de 1166 a 1169 como existindo na corte de seu pai, ao 
passo que
em outros deste mesmo perodo s aparecem D. Teresa e o prncipe D. 
Sancho. Flores
(Reynas Catlicas, T. 1, pp. 319 e as.) prova que D. Urraca devia casar antes 
de 1166,
por vrios documentos seguros em que ela  mencionada como rainha de 
Leo. Risco
atrasa o casamento a 1159, fundado num nico diploma.  certo, porm, que 
para
admitir a veracidade desse documenta seria necessrio que D. Urraca, de 
todos os filhas
de Afonso Henriques, fosse a primognita e nascida em 1147 e, ainda assim; 
teria
casado de doze anos.
Lucas de Tuy (Cronicon Mundi, na Hispnia Ilustrada, Vol. 4, p. 106) e Rodrigo
Ximenes (De Rebus Hispaniae, L. 7, c. 19) so concordes em falar deste 
casamento
coma precedendo a repovoao de Ciudad Rodrigo, a qual decerto no foi 
posterior a
1165. Veja-se Ferreras, Historia de Espaa, P. 5, p. 370.
Como conciliar o testemunho encontrado dos monumentos coevos? Nenhum
outro vemos, seno o de supor que se fizeram os esponsais primeiro e que a 
infanta,
ainda ento de menor idade, s veio a ser entregue ao marido em 1165. Locas 
de Tuy
assegura-nos positivamente que Fernanda II casara com D. Urraca para que o 
rei de
Portugal o favorecesse contra os seus inimigos: Ut ejus posset habere auxilia 
contra
impetus adversantium (loc. cit.). Sabemos que os dois prncipes tiveram uma
conferncia em Celanova no ano de 1160 (Manrique, Anales Cistercienses, T. 
1, p.
437), justamente na poca em que o rei leons comeava a realizar os seus 
projectos
acerca de Castela. Nada mais natural, portanto, do que atribuir  conferncia 
de
Celanova a aliana dos dais prncipes e os ajustes do casamento de D. Urraca.
De maior dificuldade parece o explicar a contradio dos documentos de Leia e
Castela com os de Portugal depois de se realizar o casamento, o qual sabemos 
com
certeza haver-se verificada em Junho de 1165 por um documento de Monte 
Ramo, cuja
frase parece tambm reforar a conjectura de haver antes disso esponsais: 
XVI kal.
julii era MCCIII, eo tempore quo domnus Fernandus accepit filiam regia
Portugalensium (Flores, Reynas Catlicas, T. 1, p. 322. Desde este tempo D. 
Urraca
figura em grande nmero de diplomas de seu marido, mas continua a aparecer 
em
alguns de seu pai. A soluo mais bvia dessa contradio aparente  que 
os notrios
portugueses, pelo hbito de mencionarem a infanta nos documentos, o fizeram 
uma ou
outra vez depois da sua partida. Esta conjectura evidencia-se da carta de couto 
de
Mides  s de Coimbra, carta que se diz feita com consenso filiorum 
meorum,
videlicet regia Sanctii et regine Orrace atque Tarasie, e todavia na inscrio 
do rodado,
que correspondia ento, como meio de autenticar os diplomas, s assinaturas 
modernas,
lem-se apenas os nomes de Sancho e Teresa (Livro Preto, f. 29).
No pargrafo a que esta se refere supusemos que em Celanova Fernanda II
procurou pr barreiras s rpidas conquistas de Afonso I, estabelecendo uma 
linha de
demarcao para elas.  indubitvel que esta demarcao existia poucos anos 
depois,
segundo o testemunho de Lucas de Tuy e Rodrigo Ximenes (Cronicon Mundi, 
p. 107;
De Rebus Hispaniae, L. 7, c. 23), sucedendo ao rei de Portugal o desastre de 
Badajoz
em consequncia de ter atacada aquela cidade, cuja conquista pertencia ao 
genro. No
havendo o menor vestgio de tratada anterior entre Portugal e Leo sobre 
semelhante
objecto, a mais natural  atribu-lo a conveno entre os dois prncipes, e esta 

conferncia de Celanova.
Existem dois documentos notveis que parece darem mais fora  nossa 
opinio e.282
que, pelo menos, indicam terem-se alterado as demarcaes das fronteiras 
entre
Portugal e Leo nos anos decorridos de 1154 a 1167, em que cai o de 1160 e a
conferncia dos dois prncipes. Numa certido autntica passada em 1353 
(Arquivo
Nacional, Gav. 1, Mao 1, n 12) se encontra: primeiro, a doao da vila de 
Maide sobre
o Aliste ao mosteiro de So Martinho de Castanheira, feita por Afonso I em 
1154;
segundo, a doao feita de novo por Fernando II ao mosteiro, em 1167, na qual 
alude 
do sogro: Mayde quam dederat vobis domnus Alfonsus rex portugallensis. 
Donde
parece concluir-se que as fronteiras orientais de Trs-os-Montes haviam 
recuado neste
meio tempo umas poucas de lguas.
XXV
CO-REGNCIA DO INFANTE SANCHO
Assentando a sua opinio num documento ou falso ou errado na data, Brando
sups a co-regncia de Sancho com seu pai nos ltimos anos da vida deste 
(Monarquia
Lusitana, L. 11, c. 33). Ribeira impugnou a existncia de semelhante facto com
argumentos que parecem bem pouco fortes (Dissertaes Cronolgicas, T. 1, 
pp. 30 e
as), sendo o principal a falta de referncia a esse facto nas documentos 
posteriores a ele.
Sem nos estribarmos no diploma em que o autor da Monarquia Lusitana 
fundamentou o
seu parecer, seguimos, todavia, este pelas seguintes razes.
 notvel que para resolver tal questo, tanta Brando como Ribeira se
esquecessem da passagem positiva e terminante que se lhes oferecia no 
relatrio da
trasladao de So Vicente, escrito por autor que ambos eles aceitaram coma 
coevo. Eis
aqui a passagem: Anno Domini 1173, regni autem regia Adefonsi 45, vitae 
veto
ejusdem anno 67, filio que regis ejusdem conregnante, 18 annorum 
adolescente
mirabiis indolis, etc. Daqui se torna evidente que a associao de Sancho ao 
governa j
se havia verificado em 1173, coisa fcil de crer pelas razes polticas 
ponderadas no
texto. Para destruir este testemunho positivo fora necessrio mais alguma 
coisa do que a
falta de declarao autntica do facto, a qual, na singeleza dos tempos, se 
julgaria
escusada, como parece tambm se julgara na ocasio, muita mais importante, 
de tomar
Afonso o ttulo de rei, acto de que nenhum documento especial nos resta.
Mas no  s isto. O prprio Ribeiro se lembra do foral de Pombal 
(Dissertaes
Cronolgicas, T. 3, P. 1, p. 160), dado por Gualdim Pais em 1174, em que se 
diz:
Regnante Domina Ildefonso portugalensi rege... et cum eo rege Saneia filio 
suo, o que
confirma inteiramente o relatrio da trasladao de So Vicente. Ao ilustre 
antiqurio
no ocorreu dvida alguma sobre este documento, considerando-o genuno, 
coma na
realidade . Acresce a escritura do mosteiro de Fies do ano de 1174 
(Sandoval, Iglesias
de Tuy, f. 137), em que se diz: Regnante m Portugallia rege Alfonso et ejus 
filio domno
Sancio, sedente Tude episcapo Beltrano. A doao a Garcia Mendes do 
Casal de
FeIgueiras feita em 1181 ainda , porventura, mais explcita: Alfansus Dei 
gratia
portugallensis rex... una com filio meo eadem gratia portugalense rege 
(Arquivo
Nacional, L. 2, de Alm-Douro, f. 159 v.) e no menos a concesso  ordem de 
vora
(Calatrava) do castelo de Coruche: Ego rex Alfonsus... concedente filio meo 
rege D.
Saneia, hanc cartam, etc. (era 1214, Arquivo Nacional, Gav. 4, Mao 1, n 17). 
Assim,
os diplomas posteriores a 1173 e anteriores  morte de Afonso I, acerca dos 
quais no se
der outro motivo de suspeio mais do que aludirem de algum moda  
autoridade real
do infante, longe de os rejeitarmos, consideramo-los como outras tantas provas 
em
abono da nossa opinio.
O figurar quase sempre Afonso I nas doaes daqueles ltimos tempos 
coma.283
principal e, talvez, nico doador no nos parece provar coisa alguma em 
contrrio. Era
uma forma de chancelaria assaz concilivel com a realidade da aco do 
infante nas
negcios pblicos, e tanto mais que no cremos que o velho monarca 
abandonasse todo
o poder a seu filho, mas sim que o fizesse participante dele.
XXVI
CONFIRMAO DO TTULO DE REI
A bula original da confirmao do ttulo de rei passada a favor de Afonso I 
acha-se
no Arquivo Nacional (Mao 16 de Bulas, n 20, e impressa com algumas 
inexaces
por Brando, e nas provas da Histria Genealgica. A substncia dela fica 
inserida no
texto; mas para se conhecerem, at onde  possvel, as circunstncias que 
concorreram
para se expedir aquele diploma cumpre recordar tambm as bulas e rescritos 
posteriores.
 comparando uns com outros que se pode chegar a concluir o que dissemos 
sobre esta
matria.
Pelos documentos que nos restam sobre a primeira oferta de censo  s 
apostlica
vimos que ela se limitara a quatro onas de ouro. Este censo, porm, no 
bastava para
que Roma concedesse o ttulo real, porque da bula de 1179 se deduz que o 
oferecimento
dos dois marcas precedeu e motivou a concesso: Pra ampliaria reverentiae 
argumento
statuisti duas marchas auri, annis singulis, nobis nostrique successoribus 
persolvendas
(ibid.). Alm do estabelecimento desta contribuio anual, Afonso enviou 
depois ao
papa mil morabitinos, oferecidos gratuitamente por uma vez.  o que consta de 
duas
cartas de Inocncio III a Sancho I (Babazio, Epistolrio de Inocncio III, L. 1, 
epstolas
99 e 448). Resolvida favoravelmente em Roma a pretenso de Afonso I, este 
prncipe,
ou por causa da guerra dos almadas que sobreveio, ou porque a sua devoo 
 s
apostlica no fosse to profunda coma Alexandre III insinuava na bula 
Manifestis
Probatum, nunca pagou os cem ureos anuais ou dois marcos que prometera 
(L. 1,
epstola 99), ao mesmo tempo que suspendeu o censo das quatro onas. Pelo 
meado de
1199, Sancho I enviou a Roma quinhentos e quatro morabitinos em pagamento 
do dito
censo, devido desde o terceira concilio lateranense (Maro de 1179) at aquele 
tempo,
isto , vinte anos e alguns meses e dias (L. 1, epstola 448). A poca deste 
pagamento
no consta da carta de Inocncio III; mas inferimo-la da soma de quinhentos e 
quatro
morabitinos, supondo que as quatro onas correspondessem a vinte e cinco 
daquelas
moedas: isto  a libra rgia de dezasseis onas a cem e o marca a cinquenta. 
Recebeu
Inocncia esta soma, mas insistiu em que se lhe deviam os cem ureos anuais 
desde
1179, conta na verdade curiosa, da qual se v que o papa tomava as 
promessas de
Afonso Henriques no sentida mais lata possvel, pretendendo acumular os dois 
censos.
Essa questo era antiga; mas fora tratada anteriormente de diverso modo. 
Celestino III
quisera compelir Sancho I a pagar os cem ureos anuais devidos desde o 
aumento do
censo; mas o rei de Portugal redarguira que seu pai dera ao papa mil ureos 
equivalentes
 contribuio de dez anos, os quais ainda no tinham decorrido (ibid., epstola 
99). A
notcia da ddiva dos mil ureos chegou por este meio at ns, e daquela 
notcia se
colhe que esta soma fora oferecida nos ltimos dias de Alexandre III (falecido 
em
Agosto de 1181), porque alis no primeiro ano do pontificado de Celestina III 
(eleita em
Maro de 1191), ainda supondo que este papa tratasse imediatamente do 
negcio,
estariam findas os dez anos. No insistiu Celestino, segundo parece; mas 
Inocncio III
apenas subiu ao slio pontifcio renovou a exigncia, declarando ao rei de 
Portugal que
os mil ureos tinham sido uma simples liberalidade de Afonso I: Non pra 
censo, sed ex
devotione, quam ad eum habebat, liberaliter contulisset (ibid.). Apesar das 
ameaas.284
com que terminava a carta do papa, v-se que Sancho resistiu quase dois anos 
e que no
fim deles s queria pagar o censo oferecida no tempo de Lcio II, isto , as 
quatro onas
anuais. Mas, cansado talvez de lutar contra o tenaz Inocncia, ele entregou o 
negcio 
conscincia do papa, que o resolveu enviando-lhe pela legada Rainerio a carta 
que
Afonso I escrevera a Alexandre III com os mil ureos, da qual se via que estes 
haviam
sida um dom gratuito.  vista da carta, Sancho pagou provavelmente o que se 
lhe pedia,
porque no consta que Inocncia tornasse a escrever sobre isto. Em tal 
pressuposto, a
confirmao do ttulo de rei a Afonso Henriques custou a Portugal, pelo menos, 
trs mil
e quinhentos morabitinos.
Advertimos em ltima lugar que nos documentos relativos a este negcio a 
moeda
de que se fala  a dos ureos ou bizncios, nome que se dava geralmente 
na Europa
no s ao dinheiro de ouro cunhado em Constantinopla (Bizncio), mas 
tambm aos
morabitinas ou dobras dos sarracenos (Ducange, verbete Byzantius). Destes 
mesmos
documentos se conhece que cinquenta deles faziam um marco. Assim a soma 
recebida
de Sancho I pelo papa em consequncia da concesso de Alexandre III 
equivaleria hoje
a, pouco mais ou menos, oito mil ris e o censo anual a duzentos e trinta ris.
XXVII
CASAMENTO DA INFANTA D. TERESA
Brando refere o casamento de D. Teresa depois do cerco de Santarm, 
supondo a
partida da infanta posterior a este sucesso. Ns preferimos relat-la antes, 
porque nos
parece que a vinda da armada de Flandres e a sua viagem para a Rochela 
precederam
aquele famoso cerco. Em qualquer das hipteses, os dois factos so quase 
paralelos, e a
matria no vale a pena de largas discusses.
Sabemos que a celebrao do casamento se verificou em Agosto (Genealog.
Comit. Flandriae, apud Martene, T. 3, p. 391). Chegar  Flandres a notcia de 
que
Afonso I acedia aos desejos de Filipe, preparar-se a armada, vir a Portugal, 
embarcar a
infanta com os ricos presentes que o rei fazia a sua filha e genro, partir a frota e 
chegar a
Rochela, e dali caminhar por terra a princesa at chegar  Flandres so 
acontecimentos
que no podiam gastar menos de dois ou trs meses numa poca de 
navegao
imperfeitssima e de difcil trnsito por terra. Assim o negcio do casamento 
devia estar
resolvido em Abril ou Maio, e a vinda da armada flamenga seguir-se-ia 
imediatamente.
Segundo o testemunho, nesta parte uniforme, das memrias crists e 
muulmanas, 
indubitvel que a entrada dos almadas s se verificou pelos fins de Junho, e o 
cerca de
Santarm durou, pouco mais ou menos, um ms, isto , at os fins de Julho. 
No meio de
to graves acontecimentos no  crvel que se tratasse da partida da infanta, e 
por isso
entendemos que este facto era j passado naquela conjuntura..285
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Obra digitalizada e revista por Deolinda Rodrigues Cabrera a partir da edio 
de
1876. Actualizou-se a grafia.
 Projecto Vercial, 2000
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